OS PENSADORES
XI
So E
MICHEL DE MONTAIGNE
ENSAIO
Tradução de SERGIO MILLIET
My.
EC AS
EDITOR: VICTOR CIVITA
Título original:
Essais
1.º edição — Novembro 1972
e - Copyright desta edição, 1972,
Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo.
Tradução publicada sob licença da
Editora Globo S.A., Porto Alegre.
| SUMÁRIO
| s
l
| Livro Primeiro
DO FUROR AO LENEOR QuaM ice UR RR SU DR EAR E A e ER 1H
Cap. I — Por diversos meios chega-se ao mesmo fim ...ccccccccc. 13
CAP JE Da misteza ils sus Dea DR ARS DAE E o o AU SUA 15
CAR TU DocnossosOdios E aleicoes attas Lou aura ia dd e a SE ds 16
Cap. IV — De como a alma que carece de objetivo para as suas paixões
ASsmanie sta ainda quigi dO aC a sÓ lar minto fer papa Re 5 o 20
Cap. V — Deve o comandante de uma praça sitiada sair para parlamen-
EGO leais AR A porto REA DR es REA DO RN PP PD 2]
CAP NI Ahora das neaocI ações E PerigÓsa sa ta aplbngro aco rfp o 23
Caro VI As ações julcam-se pelas INLCNÇÕES: «bras eai Eai o 24
CAR =D po cosidaido e mah q RD A Aa RS 25
CAP. IX DOS MEntiosOS qua Ela ara as ps aa aa RR AR auge 25
Cap. X — Dos que improvisam e dos que se preparam para falar ...... 28
Cap. XI — Dos prognósticos ....... ERR TR RED pr Ra ER aa 29
ESAmE NI = AD asperse Verano esmas SA Do O A o Trail gate UA a A EO da 31
CAP NI Cermonial das entrevistas reais: «ups ns Ra o sec ae 32
Cap. XIV — O bem e o mal só o são, as mais das vezes, pela idéia que
EQICS LEMOS esa ras vaga qa ea TR ME STR Ta nc NO o de LU PO ur 33
Cap. XV — Merecedor de punição é quem defende-uma praça forte além
dO SraLOaNEL Tres e ne q id PARA ONDA CER a SR ae 2
CAR Vie ACO MaRGAstO ra qua ii ao SS ARDE NO Rr CEA a q aa 43
Cap. XVII — Maneira de agir de alguns embaixadores ...ccccccc. 44
CRP CV be Amed O ds ares ele aço pa Rad PE rare RE RO 45
Cap. XIX — Scmente depois da morte podemos julgar se fomos felizes ou
infelizes era vida ce a Ss a De PESE ur SÃO no ear 47
CAP. XX — De como filosofar é aprender amorrer ........ccccc.. 48
EAD RM = A forçada iimASiNação, Gas A tie ia EA Ne Dl E
Cap. XXII — De como o que beneficia um prejudica outro .......... 60
CAP. XXIII — Dos costumes e da inconveniência de mudar sem maiores
CdAdOS ASCISCMLNALOR E pus ee Sis A to poda RE RR 61
Cap. XXIV — Uma mesma linha de conduta pode levar a resultados
EL GC RIOS qe pao Ro SAS RO ul A E PRQ RC O ara Rs RR pe 69
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- XXV — Pedantismo ........... RAE RO COD pe eg DER POR A
SD v = Da educaçao das crianças pr aa des Hei a A ue AS
- XXVII — Da loucura de opinar acerca do verdadeiro e do falso uni-
camente-de acordo COM ATAZAO Lai RS a Es ERRO AN RA e
My EE A Am ade us o a Ag Rn da ASS ca A Pd
. XXIX — Capítulo dos sonetos, não incluídos nesta edição ......
o MR A O ERA AO mon ea aro eai pu Co Rd ni a A q
A | == O OSC ANA DA LSD Sol to eo caga O a A Ta IS DR
- XXXIH — De como é preciso prudência no julgar os desígnios da
PrONIJOCHC doa em e SR SR a a Sd O 2 DO SRD o SR PA
. XXXII — Devemos fugir da volúpia ainda que nos custe a vida
. XXXIV — Não raro a sortena razão se apóia .....cccccccc.
- XXXV — Uma lacuna de nossa administração ....cccccccc.
E RR =D On ADILO- dese VESTIR nu anne pra ADA DU RD Rn
E EC NTSC ALdOrO ONCE. dera Neo Se GE RP Do a e ep DR
. XXXVI —- Como uma mesma coisa nos faz rire chorar .......
E SO Apa SI er sejbia Lito pda a a ao AIRE DR TU PRN DS RO RA
“er =Consideraçoes acerca de CACO. ras SR RES Sra
. XLI— O homem não cede a outrem a glória que conquistou .....
- XLII — Da desigualdade entre os homens ...cccccccclccc
a ep Das leis SumAÇIAS! 1 me e bu abs a dada pe dl ga Rc et da
Re ND SOTO (A ty a aeb aço RD ED AD DR E AD
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MEME Dasncerteza dos nossos quiZzos asse pra
EN TI Dos cavalos de Snes ars ss aa ET carga Cala Nes
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E Sobre Demoento EIGracIO qu amo sie RES La e tac GU, Sa
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Pav e ADOS OU ONCS o Run or dane do CU O pra Jide pie E e ASR RARO 7 SS
MEVE Das orações sinta urso nai E ao DA ce A ND ag
ev RACE E a a a 2 2 RD Ci DAR A a DA RI AR E
Livro Segundo
» | == Da incoerência das Nossas AÇÕES «usuais ais Danda ad
SAAB) areia Draco a E aro relata oi uraRa Dio dns ET LOM RR PSD PRE
- HI — A propósito de um costume da Ilha de Ceos .....ccccc..
Car.
CAP.
A a Dio co ceiro foiTo pe NDA a O RU NR TOR ES PRO RN RR
CAP.
CapP.
CAP.
- X — Dos livros
IV — Fiquem pata amanha Os NegÓCios Luc .guda pis saia aaa
VD ACO NSCICINCIA! mis dci DES co anda ug Da Be Po UV
VE = Das recompensas Nononticas «casi subs a cana e ee
VIII — Da afeição dos pais pelos filhos
IX — As armas dos partos
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
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CAP.
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CAP...
CAP.
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CAP.
Car.
CAP.
CAP.
CAP.
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CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CAP.
CapP.
Xp Da crueldade: «ud ear fa AE E qe qa DP o e ça
'XI — Apologia de Raymond Sebond ......ccccccccccc
MIT De comoquigara mortes drum pe ade dg pe SO a a
XIV — Como o nosso espírito cria suas próprias dificuldades ....
XV — Nosso desejo cresce com a dificuldade ....cccccicc
DRA A O pe io (6 jo Ee RR RR GAR RO ROS DR RR e
XVII — Da presunção ........... PA ag RD a e E
sy = OCS MEN LIdO-A Ss capas rede cr iniro pas is arte ras 2 pn
“XIX — Da liberdade de consciência ...... RR Ro NR NE
iXX — Nada apreciamos inteiramente puro .....ccciccccccc.
RO = [Dan O CNC] As À Secad ae o ut OR de qa be a RD Cia RR
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RATES Dosmelose dos ans Paint o ND iai à e da
DOM Iy == [a srandeza FOMAIa ess si ur sanE Ih ger Up MEN Sea
'XRV — Da inconveniência de fingir de doente .......cccc....
e vd A DOSPOlCE Ares Dura dead nos doi parado So A TUR Mo o P ÃO ea RU dp
XXVII — A covardia é mãe da crueldade ......ccccccc.
XXVIII — Cada coisa a seutempo ....cccccccccccccc
DCD US RO Aa ape RD REAR E ER US a
XXX — A propósito de uma criança monstruosa ....cccccc.
E = A CONCI AS aee en O RR pra ea PE e SR
EX ROC == Defesa de-Seneca e Piutalco ce se se a
Peel Elistor jarderE spunina 20 nas DDS ma a mn
XKXIV — Observações acerca dos meios que Júlio César punha em
SDRAtiGaa DUCIIAM «uq fobia AME RUE AR GS aro da DR Os SR PER TRA é VÓ
A a e res od SINE TES Sa aa oca ei anda sd PR do
RAM VI Dos homens Preemineêntes: sia as REA DO DEEM ADA
XXXVII — Da semelhança dos filhos com os pais .......cc..
Livro Terceiro
[Dont cido Nones tora ces o pe e E E RS RIR A AS
DE Don ependimento Cos Soa PER O die Sn ue RU ar
UI — Da companhia dos homens, das mulheres e dos livros .....
IV — Dadiversão ....cccccc. DE o JR DP DA RR
ENA TODOS MO e MIL BU Dist dra o e RO Sa E ES a
EV DON COChes? Bros nao Ea diabo A AD De dc do ER
VI Dos nconvenentes das prandezasS uu ipanema a é
VD ararte de CONVERSA Cai qa e O a
[X== Davaldade: actas RA q NR RS RR ROB ADR O UU q
X — Do domínio da própria vontade ........... DEAR e
DESA DOS ONO: 4 (Sus UR a En id RS po PS e DR DR fg DT
XII — Da fisionomia ..cccccc. Ao Fte qu dan RS RD san
CCT D CR PONCIANO quis aire eis cin LÓ ua E SUR AR
Nota do tradutor
Tendo sido feita a tradução em linguagem atualizada dos Ensaios, de confor-
midade com o texto da edição da Pléiade, confrontado com o texto anotado pelo
General Michaut, e, somente bem mais tarde, a dos estudos de Pierre Moreau,
Pierre Villey e Maurice Weiler, nem sempre coincide literalmente com as cita-
ções desses autores a versão portuguesa. São elas, entretanto, inteiramente fiéis
ao espírito senão à letra do texto original. O leitor não terá dificuldade em identi-
ficá-las, quando necessário.
S.M.
LIVRO |
DO AUTOR AO LEITOR
Eis aqui, leitor, um livro de boa-fé.
Adverte-o ele de início que só o escrevi para mim mesmo, e alguns íntimos,
sem me preocupar com o interesse que poderia ter para ti, nem pensar na posteri-
dade. Tão ambiciosos objetivos estão acima de minhas forças. Votei-o em parti-
cular a meus parentes e amigos e isso a fim de que, quando eu não for mais deste
mundo (o que em breve acontecerá), possam nele encontrar alguns traços de meu
caráter e de minhas idéias e assim conservem mais inteiro e vivo o conhecimento
que de mim tiveram. Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfei-
tado e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor
efeito. Prefiro, porém, que me vejam na minha simplicidade natural, sem artifício
de nenhuma espécie, porquanto é a mim mesmo que pinto. Vivos se exibirão
meus defeitos e todos me verão na minha ingenuidade fisica e moral, pelo menos
enquanto o permiir a conveniência. Se tivesse nascido entre essa gente de quem
se diz viver ainda na doce liberdade das primitivas leis da natureza, asseguro-te
que de bom grado me pintaria por inteiro e nu.
Assim, leitor, sou eu mesmo a matéria deste livro, o que será talvez razão sufi-
ciente para que não empregues teus lazeres em assunto tão fútil e de tão mínima
importância.
E agora, que Deus o proteja*. De Montaigne, em primeiro de março de 1580.
*“ A frase pode prestar-se a confusão. No texto original diz-se: A Dieu donc — o que o General Michaut
interpreta: Sur ce, à la grãáce de Dieu.
Trata-se do destino do livro e pareceu-me melhor esclarecê-lo. (N. do T)
| ci
E Ro
CAPÍTULO 1
Por diversos meios chega-se ao mesmo fim
A maneira mais comum de amolecer o cora-
ção dos que nos ofendem, quando, vingança
em mãos, eles nos têm à sua mercê, é comovê-
los pela nossa submissão; inspirando-lhes
comiseração e piedade. Entretanto a bravura, a
tenacidade e a resolução, meios inteiramente
opostos, alcançam às vezes idêntico resultado.
Eduardo, Principe de Gales, que durante
tanto tempo governou a nossa Guyenne! e per-
sonagem cujos atos e carreira revelam muita
magnitude, tendo-se apoderado pela força de
Limoges, ordenara o massacre dos habitantes
que o haviam gravemente ofendido. Cami-
nhava ele pela cidade sem que os gritos dos
homens, mulheres e crianças assim condena-
dos à morte lhe.amolecessem a alma, quando
deparou com três fidalgos franceses que, sozi-
.nhos, e com incrível ousadia, enfrentavam o
exército vitorioso. Essa coragem inspirou-lhe
tal consideração e respeito, que subitamente se
lhe acalmou a cólera; e o perdão que de ime-
diato concedeu aos temerários, ele o estendeu
aos demais habitantes da cidade.
Scanderberg, Principe do Epiro, perseguia
um de seus soldados com a intenção de matá-
lo. Este, depois de ter tentado em vão acalmá-
lo com protestos de toda espécie e. as mais
humildes súplicas, resolveu, em desespero de
causa, esperá-lo de espada na mão. O gesto
resoluto freou instantaneamente a exasperação
do senhor, o qual, ao ver tão honrosa atitude,
outorgou mercê ao perseguido. O exemplo é
suscetível de ser interpretado de outra maneira,
mas tão-somente por quem ignore a força pro-
digiosa e a valentia desse principe,
O Imperador Conrado Ill, assediando o
Duque da Baviera, não consentira em deixar
sair da cidade senão as mulheres dos fidalgos
que ali se encontravam. Comprometera-se a
respeitar-lhes a honra mas à condição de sai-
1 Não confundir com Guiana. Aqui Montaigne
se refere à província francesa. (N. do T.)
rem a pé e levando apenas, com elas, o que
pudessem carregar; e recusara-se a atenuar tais
condições, por mais humilhantes que fossem
as satisfações oferecidas pelo inimigo. Aten-
tando unicamente para os ditames do coração,
lembraram-se as mulheres de levar às costas os
maridos, os filhos e o próprio duque. Impres-
sjonou-se o Imperador a tal ponto com essa
prova dê coragem que chegou a chorar de
emoção. O ódio mortal que votara ao duque,
cuja desgraça desejava, tornou-se menos vio-
lento € a partir desse momento ele o tratou, e
aos seus, com humanidade.
Ambos os meios dariam resultado comigo,
pois tenho grande propensão para a miseri-
córdia e a benevolência. Entretanto, acho que
cederia mais facilmente ainda pela compaixão
do que pela admiração, embora a piedade seja
considerada paixão condenável pelos estóicos,
os quais admitem que socorramos os aflitos
mas não que nos enterneçamos ante o sofri-
mento ou dele nos compadeçamos. Os exem-
plos que precedem parecem-me sublinhar me-
lhor a realidade das coisas. Mostram-nos a
alma em luta com estes dois sentimentos
contrários: resistir a um sem dobrar e ceder ao
outro. Isso se explica se admitimos que entre-
gar-se à piedade é mais fácil e característico
dos corações bondosos e pouco enérgicos. As
pessoas mais fracas, como as mulheres, as
crianças e a gente do povo, a tanto são levadas
habitualmente. Ao passo que não se deixar
enternecer pelas lágrimas e súplicas e atentar
somente para as provas manifestas de indiscu-
tível coragem, é peculiar às almas bem tempe-
radas, que apreciam e honram os caracteres
enérgicos e tenazes.
Entretanto, espanto e admiração podem
produzir semelhantes efeitos nas naturezas
menos generosas; haja vista o povo de Tebas
que, chamado a julgar no processo intentado
contra os capitães de seus exércitos, por se
terem mantido nos cargos além do tempo em
14 MONTAIGNE
que deviam ocupá-los, com dificuldade absol-
veu Pelópidas, deprimido pela acusação e não
sabendo defender-se senão com lamentações e
súplicas, enquanto, ao contrário, diante de
Epaminondas — que, depois de expor em ter-
mos exaltados os atos de seu comando, pôs-se,
cabeça erguida e verbo sarcástico, a censurar
ao povo sua ingratidão — a assembléia, toma-
da de admiração por homem de tão bela cora-
gem, dispersou-se sem ir ao escrutínio.
Dionísio, tirano de Siracusa, tendo-se apo-
derado, após longo e difícil assédio, da cidade
de Reggio e com ela de Phyton, homem de
grande virtude que comandara a obstinada
defesa, quis vingar-se de maneira que viesse a
constituir um exemplo. Antes de mais nada
comunicou-lhe ter mandado afogar o filho e
seus demais parentes, ao que Phyton respon-
deu apenas que tinham sido mais felizes, por
um dia, do que ele próprio. Dionísio entregou-
o então aos carrascos que o despojaram de
suas roupas e o arrastaram pela cidade,
vergastando-o ignominiosamente e o acabru-
nhando com as mais brutais e cruéis injúrias.
Phyton, conservando presença de espírito e
coragem, não afrouxa, continuando a vanglo-
riar-se em voz alta de sua honrosa e gloriosa
defesa, causa de sua próxima morte e prova de
que não quisera entregar sua pátria ao tirano,
ao qual ameaça com a punição dos deuses.
Lendo nos olhos da maioria dos soldados que
estes, em vez de se irritarem com as bravatas,
eram levados a desprezar seu próprio chefe e a
depreciar a vitória, e, espantados com tama-
nha coragem, se iam comovendo e já resmun-
gavam, falando mesmo de arrancar Phyton
das mãos dos carrascos, Denis pôs fim ao mar-
trio, mandando jogá-lo às escondidas no
mar?.
Em verdade o homem é de natureza muito
pouco definida, estranhamente desigual e di-
verso. Dificilmente o julgariamos de maneira
decidida e uniforme. Eis Pompeu que perdoa
toda a cidade dos Marmentinos? contra a qual
estava muito irritado, por consideração para
com a virtude e a grandeza de alma de Zenão
que reivindicava e solicitava ser castigado
sozinho. No entanto, em semelhante circuns-
tância, em Pérusa, o hospedeiro de Sila nada
obteve, nem para si mesmo nem para os
"outros. E contra meus primeiros exemplos
vemos Alexandre, o homem mais denodado
que jamais houve e tão magnânimo com os
vencidos, agir de modo bem diferente em
2 Deodoro de Sicília. História tirada da tradu-
ção de Amyot.
3 Habitantes de Brescia (Lombardia).
Gaza, conquistada após numerosas e grandes
dificuldades, contra Bétis que comandava a
praça e que durante o sítio dera provas de bri-
lhante coragem. Encontrando-o só, abando-
nado pelos seus, de armas partidás e coberto
de sangue a lutar ainda no meio de um punha-
do de macedônios que o atacavam de todos os
lados, Alexandre, vivamente afetado por uma
vitória tão caramente paga (entre outros pre-
juízos recebera ele próprio dois ferimentos),
disse-lhe: “Não morrerás como o ambicionas,
Bétis; fica certo de que antes sofrerás os mais
cruéis tormentos que se inventam contra um
cativo”. Nada respondendo Bétis à ameaça,
antes tomando uma atitude de altivez e desa-
fio, Alexandre, diante do silêncio orgulhoso e
obstinado, exclamou: “Não dobrou sequer o
joelho! Não fez sequer um pedido! Pois eu
acabarei com esse mutismo e, se não puder
arrancar-lhe uma palavra, conseguirei pelo
menos um gemido!” * E, passando da cólera à
raiva, mandou furar-lhe os calcanhares e
amarrá-lo ainda em vida a um carro para que,
assim arrastado, se fizesse em pedaços. Qual
terá sido o móvel dessa crueldade em Alexan-
dre? Uma tal coragem terá parecido natural e
pouco digna de apreço em quem também a
possuía em alto grau? Ou não podia ele ver em
outros sem inveja a sua própria qualidade? Ou
não era capaz de dominar-se diante de um obs-
táculo à sua cólera? O fato é que, se fosse
capaz de domínio sobre si mesmo, tê-lo-ia
exercido por ocasião da tomada e saque de
Tebas, onde tantos valentes guerreiros, cuja
resistência se desmantelara, foram passados
pelo fio da espada, assim morrendo seis mil,
dos quais nenhum se viu fugir ou rogar mercê.
Ao contrário, andavam todos pelas ruas a
enfrentarem os vencedores, forçando-os a
matar em condições honrosas. Não se viu
nenhum, por mais crivado de ferimentos esti-
vesse, que não tentasse ainda vingar-se. No seu
desespero, tudo lhes servia de arma, consolan-
do-se da própria morte com a morte de alguns
de seus inimigos. Essa coragem infeliz |não
acordou, entretanto, em Alexandre, nenhuma
piedade; eum dia inteiro de carnificina não
bastou para estancar-lhe a sede de vingança. O
massacre não findou senão quando acabaram
as vítimas. E somente as pessoas incapazes de
carregar armas, mulheres e crianças, foram
poupadas, sendo, em número de trinta mil,
reduzidas a escravos *.
3 Quinto Cúrcio, IV, 6. |
8 Deodoro de Sicília. |
|
t
ENSAIOS —I 15
CAPÍTULO II
Da tristeza
Sou dos que menos sentem essa disposição
de espirito *; não a aprecio nem a valorizo, em-
bora de um modo geral, e preconceituo-
samente, os homens a respeitem e estimem.
Com ela enfeitam a sabedoria, a virtude, a
consciência, mas o -adorno é pobre e feio. Os
italianos com muito mais razão deram seu
nome à maldade”, pois ela é sempre nociva,
sempre insensata, e também covarde e despre-
zível: Os estóicos a proíbem aos sábios.
Diz-nos a história” que Psametico, rei do
Egito vencido por Cambises, rei da Pérsia,
vendo passar a filha, como ele próprio cativa, e
que ia buscar água vestida de serva, permane-
ceu mudo, olhos voltados para o chão,
enquanto choravam todos os seus amigos.
Vendo logo depois o filho, que conduziam
para a morte, conservou a mesma atitude. No
entanto, diante de um criado que levavam à
tortura, juntamente com outros prisioneiros,
pôs-se a golpear a cabeça demonstrando extre-
ma aflição.
Pode-se comparar esse fato ao que ocorreu
recentemente com um de nossos príncipes, o
qual recebeu em Trento a notícia da morte do
irmão mais velho, sustentáculo da honra e da
manutenção da família. Logo depois sabia do
falecimento do segundo irmão para o qual,
desaparecido o primeiro, voltavam todas as
esperanças. Ambas as desgraças ele as supor-
tou com coragem exemplar. Eis que dias mais
tarde vem a morrer um dos seus amigos”, ao
s No texto: “paixão”. O dicionário de Hatzfeld e
Darmesteter assinala entretanto o sentido do
“sofrimento”, tirando o exemplo do próprio Mon-
taigne. Pareceu-nos melhor tradução “disposição de
espírito”, adotada por Michaut. (N. do T.)
7 Malignité — no original, o que significa na lin-
guagem arcaica — disposição para fazer o mal.
Quanto à palavra italiana a que alude Montaigne,
há confusão. Trata-se não de “tristezza” mas de
“tristizia” para a qual o dicionário de Petrocchi
consigna o sentido de “ignomínia”. (N. do T.)
8 Heródoto.
9 No texto “domestiques”, palavra que tinha
então o sentido de amigo da casa. (N. do T.)
que não pôde resistir. Sua resolução o aban-
dona e ele se desfaz em lágrimas e lamenta-
ções, a ponto de observarem que somente ao
último acontecimento se mostrara realmente
sensível. Na verdade a medida estava cheia e
uma coisa de nonada bastara para abater-lhe a
energia e provocar um transbordamento de
tristeza. Poder-se-ia, creio, assim explicar
igualmente a atitude de Psametico, se não
acrescentasse a história que Cambises, tendo-
lhe perguntado por que motivo ele, que tão
pouco se mostrara perturbado com a infelici-
dade da filha e do filho, tanto se afetara ante a
de um amigo, recebeu esta resposta: “É que só
esta última tristeza é suscetível de se exprimir
por lágrimas; a dor sofrida nos dois primeiros
casos estã além de qualquer expressão.”
A propósito, vem-me à memória o caso
daquele pintor antigo!º que, no sacrifício de
Ifigênia, teve de representar o sofrimento dos
diversos personagens segundo o grau de inte-
resse que cada um votava à bela e inocente
Jovem, e que ao chegar ao pai da virgem já
havia esgotado todos os recursos de sua arte.
Diante da impossibilidade de dar-lhe uma ati-
tude em relação com a intensidade da dor, pin-
tou-o de rosto coberto, como se nenhuma
expressão pudesse ilustrar semelhante desespe-
ro. Eis por que os poetas imaginam a miserá-
vel Niobé, que depois de perder seus sete filhos
viu morrerem as sete filhas, transmudada em
rochedo pela sobrecarga de desventura:
“petrificada pela dor?'?, a fim de exprimir
essa espécie de embrutecimento sombrio,
surdo e mudo que se apodera de nós quando as
ocorrências nos esmagam ultrapassando o que
nos é dado suportar. E, efetivamente, uma dor
excessiva, exatamente porque excessiva, deve
estupidificar a alma a ponto de paralisar qual-
quer gesto, como acontece quando recebemos
inesperadamente uma péssima notícia. Somos
tomados de espanto, penetrados de pavor ou
de aflição e como tolhidos em nossos movi-
mentos até que à prostração suceda o relaxa-
10 Cicero.
11 Ovídio.
16.07 | MONTAIGNE
mento. Surdem então as lágrimas e os lamen-
tos que aliviam a alma e como que lhe
permitem mover-se mais à vontade: “é com
dificuldade: que afinal recupera a voz e pode
exprimir sua dor” 2.
Durante a guerra do Rei Fernando contra o
rei da Hungria perto de Buda!'º um dos guer-
reiros mostrou-se particularmente valente nos
combates que se verificaram. Ninguém o reco-
nhecera e todos o elogiavam e lhe lamentavam
a sorte porquanto sucumbira na refrega. E nin-
guém mais do que um Sr. de Raisciac, fidalgo
alemão, o engrandecia, entusiasmado com tão
rara coragem. Recolhido o corpo, Raisciac
aproximou-se como os demais para ver quem
“era, e ao lhe tirarem a armadura reconheceu o
filho. A emoção dos presentes aumentou mais
ainda; só ele permaneceu impassível, sem dizer
palavra, sem pestanejar, de pé, contemplando
fixamente o corpo até que a violência da dor
tendo atingido o próprio princípio da vida o
derrubasse para sempre. “Quem pode dizer a
que ponto arde, arde bem pouco”! *, dizem os
amantes que querem exprimir insuportável pai-
xão ou: “Quão miserável sou! O amor pertur-
ba-me os sentidos. À tua vista, ó Lésbia, perco
a razão. Falar estã acima de minhas forças,
minha língua engrola, uma chama sutil percor-
re-me as veias, mil ruídos confusos soam-me
aos ouvidos e o véu da noite estende-se sobre
os meus olhos! º.º
Não é no auge de nossos transportes quando
nos ferve o sangue nas veias que somos mais
capazes de encontrar o tom que comove e per-
suade. Nesses momentos a alma está por de-
mais absorvida em seus pensamentos, o corpo
12 Virgílio.
13 Budapeste.
14 Petrarca.
15 Catulo.
demasiado abatido e lânguido de amor; daí,
por vezes, a inesperada e fortuita impotência
que surpreende o amante tão fora de propó-
sito; daí esse gelo que o envolve, em virtude do
extremo ardor, na própria fonte de seu gozo. A
paixão que se deixa saborear e digerir mal me-
rece ser assim nomeada. “Os prazeres leves
são loquazes, as grandes paixões silencio-
sas! 8
Da mesma forma nos comove a surpresa de
um prazer inesperado: “Logo ao ver-me, ao
perceber de todos os lados as armas de Tróia,
fora de si, como golpeada por pavorosa visão,
se imobiliza. Seu sangue gela, desmaia e só
muito tempo depois pode enfim falar! 7.”
Além daquela romana que morreu de ale-
gria ao ver o filho escapar da derrota de
Canes; além de Sófocles e Dionísio, o tirano,
que também morreram de alegria ao receberem
uma boa notícia; e Talma que faleceu na Cór-
sega ao saber das honras que o Senado de
Roma lhe conferira; vimos neste século o Papa
Leão X que, ao ter notícia da tomada de
Milão, tão ardentemente desejada, experi-
mentou tal carga de alegria que a febre o assal-
tou, levando-o à morte. E mais um testemunho
comprovador da fraqueza humana tirado dos
antigos: Deodoro, o dialético, vendo-se em
suas aulas públicas incapaz, de repente, de res-
ponder às objeções que. lhe faziam, sentiu
tamanha vergonha que morreu na hora. Quan-
to a mim, sou pouco predisposto a essas pai-
x0es violentas; tenho uma sensibilidade” 8
naturalmente grosseira e a torno mais espessa
ainda e empedernida mediante raciocínios
diários.
18 Sêneca.
17 Virpílio.
18 “Apprehension” tanto pode ser compreensão
(faculdade de entender), como sensibilidade
(faculdade de sentir). (N. do T.) ;
CapíruLo HI -
Dos nossos ódios e afeições |
Os que censuram aos homens sempre se
preocuparem com as coisas futuras e nos ensi-
nam a gozar os bens presentes, e com eles nos
contentarmos, observando que não mandamos
no que está por vir, talvez, menos ainda do que
no passado, referem-se ao mais corriqueiro dos
erros humanos, se é que se pode chamar erro a
essa tendência que, embora a ela sejamos
impelidos pela própria natureza no afã da
continuidade de sua obra, falseia a nossa
t
t
DS O A ia ie —
ENSAIOS— I 17
imaginação, mais exigente de ação que de ciên-
cia, ainda que ignoremos aonde nos leva.
Nunca estamos em nós; estamos sempre além.
O temor, o desejo, a esperança jogam-nos sem-
pre para o futuro, sonegando-nos o sentimento
e o exame do que é, para distrair-nos com o
que será, embora então já não sejamos mais.
“Todo espírito preocupado com o futuro é
infeliz ! 9.”
“Faze aquilo para que és feito e conhece-te a
ti mesmo”, eis um grande preceito amiúde cita-
do em'Platão. E cada um dos membros dessa
proposição já nos aponta nosso dever, e traz
em si o outro. Quem se aplicasse em fazer
aquilo para que é feito perceberia que lhe é
necessário adquirir antes de mais nada O
conhecimento de si próprio e daquilo a que
estã apto. E quem se conhece não erra acerca
de sua capacidade, porque se aprecia a si
mesmo e procura melhorar, recusando as ocu-
pações supérfluas, os pensamentos e os proje-
tos inúteis. Da mesma forma que a loucura
não se satisfaz ainda que cedamos a seus dese-
Jos, a sabedoria, sempre satisfeita com o pre-
sente, nunca se descompraz consigo mesma. A'
ponto de Epicuro considerar que nem a previ-
dência nem a preocupação com o futuro são
peculiares ao sábio.
Entre as leis relativas ao homem depois da
morte, das mais justificáveis se me afigura a
que submete as ações dos príncipes a um julga-
mento póstumo?º. Os príncipes com efeito
devem submeter-se às leis, pois não pairam
acima delas. E por não poder a justiça nada
contra eles, quando vivos, natural me parece
que ao desaparecerem deva ela agir sôbre sua
reputação e os bens legados, coisas que não
raro preferimos à vida. É um uso que não acar-
reta senão vantagens às nações que o adotam.
E os bons príncipes; que poderiam queixar-se
de ver tratada: a memória dos maus como a
sua, hão de desejá-lo. Devemos disciplina e
obediência aos reis, bons ou maus; isso é indis-
pensável para que desempenhem seu papel.
Mas nossa estima e nossa afeição, não lhas
devemos, a não ser que as mereçam. Admita-
mos que as necessidades políticas nos obri-
guem a suportâ-los com paciência por mais
que sejam indignos, a dissimular-lhes os vícios,
a endossar-lhes os atos quaisquer que sejam,
na medida de nossas forças e desde que de tal.
endosso necessite a sua autoridade. Mas, cum-
prindo esse dever, não há razão para que nos
recusemos a julgá-los e não tenhamos a liber-
dade de exprimir nossos ressentimentos se for
13 Sêneca.
2º Deodoro de Sicília.
o caso, nem que nos neguemos a honrar essss-
ses bons servidores que, embora conhecendo
as imperfeições do senhor, o serviram com res-
peito e fidelidade, exemplo útil a ser transmi-
tido à posteridade. Aqueles que, em virtude de
obrigações pessoais, defendem sem razão a
memória de um príncipe indigno, fazem ato de
Justiça privada em prejuízo da justiça pública.
Tito Lívio anda certo ao observar que a lin-
guagem dos homens enfeudados à realeza é
sempre cheia de vãs ostentações e falsos teste-
munhos, encarando cada qual o seu rei
independentemente de seus méritos como um
soberano cujo valor e cuja grandeza não
podem ser ultrapassados. Pode-se reprovar a
altivez dos soldados que responderam a Nero,
o qual perguntara a um deles por que lhe que-
ria mal e ao outro por que o deseiava matar:
“Gostava de ti quando eras digno desse senti-
mento”, respondeu o primeiro; “desde, porém,
que te tornaste parricida, incendiário, histrião,
cocheiro, odeio-te como o mereces.” E o
segundo afirmou: “Porque não vejo outro
remédio para teus contínuos desmandos?!”
Mas quem há de reprovar os testemunhos pú-
blicos e universais que depois de sua morte
foram obtidos contra esse príncipe, seus tirâni-
cos e odiosos entusiasmos, testemunhos que o
estigmatizaram para sempre — e como ele
todos os maus? Lamento que entre os usos e
costumes tão sábios da Lacedemônia se tenha
intrcduzido uma hipócrita cerimônia, por oca-
sião da morte dos reis. Todos os confederados
e os povos vizinhos, juntamente com os hilo-
tas, homens e mulheres, feriam a fronte em
sinal de luto, proclamando entre gritos e
lamentações que o defunto (bom ou mau tives-
se sido) fora o melhor dos reis que haviam
tido. Davam, assim, à condição os louvores
que ao mérito deveriam caber, e relegavam
para o último lugar aquilo que em primeiro
deveria estar. Aristóteles, que trata de todos os
assuntos, indaga, a propósito das palavras de
Sólon: “ninguém se pode dizer feliz antes de
morrer”, se quem viveu e morreu segundo seus
desejos, mas deixou má reputação ou os seus
pósteros na miséria, deve qualificar-se como
feliz. Enquanto viverrios temos a faculdade de
fazer com que nosso pensamento se pouse
onde queremos; quando deixamos de existir
acabam as possíveis comunicações com o
mundo vivo. Eis por que Sólon teria dito me-
lhor se houvesse afirmado que o homem não é
nunca feliz, porquanto só o é quando já não
mais existe.
21 Tácito.
18 MONTAIGNE
“Encontra-se com dificuldade um sábio.
capaz de fugir da vida e a repelir: ignorante do
futuro, o homem imagina que parte de seu ser
sobrevive e não pode libertar-se desse corpo
que perece e cai? 2.”
Bertrand du Guesclin morreu no sítio do
castelo de Randon em Puy, na Auvergne.
Tendo os sitiados capitulado depois da morte
dele, viram-se obrigados a depor as chaves da
cidade sobre o seu cadáver. Barthélemy de
Alviane, general do exército veneziano, tendo
morrido na batalha perto de Brescia, tornou-se
necessário, a fim de transportar o corpo para
Veneza, atravessar o território inimigo de
Verona. Os chefes venezianos em sua maioria
eram de opinião que se pedisse um salvo-con-
duto aos veroneses. Théodore Trivulce a isso
se opôs, preferindo passar à força, ainda que
fosse preciso combater, pois não era decente,
disse, que quem em vida jamais temera o ini-
migo parecesse amedrontar-se depois de
morto??. — As leis gregas apresentam-nos
algo semelhante: quem solicitava do inimigo
um corpo para inumá-lo renunciava à vitória e
não mais a podia consagrar com um troféu; e
aquele a quem a solicitação era feita conside-
rava-se vencedor. Nícias assim perdeu as van-
tagens nítidas que conseguira contra os corin-
tios e, inversamente, Agesilas desse modo
assegurou um êxito mais do que duvidoso
sobre os beócios. Tais fatos poderiam parecer
estranhos, se desde sempre não juntassem os
homens à preocupação do além a crença de
que as bênçãos celestes o acompanham ao tú-
mulo e se estendem a seus restos. E tantos são
os exemplos antigos a esse respeito — sem
falar nos de hoje — que não se faz preciso
insistir. Eduardo I, rei da Inglaterra, tendo
observado nas suas intermináveis guerras con-
tra Roberto, rei da: Escócia, a que ponto sua
presença contribuía para o êxito, cabendo-lhe
a vitória lá onde ele se encontrava, no momen-
“to de render o último suspiro obrigou o filho,
mediante juramento solene, a mandar ferver-
lhe o corpo depois de morto para que, separan-
do-se as camnes dos ossos, se enterrassem aque-
las e se transportassem estes com o exército
sempre que marchassem contra os escoceses.
Como se o destino houvesse fatalmente subor-
dinado a vitória à presença dos ossos. — Jean
Ghiska? *, que perturbou a Boêmia na defesa
dos erros de Wiclef, exigiu que depois o esfo-
lassem e com a pele fizessem um tambor que
usariam quando pegassem em armas contra os
inimigos, imaginando que dessa maneira aju-
daria a manter as vantagens obtidas nas guer-
ras anteriores. Certas tribos de índios também
22 Lucrécio.
23 Brantôme.
2º Em outras edições, Ziska ou Vischa.
levavam para o combate contra os espanhóis
os ossos de um de seus chefes por causa dos
êxitos que tivera em vida. Outras tribos desse
mesmo continente carregam com elas, na guer-
ra, OS corpos dos seus guerreiros que se te-
nham distinguido pela valentia e morrido na
luta, pois os consideram suscetíveis de darem
sorte e servirem de estímulo. Mostram-nos os
primeiros exemplos a recordação de nossos fei-
tos honrosos acompanhando-nos ao túmulo;
os últimos atribuem, ademais, a essa recorda-
ção, um sentido afetivo.
O caso de Bayard é mais admissível. Esse
chefe ao sentir-se mortalmente ferido por um
tiro de arcabuz no corpo, e instado a retirar-se
da luta, respondeu que não era no momento de
findar que iria começar a virar as costas ao ini-
migo. E continuou a pelejar enquanto as forças
o permitiram. E, não podendo mais permane-
cer a cavalo porque se sentia desmaiar, man-
dou a seu escudeiro que o deitasse ao pé de
uma árvore, porém de maneira a morrer com o
rosto voltado para o inimigo. E assim se-fez.
Acrescentarei outro exemplo, tão interes-
“sante no gênero quanto os precedentes. O
Imperador Maximiliano, bisavô do Rei Filipe,
atualmente no trono, foi um príncipe dotado de
numerosas e eminentes qualidades e notável
pela sua beleza física. Entre as suas singulari-
dades havia a de não se assemelhar a esses
príncipes que para tratar dos negócios mais
importantes fazem de sua retrete um trono.
Nunca teve criado por mais familiar a quem
permitisse vê-lo em trajes menores. Escondia-
se para urinar e tão pudibundo quanto uma
virgem, nem ao médico nem a ninguém mos-
trava as partes do corpo que costumamos
cobrir. Eu, que tão impudente tenho a lingua,
sou entretanto, por temperamento, igualmente
inclinado. a semelhante discrição. E, a menos
que a tanto seja levado por necessidade ou
volúpia, não exponho aos olhos de ninguém as
partes de meu corpo ou os atos íntimos que
nossos costumes recomendam se soneguem à
vista; e faço disso uma obrigação talvez maior
do que convém a um homem, e em particular
de minha profissão? *. Mas o Imperador Maxi-
miliano a tal exagêro chegara que ordenou
expressamente em testamento que lhe, puses-
sem ceroulas depois de morto, acrescentando
que a pessoa encarregada dessa missão a
desempenhasse de olhos vendados. O desejo
expresso por Ciro a seus filhos de que nem eles
28 Original: Jy soufre plus de contrainte, que je
n estime bienséant à un homme — A frase presta-se
a confusão. Michaut a interpreta forçando alexpres-
são, mas como Montaigne se considera militar (ver
comentário de Thibaudet à edição La Pléiade),
parece-nos que a interpretação escolhida atênde ao
espírito do texto. (N. do T.)
ENSAIOS — 1 19
. nem ninguém lhe tocassem o corpo depois da
morte, provém, imagino, de alguma prática
devota, pois tanto ele como seu historiador,
entre outras grandes qualidades, mostraram-se
durante a vida especialmente dedicados à
religião.
Desagrada-me o que me contou certo indivi-
duo altamente colocado e diz respeito a pessoa
de minhas relações intimas, assaz conhecida
pelos cargos que ocupou na paz como na guer-
ra. Esta personagem, que morreu em sua Corte
em idade avançada e após cruéis sofrimentos
devidos a cálculos, passou suas últimas horas
regulando com exagerados cuidados a cerimô-
nia de seu enterro de modo a dar-lhe o maior
relevo. Pedia aos nobres visitantes que se
comprometessem sob palavra de honra a
tomar parte no cortejo fúnebre. Ao próprio
príncipe que me narrou o caso, pediu ele insis-
tentemente mandasse vir o seu séquito, e citava
exemplos e argumentava para provar que tanto
se devia a um homem de sua condição. E,
tendo arrancado tal promessa e estabelecido dê
acordo com suas idéias a distribuição e a
ordem da parada, expirou aparentemente satis-
feito. Não creio ter jamais visto tão persistente
vaidade.
Preocupar-se com regular os funerais ou de
maneira orginal ou com excessiva parcimônia,
como por exemplo reduzindo o acompanha-
mentó a um simples servidor carregando uma
lanterna, são singularidades inversas das pre-
cedentes, embora da mesma ordem e de que
também encontro exemplos na minha família.
Há entretanto quem aprove tais gestos, como
aprovam a proibição de Marco Lépido a seus
herdeiros de empregar o cerimonial adequado
ao seu caso. Se assim agindo imaginamos
fazer ato de temperança e austeridade, evi-
tando uma despesa e uma satisfação que não
gozaremos e cuja percepção nos será impossi-
vel, tal atitude em verdade não será muito
meritória. Se me coubesse resolver quanto ao
assunto, eu diria que nessas como em todas as
demais circunstâncias da vida, cada qual deve
orientar-se pela sua situação na sociedade, e o
filósofo Lícon demonstrou sabedoria quando
prescreveu a seus. amigos que o enterrassem
como achassem melhor, organizando funerais
que não fossem nem supérfluos nem miserá-
veis? 8. No que me diz respeito, que obedeçam
aos usos em vigor; confio na discrição daque-
les a quem caberá então tal incumbência. “Eis
um cuidado que é preciso desprezar pera si
26 No. textô “mécaniques”, isto é, como os dos
artesãos — demasiado simples — miseráveis por
extensão. — Ne soyons ni superbes, ni mécaniques
dans notre habillement (Malherbe — citado tio
dicionário de Hatzfeld e Darmesteter. (N. do T.)
próprio e não negligenciar para os outros? 7.”
Santo Agostinho fala uma linguagem digna de
um santo quando diz: — “A organização dos
funerais, a escolha da sepultura, a pompa das
exéquias, são menos necessárias à tranqui-
lidade dos mortos do que ao consolo dos
vivos.” — No mesmo espírito, Sócrates ao
morrer respondia a Criton que lhe perguntava
como queria ser enterrado — “como quiser-
des”. Se eu devesse atentar?º mais completa-
mente para a coisa, ser-me-ia agradável imitar
os que, ainda em vida e na plena posse de suas
faculdades, empreendem gozar antecipada-
mente as homenagens fúnebres que lhes serão
prestadas, deleitando-se na contemplação de
sua efigie reproduzida no mármore do túmulo.
Felizes aqueles para quem ver o que serão,
guando não forem mais é um prazer, e que
vivem de sua própria morte.
Embora eu considere a soberania do povo a
mais natural e racional, por pouco não me
torno seu inconciliável adversário, tal aversão
me infunde a atitude injusta e inumana dos ate-
nienses que condenaram à morte e imediata
execução, sem sequer lhes ouvir a defesa, os
valentes capitães que acabavam de vencer os
lacedemônios junto às ilhas Arginusas na
batalha naval mais árdua e considerável que os
gregos jamais tiveram. E por quê? Porque
esses chefes após a vitória tinham procurado
tirar partido de suas vantagens, de acordo com
a arte da guerra, em vez de se atardarem em
recolher os mortos e lhes darem sepultura. A
odiosidade da execução ainda maior relevo
apresenta ante a atitude de Diomedonte, um
dos condenados, soldado e homem político de
grande mérito. Depois de ouvir a sentença e
diante da calma restabelecida na assembléia,
adianta-se para falar e em lugar de usar a pala-
vra em defesa da causa, pondo em evidência a
iniquidade de tão cruel veredicto, não pensa
senão nos juízes e pede aos deuses que os
recompensem e lhes comunica que tais eram os
votos dele próprio e de seus companheiros,
temerosos de que a ira celeste despertada pela
não observância dos deveres funerários se des-
viasse deles próprios, os beneficiários de tão
brilhante êxito. E sem mais nada acrescentar,
sem nenhuma recriminação, marchou corajo-
samente para o suplício?º.
27 Cícero.
28 No texto “empescher” — o que só se entende
dando ao verbo o sentido assinalado no dicionário
de Godefroy —- refletir, ocupar-se longamente com
— exemplificado com uma frase de Froissart.
Assim o anota igualmente Thibaudet. (N. do T.)
2º A frase é incrivelmente confusa em sua sintaxe.
Adotamos a interpretação de Michaud, procurando
aproximar-nos entretanto o mais possível do texto
origina:: (N. do T.)
20 MONTAIGNE
Alguns anos mais tarde, o destino puniu os
atenienses por onde haviam pecado. Chabrias,
comandante de sua frota, tendo vencido perto
da ilha de Naxos, a Polis, almirante espartano,
perdeu o fruto da vitória, de importância capi-
tal, receoso de idêntica condenação. Para não
deixar sem sepultura os corpos de alguns dos
seus homens, que flutuavam sobre as ondas,
deixou que fugissem inúmeros inimigos, os
quais, voltando-se ao depois contra ele, fize-
ram-no pagar caro a observância tão inopor-
tuna dessa superstição. “Queres saber onde
estarás depois de morto? Irás para onde se
encontram as coisas ainda por nascerem*º.”
Outros concedem em princípio o repouso ao
30 Sêneca.
corpo que a alma abandona.
“Que não tenha túmulo para recebê-lo e
onde, aliviado do peso da vida, seu corpo
possa repousar em pazº?.?
Tudo nos leva a crer. que a morte não é o fim
último. A própria natureza nos fornece exem-
plos de misteriosas relações entre o que não
mais existe e o que vive ainda. Não experi-
menta o vinho nas adegas modificações corres-
pondentes às que as estações imprimem às
vinhas? E dizem também que a came dos ani-
mais mortos na caça e conservada em salga-
deiras se modifica e muda de gosto tal qual
acontece com a desses mesmos animais quan-
do vivos.
31 Enio.
CAPÍTULO IV
De como a alma que carece de objetivo para as suas paixões
as manifesta ainda que ao acaso
Um fidalgo de nossa sociedade, sujeito a
ataques de gota, tinha por hábito responder,
gracejando, aos médicos que lhe recomen-
davam abster-se de carnes salgadas, que lhe
apetecia responsabilizar alguém ou alguma
coisa quando o mal o visitava e seu sofrimento
aumentava. E aliviava-lhe a dor poder atribuir
a causa disso ora ao chouriço, ora à língua de
boi ou ao presunto que comera, mandando-os
ao diabo.
Em verdade, assim como nos dói o braço
erguido para bater, se o golpe não alcança o
alvo e atinge O vácuo, e assim como para tor-
nar uma paisagem agradável é preciso que ela
não se isole no espaço mas antes se apóie a um
fundo apropriado e seja vista a distância
suficiente,
“assim como o vento, se espessas flores-
tas não se erguem à sua frente como
obstáculos, perde sua força e se dissipa
na imensidão??,
assim a alma perturbada e agitada se confunde
quando lhe falta um objetivo. Em seus trans-
32 Lucano.
portes, exige ela, sempre, algo a que culpar e
contra o que agir.
Plutarco?? diz, a propósito dos que se afei-
çoam a macacos e cãezinhos, que a nossa
necessidade de amar:em não se exercitando
normalmente em vez de permanecer insatis-
feita projeta-se sôbre objetos ilícitos ou indig-
nos dela. Vemos igualmente a alma tomada
pela paixão, de preferência a não se entregar a
ela, enganar-se a si própria criando um obje-
tivo falso ou fantasista, ainda que a expensas
de suas próprias convicções. É o que leva os
animais feridos a voltar-se contra a pedra ou o
ferro que os feriu ou a morder-se a si mesmos
para se vingarem da dor sentida.
“Assim a ursa de Panônia se faz mais
feroz quando atingida pelo dardo que
retém a fina correia de Líbia; furiosa,
procura morder a lança que a rasga e
persegue o ferro que com ela gira? 4.”
Que causas não inventamos para as desgra-
ças que nos afligem? A quem ou a que, com
33 Vida de Péricles.
34 Lucano.
ENSAIOS — 1 21
razão ou sem ela, não culpamos a fim de ter
algo contra que nos havermos? Em teu deses-
pero arrancas as loiras tranças, rasgas O peito
a ponto de o sangue mancthar-lhe a brancura; -
são eles a causa da morte desse: bem-amado
irmão que uma bala mortal tão cruelmente
atingiu? Não, volta-te, pois, contra outros.
A propósito do exército romano que, na
Espanha, acabava de perder seus dois chefes,
Públio e Cneu Cipião, ambos grandes guerrei-
ros, diz Tito Lívio: — “Em todo o exército
cada qual se pôs imediatamente a derramar là-
grimas e a dar pancadas na cabeça”. Não é
esse um costume generalizado? E não andava
certo o filósofo Bion quando, a propósito do
rei que no arrebatamento de sua dor arrancava
barba e cabelos, dizia gracejando: “Pensa ele
realmente que a pelada amorteça a tristeza do
luto?? *”? E quem não viu jogadores rasgar ou
mastigar cartas, ou engolir dados, para se vin-
garem de um prejuízo? — Xerxes mandou fus-
tigar o mar e desafiou o monte Atos; e Ciro
divertiu seus exércitos durante muitos dias a
querer vingar-se do rio Gindus pelo medo que
tivera ao atravessá-lo. Calígula destruiu um
magnífico palácio por causa do desgosto? &
que sua mãe ali experimentara.
Dizia o povo, na minha mocidade, que um
38 Cicero.
38 O texto é claro e diz “plaisir que sa mêre y avoit
eu”. — Entretanto Michaut interpreta como. sendo
“déplaisir”, desgosto. A edição de Lefevre (Paris,
1834) anota a frase: “Talvez desgosto, porquanto
sua mãe aí estivera prisioneira.” — Thibaudet é de
opinião que se trata de um cochilo de Montaigne e
na edição La Pléiade opina por “desgosto”. (N. do ”
T.)
rei dos nossos vizinhos? ?, castigado por Deus,
jurou vingar-se. Para tanto ordenou que duran-
te dez anos não se rezasse, nem se Lhe mencio-
nasse o nome, nem mesmo, na medida em que
a autoridade pode preiendê-lo, se acreditasse
nEle. E com isso não procurava o povo apon-
tar a tolice do soberano mas sim a glória da
nação cujo rei assim agia. Presunção e estupi-
dez andam juntas, porém tais atos mais se
explicam pelo primeiro do que pelo segundo
defeito. O Imperador Augusto, tendo enfren-
tado violenta tempestade no mar, pôs-se a
desacatar Netuno, e, como vingança, mandou
retirar a estátua dessa divindade durante as
festas circenses, extravagância menos descul-
pável ainda que as precedentes38. Mais absur-
do ainda se mostrou quando Quintilio Varus
foi derrotado na Alemanha. Tomado de cólera
e desespero, batia a cabeça contra os muros €
gritava: “Varus, Varus, devolve minhas le-
giões!” Semelhantes insanidades ultrapassam
a loucura, principalmente quando a elas se
Junta a impiedade e elas se voltam contra Deus
ou contra a sorte como se esta nos pudesse ver |
e ouvir. Agem assim como as traças diante dos
relâmpagos e trovões e que, a exemplo dos
Titãs, pénsavam reduzir Deus à razão, intimi-
dando-o com flechas desfechadas contra o
céu?º, Ora, como diz um poeta antigo, em Plu-
tarco, “não nos devemos encolerizar contra os
acontecimentos, porquanto não se preocupam
com as nossas iras”. Mas nunca criticaremos
demasiado essa desordem de nosso espírito.
37 Afonso XI, de Castela.
*8 Suetônio.
*º Heródoto.
CAPÍTULO V
Deve o comandante de uma praça sitiada sair
pára parlamentar?
Lúcio Marco *º, que comandou os romanos
durante a guerra contra Perseu, rei da Macedô-
nia, desejoso de ganhar tempo a fim de reorga-
49 Tito Lívio.
nizar seus exércitos, fez ao rei propostas de
paz que lhe amoleceram a prudência e o leva-
ram a conceder uma trégua de alguns dias,
dando ao inimigo azo e tempo para se armar,
de que resultou a ruína do monarca. Em Roma
22 MONTAIGNE
alguns senadores imbuídos dos costumes de
seus antepassados condenaram essa maneira
de proceder por contraria ao que antes se fize-
ra e que consistia em combater com coragem e
não com astúcia, não se recorrendo nem à sur-
presa, nem aos ataques noturnos, nem aos
simulacros de fuga seguidos de inesperadas
cargas. A guerra só se iniciava depois de
declarada e, não raro, após terem sido marca-
dos o lugar e a hora da batalha. A tais senti-
mentos obedeceram quando entregaram a
Pirro o médico que o traíra e aos falessios*!
seu desleal mestre-escola. Nisso agiam como
verdadeiros romanos e não como esses astu-
ciosos cartagineses e esses gregos sutis que dão
maior valor ao êxito obtido pela malícia do
que ao alcançado pela força. O embuste pode
servir. na hora, mas o adversário só se sente
realmente vencido quando o foi em guerra leal
e justa. em que a vitória sorri ao mais valente,
e não pela manha nem pela sorte. Os senadores
que falavim essa honesta linguagem não
conheciam evidentemente ainda esta bela má-
xima de Virgílio: “Contra o inimigo não há
como escolher entre o ardil e a coragem.”
Aos acaianos*2, diz Pólibo, repugnava o
emprego da astúcia na guerra, só se conside-
rando vitoriosos quando o ânimo do inimigo
era abatido. O homem sábio e virtuoso deve
saber que a única vitória é a que pode procla-
mar sua boa-fé e honra. E diz outro ** autor:
“Que nosso valor decida se é a vós ou a
mim que a sorte, senhora dos acontecimentos,
destina o império.”
No reino de Ternate, uma dessas tribos a
que sem hesitação chamamos bárbaras tem
por costume só iniciar as hostilidades após
uma prévia declaração de guerra à qual se
acrescenta a enumeração precisa dos meios
que pretende utilizar: número de guerreiros,
natureza das armas ofensivas e deferisivas,
munições. Isso feito, se o adversário não se de-
cide a entrar na batalha, julgam-se esses bár-
baros no direito de empregar, para o êxito,
todos os meios a seu alcance. E outrora em
Florença pensavam tão pouco em vencer pela
surpresa que preveniam o inimigo um mês
antes de marchar para o combate, tocando sem
descontinuar um sino a que apelidavam Marti-
nela.
Quanto a nós, menos supersticiosos, consi-
deramos que as honras da guerra cabem a
quem com ela se beneficia e estimamos, depois
“1 Povo da Arcádia.
*2 Habitantes da Grécia.
*3 Ênio, citado por Cicero — Das Deveres I-12.
de Lisandro, que, se a pele do leão não basta,
cumpre juntar um pedaço da pele da raposa.
Ora, como acontece que é quando se parla-
menta que ocorrem as surpresas, nesse mo-
mento em particular deve o chefe pôr-se de
sobreaviso. Daí a regra em vigor entre os ho-
mens de guerra de nossa época, a saber, que O
governador de uma praça sitiada nunca saia a
fim de parlamentar.
Nossos pais censuraram os senhores de
Montmord e de PAssigny, que defendiam
Pont-à-Moussof contra o Conde de Nassau,
por terem contravindo a tais princípios. Entre-
tanto, é desculpável quem sai da praça a parla-
mentar, desde que tome todas as medidas para,
em caso de perigo, ter por si uma vantagem.
Assim o fez o Conde Guy de Rangon quê
defendia Reggio. Tendo-se apresentado o Sr.
de 1Eut a fim de parlamentar, afastou-se Guy
de Rangon tão pouco da praça que, em se veri-
ficando uma escaramuça durante as negocia-
ções, não somente o Sr. de PEut e sua escolta
(à qual pertencia Alexandre Trivulce que foi
morto) se acharam dominados, como também
o Sr. de PEut, para segurança própria, se viu
obrigado a entrar na cidade sob a proteção do
conde. E o que nos conta Du Bellay, mas
Guicciardin o relata igualmente atribuindo-se
a glória do acontecimento.
Antígono, assediando Eumenes em Nora €
insistindo para que saísse a fim de pessoal-
mente parlamentar com ele e alegando que a
Eumenes cabia fazê-lo por ser ele, Antígono,
mais forte e de mais alta condição, ouviu do
sitiado esta nobre resposta: “Não reconhecerei
ninguém acima de mim enquanto tiver a facul-
dade de brandir uma espada * *? E só consen-
tiu em encontrar-se com Antígono quando este
lhe entregou Ptolomeu, seu sobrinho, como
refém.
No entanto houve quem se saísse bem em
semelhante ocorrência confiando na palavra
do adversário. Testemunho disso temo-lo em
Henry de Vaux, de Champagne, sitiado pelos
ingleses no castelo de Commercy. Barthélemy
de Bonnes* º que os comandava, tendo conse-
guido sapar boa parte do castelo e dispondo-se
a mandar irrcendiá-lo para esmagar os defenso-
res sob os escombros, intimou Henry de Vaux
(o qual já lhe havia enviado três emissários) a
ir pessoalmente parlamentar, no seu próprio
interesse. Este foi, e, percebendo a iminência
da catástrofe a que não escaparia, demonstrou
sua gratidão ao inimigo entregando-se, com
seus homens, incondicionalmente. Pôs-sejfogo
então na mina escavada, cederam os esteios
Í
4º Plutarco. |
45 Froissart. |
que sustentavam os muros e o castelo esbo-
roou-se. Quanto a mim, confio facilmente nos
outros, mas não confiaria se viessem a supor
23
tratar-se de um ato de fraqueza ou covardia e
não por ser eu franco e acreditar na lealdade
de meu adversário.
CAPÍTULO VI
A hora das negociações é perigosa
Ultimamente, nas minhas vizinhanças, em
Mussidan * º*, um destacamento inimigo que
ocupava a cidade foi forçado a retirar-se. Cla-
mavam os soldados, e outros de seu partido,
que haviam sido traídos porque os tinham
surpreendido e vencido durante as negocia-
ções, e antes que um acordo se assinasse. Tais
recriminações se compreenderiam em outros '
tempos, mas, como disse no capítulo prece-
dente, nossos processos atuais são diversos e é
de se desconfiar de todos enquanto. a assina-
tura definitiva não é aposta no tratado. E nem
assim se imaginará tudo terminado. E sempre
foi perigoso confiar em que um exército vence-
dor saiba cumprir a palavra dada e deixe de,
entrar, de imediato, na cidade que obteve con-
dições vantajosas para render-se.
L. Emílio Reggio, pretor romano, tendo -per-
dido muito tempo diante da cidade de Focéia
da qual não conseguia apoderar-se em conse-
quência da tenacidade que punham os habitan-
tes em defendê-la, com. eles conveio em consi-
derá-los amigos do povo romano. E, tendó-os
convencido de suas intenções pacíficas, obteve
licença para entrar na cidade como o teria
feito em qualquer cidade aliada. Mas logo que
ali se encontrou com seu exército, de que se fi-
zera acompanhar na maior solenidade, não
mais pôde conter os seus, embora o tentasse,
os quais saquearam tudo, sob as suas vistas,
levados pelo espírito de vingança e o amor à-
pilhagem que sobrepujam o respeito à autori-
dade e a disciplina militar.
Cleômenes sustentava que o direito de guer-
ra, no que concerne ao mal que se possa fazer
ao inimigo, está acima das leis da justiça divi-
na, bem como da justiça humana. Tendo con-
cluído uma trégua de sete dias com os argenos,
já na terceira noite os atacava durante o sono e
os batia, alegando que na .trégua não se
mencionavam as noites* ?. Mas os deuses .o
puniram por sua má-fé. Estando ele em nego-
36 A seis léguas do castelo de Montaigne.
“7 Plutarco.
ciações, e já tendo os defensores abrandado a
vigilância, foi a cidade de Casilinum conquis-
tada de surpresa. E isso nos tempos em que
Roma possuía o exército mais disciplinado,
com chefes imbuídos do sentido da justiça.
Porque não está dito que em dadas circuns-
tâncias não seja permitido nos prevalecermos
da tolice do inimigo como nos prevalecermos
de sua covardia. A guerra admite como lícitas
muitas práticas condenáveis; O princípio de
que “ninguém deve procurar tirar proveito da
estupidez alheia” não vale**. Entretanto Xe-
nofonte, autor tão competente em tal matéria,
grande chefe militar e filósofo, ele próprio dis-
cípulo dos mais distintos de Sócrates, nos
propósitos que empresta a seu imperador per-
feito, dá a-essas prerrogativas uma extensão
por assim dizer sem limites, o que posso admi-
tir inteiramente.
O Sr. D'Aubigny sitiava Cápua, comandada
por Fabrício Colona. Este, após sangrento
combate em que levara a pior, pôs-se a parla-
mentar do alto de um torreão, mas durante as
negociações, tendo os seus homens relaxado a
vigilância, entraram os nossos na cidade e a
saquearam. Mais recentemente, em Y voy, o Sr.
Juliano Romero, tendo tido a ingenuidade de
sair da cidade a fim de parlamentar com o
Condestável, encontrou, ão voltar, a praça em
poder do inimigo *º. Nós mesmos não estamos
isentos de censura: o Marquês de Pescaire
sitiando Gênova sob o comando de Otaviano
Fregose, que nós sustentávamos, chegara a um
acordo que ia ser assinado quando os espa-
nhóis conseguiram entrar na cidade e aí agi-
ram como se a tivessem tomado de assalto.
Posteriormente, em Ligny, no Barrois, sob o
comando do Conde de Brienne, e sitiada por.
Carlos V em pessoa, Bertheville, lugar-tenente
do conde, tendo saído para negociar, a cidade
foi tomada enquanto parlamentava. Dizem os
italianos:
*8 Cícero.
*º Montaigne confunde Yvoy com Dinant.
24 MONTAIGNE
Fu il vincer, sempre mai laudabil
cosa,
Vincasi o per fortuna o per
ingegno.
“É sempre glorioso vencer, deva-se a vitória
ao acaso ou ao engenho *º.? O filósofo Crisipo
não teria sido da mesma opinião nem eu tam-
pouco. Dizia ele que quem toma parte em uma
corrida deve em.verdade empregar todas as
forças para ganhar, mas não lhe é permitido
agarrar o competidor ou passar-lhe uma rastei-
8º Ariosto.
ra. E Alexandre, o Grande, agiu de maneira
mais generosa ainda quando respondeu a Poli-
perconte — que o instava a valer-se da escuri-
dão da noite para atacar Dario: “Não me pare-
ce digno roubar vitórias. — Prefiro queixar-
me da sorte a envergonhar-me da vitória º".”
“Recusa-se a golpear Orode, lançar-lhe um
dardo que fira por trás, corre a ele, e é de fren-
te, homem a homem, que o ataca. Quer vencer,
mas não pela surpresa € sim e unicamente pela
força das armas *2.”
81 Quinto Cúrcio.
52 Virgílio.
CaPpíTULO VII
As ações julgam-se pelas intenções
A morte, dizem, liberta-nos de todas as obri-
gações. Conheço quem haja interpretado essa
máxima de maneira singular. Henrique VHI,
rei da Inglaterra, comprometera-se com D.
Filipe, filho do Imperador Maximiliano, ou,
mais honrosamente referido como pai de Car-
los Quinto, a não atentar contra a vida de seu
inimigo, o Duque de Suffolk, chefe do partido
da Rosa Branca, que fugira da Inglaterra e se
refugiara nos Países-Baixos onde Filipe o man-
dara prender, entregando-o ac rei mediante a
promessa de respeito à vida do duque. Sen-
tindo que ia morrer, Henrique VIII determinou
a seu filho, em testamento, que logo depois de
seu falecimento executasse o duque. Ultima-
mente nos acontecimentos trágicos que em
Bruxelas provocaram o suplício dos Condes de
Hom e de Egmont, ordenado pelo Duque de
Alba, houve particularidades notáveis. Esta
entre outras: o Conde de Egmont, em virtude
de cujas promessas de garantias o Conde de
Horn se entregara ao Duque de Alba, reivin-
dicou com insistência que o matassem em pri-
meiro lugar, a fim de que a sua morte o liber-
tasse da obrigação assumida. Parece-me, no
caso, que a morte não eximia o rei da obriga-.
ção de cumprir a palavra dada e que o Conde
de Egmont, ainda que vivo, não faltava à sua.
Nossas obrigações são limitadas pelas nossas
forças e os meios de que dispomos; a execução
e as consequências de nossos atos não depen-
dem de nós; somente a nossa vontade depende.
Nesta e nas necessidades assentam as leis que
regulam os deveres do homem. Eis por que o
Conde de Egmont, embora com a alma e a
vontade amarradas à sua promessa, mas sem
força para executá-la, a ela não estava amárra-
do, ainda que sobrevivesse ao Conde de Horn.
Ao passo que o rei da Inglaterra, faltando
intencionalmente à sua palavra, não pode ser
culpado pelo fato de ter adiado o ato desleal
para depois de seu falecimento. Idêntico é o
caso do pedreiro de Heródoto que, tendo leal-
mente guardado segredo acerca do local em
que se encontravam os tesouros do rei do
Egito, ao morrer o seu senhor, O revelou aos
filhos.
Vi outrora muitas pessoas que, sentindo
pesar-lhes a consciência por se terem apro-
priado de bens alheios, se mostraram dispostas
a inserir em seu testamento dispositivos em
vista da restituição dos mesmos. Não são elas
dignas de louvor, já porque atrasaram uma
ação que devia ser imediata, já porque preten-
deram reparar uma falta sem sofrimento nem
sacrifício. Deviam ter acrescentado os pró-
prios bens; a reparação do mal atendera me-
lhor aos reclamos da justiça e mais mérito tive-
ra quanto mais pesados e penosos, os
sacrifícios. A penitência exige algo mais do
que a simples reparação dc dano. Pior fazem
ainda os que deixam para depois da morte a
t
ENSAIOS — 1 25
manifestação, contra O próximo, dos rancores
que esconderam durante a vida. Mostram que
pouco prezam a própria honra, não se incomo-
dando com provocar a ira dos ofendidos con-
tra a sua memória. E menos provas dão de
consciência, não tendo sabido, nem sequer por
respeito à morte, dominar a própria perversi-
dade que se prolonga dessa maneira além de si
mesmos. Tal qual farianí juízes iníquos que se
pusessem a julgar sem ter mais a causa em
mãos. Na medida de minhas forças, procurarei
evitar de nada dizer após a morte que não haja
dito em vida, e abertamente.
CapítruLo VIII
Da ociosidade
Nas terras ociosas º?, embora ricas e férteis,
pululam as ervas selvagens e daninhas, e para
aproveitá-las cumpre trabalhá-las e semeá-las
a fim de que nos sejam úteis. Assim também
vemos que as mulheres produzem sozinhas flu-
xos de matérias sem consistência, mas para
que engendrem em condições favoráveis neces-
sário se faz fecundá-las com a boa semente.
Assim igualmente os espíritos: se não os ocu-
pamos com certos assuntos que os absorvam e
disciplinem, enveredam ao léu, sem peias, pelo
campo da imaginação.
“Assim, quando em um vaso de bron-
ze uma onda agitada reflete os raios do
sol ou a imagem tênue da lua, a luz, dar-
dejando incerta de todos os lados, à
direita e à esquerda, sobe, desce, fere o
forro com seus reflexos móveis º *.”
E nesse estado não há loucura nem devaneio
que não concebam: “forjando vas ilusões,
semelhantes às quimeras de um doente” **.
53 Não trabalhadas, não cultivadas. (N. do T.)
84 Virgílio.
55 Horácio.
Sem objetivo preciso, a alma se tresmalha,
pois, como se diz, é não estar em nenhum
lugar, estar em toda parte * *.
Retirei-me há tempos para as minhas terras,
resolvido, na medida do possível, a não me
preocupar com nada, a não ser O repouso, e
viver na solidão os dias que me restam. Pare-
cia-me que não podia dar maior satisfação a
meu espírito senão a ociosidade, para que se
concentrasse em si mesmo, à vontade, o que
esperava pudesse ocorrer porquanto, com o
tempo, adquiria mais peso e maturidade. Mas
percebo que: “na ociosidade o espírito se dis-
persa em mil pensamentos diversos? 87, e ao
contrário do que imaginava, caracolando
como um cavalo em liberdade, cria ele cem
vezes maiores preocupações do que quando
tinha um alvo preciso fora de si mesmo. E:
engendra tantas quimeras e idéias estranhas,
sem ordem nem propósito, que para perceber-
lhe melhor a inépcia e o absurdo, as vou con-
signado por escrito, na esperança de, com o
correr do tempo, lhe infundir vergonha.
56 Marcial.
57 Lucano.
CaPpíTULO IX
Dos mentirosos
Não há a quem convenha, menos do que a
mim, apelar para a memória. Dessa faculdade
careço por assim dizer totalmente e não creio
que haja no mundo alguém menos bem aqui-
nhoado a esse respeito. Quanto ao resto sou
como o vulgo, mas nesse ponto meu caso me-
26 MONTAIGNE
rece ser assinalado e anotado. Além do incon-
veniente que disso resulta na vida comum (e
por certo, tendo em vista sua importância, Pla-
tão tinha razão de qualificá-la entre as grandes
e poderosas divindades), como na minha terra
diz-se de quem não mostra bom-senso que não
tem meinória, quando me queixo da minha pa-
rece que me confesso maluco. Não me acredi--
tam, contestam as minhas palavras, incapazes
de distinguir a memória do discernimento, o
que agrava ainda mais a coisa. Com isso
cometem uma injustiça, pois ve-se na prática
juntar-se comumente às memórias excelentes a
falta de bom-senso” E me prejudicam ainda
tais confusões porque'em relação a meus ami-
gos — e prezo a amizade acima de tudo — a
falta de memória passa por ingratidão. Incri-
minam-me por um defeito físico: “esquece”,
dizem, “tal pedido ou tal promessa; não se
lembra dos amigos; sua afeição por mim não o
impediu de dizer ou de calar tal coisa”. Sem
dúvida tenho facilmente falhas de memória,
mas nunca negligenciei deliberadamente a soli-
citação de um amigo. Basta a minha enfermi-
dade, não é justo que ainda a transformem em
uma espécie de má vontade, uma falta de fran-
queza em contraste absoluto com meu caráter.
Eu me consolo atê certo ponto pensando que
devo a esse defeito não ter ao que me parece
mal maior, e que por certo me houvera ataca-
do: a ambição; pois os negócios públicos exi-
gem -boa memória. Com isso, entretanto, como
ocorre amiúde na natureza, minhas outras
faculdades se aguçam na medida em que essa
se desgasta. Se tivesse sempre na memória o
que os outros disseram e fizeram, em vez de
julgar por mim mesmo ter-me-ia apegado,
como acontece comumente; às apreciações
alheias. Outra consegiência é a concisão de
meu falar, pois em geral a memória é mais pro-
lixa do que a imaginação. Mais bem dotado a
esse respeito, houvera atordoado os amigos
com meu palavrório, tanto mais quanto já
tenho tendência para me entusiasmar com
qualquer assunto de conversação. E lamen-
tável é ver, o que pude observar em alguns ínti-
mos, o narrador levar tão longe a narrativa, à
proporção que a memória lhe fornece material,
e acompanhá-la de tanto pormenor inútil que
se a história é boa lhe destrói o encanto e se
não apresenta interesse fica-se a maldizer a
memória do discursador ou a sua falta de
discernimento. E é coisa difícil concluir conve-
nientemente uma narrativa ou interrompê-la
oportunamente uma vez iniciada. Ora, o vigor
de um cavalo julga-se pela maneira brusca de
- estancar nos torneios. Mesmo entre os que
possuem plenamente um assunto, poucos co-
nheço capazes de sustar sua arenga à vontade;
|
|
e enquanto procuram como fazê-lo, prosse-
guem se arrastando e como que pasmados em
meio a frases vas e insignificantes. Isso se
acentua particularmente nos anciãos que se
prendem às recordações do passado e não se
lembram das repetições. Vi histórias muito
agradáveis tornarem-se aborrecidas na boca de
um alto personagem de quem todos já a ti-
nham ouvido cem vezes.
Em. segundo lugar a fraqueza de minha
memória faz, como dizia um sábio da antigui-
dade, que guarde menos recordação das ofen-
sas recebidas. Fora-me necessário alguém
encarregado de mas lembrar. E assim procedia
Dario, o qual,'a fim de não esquecer a ofensa
dos atenienses, cometera a um pajem a tarefa
de repeti-la três vezes a seus ouvidos sempre
que se punha à mesa: “Senhor, lembrai-vos
dos atenienses.” E mais uma vantagem acho
eu nisso: todos os sítios que revejo e todos os
livros que releio me encantam pela sua inces-
sante novidade. Não é sem razão que se afirma
não dever meter-se a mentir quem não tem
memória. Sabe-se que os gramáticos estabe-
lecem uma diferença entre dizer uma mentira é
mentir. Dizer uma mentira é, na opinião deles,
adiantar uma coisa falsa que a gente crê verda-
deira, ao passo que na língua latina, da qual
provém a nossa, mentir é falar contra a própria
consciência. O que eu digo aqui se refere por-
tanto somente aos que falam em desacordo
com o que sabem 8º. Tais pessoas ou inventam
o que dizem, fundo e pormenores, ou se limi-
tam a deturpar e alterar um fundo de verdade.
Quando repetem, alterando-a, uma mesma his-
tória, é-lhes difícil não se contradizerem, por-
que a coisa se tendo alojado em sua memória,
tal qual lha transmitiram ou, como a viram
eles próprios, não lhes é possível, depois, con-
tá-la várias vezes, e, cada vez com maior ou
menor exatidão, rememorar todas as altera-
ções nela introduzidas; ao passo que a impres-
são primeira lhes permanece sempre presente
ao espírito, apagando da lembrança todas as
falsidades enxertadas na verdade. Quando
inventam inteiramente a narrativa, não exis-
tindo uma primeira impressão suscetível de
perturbá-los, parecem menos expostos a erros;
entretanto, uma coisa que não existe, que nada
fixa, foge facilmente à memória, a menos que
seja esta excepcional. Disso vi muitos exem-
plos, por vezes divertidos, em detrimento dos
que, por profissão, falam no sentido de seu
maior interesse ou para agradar aos grandes a
quem se dirigem. Variando muito as circuns-
tâncias a que devem adaptar sua consciência,
s8 Com o que sabem ser verdadeiro, certo. A. do
T.
ENSAIOS— I 21
cumpre-lhes modificar por igual a linguagem,
chegando a dizer da mesma coisa ora branco
ora preto, de um jeito a uns e de outro a
outros. E se por acaso esses auditores se comu-
nicam tais dizeres contraditórios, que resta do
talento inventivo? Além daquilo que por
imprudência podem deixar escapar, qual a
memória capaz de lembrar as formas tão
diversas que imaginaram para sua história?
Tenho visto certas pessoas invejarem essa
habilidade, sem perceberem que dessa repúita-
ção não se tira proveito real 5º.
Em verdade, mentir é um vício odioso.
Somente pela palavra é que somos homens e
nos entendemos. Se compreendêssemos clara-
mente o horror e o alcance da mentira, contra
ela pédiríamos o suplício da fogueira que, com
menor razão, se aplica a outros crimes. Sou de
opinião que castigam em geral as crianças por
motivos fúteis, erradamente, que as admoes-
tam por atos irrefletidos e de nenhuma conse-
quência. A mentira somente, e um pouco
menos a obstinação, parece-me, é que deve-
riam ser combatidas desde cedo, pois com a
criança crescem e se desenvolvem. E bem difi-
cil se torna extirpá-las quando se transformam
em hábito. Daí o fato de muitos homens, 'pelos
demais pontos de vista honestos, se “abaúido-
narem a tais vícios e a eles se escravizarem.
Conheço um alfaiate, bom sujeito, a quem
ninca ouvi dizer a verdade, mesmo quando lhe
era útil. Se, como a verdade, tivesse a mentira
uma só face, eu a poderia ainda admitir, pois
bastaria considerar certo o contrário do que
dissesse o mentiroso; mas há cem mil maneiras
de exprimir o reverso da verdade e o campo de
ação da mentira não comporta limites. Os
pitagoristas tinham para eles que o bem é coisa
certa e delimitada, o mal incerto e infinito. Mil
caminhos desviam da meta, um só conduz a
ela. Por certo não posso garantir que tenha
força de vontade bastante para não perpetrar
uma solene e desabusada mentira a fim de
escapar a um perigo extremo e evidente. Disse
um antigo prelado que é preferível a compa-
nhia de um cão à de um homem cuja lingua-
gem desconhecemos. — Assim dois homens de
países diferentes não são homens em relação
um do outro *º. Quanto é mais sociável o silên-
cio do que a linguagem mentirosa!
O Rei Francisco I vangloriava-se de ter, à
5º Michaut interpreta a frase: “si réputation y est,
Peffet n'y peut être” de maneira que me parece
demasiado livre. Diz, com efeito, “não vêem que
uma vez estabelecida a reputação cessa o proveito
obtido pela habilidade”. (N. do T.)
8º Plínio.
força de questioná-lo, confundido a Francisco
Taverna, embaixador de Francisco Sforza,
Duque de Milão, homem com grande reputa-
ção de saber falar e que lhe fora enviado para
justificar um ato grave de seu senhor. O rei,
para continuar a manter contatos na Itália, de
onde acabara de ser repelido, e contatos preci-
samente no ducado de Milão, imaginara colo-
car junto ao duque um de seus fidalgos, na rea-
lidade um embaixador, mas para todos os
efeitos um simples cidadão em viagem de
negócios. O duque tinha ele próprio grande
interesse em não aparentar quaisquer relações
conosco, estando muito mais sob a depen-
dência do imperador do que sob a nossa,
principalmente nesse momento em que nego-
ciava seu casamento com a sobrinha do sobe-
rano, filha do rei da Dinamarca e atualmente
Duquesa de Lorena. Para isso escolheu o rei
um Sr: Merveille, fidalgo milanês, seu escudei-
ro. Merveille partiu com instruções e cartas
secretas, acreditando-o como embaixador, às
quais cartas se juntaram outras que O reco-
mendavam ao duque a respeito de seus negó-
cios pessoais, destinadas estas últimas a serem
apresentadas publicamente a fim de dissimular
sua verdadeira missão. Mas Merveille perma-
neceu tão longo tempo junto do duque, que o
imperador veio a desconfiar, o que, acredito,
deu causa ao que segue: inculpando-o de
assassínio, mandou o duque certa noite corta-
rem-lhe a cabeça, sendo o processo liquidado
em dois dias. O rei, desejando reparação pelo
ato, dirigiu-se a todos os príncipes da cristan-
dade e ao próprio dugue; e o Sr. Taverna,
enviado a fim de expor o caso devidamente
alterado para as necessidades da causa, foi
recebido na audiência da manhã. Como base
de seu arrazoado, depois de apresentar o fato
da maneira mais favorável ao duque, disse que
este sempre considerara Merveille um simples
fidalgo, súdito seu aliás, vindo a Milão a negó-
cios. E negou que o dúque soubesse pertencer
ele ao séquito do rei, e até que Sua Majestade
o conhecesse, não tendo tido nunca a idéia de
ver nele um embaixador. O rei, por sua vez,
apertou-o com perguntas e objeções, atacan-
do-o de todos os lados, e, chegando finalmente
ao caso da execução, indagou por que se fizera
ela à noite, como que às escondidas. Ao que o
pobre homem confundido, pensando ser cortês,
respondeu que o duque, dado o respeito que
tinha por Sua Majestade, teria se aborrecido
imenso com uma execução à luz do dia. Pode-
se imaginar quanto terá sido repreendido de-
pois de tamanho despropósito.
O Papa Júlio II enviara um embaixador ao
rei da Inglaterra a fim de convencê-lo a agir
contra aquele mesmo rei de França. Tendo o
28 MONTAIGNE
enviado exposto sua missão, objetou o rei da
Inglaterra mostrando, pormenorizadamente, as
dificuldades que se opunham à reunião das for-
ças contra tão poderoso adversário. Ao que
replicou o embaixador, intempestivamente,
que tais motivos também lhe tinham vindo ao
espírito e os submetera à apreciação do papa.
Essas palavras, tão pouco hábeis no que dizia
respeito à missão de convencer o rei, deram a
pensar a este, o que depois se verificou. ser
exato, que o embaixador se inclinava pela
França. Comunicou então sua dúvida ao papa,
o qual confiscou os bens de seu representante e
pouco faltou para que o mandasse executar.
É CAPÍTULO X
Dos que improvisam e dos que se
preparam para falar
“Nunca foi dado a ninguém cumular todos
os dons da natureza º'.” Assim acontece que
entre aqueles a quem foi dado o dom da
eloquência, alguns há cuja palavra é pronta e
fácil e têm a réplica tão viva que nunca
falham, enquanto outros mais tardios só falam
“depois de longamente elaborado o tema de
antemão escolhido.
Aconselham às mulheres que se dediquem
de preferência à ginástica e aos jogos susceti-
veis de valorizar sua graça; pois se me cou-
besse opinar acerca das vantagens desses tipos
de eloquência que parecem, em nosso século,
ser apanágio de predicadores e advogados,
diria que aos primeiros convém melhor a pala-
vra meditada e aos segundos o contrário, pois
ao predicador não falta tempo para preparar-
se, e quando prega o faz de um fôlego sem que
o interrompam, ao passo que o advogado pre-
cisa estar sempre pronto para o debate.
As réplicas imprevistas da parte contrária o
mantêm na incerteza do que deve dizer e o
obrigam a todo irstante a modificar seu ponto
de partida.
Foi entretanto o oposto que aconteceu quan-
do da entrevista, em Marselha, do Papa Cle-
mente com o Rei Francisco I. O Sr. Poyet, que
passara sua vida no tribunal e aí granjeara
uma bela reputação, foi encarregado de aren-
gar Sua Santidade. Para tanto, preparara-se de
longa data, tendo mesmo trazido, dizem, seu
discurso pronto de Paris. No dia em que o ia
pronunciar, O papa, receoso de vê-lo ventilar
assunto suscetível de magoar algum dos
embaixadores dos demais príncipes presentes,
comunicou ao rei o tema que se lhe afigurava
81 La Boétie.
mais apropriado ao momento e ao lugar e que
se verificou ser, infelizmente, bem diverso
daquele em que trabalhara o Sr. Poyet. Assim,
em não servindo a arenga preparada, cum-
pria-lhe fazer outra sem perda de tempo.
Como ele se julgasse incapaz de fazê-lo, da
coisa se encarregou o Cardeal Du Bellay. A ta-
refa do advogado é mais difícil que a do predi-
cador e no entanto creio se encontrar em Fran-
ça número maior de bons advogados que de
bons oradores sacros. É de se acreditar sejam a
vivacidade e a improvisação peculiares ao
espírito, ao passo que a calma e a prudência
caracterizam a sabedoria. Quanto ao indivíduo
que permanece inteiramente mudo se não pôde
preparar seu discurso, é seu caso tão estranho
quanto o de quem teve todo lazer de meditar
para fazer melhor e não o conseguiu.
Contam que Severo Cássio falava tanto me-
lhor quanto menos. preparado e mais devia,
portanto, ao talento que ao trabalho. Tão bem
o serviam os apartes, quando discursava, que
seus adversários hesitavam em provocâ-lo, de
medo que a cólera lhe ampliasse a eloquência.
Conheço por experiência esse gênero particu-
lar de talento oratório que dispensa o estudo
prévio e aprofundado e, se não se exprime ale-
gre e livremente, nada de bom produz. Dize-
mos de certas obras que sabem a azeite de lam-
parina, em virtude da parte excessiva de
trabalho que exigiram. Por outro lado, o desejo
de fazer bem, e essa contenção do espírito por
demais atento à sua tarefa, exaurem-no, tra-
vam-no, e, por vezes, o inibem. Da mesma
forma a água, quando sob forte pressão, pela
abundância e violência com que chega, não -
pode jorrar por um gargalo estreito ainda que
4|
o orifício se ache aberto. Ocorre também que
ENSAIOS— I 29
talentos oratórios dessa natureza não necessi-
tam de paixões violentas e que exaltam como a
cólera de Cássio. Eles não querem ser sacudi-
dos e sim solicitados. O de que precisam, para
acordarem e se inflamarem, é ser solicitados
pelos incidentes ocasionais, fortuitos. Se nada
OS freia, arrastam-se e esmorecem; a agitação
dá-lhes vida e graça.
A esse respeito não me domino por comple-
to. O acaso é meu senhor: a oportunidade, a
companhia, o próprio fogo das minhas pala-
vras atuam sobre meu espírito que produz
então muito mais do que quando com ele me
isolo, o consulto e o obrigo a trabalhar. Daí
valerem mais minhas palavras do que meus
escritos, se é que se deva escolher entre coisas
sem valor. E advém disso que não me encontre
onde me procuro, e mais me descubra por
acaso, do que apelando para a inteligência. E
se escrevo algo espirituoso (insignificante tal-
vez para os outros mas cheio de sutileza para
mim — mas deixemos de lado tais considera-
ções que cada qual age como pode) ocorre-me
perder-lhe de tal maneira o sentido que outros
descobrem por vezes, antes de mim, O que quis
dizer. E se raspasse todos esses trechos de
meus escritos, de tudo me desfaria. De outras
feitas, entretanto, acontecer-me-á achá-lo tão
claro quanto o sol do meio-dia. E me espanto
então com a minha hesitação.
CAPÍTULO XI
Dos prognósticos
s
Quanto aos oráculos, é certo que já bem
antes de Jesus Cristo não lhes davam muita
importância, pois vemos Cicero esforçar-se
por descobrir a causa do seu descrédito: “De
onde vem que em nossos dias, e até de há
muito, Delfo não mais pronuncia tais orácu-
los? De onde vem que nada se despreza
mais? 2? — Quanto aos demais prognósticos,
como os que se induziam da anatomia dos ani-
mais sacrificados e cuja constituição física,
segundo Piatão, fora em parte destinada pelo
Criador a esse gênero de observações 82, os
que decorriam do saltitar dos frangos ou do
vôo dos pássaros (“acreditamos que há pássa-
ros que nascem expressamente para servir a
arte dos augúrios” $*) ou do raio, dos redemoi-
nhos (“os arúspices vêem quantidade de coi-
sas; os áugures prevêem outro tanto; numero-
sos acontecimentos são anunciados pelos
oráculos, outros pelos vaticínios, outros pelos
sonhos, outros ainda pelos milagres” 8 º) e ou-
tros que na antiguidade intervinham na maio-
ria dos empreendimentos públicos e privados,
aboliu-os a nossa religião. Entretanto, ainda
restam alguns meios de adivinhação, em parti-
82 Cícero.
83 Adotou-se a interpretação de Michaut, dada a
construção extremamente obscura da frase. (N. do
T.)
84 Cicero.
65 Td.
cular os astros, os espíritos, as linhas-de nosso -
corpo, os sonhos, etc., testemunhos irrecusá-
veis da desesperada curiosidade que está em
nós e faz que percamos nosso tempo em nos
preocuparmos com as coisas futuras, como se
não nos bastasse digerir as coisas presentes:
“Por que, ó senhor do Olimpo, quando
os pobres mortais são presa de tantos
males presentes, lhes dar ainda a
conhecer, mediante presságios, as des-
graças futuras? Se teus desígnios
devem cumprir-se, faze que permane-
.Çam secretos e nos atinjam inespera-
damente! Que nos seja permitido ao
menos esperar tremendo * 8.”
“Nada se ganha em conhecer o futuro; e
infeliz é quem se atormenta em vão $ 7.” Como
quer que seja, a adivinhação tem bem menor
autoridade hoje. Eis por que o exemplo de
François, Marquês de Saluce, me parece notá-
vel. Esse marquês comandava, além Alpes, o
exército: de Francisco I. Tinha prestígio na
Corte e devia mesmo ao rei o marquesado con-
fiscado a seu irmão. Sem nenhuma razão para
fazer como o fez, agindo contra suas próprias
afeições, deixou-se no entanto impressionar a
tal ponto (como se viu) pelas belas profecias
88 Lucano.
87 Cícero.
30 MONTAIGNE
favoráveis a Carlos Quinto, por toda parte
divulgadas (na Itália tais profecias foram leva-
das tão a sério que em Roma fortes importân-
cias em dinheiro se comprometeram na expec-
tativa de nossa desgraça), que, embora se
tivesse no intimo condoido da nossa ruína, nos
abandonou e se passou para O inimigo. Para
sua desgraça, entretanto, qualquer que tenha
sido a constelação sob cuja influência agiu.
Tomando tal decisão, conduziu-se contudo
como um homem solicitado pelos sentimentos
mais antagônicos, pois, senhor das cidades e
das forças que possuíamos, e estando o exér-
cito inimigo sob as ordens de Antoine de Leves
nas imediações, sem que ninguém o suspei-
tasse, podia fazer-nos pior do que fez, por-
quanto com sua traição não perdemos um só
homem, nem uma só cidade, salvo Fossano e
ainda assim após longa disputa. “Um Deus
avisado escondeu-nos os acontecimentos do
futuro sob uma noite espessa, e ri-se do mortal
que se inquieta mais do que deve acerca do
destino. .: E senhor de si próprio e passa a
existência feliz quem pode dizer diariamente:
que importa se amanhã Júpiter escurecer a
atmosfera sob nuvens sombrias ou nos der um
céu sereno; satisfeitos com o presente, evite-
mos preocupar-nos com o futuro º8.”
E erram os que interpretam como contrário
a nossa tese o seguinte aforismo: “Há quem
assim raciocine: se existe adivinhação, existem
deuses; se existem deuses, existe adivinha-
ção 8º? Pacúvio diz muito mais sabiamente:
“os homens entendidos no falar dos pássaros,
aqueles a quem um figado de animal mais do
que a própria razão acalma, mais vale ouvi-los
do que neles crer”.
Assim teve origem essa arte da adivinhação
dos toscanos, os quais nela se tornaram céle-
bres: um camponês lavrava o seu campo; o
ferro do arado penetrando profundamente a
terra fez surgir Tages, semideus dos adivinhos,
que ao rosto de criança junta a prudência do
ancião. Acorreu gente de toda parte e suas
palavras e sua ciência, que continham os prin-
cipios e os meios dessa arte, foram avidamente
recolhidas e transmitidas através dos séculos.
Origem digna do seu desenvolvimento. Quanto
a mim, prefiro ainda resolver os meus negócios
nos dados a fazê-lo pela interpretação dos
sonhos. Na realidade, em todos os governos
sempre se entregou parte da autoridade ao
acaso. Na República que Platão organiza a
seu modo a decisão de vários atos importantes
é-lhe atribuída. Entre outras coisas propõe que
os casamentos entre pessoas honestas se reali-
88 Horácio.
69 Cicero.
zem por sorte. E leva tão a sério essa dleição
fortuita que aos filhos dela resultantes deter-
mina sejam educados no país mesmo, en-
quanto aos que nascem de uniões contratadas
por gente ruim'º determina que se exilem.
Entretanto, se por acaso uma destas crianças
ao crescer se revela capaz, pode-se chamá-la à
terra, bem como se pode exilar aquela que,
entre as outras, não demonstre aptidões na
adolescência.
Conheço quem estudando e comentando,
seus almanaques ressalta a exatidão das previ-
sões aplicadas aos fatos do presente. Em meio
a tantas palavras há de haver mentiras e verda-
des. — “Ao se atirar ao alvo o dia inteiro, al-
guma vez se atingirá a meta?!” Não dou
importância ao fato de por vezes acertarem,
pois seriam de muito maior utilidade se acon-
tecesse sempre o contrário do que predizem.
Como ninguém anota seus erros, tanto mais
quanto constituem a norma e são infinitos,
fácil se torna valorizar-lhes as ocasionais
adivinhações, como raras, incríveis, prodigio-
sas. Eis por que Diágoras, apelidado o ateu,
respondeu a alguém que lhe mostrava na ilha
de Samotrácia um templo no qual se viam inú-
meros ex-votos e quadros comemorativos da
autoria de pessoas que se haviam salvo de
naufrágios, e dizia: — “Então? Você que acre-
dita se desinteressem os deuses das coisas
humanas, que pensa de tantos indivíduos sal-
vos graças a eles?” — “E, mas os que perece-
ram nada pintaram e são muito mais numero-
sos.”
Cicero disse que somente Xenófanes de Có-
lofon, entre os filósofos que admitiram a exis-
tência dos deuses, se esforçou por combater
toda espécie de adivinhação. O que não é de se
estranhar 2, porquanto vimos por vezes, e em
seu detrimento, alguns espíritos de elite se ate-
rem a tais tolices.
Duas maravilhas há no gênero que eu gosta-
ria de ter visto: o livro de Joaquim, abade da
Calábria, predizendo todos os papas futuros
com seus nomes e particularidades, e o livro
do Imperador Leão que profetizava os impera-
dores e patriarcas gregos. Mas o que vi com os
meus olhos é que nas perturbações públicas
certas pessoas, surpreendidas com os aconteci-
mentos, se entregam a práticas supersticiosas,
buscando na observação dos astros as causas €
Os sinais precursores de suas desgraças. E com
isso se sentem tão felizes que estou persuadido
7º Os não sorteados.
71 Cícero.
72 Montaigne escreve: “D'autant est-il moins de
merveille”, o que também se poderia traduzir “não
há como surpreender-se”. (N. do T.) aa
ENSAIOS —I 31
tratar-se de um passatempo divertido para os
espíritos sutis e ociosos, e acredito que quem
adquire suficiente destreza para inventar e
interpretar acha o que bem entenda em qual-
quer escrito. Facilita-lhes a tarefa o falar obs-
curo, ambíguo, fantasista do jargão profético,
pois os que o empregam abstêm-se de se expri-
mirem com clareza, a fim de que a posteridade
possa arranjâ-lo a seu gosto.
O' demônio familiar de Sócrates consistia
provavelmente em certas inspirações que se
apresentavam a ele sem passar pelarazão”?.
73 Discours. O vocábulo de que Montaigne usa
repetidamente apresenta-se com sentidos diversos.
Razão, no caso, significa, outras vezes, conversa-
ção, inteligência, entendimento. (N. do T.)
Em alma tão pura quanto a sua, feita por intei-
ro de sabedoria e virtude, é de crer-se que, em-
bora ousadas e inadmissíveis, tais inspirações
eram sempre importantes e dignas de se ouvi-
rem. Não há quem não sinta em si mesmo por
I E “14.
vezes semelhante obsessão de uma idéia brus-
ca, veemente e fortuita. Cabe a cada um de nós
dar-lhe ou não certa consistência, a despeito
do que manda a prudência à qual fazemos
ouvidos moucos. Tive-ás eu próprio, carece-
doras de razão mas violentamente persuasivas,
ou ao contrário (como era o caso de Sócrates),
e a elas me abandonei com tamanha felicidade
que quase poderia atribuir-lhes uma origem
divina.
CAPÍTULO XII
Da perseverança” “
A lei da resolução e da perseverança não
implica em que não devamos nos precaver, na
medida de nossas forças, contra os males e
"inconvenientes que nos podem ameaçar, nem
deixar de recear que nos surpreendam. Muito
pelo contrário, todo meio honesto de evitar um
mal é não somente lícito mas também louvá-
vel. À perseverança consiste em suportar com
resignação os incômodos para os quais não
temos remédio. Por isso não há movimento de
agilidade corporal ou manejo de armas que
devamos achar ruins desde que sirvam para
defender-nos dos golpes que nos assestam.
Em muitas nações belicosas era a fuga um
dos principais métodos de combate e o inimigo
ao qual viravam as costas tinha então mais a
temer do que quando as viam de frente. E um
pouco o que fazem os turcos. Sócrates, segun-
do Platão, criticava Lachez, o qual assim defi-
nia a coragem: “Não recuar diante do inimi-
go.” Como? dizia Sócrates, há então
covardia em vencer o inimigo cedendo-lhe ter-
reno? — E em apoio de suas palavras citava
Homero que louva, em Enéias, a ciência de
simular a fuga. A Lachez que, contradizendo-
74 Constance, diz Montaigne, o que significa tena-
cidade, e também perseverança, firmeza de ânimo.
Neste sentido a emprega o ensaísta. (N. do T.)
se, reconhecia ser o método praticado pelos
citas e em geral por todos os povos que com-
batem a cavalo, ele assinala ainda os guerrei-
ros lacedemônios treinados para o combate a
pé e que, na jornada de Platéia, não podendo
abrir brecha na falange dos persas, tiveram a
idéia de ceder e recuar, a fim de que, imaginan-
do-os em fuga e nada terem a fazer senão
persegui-los, se desagregasse a massa por si
mesma, estratagema que lhes deu a vitória.
Voltando aos citas, quando Dario marchou
contra eles na intenção de subjugá-los, censu-
rou, dizem, a atitude do monarca inimigo que
se retirava sem cessar, recusando o combate.
Ao que Inatirsez respondeu: que não era por
ter medo dele, como não tinha de nenhum
outro ser vivo, mas era a maneira de lutar de
seu povo, o qual não possuia terras cultivadas,
nem casas, nem cidades a defender e que
temesse viessem a ser aproveitadas pelo inimi-
go. Entretanto, se o desejo de Dario, de chegar
as vias de fato, fosse grande, que se aproxi-
masse da sepultura dos antepassados dos citas
e ali encontraria com quem pelejar à vontade.
Diante do canhão, porém, quando já se está
visado, como acontece em certas circuns-
tâncias da guerra, não convém fugir de medo
do tiro, tanto mais quanto pela sua rapidez e
imprevisibilidade é quase inevitável. Por isso
32 MONTAIGNE
de muito soldado zombaram os companheiros
ao vê-lo, nessas ocasiões, erguer a mão ou bai-
xar a cabeça a fim de deter ou evitar o projétil.
No entanto, quando, da invasão da Provença
pelo Imperador Carlos Quinto, o Marquês du
Guast, expondo-se fora do abrigo constituído
por um moinho durante um reconhecimento
diante da cidade de Asles, foi visto pelo Sr. de
Bonneval e o senescal d'Azenois, que passea-
vam pelas arenas. Eles o assinalaram ao Sr. de
Villiers, comandante da artilharia, o qual com
tamanha precisão regulou a colubrina que se o
marquês não tivesse dado um salto para o
lado, ao ver acender a peça, fora atingido em
cheio. Assim também, anos antes, Lourenço de
Médicis, Duque de Urbino, pai da Rainha
Catarina, mãe do nosso rei, sitiando Mondol-
fo, na região do Vicariato, vendo acenderem
uma peça apontada em sua direção, abaixou-
se. E fez bem, porquanto de outro modo o tiro
que lhe raspou a cabeça o teria alcançado no
estômago. Em verdade, não creio que tais
movimentos se efetuassem em virtude de
algum raciocínio, pois como verificar a mira
em coisa tão repentina? Muito mais judicioso
me parece imaginar que O acaso favoreceu o
medo, e que em outras circunstâncias o contrá-
rio poderia ocorrer e ir a vitima ao encontro do
tiro em vez de evitá-lo. Não posso deixar de
tremer quando o ruído do arcabuz soa inopina-
damente a meus ouvidos em lugar em que não .
o espero, e essa mesma impressão eu a percebi
igualmente em outras pessoas mais valentes do
que eu.
Os estóicos não afirmam que a alma do
sábio possa resistir desde logo às sensações e
visões que o surpreendam. Admitem como
natural impressionar-se, por exemplo, com um
estrondo provindo do céu ou de uma ruína;
admitem que pode empalidecer, contrair-se
como sob a influência de uma paixão qual-
quer, mas que ele deve conservar intata sua
lucidez, sem que se lhe altere a razão; de
maneira a não ceder ante o terror e o sofri-
mento. Quem não é sábio conduz-se do mesmo
modo quanto à primeira parte, mas muito
diversamente quanto à segunda: a impressão
da emoção não será nele apenas superficial;
penetrará até a sede da razão, infetando-a e a
corrompendo. E será com essa faculdade
assim viciada que julgará e se conduzirá.
“Chora, mas seu coração continua inabalá-
vel? *?2. O sábio dos peripatéticos não perma-
nece insensível às emoções, mas as modera.
75 Virgílio.
CapíTULO XIII
Cerimonial das entrevistas reais
Não há assunto, por mais fútil que seja, que
não caiba nesta rapsódia 7 º. Segundo os nossos
usos, seria grave falta de cortesia para com um
igual, e mais ainda para com um grande, não
nos encontrarmos em casa quando ele nos pre-
veniu que viria visitar-nos. Margarida, rainha
de Navarra, acrescentava mesmo, a propósito,
que, no fidalgo, seria falta de polidez deixar a
casa, como ocorre amiúde, a fim de ir ao
encontro do visitante, qualquer que seja o seu
nível; que é mais respeitoso e delicado esperá-
lo, ainda que seja apenas de medo de um
desencontro, bastando acompanhá-lo tão so-
mente à saída. Libertando-me, quanto a mim,
o mais possível de quaisquer atitudes cerimo-
niosas, esqueço não raro uma e outra dessas
fúteis obrigações. Há quem se ofenda com
isso, mas que hei de fazer? É melhor que eu
?8 No sentido de conjunto de fragmentos — no
caso de ensaios. (N. do T.)
ofenda alguém uma vez do que ser aborrecido
diariamente, o que redundaria em contínuo
constrangimento. E de que serviria ter fugido
da servidão da Corte se tal servidão nos deves-
se perseguir no retiro? É igualmente de regra
sejam os personagens menos importantes os
primeiros a chegar, como fazer-se esperar é
muito bem visto entre as pessoas de alta condi-
ção social.
Entretanto, na entrevista que ocorreu em
Marselha entre o Papa Clemente VIL e o Rei
Francisco I, este, após haver ordenado os
preparativos necessários, afastou-se da cidade
durante dois ou três dias a fim de que pudesse
aquele descansar antes de se encontrarem.
Igualmente na entrevista de Bolonha, entre
esse mesmo papa e o Imperador Carlos Quin-
to, este se arranjou para que Sua Santidade
chegasse em primeiro lugar. Isso a fim de que,
dizia, o mais importante esteja antes que O
outro no local assinalado, antes mesmo dague-
ENSAIOS —I 33
le no país do qual se realiza a entrevista, pois
desse modo há de parecer que ao de condição
menos elevada cabe procurar o outro e não o
contrário. E )
Não somente cada país, mas também cada
cidade e até cada profissão têm, em questões
de civilidade, seus usos próprios. Fui cuidado-
samente educado na infância a esse respeito e
vivi bastante na boa sociedade para não igno-
rar Os que se praticam em França. Poderia
ensiná-los aos outros. Gosto de obedecer a tais
regras, mas não a ponto de perturbar minha
vida. Muitas dessas regras são incômodas e
não deixamos de mostrar boa educação se por
discrição ou ignorância omitimos algumas. Ao
contrário pude ver certas pessoas faltarem aos
deveres da polidez, porque os exageraram até
se tornarem importunos.
Em verdade, utilíssima é uma tal ciência.
Como a graça e a beleza, ela nos abre as por-
tas da sociedade e da intimidade das gentes;
dá-nos ademais a oportunidade de nos ins-
truirmos pelo que vemos fazerem os outros e
por estes é aproveitado o que nós mesmos
fazemos.
CAPÍTULO XIV
O bem e o mal só o são, as mais das vezes, pela
idéia que deles temos
Os homens, diz antigo ditado grego, ator-
mentam-se com a idéia que têm das coisas €
não com as coisas em sit. Seria grande passo,
em alívio da nossa miserável condição, se se
provasse que isso é uma verdade absoluta.
Pois se o mal só tem acesso em nós porque jul-
gamos que o seja, parece que estaria em nosso
poder, ou não o levarmos a sério ou o colocar-
mos a nosso serviço. Se tal coisa depende de
nós, por que não a resolveremos, liquidando-a
ou tirando vantagem dela? Se aquilo a que
chamamos mal não é nem mal nem tormento,
e se somente nossa fantasia lhe atribui tal qua-
lidade, podemos modificá-lo. E, em o podendo,
é absurdo de nossa parte, e sem que nada nos
obrigue, apegarmo-nos à solução mais aborre-
cida. E por que atribuir à doença, à indigência,
ao desprezo um gosto ácido e mau se o pode-
mos modificar? Pois o destino apenas suscita
o incidente; a nós é que cabe determinar a qua-
lidade de seus efeitos. Vejamos portanto se é
possivel afirmar com autoridade que aquilo a
que chamamos mal não o é em si, ou, o que dá
na mesma, se ainda que o seja depende de nós
mudar-lhe a aparência e as consequências.
Se as coisas que tememos tivessem um cará-
ter próprio, a todos se imporiam de igual
maneira, produzindo idênticas consequências.
Todos os homens são, efetivamente, da mesma
espécie e, com pequenas diferenças, providos
de órgãos semelhantes, instrumentos de con-
cepção e julgamento. A diversidade de opi-
niões acerca das coisas mostra claramente que
atuam sobre nós segundo um dado estado de
espírito. Quando um que seja as admita como
são realmente, mil outros as deformam e modi-
ficam. Encaramos a morte, a pobreza e a dor
como nossos piores inimigos. Ora, essa morte
que alguns consideram “a mais horrivel entre
as coisas horriveis” outros a julgam “o único
refúgio contra os tormentos da vida — o
maior benefício que nos deu a natureza — a
única garantia de nossa liberdade — o único
amparo imediato e comum a todos contra os
males”. Aguardam-na alguns a tremerem de
medo; outros, preferem-na à vida. E não falta
até quem a considere demasiado acessível: “Ó
morte, quisessem os deuses que desdenhasses
os poltrões e que somente a virtude merecesse
tua preferência? ?.? Mas não nos ocupemos
com tão gloriosas coragens.
Teodoro respondeu a Lisimaco que amea-
çava matá-lo: — “Farás uma bela coisa, à
semelhança do que pode fazer a cantárida.”
Em sua maioria os filósofos propositadamente
se adiantaram à chegada da morte, ou se
apressaram, ajudando-a. Quanta gente do
povo nos é dado ver que, ao ser conduzida
para a morte, e não simplesmente para a morte
mas para a morte ignominiosa, acompanhada
as vezes de cruéis suplícios, demonstra grande
firmeza de ânimo, ou por ostentação ou natu-
7? Lucano.
34 MONTAIGNE
ralmente, a ponto que se diria nada ter mudado
em sua vida? Tais indivíduos resolvem seus
problemas domésticos, fazem recomendações
aos amigos, cantam, dirigem exortações à mul-
tidão, não desdenhando, não raro, a piada. E
bebem à saúde de seus conhecidos com cora-
gem idêntica à de Sócrates.
Um deles, que conduziam àforca, pediu que
“evitassem de passar por tal rua porquanto
corria O risco de encontrar certo negociante a
quem devia um dinheirinho e receava ser
preso”. Outro disse ao carrasco que não lhe
bulisse no pescoço, pois era muito coceguento
e poderia ter um acesso de riso. Outro respon-
deu ao confessor que lhe afirmava cearia à
noite com Nosso Senhor: — Vá em meu lugar,
hoje estou de jejum. — Outro, que pedira para
beber, vendo o carrasco fazê-lo antes, no
mesmo recipiente, recusou “com medo da sifi-
lis”. Conhecem todos a história daquele picar-
do a quem, quando subia a escada para a
forca, apresentaram uma mulher prometendo-
lhe mercê se com ela casasse. Ele a examinou
um instante, e voltando-se para o carrasco
exclamou: “cumpre o teu dever, é coxa”. Con-
tam que na Dinamarca igual ocorrência se
verificou. A um condenado à decapitação fize-
ram idêntica proposta e ele a recusou porque a
moça tinha as bochechas caídas e o nariz
muito pontudo. Em Tolosa, um lacaio, acusa-
do de heresia, dava como única razão de sua
crença a palavra de seu patrão, jovem clérigo,
como ele preso. Pois preferiu a morte a dei-
xar-se persuadir do erro de seu senhor. E rela-
tam as crônicas que em Arrás, ao se apoderar
Luís XI da cidade, muita gente do povo se
entregou à prisão para não gritar “Viva o rei”.
Entre os bufões, seres assaz desprezíveis,
houve quem conservasse até o último instante
o espírito jocoso. Um deles, condenado à
forca, no momento em que o carrasco o
empurrava no vácuo, exclamou: Viva o pra-
zer! o que era seu refrão habitual. Outro, a
ponto de morrer, fora estendido sobre uma
esteira junto à lareira e lhe perguntou o médico
onde lhe doia: — Entre a cama e a chama,
respondeu 78. E ao padre que, para ministrar-
lhe a extrema-unção, lhe procurava os pés
encolhidos e crispados pela enfermidade, ob-
servou: vós os achareis na ponta de minhas
pernas. E exortando-o um dos presentes a
recomendar-se a Deus: Vai alguém vê-lo hoje?
Ao que o outro retorquiu: Tu mesmo, e dentro
em breve, se Lhe aprouver. — Não poderá ser
amanhã à noite? —— Amanhã ou outro qual-
78 O trocadilho “Entre le banc” (leito superior,
céu) “et le feu” (fogo da lareira, inferno) é intradu-
zível. (N, do T.)
quer momento pouco importa; não demorará
muito, por isso trata de te recomendares a Ele.
— Então é melhor que eu mesmo apresente as
recomendações.
No reino de Narsinghpur as mulheres dos
sacerdotes são ainda hoje enterradas vivas
com os corpos de seus maridos; as outras
mulheres que não pertencem à mesma casta
são queimadas vivas nos funerais de seus espo-
sos e todas suportam a sorte não somente com
firmeza de ânimo, mas também com alegria. À
morte do rei, suas mulheres, suas concubinas,
seus favoritos, seus oficiais e servidores apre-
sentam-sg om fervor à fogueira em que arde o
seu senhor e na qual vão precipitar-se, conside-
rando grande honra acompanhá-lo ao outro
mundo.
Durante nossas últimas guerras na região
milanesa, foi Milão tantas vezes tomada e reto-
mada que o povo, impacientado com essas
mudanças repetidas de destino, adquiriu tal
indiferença ante a morte, que meu pai — de
quem eu o ouvi — contou que, de uma feita,
em uma só semana, vinte e cinco chefes de
família se suicidaram. Esse fato lembra o'que
ocorreu no sítio de Xanthe a Bruto. Os habi-
tantes, homens, mulheres e crianças, precipita-
ram-se em massa ao encontro da morte e com
tal desejo de perder a vida, que mais não se
teria feito para salvá-la. E foi somente com
penosos esforços que pôde Bruto poupar
alguns.
Qualquer idéia pode apoderar-se de nós com
força bastante para que a sustentemos até a
morte. O primeiro artigo do juramento, tão
impregnado de coragem, que fizeram os gregos
durante as guerras médicas, determinava que
todos se comprometessem antes a morrer do
que a se sujeitar a dominação dos persas. E
quantos na guerra entre turcos e gregos preferi-
ram a morte cruel a renunciar a circuncisão e a
aceitar o batismo? E de atos semelhantes há
exemplos em todas as religiões.
Tendo os reis de Castela banido os judeus
de suas terras, vendeu-lhes o Rei João de Por-
tugal, à razão de oito escudos por cabeça, a
faculdade de se refugiarem em seu reino duran-
te determinado tempo, ao fim do qual deviam
partir. Para tanto se comprometia a fornecer-
lhes navios que os transportassem à África.
Vencido o prazo, após o qual os que não dei-
xassem o território seriam reduzidos à escravi-
dão, verificou-se haver número escasso de
embarcações. Os que puderam embarcar, rude-
mente maltratados pelas equipagens, sofreram
mil e uma indignidâdes; e andaram a navegar
de um lado para outro até que, esgotadas as
provisões, se vissem constrangidos a comprá-
las, e mui caro, dos que os transportavam, a
ENSAIOS — IT 35
ponto de, em se prolongando tal estado de coi-
sas, chegarem a desembarcar com apenas a ca-
misa do corpo. Ao se informarem desse trata-
mento inumano, os que haviam ficado em
Portugal conformaram-se com a servidão. Al-
guns fingiram mesmo mudar de credo. O Rei
Manuel, sucessor de João, em subindo ao
trono, devolveu-lhes inicialmente a liberdade.
Mais tarde, mudando de opinião, ordenou-lhes
que saíssem do reino e lhes assinou três portos
de embarque. Diz o Bispo Osório, historiador
latino digno de fé em nossa época e que escre-
veu a crônica daqueles tempos, que, em não os
tendo convertido a liberdade, esperava o rei se
decidissem ante tais condições, a fim de se
livrarem do saque dos marinheiros a que de-
viam ser entregues, ou ainda para não troca-
rem uma terra, a que se haviam acostumado e
na qual possuíam grandes riquezas, por qual-
quer região estrangeira deles desconhecida.
Vendo-os resolvidos a partir e assim perdidas
suas esperanças, o rei suprimiu dois dos portos
autorizados, ou porque esperasse que um per-
curso maior e os maiores incômodos disso
resultantes atemorizassem certo número, ou
porque em os reunindo todos em um só local
teria maiores facilidades na execução do proje-
to concebido de separá-los dos filhos menores
de catorze anos, os quais, longe dos pais, se
educariam segundo a nossa religião. Osório
acrescenta que a execução dessa medida teve
conseguências horríveis. A afeição natural
pelos filhos juntando-se ao apego à própria fé
(de encontro ao que se chocava a bárbara
ordem) fez que numerosos pais e mães se
destruíssem a si próprios e, espetáculo mais
horroroso ainda, por amor e compaixão, jogas-
sem os filhos em poços a fim de subtrai-los à
violência imposta. Finalmente, esgotado o
prazo para a partida, e dada a falta de meios
de transporte, retornaram os judeus à servidão.
Alguns se tornaram cristãos, mas ainda hoje,
cem anos passados, poucos portugueses estão
convencidos da sinceridade de sua fé, bem
como dos demais de sua raça, muito embora o
hábito e o tempo, mais do que a coerção,
sejam os fatores de maior influência nas
mudanças de tal natureza. Em Castelnaudary,
cinquenta albigenses, acusados de heresia,
recusaram-se a renegar sua crença e foram
queimados vivos, todos juntos, suportando o
suplício com uma coragem admirável:
“Quantas vezes vimos enfrentarem a morte
certa não somente nossos generais mas tam-
bém nossos exércitos inteiros 7º.”
Vi um de meus amigos íntimos desejar a
morte à força. Absolutamente imbuído dessa
79 Cicero.
idéia, que ele próprio enraizara em si atravês
de uma argumentação especiosa contra a qual
nada pude, valeu-se com ardor febril da pri-
meira oportunidade honrosa que se lhe ofere-
ceu para pô-la em prática sem que o percebes-
sem. Temos vários exemplos de pessoas,
inclusive crianças, que em nossa época se sui-
cidaram para abreviar a incômodos de nona-
da. A esse propósito não nos diz um autor
antigo: “Que não havemos de temer, se recea-
mos o que a própria covardia escolhe como
refúgio 280?
Não acabaria mais se aqui enumerasse
todos os indivíduos de sexos, condições e sei-
tas diferentes que, em tempos mais felizes,
aguardaram a morte com resolução, ou a pro-
curaram voluntariamente, e a procuraram não
somente para pôr fim aos males desta vida
como também, alguns, por andarem fartos dela
ou porque esperavam vida melhor no outro
mundo. São em número infinito, e mais cômo-
do me parece suputar aquelas para quem a
morte foi motivo de temor. Um exemplo basta:
estando o filósofo Pirro em um navio, presa de
violenta tempestade, aos que maior pavor
evidenciavam mostrava ele um porco indife-
rente ao temporal, e os instava a tomá-lo como
exemplo. Ousaremos pois sustentar que a
razão, essa faculdade de que tanto nos orgu-
lhamos, e em virtude da qual nos conside-
ramos donos e senhores dos demais seres, nos
foi dada para objeto de tormento? De que nos
serve entender as coisas se com isso nos torna-
mos mais covardes, se esse conhecimento nos
tira o repouso e a tranquilidade de que goza-
riamos sem ele, se nos reduz a condição pior
que a do porco de Pirro? Para nosso maior
bem é que fomos dotados de inteligência; por
que fazê-la voltar-se contra nós, contraria-
mente aos desígnios da natureza e à ordem
universal que querem que cada um use suas
faculdades e seus meios de ação da maneira
mais conveniente à sua comodidade?
Admitamos, direis, que tendes razão no que
concerne à morte, mas que pensais da indigên-
cia? E da dor, que ÁAristipo, Jerônimo e a
maioria dos sábios consideraram o maior dos
males, isso com que concordam, na realidade,
mesmo os que o negam em suas palavras?
Sofrendo Possidônio aguda crise de dolorosa
enfermidade, recebeu a visita de Pompeu, o
qual se desculpou de haver escolhido tão mau
momento para ouvi-lo divagar sobre filosofia:
“Não permita Deus”, disse o filósofo, “que me
domine a dor a ponto de me impedir de disser-
tar”, e pôs-se a falar precisamente acerca da
8º Montaigne não nomeia o autor, mas trata-se de
Sêneca.
36 MONTAIGNE
atitude de desprezo a ser assumida diante da
dor. Enquanto discorria, ia entretanto aumen-
tando o sofrimento: “Por mais que me casti-
gues, ó dor, jamais convirei em que és um
mal.” Que prova esta história de que se preva-
lecem- os filósofos para discursar acerca do
desprezo que devemos votar à dor? É questão
de palavras. Se não se comovia com as alfine-
tadas da dor, por que interrompeu seu discur-
so? Por que pensava fazer ato meritório em
não a chamando um mal? Não se trata aqui
simplesmente de imaginação. Podemos opinar
com conhecimento de causa, porquanto são
nossos próprios sentidos os juízes: “Se nos
enganam, a razão igualmente nos engana?!”
Poderemos forçar nossa came a admitir que
chicotadas sejam cócegas? E nosso paladar a
apreciar a babosa como um vinho Graves*2?
O porco de Pirro entra aqui em apoio de nossa
tese: não se apavora ante a morte iminente;
mas se o batermos, gritará. Negaremos a lei
geral da natureza, que se manifesta em tudo o
que, sob a abóbada celeste, tem vida e treme
ao golpe da dor? Até as árvores parecem
gemer quando as mutilamos!
Só sentimos a morte pelo pensamento, tanto
mais quanto é coisa de um instante: “Ou a
morte foi, ou será; nada é presente nela?”
Ela é menos cruel do que sua esperaº *. Milha-
res de homens, milhares de animais morrem
sem'se sentirem ameaçados. Dizemos também
que o que tememos principalmente na morte é
a dor, seu sinal precursor. Entretanto, a julgar:
por um Pai da Igreja: “A morte nac é um mal
senão pelo que vem depois? *.” Creio estar
mais perto da verdade dizendo que nem o que
a precede, nem o que a ela se segue são partes
integrantes-da morte. Falamos erroneamente a
esse respeito. A experiência mostra que é antes
a inquietação causada pelo sentimento da
morte que faz com que lhe sintamos vivamente
a dor, e nossos sofrimentos nos são penosos
quando os pressentimos capazes-de nos condu-
zir a tal fim. Mas o raciocinio enche-nos de
vergonha por temermos coisa tão repentina,
inevitável e que não se sente; e mascaramos
nossa covardia com os pretextos mais plausi-
veis. Os males que, como consequência, só nos
trázem sofrimento, nós os consideramos sem
perigo. Quem encara como doença as dores de
dentes, a gota, por dolorosas que sejam, se não
nos ameaçam a vida? 82
81 Lucrécio.
82 Bordéus branco.
83 La Boétie.
8* Ovídio.
85 Santo Agostinho.
se Há confusão de Montaigne quanto à gota, que
pode ser mortal.
Admitamos um momento que na morte
principalmente a dor nos preocupe. Não é tam-
bém a dor que se nos apresenta no caso da
pobreza, e no-la torna sensível pela sede, o
frio, o calor, as vigílias? Ocupemo-nos pois
unicamente com ela. Admito seja O pior aci-
dente que nos possa acontecer, e isso tanto
mais quanto sou 0 homem no mundo que lhe
quer mais mal, e a evito quanto posso, embora,
graças a Deus, não tenha tido por enquanto
muita intimidade com ela. Mas está em nós,
senão aniquilá-la, ao menos diminuí-la em nos
mostrando pacientes e em livrando dela nossa
alma e nossa inteligência, ainda mesmo que
mantenha em suas garras O nosso corpo. Se
assim não fosse, que valor teriam a virtude, a
valentia, a força, a magnanimidade, a firmeza
de ânimo? Que papel desempenhariam se não
pudéssemos desafiar a dor? “A virtude é ávida
de perigos* 7.” Se não devêssemos dormir ao
deus-dará, aguentar dentro da armadura o
calor do meio-dia, comer carne de cavalo e
asno, ser cortado em pedaços, deixar extraírem
uma bala da nossa came, sofrer quando nos
recosem ou nos cauterizam, ou nos colocam
sondas, como adquiririamos nossa superiori-
dade sobre o homem comum? E não nos con-
vidam os sábios a evitar o mal e a dor, quando.
nos dizem que entre muitas ações igualmente
boas cabe-nos desejar cumprir a que maiores
dificuldades apresenta em sua execução? “Não
é pela alegria e pelos prazeres, nem pelos
divertimentos e pelo riso, companheiros habi-
tuais da frivolidade, que nos tornamos felizes;
nós o somos também amiúde na tristeza, pela
decisão e pela perseverança**.” Eis por que
nossos pais nunca compreenderam que as con-
quistas feitas pela força e correndo os riscos da
guerra fóssem mais vantajosas do que as obti-
das sem perigo pela inteligência e pela diplo-
macia: “A virtude é tanto mais doce quanto
mais nos custa**º
Há mais, e isso nos deve consolar: é que,
naturalmente, “quando a dor é violenta, dura
pouco; e quando se prolonga, é leve”*º. Não a
sentimos muito tempo se é excessiva; ou deixa-
rã de sê-lo ou porá fim à nossa existência, o
que dá na mesma. Se não a podemos suportar
ela nos destrói: “Lembra-te de que as grandes
dores terminam com a morte; de que as peque-
nas nos deixam numerosos intervalos de
repouso e de que somos capazes de dominar as
de intensidade média. Enquanto são suportá-
veis; suportemo-las com paciência; se não o
87 Sêneca.
88 Cicero.
8% Tucano.
90 Cítero.
ENSAIOS — Ei
são, se a vida nos aborrece, saiamos dela como
de um teatro”! ?
O que faz que tão impacientemente suporte-
mos a dor é que não estamos habituados a pro-
curar em nossa alma nossa principal satisfa-
ção; não contamos suficientemente com ela,
que é a única e soberana senhora de nossa con-
dição neste mundo. O corpo só tem (salvo
quanto ao mais e ao menos) uma maneira de
ser e de fazer; a alma, sob formas diversas e
variadas e segundo o estado em que se acha,
submete a si as sensações do corpo e outros
acidentes. Dai a necessidade de estudá-la, e
acordar nela seus meios de ação que são todo-
poderosos. Não há raciocínio, nem prescrição,
nem força que possam prevalecer contra suas
preferências. Entre tantos milhares de meios à
nossa disposição, escolhamos um que assegure
nosso sossego € nossa conservação e estare-
mos não somente resguardados contra qual-
quer insulto, como também ofensas e males
redundarão, se nos aprouver, em vantagens
para nós. E talvez até nos regozijemos com
eles. A alma tira partido de tudo indiferente-
mente: erro e sonho servem-lhe tanto, quanto a
realidade, para nos proteger e satisfazer. E
fácil verificar que nosso estado de espírito é
que excita em nós a dor e a volúpia; nos ani-
mais, sobre os quais o espírito não atua, as
sensações físicas manifestam-se naturalmente,
tal qual são sentidas, e são por conseguinte
mais ou menos uniformes em cada espécie,
como se constata pela similitude das reações.
Se não interviéssemos ro comportamento de
nossos membros, pot certo nos sentiriamos
melhor, pois sem dúvida lhes deu a natureza
reações justas e moderadas em relação à dor; e
não poderiam deixar de ser justas, porquanto
em todos seriam idênticas. Mas como nos
emancipamos de seus ditames, e nos entrega-
mos à mais anárquica fantasia, procuremos ao
menos orientar-nos no sentido que nos seja
mais agradável.
Platão receia que atentemos demasiado para
a dor e a volúpia, o que, a seu ver, tornaria a
álma dependente em excesso do corpo. Acre-
dito antes que a desligam deste e a libertam.
Assim “como a fuga torna o inimigo mais
encamiçado na perseguição, orgulha-se a dor
de nos fazer tremer. Em relação a quem a
enfrenta ela se mostra mais cordata; resista-
mos, pois, e contenhamo-la. Batendo em retira-
da, deixando que nos acue, provocamos e cha-
mamos a nós a ruína que nos ameaça. Em se
retesando, o corpo suporta melhor a carga;
assim também a alma.
Mas, passemos aos exemplos de interesse
Sd:
particular para as pessoas que como eu sofrem
dos rins. Veremos que ocorre com a dor o
mesmo que com os cristais que se coloram de
acordo. com o fundo em que repousam; e que
ela só ocupa em-nós o lugar que lhe damos:
“Quanto mais eles se entregam à dor, tanto
mais ela os dominaº*. Sentimos mais aguda-
mente um golpe de bisturi dado pelo médico
do que dez estocadas no calor da luta. As
dores do parto, que os médicos, e também
Deus, estimam grandes e que cercamos de tan-
tos cuidados, não lhes dão atenção certos
povos. Deixo de lado as mulheres de Esparta,
mas entre as suíças, na nossa criadagem, não
se percebe que pariram, a não ser por anda-
rem, ao depois, atrás de seus maridos com a
criança ao pescoço, que antes carregavam no
ventre. E essas ciganas feias que surgem por
vezes em nossa terra lavam seus filhos recém-
nascidos no riacho em que se banham ao
mesmo tenpo. Sem falar de tantas raparigas**
que dão à luz diariamente; e clandestinamente,
crianças também concebidas às escondidas.
Mas a nobre e bela esposa de Sabino, patrício
romano, a fim de não comprometer a outrem,
suportou sozinha e sem gemido as dores do
parto de dois gêmeos. Um jovem de Lacede-
mônia, que roubou uma raposa e a escondeu
sob o manto, deixou que ela lhe rasgasse o ven-
tre para não confessar a tolice, porque temia
mais a vergonha que nós a punição. Outro, ao
apresentar o incenso, deixa-se queimar pór
uma brasa caída em sua manga, a fim de não
perturbar a cerimônia. E não se mencionam
numerosos casos de crianças de sete ános que
nos sacrifícios da iniciação, entre os lacedemô-
nios, suportavam, sem chorar e até morrerem,
a flagelação? Cicero viu-os baterem-se em gru-
pos, de unhas e dentes, até perderem os senti-
dos para não se confessarem vencidos:
“Jamais os costumes vencerão a natureza, que
é invencível; mas a moleza, os prazeres, o Ócio,
a indolência alteram nossa alma; as falsas opi-
niões e os maus hábitos corrompem-na? *.”
Todos conhecem a história de Scevola que,
tendo-se introduzido no acampamento inimigo
para matar o chefe, não o conseguiu e, dese-
joso de atingir de qualquer maneira seu obje-
tivo de libertar a pátria, teve uma idéia estra-
nha. Confessando seu projeto a Porsena, o rei
visado, acrescentou, a fim de assustá-lo, que
no campo romano"havia muitos como ele pró-
prio decididos a tentar o golpe que falhara. E
para mostrar que espécie de homem era ele,
*2 Santo Agostinho.
93 No texto “garce”, hoje pejorativo, outrora femi-
nino de “garçon”. (N. do T.)
94 Cicero.
38 MONTAIGNE
aproximou-se de um braseiro, estendendo o
braço e assim o manteve a grelhar e sem
demonstrar sofrimento até que o monarca ini-
migo, horrorizado, mandasse afastar o brasei-
ro. E que dizer daquele que não interrompeu a
leitura enquanto lhe amputavam um membro?
E do outró que persistiu em motejar e rir-se
das torturas, a ponto de se exasperarem os car-
rascos e se confessarem vencidos após os mais
cruéis suplícios inventados para dominá-lo? É
verdade que era filósofo !
Um gladiador de César não cessou de grace-
jar enquanto lhe abriam os ferimentos e os
sondavam: “Já se viu um gladiador, por infimo.
que seja, gemer ou mudar de fisionomia? Que
arte não põe ele em sua própria queda para
esconder tal vergonha aos olhos do público!
Derrubado afinal pelo adversário e.condenado
pelo povo, virou jamais a cabeça ao receber o
golpe de misericória?º *”
Passemos às mulheres. Quem não ouviu
falar daquela que, em Paris, mandou que a
esfolassem na esperança de obter uma pele
mais suave? Há quem arranque dentes sadios e
viçosos para que a voz se torne mais doce ou
para que eles tenham mais bela aparência.
Quantos exemplos de desprezo à dor não
temos nós desse gênero? São capazes de tudo e
nada temem por pouco que sua beleza se bene-
ficie: “Existe quem mande arrancar os cabelos
brancos e se raspe para obter pele novaº 8? Vi
quem engolisse areia, € cinza, e sacrificasse o
estômago a fim de conseguir uma tez pálida.
Para ter o porte fino e elegante das espanholas,
a quantas torturas se sujeitam, afetadas, arro-
chadas, entaladas até se ferirem e por vezes
morrerem!
Entre muitos povos de nossa época acontece
comumente que, para provar a veracidade de
suas palavras, se inflijam voluntariamente cas-
tigos. Nosso rei cita casos vistos na Polônia,
verificados como comprovantes de declarações
que lhe foram feitas. Em França, afora casos
semelhantes de imitação, vi na Picardia, pouco
antes de voltar dessas famosas reuniões de
Blois, uma moça que, para demonstrar a since-
ridade de Si promessas, e sua fidelidade,
espetou o braço cinco vezes com um estilete
que trazia aos cabelos, sangrando abundante-
mente. Os turcos dão-se grandes cutiladas em
honra de suas damas, e a fim de que não se
apaguem queimam as chagas longamente, não
só para sustar o sangue mas também para que
se formem cicatrizes. Isso me foi dito e jurado
por pessoas que o presenciaram. Nesse mesmo
país vêem-se todos os dias indivíduos que, por
35 Cícero.
96 Tibúrcio.
algumas moedas, talham profundamente o
braço ou a coxa. Agrada-me que abundem os
testemunhos das coisas que importa estabele-
cer, e nesse ponto o cristianismo nos fornece
provas concludentes. Depois de nosso divino
Guia, quantos quiseram, como ele e por devo-
ção, carregar a cruz! Testemunhas dignas de
fé informam-me de que São Luís usou cilício
até o momento em que, na velhice, o proibiu
seu confessor. E todas as sextas-feiras fazia-se
açoitar por um padre, com um açoite de cinco
ferros que para tal trazia sempre consigo entre
seus apetrechos domésticos.
O último Duque de Guyenne, Guilherme,
pai de Eleonora, que trouxe para a casa de
França esse ducado, usou constantemente,
como penitência e durante dez ou doze anos,
uma couraça sob o hábito religioso. Foulques,
Conde de Anjou, foi até Jerusalém com uma
corda ao pescoço, para aí se fazer açoitar dian-
te do túmulo do Senhor. E não se vêem todos
os anos, na sexta-feira santa, homens e mulhe-
res aos magotes flagelarem-se reciprocamente
até se rasgarem a pele e porem a nu os ossos,
espetáculo de que fui não raro testemunha e
não me seduziu jamais? Tais pessoas usam
máscaras e algumas há que o fazem por
dinheiro para garantir a salvação de outrem.
Demonstram um desprezo à dor tanto maior
quanto a avareza é um estimulante menos forte
do que o fanatismo.
C. Maximus enterrou o filho, personagem
consular; Catão o seu, pretor nomeado; L.
Paulus os dois que tinha, a poucos dias de
intervalo, e seus rostos não refletiram a menor
emoção, nada revelou-lhes a tristeza. De uma
feita disse eu de alguém, gracejando, que frus-
trara a justiça divina: por um cruel destino,
perdera no mesmo dia, de morte violenta, três
filhos já grandes; pouco faltou para que consi-
derasse o acidente como um favor e um benefi-
cio particular da Providência. Não aprecio
esses sentimentos antinaturais: perdi dois ou
três filhos, em verdade ainda de peito. Con-
quanto eu não tenha morrido de dor, não dei-
xou a coisa de me chocar. Trata-se aliás de
uma das infelicidades a que o homem é mais
sensível. Existem muitas outras causas de afli-
ções que se verificam comumente e não me
perturbariam se me atingissem. Desdenhei
algumas que me ocorreram, dessas que todos
consideram deverem afetar realmente; e.não
ousaria sem corar vangloriar-me em público
de minha indiferença: “De como se verifica
que a aflição não provém da natureza, mas
decorre da opinião” 7.” Esta é, com efeito, uma
potência 'que tudo ousa e não tem medida.
97 Cicero.
ENSAIOS —I 39
Quem jamais procurou a segurança e o repou-
so com mais ansiedade do que mostraram Ale-
xandre e César na busca da inquietação e das
dificuldades? Terez, pai de Sitalcez, dizia
amiúde que quando não estava em guerra não
lhe parecia houvesse alguma diferença entre
ele e o seu moço de estrebaria. Quando cônsul,
à fim de assegurar a submissão de certas cida-
des da Espanha, Catão proibiu o porte de
armas aos habitantes, em consequência do que
muitos se mataram: “nação feroz que não
“acreditava se pudesse viver sem combater”º 8
E não conheceis inúmeros que renunciaram à
doçura de uma existência tranquila em seu lar,
entre amigos e conhecidos, para irem viver em
horríveis desertos inabitáveis? E outros não
adotaram um tipo de vida abjeta, degradante,
em que afetam comprazer-se, desprezando a
sociedade? O Cardeal Borromeu, recém-fa-
lecido em Milão, a quem a nobreza, a imensa
fortuna, o clima italianó e a mocidade outorga-
vam todas as alegrias e gozos, viveu constante-
mente em tal regime de austeridade que usava
a mesma batina, no inverno como no verão;
dormia unicamente sobre a palha; e as horas
que os deveres do cargo não lhe consumiam,
ele as passava de joelhos, estudando continua-
mente, tendo ao lado de seu livro um pedaço
de pão e um pouco de água, que era tudo de
que se compunha sua refeição, e também o
tempo que lhe destinava. Conheço quem, com
perfeito conhecimento de causa, tirasse pro-
veito e promoção da infidelidade da mulher,
coisa cuja simples idéia já apavora tanta gente.
Se a vista não é o mais necessário dos nos-
sos sentidos, é pelo menos o que nos dá maior
prazer; e de todos os nossos órgãos, os que
contribuem para gerar parecem os mais úteis e
os que proporcionam maior felicidade. Certas
pessoas, entretanto, os detestam unicamente
por causa das inefáveis satisfações que nos for-
necem, é OS sacrificam por isso mesmo que são
valiosos. É provavelmente análogo o racio-
cínio de quem vaza voluntariamente os olhos.
A opinião que temos das coisas é que as
valoriza. Isso se vê pelo grande número daque-
las que não examinamos a não ser para as ava-
liar, antes que a nós mesmos. Não lhes ponde-
ramos nem a qualidade nem a utilidade, mas
apenas o que nos custam para as obtermos,
como se o que pagamos fosse parte integrante
delas; e o valor que lhes atribuímos mede-se
não pelos serviços que nos prestam, mas pelo
que demos para consegui-las. Isso me induz a
achar que as usamos de maneira estranha, pois
valem segundo o que pesam e na medida do
peso. E nunca as deixamos desvalorizarem-se.
98 Tito Lívio.
O preço dá valor ao diamante; a dificuldade à
virtude; a dor à devoção; o amargor ao remé-
dio. Há quem para chegar à pobreza jogue ao
mar seus escudos, esse mesmo mar que outros
esquadrinham e batem para encontrar a rique-
za. Epicuro disse: ser rico não signfica des-
pir-se de preocupações, mas tão-somente tro-
cá-las por outras, e em verdade não é a
carência e sim a abundância que acarreta a
avareza.
Eis o que.a esse respeito me sugere a
experiência:
Minha vida ao sair da infância apresentou
três fases. A primeira durou cerca de vinte
anos durante os quais vivi de recursos fortui-
tos, na dependência de outros, sem renda pró-
pria, sem uma situação definida nem previsão
orçamentária. Gastava tanto mais alegre e
descuidadamente quanto tudo provinha dos
acasos felizes da sorte. Nunca passei melhor;
nunca me aconteceu achar fechada a bolsa dos
amigos. Impusera a mim mesmo, de resto, e
como dever primeiro, pagar minhas dívidas em
seu vencimento, o que me valeu mais de uma
vez a prorrogação do mesmo, porquanto meus
credores se comoviam com o meu esforço. Tal
lealdade me tornou econômico e nunca enga-
nei a ninguém. Sinto naturalmente algum pra-
zer em pagar o que devo, como se me desfi-
zesse de um fardo incômodo, imagem da
servidão. Por outro lado, satisfaz-me fazer
algo justo e que contente a outros. Abro exce-
ção para os pagamentos em que é preciso rega-
tear e contar. Quando me encontro nessa
necessidade e não posso dar a outro a incum-
bência, vergonhosamente e por certo erronea-
mente, adio quanto possível o cumprimento da
obrigação, a fim de evitar essas discussões a
que, por temperamento e maneira de me expri-
mir, sou infenso. Nada detesto mais do que
regatear: é uma justa de trapaças e impudên-
cias em que, após uma hora de conversas, cada
qual transige, falhando à palavra dada e às
afirmações reiteradas. E isso por alguns vin-
téns a mais ou a menos. Também me via em
apertos quando tinha de pedir emprestado, e,
não me animando a fazê-lo oralmente, corria o
risco por escrito, o que me parece menos peno-
so e torna mais fácil a recusa. Entregava mais
facilmente e com menor inquietação à minha
estrela a satisfação de minhas necessidades do
que me ocorreu depois, ao se desenvolverem
em mim o espirito de previdência e o racioci-
nio. As pessoas que têm negócios a adminis-
trar consideram em geral horrível viver nessa
constante incerteza. Em primeiro lugar não se
lembram de que a maioria dos homens assim
vive. Quanta gente de bem abandonou a renda
certa — e quanta o faz diariamente — para ir
40 MONTAIGNE
em busca de favores reais e de fortuna! César,
para se tornar César, endividou-se em cerca de
um milhão em ouro. Quantos negociantes se
iniciam no comércio mandando tender sua
fazenda às Índias “por tantos mares borrasco-
sos”ºº. Nesta época em que tão cara se faz a
devoção, não vivem mil e uma congregações
— e sem percalços — contando diariamente
com as liberalidades do céu para comer? Em
segundo lugar essa gente ordeira não pensa
que o que se lhes afigura assegurado não é
menos incerto e arriscado do que o próprio
acaso. Com mais de mil escudos de renda
estou tão perto da miséria como se a beirasse.
Não somente o destino tem em suas mãos cem
meios de abrir uma brecha na riqueza para a
entrada da pobréza (e por vezes não há meio
termo entre a fortuna excessiva e a miséria) —
“a fortuna é de vidro; quanto mais brilha tanto
mais frágil”"ºº. não somente tem esse destino
a possibilidade de derrubar e desmantelar
todas as defesas que possamos erguer a fim de
nos protegermos; mas acho também que a
indigência existe em geral tanto entre os que
possuem como entre os que não têm nada.
Direi mesmo que, sozinha, ela incomoda
menos do que em companhia da riqueza, resul-
tando esta menos da renda que da ordem na
sua-administração: “Cada qual é o artesão de
sua fortuna”'º1, e um rico necessitado, com
dificuldades, me parece mais miserável do que
um pobre, simplesmente pobre: “a indigência
no meio da riqueza é a mais pesada das pobre-
zas”'º02 Os maiores príncipes, aqueles mes-
mos que são os mais ricos, quando carecem de
dinheiro, quando seus recursos se esgotam, são
os mais -habitualmente impelidos às piores
ações, pois haverá coisa mais triste do que se
fazer tirano e se apossar injustamente dos bens
de seus súditos? tg
A segunda fase de minha existência ocorreu
quando eu tinha dinheiro. Tomando gosto
nisso, não demorei em criar reservas, impor-
tantes para a minha condição, estimando que
sornente o que sobreexcede a despesa comum
constitui um haver e que não podemos ter por
seguro um bem apenas augurado, por mais jus-
tas que sejam as esperanças, pois, dizia a mim
mesmo, que me aconteceria se me surpreen-
desse tal ou qual acidente? O resultado de pen-
samento tão fútil e doentio foi que me esforcei,
com a criação dessa reserya supérflua, por me
garantir contra qualquer eventualidade desa-
gradável. E aos que observavam serem essas
eventualidades demasiado numerosas para que
98 Catulo.
19º Públio Siro.
101 Sêneca.
102 Td.
me precavesse contra elas, eu respondia que, se
não me podia resguardar de todas, podia aten-
tar para algumas e em particuiar as mais
prováveis. Isso não se verificava sem me cau-
sar apreensões. Mantinha-as secretas e eu, que
falo tão livremente de tudo que me diz respei-
to, não falava a verdade quanto ao dinheiro
que possuía. Ágia como muitos outros, cs
ricos que se dizem pobres e os pobres que afir-
mam ser ricos, dispensando a consciência de
um testemunho sincero, o que constitui ridi-
cula e vergonhosa prudência. Se viajava, pare-
Cia-me sempre não estar suficientemente provi-
do de dinhéiro e quanto mais levava comigo
tanto mais preocupado me tornava, já por
causa da insegurança das estradas, já porque
não depositava confiança na fidelidade da
criadagem encarregada das bagagens. Se dei-
xava meu cofre em casa, quanta suspeita e
inquietação, tanto piores quando não podia
confessar-me a ninguém e tinha o espírito
constantemente voltado para esse lado. Afinal
de contas guardar o dinheiro dá mais trabalho
do que ganhá-lo. E se não fazia tudo o que
estou a dizer, não me custava menos evitar de
fazê-lo. Disso tirava em verdade pouco ou ne-
nhum proveito, e embora me fosse permitido
gastar mais, não me pesava menos o gesto,
pois, como diz Bion: “Quem tem farta cabe-
leira não sofre menos do que o calvo, se lhe
arrancam um cabelo”. Adquirido o habito e fi-
xada a mente no pecúlio a juntar, não mais
ousamos esborciná-lo; é um edificio que teme-
mos ver desmoronar-se em o tocando e é preci-
so um grande aperto para que o parcelemos. E
empenhar minhas roupas ou vender um cavalo
me fora menos penoso do que mexer nessa
bolsa querida que tão bem guardava. O perigo
estã em que é dificil estabelecer limites preci-
sos para essa mania de entesourar (assim ocor-
re com as coisas que julgamos boas) e pôr um
paradeiro nela. Yamos sempre ampliando o
que acumulamos e fixando tais limites, sempre
mais alto, a ponto de nos privarmos pouco
honrosamente do gozo de nossos próprios
bens, guardando o total sem usá-lo. Desse
ponto de vista as pessoas mais ricas do mundo
seriam as encarregadas de controlar as portas
e os baluartes de uma cidade importante.'Todo
indivíduo possuidor de muito dinheiro tem ten-
dência para a avareza.
Platão assim classifica os bens corporais ou
humanos: a saúde, a beleza, a força, a riqueza.
E diz: a riqueza não é cega, iluminada pela
prudência é muito clarividente. Dionísio, o
Jovem, teve um dia uma idéia divertida. Avisa-
do de que um de seus siracusanos enterrara um
tesouro para escondê-lo, mandou-lhe que o
trouxesse. O homem obedeceu, não porém sem
ENSAIOS —I 41
primeiro levar uma parte com a qual se estabe-
leceu noutra cidade. Sua desventura matara
nele o gosto de entesourar e pôs-se a viver
largamente. Soube-o Dionísio, e ordenou a
restituição do tesouro, dizendo que o fazia de
bom grado porquanto o dono aprendera a
usá-lo. neta
Assim continuei durante alguns anos pen-
sando unicamente em economizar. Não sei que
bom demônio me guiou, como ao siracusano, e
me levou a mudar de conduta e a abandonar
por completo esse espirito de poupança. A
uma viagem muito dispendiosa devo a resolu-
ção de renunciar a tão tola maneira de viver. E
desse modo cheguei a uma terceira fase, certa-
mente muito mais agradável e normal, penso
eu, deixando que corram despesas e renda,
sobreexcedendo-se mutuamente ao acaso, mas
sem diferenças sensíveis. Vivo assim ao sabor
do momento, contentando-me com atender às
necessidades do presente e às despesas previs-
tas. Quanto ao imprevisto, não bastariam
todas as previsões do mundo, e seria loucura
imaginar que com suas próprias mãos nos
armasse a fortuna contra c destino!º*: é com
os nossos meios que devemos combatê-lo;
qualquer arma de ocasião nos trairia no
momento crítico. Se junto ainda, não o faço
em vista de despesa futura, nem para comprar
terras, de que não preciso, mas para me diver-
tir: “é ser rico não se mostrar ávido de rique-
zas; é uma renda não comprar”?!º *. Não temo
que meus rendimentos falhem nem desejo que
aumentem: “o fruto da riqueza é a abundância
e a abundância acarreta a saciedade” 1º 8. Feli-
cito-me a mim mesmo por me haver corrigido
dessa inclinação para a avareza em uma idade
em que para ela tendemos naturalmente, e por
me haver desfeito dessa loucura, a mais ridi-
cula das loucuras humanas e tão comum nos
velhos. Feraulez, que passara por essas duas
fases da fortuna, achando que à ampliação de
seus bens não correspondera um aumento
igual do apetite, da sede, da possibilidade de
dormir e acariciar a mulher, e tendo em mente
ainda os aborrecimentos decorrentes da admi-
nistração de suas riquezas, resolveu fazer a
felicidade de um rapaz pcbre, amigo fiel que
sonhava com enriquecer. Deu-lhe todo o seu
patrimônio, que era considerável, excessivo
até, com o acréscimo da forte valorização de-
vida à guerra e às liberalidades de Ciro, seu
bondoso e generoso senhor, sob a condição de
se encarregar o beneficiado de alimentá-lo e
103 “contre elle-même”. O trocadilho — fortuna»
riqueza e fortuna-destino -— tornaria obscuro o
pensamento. (N. do T.)
104 Cicero.
105 Id.
sustentá-lo decentemente como hóspede e
amigo. Desde então viveram igualmente satis-
feitos com a mudança de situações.
Eis um gesto que de bom grado imitaria e
muito louvo o sábio partido que tomou um
velho prelado meu conhecido, o qual entrega
muito simplesmente sua bolsa e suas rendas e
o cuidado de sua existência ora a um ora a
outro servidor. Desse modo viveu longos'anos
tão ignorante .de seus negócios domésticos
quanto um estranho. A confiança na bondade
alheia é um testemunho nada desprezível da
própria bondade, e Deus a protege. E talvez
isso explique por que esse prelado teve sempre
a casa tão dignamente administrada. Feliz de
quem regula tão bem suas necessidades que
suas rendas lhe bastam, sem que se tornem
motivo de preocupação ou perturbação e sem
que repartição ou recuperação sejam um entra-
ve a outras ocupações mais de acordo com
- seus gostos e às quais se possa dedicar conve-
niente e trangiilamente.
- Abastança e indigência dependem, pois, da
idéia que delas temos. À riqueza, como a gló-
ria e a saúde, só atrai e causa prazer na medida
em que empresta prazer e atração a quem a
possui. Estamos bem ou normal neste mundo
segundo o que pensamos: contente está quem
se acredita contente e não aquele que os outros
imaginam contente. Nossa crença é que faz
seja ou não seja real a felicidade. A fortuna
não nos outorga o bem ou o mal, ela se limita
a fornecer-nos os elementos do bem e do mal,
os quais nossa alma, mais poderosa do que ela,
trabalha e aplica como lhe apraz, tornando-se
dessa maneira única senhora e causa de nossa
condição. Os efeitos externos tiram cor e sabor
de nossa constituição interna, como as roupas
que usamos nos aquecem não com seu calor
próprio, mas com O nosso, que conservam e
desenvolvem. Se com eles cobrissemos um
corpo frio, inverso seria o resultado. Desse
modo conservam-se a neve e o gelo. Todas as
coisas dependem da maneira por que são enca-
radas: o estudo é motivo de tormento para o
preguiçoso; o beberrão sofre sem vinho; a
frugalidade é um suplício para o comilão; o
exercício uma tortura para o delicado ocioso,
etc. As coisas não são nem dolorosas nem difi-
ceis em si. Para julgar de sua elevação e gran-
deza é necessário uma alma com essas quali-
dades, sem o que lhes atribuiriamos nossos
próprios defeitos. Um remo é reto, e no entanto
quando mergulha: na água parece. curvo. Não
basta ver a coisa, importa como vê-la.
Por que, entre tantos raciocínios que de mil
maneiras provam que'o homem deve desprezar
a morte e dominar a dor, não encontramos um
que nos convença? Por que entre tantos argu-
42 MONTAIGNE
mentos por outros aceitos, não achamos um do
nosso gosto que nos persuada igualmente?
Que quem não pode engolir o medicamento
enérgico e detergente, suscetível de destruir o
mal, absorva pelo menos um lenitivo que ali-
vie: “nós nos amolecemos, não menos pela
volúpia do que pela dor e nesse estado nada
mais temos de viril e forte; uma picada de abe-
lha basta para arrancar-nos gritos; saber domi-
nar-se, eis o segrêdo”1º 8.
108 Cícero.
Seja como for, não se escapa da filosofia
exagerando a acuidade da dor e a fraqueza
humana: apenas a forçamos a opor-nos às
irrespondíveis réplicas de sempre: “se não vale
a pena viver, viver sem que valha a pena não é
imprescindível. Ninguém verá prolongar-se o
seu mal se não o quiser”. Mas a quem não se
dispõe a suportar a morte nem a vida, a quem
não quer resistir nem fugir, como ajudar?
CAPÍTULO XV
Merecedor de punição é quem aefende uma
praça forte além do razoável
A valentia tem seus limites, como qualquer
virtude; ultrapassá-los pode levar ao crime.
Pois é ela suscetível de tornar-se temeridade,
obstinação, loucura em lhe ignorar os marcos
delimitadores, bem difíceis em verdade de se
perceberem em dados pontos de separação.
Dat, dessas considerações, nasceu o costume
de, na guerra, punir-se até com a pena de
morte quem teima em defender uma praça não
mais defensável segundo as regras da arte mili-
tar. Sem o que, confiando na impunidade, não
houvera choça que não sustasse a marcha de
um exército.
No sítio de Pavia, o condestável de Mont-
morency, tendo recebido ordem de atravessar
o Tessino e de se estabelecer no arrabalde de
Santo Antônio, viu-se impedido de fazê-lo por
causa de certa torre situada na extremidade da
ponte e cuja guarnição se obstinou em defen-
der até a derrota final. Vitorioso, o condestável
mandou enforcar todos os prisioneiros. Mais
tarde, acompanhando o delfim em campanha
além Alpes, e tendo conquistado à força o cas-
telo de Villane, mortos os defensores todos
pelos atacantes exasperados, à exceção do
capitão e do tenente, a estes mandou o condes-
tável punir por lhe haverem resistido, fazendo-
os enforcar. O Capitão Martin du Bellay assim
agiu igualmente contra St. Bony, governador
de Turim, cujos soldados tinham sido massa
crados ao ser tomada a praça forte.
A apreciação do grau de resistência ou fra-
queza de uma praça resulta da importância
das forças assaltantes e dos seus meios de
ação. Assim, quem com razão se obstina em se
defender contra duas colubrinas, insensato
seria se o fizesse contra trinta canhões. Há que
considerar ainda a glória que dão ao príncipe
inimigo suas conquistas anteriores, sua reputa-
ção e o respeito que lhe é devido. Mas é peri-
goso atentar-se demasiado para estas últimas
considerações, pois hã quem se imagine tão
altamente colocado que não lhe parece justo se
o enfrente, e não o admitindo não hesite em
passar pelo fio da espada os defensores, em
lhes sendo a sorte favorável. É o que se deduz
das formas em que são concebidos a intimação
e o desafio de antigos príncipes orientais e até
de seus sucessores. Em sua linguagem orgu-
lhosa e altiva, repetem-se ainda hoje as mais
bárbaras injunções. E na região pela qual os
portugueses iniciaram a conquista das Índias,
povos havia entre os quais era regra comum e
sempre aplicada que ao inimigo vencido pelo
rei em pessoa ou seu lugar-tenente não fossem
concedidos mercê nem resgate.
Portanto evite, quem possa, cair nas mãos
de um inimigo vitorioso e armado, com pode-
res para julgar.
ENSAIOS — 1 43
CAPÍTULO XVI
Da covardia
De um príncipe, e grande capitão, ouvi certa
vez que por ato de pusilanimidade não se devia
condenar um soldado à morte. E, estando à
mesa, narrou o processo do Sr. de Vervins que
a tal pena se condenara por se ter rendido em
Boulogne. Convenho em que é justo diferen-
ciar-se um erro devido à fraqueza de ânimo da
falta maliciosa !º 7. Neste caso agimos com
pleno conhecimento de causa contra o que nos
dita a razão posta pela natureza a nosso servi-
ço a fim de nos guiar. No outro caso parece-
me que podemos invocar a própria natureza,
da qual provém nossa fraqueza e imperfeição.
É esse raciocínio que leva muita gente a pensar
que só devamos ser responsabilizados pelo que
fazemos de contrário à nossa consciência. E
mesmo nessa regra que se baseiam as pessoas
que censuram e condenam à pena capital heré-
ticos e infiéis; e também pela mesma razão não
há como responsabilizar juízes e advogados
que por ignorância erram no cumprimento de
seus deveres.
Quanto à covardia, é certo que vergonha e
ignomínia são os castigos mais comumente
infligidos aos réus. O legislador Charondas
passa por ter sido o primeiro a aplicar tais
penalidades. Antes dele, os gregos puniam com
a morte os que fugiam ao combate: Charondas
contentou-se'com ordenar que, vestidos de
mulher, ficassem durante três dias expostos em
praça pública. Esperava, assim, que, a vergo-
nha lhes reavivando a coragem, pudessem vol-
tar às fileiras do exército. “Pensai em fazer
com gue se envergonhe o culpado mais do que
em lhe derramar o sangue!º*.?
107 Cometida por velhacaria, má índole. (N. do T.)
108 Tertuliano.
Parece que também as leis romanas puniam
com a morte os desertores, pois Aumien Mar-
celino cita o Imperador Juliano como tendo
condenado à degradação e à morte — de
conformidade com as leis antigas — dez sol-
dados que haviam virado as costas ao inimigo
numa carga contra os partas. Entretanto, de
outras feitas, e por causa idêntica, contentou-
se ele em condenar os culpados a marcharem
com os primeiros em meio às bagagens. O rude
castigo infligido pelo povo romano aos trâns-
fugas do desastre de Canas e — da mesma
guerra — aos que acompanharam Cneio Flã-
vio na derrota, não chegou à pena de morte.
Em casos como estes é de se temer que a ver-
gonha engendre o desespero e os dessa manei-
ra atingidos se tornem possivelmente: nossos
. inimigos.
No tempo de nossos pais, o Sr. de Franget,
então tenente da companhia do Marechal de
Chatillon, nomeado pelo Marechal de Chaban-
nes, governador de Fontarabie, em substitui-
ção ao Sr. de Lude, entregou essa praça forte
aos espanhóis. Foi condenado, bem como os
seus, à degradação e à perda de seus títulos
nobiliárquicos, declarado plebeu, sujeito a
impostos, e proibido de usar armas. Essa sen-
tença rigorosa foi executada em Lion. Poste-
riormente, idêntica penalidade foi aplicada a
todos os fidalgos que se encontravam em
Guise quando o Conde de Nassau se apoderou
da cidade. E a outros ainda, desde então.
Entretanto, quando a falta evidencia igno-
rância grosseira ou covardia fora do comum, é
racional considerá-la ato malicioso, resultante
de maus sentimentos. e punita nessa qualida-
de.
44 — MONTAIGNE
CarpítruLO XVII
Maneira de agir de alguns embaixadores
A fim de aprender sempre alguma coisa em
minhas relações com os outros (o que é um dos
melhores meios de se instruir), procuro em mi-
nhas viagens orientar as pessoas com as quais
me entretenho para os assuntos que conhecem
melhor: “que o piloto se contente com falar
dos ventos, o lavrador de touros, O guerreiro de
seus ferimentos e o pastor de suas ove-
lhas?1º9. O mais das vezes é o contrário que
se verifica: preferem todos falar do ofício
alheio, imaginando acrescentar algo assim à
própria reputação. Testemunho disso é a cen-
sura de Arquimedes a Periandro que abando-
nava a glória de ser um bom médico para
adquirir a de um mau poeta.
Vede como César insiste em nos revelar sua
capacidade de construir pontes e máquinas de
guerra e como se mostra relativamente dis-
creto ao comentar seus feitos e gestos de solda-
do, sua valentia, e sua maneira de comandar os
exércitos. Quer mostrar-se excelente na enge-
nharia, de que entende pouco, quando seus
atos testemunham a grandeza do capitão. Dio-
nísio, o antigo!''º, era na guerra um general
muito bom, como convinha à sua condição;
pois se atormentava para que apreciassem nele
principalmente seu talento poético, em verdade
bem medíocre. Certo personagem do corpo
judiciário, a quem há tempos se mostrava uma
biblioteca abundantemente provida tanto de
obras de direito, como das disciplinas do saber
humano, nada disse a respeito, preferindo en-
trar em explicações doutorais acerca de uma
barricada que se erguera à entrada do edifício,
assunto que desconhecia e que cem capitães e
soldados viam diariamente sem pensar em cri-
ticar ou louvar. “O pesado boi gostaria de car-
regar a sela e o cavalo de puxar a charrua! 11?
Agindo desse modo nada fazemos de útil.
Esforcemo-nos portanto por ouvir em seus ofi-
cios ao arquiteto, O pintor, o sapateiro e
outros.
109 Propércio.
1º Em certas edições o texto diz “O velho Dioni-
sio”, e o exemplo vem no fim do parágrafo. (N. do
T.)
111 Horácio.
A propósito, quando leio histórias, gênero
que a tantos apetece hoje em dia, tenho por há-
bito atentar antes de mais nada para quem as
escreve. Se se trata de profissionais das letras
atenho-me em particular ao estilo e à lingua-
gem; se são médicos acredito neles enquanto
se referem à temperatura do ar, à saúde, à
constituição física dos príncipes, aos ferimen-
tos e às doenças; se são jurisconsultos, ouço-os
em particular nas discussões acerca do direito,
das leis, da fatura dos regulamentos e outros
assuntos análogos; se são teólogos, acerca dos
negócios da Igreja, das censuras eclesiásticas,
das dispensas e dos casamentos; se são corte-
sãos, a propósito. dos costumes e das cerimô-
nias; Se são guerreiros, acerca do que lhes diz
respeito, e principalmente das ações a que
assistiram; se são embaixadores, das gestões,
dos contatos e das práticas relativas à diplo-
macia e à maneira de orientá-los. Foi o que me
lévou a ler com interesse um trecho das crôni-
cas do Sr. de Langey, muito entendido nessas
coisas e que não teria lido se o fosse em outras.
Diz ele das famosas admoestações feitas em
Roma por Carlos Quinto, em pleno consistório
a que assistiam nossos embaixadores, o Bispo
de Macon e o Sr. de Velly. Depois de algumas
palavrás ofensivas para nós, entre as quais que
se seus capitães, sóldados e súditos não mos-
trassem maior fidelidade a seus deveres do que
os dos reis de França (e isso parece que o pen-
sava de verdade porquanto o repetiu mais de
uma vez), iria com a corda ao pescoço pedir
misericórdia; o imperador disse também que
desafiava O rei para um combate singular, em
camisa, e de barco em pleno rio, com espada €
punhal, a fim de que nenhum dos adversários
pudesse recuar. Termina o Sr. de Langey nar-
rando que ao relatarem a sessão ao rei dissi-
mularam seus embaixadores o que precede.
Ora, acho estranho que um embaixador possa
dispensar-se de relatar propósitos dessa ordem
nos relatórios enviados a seu soberano, princi-
palmente quando são de tal alcance e provêm
de personagem tão importante, e foram ouvi-
dos em semelhante assembléia. Parece-me que
o dever do servidor é reproduzir fielmente
ENSAIOS —I 45
tudo, tal qual se apresentou, a fim de que o se-
nhor tenha liberdade de ordenar, apreciar e
escolher. Alterar-lhe a verdade de medo que a
interprete mal e tome um partido errado, e por
isso esconder-lhe o que lhe interessa, é a meu
ver inverter os papéis. Manda quem pode e não
o pode quem obedece. Isso cabe ao tutor e ao
professor e não a quem, em sua situação, não
somente é inferior à autoridade mas deve tam-
bém estimar-se inferior em relação à prudência
e à experiência. Como quer que seja, no que
me diz respeito não gostaria de ser servido
dessa maneira.
Tanta vontade temos de nos subtrair ao
comando alheio e tudo é tão bom pretexto para
usurparmos as prerrogativas dos que têm o
poder; aspiramos tão naturalmente à liberdade
e à autoridade, que nada será mais precioso ao
superior do que encontrar em seus servidores
obediência pura e simples. Não obedecer intei-
ramente a uma ordem recebida, fazê-lo com,
reticência, é falta e erro!!2. Públio Crasso,
qualificado pelos romanos como cinco vezes
feliz, estando na Ásia, encomendara a um
engenheiro grego que lhe trouxesse o maior
dos mastros de navio que vira em Atenas, a
fim de empregá-lo na construção de uma mãá-
quina de guerra. Este, apoiando-se em seus
112 Adotou-se aqui a interpretação de Michaut,
pois o texto original exige mais equivalência de pen-
samento que fidelidade literal. (N. do T.)
conhecimentos técnicos, tomou a si trazer O
menor, que lhe parecia mais conveniente.
Crasso ouviu-lhe as expiicações sem o inter-
romper e mandou açoitá-lo assim mesmo, por
considerar que mais do que a obra executada
em melhores ou piores condições importava a
disciplina.
Cumpre observar, entretanto, que uma tal
obediência passiva não se deve senão a ordens
precisas acerca de objetivos previstos. Os
embaixadores têm maior latitude, e em certos
pontos podem agir livremente, pois sua missão
não é simplesmente executar e sim esclarecer e
orientar com seus conselhos a opinião de quem
representam. Vi em meu tempo pessoas come-
tidas em postos de comando, a que se censurou
haverem obedecido ao pé da letra às ordens
recebidas do rei em. vez de se inspirarem na
realidade das coisas que podiam pessoalmente
constatar. Os entendidos criticam ainda hoje o
costume que tinham os reis da Pérsia de frear
de tal maneira a ação de seus agentes que para
as mais ínfimas resoluções eram eles forçados
a recorrer à autoridade real, o que, dada a
imensa extensão do país, ocasionava perdas de
tempo que foram não raro causa de sério pre-
Juízo para seus negócios. Quanto a Crasso,
escrevendo a um profissional e lhe comuni-
cando o emprego a que destinava o mastro
pedido, não o incitava assim a examinar em
comum: a coisa e não o convidava a agir como
lhe parecesse mais conveniente?
CapítTuLO XVIII
Do medo
“Tomado de estupor, fiquei de cabelos arre-
piados, e sem voz !!3.? Não sou muito versado
no estudo da natureza humana, como dizem, e
ignoro de que maneira o medo atua em nós.
Certo é que se trata de estranho sentimento.
Nenhum, afirmam os médicos, nos projeta tão
precipitadamente fora do bom-senso. E em
verdade vi muita gente tornada insensata pelo
medo. Mesmo entre os mais assentados provo-
ca ele terríveis alucinações.
Ponho de lado o homem vulgar ao qual faz
113 Virgílio.
o medo que ora veja seus antepassados saírem
do túmulo, envolvidos em seus sudários, ora
lobisomens, gnomos, quimeras. Mesmo porém
entre os soldados, sobre os quais o medo deve-
ria ter menor influência, quantas vezes não
transformou ele um rebanho em um esquadrão
couraçado? E caniços e bastões em policiais e
lanceiros? E nossos amigos em inimigos, e a
cruz vermelha em cruz branca?
Quando o Sr. de Bourbon tomou Roma, o
porta-estandarte encarregado da guarda do
subúrbio de São Pedro foi tomado de tal pavor
à primeira alerta que, passando através de um
buraco no muro em ruinas, saiu da cidade car-
46 MONTAIGNE
regando seu estandarte e marchou ao encontro
do inimigo convencido de que se dirigia para o
interior da praça forte. Vendo a gente do Sr. de
Bourbon se aprestar para a batalha, voltou a.si
e, na crença de que os defensores tentavam
uma sortida!! *, virando as costas entrou de
novo pelo mesmo buraco na cidade de que se
afastara cerca de trezentos passos. O porta-es-
tandarte do Capitão Júlio não se saiu tão bem
quando o Conde de Bures e o Sr. Du Reu
tomaram São Paulo. Desesperado de medo,
lançou-se fora da cidade pela canhoneira, de
estandarte em mão, e foi dar em cheio nos
assaltantes que o fizeram em pedaços. Nesse
mesmo sítio verificou-se um caso extraordi-
nário: o medo surpreendeu, agarrou e a tal
ponto paralisou um fidalgo que este caiu
morto repentinamente, e sem o menor ferimen-
to, do baluarte em que se achava. Semelhante
inconsciência furibunda apodera-se por vezes
das multidões. Em um encontro de Germãâni-
co!" com os alemães duas frações impor-
tantes de suas tropas, postadas em pontos dife-
rentes, fugiram apavoradas, em direção uma
da outra e acabaram por se chocarem.
Ora o medo põe asas em nossos pés como
no caso dos porta-estandartes, ora nos prega
ao solo e nos imobiliza como aconteceu com o
Imperador Teófilo. Batido em uma batalha
contra Os agarenos, ficou tão estupefato e tran-
sido que não podia decidir-se a fugir “tanto se
apavora o medo daquilo que lhe pode aju-
dar!1 8” E assim permaneceu até que Manuel,
um de seus principais chefes, o sacudiu como
para acordá-lo de um sono e lhe disse: “Se não
me seguirdes eu vos matarei, pois é melhor que
percais a vida do que serdes prisioneiro e cor-
rerdes o risco de perder o império.”
É principalmente quando sob a sua in-
fluência recobramos a coragem que ele nos ti-
rara contra o que o dever e a honra determina-
vam, que o medo revela sua ação mais intensa.
Na primeira batalha séria que tiveram — e
perderam — os romanos contra Aníbal, sob o
consulado de Semprônio, um exército de cêrca
de dez mil infantes tomado de pavor debandou
e, na sua covardia, não descobrindo por onde
passar, jogou-se contra o grosso do inimigo.
Tanto e tão bem fez que depois de matar gran-
de número de cartagineses rompeu-lhes as filei-
1º O termo militar é consignado em J. Mesquita
de Carvalho (“Dicionário Prático da Língua Nacio-
na!??). (N. do T.)
115 Trata-se do general romano Júlio César Ger-
mânico (15 a.C.-19 d.C.). (N. do E.)
116 Quinto Cúrcio.
ras, pagando uma fuga vergonhosa com os
mesmos esforços que teriam de fazer para
alcançar uma vitória gloriosa.
O medo é a coisa de que mais medo tenho
no mundo. Ele ultrapassa, pelos incidentes
agudos que provoca, qualquer outra espécie de
acidente. Que aflição será mais penosa e justi-
ficável do que a dos amigos de Pompeu, teste-
munhas em seu próprio navio de horrível mas-
sacre? No entanto, o medo que lhes causou a
aproximação das velas egípcias abafou neles
esse sentimento, a tal ponto que se observou
terem pensado apenas em instar os mari-
nheiros para que à força de.remos lhes facili-
tassem a fuga até que, chegados a Tyr e já sem
receios, tiveram o lazer de meditar sobre a
perda sofrida e dar livre curso aos lamentos e
as lágrimas que o medo, mais forte do que a
dor, paralisara: “o pavor expulsa então de meu
coração toda sabedoria!" 7.” Os que muito
sofreram em alguma ação guerreira, nela
foram feridos e ainda trazem o ferimento a
sangrar, ao combate podem ser novamente
levados, logo em seguida, mas, os que tiveram
forte medo do inimigo, ninguém fará sequer
que voltem a olhá-lo de frente. Os que têm mo-
tivo para temer a perda de seus bens, o exílio
ou a servidão, vivem em constante angústia.
Não comem, nem bebem, nem dormem,
enquanto, em idênticas circunstâncias, os
pobres, os banidos, os servos, continuam a
viver, não raro tão alegremente como de costu-
me. Quantas pessoas, atormentadas pelas
fustigações do medo, não se enforcaram, se
afogaram ou se atiraram em precipícios,
demonstrando ser o medo mais importuno e
insuportável do que a própria morte!
Os gregos admitem um outro tipo de medo,
que não provém de um erro de nosso racioci-
nio, mas ocorre sem causa aparente e por von-
tade dos deuses. E povos inteiros e exércitos
inteiros o experimentam. Dessa ordem foi o
que provocou em Cartago tão prodigiosa deso-
lação. Só se ouviam gritos de pavor; os habi-
tantes precipitavam-se fora de suas jcasas,
como a um sinal de alarma e se atacavam
mutuamente, e se feriam, e se matavam como
se inimigos houvessem entrado na cidade. A
desordem e o tumulto imperavam. E a isso,
que só findou quando, mediante preces e sacri-
fícios, conseguiram acalmar a cólera dos deu-
ses, Chamam os gregos “terror pânico”.
717 Enio. — Neste caso sabedoria assume o senti-
do de prudência, retidão, razão. (N. do T.)
ENSAIOS— II 47
CAPÍTULO XIX
Somente depois da morte podemos julgar se fomos felizes
ou infelizes em vida
“Nunca se deve perder de vista o último dia
do homem, nem declarar que alguém é feliz
antes de vê-lo morto e reduzido a cinzas! 1º.”
Conhecem as crianças a esse respeito a histó-
ria do Rei Creso. Creso, feito prisioneiro por
Ciro, fora condenado à morte. Ao aproximar-
se a hora do suplício, pôs-se a gritar: “Sólon,
Sólon.” Comunicada a exclamação a Ciro,
este indagou de sua significação e Creso lhe
explicou que para sua desgraça, dele Creso,
Ciro estava confirmando a verdade de certa
máxima que Sólon lhe transmitira: “os ho-
mens, quaisquer que sejam os favores com que
os cumule a sorte, não podem estimar-se feli-
zes enquanto não vêem chegar q seu último
dia”, e isso em virtude da instabilidade das coi-
sas humanas que um pormenor basta para
mudar inteiramente. Nessa mesma ordem de
idéias Agesilau respondeu a alguém que acha-
va o rei da Pérsia muito feliz, porque, tão
jovem, já era senhor de tão poderoso Estado:
“sem dúvida, mas Priam, na mesma idade, não
era infeliz”. Não se viram reis da Macedônia,
sucessores de Alexandre, acabarem em Roma
como marceneiros e escribas? E tiranos da
Sicília como mestres-escola em Corinto? E
Pompeu, conquistador de metade do mundo e
chefe supremo de tantos exércitos, não pagou
seus últimos cinco ou seis meses de vida com a
humilhação de enviar súplicas aos miseráveis
oficiais do rei do Egito? No tempo de nossos
pais viu-se morrer cativo em Loches e, o que é
pior, depois de dez anos de detenção, Ludovico
Sforza, décimo Duque de Milão e que durante
tanto tempo agitara a Itália. A mais bela das
rainhas, viúva do maior rei da cristandade, não
acaba, indigna e bárbara crueldade, de morrer
pela mão do carrasco? Tais exemplos existem
aos milhares, pois assim como temporais e
tempestades se abatem encarniçadamente con-
tra os mais belos e altos edifícios, há também,
nos céus, espíritos invejosos das grandezas da
terra: “tanto é verdade, que uma força secreta
118 Ovídio.
derruba as coisas humanas e sem dificuldade
esmaga aos pés o orgulho dos fachos, e parte
as achas consulares”'?º. Dir-se-ia que a sorte
aguarda por vezes nosso último dia, a fim de
nos fazer compreender o poder que possui de
derrubar em um instante o que custou longos
anos para edificar, e assim nos impelir a excla-
mar com Labério: “Ah! este dia é um dia a
mais dos que eu deveria viver!2º?
Dai aceitar-se com razão a máxima tão
Justa de Sólon. Mas como se trata de um filó-
sofo para o qual os favores e as desgraças da
sorte não contam nem como coisa feliz nem
como coisa infeliz, pois ele encara grandeza e
poder como acidentes mais ou. menos sem
importância em nossa vida, penso que sua
intenção seja mais profunda e tenha querido
dizer, com isso, que essa felicidade de nossa
existência, dependente da tranqgiiilidade e da
satisfação de um espírito reto, da resolução e
da firmeza de uma alma serena, não deve ser
atribuida ao homem enquanto não representa
o último ato — e sem dúvida o mais dificil —
da comédia de sua vida.
Quanto a tudo mais podemos dissimular;
fazer como filósofos belos discursos de forma
excelente; conservar a nossa serenidade em
face de acidentes que nos atinjam superficial-
mente. Mas na última cena, a que se representa
entre nós e a morte, não há como fingir, é pre-
ciso explicar-lhe com precisão em linguagem
clara e mostrar o que há de autêntico e bom no
fundo de nós mesmos: “então a necessidade
arranca-nos palavras sinceras, então cai a
máscara e fica o homem!???. Eis por que a
esse momento devem relacionar-se todos os
demais atos de nossa vida. É o dia principal, o
dia que valoriza todos os outros. É o dia, diz
um escritor anfigo, que julgará todo o meu
passado. Deixo que a morte se pronuncie sobre
minhas ações; por ela se verá se minhas pala-
vras saem dos lábios ou do coração. Quantos
118 TLucrécio.
120 Macróbio.
121 TLucrécio.
48 MONTAIGNE
deveram à morte a reputação de terem bem ou
mal vivido? Cipião, sogro de Pompeu, desfez,
em bem morrendo, a opinião que até então ha-
viam tido a seu respeito. Epaminondas inda-
gado acerca de quem ele mais estimava, se a
Chabrias, a Ificrates ou a si mesmo, respon-
deu: “Para que me pronuncie é preciso primei-
ramente ver como será nossa morte.” Em ver-
dade, quanto a ele, fora injusto julgá-lo sem
levar em conta sua morte, tão honrosa e cheia
de grandeza. Deus faz o que quer, mas de meu
tempo três pessoas das mais execráveis que
conheci, e cuja vida não fora senão um amon-
toado de abominações e infâmias, tiveram
morte decente e tal que em nenhuma circuns-
tância se poderia querer melhor. Há fins glo-
riosos, e mesmo felizes. Vi a morte interrom-
per, na flor da idade, a existência de alguém
que tudo indicava estar a caminho de realizar
as mais admiráveis ambições; colheu-o a
morte em condições tais que a meu ver a pró-
pria realização de suas esperanças não o teria
elevado mais alto!?2. Morrendo ultrapassou
mais gloriosamente do que sonhara a fama e o
poder a que aspirava em vida. Quando se trata
de julgar a vida dos outros, observo sempre
como terminou; quanto à minha, esforço-me
principalmente para que acabe bem, isto é,
tranquila e silenciosamente.
122 Provavelmente La Boétie.
CAPÍTULO XX
De como filosofar é aprender a morrer
Diz Cícero que filosofar não é outra coisa
senão preparar-se para a morte. Isso, talvez,
porque o estudo e a contemplação tiram a
alma para fora de nós, separam-na do corpo, o
que, em suma, se assemelha à morte e constitui
como que um aprendizado em vista dela. Ou
então é porque de toda sabedoria e inteligência
resulta finalmente que aprendemos a não ter
receio de morrer. Em verdade, ou nossa razão
falha ou seu objetivo único deve ser a nossa
própria satisfação, e seu trabalho tender para
que vivamos bem, e com alegria, como reco-
menda a Sagrada Escritura'?3. Todas as opi-
niões propõem que o prazer é a meta da vida,
mas diferem no que concerne aos meios de
atingir o alvo. É se assim não fosse, as repeli-
ramos de imediato, pois quem daria ouvido a
alguém que apontasse na pena e no sofrimento
os objetivos da existência? A esse respeito, as
dissensões entre as seitas filosóficas são puro
palavrório: “deixemos de lado essas sutile-
zas”"2*: em tais discussões entra mais obsti-
nação e picuinha!?8 do que convém à ciência
tão respeitável. Mas em qualquer papel que se
proponha desempenhar põe o homem um
pouco de si mesmo!2 8.
123 Eclesiastes, UI, 12.
124 Sêneca.
125 Picoterie — argumentação maliciosa e prevo-
cante. (N. do T.)
128 O texto original é obscuro. Michaut o inter-
preta também sem muita clareza. (N. do T.)
Digam o que disserem, na própria prática
da virtude o fim visado é a volúpia. E agrada-
me repetir essa palavra que pronunciam
constrangidos. E se significa prazer supremo e
extremada satisfação melhor se deva ela à vir-
tude do que a qualquer outra causa, pois a
volúpia, robusta e viril, é a mais seriamente
voluptuosa. E deveriamos chamá-la prazer,
denominação mais feliz e mais natural, do que
a de vigor que lhe damos. Quanto à volúpia de
ordem menos elevada, se acreditam que mere-
ça igual nome que o mantenham, mas não com
exclusividade. Mais do que a virtude tem ela
seus inconvenientes e seus momentos dificeis;
além de serem mais efêmeras as sensações que
nos procura, e mais fluidas e fugidias, tem suas
vigilias, seus jejuns, suas penas, seu suor e san-
gue. Paixões de toda sorte influem nela e
redunda ela em tão pesada saciedade que equi-
vale a uma penitência. É erro nosso imaginar
que tais inconvenientes a estimulam, e a condi-
mentam, em razão dessa lei da natureza que
afirma tudo se fortalecer ante o obstáculo
encontrado; e erro é também pensar que, quan-
do se trata de volúpia proveniente da virtude,
semelhantes dificuldades a acabrunham e a
tornam austera e inacessível.
Ao contrário do que se verifica com a volú-
pia, na prática da virtude tais dificuldades eno-
brecem, requintam e realçam o prazer divino e
perfeito que ela nos procura. Bem indigno de
senti-lo é por certo quem pesa o custo e o ren-
ENSAIOS — 1 49
dimento dela; não lhe conhece as belezas nem
o uso. Os que nos afirmam que, embora sua
posse seja agradável, penosa e laboriosa é a
sua conquista, não nos estarão dizendo ser a
virtude coisa sempre desagradável? Mesmo
porque quem a terá jamais atingido? Os mais
perfeitos tiveram de se contentar com aspirar a
ela, dela se aproximar sem nunca chegar a
possuí-la. Enganam-se porém os que assim
faiam, pois não há prazer conhecido cuja pró-
cura em si já-não constitua uma satisfação. Ela
liga-se ao objetivo visado e contribui muito
para o resultado de que participa essencial-
mente. A felicidade e a bem-aventurança da
virtude enchem-lhe as dependências e os cami-
nhos, desde o portão de entrada até os muros
que lhe cercam os domínios.
Um dos principais benefícios da virtude está
no desprezo que nos inspira pela morte, o que
nos permite viver em doce quietude e faz se
desenrole agradavelmente e sem preocupações
nossa existência. E, sem esses sentimentos,
toda volúpia é sem encanto. Eis por que todos
os sistemas filosóficos concordam nesse ponto
e para ele convergem. Embora todos se enten-
dam igualmente em nos recomendar o des-
prezo à dor, à pobreza e outros acidentes a que
está sujeita a vida humana, nem todos o fazem
com igual cuidado, ou porque tais acidentes
não nos atingem forçosamente (em sua maio-
ria Os homens vivem sua vida sem sofrer com a
pobreza, e alguns, como o músico Xenófilo! 2?
que morreu com cento e seis anos, vivem em
perfeita saúde, sem conhecer nem a dor nem a
doença), ou porque, na pior das hipóteses,
pode a morte, quando quisermos, pôr fim aos
nossos males. E ela própria é inevitável:
“Marchamos todos para a morte; nosso desti-
no agita-se na urna funerária; um pouco mais
cedo, um pouco mais tarde, o nome de cada
um dali sairá e a barca fatal nos levará a todos
ao eterno exílio' 28.” Portanto, se a receamos,
temos nela um motivo permanente de tormen-
tos e andaremos como em país inimigo a deitar
os olhos para todos os lados: “ela é sempre
uma ameaça, como o rochedo de Tântalo”"2º.
Nossos tribunais ordenam muitas vezes se
execute o criminoso no próprio local do crime.
Conduzam-no durante o trajeto, entre belas
residências e dêem-lhe as melhores refeições;
os mais deliciosos acepipes não poderão acari-
ciar-lhe o paladar, nem o canto dos pássaros,
nem os acordes da lira lhe devolverão o
sono!3º. Pensais que será sensível a nossos cui-
*27 Filósofo que Montaigne qualifica como músi-
ço.
128 Horácio.
128 Cicero.
130 Horácio.
“dados e que o fim último de sua viagem, sem-
pre em mente, não lhe alterará e tornará insos-
so qualquer possível prazer? “Inquieta-se com
o caminho, conta os dias, mede a vida pela
extensão da estrada, sem cessar atormentado
pela idéia do suplício que o espera!3?.
A meta !32 de nossa existência é a morte; é
este o nosso objetivo fatal. Se nos apavora,
como poderemos dar um passo à frente sem
tremer? O remédio do homem vulgar consiste
em não pensar na morte. Mas quanta estupidez
serã precisa para uma tal cegueira? Por que
não coloca o freio no rabo do asno, desde que
meteu na cabeça andar de costas? '33 Não há
como estranhar caia tão amiúde na armadilha.
As pessoas se apavoram simplesmente com lhe
ouvir o nome: a morte! E persignam-se como
se ouvissem falar no diabo. E como ela é men-
cionada nos testamentos, só resolvem fazer o
seu quando os condenou o médico. E Deus
sabe em que estado de espírito se encontram
então, sob o impacto da dor e do pavor.
Como esta palavra ressoava demasiado
forte a seus ouvidos, e lhes parecia de mau
augúrio, tinham os romanos se habituado a
adoçá-la ou a empregar perifrases. Em vez de
dizer: morreu, diziam: parou de viver, viveu;
bastava-lhes que se falasse em vida. Nós lhes
tomamos de empréstimo esses eufemismos e
dizemos: Mestre João se foi '2*.
Se porventura se aplica o ditado “a palavra
é de prata”, como nasci entre onze horas e
meio-dia no último dia de fevereiro de 1533 e
começamos o ano em janeiro !3º, como acon-
tece agora, faz exatamente quinze dias que
completei meus trinta e nove anos. Posso pois
esperar viver ainda tal periodo; e atormentar-
me meditando sobre tão longinqua eventucli-
dade, fora loucura. Mas jovens e velhos se vão
da vida em condições idênticas. Partem todos
como se acabassem de chegar, sem contar que
não há homem tão decrépito ou velho ou
alquebrado que não alimente a esperança da
longevidade de Matusalém, e não tenha ainda
vinte anos de vida diante de si. Direi mais:
quem, pobre louco, fixou a duração de tua
existência? Acreditas no que dizem os médicos,
131 Cláudio.
132 Em outro trecho Montaigne diz fim (bout) e
não meta (but). (N. do T.)
183 Lucrécio.
134 “Feu?, do latim “fuit” foi — Fulano, que se foi
— Hoje ainda se diz “feu un tel” em francês, mas
será então traduzido por “falecido fulano”. Quanto
a “maitre Jean” é o apelido que se dava outrora aos
pedantes, sábios ou doutores. (N. do T.)
135 Em França o ano teve vários inícios. Foi Car-
los IX quem fixou em 1563 a data do começo do
ano em janeiro.
50 MONTAIGNE
sem atentar para o que se verifica em torno de
ti, e sem julgar pela experiência. Pelo andar
das coisas, há muito já não vives, senão por
excepcional favor. Já ultrapassaste a-duração
habitual da vida. Podes comprová-lo contando
quantos entre os teus conhecidos morreram
antes dessa idade, em bem maior número do
que os que a alcançaram. Anota os nomes dos
que, pelo brilho de sua existência, adquiriram
certa fama; aposto encontrar entre eles, mortos
antes dos trinta e cinco, muitos mais do que
depois.
O razoável e o piedoso está em tomar como
exemplo a humanidade de Jesus: ora, sua exis-
tência terrena findou-se aos trinta e três anos.
O maior homem do mundo, homem e não
Deus, Alexandre, morreu também com essa
idade.
Quantas maneiras diversas tem a morte de
nos surpreender? “O homem nunca pode che-
gar a prever todos os perigos que o ameaçam a
cada instante! * 8.” Deixo de lado as doenças,
as febres, as pleurisias. Quem poderia imagi-
nar que um duque de Bretanha fosse morrer
sufocado pela multidão'como aconteceu a um
deles, quando da entrada em Lião do Papa
Clemente, meu compatriota? Não vimos um
dos nossos reis morrer em folguedo? E não
faleceu outro, seu antepassado, da queda de
um porco que montava? Esquilo, advertido de
que morreria da queda de uma casa, embora
dormisse em um campo de trigo, foi esmagado
por uma tartaruga caída das garras de uma
águia. Houve quem sucumbisse em conse-
quência de uma semente de uva engolida;
outro, imperador, morreu de uma arranhadura
feita com o pente; Emílio Lépido em virtude de
uma topada na porta de sua casa; Aufídio por
ter batido com a cabeça no batente da entrada
da sala do Conselho. E entre as coxas das
mulheres: o pretor Cornélio Galo, Tigelino,
comandante da guarda de Roma, Ludovico,
filho de Gui de Gonzaga, Marquês de Mân-
tua, e, o que é péssimo exemplo, Spensipo, filó-
sofo platônico. E até um papa de nosso tempo.
O pobre Bebius, que era juiz, ao adiar o jul-
gamento de certa causa, morreu subitamente;
chegara a sua hora. O médico Caio Julius, ao
tratar dos olhos de um enfermo, teve os seus
próprios fechados para sempre. E, para mistu-
rar-me à enumeração: um dos meus irmãos,
Capitão Saint Martin, de vinte e quatro anos e
que já dera provas sobejas de seu valor, foi
atingido por uma bola logo abaixo da orelha
direita quando jogava péla. Nem vestígio nem
contusão, não se sentou sequer, não inter-
rompeu O jogo, e no entanto cinco ou seis
138 Horácio.
horas depois, ei-lo atacado de apoplexia causa-
da pelo golpe recebido.
Tais exemplos são tão frequentes, repetem-
se tão comumente diante de nossos olhos, que
não parece possível evitar se oriente nosso pen-
samento para a morte, nem negar que a cada
instante nos ameace ela. Que importa o que
possa acontecer, direis, se não nos preocu-
pamos com isso? É também meu parecer, e se
houvesse meio de escapar ao golpe, ainda que
fosse sob uma pele de vitela, não seria homem
se não o empregasse, pois a mim me basta
viver sossegado e pondo em prática tudo o que
para tanto venha a contribuir, embora pouco
glorioso ou exemplar: “prefiro passar por
louco, ou impertinente, se meu erro me agrada
ou não o percebo, a ser sábio e sofrer” '3 7, É
loucura, porém, querer furtar-se assim a essa
idéia. Vai-se, volta-se, corre-se, dança-se: ne-
nhuma notícia da morte, que beleza! Mas
quando ela nos cai em cima, ou em cima de
nossas mulheres, nossos filhos, nossos amigos,
que os surpreenda ou não, quantos tormentos,
gritos, imprecações, desespero! Vistes alguém
mais humilhado, transtornado, confundido? É
preciso preocupar-se com ela de antemão. Pois
essa incúria animal, ainda que pudesse alojar-
se na mente de um homem inteligente, o que
acho inteiramente impossível, nos faz pagar
caro demais sua mercadoria!'*º. Se a morte
fosse um inimigo suscetível de se evitar, acon-
selharia agir diante dela como um covarde
diante do perigo; mas, em não sendo isso ver-
dade, e atingindo ela infalivelmente os fugiti-
vos, poltrões ou valentes, “persegue o homem
em sua fuga e não poupa nem mesmo a tímida
Juventude que tenta escapar-lhe”"3º: como
nenhuma couraça nos protege contra ela,
“cobri-vos de ferro e de bronze, a morte vos
atingirá sob a armadura”! *º, aprendamos a
esperá-la de pé firme e a lutar. Para começar a
despojá-la da vantagem maior de que dispõe
contra nós, tomemos por caminho inverso ao
habitual. Tiremos dela o que tem de estranho;
pratiquemo-la, habituemo-nos a ela, não pen-
semos em outra coisa; tenhamo-la a todo ins-
tante presente em nosso pensamento e sob
todas as suas formas. Ao tropeço de um cava-
lo, à queda de uma telha, à menor picada de
alfinete, digamos: se fosse a morte! e esforce-
mo-nos em reagir contra a apreensão que uma
tal reflexão pode provocar. Em meio às festas e
aos divertimentos, lembremo-nos sem cessar
de que somos mortais e não nos entreguemos
tão inteiramente ao prazer que não nos sobre
137 Horácio. ;
138 Sa denrée — no caso, suas ilusões. (N. do T.)
139 Horácio. :
140 Id.
ENSAIOS —I 51
tempo para recordar que de mil maneiras
nossa alegria pode acabar na morte, nem em
quantas circunstâncias ela sobrevém inopina-
damente. É o que faziam os egípcios quando
em seus festivais e votados aos prazeres da
mesa, mandavam trazer um esqueleto humano
para rememorar aos convivas a fragilidade de
sua vida: “Pensa que cada dia é teu último dia,
e aceitarás com gratidaó aquele que não mais
esperavas! 41.”
Não sabemos onde a morte nos aguarda,
esperemo-la em toda parte. Meditar sobre a
morte é meditar sobre a liberdade; quem
aprendeu a morrer, desaprendeu de servir; ne-
nhum mal atingirá quem na existência com-
preendeu que a privação da vida não é um
mal; saber morrer nos exime de toda-sujeição e
constrangimento. Paulo Emílio, ao ir receber
as honras do triunfo, respondia ao mensageiro
enviado por esse infeliz rei da Macedônia, seu
prisioneiro, a fim de suplicar-lhe que não o
incluísse em seu séquito: “Que o solicite a si
próprio.”
Em verdade, sem certa anuência da natureza
é dificil que a arte e a indústria progridam nas
obras que produzem. Eu não sou melancólico,
sou sonhador. Não há nada que minha imagi-
nação vasculhe mais do que a idéia da morte, e
isso desde sempre, mesmo no período de
minha vida em que mais me dediquei aos pra-
zeres: “estava então na flor da idade”! “2.
Entre senhoras e festas, imaginavam que
andasse preocupado a remoer algum ciúme ou
à espera inquieta de qualquer acontecimento,
enquanto, na realidade, meu pensamento se
orientava para não sei quem que, dias antes, ao
sair de festa semelhante, entregue ao ócio, ao
amor e às doces recordações, fora tomado de
febre e morrera. E considerava que coisa aná-
loga me aguardava de atalaia: “Em breve o
tempo presente já não será e não poderemos
lembrá-lo! *3.”'E não me franzia a fronte, mais
do que outro qualquer, esse pensamento.
É impossível que à princípio essa idéia
não nos cause penosa impressão. Mas vol-
tando a ela, encarando-a de todos os ângulos,
aos poucos acabamos por nos acostumarmos a
ela. De outro modo teria eu andado continua-
mente agitado e amedrontado, pois ninguém
mais do que eu jamais desconfiou tanto da
vida e contou menos com a sua duração.
Minha saúde, até agora excelente, apenas per-
turbada por pequenas indisposições, não me
dá maiores esperanças de grande longevidade,
como tampouco as doenças me fazem temer
141 Horácio.
142 Catulo.
143 TLucrécio.
um fim prematuro. A cada instante tenho a
impressão de haver chegado minha última
hora, e repito sem cessar: o que devera ocorrer
fatalmente um dia pode acontecer hoje. Efeti-
vamente, OS acasos e perigos a que estamos
expostos pouco ou nada nos aproximam do
fim. E se pensarmos em quantos acidentes
podem ameaçar-nos, além dos que imagina-
mos iminentes, deveremos reconhecer que no
mar como no lar, na guerra como no retiro, a
morte sempre se encontra perto de nós:
“Nenhum homem é mais frágil do que outro,
nenhum tem assegurado o dia seguinte! * *.”?
Para fazer o que me cumpre fazer antes de
morrer, todo tempo me parece curto, ainda que
se trate de trabalho de uma hora. Alguém,
folheando meu caderno de notas, revelou algo
que eu desejava se fizesse depois de minha
morte; disse a essa pessoa a verdade, isto é,
que ao registrar essa nota me encontrava a
uma légua apenas de casa, mas me apressara
em escrevê-la porque não estava certo de não
morrer antes de entrar. A chegada da morte
não me surpreenderá; acho-me sempre, e quan-
to posso, preparado para essa ocorrência. Ela
se mistura sem cessar a meu pensamento, nele
se grava. Na medida do possível andemos sem-
pre de botas e prontos para partir e, em parti-
cular, não tenhamos negócios a tratar senão
com nós mesmos: “por que, em tão curta vida,
fazer tantos projetos?! * 8” Suficiente trabalho
teremos com esses nossos negócios próprios,
para que nos embaracemos com outros. Mais
do que da morte queixam-se uns de que venha
interromper uma bela vitória; lamentam-se ou-
tros de não terem podido casar a filha antes ou
educarem as crianças; um lastima deixar a
mulher, outro o filho, entes a que mais se ape-
gavam. Quanto a mim, graças a Deus, estou
em estado de desaparecer quando Lhe aprou-
ver, sem nenhuma saudade senão da própria
vida. Estou em regra com tudo e como que já
disse adeus a todos, salvo a mim mesmo.
Nunca homem se apresentou mais bem prepa-
rado para deixar a vida no momento neces-
sário e sem a menor dissimulação. Ninguém se
desprendeu melhor e mais completamente da
vida do que eu. As mortes mais integrais são
as mais desejáveis! * 8. “Oh desgraça — dizem
uns —, um só dia nefasto basta para envene-
nar todas as alegrias da vida! * 7.” Não termi-
144 Sêneca.
145 Horácio.
146 No texto “les plus mortes morts”, isto é, as
mortes em que tudo morre ao mesmo tempo em
oposição às mortes: em que o indivíduo se extingue
gradualmente, através de sucessivas perdas de facul-
dades. (N. do T.)
147 Lucrécio.
52 MONTAIGNE
narei nunca a minha obra — lamenta o arqui-
teto —, deixarei pois imperfeitos esses
soberbos baluartes! *º.” Nada se empreenda
pois, em vista de tão remota conclusão, pelo
menos não se o faça com a apaixonada inten-
ção de chegar ao fim. Nascemos para agir:
“quero que a morte me surpreenda em pleno
trabalho”? 4º,
Vamos agir portanto e proitonguemos os tra-
balhos da existência quanto pudermos, e que a
morte nos encontre a plantar as nossas couves,
mas indiferentes à sua chegada e mais ainda
ante as nossas hortas inacabadas! *º. Conheço
alguém que, na hora extrema, lastimava inces-
santemente lhe fosse cortar a mcrte, no décimo
quinto ou no décimo sexto de nossos reis, o fio
de uma história em andamento. “Não pensem
que a morte nos rouba a saudade das coisas
mais queridas! 81,”
Devemos desfazer-nos dessas preocupações
vulgares e nocivas. Se se construíram cemité-
rios perto das igrejas e nos lugares mais
frequentados da cidade, foi, diz Licurgo, para
acostumar a plebe, as mulheres e as crianças a
não se assustarem à vista de um morto e a fim
de que o continuo espetáculo de ossadas, tú-
mulos, pompas funerárias, advirta todos do
que os espera: “Era outrora costume alegrar os
festins com' execuções e com combates de
gladiadores; estes caiam amiúde entre as taças
e inundavam de sangue as mesas do banque-
te! 52»
Os egípcios em seus festins faziam apresen-
tar aos convivas uma imagem da morte, que
lhes gritava: “bebe, goza, pois serás assim de-
pois de morto”. Também se tornou em mim
um hábito não somente ter sempre presente a
idéia da morte como também falar dela
constantemente. E nada me interessa mais do
que indagar da morte das pessoas: que disse-
ram, que atitude assumiram? Nas histórias que
leio, os trechos referentes à morte são os que
mais me prendem a atenção. Vê-se isso pela
escolha dos meus exemplos e pela afeição par-
ticular que revelo pelo assunto. Se fosse escri-
tor, anotaria as mortes que mais me impressio-
naram e as comentaria, pois quem ensinasse os
homens a morrer os ensinaria a viver. Dicear-
cus escreveu um livro com êsse título, porém
diferente e menos útil em seu objetivo.
Dirão que em sua realidade a morte ultra-
passa a nossa concepção; por mais que nos
preparemos para enfrentá-la, quando ela che-
gar estaremos no mesmo ponto. Deixai-os
148 Virgílio.
149 Ovídio.
15º Imparfait — não feito, não terminado.
151 Lucrécio.
152 Silius Itálico.
falar. Sem dúvida uma tal preparação com-
porta grandes vantagens, pois será pouco
caminhar ao seu encontro sem apreensões? Há
mais: a própria natureza nos ajuda na ocor-
rência e nos dá a coragem que poderia faltar-
nos. Se nossa morte é súbita e violenta, não
emos tempo de receá-la; se não, na medida em
que a enfermidade nos domina, diminui natu-
ralmente o nosso apego à vida. Custa-me
muito mais aceitar a idéia de morrer quando
gozo saúde do aus quando estou com febre.
Quando não me sinto bem, as alegrias da vida
me parecem menos valiosas, tanto mais quanto
não estou em condições de usufruí-las,a morte
se me afigura menos temível. Disso concluo
que quanto mais me desprender da vida e me
aproximar da morte, tanto mais facilmente me
conformarei com a passagem de uma para
outra. Como diz César, e como o verifiquei em
mais de uma circunstância, as coisas produ-
zem maiores efeitos de longe que de perto.
Assim é que me atormentam mais as doenças
se estou bem de saúde do que se as enfrento. A
alegria, o prazer e a força induzem-me a uma
ampliação desproporcional do estado contrá-
rio e os incômodos da enfermidade eu os con-
cebo mais pesados do- que os sinto realmente
quando adoeço. E espero que o mesmo se dê
quanto à morte.
As flutuações a que se sujeita a nossa saúde,
o enfraquecimento gradual que sofremos, são
meios que a natureza emprega para dissimu-
lar-nos a aproximação de nosso fim e de nossa
decrepitude. Que resta a um ancião do vigor de
sua juventude e do seu passado? “Ah, como
sobra pouco aos velhos! 83.” César, a quem
um soldado, alquebrado e decrépito, viera
pedir em plena rua autorização para se matar,
respondeu rindo: “Pensas então que ainda
estás vivo?”
Creio que não seríamos capazes de suportar
uma tai mudança se a ela chegássemos repenti-
namente. Mas em nos conduzindo pela mão,
devagar, quase insensivelmente, a natureza nos
familiariza com essa miserável condição. De
tal modo que a mocidade se extingue em nós -
sem que lhe percebamos o fim, em verdade
mais penoso do que o de nosso ser inteiro ao
ter de deixar uma vida de achaques quando
morremos de velhice. O salto que nos cabe dar
para passar de uma existência miserável ao fim
dela não é tão sensível quanto o que separa
uma vida tranquila e florescente de uma vida
“difícil e dolorosa. O corpo curvado tem menos
força para carregar um fardo; o mesmo ocorre
com a alma, que é preciso fortalecer e pôr em
condição de resistir à opressão causada pelo
153 Pseudo Galo.
ENSAIOS — 53
medo da morte. Como é impossível que encon-
tre a calma sob o peso desse temor, se o pudes-
se dominar inteiramente — o que está acima
das forças humanas — estaria a alma assegu-
rada contra a inquietação, a ansiedade, o medo
e tudo o que nos aflige: “nem o rosto cruel de
um tirano, nem a tempestade furibunda que
revolve o Adriáticô, nada lhe pode abalar o
ânimo; nada, nem Júpiter lançando seus
raios”! 84. A alma tornar-se-ia então senhora
de suas paixões e de seus mais ardentes dese-
jos; nada a atingiria, nem a indigência, nem a
vergonha, nenhuma adversidade. Esforcemo-
nos pois por conseguir essa vantagem. Nisso
consiste a verdadeira e soberana liberdade, a
que nos permite desafiar à violência e a injusti-
ça, desprezar a prisão e os ferros escraviza-
dores: “Sobrecarregar-te-ei os pés e as mãos de
cadeias, e entregar-te-ei ao mais cruel dos
carcereiros. — Um Deus me libertará quando
eu o quiser — esse Deus, penso eu, é a morte,
a morte, termo de todas as coisas! 8 8”
Nossa religião não teve alicerce humano
mais sólido que o do desprezo à vida. E não é
somente a voz da razão que a isso nos conduz,
pois por que temeríiamos perder uma coisa que,
uma vez perdida, já não podemos lamentar? E
como a morte nos ameaça sem cessar sob vá-
rios aspectos, não será mais desagradável
ficarmos a receá-los todos, de antemão, do que
nos resignarmos uma vez por todas, diante
dela? Por que se préocupar com sua vinda, se é
inevitável? Dizia alguém a Sócrates: “os trinta
tiranos condenaram-te à morte”. Ao que o filó-
sofo respondeu: “Eles já o foram pela nature-
* Que tolice nos afligirmos no momento em
que nos vamos ver livres de nossos males !-
Nossa vinda ao mundo foi para nós a vinda de
todas as coisas; nossa morte será a morte de
tudo. Lastimar não mais viver dentro de cem
anos é tão absurdo quanto lamentar não ter
nascido um século antes. A morte é origem de
outra vida. Nascemos entre lágrimas e muito
nos custou entrar na vida atual; passando para
uma nova vida despojamo-nos do que fomos
na precedente. Não pode ser grave uma coisa
que acontece uma só vez; será razoável recear
com tanta antecedência acidente de tão curta
duração? Em relação à morte, viver pouco ou
muito é a mesma coisa, pois nada é longo ou
curto quando deixa de existir. Diz Aristóteles
que há no rio Hipanis insetos que vivem
somente um dia: os que morrem as oito da
manhã morrem jovens e os que morrem às
cinco da tarde morrem de decrepitude. Quem
não acharia divertido que tão insignificante
154 Horácio.
155 Td.
diferença em existências tão efêmeras bastasse
para tachá-ias de felizes? Semelhante aprecia-
ção acerca da duração da vida humana não é
menos ridícula se a comparamos com a eterni-
dade, ou sirhplesmente com a duração das
montanhas, dos rios, das estrelas, das árvores e
até de certos animais. |
A natureza nos ensina: sais deste mundo
como nele entrastes. Passastes da morte à vida
sem que fosse por efeito de vossa vontade e
sem temores; tratai de vos conduzirdes de
igual maneira ao passardes da vida à morte;
vossa morte entra na própria organização do
universo: é um fato que tem seu lugar assina-
lado no decurso dos séculos: “Os mortais se
emprestam mutuamente a vida... é a tocha
que se transmite de mão em mão nas corridas
sagradas! 88?” Mudarei para vós esse belo
entrosamento das coisas? Morrer é a própria
condição de vossa criação; a morte é parte
integrante de vós mesmos. A existência de que
gozais participa da vida e da morte a um
tempo; desde o dia de vosso nascimento cami-
nhais concomitantemente na vida e para a
morte: “a primeira hora de vossa vida é uma
hora a menos que tereis para viver”!8?7 —
“nascer é começar a morrer; o último instante
de vida é consegiiência do primeiro”! 58, O
tempo que viveis, vós o roubais à vida e a res-
tringis proporcionalmente. Vossa vida tem
como efeito conduzir-vos à morte. E enquanto
viveis estais constantemente sob a ameaça de
morte, e mortos, já não viveis mais; ou, se
assim preferis, a morte sucede à vida, logo
durante a vida estais moribundos; e a morte
atinge muito mais duramente e essencialmente
o moribundo do que o morto. Se soubestes
usar a vida e gozá-la quanto pudestes, ide-vos
e vos declareis satisfeitos: “por que não sair do
banquete da vida como um' conviva sacia-
. do?! 89?” Se não a soubestes usar, se ela vos foi
inútil, que vos importa perdê-la? E se ela conti-
nuasse em que a empregaríeis? “Para que pro:
longar dias de que não se saberá tirar melhor
proveito do que no passado? º” A vida em si
não é um bem nem um mal. Torna-se bem ou
mal segundo o que dela fazeis. É se vivestes
'um dia já vistes tudo, pois um dia é igual a
todos Qs outros. Uma é a luz, uma é a noite.
Esse sol, essa lua, essas estrelas, em sua dispo-
sição, são os mesmos que apreciaram vossos
antepassados e que conhecerão vossos descen-
dentes. “Vossos sobrinhos não verão nada
mais do que viram seus pais! 8!” E em última
156 TLucrécio.
157 Sêneca.
15º Manílio.
159 Tucrécio.
160 Td.
161 Manílio.
54 MONTAIGNE
análise pode-se dizer que a totalidade dos atos
diversos que comporta a comédia a que vos
convidei cumpre-se no decurso de um ano,
cujas quatro estações, se o observastes, abar-
cam a infância, a adolescência, a idade virile a
velhice do mundo. Essa marcha é constante;
não a modifico nunca e sem cessar ela se repe-
te, e assim será eternamente: “Giramos sempre
em torno do mesmo círculo”! 82. “o ano reto-
ma sem descontinuar a estrada percorri-
da”? 83. Não estã em meus projetos inovar
para vós a ordem das coisas: “não posso nada
imaginar, nada inventar de novo para vos
agradar; é, e será sempre, a repetição das mes-
mas cenas”! 8*. Dai vosso lugar a outros como
outros vos deram o seu. A igualdade é a pri-
meira condição da equidade. Quem se hã de
queixar de uma medida que atinge a todos?
Podeis prolongar vossa vida, o que quer que
façais não diminuirá em nada o tempo que ten-
des para serdes mortos. Por mais' comprida
que seja, vossa vida não será nada, e esse esta-
do que lhe sucederá — e que pareceis tanto
temer — terá a mesma duração que se houvés-
seis morrido no berço: “Vivei quantos séculos
quiserdes, nem por isso será menos eterna a
morte" 2
Nesse estado em que vos porei não tereis
motivo para descontentamento: “Ignorais que
não vos sobrevirá um outro vós mesmo, O
qual, vivo, vos possa chorar como morto e
gemer sobre o vosso cadáver!" 88” E essa vida
que tanto lamentais perder não mais a deseja-
reis: “Não teremos mais com que nos inquie-
tarmos nem com nós mesmos, nem com a
vida... nenhuma saudade teremos da existên-
cia! 87” “A morte é menos temível do que
nada, se é que alguma coisa menos que nada é
possível! 88” Morto ou vivo, vós não lhe esca-
pais: vivo, porque sois; morto, porque não sois
mais. Por outro lado ninguém morre antes da
hora. O tempo que perdeis não vos pertence
mais do que o que precedeu vosso nascimento,
e não vos interessa: “Considerai em verdade
que os séculos inumeráveis, já passados, são
para vós como se não tivessem sido! 8º.”
Qualquer que seja a duração de vossa vida,
ela é completa. Sua utilidade não reside na
duração e sim no emprego que lhe dais. Há
quem viveu muito e não viveu. Meditai sobre
isso enquanto o podeis fazer, pois depende de
vós, e não do número de anos, terdes vivido
bastante. Imagináveis então nunca chegardes
ao ponto para o qual vos dirigieis? Haverá
162 T[ucrécio.
163 Virgílio.
164 Lucrécio.
1655 Td.
caminho que não tenha fim? E se o fato de ter
companheiros vos pode consolar, pensai que o
mundo inteiro segue caminho idêntico: “As
raças futuras vos seguirão por sua vez! 7º”
Tudo obedece ao mesmo impulso a que obe-
deceis. Haverá algo que não ênvelheça como
vós envelheceis? Milhares de homens, milhares
de animais, milhares de outras criaturas mor-
rem no mesmo instante em que morreis: “não
há uma só noite, nem um só dia em que não se
ouçam, misturados aos vagidos dos recêém-nas-
cidos, os gritos de dor em torno dos esqui-
feg”1 71
Por que tentar recuar se não vos é permitido
voltar atrás? Vistes mais de um indivíduo que
se satisfez com morrer, fugindo assim a gran-
des misérias; já deparastes com alguém que se
achou prejudicado? E não será tolice condenar
uma coisa que não conheceis nem pessoal-
mente nem através de outro? Por que vos quei-
xardes de mim e do destino? Nós vos estare-
mos prejudicando? Cabe-vos governar-nos ou,
ao conirário, dependeis de nós? Por mais
moço que sejais, vossa vida chegou ao fim; um
homem de pequena estatura é tão completo
quanto outro muito grande. Nem a estatura do
homem, nem sua existência têm medidas
determinadas. É :
Quiron recusou a imortalidade quando
Saturno, seu pai, deus do tempo e da mortali-
dade, lhe revelou as condições dela. Imaginai a
que ponto uma vida sem fim fora menos tole-
rável e mais penosa para o homem do que a
que lhe foi dada. Se não tivésseis a morte, vós
me amaldiçoaríeis sem cessar por vos haver
privado dela. Foi propositadamente que a ela
juntei alguma amargura, a fim de impedir que
ante a comodidade de seu uso não a buscásseis
com excessiva avidez. Para vos trazer a essa
moderação que solicito de vós, de não abreviar
a vida e não tentar esquivar a morte, temperei-
as pelas sensações mais ou menos suaves, mais
ou menos duras gue vos podem outorgar. Ensi-
nei a Tales, o primeiro entre vossos sábios! 72,
que viver e morrer são igualmente indiferentes;
o que o impeliu a responder muito sabiamente
a alguém que lhe perguntava por que então
não se matava: porque é indiferente. A água, a
terra, o fogo, tudo o que constitui meu domínio
e contribui para vossa vida, não contribuem
mais do que à morte. Por que temeis vosso últi-
mo dia? Ele não vos entrega mais à morte do
que o faz cada um dos dias anteriores. Não é o
último passo a causa de nossa fadiga; ele ape-
nas a determina. Todos os dias levam à morte,
só o último a alcança. Eis os sábios conselhos
que vos dã a natureza, nossa mãe.
166-171
Lucrécio.
172 Filósofos.
|
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ENSAIOS— I 55
Amiúde indaguei de mim mesmo por que,na
guerra, a perspectiva ou a presença da morte,
nossa ou de outrem, nos impressiona muito
menos do que em nossos lares. Se assim não
fosse, um exército se comporia unicamente de
mêdicos e de choramingas. Estranho igual-
mente que a morte em sendo a mesma para
todos, a acolham com mais calma os campo-
neses e o povo miúdo que os outros. Creio, em
verdade, que são essas fisionomias de circuns-
tâancia e esse aparato lúgubre com que a cer-
cam, que nos impressionam mais do que ela
própria. Quando ela se aproxima, hã uma
modificação total em nossa vida cotidiana:
mães, mulheres é crianças gritam e se lamen-
tam. Inúmeras pessoas nos visitam, consterna-
das; a gente da casa aí está, pálida e desespe-
rada; a obscuridade reina no quarto;
acendem-se velas; à nossa cabeceira juntam-se
padres e médicos; tudo, em suma, em volta de
nós se dispõe como para inspirar horror; ainda
não rendemos o último suspiro, e já estamos
amortalhados e enterrados. As crianças ame-
drontam-se quando as pessoas, mesmo suas
conhecidas, se apresentam mascaradas; pois é
O que ocorre nesse momento. Arranquemos as
máscaras às coisas como às pessoas e por
baixo veremos muito simplesmente a morte. A
mesma com a qual partiu ontem sem maior
pavor tal ou qual criado ou aia. Feliz é a morte
que nos surpreende sem que haja tempo para
semelhantes preparativos!
CAPÍTULO XXI
A força da imaginação
“Uma imaginação fortemente preocupada
com um acontecimento pode provocá-lo”,
dizem os clérigos.
Sou desses sobre os quais a imaginação tem
grande domínio. Todos são atingidos por ela,
mas alguns há que ela derruba. Ela me perse-
gue e eu me esforço por fugir na impossibi-
lidade de lhe resistir. Viveria sempre, de bom
grado, na companhia de pessoas sadias e de
bom humor; a vista das angústias alheias influi
fisicamente em mim de maneira penosa, e não
raro sofro de sentir que alguém sofre. Diante
de quem tosse continuamente sinto igual irrita-
ção nos pulmões e brônquios. Sou levado a
visitar menos os doentes pelos quais me intê-
resso, e preciso ver, do que os outros, os que
não considero tanto e visito ocasionalmente.
Pego a doença que estudo e a semeio em mim.
Não acho estranho que a imaginação dê febre
e mesmo provoque a morte nos que não a
controlam.
Simon Thomas foi um grande médico em
seu tempo. Lembro-me de que com ele me
encontrei em Tolosa em casa de um ancião
rico e doente do peito. Entre outros meios de
cura, aconselhou-lhe Simon Thomas a fazer
com que eu me agradasse em sua companhia,
pois em contemplando o frescor de meu rosto,
concentrando o pensamento na alegria e no
vigor que se irradiavam de meu ser, então em
plena adolescência, impregnando todos os seus
sentidos dessa exuberância de saúde que havia
em mim, poderia melhorar seu estado de saúde
habitual. Omitia de dizer, entretanto, que o
meu talvez se ressentisse da experiência.
Galo Víbio dedicou-se de tal modo ao estu-
do das causas e efeitos da loucura que perdeu a
razão e não mais a recobrou. Podia vanglo-
riar-se de se ter tornado louco por excesso de
sabedoria. Em certos condenados o pavor
adianta-se à ação do carrasco, como se viu no
caso do condenado a quem desvendaram os
olhos no patíbulo a fim de lhe comunicarem
ter sido agraciado. Ao lhe tirarem a venda
verificaram que já morrera, fulminado pela sua
imaginação. Suamos e trememos, empalide-
cemos e coramos sob a sua influência. Em
leito de pluma agita-nos o corpo a ponto, por
vezes, de nos levar à morte; e tanto inflama a
fogosa mocidade que ocorre aos jovens satisfa-
zerem em sonho seus desejos amorosos.
Embora não seja raro ver-se, à noite, apare-
.cerem cornos em quem não os tinha ao deitar-
se, o caso de Cippus, rei da Itália, é particular-
mente notável. Assistira durante o dia a uma
luta de touros e se interessara tanto que a noite
inteira sonhara lhe cresciam chifres na cabeça,
o que pela força da imaginação aconteceu
efetivamente. O amor deu ao filho de Creso a
voz que a natureza lhe recusara. Antíoco con-
56
traiu uma febre!?? em consegiência da,
impressão profunda que lhe causou a beleza de
Estratonice. Plínio afirma que viu Lúcio Cos-
sitio mudar de sexo e se tornar homem no dia
de suas núpcias! 74. Pontano e outros relatam
semelhantes metamorfoses ocorridas na Itália
em séculos passados; e em virtude de violento
desejo dele próprio e de sua mãe, Ífis: “pagou
como homem as promessas que fizera quando
mulher”?! 78.
De passagem por Vitry-le-François! 7 £ foi-
me dado ver um rapaz a quem o bispo de Sois-
sons dera o nome de Germain na confirmação,
e que todos os habitantes do lugar haviam tra-
tado por Maria, como mulher, até a idade de
vinte e dois anos. Quando o conheci era já
velho, muito barbudo e não se casara. Expli-
cou-me que, em consequência de esforço feito
para saltar, ocorrera O aparecimento de seus
órgãos viris. É ainda de uso na região canta-
rem as moças uma canção em que se reco-
menda não fazerem grandes exercícios para
não lhes acontecer tornarem-se rapazes como
Maria-Germano. Não é tão extraordinário
assim o caso, e essa espécie de acidente se veri-
fica não raro. Pode-se observar entretanto que
a ação da imaginação em tais casos consiste
em uma contínua obsessão e excitação que
levam à mudança definitiva de sexo como
solução mais cômoda e eficiente! 7 7.
Há quem atribua à imaginação os estigmas
do Rei Dagoberto e de São Francisco. Diz-se
também que sob a sua influência pode o corpo
humano erguer-se por vêzes do seu lugar.
Paracelso conta que certo padre se alçava a
um êxtase tal que durante longo tempo perma-
necia sem respirar e sem sensibilidade. Santo
Agostinho cita outro que simplesmente, ao
ouvir lamentações ou gemidos, desmaiava
imediatamente e tão fora de si ficava que não
acordava do desmaio por mais que o sacudis-
sem, lhe berrassem aos ouvidos, o beliscassem
ou queimassem. Voltando a si, dizia ter perce-
bido realmente vozes, mas longínquas, e só
173 Febre no século XVI significa ainda, de um
modo geral, doença. Poder-se-ia traduzir mais
vulgarmente: ficou doente ante a beleza de Estrato-
nice. (N. do T.)
17º No texto: “de femme changê en homme.” —
Plínio cita outros casos, mas nenhum no sentido
contrário. (N. do T.)
175 Ovídio.
178º Em 1580 — “Diário de Viagem” de Montaig-
ne.
177 A explicação é extremamente confusa. Mi-
chaut não a esclarece tampouco, antes a complica,
fazendo intervir a natureza como agindo para esca-
par à insistência da imaginação. Mas o que Mon-
taigne procura provar é exatamente a força da
imaginação. (N. do T) -
|
MONTAIGNE
então enxergava suas queimaduras e chagas. E
de que não se tratava de impostura voluntária,
tinha-se a prova no fato da perda de pulso e de
hálito! 78. É verossimil que seja por efeito da
imaginação, agindo de preferência sobre as
almas da gente do povo, inclinada à creduli-
dade, que as visões, os milagres, os encanta-
mentos e os fatos sobrenaturais encontram
quem neles mais acredite. Tanto e tão bem os
doutrinaram que chegam a pensar verem as
coisas que em verdade não vêem.
Creio também que essas falhas divertidas
verificáveis na consumação do casamento e
que constituem um obcecante entrave a preo-
cupar a nossa sociedade, não passam no fundo
de um efeito da apreensão e da timidez! 7º. Sei
de fonte segura de alguém, por quem respondo
como por mim mesmo e não pode ser suspei-
tado de fraqueza nem de credulidade, que
ouviu um de seus companheiros contar a des-
ventura que o atingira no momento menos
desejado. A narrativa veio-lhe à memória em
idêntica circunstância e foi de tal ordem sua
apreensão, sua imaginação se viu tão atingida
por esse infortúnio que lhe aconteceu então —
e de outras feitas — a mesma coisa, a má lem-
brança perseguindo-o sem cessar. Para obviar
a tão estranha situação, imaginou um meio
não menos estranho: tomando a dianteira,
antes de mais nada confessava a possibilidade
do malogro. Assim se aliviava a contenção de
seu espírito e dessa maneira, em se achando
preparado para O pior, muito menos o preocu-
pava a idéia. Entregando-se então sua compa-
nheira, sem forçá-lo nem nada exigir dele, viu-
se totalmente curado e liberto de sua obsessão.
Quem uma vez praticou ato de virilidade, nada
mais tem a temer, senão por justa causa de
esgotamento. Semelhante acidente só é de
recear-se, em geral, em circunstâncias em que
nosso espírito se acha sobreexcitado por um
desejo imoderado a que se alia o respeito,
principalmente quando os encontros são im-
previstos e rápidos. Não nos podemos então
recuperar. Conheço alguém, semi-saciado aliás
dos prazeres desse gênero, e em quem o conta-
to da mulher bastava para lhe acalmar o ardor,
que deve a essa impotência ter conservado ape-
sar da idade suas funções sexuais. Conheço
outro ao qual bastou que um amigo assegu-
rasse possuir um talismã contra tais encanta-
mentos para curá-lo de suas fraquezas. A coisa
merece ser contada.
Certo conde, de mui boa família, e muito
178 Da respiração.
178 Atribuía-se a impotência à feitiçaria. Mon-
taigne a explica de acordo com a psicologia moder-
na. (N. do T.)
ENSAIOS — I 57
meu amigo, desposou uma bela mulher que
fora objeto das assiduidades de alguém: que
assistia ao casamento. Isso inquietou bastante
seus amigos e em particular uma velha senho-
ra, sua parenta, que presidia às núpcias em sua
própria casa. Ela acreditava nesses enfeitiça-
mentos e me comunicou seu temor de que o
indivíduo usasse de tais meios contra o noivo.
Respondi-lhe que tinha possibilidade de evitar
o malefício e pedi-lhe que confiasse em mim.
Possuía por acaso, no cofre, uma pequena
moeda de ouro muito delgada, com que me
presenteara Jacques Pellotier quando morava
comigo. Nessa moeda havia gravados alguns
signos do zodíaco com o fim de constituir uma
defesa contra a insolação e curar as dores de
cabeça. Devia ser ela colocada na sutura do
crânio e mantida com a ajuda de uma fita que
se amarrava ao queixo. Tolice igual às prece-
dentes! Pensei em tirar partido e disse ao
conde que, embora ameaçado como os outros,
e com inimigo capaz de tudo tentar, eu lhe
podia ajudar. Que fosse dormir sem medo, pois
eu estava em condições de prestar-lhe um ser-
viço de amigo e até de realizar um milagre por
ele, contanto que se comprometesse a guardar
fielmente o segredo. Devia apenas, à noite,
quando lhe trouxessem c réveillon! 8º, comuni-
car-me por um sinal combinado que as coisas
iam mal. Tivera ele o espírito tão chocado e os
ouvidos tão cheios, que se prendera realmente
às perturbações de sua imaginação e fez o
sinal na hora indicada. Disse-lhe então em voz
baixa que se levantasse como para sair, se
apoderasse, como por brincadeira, de meu
chambre (tinhamos mais ou menos a mesma
estatura), o vestisse e conservasse até haver
executado o resto de minha receita, a saber:
quando tivéssemos saído, se retirasse também:
para uma necessidade, pronunciasse três vezes
tais ou quais palavras €e fizesse os movimentos
ordenados, devendo cada vez cingir a fita que
eu lhe dera, aplicando cuidadosamente sôbre
os rins a moeda a ela pregada. E amarrando-a
da última vez de maneira a não se desprender
nem mexer, voltasse tranquilamente ao leito
sem esquecer de estender o chambre de modo a
cobrilos os dois. Essas macaquices consti-
tufam o ponto essencial da coisa, pois tão
estranhos meios não podem senão proceder,
em nosso pensamento, de uma ciência dificil
de penetrar. E por sua insanidade mesma
adquirem importância e consideração. Em
suma, é certo que na circunstância em questão
meu talismã atuou mais a favor de Vênus que
do Sol. Cedi nessa ccasião a um impulso joco-
189 Prato muito condimentado que serviam aos
recêém-casados.
7 |
so e de curiosidade que não me é peculiar; sou,
ao contrário, inimigo dessas tolices sutis e fin-
gidas. É um gênero que não me apetece, embo-
ra o tenha empregado então, de modo recrea-
tivo por certo mas também proveitoso. Mas se
o fato em si não é condenável, a atitude o é.
Amásis, rei do Egito, desposara Laódice,
uma bela moça grega. E, ele que sempre fora
excelente companheiro, viu-se impossibilitado
de tê-la. Atribuindo o fato a uma qualquer
mandinga dela, ameaçou-a de morte. Como
ocorre com tudo o que se relaciona com a
imaginação, ela insistiu para que recorresse à
devoção a fim de fazer cessar tal estado de coi-
sas. E tendo prometido mundos e fundos à
deusa, achou-se ele divinamente curado já na
primeira noite após suas preces e seus sacrifi-
cios. Isso mostra quanto erram as mulheres
que nos acolhem com atitudes afetadas, bu-
lhentas ou hostis, pois assim agindo nos ini-
bem ao mesmo tempo que nos atiçam. À nora
de Pitágoras dizia que a mulher que dorme
com um homem deve, ao tirar a saia, despir-se
do pudor, e somente o reencontrar ao vestir-se.
O homem que em suas aventuras sofreu algu-
mas dessas desilusões perde facilmente a con-
fiança em si. Quem foi vítima uma vez de sua
imaginação e passou por essa vergonha (a qual
se verifica quase sempre no início de uma liga-
ção, porque o desejo é mais vivo e ardente e
porque, desejoso de impressionar favoravel-
mente, teme o malogro), em tendo mal come-
çado ressente-se do despeito que experimentou
e corre o risco de ver repetir-se a desventura
dai por diante.
Os casados, que não carecem de tempo, não
se devem apressar nem mesmo tentar entrar
em relações, se para tanto não se acham intei-
ramente preparados. É preferível, no estado de
excitação e febre em que vivem então, adiar a
inauguração do leito nupcial, por desagradável
que seja, e aguardar uma ocasião propícia, a
correr o risco de um malogro desesperante.
Antes da posse, quem tenha motivos para
duvidar de si, deve de quando em quando fazer
algumas experiências, provocar, sem insistir,
até alcançar maior segurança. Quanto aos que
sabem ter órgãos obedientes, evitem simples-
mente de ceder demasiado à fantasia. Com
razão observam quanto esse órgão é indepen-
dente, excitando-se muitas vezes inoportuna-
mente e falhando de outras feitas; colocando-
se em oposição direta à nossa vontade,
recusando-se peremptoriamente a atender as
nossas solicitações mentais ou fisicas. Se
entretanto tomassem como pretexto essa inde-
pendência para condená-lo e me cumprisse
defendê-lo, eu insinuaria caber parte da res-
ponsabilidade aos outros órgãos seus compa-
58 MONTAIGNE
nheiros, os quais invejando sua importância e
sua agradável destinação devem ter conspi-
rado, sublevando. todo mundo contra ele,
imputando-lhe maldosamente uma culpa de
que tampouco não estão isentos. Pois, pergun-
to, haverá uma só parte de nosso corpo que
não se recuse às vezes a fazer o que deve ou
não aja contra a nossa vontade? Cada: uma
dessas partes obedece a impulsos próprios, que
as acordam ou adormecem sem intervenção
nossa. Quantas vezes os movimentos involun-
tários do nosso rosto revelam pensamentos que
desejariamos conservar secretos! A causa da
independência desse órgão pode de igual modo
atuar sobre o coração, os pulmões, o pulso. À
vista de um objeto agradável acende impercep-
tivelmente em nós a chama de uma emoção
febril. Mas serão somente esses músculos e
essas veias que se retesam e se distendem
independentemente de nossa vontade e até de
nosso pensamento? Não mandamos nossos
cabelos se eriçarem, nossa pele arrepiar de de-
sejo ou medo. Nossas mãos têm às vezes movi-
mentos inconscientes; a língua paralisa-se e a
voz se extingue em certos momentos. Quando
não temos nada para comer e a isso não gosta-
riamos de ser incitados, o apetite exige que
comamos e bebamos, tal qual o outro apetite, e
se acalma ou se irrita quando bem entende.
E não têm, os órgãos pelos quais se alívia O
ventre, movimentos de retração e dilatação
como os que concorrem para o funcionamento
das parte genitais? Para demonstrar o poder de
nossa vontade, alude Santo Agostinho a
alguém que produzia, a seu bel-prazer, evacua-
ções sonoras de gases intestinais. João Luís
Vives, comentador de Santo Agostinho, acres-
centa o exemplo de um indivíduo de seu tempo
que a tal possibilidade juntava a de dar a esses
ruidos o tom que pediam. Estes exemplos,
entretanto, não constituem prova irrefutável de
obediência absoluta dessa parte do corpo em
geral assaz indiscreta e indisciplinada. Conhe-
ço uma pessoa em quem essa parte do corpo é
tão turbulenta e pouco tratável que há qua-
renta anos vem ela sendo atormentada por não
poder conter-se. Sua evacuação é por assim
dizer continua, sem acalmias, e assim parece
dever continuar até a morte. E praza a Deus
que somente em histórias tenha conhecimento
dessa recusa do ventre em se aliviar, capaz de
levar-nos a uma morte dolorosa. E oxalá nos
tivesse Ele permitido, como fez o imperador
que autorizou seus convivas a darem livre
expansão à natureza!8!. Com muito mais
razão deveriamos censurar nossa própria von-
181 A história é contada. por Suetônio, o qual a
atribui a Cláudio.
tade, cuja autoridade reivindicamos pelo seu
espírito de rebelião, e seus desregramentos e
desobediência. Quer ela sempre o que deseja-
ramos que quisesse? Não quer ela muitas
vezes e em prejuízo nosso o que lhe proibimos
querer? Deixa-se ela sempre conduzir pelas
conclusões de nossa razão?
Finalmente na defesa que faço desse órgão,
direi: quanto ao que lhe censuram, a causa está
inseparavelmente ligada à de outro órgão seu
associado, e no entanto só o meu cliente é
incriminado, porque há contra ele argumentos
e fatos que não se podem invocar contra o seu
cúmplice, ao qual apenas se há de culpar de
provocações por vezes importunas. Jamais de
falhar. Ademais essas provocações são discre-
tas e trangúilas.
Como quer que seja, por mais que discutam
e sentenciem, advogados e juízes, não deixará
a natureza de seguir seu caminho. Se dotou
esse órgão de algum privilégio especial, teve
razão para fazê-lo, pois é o único a perpetuar a
imortalidade dos mortais, obra divina, na opi-
nião de Sócrates; e é ele próprio amor, desejo
de imortalidade e demônio imortal.
Graças à imaginação, tal indivíduo escrofu-
loso deixa em França suas escrófulas, en-
quanto seu companheiro com elas volta para a
Espanha!'º2. Eis por que em tais assuntos
tem-se por hábito preparar o espírito da pes-
soa. Por que os médicos, antes de operar, pro-
curam convencer o doente da excelência de
uma terapêutica em que eles próprios não acre-
ditam, se não é para que a imaginação supra a
ineficiência prevista do remédio? Não esque-
cem o que disse um de seus mestres, a saber,
que certos doentes saram à simples vista dos
apetrechos operatórios. Vejo confirmado esse
defeito da imaginação no fato que me contou
um empregado de farmácia de meu falecido
pai, rapaz simples e originário da Suiça, país
de gente séria e pouco inclinada à mentira.
Durante muitos anos servira um negociante de
Tolosa, homem doentio, sofrendo da bexiga,
razão pela qual tomava frequentes cristéis com |
receitas que pedia aos médicos quando sentia
agravar-se a enfermidade. Traziam a lavagem
com o. cerimonial de praxe; ele verificava se
não era demasiado quente e deitava-se de lado.
Operavam então como normalmente mas sem
procederem à injeção do líquido. Retirava-se o
farmacêutico e o paciente, acomodado como
se o cristel tivesse sido realmente ministrado,
sentia o mesmo efeito que se experimenta em
semelhante caso.
Minha testemunha jurou-me que a fim de
182 Os escrofulosos iam à França para que os
tocasse o rei — o que devia curá-los.
ENSAIOS —I 59
reduzir a despesa (pois o cliente pagava como
se houvesse recebido a lavagem) a mulher do
doente inventara valer-se de água morna
unicamente, mas sempre o resultado denun-
ciava a trapaça e era preciso tornar ao pri-
meiro método. d
Uma mulher, pensando ter engolido um alfi-
nete com o pão, gritava e se atormentava como
se sentisse uma dor insuportável na garganta
onde imaginava se houvesse ele espetado.
Como não havia nem inchaço nem qualquer
outro sinal externo, uma pessoa sensata julgou
se tratasse de um efeito da imaginação por se
ter a mulher provavelmente arranhado com a
casca do pão. Forçou-a a vomitar e, no que
devolveu, jogou às escondidas um alfinete
retorcido. Imaginando a vítima fosse o alfinete
engolido, passou-lhe de imediato a dor.
Sei de um fidalgo que se vangloriou por
brincadeira, três ou quatro dias após haver ofe-
recido um alegre jantar, de ter dado gato em
vez de lebre a seus convivas. Uma moça que
estivera presente ficou tão horrorizada que
veio a ter febre, e um tão grande desarranjo
estomacal que não foi possível salvá-la. Tudo
isso pode ser atribuído a uma intima ligação
do espírito e do corpo trocando suas impres-
sões. Outra coisa se observa quando nossa
imaginação atua não somente sobre nós mes-
mos mas também sobre os outros. Assim como
a doença de meu corpo se transmite a outro
corpo, o que ocorre nos casos de peste, varíola
ou infecções da vista, “olhando olhos doentes
ficam doentes os sãos; muitas doenças desse
modo se comunicam de um corpo a outro” 83,
assim também a imaginação fortemente exci-
tada pode produzir emanações que atuem
sobre outros seres. À antiguidade oferece-nos o
exemplo das mulheres da Cítia que, indignadas
e irritadas contra alguém, o matavam unica-
mente com a força de seu olhar. As tartarugas
e os avestruzes chocam seus ovos fixando-os
simplesmente, o que nos induz a supor pos-
suam seus olhos, em certo grau, a faculdade de
emitir e propulsionar algum fluido! º *. Quanto
aos feiticeiros, dizem-nos providos de olhos
insultantes e nocivos! 8. — “Não sei que
olhos fascinam nossas tenras ovelhas! 8 8.”
Mas eu não acredito no poder dos que se
dizem mágicos. Como quer que seja, observa-
se o fato de mulheres grávidas imprimirem aos
filhos que trazem no ventre a marca de suas
fantasias. Assim se viu na criança engendrada
183 Ovídio.
184 “ne vertu circulatrice.”” — Adotou-se a inter-
pretação de Michaut. (N. do T.)
185 Mau-olhado.
186 Virgílio.
pelo Mouro"87?. E a Carlos, rei da Boêmia e
imperador, foi apresentada uma menina das
cercanias de Pisa, peluda e hirsuta, cuja mãe
atribuía o fato a uma imagem de São João
Batista pendurada junto a seu leito. Idênticos
fenômenos se verificam entre os animais
(como as ovelhas de Jacó, as perdizes e as
lebres) que nas montanhas a neve torna bran-
cos. Viu-se há tempos em minha casa um gato
à espreita de um pássaro empoleirado no alto
de uma árvore; olharam-se fixamente com
intensidade durante alguns momentos e em
seguida o pássaro deixou-se cair, como se
tivesse morrido, entre as patas do gato, o que
se explica ou pela força do olhar deste ou por
um efeito da própria imaginação do pássaro.
Os que se ocupam de caça com falcões
conhecem a história de um falcoeiro, o qual
apostava que pela simples força de seú olhar
era capaz de fazer com que descesse a ele a ave
de rapina; e o conseguia ao que dizem, mas
não o garanto, pois deixo a responsabilidade
desses casos a quem os conta. As reflexões são
minhas; apóiam-se na razão e não na experiên-
cia. Cada qual acrescente aos meus os exem-
plos que conheça e quem não os tenha para
juntar não imagine Sejam estes os únicos, pois
numerosos e variados são Os fatos que se veri-
ficam. E se não os escolho bem, que outro os
selecione. No estudo que faço de nossos costu-
mes e paixões, os testemunhos fantasistas,
desde que possíveis, valem como verdadeiros.
Ocorridos ou não, em Roma ou em Paris, com
João ou Pedro, mostram-nos sempre um
aspecto que pode assumir a natureza humana e
isso basta para que os utilize nestes comentá-
- rios. Imaginários ou reais, tomo conhecimento
deles e deles tiro proveito, e, entre os diversos
ensinamentos de uma mesma história, escolho
para meu uso o mais notável e preciso. Há
autores que procuram principalmente tornar
conhecidos os fatos; eu, se pudesse, visaria
antes a deduzir deles as consequências que
porventura comportem. Permita-se nas escolas
que se admitam analogias ainda que não exis-
tam. Não vou tão longe e sou mais escrupu-
loso a esse respeito do que se fizesse história.
Nos exemplos que aqui reproduzo, tirados do
que li, ouvi, fiz, ou disse, evito alterar ou omi-
tir os mais ínfimos e inúteis pormenores.
Conscientemente não mudo uma virgula; por
ignorância não sei. A propósito, ponho-me a
pensar às vezes como um teólogo, um filósofo e
outros, gente de muita consciência e gráfide
prudência, podem escrever história. Como
podem controlar fatos que assentam apenas na
crença popular, responder pelo pensamento de
personagens que não conhecem e aceitar como
187 Ludovico, o Mouro.
60
dinheiro de contado suas conjeturas, quando
hesitariam em testemunhar sob juramento
diante da justiça a realidade de atos de que
participaram vários indivíduos ainda que se
verificassem na sua presença? E que não se
arriscariam a responsabilizar-se de maneira
absoluta por nenhuma pessoa de sua intimi-
dade? Considero aliás menos perigoso escre-
ver sobre coisas do passado que historiar as do
presente, pois no primeiro caso não faz o escri-
tor senão relatar acontecimentos pela autenti-
cidade dos quais outros respondem. Muitos me
incitam a escrever acerca de nossa época,
considerando que a observo com menos pai-
xão do que outros e a conheço por tê-la visto
de perto e ter-me aproximado dos chefes dos
diversos partidos. Mas ignoram que nem pela
glória de Salústio eu o faria, inimigo declarado
que sou de tudo o que é obrigação e exige assi-
duidade e constância. Nada é mais contrário a
meu estilo do que uma narração seguida e
longa; tenho o fôlego curto e a redação difi-
cilt88. Não sei estabelecer um plano de
188 Textualmente: “Je me recoupe si souvent, à
faute d'haleine” — Interrompo-me amiúde, por
falta de fôlego. (N. do T.)
composição, nem o desenvolver. E ignoro mais
do que uma criança as expressões e os vocâbu-
los relativos às coisas do comum. No entanto,
pus-me a escrever O que sei dizer, adaptando o
meu assunto às minhas forças. Se tomasse
alguém por modelo e guia, poderia acontecer
que não tivesse a possibilidade de acompa-
nhá-lo. Ademais, livre como o sou natural-
mente, teria emitido, acerca das coisas e das
gentes, juízos que, na minha própria opinião e
provavelmente com toda a razão, seriam injus-
tificáveis e condenáveis! 8º.
Plutarco poderia dizer-nos que se os fatos
por ele narrados em suas obras são todos intei-
ramente verdadeiros, cabe o mérito a quem
lhos forneceu; mas se são úteis à posterio-
ridade e se apresentam de maneira a pôr em
evidência a virtude, a si próprio os deve. Pouco
importa seja um fato antigo contado deste ou
daquele modo; há nisso menor perigo do que
em uma receita errada.
188 Segundo [Fhibaudet: “pelos quais teriam com
razão o direito de me punir”. (N. do T.)
CarpíruLOo XXII
De como o que beneficia um prejudica outro
Dêmade, de Atenas, condenou um homem
de sua cidade que comerciava com coisas
necessárias aos enterros, acusando-o de tirar
disso lucro excessivo, somente auferível da
morte de muitas pessoas. Tal julgamento não
me parece muito equitativo, pois não há bene-
fício proprio que não resulte de algum prejuízo
alheio e, de acordo com aquele ponto de vista,
qualquer ganho fora condenável.
O mercador só faz bons negócios porque a
mocidade ama o prazer; o lavrador lucra
quando o trigo é caro; o arquiteto quando a
casa cai em ruínas; os oficiais de justiça com
os processos e disputas dos homens; os pró-
prios ministros da religião tiram honra € pro-
veito de nossa morte e das fraquezas de que
nos devemos redimir; nenhum médico, como
diz o cômico grego'ºº da antiguidade, se ale-
190 Filêmon.
gra em ver seus próprios amigos com saúde;
nem o soldado seu país em paz com os povos
vizinhos. Assim tudo. E, o que é pior, quem se
analise a si mesmo, verá no fundo do coração
que a maioria de seus desejos só nascem e se
alimentam em detrimento de outrem. Em se
meditando a propósito, percebe-se que a natu-
reza não foge, nisso, a seu princípio essencial,
pois admitem os físicos!'º! que toda coisa
nasce, se desenvolve e cresce em conseqgiiência
da alteração e corrupção de outra: “Logo que
uma coisa qualquer muda de marieira de ser,
disso resulta imediatamente a morte do que ela
era antes”! 92,
131 Em ambos os sentidos, o arcaico, de médico
(biologista),e o atual, de físico. Por extensão: sábio,
filósofo, naturalista. (N. do T.)
182 Lucrécio.
ENSAIOS —I 61
CAPÍTULO XXIII
Dos costumes e da inconveniência de mudar sem maiores cuidados
as leis em vigor
Parece-me haver muito bem compreendido a
força do costume quem primeiro inventou essa
história de uma mulher que, tendo-se habi-
tuado a acariciar e carregar nos braços um
bezerro, desde o nascimento, e o fazendo
diariamente, chegou pela força do hábito a
carregá-lo ainda quando já se tinha tornado
um boi. Porque o costume é efetivamente um
pérfido e tirânico professor. Pouco a pouco, às
escondidas,
princípio terno e humilde, implanta-se com o
decorrer do tempo, e se afirma, mostrando-nos
de repente uma expressão imperativa para a
qual não ousamos sequer erguer os olhos.
Vemo-lo violentar a natureza, em seus aciden-
tes como em suas leis: “É o uso o guia mais se-
guro em todas as coisas”?!93. A esse respeito
apóio a idéia do antro que Platão imaginou na
sua República, bem como os médicos que
amiúde lhe subordinam as razões de sua tera-
pêutica. Foi pelo hábito que Mitridates conse-
guiu acostumar seu estômago ao veneno; e que
a rapariga a que alude. Albert chegara a
alimentar-se de aranhas.
Nesse mundo. das Novas Índias há povos
importantes e em climas variados que .as
comem, e as criam para tanto, como o fazem
com os 'gafanhotos, as formigas, os lagartos, os
morcegos, Os quais são cozidos e servidos de
diversas maneiras: Um sapo, em época de
penúria, aí se vende por seis escudos. Para al-
guns desses povos nossos alimentos seriam
venenosos: “Grande é a força do hábito. Os:
caçadores passam a noite na neve; na monta-
nha queimam-se ao sol. Os pugilistas feridos
pelo cesto nem sequer gemem ?"º 4.
Estes exemplos do estrangeiro não nos pare-
cerão tão estranhos assim Se considerarmos a
que ponto o hábito atrofia nossos sentidos.
Não é preciso citar o que se diz da gente que
vive junto às cataratas do Nilo; nem a teoria
dos filósofos sobre a música celeste, que em
suas revoluções produzem os astros, corpos
sólidos e polidos cujo roçar mútuo deve certa-
mente ocasionar maravilhosa harmonia aos
193 Plínio.
194 Cícero.
ganha autoridade sobre nós; a:
acentos da qual se lhes modificam os contor-
nos e as órbitas. Essa música ninguém a ouve
na terra em virtude de sua continuidade que
faz que a ela se acostume o nosso ouvido e não
a perceba como não percebem os egípcios o
ruído das cataratas. Basta observarmos os fer-
“reiros, os moageiros, os fabricantes de armas
que não suportariam o barulho que fazem
continuamente se o percebessem como o.perce- .
bemos. Minha gola de flores"? 5 acaricia-me o
olfato quando principio a usá-la, mas ao fim
de dois a três dias somente os que se aproxi-
mam de mim lhe sentem o bom perfume. E o
mais espantoso é que apesar de interrupções e
longos intervalos o hábito possa manter vivo o
efeito das impressões que provocou. em nossos
sentidos. É o que ocorre com quem reside
perto dos campanários. Eu moro em uma torre
onde pela manhã €e à noite um grande sino
dobra a Ave-Maria. O ruído abala a própria
torre e nos primeiros dias me pareceu insupor-
tável; entretanto dentro em pouco me habituer
e o ouço agora sem que me incomode, e até me
acontece não acordar ao som do sino.
Platão repreendeu uma criança que jogava
nozes!ºº, ao que ela respondeu: “Você me .
repreende por bem pouca coisa.” — “O hábi-
to, retorquiu Platão, não é coisa de nonada.”
Acredito que nossos maiores vícios se implan-
tam em nós já na mais tenra infância e que a
parte principal de nossa educação se acha nas
mãos de nossa ama. Há mães para as quais é
uma distração ver os filhos torcerem o pescoço
dos frangos, ou se divertirem com martirizar
gatos e cães; e pais bastante tolos para desco-
brirem no fato de os filhos baterem ou injuria-
rem um camponês ou um lacaio o sinal precur-
sor de um temperamento marcial; ou
predisposições para a sutileza na peça mali-
ciosa ou a perfidia pregada com habilidade de
um camarada. Trata-se no entanto do ponto de
partida e do indício certo da crueldade, da tira-
195 TYsavam-se então coletes e golas de peles perfu- -
madas com perfumes de flores.
198 Jogo dos romanos, correspondendo ao atual
Jogo de bolinhas de vidro ou “gude”. (N. do T.)
62 MONTAIGNE
nia e da traição. Tais vícios se encontram em
germe na infância, desenvolvendo-se gradati-
vamente e tanto mais quanto se tornam hábi-.
tos. E muito perigoso desculpar essas feias
tendências, argumentando com a tenra idade
ou o alcance diminuto do ato. Primeiramente
porque é a natureza quem fala e que sua voz é
então mais pura e ingênua, em sendo mais
nova. Em segundo lugar, porque a má ação
não o é menos ou mais segundo se trate de
escudos ou alfinetes; a má ação é má em si
mesma. Acho mais judicioso dizer: por que
não me ludibriaria alguém em negócios de
dinheiro se o faz em coisas de alfinetes? — do
que: roubou-me um alfinete, não roubaria um
escudo.
É preciso ensinar cuidadosamente as crian-
ças a odiar os vícios para os quais mostram
inclinação; é preciso realçar a seus olhos a
fealdade natural do ato, não somente a fim de
que não o pratiquem mas também que os abor-
reçam do fundo do coração; em suma, para
que a simples idéia lhes cause horror, qualquer
que seja a sua feição.
Bem sei que fui educado na infância a andar
sempre pela estrada larga e a recusar-me a
introduzir em meus folguedos intrigas e malí-
cias, pois os jogos infantis devem julgar-se não
apenas como divertimentos mas ainda como
ações de importância. Sinto-me sempre e
espontaneamente impelido a hostilizar a trapa-
ça por mais insignificante que seja o passa-
tempo a que me dedique. Em jogando cartas, a
dinheiro de cobre ou de ouro, ganhe ou perca,
jogue com estranhos ou com minha mulher e
filhas, minha maneira de jogar é a mesma. Em
tudo e em todo lugar meus próprios olhos bas-
tam para me controlar, para me pór de sobrea-
viso em relação a mim mesmo. Ninguém me
vigia tão bem nem mais temo eu do que
escandalizar..
Acabo de ver em casa um homem de peque-
na estatura, de Nantes, que veio ao mundo sem
braços. E tão bem exercitou os pés a fazer o
que os outros fazem com as mãos, que em ver-
dade quase esqueceram suas funções normais.
Aliás a eles denomina-os mãos e os utiliza
para destrinçar, carregar uma pistola, atirar,
enfiar o chapéu, pentear-se, jogar cartas ou
dados que mistura e deita com excepcional
deteridade. O dinheiro que lhe dei (pois ganha
a vida em se exibindo), pegou-o com o pé
como nós com a mão. Vi outro, em minha
meninice, que por não ter mãos manejava o
espadão ou a alabarda com uma dobra ou
vinco do pescoço; e os jogava alto e os pegava;
e lançava uma adaga e fazia estalar o chicote
como qualquer carroceiro de França.
Mas dos efeitos do hábito julgamos melhor
pelas estranhas impressões *que produzem em
nossos espíritos, menos resistentes do que o
corpo. Tudo pode sobre nossos juízos e cren-.
ças. Deixemos de lado a questão religiosa, a
que misturam tantas imposturas de que se
imbuíram tantas grandes nações e tantos e tan-
tos homens capazes, questão tão alheia à nossa
pobre razão humana, que somos desculpáveis,
a menos que sejamos esclarecidos por mercê
de Deus, se nela nos perdemos. Haverá em
qualquer outro assunto opinião, por mais
estranha, que o hábito!º 7 não tenha introdu-
zido e feito sancionar pelas leis sempre que o
julgou necessário? E como é justa esta excla-
mação de certo autor latino: “Que vergonha
para um físico, que deve investigar sem desfa-
lecimento os segredos da natureza, apelar para
o costume a fim de provar a verdade !”198
Não se depara com nenhuma fantasia da
imaginação humana, embora desprovida de
sentido, sem que não se encontrem exemplos
em algum costume e que, em consequência de
se haver tornado público!ºº, nossa razão não
admita e explique. Há povos entre os quais é
de rigor voltar as costas a quem saúdam e não:
olhar nunca quem desejam honrar. Entre
outros, quando o rei cospe, a mais cotada
dama da corte estende a mão; entre outros
ainda, os dignitários se curvam e com um
lenço colhem no chão a sujeira. A propósito,
uma história: certo fidalgo francês, famoso
pelo seu espírito, assoava com os dedos o
nariz, coisa contrária aos nossos usos. Defen-
dendo sua maneira de se conduzir, perguntou-
me por que motivo tão sujo excremento mere-
cia que tomássemos de um lenço delicado para
recebê-lo. E o que é pior, para com isso fazer
um embrulho e guardá-lo preciosamente. Era
por certo mais repugnante esse hábito do que
se desembaraçar de qualquer maneira como
procedemos com as demais sujidades. Achei
que sua observação não pecava inteiramente
por absurda. O hábito impedira-me até então
de perceber o estranho da coisa, a qual nos
repugnaria profundamente se no-la apresen-
* tassem como sendo praticada em outro país.
Os milagres decorrem de nossa ignorância
da natureza e não cabem nesta, mas o hábito
retira-nos a possibilidade de um juízo sadio.
Não são os bárbaros motivo de maior estra-
nheza para nós do que nós para eles; é o que
187 Fora melhor costume. Montaigne emprega
indiferentemente costume, hábito, uso, etc.
(N. do T.)
188 Cicero.
198 Público, do povo, de todos, coletivo.
(N. do T.)
ENSAIOS— II 63
compreenderíamos, após ter refletido sobre os
exemplos que nos apresentam o passado e os
países longínquos, se nos puséssemos a medi-
tar sobre os de nosso próprio meio e compa-
rássemos com objetividade?ºº. A razão huma-
na é um amálgama confuso em que todas as
opiniões e todos os costumes, qualquer que
seja a sua natureza, encontram igualmente
lugar. Infinita em suas matérias, infinita na
variedade de formas que assume?º!. Volto
agora ao meu assunto.
Há povos entre os quais, à exceção de sua
mulher e de seus filhos, ninguém fala ao rei
sem intermediários. Em certa nação, as virgens
exibem as partes do corpo que o pudor reco-
menda se sonegarem à vista, enquanto as
mulheres casadas as cobrem e escondem
cuidadosamente. Alhures, existe o costume
(não sem relação com o precedente) de só se
considerar obrigatória a castidade para a mu-
lher casada. As solteiras podem entregar-se à
vontade e quando emprenham porventura
podem provocar o aborto, mediante drogas
- especiais e sem recorrer ao segredo. Em outros
lugares, quando um negociante se casa todos
os negociantes convidados à cerimônia dor-
mem com a recém-casada, antes mesmo do
marido; e quanto maior o número, maiores
honras e consideração se lhe demonstram por
sua coragem e resistência. O mesmo ocorre
quando um oficial se casa, ou um nobre e
outros. Entretanto, se se trata de camponês ou
alguém do povo miúdo, cabe ao senhor o direi-'
to de dormir 'com a casada. E em o fazendo
exortam-na todos a ser fiel ao marido. Em cer-
tos países encontram-se casas de tolerância
nas quais os homens substituem as mulheres e
aí ocorrem casamentos. Há lugares onde as
mulheres vão à guerra com os maridos e não
somente tomam parte nos combates mas tam-
bém participam do comando. Outros onde não
se usam apenas anéis no nariz, nos lábios, nas
bochechas e nos artelhos, mas ainda varetas de
ouro, por vezes bem pesadas, enfiadas nos
seios ou nas nádegas; e outros onde limpam os
dedos nas coxas, nos testículos, na planta dos
pés. E existem países onde os filhos não her-
dam, e sim os sobrinhos*e irmãos; alhures a
herança cabe aos sobrinhos somente, salvo
quando se trata da sucessão do principe.
200 No texto “sainement”, sadiamente, sem pre-
conceitos. (N. do T.)
201 No texto: “Infinie en matiêre, infinie en diversi-
té”, o que não parece muito claro quanto ao signifi-
cado de “matiere”. Adotou-se a interpretação de
- Michaut, muito embora se possa traduzir, talvez
"mais fielmente ao espirito de Montaigne, por
“Infinita em seu objeto, infinita em sua diversida-
de”. (N. do T.)
Vemos que em outros países os bens perten-
cem à comunidade e têm os magistrados sobe-
ranos o encargo de cultivar as terras e repartir
os frutos segundo as necessidades de cada um.
E em certas regiões, choram a morte das crian-
ças e festejam a dos velhos; noutras dormem
no mesmo leito dez a doze homens com suas
mulheres; noutras as mulheres que perdem
seus maridos de morte violenta não podem
casar novamente; noutras apreciam tão pouco
a condição da mulher que matam as crianças
de sexo feminino ao nascerem e compram dos:
vizinhos as mulheres de que precisam; noutras
os maridos podem repudiar suas mulheres sem
necessidade de alegar o que quer que seja, mas
o mesmo não é permitido às mulheres; noutras
podem os homens vender suas esposas se são
estéreis; noutras cozinham o corpo do defunto
e moem-no até que vire uma papa € então
bebem-no com o vinho; noutras a sepultura
mais desejável é ser comido pelos cães; alhures
pelas aves; noutras regiões acreditam que as
almas felizes vivem em liberdade em lugares
deliciosos gozando tudo o que é agradável, e o
eco que às vezes ouvimos é a sua voz; noutras
combatem dentro d'água e flecham com segu-
rança nadando; noutras, como sinal de satisfa-
ção, erguem os ombros e baixam a cabeça; e
descalçam os Sapatos ao entrarem na resi-
dência real; noutras entregam aos eunucos a
guarda das mulheres votadas à vida religiosa,
e, para não serem por elas amados, lhes muti-
lam nariz e lábios; e entre estes mesmos povos
vazam os olhos aos sacerdotes, a fim de que
mais facilmente.se aproximem dos demônios e
lhes ouçam os oráculos; noutros países cada
qual tem o deus que lhe agrada: tem-no o caça-
dor no leão ou na raposa, e o pescador no
peixe; e ídolos para cada uma das paixões
humanas. Sol, Lua e Terra constituem suas
principais divindades e o juramento consiste
em tocar o solo fixando o Sol. E a carne e o
peixe entre eles se comem crus. Noutros fazem
as mais solenes promessas jurando pelo nome
de alguma pessoa falecida e venerada sobre
cujo túmulo pousam a mão; noutros, anual-
mente, como presentede ano novo, manda o rei
a seus vassalos um fogo aceso, o qual substitui
o que haja na casa e deve ser apagado; e ao
novo braseiro vêm os súditos desses principes
buscar seu próprio fogo sob pena de se torna-
rem culpados de lesa-majestade; noutros O rei
abdica para consagrar-se às práticas religio-
sas, e, o que acontece muitas vezes, seu suces-
sor. imediato é igualmente obrigado a abdicar
passando o poder a quem vem em terceiro
lugar; noutros mudam de forma de governo? º2
202 No texto “police” que Montaigne mais de uma
vez usa no sentido de governo. (N. do T.)
64 MONTAIGNE
tão frequentemente quanto o requerem os
negócios públicos, depondo o-rei se lhes parece
conveniente e confiando o poder aos anciãos
ou à comunidade; noutros homens e mulheres
são circuncisos e todos batizados; noutros
enobrecem o soldado que apresenta a seu sobe-
rano as cabeças de sete inimigos por ele mor-
tos em um ou mais combates; noutros, coisa
rara e pouco de acordo com os princípios
sociais, não admitem a imortalidade da alma;
noutros as mulheres parem sem apreensões
nem lamentações; noutros elas usam perneiras
de cobre e, se são mordidas por um piolho,
devem mordê-lo também; e não ousariam
casar antes de oferecer sua virgindade ao rei;
noutros a saudação consiste em tocar o solo
com o dedo, erguendo-o para o céu a seguir;
noutros os homens que transportam fardos
carregam-nos à cabeça; e as mulheres aos
ombros, e estas mijam de pé enquanto aqueles
o fazem de cócoras; noutros como sinal de
amizade, enviam seu sangue às pessoas queri-
das; e incensam como aos deuses os homens
que querem honrar; noutros não permitem o
casamento entre parentes, não somente até o
quarto grau, mas de qualquer grau; noutros
amamentam os filhos até a idade de quatro
anos e mesmo doze; e no: entanto consideram
perigoso para a vida da criança dar-lhe de
mamar antes de um dia inteiro depois do
nascimento; noutros cabe aos pais castigar os
indivíduos do sexo masculino e às mães, ao
abrigo de qualquer indiscrição, as pessoas de
seu sexo; e punem os condenados, penduran-
do-os pelos pés e os defumando; noutros
circuncisam as mulheres; noutros utilizam
todas as ervas na alimentação, salvo as que
têm mau cheiro; noutros nada se fecha e as
casas por mais belas que sejam não têm portas
nem janelas; não têm cofres com fechadura e
os ladrões são punidos muito mais severa-
mente do que alhures; noutros matam os pio-
lhos com os dentes como os macacos e acham
repugnante esmagá-los com as unhas; noutros
durante a vida inteira não cortam barba nem
cabelos, nem unhas; há nações onde só cortam
as unhas da mão direita, conservando intatas,
por garridice, as da esquerda; e há onde dei-
xam crescer à vontade barba e cabelos do lado
direito, raspando-os do outro lado. Em regiões
vizinhas, numa é atrás que raspam a cabeça,
noutra na frente; noutras os pais alugam seus
filhos aos hóspedes para que deles gozem; e os
maridos emprestam Suas mulheres; noutros
não é crime ter filhos da própria mãe, como
não o é se unirem os homens a suas filhas e
filhos; noutros durante os festins abusam das
crianças e as passam de mãos em mãos sem se
preocuparem com o parentesco. Há países
onde comem carne humana. Em tal outro é
dever piedoso matar o pai que atingiu uma
certa idade; alhures decide o pai sobre a sorte
dos filhos quando ainda se amamentam, desig-
nando os que quer conservar e educar e os que
destina ao abandono e à morte. Em algumas
regiões os maridos velhos emprestam suas
mulheres aos jovens, em outras elas são co-
muns a todos, e isso sem pecado; e ocorre em:
outras ainda adornarem elas seus vestidos com
borlas de lã ou seda assinalando o número de
homens que as possuíram. E não terá o costu-
me constituído aquele estado composto unica-
mente de mulheres que sabem manejar as
armas e dar combate? E aquilo que toda-a filo-
sofia não consegue incutir na cabeça dos mais
sábios, não o ensina o hábito à gente das clas-
ses mais baixas? Pois sabemos que existiram
povos que não somente desdenhavam a morte
mas ainda lhe festejavam a chegada; entre ou-
tros as crianças suportavam sem sinal de dor
serem flageladas até a morte; alhures a riqueza
era a tal ponto desprezada que o mais miserá-
vel habitante da cidade não se houvera digna-
do baixar-se para recolher uma bolsa cheia de
escudos. Conhecemos países mui férteis e tudo
produzindo, onde, entretanto, os alimentos
mais apreciados são o pão, O agrião e a água.
E não se explica também pelos costumes esse
milagre da ilha de Quio, onde, em setecentos
anos, nenhuma mulher ou moça se viu ultra-
jada em sua honra?
Em suma, a meu ver, não hã o que o costu-
me não faça ou não possa fazer; e com razão
afirma Píndaro, ao que me disseram, ser o há-
bito o rei e imperador do mundo. Alguém, que
encontraram a espancar O pai, respondeu ser
esse o costume de sua casa; que seu pai espan-
cara assim o avô e êste o bisavô, e, mostrando
o filho: e este há de espancar-me quando .
alcançar minha idade,
E o pai, que o filho empurrava aos trancos
pela rua, intimou-o a cessar os maus tratos ao
chegarem a certo ponto, pois ele próprio so
maltratara seu pai até ali, e ali se situava o li-
mite dos injuriosos tratamentos hereditários
que os filhos se haviam acostumado a miris-
trar aos pais em sua família. É por hábito, diz
Aristóteles, tanto quanto por doença, que cer-
tas mulheres se depilam, roem as unhas,
comem carvão e terra; e também pelo mesmo
motivo juntam-se os machos .aos machos. As
leis da natureza nascem do costume, pois
todos veneram interiormente as opiniões e os
usos aprovados e aceitos pela sua sociedade; a
eles não desobedecem sem remorso, e em os
adotando recebem aplausos. Quando na anti-
ENSAIOS—I 65
guidade queriam os cretenses amaldiçoar al-
guém, suplicavam aos deuses que o fizesse
contrair algum mau hábito.
O principal efeito da força do hábito reside
em que se apodera de nós a tal ponto que já
quase não está em nós recuperarmo-nos e
refletirmos sobre os atos a que nos impele. Em
verdade, como ingerimos com o primeiro leite
hábitos e costumes, e o mundo nos aparece sob
certo aspecto quando o percebemos pela pri-
meira vez, parece-nos não termos nascido
senão com a condição de nos submetermos
também aos costumes; e imaginamos que as
idéias aceitas em torno de nós, e infundidas em
nós por nossos pais, são absolutas e ditadas
pela natureza. Daí pensarmos que o que estã
fora dos costumes está igualmente fora da
razão, e Deus sabe como as mais das vezes
erramos. Se, como nós que estudamos, apren-
demos a fazê-lo, todos, ao ouvirem judiciosa
observação, aplicassem o ensinamento no que
lhes diz respeito, veriam, incontinenti, que não
constitui simples frase bonita, mas é uma ver-.
dadeira chicotada na tolice habitual de nossó :-
julgamento. Mas recebemos as advertências da
verdade como se se endereçassem aos outros e
não a nós mesmos, e, em vez de aproveitá-las a
fim de melhorar os nossos costumes, nós nos
contentamos, muito tola e inutilmente, em a
catalogar na memória. Voltemos porém ao
imperativo dos costumes.
Os povos, afeitos à liberdade e a se governa-
rem por si mesmos, encaram qualquer outra
forma de governo como monstruosa e contrá-
ria à natureza. Os que estão acostumados à
monarquia o mesmo pensam de seu sistema.
Estes últimos, quaisquer que sejam as oportu-
nidades que se lhes oferecem de mudar, e ainda
que tenham tido grandes dificuldades de se
desembaraçarem de um. chefe indesejável,
“apressam-se em buscar outro, com o qual terão
dificuldades idênticas, porque são incapazes de
odiar a dominação de um senhor. E em conse-
quência do hábito que nos mostramos satis-
feitos com o país onde nascemos, e os selva-
gens da Escócia desprezam a Touraine como
os citas a Tessália.
Perguntando Dario aos gregos se desejavam
adotar o costume indiano de comer o cadáver
do próprio pai (pois estimavam não haver
sepultura mais honrosa do que o seu corpo),
ouviu deles que por nada no mundo o fariam;
mas tentando persuadir os hindus de abarido-
narem seu ritual e seguirem o da Grécia, que
era de queimar o corpo dos progenitores, mais
horror causou ainda. Assim agimos todos,
tanto mais quanto o costume nos esconde a
verdade essencial das coisas: “Não há nada
tão grande nem tão agradável à primeira vista
que aos poucos não nos cause menos admira-
ção”2º3 Tendo precisado outrora justificar al-
guns de nossos costumes, aceitos como certos
entre nós e nas regiões circunvizinhas, e não
desejando invocar apenas a força das leis e dos
«exemplos, fui às origens deles e lhes descobri
fundamentos tão fracos, que mal me contive
para não me desgostar nem ter de os refutar
em lugar de convencer os outros de sua valia.
Resta o meio a que recorria Platão a fim de
fazer cessarem os amores contra a natureza,
que. se praticavam em seu tempo: conseguir
que a opinião pública os condenasse, incitando
os poetas a combatê-los, e estigmatizá-los em
suas narrativas. Desse modo esperava evitar
que uma rapariga, por mais bela que fosse, ins-
pirasse amor a seu pai, e que as irmãs não
aspirassem às carícias dos irmãos, ainda que
de admirável beleza. Valia-se das lendas de
Tiestes, Edipo, Macaréus, as quais cantadas às
crianças ao mesmo tempo as divertiam e gra-
vavam em seu espírito úteis lições de moral.
Sem dúvida o pudor é uma bela virtude e nin-
guém lhe contesta a utilidade; é entretanto
mais difícil valorizá-la de acordo com a natu-
reza do que a justificando pelo costume, as leis
e os preceitos. As causas primeiras que levam
a se adotarem tais ou quais maneiras de ser,
com dificuldade se descobrem, por minuciosas
que sejam as pesquisas; e quem a estas se dedi-
ca, mal se réfere a elas não ousando sequer
elucidá-las. Volta-se antes de tudo para o cos-
tume, estendendo-se longamente a respeito e
assim triunfa sem percalços. Os que não que-
rem obviar a tais pesquisas erram mais ainda €
chegam a conclusões extravagantes. Testemu-
nha-o Crisipo, o qual em mais de um trecho de
seus escritos demonstra a nenhuma impor-
tância que empresta a quaisquer uniões inces-
tuosas.
Quem desejar desfazer-se da influência exa-
gerada de certos costumes, verá que indubita-
velmente alguns. de muita autoridade são
suscetíveis de abandono e assentam apenas na
sua antiguidade decrépita; mas arrancando-
lhes a máscara hirsuta e enrugada, e os exami-
nando do ponto de vista da razão e da verdade,
o que descobrir o espantará a ponto de indagar
de si mesmo se está na plena posse de seu
bom-senso, o qual nunca lhe terá entretanto
falhado menos. Eu lhe perguntarei então se
pode haver algo mais extraordinário do que
um povo submetido a leis de que jamais ouviu
falar; adstrito, nas questões relativas a seus
negócios privados, casamentos, doações, testa-
203 Tucrécio.
66 MONTAIGNE
mentos, compras e vendas, a regras que não
conhece; que nunca foram publicadas em sua
língua e cuja tradução e interpretação só pode
obter por alto preço, e não nas condições que
engenhosamente propunha Isócrates (o qual
aconselhava aos reis que isentassem de taxas o
comércio e as atividades de seus súditos de
maneira a serem assaz remuneradores, tornan-
do-lhes ao contrário muito onerosos os proces-
sos de demandas), mas nas condições incríveis
que nos regem, em que tudo se vende, mesmo
os conselhos, e em que o recurso à lei é merca-
dejado. Rendo graças ao destino do fato de,
segundo os historiadores, ter sido um fidalgo
gascão quem primeiro protestou quando Car-
los Magno quis estender à Gália as leis do
Império Romano.
Haverá algo mais contrário às condições
naturais da sociedade do que ver uma nação
onde é costume — e sancionado por lei — ser
venal a profissão de juiz, e serem as sentenças
pagas à vista em boa moeda; onde é legal que
quem não possa pagar não possa tampouco
apelar para a justiça e que esta mercadoria es-
teja tão valorizada que as pessoas encarre-
gadas- de instruir e juigar os processos consti-
tuam dentro do Estado uma quarta ordem se
acrescentando às três outras já existentes: o
clero, a nobreza e o povo? Cabendo a essa
quarta ordem a aplicação e a feitura das leis e
autoridade soberana sobre nossos bens e nos-
sas vidas, e formando ela uma classe distinta
da nobreza, ocorre a existência de uma dupla
legislação, compreendendo por um lado as leis
que regem as questões de honra e por outro as
relativas à administração da justiça, as quais
em certos casos se opõem umas às outras.
Condenam as primeiras tão severamente quem
experimenta um desmentido público quanto
punem as segundas aquele que por isso castiga
o autor. Pela lei militar é degradado de honra e
nobreza quem recebe um insulto e pela lei civil
quem deste se vinga incorre em pena de morte.
(Desonra-se quem recorre à lei para a conde-
nação de uma ofensa à sua honra; e quem a ela
não recorre para castigar é punido pela lei.)
Que pensar dessas duas partes de um só todo e
no entanto tão diferentes? A uns incumbe zelar
pela paz, a outros pela guerra; uns têm o lucro
como prêmio, outros a honra; aqueles a ciên-
cia, a estes a virtude; aqueles a palavra. a estes
a ação; âqueles a justiça, a estes a intrepidez;
àqueles a razão, a estes a força; e usam uns a
toga e outros o uniforme??º 4.
204 No texto: “ceux-lã la robe longue, ceux-cy la
ccurte en partage” — o que não teria sentido em
linguagem atual dado que não corresponde às dife-
renças de indumentária de clérigos e militares. (N.
do T.)
Quanto às coisas indiferentes, como as
vestimentas, a quem as quisesse adaptar ao seu
objetivo verdadeiro, que é serem cômodas e
úteis e bem adequadas ao corpo, o que lhes dá
graça e atende às conveniências, eu assinalaria
como atingindo, a meu ver, O limite do grotes-
co, os nossos bonés quadrados e essa longa
cauda de veludo pregueado e de enfeites varie-
gados que pende da cabeça de nossas mulhe-
res; e também os nossos calções que, tola e
inutilmente, nos amoldam um membro de que
mal podemos falar honestamente e que assim
acabamos como que exibindo em público.
- Essas considerações não devem entretanto
desviar um homem sensato do estilo comum;
parece-me ao contrário que toda originalidade
e extravagância provêm mais da loucura e afe-
tação ambiciosa que da verdadeira razão. O
sábio precisa concentrar-se e deixar a seu espí-
rito toda liberdade e faculdade de julgar as coi-
sas com serenidade, mas quanto ao aspecto
exterior delas cabe-lhe conformar-se sem dis-
crepância com as maneiras geralmente aceitas.
A opinião pública nada tem a ver com o nosso
pensamento, mas O resto, nossas ações, nosso
trabalho, nossas fortunas, e nossa própria
vida, cumpre-nos colocá-lo a serviço da coleti-
vidade e submetê-lo à sua aprovação. Por isso,
o bom e grande Sócrates recusou salvar a vida
pela fuga, pois seria desobedecer ao magis-
trado que o condenava, embora fosse este
possivelmente injusto e iníquo. Observar as
leis. do país em que nos encontramos é a pri-
meira das regras, é uma lei que prima sobre as
demais: “é belo obedecer às leis de seu
país”29 5, 5
Encaremos a questão de outro ponto de
vista. É duvidoso que a vantagem que pode
haver em modificar uma lei por todos acatada,
seja incontestavelmente maior do que o mal
resultante da mudança; tanto mais quanto os
usos e costumes de um povo são como um edi-
fício constituído de peças diversas de tal
maneira juntadas que é impossível abalar uma
sem que o abalo se comunique ao conjunto. O
legislador dos Thuriens ordenara que quem
quisesse propor a abolição de uma lei existen-
te, ou a adoção de uma nova, se apresentasse
diante do povo, corda ao pescoço, a fim de
que, em não sendo aprovada a inovação, fosse
imediatamente enforcado. O de Lacedemônia
sacrificou a vida para obter de seus concida-
dãos a promessa de não modificarem nenhuma
de suas ordenações. O éforo que cortou brutal-
mente as duas cordas acrescentadas por Frinis
à citara, não se deu ao trabalho de indagar se o
- instrumento éra melhor ou não, se seus acor-
des eram mais perfeitos;
205 Grotius.
bastou-lhe; para
ENSAIOS —I 67
condená-las que constituíssem uma modifica-
ção ao que desde muito existia. A mesma
significação tinha a espada enferrujada que,
em Marselha, representava a justiça.
A novidade, qualquer forma que assuma,
me aborrece profundamente e creio ter razão,
pois vi os seus efeitos altamente desastrosos.
Essa que nos atormenta há tantos anos?º 8,
não produziu ainda todas as suas conse-
quências e no entanto podemos dizer que dire-
ta ou indiretamente tudo atingiu e foi a causa
primeira de muitas desgraças; os dramas e ruí-
nas que se acumulam desde o seu apareci-
mento são sua obra ou contra ela se engendra-
ram; a ela, somente a ela se deve culpar: “Ah,
de mim vem todo o mal que experimento” 2º ?,
Os que subvertem um Estado são em geral as
primeiras vítimas da subversão; raramente se
aproveita da perturbação quem ergue o estan-
darte da rebeldia; ele simplesmente agita e
turva a água para outros pescadores. A Refor-
ma abalou e desmantelou as velhas instituições
de nossa monarquia. Com ela, esse grande edi-:
fício perdeu o equilíbrio e vem rachando na
velhice e dando acesso, através das fendas, a
todas as calamidades. A majestade real oferece
no início, diz um autor antigo, maior resis-
tência do que depois de abalada. Sua queda se
acelera então. Se o mal é principalmente impu-
tável aos inventores?º8 do movimento, mais
criminosos ainda são seus imitadores?ºº que
se entregam aos mesmos excessos cujo horror
presenciaram e de cuja repressão participaram.
Se o mal como a honra se gradua, têm os
huguenotes sobre os outros da liga a primazia
da invenção e de terem tido a coragem de en-
trar na liça antes dos outros. Os fautores de
perturbações desejosos de introduzir a desor-
dem no Estado podem facilmente escolher seus
modelos nuns como noutros; oferecem-lhos,
ambos, de toda espécie. As nossas próprias
leis, feitas para remediar o mal inicial, forne-
cem meios e desculpas a todos os maus
empreendimentos. Acontece-nos hoje o que diz
Tucídides das guerras civis de sua época;
empregam eufemismos para qualificar as pio-
res paixões políticas, para apresentá-las de um
ângulo favorável, desculpar-lhes os atos, alte-
rar e atenuar as idéias que teriam despertado
se usassem seus verdadeiros nomes. E tudo
isso a pretexto de reformar nossas consciên-
cias e nossas crenças: “o pretexto é hones-
to”210,
206 A Reiorma.
207 Ovídio.
208 Os huguenotes.
208 A Liga.
219 Terêncio.
Entretanto, por melhor que seja, o pretexto
da novidade ê muito perigoso: “e por isso
nunca deveriamos aprovar qualquer modifica-
ção nos costumes antigos”211. E direi franca-
mente que me parece sinal de excessivo amor-
próprio e grande presunção valorizar alguém
sua opinião a ponto de tentar, a fim de vê-la
triunfante, subverter a paz pública em seu pró-
prio país, facilitando o advento dos males
inevitáveis inerentes à guerra civil, sem falar
na horrível corrupção da moral e nas mutações
políticas que podem ocorrer. Não será mal cal-
cular ir ao encontro de tantas desgraças certas
e esperadas para combater erros contestáveis e
discutíveis? Haverá vício pior do que esse que
choca a própria consciência e o conhecimento
natural?212 O Senado romano, em oposição
ao povo quanto ao exercício da religião, ob-
viou à dificuldade respondendo que “isso inte-
ressava mais aos deuses do que a eles mesmos,
e que os deuses saberiam como impedir qual-
quer profanação”2?'3. Resposta análoga à do
oráculo de Delfos no momento das guerras pú-
nicas. Temendo a invasão dos persas pergun-
taram ao deus se deviam esconder os tesouros
do templo ou carregá-los. E lhes foi respon-
dido que deixassem tudo como estava e pen-
sassem neles mesmos, pois era capaz de prover
sozinho suas necessidades próprias.
A religião cristã é concebida dentro de um
espírito eminentemente justo e utilitário: nada
recomenda mais, e, de maneira expressa, quan-
to a inteira obediência dos magistrados e
conservação do governo. Que maravilhoso
exemplo nos deu a sabedoria divina quando,
para assegurar a salvação do gênero humano e
essa sua gloriosa vitória contra a morte e o
pecado, quis que isso somente ocorresse dentro
da ordem política estabelecida! E submeteu
seu progresso e a realização de um objetivo tão
elevado e salutar à cegueira e à injustiça de
nossas instituições e nossos costumes! E admi-
tiu que corresse o sangue de seus eleitos e pas-
sassem longos anos até que amadurecesse o
inestimável fruto!
Haverá muito que dizer se se quiser compa-
rar aquele que respeita as leis e a torma de
governo de seu país com quem empreende
sujeitá-las à sua opinião e modificá-las. Tem
por ele, o primeiro, ser a sua linha de conduta
simples, de obediência e acatamento ao exem-
plo. Pode fazer o que fizer não agirá por mal-:
241 Tito Lívio.
212 Texto confuso que Michaut interpreta dema-
siado livremente como: “esse que vai de encontro à
nossa própria consciência e a uma ordem de coisas
estabelecida e aceita”. (N. do T.)
213 Tito Lívio.
68 MONTAIGNE
dade e o pior que lhe pode acontecer é sua infe-
licidade pessoal: “quem não se comove ante
uma antiguidade atestada e conservada através
de tantos brilhantes testemunhos?”2!4 Além
do que diz Isócrates que as falhas participam
mais da moderação que do excesso. Quanto ao
segundo, sua Situação é bem mais dificil. Pois
quem se mete a escolher e modificar usurpa a
autoridade do juiz e precisa demonstrar:o erro.
do que elimina e o bem do que introduz. Essa
vulgar consideração me reteve, e freou minha
própria mocidade temerária. E me impediu
carregar aos ombros tão pesado fardo como o
de defender uma ciência dessa importância e
ousar para com ela o que em verdade não
ousaria nem mesmo em relação à mais fácil
das que me ensinaram, e acerca das quais a
temeridade de um julgamento teria menos
alcance. Considero com efeito soberanamente
iníquo querer subordinar as instituições e os
costumes públicos, que são fixos, às opiniões
variáveis de cada um de nós (a razão privada
tem jurisdição privada) 'e empreender contra as
leis divinas o que nenhum governo toleraria
contra as leis civis.
Embora a razão humana tenha sobre estas
últimas maior ação, não deixam elas de reger
- aqueles mesmos que as pretendem julgar; e
nossa inteligência, por grande que seja, não
serve senão para explicà-las e inová-las. Se por
vezes a providência divina ignora essas regras
a que nos obriga, não o faz para nos eximir de
obedecê-las.. São efeitos da vontade divina que
devemos admirar sem procurar imitar. E os
exemplos extraordinários que nos outorga de
seu poder, assinalados pelas marcas especi-
ficas e manifestas do milagre, estão de tal
modo acima do que podemos fazer e ordenar
que é loucura e impiedade tentar reproduzi-los.
Não os devemos experimentar, e sim contem-
plá-los com espanto; são atos de sua alçada e
não da nossa, e Cotta fala com sabedoria
quando diz: “em matéria de religião ouço T.
Coruncanus, P. Scipion, P. Scevola, soberanos
pontífices e não Zenão, Cleante ou Crisi-
Q”21 5.
No que diz respeito à grande querela que
nos divide atualmente, em que há cem artigos
a suprimir ou a introduzir e todos de primeira
importância, só Deus sabe quantas pessoas
podem vangloriar-se de terem estudado - as
razões essenciais, a favor ou contra, de cada
partido. O número de indivíduos escrupulosos
é limitado, se é que existem; e não foram eles
feitos para nos perturbar. Mas fora deles, toda
essa multidão para onde vai? de que lado se
214 Cícero.
215 Cícero.
alinha? A Reforma produz o efeito de todo
remédio pouco eficiente e mal ministrado: os
humores de que procura livrar-nos, ele os exci-
ta e os amargura; e eles continuam em nós.
Não nos pôde purgar na sua fraqueza, e nos
enfraquecem entretanto; e de sua ação tiramos
apenas infinitas dores internas.
Como quer que seja, a sorte, em fazendo
com que falhe por vezes o nosso julgamento,
põe-nos não raro diante de necessidades tão
absolutas que cumpre às leis ponderâ-las; e
recusar-se a admitir uma inovação que acaba
por se impor pela violência é obrigação dolo-
rosa para quem deseja, em tudo e por tudo,
manter-se fiel ao dever e obediente à regra. Ela
o coloca em situação desvantajosa em relação
a quem se outorga toda liberdade de ação e
considera permitido tudo o «que pode servir
seus intentos, não conhecendo obstáculos ao
que imagina útil a seu ponto de vista: “confiar
no pérfido é instigá-lo ao mal”21! 8, Tanto mais
quanto as leis ordinárias de um governo nor-
mal não prevêem esses acidentes extraordi-
nários. Feitas para um corpo cujos membros
principais executam seus deveres, elas supõem
que todos, de comum acordo, estão dispostos a
respeitá-los; seu funcionamento natural apli-
ca-se a uma ordem de coisas calma, serena, em
que todos se acatam; nada podem elas lá onde
reimam a licença e a violência.
Censuram ainda agora a esses grandes
personagens de Roma, Otávio e Catão, terem,
durante as guerras civis suscitadas por Sila e
César, exposto sua pátria às últimas extremi-
dades, de preferência a socorrê-la em detri-
mento das leis, nada fazendo para mudá-las.
Nesses casos de absoluta necessidade, em que
nada resta a fazer?"?, seria com efeito por
vezes mais sábio baixar a cabeça e ceder um
pouco às circunstâncias do que se obstinar em
não outorgar nenhuma concessão. Declarando
qualquer concessão impossível, dá-se à violên-
cia a oportunidade de tudo esmagar. Quando
as leis não podem obter o que têm'o direito de
exigir, mais vale que exijam somente o que
podem obter. Foi o que fez aquele que ordenou
dormissem elas vinte e quatro horas; e o outro
que préscreveu fosse, por uma vez, declarado
não ocorrido tal dia do calendário; e também
aquele que do mês de junho fez um segundo
mês de maio. Os próprios lacedemônios, tão
obedientes entretanto às leis de seu país, impe-
218 Sêneca.
217. No texto: “oú il ny a plus que tenir”, no caso
ir à guerra civil para manter um estado de coisas
superado. (N. do T.)
ENSAIOS — 1 69
didos de eleger duas vezes seguidas ao cargo
de almirante o mesmo personagem, e exigindo
a situação se mantivesse Lisandro nesse posto,
elegeram Aracus almirante mas nomearam
Lisandro superintendente da marinha. Valen-
do-se de semelhante sutileza, um de seus
embaixadores, enviado a Atenas a fim de obter
a modificação de certa ordenação, e a quem
Péricles objetava ser proibido retirar, depois
da inscrição, o quadro?'º que promulgava
uma lei, disse que nada o impedia de virá-lo do
outro lado. E Plutarco louva Filopemen por-
que, nascido para comandar, sabia não somen-
te comandar de acordo com a lei, mas também
comandar a própria lei quando o requeria a
necessidade pública.
218 As leis eram afixadas em quadros colocados
nos recintos públicos.
CAPÍTULO XXIV
Uma mesma linha de conduta pode levar-a resultados diversos
Jacques Amyot, grande esmoler de França,
contou-me um dia o seguinte fato muito honro-
so para um dos nossos príncipes, e da mais
alta posição, embora de origem estrangeira.
No início de nossas agitações, no sítio de
Ruão, foi ele advertido pela rainha, mãe do rei,
de uma conjura contra sua vida. As cartas da
rainha mencionavam expressamente o chefe da
conspiração, fidalgo angevino ou de Nantes, o
qual fregiientava então, a fim de alcançar seu
objetivo, a casa do príncipe. Este não comuni-
cou a ninguém a advertência. No dia seguinte,
passeando na colina Santa Catarina, onde se
achavam instalados os canhões que domina-
vam a cidade sitiada, e tendo à seu lado o
grande esmoler e outro bispo, viu o fidalgo que
lhe fora assihalado e o mandou chamar. Quan-
do este se achou em sua presença, vendo-o
empalidecer e tremer porque não tinha a cons-
ciência tranquila, disse-lhe o príncipe: “Senhor
Fulano, deveis 'imaginar o que quero de vós;
vossa expressão o indica. Não procureis ocul-
tar-me o que quer que seja; estou a par de vos-
sas intenções; em buscando um paliativo não
farieis senão piorar o vosso caso. Conheceis
isto (o conteúdo das peças mais secretas da
conjura); pela vossa vida confessai tudo, pois,
sem reticências.” Quando o pobre homem se
viu descoberto, e diante de provas irrecusáveis
(pois tudo fora revelado à rainha por um dos
cúmplices) não pôde senão implorar de mãos
postas a misericórdia do principe a cujos pés
quis jogar-se. Impediu-o o principe, conti-
nuando: “Vejamos. Vos causei outrora, em
qualquer circunstância, alguma pena? Ofendi
algum dos vossos por ódio pessoal? Não vos
conheço há mais de três semanas, qual o moti-
vo que tendes para quererdes assassinar-me?”
* Respornideu-lhe o fidalgo com voz trêmula que
não era por animosidade particular contra ele
mas no interesse geral de seu partido; que O
haviam persuadido de que seria obra pia
desembaraçar-se de qualquer maneira de tão
poderoso inimigo de sua religiao?!º. “Pois
“bem”, prosseguiu o príncipe, “vou mostrar-vos
quanto a minha religião é mais tolerante do
que aquela que praticais; induziu-vos a vossa a
matar-me, sem me ouvir e sem que vos tivesse
ofendido; a minha manda que vos perdoe, em-
- bora se haja provado que querieis atentar, sem
motivo, contra a minha vida. Ide, retirai-vos,
que eu não vos veja mais aqui; e será prudente
de vossa parte.não ouvirdes mais conselho, em
vossas empresas, senão de gente melhor do que
aquela a quem vos dirigistes desta feita.”
Estando o Imperador Augusto na Gália, foi
avisado de uma conspiração que contra ele tra-
mava L. Cina. Resolveu punir e convocou seus
amigos para um conselho no dia seguinte.
Durante a noite foi tomado de intensa agitação
ao pensar que deveria condenar à morte um
jovem de bóa família, sobrinho do grande
Pompeu, e refletiam-se as suas perplexidades
nos pensamentos que o assaltavam: “Viverei
- constantemente temeroso e continuamente
alerta, enquanto meu assassino poderá loco-
mover-se à vontade? E, no momento em que
estabeleço a paz no mundo, deixarei de punir
quem atenta contra estes meus dias que tantas
vezes escaparam aos perigos das guerras civis
219 O protestantismo.
70 MONTAIGNE
e das batalhas dadas em terra e mar? Posso
absolvê-lo, quando não somente desejou assas-
sinar-me mas ainda sacrificar-me (os conjura-
dos haviam projetado matá-lo durante um
sacrifício)?” E continuou em aita voz, após uns
minutos de silêncio: “Por que vives, se tanta
gente se interessa pela tua morte? Vale tua
vida tanto rigor para defendê-la?”* Vendo-lhe a
angústia, Lívia, sua mulher, lhe disse:
“Aceitarás o conselho de uma mulher? Por que
não fazes como os médicos que, em não
colhendo bons resultados de seus remédios,
indicam os remédios contrários? Até agora a
severidade não produziu efeito. Sucedem-se
umas às outras as conjurações: Lépido se-
guiu-se a Savidiniano, Murena a Lépido,
Cepião a Murena, Inácio a Cepião. Experi-
menta a doçura e a clemência. Provou-se a
culpabilidade de Cina, perdoa-lhe; ser-lhe-á
impossível prejudicar-te e teu gesto se acres-
centará à tua glória.” Augusto, satisfeito com
encontrar na mulher um eco dos próprios
sentimentos, agradeceu-lhe, desencomendou o
conselho e ordenou que Cina viesse sozinho.
Quando este se apresentou, Augusto mandou
que saíssem todos de seu aposento, ofereceu-
lhe um assento e assim falou: “Antes de mais
nada, Cina, eu te pedirei que silencies. Ouve-
me sem interromper. Dar-te-ei depois o tempo
que quiseres para a resposta. Tu o sabes, Cina,
foste aprisionado no campo de meus inimigos
e eu te poupei a vida, embora não somente
tivesses abraçado a causa deles mas ainda por
pertenceres, em virtude de teu nascimento, à
mesma gente. Devolvi teus bens, e tão bem te
tratei e tão alto te coloquei que os vencedores
invejam a sorte do vencido. O cargo de sacer-
dote, que solicitaste, eu te concedi, quando o
recusara a outros cujos pais sempre lutaram
por mim; e devendo-me tais obrigações proje-
taste assassinar-me.” Protestou -Cina afir-
mando não ter alimentado esses maus pensa-
mentos e Augusto prosseguiu: “Não estás
cumprindo tua promessa, Cina; comprometer-
te-âs a não me interromper. Sim, pensaste
matar-me tal dia, em tal lugar, em tal compa-
nhia, e de tai maneira.” E, vendo-o aterrado e
em silêncio, ante informações tão precisas e
não por causa da promessa mas sob o efeito do
remorso: “Qual o teu móvel? Ser imperador?
Seria realmente uma infelicidade para os negó-
cios públicos se só eu constituísse um obstá-
culo à tua ascensão ao trono; não consegues
sequer defender tua própria casa, e ultima-
mente ainda perdeste um processo contra um-
simples liberto. Tornar-se César ! É então isso
tudo o que sabes fazer? Se eu, somente, impeço
a realização de tuas esperanças, estou disposto
a abdicar. Mas acreditas que Paulo, Fábio, os
cosseanos e os servilianos te aceitem, eles e
esses nobres todos, nobres pelo nome e pelas
virtudes que lhes realçam a nobreza?” E, após
outros propósitos acerca da situação (pois se
entretiveram por mais de duas horas), concluiu
Augusto: “Vai, Cina, dou-te novamente essa
vida que, como traidor e parricida, mereces
perder; dou-a como a dei outrora, quando, em
sendo tu meu inimigo, eu a tinha nas mãos. À
partir de hoje, sejamos amigos e vejamos quem
de nós terá tido mais boa-fé, eu que te perdôo
ou tu que és perdoado.” Com estas palavras
despediu-o. Tempos depois, deu-lhe o consula-
do, censurando-lhe por não o ter solicitado.
Augusto recebeu a justa recompensa: de sua
clemência. Cina permaneceu-lhe profunda-
mente dedicado e ao morrer tornou-o herdeiro
de todos os seus bens. A partir desse aconteci-
mento que lhe ocorreu aos quarenta anos,
nenhuma conjuração mais houve contra ele. O
mesmo não aconteceu com o principe a que
aludimos anteriormente: sua magnanimidade
não impediu que sucumbisse mais tarde a um
atentado semelhante ao que escapara da pri-
meira vez. De como é coisa vã a prudência
humana! Quaisquer que sejam nossos projetos
e os conselhos a que recorremos, e as precau-
ções tomadas, o destino aí está de posse dos
sucessos !
Dizemos dos médicos que são felizes quan-
do obtêm bons resultados. Como se somente a
sua arte não pudesse bastar-se a si mesma;
como se fosse a única cujas bases frágeis de-
mais não a pudessem sustentar; como, enfim,
se não houvesse senão ela incapaz de êxito sem
a assistência da sorte.
Acerca da Medicina penso todo o bem e
todo o mal que dizem, pois graças a Deus rara-
mente apelo para ela. Trato-a ao contrário dos
outros; não me preocupo nunca com ela e
quando adoeço, em vez de confiar-me a ela,
ponho-me a hostilizá-la, e a temo. Aos que co-
migo insistem para que recorra a suas drogas,
respondo que esperem até eu recobrar minhas
forças e restabelecer-me a fim de melhor
suportar seus efeitos e o risco que me couber
correr. Prefiro deixar atuar a natureza, certo
de que ela tem bico e unhas para se defender
dos assaltos que a visam e proteger nosso
organismo. Receio que eu, desejando ajudá-la
no momento em que ela luta contra os golpes
imediatos da doença, venha beneficiar esta e
dar à Medicina maior trabalho ainda.
Creio que a parte da sorte é grande, não
somente no caso da Medicina mas também no
de numerosos outros ramos do conhecimento
humano que parecem mais independentes.
“Assim a inspiração poética que se assenhora
de um autor e o arrebata, por que não a atri-
ENSAIOS —I 7
buir à sorte? Ele próprio confessa que ela
ultrapassa sua capacidade, que não vem dele,
que ele não poderia atingir tais alturas. Da
mesma forma os oradores, quando lhes ocor-
rem esses movimentos de alma e esses trans-
portes extraordinários que os fazem alçar-se
muito além de seus intentos. Da mesma forma
na pintura em que o pintor obtém por vezes
efeitos muito superiores aos que sua imagina-
ção e seu saber conceberam, e espantam a eles
próprios. Mas a sorte manifesta-se ainda mais
nitidamente pelas graças e belezas que põe nes-
sas obras, não apenas independentemente da
intenção do autor mas igualmente sem que ele
o perceba. Um leitor culto descobre amiúde
nos escritos alheios perfeições diferentes das
que o autor pensou ter alcançado, e assim enri-
quecem o sentido e a forma da obra.
Quanto aos empreendimentos militares, não
há quem ignore qual a parte da sorte. Mesmo
em nossos conselhos e nossas deliberações,
introduzem-se sorte e azar, pois o que pode a
nossa sabedoria não é muito. E quanto mais
perspicaz e viva, mais fraca é; e tem razões
para desconfiar de si mesma. Sou da opinião
de Sila: quando examino atentamente os feitos
de guerra mais gloriosos, parece-me que os que
os realizaram, tão-somente por desencargo de
consciência se aconselharam e deliberaram
acerca da conduta necessária. Ao entrar na
luta, abandonaram-se principalmente à sua
sorte; confiantes em que ela lhes seria propícia,
em mais de uma circunstância deixaram-se
arrastar além dos limites do razoável. Suas
resoluções revelam não raro a marca de uma
confiança excessiva ou de um desespero inex-
plicável que os impelem o mais das vezes a
tomar o partido menos racional e lhes aumen-
tam a coragem de maneira sobrenatural. Daí
ter ocorrido a vários grandes capitães da anti-
guidade a idéia de espalhar a crença entre seus
soldados de que suas temeridades obedeciam a
alguma inspiração, a um sinal ou prognóstico.
Eis por que na incerteza e na perplexidade
infundidas pela impossibilidade em que nos
achamos de discernir e escolher o melhor, em
virtude das dificuldades é acidentes inerentes a
todas as coisas, o mais seguro, a meu ver,
quando outras considerações a tanto não nos
levam, é adotar o partido aparentemente mais
honesto e justo; e se há dúvida acerca do cami-
nho mais curto, seguir a linha reta. Assim, nes-
tes dois exemplos que dei, não há dúvida que
perdoar a ofensa recebida é mais belo e gene-
roso do que agir de outro modo. Se isso não
deu certo cam o primeiro não se culpe a sua
nobre conduta; pode-se lá saber se, em toman-
do o partido contrário, escaparia à morte que
lhe reservava o destino? Em todo caso teria
perdido a glória que lhe valeu seu ato de
bondade.
Menciona a história numerosas pessoas que,
receando atentados contra sua vida, se empe-
nharam em desfazê-los mediante vinditas e
“suplícios. Muito poucos tiveram êxito, ao que
sei e como testemunham tantos imperadores
romanos. Quem se sente ameaçado por seme-
lhante perigo não deve contar demasiado com
seu poder nem com sua vigilância, pois é difícil
garantir-se contra um inimigo que se dissimula
sob a máscara do melhor amigo. E como
conhecer as intenções e os pensamentos ínti-
mos daqueles que nos cercam? Pode mandar
vir soldados estrangeiros e cercar-se sempre de
homens armados: quem não faz questão da
própria vida é sempre senhor da vida alheia.
Ademais essa contínua suspeição que leva a
desconfiar de todos é tormento excessivo!
Dion, avisado de que Calipso procurava
uma oportunidade para atingi-lo, não teve
coragem de esclarecer a coisa, preferindo mor-
rer, disse, a aceitar a triste obrigação de ter que
se proteger não somente contra os inimigos
mas também contra os amigos. Alexandre fez
mais: avisado, por carta de Parmênion, de que
Filipe, seu médico preferido, fora subornado
por Dario a fim de envenená-lo, ao mesmo
tempo que dava a carta a ler a Filipe, tomou a
bebida que este lhe apresentava. Talvez qui-
* Ssesse assim mostrar que, se seus amigos pre-
tendiam atentar contra sua vida, a ela renun-
ciava. Ninguém confiou mais na sorte do que
esse príncipe, mas nada sei de sua existência
que testemunhe melhor sua firmeza de caráter,
nem nada conheço mais belo do que esse ato,
por qualquer ângulo que se encare.
Os que recomendam aos principes uma
constante desconfiança, a pretexto de necessi-
dade de segurança, pregam-lhes a ruína e a
desonra, pois nada de nobre se faz sem riscos.
Conheço um?2º, valente e ousado de natureza,
ac qual fizeram que perdesse todas as oportu-
nidades de se ilustrar, repetindo-lhe sem cessar
que permanecesse no aconchego dos seus, não
tentasse reconciliar-se com seus inimigos, se
isolasse, não confiasse em mais poderoso do
que ele, quaisquer promessas ou vantagens que
lhe parecesse apresentar. E conheço outro que,
seguindo caminho inverso, conquistou sua gló-
ria de maneira inesperada???.
A ousadia que outorga essa glória de que
são ávidos os príncipes, provamo-la magnifi-
camente tanto de gibão vestido como de arma
na mão, tanto no gabinete como no campo de
batalha, tanto com serenidade como com
220 Henrique de Navarra.
221 Henrique de Guise.
72 MONTAIGNE
ameaças. A prudência, tão cuidadosa, tão
circunspecta é inimiga dos grandes feitos.
Cipião, a fim de alcançar a boa vontade de
Sífax, não hesitou em deixar o exército, aban-
donando a Espanha recém- conquistada e cuja
submissão podia ser ainda duvidosá, para pas-
sar à África, com dois navios apenas, e entre-
gar-se em país inimigo a um rei bárbaro cuja
boa-fé desconhecia. E isso sem garantia, sem
reféns, confiando unicamente na sua própria
coragem, na sua boa estrela e no pensamento
de ver realizar-se os grandes projetos concebi-
dos: “a confiança que depositamos em outrem,
nós a temos não raro em paga?222,
Quem tem ambição e aspira à celebridade
deve, ao contrário, evitar uma prudência exa-
gerada, não prestar atenção às suspeitas nem a
elas se entregar. O medo e a desconfiança dão
origem à ofensa e a provocam. O mais descon-
fiado de nossos reis recompôs sua situação,
confiando-se espontâneamente a seus inimigos,
com risco de perder a vida e a liberdade e mos-
trando plena confiança neles a fim de induzi-
los a nele confiarem. Contra suas legiões
amotinadas, César opôs apenas a autoridade
de seu semblante e a altivez de suas palavras.
Tinha tal confiança em si próprio e na sua
estrela que não hesitou em se abandonar a uma
tropa sediciosa: “surgiu sobre um outeiro, de
pé, rosto impassível; sem temor próprio soube
inspirâ-lo aos outros???,
É evidente que semelhante segúrança, e que
outorga tão grande ascendência, só é natural e
provoca todos os seus efeitos naqueles a quem
a perspectiva da morte e do que pode aconte-
cer de pior não cause temor. Receosa, hesitan-
te, incerta do resultado, a atitude de quem visa
acalmar não dará nada em uma situação
grave. É excelente maneira de conquistar os.
corações e a boa vontade das gentes apresen-
tar-se altivo e confiante, conquanto assim se
faça espontaneamente e não constrangidô pela
necessidade. E que o sentimento que nos
anima seja sincero e franco; e que nosso sem-
blante não revele inquietação.
Vi na minha infância um fidalgo, coman-
dando uma cidade importante, às voltas com
violento movimento de efervescência popular.
Para acalmar os descontentes tomou, a princi-
pio, a resolução de abandonar o lugar em que
se encontrava em segurança e ir ao encontro
dos amotinados; triste idéia, a meu ver! Não
foi porém a de sair do abrigo, como em geral
lho censuram, mas foi a de entrar pelo cami-
nho das concessões e carecer de energia; foi a
de ter tentado calmar os alucinados antes os
222 Tito Lívio.
223 Tucano.
seguindo, a reboque, do que os esclarecendo
acerca de suas faltas; foi a de os ter suplicado
em lugar de admoestá-los. Considero que uma
severidade mitigada, unida a uma decisão
segura, apoiada nas tropas sob suas ordens,
convinha melhor à sua condição e aos deveres
de seu cargo, e teria dado melhor resultado e
fora mais digna para ele; e o houvera honrado.
Contra o furor popular nada se há de esperar
do emprego da humanidade e da doçura; o que
inspira respeito e medo tem mais probabili-
dades de êxito. Censuraria igualmente a esse
fidalgo — que considero corajoso mais do que
temerário em ir sem armas nem escolta sufi-
ciente jogar-se em pleno mar encapelado pela
tempestade, em cheio entre homens tomados
de loucura — o fato de não ter levado até o
fim sua resolução. Percebendo o perigo, fra-
quejou. E sua atitude, de pacífica e concilia-
dora que era, passou a ressentir-se do pavor
que se apoderou dele. Sua voz alterou-se, em
seu olhar refletiram-se o terror e o arrependi-
mento de se haver impensadamente arriscado:
procurou afastar-se e desaparecer. Esse espetà-
culo sobreexcitou ainda mais a multidão em
delírio.
Deliberava-se de uma feita acerca de uma
grande parada de tropas de toda natureza —
oportunidade não raro escolhida pelos que
meditam vinganças, pois então se executam
com menor perigo. Havia fortes indícios de
que tentativas desse gênero ocorreriam, o que
não era muito tranquilizante para os mantene-
dores da ordem. Várias opiniões foram emiti-
das a respeito, como acontece em casos difi-
ceis, e entre elas algumas muito sensatas que
mereciam ser apreciadas. Quanto a mim, opi-.
nei que se devia evitar tudo o que pudesse
demonstrar receio. Que participássemos da
parada, que nos misturássemos à tropa de ca-
beça erguida, rosto sereno, sem apreensão visi-
vel, e que em vez de restringi-la (como outros
propunham) a ampliássemos; ao contrário,
dando a essa manifestação todo o desenvolvi-
mento possível, recomendando aos oficiais que
ordenassem a seus soldados darem as salvas
de mosquetões bem nutridas, em conjunto e
sem economizar pólvora, em honra do perso-
nagem que os passasse em revista. Assim se
fez. E essas tropas de cuja fidelidade suspeitã-
vamos, sentiram-se encorajadas a uma mútua
e vantajosa confiança.
A conduta de Júlio César em circunstâncias
semelhantes parece bela a ponto de não poder
sobreexceder-se. Pela sua clemência e sua ame-
nidade, procurou antes de mais nada conquis-
tar a afeição de seus inimigos, contentando-se,
ao lhe serem anunciadas as conjurações, com
se declarar ciente delas. -Em seguida, cheio de
ENSAIOS — I 73
nobreza, aguardou sem medo e sem maiores
preocupações o que pudesse acontecer, entre-
gando-se à proteção dos deuses e de sua estre-
la. Estava certamente nesse estado de alma ao
ser assassinado.
Tendo um estrangeiro propalado que era
capaz, mediante certa importância em dinhei-
ro, de indicar a Dionísio, de Siracusa, um meio
infalível de descobrir as conjurações porven-
tura organizadas contra o tirano, este, a quem
se comunicara tal propósito, mandou chamá-
lo a fim de se informar acerca de tão útil pro-
cesso. Disse-lhe o estrangeiro que bastava lhe
desse um talento e espalhasse por toda parte:
haver comprado o segredo. Dionísio achou a
idéia boa e mandou dar-lhe seis escudos. Aos
olhos de todos era pouco verossímil houvesse
o tirano gratificado tão generosamente o
estrangeiro sem que este lhe prestasse relevante
serviço; e essa crença contribuiu para tornar
seus inimigos mais prudentes. Efetivamente, os
príncipes que divulgam os avisos de conjuras
contra eles preparadas agem sabiamente.
Fazem crer que sua polícia é eficiente e que
nada se pode empreender contra eles, que não
saibam.
O Duque de Atenas cometeu vários erros
em seu recente governo de Florença. E o maior
consistiu em que, ao ser notificado de conciliá-
bulos havidos contra sua pessoa, mandou
matar Matteo di Morozzo (o qual lhos comu-
nicara) na esperança de que desse modo nin-
guém viria a saber das reuniões nem poderia
imaginar suportassem tão dificilmente a sua
tirania.
Lembro de ter lido outrora a história de um
alto personagem romano que, proscrito pelos
triúnviros, fora bastante hábil para escapar vá-
rias vezes aos seus perseguidores. Um dia, um
grupo de cavaleiros enviados à sua procura,
passou, sem o perceber, junto a uma capoeira
onde ele se escondera. Mas, nesse momento,
pensando nas penas e dificuldades que vinha
tendo há tanto tempo para fugir a essas conti-
nuas e minuciosas batidas e ao desprazer de
semelhante vida, considerou o fugitivo que era
preferível acabar com isso uma vez por todas.
E saindo de seu esconderijo chamou os cava-
leiros e se entregou voluntariamente, livrando
a todos de uma boa maçada. Entregar-se a
seus inimigos é resolução um tanto excessiva.
Creio entretanto ser ainda melhor isso do que
viver constantemente na apreensão febril de
um acidente inevitável. E, estando a inquieta-
ção € a incerteza no fundo de todas as precau-
ções que tomamos, mais vale preparar-se cora-
josamente para o que der e vier e tirar algum
consolo daquilo que não temos certeza venha a
ocorrer.
CAPÍTULO XX V
Pedantismo
Sofri muitas vezes, em criança, com sempre
ver nas comédias italianas o mestre-escola no
papel de parvo, sem ter a designação de magis-
ter, com muito mais honroso sentido entre nós.
Entregues que somos à sua orientação, não
tinha eu outra alternativa senão aborrecer-me
com tal reputação. Bem procurava explicá-la a
mim mesmo pela desigualdade natural que
existe entré o vulgo e as raras pessoas que se
distinguem pelo bom-senso e o saber. Tanto
mais quanto os hábitos de uns e outros. são
inteiramente diversos: Mas, perturbava-me
verificar que os homens mais esclarecidos são
exatamente os que menos estimam os professo-
res, haja vista o nosso bom Du Bellay: “Odeio
sobretudo um saber doutoral.” E isso vem de
longe, pois Plutarco (“Vida de Cicero”) nos
diz que entre os romanos “grego” e
“escolástico” eram palavras pejorativas que se
empregavam como censura. Com a idade
achei que se justificava essa opinião e que os
mais sábios não são os mais perspicazes.
“Magis magnos clericos non sunt magis mãg-
nus sapientes”22 4.
Mas como pode ocorrer: que uma alma enri-
quecida de tantos conhecimentos não se torne
mais viva e esperta, e que um cérebro vulgar e
grosseiro armazene, sem se apurar, as obras €
Juízos dos maiores espíritos que o mundo pro--
duziu? Ainda não o entendi muito bem.
Para abrigar tantos e tão grandes pensa-
mentos dos outros cérebros, é necessário,
dizia-me uma senhorita que ocupava O pri-
meiro lugar entre as nossas princésas, que O
próprio cérebro se contraia, se restrinja, se
comprima para dar espaço ao que recebe de
224 Palavras de Frei João em Rabelais.
74 MONTAIGNE
outrem. Imagino, dizia ela, que assim como as
plantas morrem por excesso de seiva e as can-
deias se apagam com abundância de azeite, os
espíritos curvam-se e se ancilosam sob o peso
dos estudos e das matérias com que os enche-
ram e que eles não puderam deslindar. Parece-
me entretanto que outra é a razão, porque mais
se enche nossa alma e mais ela se enriquece, e
a antiguidade nos fornece exemplos de homens
hábeis no governo da coisa pública, grandes
capitães e grandes estadistas igualmente gran-
des sábios. Quanto aos filósofos, desinteres-
sados dos negócios públicos, foram outrora em
verdade muitas vezes escamecidos pela liber-
dade de expressão dos autores cômicos de seu
tempo, porquanto suas opiniões e suás atitudes
os tornavam ridículos. Quereis fazê-los juízes
dos direitos de um processo, das ações de um
homem? Confiai neles! Andam ainda a inves-
tigar se a vida e o movimento existem realmen-
te; se não são, homem e boi, uma só coisa; que
significa agir; que se deve entender por sofri-
mento; que espécie de bichos são as leis e a
Justiça! Falam de um magistrado ou com ele
conversam? Mostram-se irreverentes e descor-
teses. Ouvem louvar o príncipe ou o rei? Não
passam para eles de pastores, ociosos como os
pastores e ocupados apenas em ordenhar e tos-
quiar seus animais; mais duramente, porém.
Estimais alguém porque possui duas mil jeiras
de terra? Riem-se, acostumados que estão a
encarar o mundo como propriedade pessoal.
Orgulhais-vos de vossa nobreza por terdes sete
avós ricos de glórias? Eles os desprezam, pois,
atentando unicamente para o universal, com-
putam o número de antepassados que teve
cada um de nós entre ricos e pobres, reis e ser-
vos, gregos e bárbaros, e ainda que fósseis
descendentes de Hércules achariam vaidade
que vos ufanásseis desse presente da sorte?? *.
Por isso os desprezava o vulgo como ignoran-
tes das coisas essenciais da vida, que todos
apreciavam e os tachavam de presunçosos e
insolentes. Mas esta pintura, tirada de Platão,
estã longe de retratar os professores. Inveja-
vam-se os filósofos porque pairavam acima do
homem comum, desdenhavam os negócios pú-
blicos e levavam uma vida especial que não es-
tava ao alcance de qualquer pessoa e se regu-
lava por princípios superiores que não são os
que se aplicam normalmente. Quanto aos.
professores, Julgam-nos abaixo do homem
comum, incapazes de funções públicas e levan-
do uma vida miserável, de costumes baixos e
vis que os coloca no último degrau da socieda-
225 0 trecho é obscuro no original, mas o
comentarista Michaut assim o êntendeu. (N.
do T.)
de: “Odeio esses homens incapazes de agir e
cuja filosofia consiste unicamente em pala-
ras SA
Ora, os filósofos, grandes pelo saber, maio-
res ainda o foram quando passaram à ação.
Assim aquele geômetra de Siracusa que, arran-
cado da vida contemplativa a fim de empregar
seu gênio inventivo na defesa de seu país, ima-
ginou imediatamente engenhos espantosos
cujos efeitos ultrapassavam tudo o que podia
conceber o espírito humano. No entanto os
desprezava considerando ele próprio que com
tais invenções, simples jogos de sua sabedoria,
corrompia a dignidade de sua arte. Daí o fato
de, cada vez que tiveram os filósofos de passar
da teoria à prática, se elevarem tão alto que se
diria terem enriquecido prodigiosamente, sua
alma e coração, no estudo das coisas. Alguns
houve que vendo a direção de sua terra nas
mãos de incompetentes, destes se afastaram,
calando. Prova-o a resposta de Crates??” a
alguém que lhe perguntava até que momento
cumpria filosofar: “Até que não haja mais
burriqueiros à frente dos nossos exércitos.”
Heráclito abdicou a realeza em favor de seu
irmão, e, aos efésios, que o censuravam por
passar o tempo a brincar cóm as crianças
diante do templo, observou: “não será melhor
agir assim do que gerir os negócios públicos
em vossa companhia?” Outros, que tinham o
espirito acima da fortuna e do mundo, acha-
vam as cadeiras dos magistrados e atê os tro-
nos dos reis baixos e vis, e Empédocles recu-
sou a realeza que lhe ofereciam os
agrigentinos. Condenando Tales seus concida-
dãos por se preocuparem demasiado com seus
interesses pessoais e com se enriquecerem, eles
atalharam que assim falava como a raposa da
fábula, por ser incapaz de fazer o mesmo. Em
vista do que teve ele a idéia de tentar a aventu-
ra, por desfastio. E, rebaixando o seu saber, a
serviço do proveito e do dinheiro, organizou
uma empresa que em um ano lhe deu lucro tão
grande que dificilmente os mais experimen-
tados no ofício poderiam ganhar em toda vida.
Conta Aristóteles que alguhns' diziam desses
Tales, Anaxágoras e semelhantes, que eram sá-
bios mas não prudentes, pois não se ocupavam
o bastante com as coisas úteis. Além de não,
perceber muito bem qualquer diferença entre
tais palavras, creio que erravam os que assim
se exprimiam e, em se atentando para a fortu-
na tão penosamente adquirida e módica com
que se satisfaziam esses críticos, seríamos
antes induzidos a admitir que não são nem sá-
bios nem prudentes, usando as mesmas expres-
sões.
226 Pacuvio.
227 Filósofo cínico do século IV.a.C.
ENSAIOS — 1 15
Abandono essa primeira razão e creio ser
preferível dizer que o mal provém da maneira
por que tratam a ciência. Pelo modo como a
aprendemos não é de estranhar que nem alu-
nos nem mestres se tornem mais capazes em-
bora se façam mais doutos. Em verdade, os
cuidados e despesas de nossos pais visam ape-
nas encher-nos a cabeça de ciência; de bom-
senso e virtude não se fala. Mostrai ao povo
alguém que passa e dizei “um sábio” e a outro
qualificai de bom; ninguém deixará de atentar
com respeito para o primeiro. Não mereceria
essa gente que também a apontassem gritando:
“cabeças de pote!” Indagamos sempre se o
indivíduo sabe grego e latim, se escreve em
verso ou prosa, mas perguntar se se tornou me-
lhor e se seu espírito se desenvolveu — o que
de fato importa — não nos passa pela mente.
Cumpre entretanto indagar quem sabe melhor
e não quem sabe mais.
Só nos esforçamos por guarnecer a memó-
ria, deixando de lado, e vazios, juízo e cons-
ciência. Assim como os pássaros vão às vezes
em busca de grão que trazem aos filhotes sem
sequer sentir-lhe o gosto, vão nossos mestres
pilhando a ciência nos livros e a trazendo na
ponta da língua tão-somente para vomitá-lã e
lançá-la ao vento. E é admirável que se encón-
tre tal tolice em meu próprio exemplo! Não
faço o mesmo na maior parte deste escrito?
Vou filando aqui e além, deste e daquele livro,
as sentenças que me agradam, não para
armazená-las, que não possuo armazém, mas a
fim de transportá-las para este livro no qual
não se tornam por certo mais minhas do que lá
onde se achavam. Nossa ciência, creio eu, é a
do presente; a do passado nós a ignoramos
tanto quanto a do futuro?2º. E o que é pior, os
estudantes, e aqueles a quem por sua vez ensi-
narão, recebem dos mestres, sem assimilar
melhor, uma ciência que passa assim de mão
em mão, como pretexto a exibição, assunto de
conversa, usada tal qual a moeda que por ter
sido recolhida serve apenas de ficha para cal-
cular: “aprenderam a falar com os outros, e
não consigo”22º. “Não se trata de falar, trata-
se de governar o barco”23º,
A natureza, para mostrar que não há nada
selvagem em sua obra, permite que surjam nos
países onde as artes se acham menos desenvol-
vidas produções do espírito que ombreiam
com as mais admiráveis. Vem a calhar o pro-
vérbio gascão tirado dos tocadores de gaitajde
228 QOtrecho presta-se a interpretações contraditó-
rias. Adotamos a que propõe Michaut. (N. do Th
229 Cícero. ii
230 Sêneca.
jr
a
i
à
fole: “Bonha prou bonha, mas à remuda los
dits qu'em” (pouco importa se sopras pouco
ou muito, conquanto mexas os dedos). Sabem
dizer “como observa Cícero”, “eis o que fazia
Platão”, “são palavras de Aristóteles”, mas
que dizemos nós próprios? Que pensamos?
Que fazemos? Um papagaio poderia substi-
tuir-nos. Lembra-me isso aquele rico romano
que, à força de dinheiro, se aplicara a recrutar
homens versados em todos os ramos da ciência
e os tinha sempre à sua volta; e quando, com
seus amigos, tinha a oportunidade de falar de
qualquer coisa eles o supriam em sabedoria,
um lhe soprando uma réplica, outro citando
um verso de Horácio, cada qual segundo sua
especialidade. Com o tempo chegara a acredi-
tar que o saber era seu porquanto o tirava de
“seus” homens, agindo, assim, como aqueles
cujos conhecimentos moram nas bibliotecas
suntuosas de sua propriedade. E conheço um
que ao ser indagado acerca do que lhe cumpre
saber, vai logo buscar um livro para mostrar e
jamais ousaria dizer que tem o traseiro. sar-
nento sem previamente procurar em dicionário
a significação de sarna e de traseiro.
Cuidamos das opiniões e do saber alheios e
pronto; é preciso torná-los nossos. Nisso nos
parecemos com quem, necessitando de lume, o
fosse pedir ao vizinho e dando lá com um
esplêndido braseiro ficasse a se aquecer sem
pensar em levar um pouco para casa. Que
adianta ter a barriga cheia de comida se não a
digerimos? Se não a assimilamos, se não nos
fortalece e faz crescer! Imaginaremos, acaso,
que Luculo, que as letras formaram e torna-
ram, sem experiência, tão grande capitão, as
tenha aprendido à nossa moda? Tanto nos
apoiamos nos outros que acabamos por perder
as forças. Quero fortalecer-me contra o temor
da morte? Recorro a Sêneca. Tenho a intenção
de arranjar consolo para mim e para outros?
Vou a Cicero. Entretanto tudo houvera tirado
de mim mesmo se a tanto me tivessem acostu-
mado. Não aprecio esse saber relativo e que
mendigamos. Ainda que possamos ser sábios
com o saber alheio não seremos avisados
senão com a própria sabedoria: “Detesto o
sábio que não é sabio por si próprio”?º1.E diz
Enio?º2 igualmente: “Vã é a sabedoria que
não é útil ao sábio”; “se é ambicioso, vaidoso
e mais mole do que o anho recém-nascido da
Euganea?2º8 ; é “não basta adquirir sabedoria, é
preciso tirar proveito dela”23 4.
231 Eurípides.
232 Cícero — Dos deveres.
233 Juvenal.
234 Cicero.
16 | | MONTAIGNE
Dionísio caçoava dos astrólogos?* * que
cuidavam de -saber das desgraças de Ulisses
mas ignoravam as próprias; dos músicos que
afinam suas flautas mas não os seus costumes;
dos oradores que estudam para discutir a justi-
ça mas não a praticam. Se a sua alma não se
aperfeiçoa, se seus juízos não se tornam mais
lúcidos, melhor fora que o estudante gastasse o
tempo a jogar péla, pois ao menos o corpo ele
o teria mais ágil. Observai-o de volta após
quinze ou dezesseis anos: nada se fará dele; o
que trouxe a mais é o grego e o latim, que o
fizeram mais tolo e presunçoso do que quando
deixou a casa paterna. Devia voltar com o
espírito cheio, e voltou balofo; incharam-no e
continuou vazio.
Tais mestres, como os sofistas seus parentes
próximos a que alude Platão, são de todos os
homens os que parecem mais úteis à humani-
dade. No entanto são os únicos que não
somente não melhoram a matéria-prima que se
lhes confiou, como fazem o carpinteiro e o
pedreiro, mas a estragam e ainda cobram por
tê-la estragado.
Se meus pedagogos concordassem com a lei
proposta por -Protágoras a seus discípulos
(pagarem o preço pedido ou irem ao templo e
declararem sob juramento em quanto avalia-
vam o proveito tirado das lições recebidas.
pagando-o de acordo com o trabalho), por
certo se decepcionariam com o juramento que
me dita a experiência adquirida. No meu diale-
to perigordino a esses sábios de pacotilha dá-
se por brincadeira o apelido de “Lettreferits”,
o que quer dizer “lettresferus”2º 8, isto é, indi-
víduo que as ietras atordoaram à maneira de
uma martelada. E, de fato, as mais das vezes
parecem ter descido tão baixo que nem mais
possuem o senso comum. O camponês e o
sapateiro vão vivendo simples e ingenuamente,
falando do que conhecem; enquanto os outros
por se quererem elevar e envaidecer de um
saber todo superficial, que não lhes entrou se-
quer no cérebro, vão-se embaraçando e chafur-
dando sem cessar. Sabem discursar mas é pre-
ciso que outros o apliquem; conhecem bem
Galeno, porém não conhecem o doente, e o
estonteiam com textos de lei antes de terem
ciência da causa. Nada ignoram da teoria, mas
não achareis um que a possa pôr em prática.
235 No texto gramáticos — mas o dicionário de
Godefroy da língua francesa arcaica dá também os
sentidos de sábio e astrólogo, citando Renaud e
Montauban. — Pareceu-nos dentro do espírito da
frase preferível empregar astrólogo. (N. do T.)
236 Ferido, golpeado, abalado pelas letras. (N. do
T.
Vi em minha casa um de meus amigos que,
a lidar com um indivíduo dessa espécie, se pôs,
por passatempo, a recitar-lhe, em uma trapa-
lhada de frases, citações sem nexo embora
entremeadas de palavras relativas ao proble-
ma; e assim se divertiu um dia inteiro com o
tolo que tomara a coisa a sério e dava tratos à
bola para responder às objeções. No entanto o
tal indivíduo era homem de letras, gozava de
certa reputação e de boa posição social: “E
vós, patrícios, que não tendes o poder de ver o
que se passa atrás de vós, cuidai qué aqueles a:
quem virais as costas não se riam de vós?? 7.”
Quem olhar de perto essa espécie de gente,
por toda parte encontradiça, achará como eu
que as mais das vezes ela própria não se enten-
de como não entende os outros. Tem a memó-
ria bem guarnecida, mas o juízo absolutamente
vazio, salvo quando, pelas suas qualidades
naturais, faz exceção. Entre essas exceções
incluirei Adriano Tourmnebceuf 238, que conhe-
ci. Nunca exercera outra profissão senão a de
homem de letras, e na minha opinião em mil
anos ninguém melhor do que ele mereceu lugar
entre os primeiros. No entanto, nada tinha de
professoral, a não ser a maneira de trajar e cer-
tos modos de conduzir-se na sociedade, que.
não revelavam o requinte praticado na Corte,
o que não importa em verdade. Pois detesto as
pessoas que suportam mais dificilmente um
terno malfeito do que uma alma e'julgam a
qualidade do homem pelas reverências, as ati-
tudes, e as botas. Adriano Tourneboceuf era
dono da mais bela alma e eu o trouxe a assun-
tos alheios aos de seu comércio habitual. Via-
os tão lucidamente e os apreciava tão judicio-
samente que se diria não ter ele jamais se
ocupado senão de guerra e de negócios públi-
cos. São naturezas: fortes e retas — as quais .
Prometeu formou com mais benevolência e
melhor argila — e que assim se mantêm ape-
sar das instituições defeituosas. Ora, não basta
queas instituições.não nos tornem piores, é prt
ciso que nos façam melhores.
Em nossos tribunais, quando lhes cabe pro-
ver os cargos de sua alçada, só julgam os can-
didatos pelo saber que pôssuem. Outros os
apreciam também pelo bom-senso, dando-lhes:
questões a resolver. Estes últimos me parecem
estar com a razão. Ambas as coisas são neces-
sárias, embora em realidade valha menos o
saber que a inteligência, porquanto esta pode
prescindir daquele e o contrário não seja exato.
Porque, como diz Stroben, “de que serve o
saber sem a inteligência”? |
237 Pérsio.
238 Professor no Colégio de França (1512-1565).
E
ki
Prouvera a Deus que para o bem de nossa
Justiça fossem os nossos tribunais tão ricos de
bom-senso € de consciência quanto de ciência.
Infelizmente, “não aprendemos a viver, mas a
discutir”239, Não cabe justapor o saber à
alma, cumpre incorporá-lo a ela. Não se trata
de negá-la mas sim de impregná-la com ele. Se
não modifica nem melhora o estado de imper-
feição, fora certamente preferível não adquiri-
ló. E uma arma perigosa que embaraça e fere o
dono, caso não esteja em mão forte e lhe igno-
re a maneira de usar: “melhor seria não ter
aprendido nada”2“º. Talvez por esse motivo
não exijamos das mulheres maior saber, e
François, Duque de Bretanha, filho de Jean V,
ao se tratar de seu casamento com Isabeau, da
casa real escocesa, respondeu a quem lhe dizia
ter ela sido educada simplesmente sem nenhu-
ma noção das letras, que a preferia assim, pois
uma mulher já sabe o bastante quando é capaz
de diferenciar uma camisa do gibão do marido.
Nada tem, portanto, de extraordinário que
nossos antepassados não se hajam preocupado
com as letras e que hoje ainda só excepcional-
mente as encontremos cultivadas mesmo pelos
que participam dos conselhos de nossos reis.
Se não lhes desse bom crédito o fim — preci-
puo em nosso tempo — de ganhar dinheiro, na
Jurisprudência, na medicina, na teologia, nós
as veríamos tão desprezadas quanto antes. E
que prejuízo decorreria disso, posto que não
nos ensinam nem a bem pensar nem a “agir?
“Desde que se vêem tantos sábios não se acha
mais gente de bem”2 41. A quem não possui a
ciência do mérito qualquer outra é prejudicial.
Mas talvez divisemos aí a explicação que pro-
curava há pouco: não tendo o estudo em Fran-
ça quase outro fim senão o lucro, se desfal-
camos os que a elas se entregam por
temperamento e por preferirem os cargos
honoríficos aos lucrativos, e os que a elas
renunciam antes de tomarem gosto a fim de
exercer uma profissão sem parentesco com 6
livro, sobram apenas para tratar das letras os
que, sem fortuna, buscam nelas um meio de
existência. Ora, estes que tanto por natureza
como pela educação têm uma alma de baixo
quilate empregam mal o seu saber, o qual não
pode nem iluminar um incapaz, nem devolver
a vista a quem não vê. Seu objetivo não é dar
vista ao cego e sim corrigi- -la, e ensinar a andar
se as pernas ainda são direitas e capazes, ide
esforço. O saber é uma boa droga, mas não há
droga suficientemente' forte para resistir àsifa-
lhas do recipiente. Há quem'tenha vista boa e
240 Cícero.
E
23º Sêneca. |
1
241 Sêneca. :
ENSAIOS— 1 e 7
seja vesgo: vê o bem mas não o faz, e vê O
saber e não sabe servir-se dele. A principal lei
de Platão em sua República é repartir os car-
gos entre os cidadãos segundo a capacidade de
cada um. À natureza tudo pode e tudo faz. Os.
coxos não servem para os exercícios do corpo;
aos exercícios do espírito não se adaptam as
almas mancas. A filosofia é inacessível às
almas bastardas e vulgares. Se vemos um
homem mal calçado não nos espantamos que
seja sapateiro, pois vemos frequentemente mê- -
dicos que, enfermos, seguem tratamentos in-.
convenientes, e teólogos de costumes censurá-
veis, e, o que é corriqueiro, sábios mais
ignorantes do que o homem comum.
Tinha razão Aristo, de. Quios, ao dizer
outrora que os filósofos são nocivos aos que os
ouvem, porquanto em sua maioria não são as
pessoas suscetíveis de tirar proveito de seus
ensinamentos, os quais quando não fazem bem
fazem mal:“Da escola de Aristipo saem devas-
sos, da de Zenão saem selvagens”? 42,
No método de educação que Xenofonte atri-
bui aos persas, é dito que ensinavam a virtude
aos filhos como nos outros países se ensina-
vam as letras. Afirma Platão que o filho do rei,
herdeiro do trono, era educado da seguinte
maneirá: ao nascer não o entregavam às
mulheres, mas aos eunucos, ocupantes dos
mais altos cargos na Corte por caúsa de sua
virtude. Cabia-lhes desenvolver nele as quali-
" dades físicas que o pudessem tornar belo e
sadio. Com sete anos, ensinavam-lhe a montar
a cavalo e a caçar. Aos catorze anos, confia-
vam-no a outros personagens: o mais avisado,
o mais justo, o mais virtuoso e o mais valente
da nação. Ensinava-lhe o primeiro a religião; O
segundo a ser sincero; O terceiro a dominar as
paixões; o quarto a nada recear.
É de notar-se que na excelente legislação de
Licurgo, tão extraordinária pela sua perfeição
e particularmente atenta à educação das crian-
ças, considerada como devendo passar antes
de tudo na própria pátria das Musas, tão
pouco se cuidasse da erudição. Parece que a
essa generosa mocidade, que tudo desprezava
à exceção da virtude, deviam dar em lugar de
professores de ciências, como ocorre em nosso
caso, mestres de valentia, prudência e justiça,
exemplo que Platão adotou. Sua educação
consistia como entre os persas em pedir às
crianças julgamento sobre os homens e suas
ações. E cumpria-lhes justificar sua maneira de
ver, de modo que a um tempo exerciam a inte-
ligência e aprendiam Direito.
Astiages, em Xenofonte, interroga Ciro
acerca de sua última lição. Consistiu, responde
242 Cícero.
78 MONTAIGNE
este, no seguinte: na escola um aluno que pos-
suía um capote curto demais deu-o a seu
camarada menor e tomou o deste que era mais
comprido. O mestre fez-me juiz da contenda.
Eu achei que se devia deixar as coisas como
estavam, porquanto parecia que cada qual
assim se via possuidor de um capote a seu fei-
tio. Meu mestre mostrou-me então que assim
julgando eu não consultara senão a conve-
niência e que fora preciso antes atentar para a
Justiça, a qual estabelece que ninguém seja des-
pojado à força daquilo que lhe pertence. E
Ciro acrescentou que por esse erro de aprecia-
ção fora chicoteado tal qual o somos em Fran-
ça, nas nossas aldeias, quando nos enganamos
quanto ao tempo de um verbo grego. Meu pro-
fessor poderia fazer-me um inteiro discurso —
“in. genere demonstrativo” — sem conseguir
persuadir-me da superioridade de sua escola
sobre essa. Os lacedemônios quiseram encur-
tar o caminho e como as ciências, ainda que se
estudem seriamente só nos podem oferecer teo-
rias acerca da prudência, da sabedoria na con-
duta e do espírito de decisão, sem nos levar à
sua prática, procuraram colocar desde cedo as
crianças em contato com a realidade, instruin-
do-as não por palavras mas pela ação, forman-
do-as e as moldando rigorosamente, por pre-
ceitos e frases sem dúvida, mas também e
principalmente por exemplos e obras, a fim de
que o saber não lhes enchesse apenas a alma
mas a ela se incorporasse, tornando-se com-
pleição e hábito; e que não fosse uma aquisi-
ção mas uma propriedade natural. A propó-
sito, perguntou-se a Agesilau que deviam, na
sua opinião, as crianças aprender, ao que ele
respondeu: o que terão de fazer quando cresce-
rem. Não ê& de estranhar que semelhante educa-
ção tenha produzido tão admiráveis efeitos.
Conta-se que se iam buscar em outras cidades
da Grécia retóricos, pintores, músicos e na
Lacedemônia os legisladores, os magistrados e
comandantes dos exércitos. Em Atenas apren-
dia-se a bem falar; lá, a bem fazer. Numa a
discutir nas controvérsias dos sofistas e a
penetrar o verdadeiro sentido das frases artifi-
cialmente constituídas; noutra, a defender-se
contra as tentações da volúpia e a encarrar
com coragem os reveses da sorte ou a morte
que nos ameaça. Aqueles a discorrer, estes a
agir; contínuo exercício de lingua de umlado; e,
de outro, da alma. Não admira portanto que a
Antípater, que exigia cinquenta crianças como
reféns, lhe respondessem, ao contrário do que
teriamos feito, que preferiam dar o dobro de
homens feitos, de tal modo temiam que perdes-
sem a educação da terra. Quando Agesilau
convida Xenofonte a mandar os filhos para
Esparta, a fim de aí serem educados, não pre-
tendia ensinar-lhes a dialética e a retórica, mas
o fazia para que aprendessem a mais bela das
ciências, a do saber obedecer e mandar.
É divertido ver Sócrates caçoar, a seu modo,
de Hípias, o qual lhe conta como ganhou
dinheiro com o ensino, sobretudo em certas
aldeias da Gália, enquanto em Esparta não
pegou um vintém. “Esses espartanos”, diz Hi-
pias, “são uns broncos, incapazes de medir e
contar, ignorantes da gramática e dos ritmos,
interessados apenas na cronologia dos reis, na
fundação e decadência dos Estados e outras
tolices que tais.” Quando terminou, Sócrates
convenceu-o a pouco e pouco da excelência de
sua forma de governo, da felicidade e da virtu-
de de sua vida privada e sugeriu-lhe como con-
clusão a inutilidade das artes.
Ensinam-nos os exemplos do que se verifi-
cou nesse governo e nos do mesmo tipo, que o
estudo das ciências amolece e efemina as cora-
gens mais do que as robustece e as torna
aguerridas. À nação mais poderosa que existe
neste momento é a dos turcos, povo que igual-
mente estima as armas e despreza as letras.
Roma foi mais valente antes de se tornar sábia.
Os países mais belicosos de nossos dias são
aqueles em que o povo é mais grosseiro e igno-
rante. Tem-se a prova nos citas, nos persas, em
Tamerlão. Quando os godos saquearam a Gré-
cia, O que evitou se incendiassem as bibliotecas
foi ter tido um deles a idéia de deixar os livros
intatos a fim de que seus inimigos com eles se
distraíssem e neles encontrassem uma ocupa-
ção sedentária e ociosa, capaz de afastá-los do
serviço militar. Quando nosso Rei Carlos VIII
se apoderou, quase sem desembainhar a espa-
da, do reino de Nápoles e de boa parte da Tos-
cana, os fidalgos de seu séquito atribuíram a
inesperada facilidade da conquista ao fato de
os príncipes e a nobreza da Itália passarem o
tempo antes nos trabalhos do espírito e no es-
tudo da ciência que em se esforçando por se
tornarem vigorosos e guerreiros.
ENSAIOS —I 79
po
E:
CAPÍTULO XXVI
Da educação das crianças
À Sra. Dianade Foix, Condessa de Gurson
]
Nunca vi pai, por corcunda ou tinhoso que
fosse o filho, deixar de dá-lo por seu. Não,
eritretanto, por estar cego pela afeição e não se
aperceber do defeito, mas tão-somente porque
é seu. Assim eu vejo melhor do que outro não
haver aqui senão devaneios de homem que das
ciências só provou a casca em sua infância e
apenas reteve delas um aspecto geral e infor-
me; um pouco de tudo e até nada de nada, à
francesa. Porque, em suma, sei que há uma
medicina, uma jurisprudência, quatro partes
na matemática, e, grosseiramente, o que visam
elas. Porventura saberei ainda, de um modo
geral, qual seu objetivo e sua utilidade em
nossa vida. Mas, ir além, queimar as pestanás
no estudo de Aristóteles, soberano da doutrina
moderna, ou me obstinar em qualquer ciência,
não o fiz nunca. Nem há arte de que eu possa
sequer expor as mais elementares noções. :E
qualquer menino das classes médias pode
dizer-se mais erudito do que eu que não tenho
capacidade para examiná-lo sobre as primeiras
lições; dessa natureza pelo menos. Se me for-
çam a fazê-lo, vejo-me obrigado, assaz inepta-
mente, a tratar de algum assunto de caráter
geral pelo qual julgo sua inteligência natural,
matéria tão alheia a ele quanto a sua me é
estranha.
Não me enfronhei em nenhum livro sólido
senão nos de Plutarco e Sêneca em cuja obra, a
exemplo das Danaides, busco sem cessar aqui-
lo que logo entrego alhures. Em meus escritos
aíguma coisa fica; em mim quase nada. À his-
tória é mais de minha predileção, ou a poesia
que tenho em particular estima. Pois, como
dizia Cleantes, assim como o som, prensado
no estreito canal de uma trombeta, sai mais
agudo e forte, assim se me afigura que o pensa-
mento, constringido pelas regras da poesia, se
arremete mais vivamente e me impressiona
com maior intensidade.
Quanto as faculdades naturais que aqui
ponho à prova, sinto-as vergar sob a carga.
Minhas concepções e meus pensamentos só
avançam as apalpadelas, cambaleantes, a
escorregar entre tropeços; e por mais longe que
vá, não fico satisfeito; vejo terras ainda além,
desses escritos:
mas turvas e enevoadas e não as posso distin-
guir. E, se me proponho falar à vontade de
tudo o que se apresenta à minha fantasia, não
empregando nisso senão os meus recursos
naturais, acontece-me não raro encontrar por
acaso nos bons autores os mesmos assuntos
que procuro comentar, como vem de me suce-
der com Plutarco acerca da força da imagina-
ção; e ao reconhecer-me diante deles tão fraco
e insignificante, tão pesado e sem vida, tenho
piedade de mim mesmo, e desdém. Todavia
sinto prazer em verificar que minhas opiniões
têm a honra de ir ao encontro das deles, às
vezes, e, embora de longe, sigo-lhes as pega-
das. E também tenho esta vantagem que nem
todos têm, que é conhecer a profunda diferença
que há entre mim e eles. E, no entanto, deixo
os meus pensamentos correrem assim fracos e
pequenos, como os concebi, sem rebocar nem
tapar os buracos que a comparação me reve-
lou. É preciso ter rins sólidos para andar em
companhia dessa gente? **, Os escritores sem
discernimento de nosso tempo, e que em seus
livros sem valor vão semeando trechos inteiros
dos autores antigos?** para se enfeitarem,
fazem o contrário; porque a infinita desseme-
lhança de brilho entre o que lhes é próprio e o
que tomam de empréstimo dá um aspecto tão
pálido, desbotado e feio ao que é deles que per-
dem muito mais do que ganham.
Eis dois sistemas diferentes: Crisipo mistu-
rava aos seus livros não somente trechos mas
também obras inteiras de outros autores, e em
um desses seus trabalhos se acha reproduzida
“in extenso” a “Medeia” de Eurípides; e dizia
Apolodoro que se lhe cortassem o alheio fica-
va o papel em branco. Epicuro, ao contrário,
nos trezentos volumes que deixou nunca pôs
uma só citação.
Aconteceu-me um dia destes dar com um
tinha-me arrastado penosa-
mente até o fim de uma prosa francesa tão
243 Michaut interpreta: é preciso estar seguro de si
para ombrear com essa gente. (N. do T.)
244 Observe-se que Montaigne não se priva de
fazê-lo.
80 MONTAIGNE
exangue, tão descarnada, tão vazia de subs-
tância e de sentido que não era, em verdade,
mais do que palavras em francês, eis que após
tão longa e aborrecida leitura deparei com um
trecho elevado, rico, erguendo-se às nuvens. Se
tivesse achado a subida suave e a rampa fácil,
tudo se desculparia, mas era um precipício tão
abrupto, inesperado, que logo às seis primeiras
palavras verifiquei andar por outro caminho.
Dali descortinei o tremedal de onde vinha, tão
* baixo e profundo que não mais me animei a
descer de novo. Se recheasse com esses ricos
despojos um dos meus trabalhos, com eles ilu-
- minaria por demais a tolice dos outros.
Censurar nos outros os meus próprios erros
não me parece mais inconsegliente do que rele-
var, como faço amiúde, os dos outros em mim.
E preciso apontá-los onde quer que estejam e
não lhes dar asilo. Bem sei com que ousadia eu
próprio tento igualar-me por todos os meios
aos -meus furtos e ir de par com eles, não sem
a terherária esperança de poder enganar os juí-
zes que os examinam; mas não é tanto pelo
proveito que tiro de tais confrontações quanto
pelo que pode resultar de vantajoso para as
idéias propugnadas e de força para pô-las em
evidência. Ademais não procuro lutar corpo a
corpo com esses velhos campeões; luto por
assaltos, ataques repetidos e rápidos. Não me
obstino, não faço senão tocá-los e nunca vou
até onde desejaria ir. Se pudesse medir-me com
eles seria homem de bem, pois só procuro imi-
tá-los no que têm de melhor? * 8. Fazer o que vi
fazerem alguns que se revestem da couraça de
outrem, de forma a nem sequer mostrarem a
ponta dos dedos, e conduzir seu plano —
como se permite aos cientistas em assunto
comum — à sombra das invenções antigas
pilhadas aqui e acolá, procurando-as dissimu-
lar e tornar suas, é desonestidade e covardia
antes de tudo, porquanto não tendo em si nada
que os realce pretendem valer pelo que é.
alheio. Ademais, contentam-se em conquistar
por trapaças a ignorante aprovação do vulgo e
são mal vistos pelos entendidos, que torcem o
nariz a esse trabalho, verdadeiro mosaico de
peças e trechos tomados de empréstimo. Ora, o
louvor destes é que pesa. Por minha parte, evi-
to-o fazer. E se cito os outros é para melhor
dizer de mim. Isto não diz respeito aos centões
que se publicam como centões? * 8. Vi-os muito
engenhosos outrora, entre outros um de Capi-
lupus, sem contar os antigos. São espíritos que
se distinguem nisso como em outras coisas,
como Lípsio na douta e laboriosa composição
de sua “Política”.
245 No texto: — só os ataco pelo seu lado mais:
forte. (N. do T.)
2+*8 Composição poética formada de diferentes ver-
sos de diversos autores.
Como quer que seja e quaisquer que sejam
as inépcias que me passam pela mente, não as
esconderei, como não esconderia meu relato se
em vez de jovem e belo me representasse calvo
e grisalho como o sou, em verdade. Exponho
aqui meus sentimentos e opiniões, dou-os
como os concebo e não como os concebem os
outros; meu único objetivo é analisar a mim
mesmo e o resultado dessa análise pode, ama-
nha, ser bem diferente do de hoje, se novas
experiências me mudarem. Não tenho autori-
dade para impor minha maneira de ver, nem o
desejo, sabendo-me demasiado mal instruído
para instruir os outros.
Alguém, depois de ler o ensaio precedente,
dizia há tempos em minha casa que eu me
devia ter alongado um pouco mais sobre a edu-
cação das crianças. Mas, Senhora, se eu tives-
se alguns conhecimentos do assunto não os
empregaria melhor do que em fazendo presente
deles a esse rapazinho que ameaça sair de vós
(sois generosa demais para não começardes
por um varão), pois tendo tomado tão grande
parte na preparação de vosso casamento,
tenho algum direito de me interessar pela gran-
deza e prosperidade de tudo o que dele provier.
Por outro lado, os antigos privilégios que ten-
des sobre mim, levam-me naturalmente a dese-
jar honras, bens e melhorias em tudo o que vos
diz respeito. Mas na realidade disso só entendo
que a-maior e mais importante dificuldade da
ciência humana parece residir no que concerne
à instrução e à educação da criança.
O mesmo acontece na agricultura: o que
precede à semeadura é certo e fácil; e também
plantar. Mas depois de brotar o que se plantou,
dificeis e variadas são as maneiras de tratá-lo.
Assim os homens: pouco custa semeá-los, mas
. depois de nascidos, educá-los e instruí-los é ta-
refa complexa, trabalhosa e temível. O que se
revela de suas tendências é tão tênue e obscuro
nos primeiros anos, e as promessas tão incer-
tas e enganadoras que se faz dificil assentar |
um juízo seguro.
Vede como Cíimon e Temístocles, e tantos -
outros se desmentiram a si próprios. Os filho-
tes de ursos e de cães mostram sua tendência
natural; os homens, porém, metendo-se desde
logo em hábitos, preconceitos, leis, mudam ou
se mascaram facilmente.
Certamente é muito dificil modificar as
propensões naturais. Daí provém que, em não
se tendo escolhido bem o caminho a seguir,
trabalha-se inutilmente muitas vezes e se preci-
sam anos para instruir as crianças acerca de
coisas em que não chegam a tomar pé. Em
todo caso nessa dificuldade a minha opinião é
que as encaminhemos sempre para as coisas
melhores e mais proveitosas, sem levar dema-
siado.em consideração as vagas indicações e.
ENSAIOS —I 81
prognósticos que tiramos da infância. Platão
em sua República parece dar-lhes importância
excessiva.
É a ciência, Senhora, um grande ornamento
e ferramenta de admirável préstimo, em parti-
cular para as pessoas de vossa condição social.
Não tem em verdade seu melhor emprego nas
mãos humildes e baixas. Orgulha-se muito
mais em prestar Os seus serviços na direção de
uma guerra, no governo de um povo, na ami-
zade de um príncipe, ou de um país estrangeiro
do que em enunciar uma argumentação dialé-
tica, em arrazoar um recurso ou receitar um
punhado "de pílulas. Eis por que vos quero .
expor, sobre o assunto, idéias.contrárias-à opi-
nião vulgar. É tudo o que posso para vos servir
neste caso. E o faço porque estou convencido
de que não esquecereis a ciência na educação
“dos vossos, vós que já lhe saboreástes a doçura
e pertenceis.a uma família de letrados — pois
temos ainda os escritos dos antigos condes de
Foix, de que descendeis, vós e o conde; e vosso.
tio Francisco de Candale continua a produzir
outros que levarão aos séculos futuros o
conhecimento dessa qualidade de vossa fami-
lia.
A tarefa do preceptor que lhe dareis, e da
escolha do qual depende todo o efeito da sua
educação, comporta vários aspectos importan-
tes; mas não toco nas outras partes por não
saber dizer nada que valha a pena. Quanto ao
ponto em que proponho meus conselhos, ele
me acreditará no que quiser. Para um filho de
família que procura as letras, não pelo lucro
(pois um fim tão abjeto é indigno da graça e do
favor das musas e, por outro lado, não depende
de nós) nem tanto pelas vantagens exteriores
que os oferece como pelas suas próprias, e
para se enriquecer e adornar por dentro para
um rapaz que mais desejariamos honesto do
que sábio, seria útil que se escolhesse um guia
com cabeça bem formada mais do que exage-
radamente cheia e que, embora se exigissem as
duas coisas, tivesse melhores costumes e inteli-
gência do que ciência. Mais ainda: que exer-
cesse suas funções de maneira nova.
Não cessam de nos gritar aos ouvidos, como
que por meio de um funil, o que nos querem
ensinar, e o nosso trabalho consiste em repetir.
Gostaria que ele corrigisse este erro, e desde
logo, segundo a inteligência dã criança, come-
çasse a indicar-lhe o caminho, fazendo-lhe pro-
var as coisas, e as escolher e discernir por si
próprio, indicando-lhe por vezes-o caminho
certo ou lho permitindo escolher. Não quero
que fale sozinho e sim que deixe também o dis-
cípulo falar por seu tumo.
Sócrates, e posteriormente Agesilau, obriga-
vam os discípulos a falarem primeiro e somen-
te depois falavam eles próprios. .“Na maior
parte das vezes a autoridade dos que ensinam é
nociva aos que desejam aprender”? * 7. É bom
que faça trotar essa inteligência à sua frente
para lhe apreciar o desenvolvimento e ver até
que ponto deve moderar o próprio andar, pois
em não sabendo regular a nossa marcha tudo
estragamos. É uma das mais árduas tarefas
- que conheço colocar-se a gente no nível da
criança; € é característico de um espírito bem
formado e-forte condescender em tornar suas
as idéias infantis, a fim de melhor guiar a
criança. Anda-se com mais segurança e firme-
za nas subidas do que nas descidas.
Quanto aos que, segundo o costume, encar-
regados de .instruir. vários espíritos natural-
mente diferentes uns dos outros pela inteli-
gência e pelo : temperamento, a todos
ministram igual lição e disciplina, não é de
estranhar que dificilmente encontrem em uma
multidão de crianças somente duas qu três que
tirem do ensino o devido fruto. Que não lhe
peça conta apenas das palavras da lição, mas
também do seu sentido e substância, julgando
do proveito, não pelo testemunho da memória
e sim pelo da vida. É preciso que o obrigue a
expor de mil maneiras e acomodar a outros
tantos assuntos o que aprender, a fim de verifi-
car se o aprendeu e assimilou bem, aferindo
assim o progresso feito segundo os preceitos
pedagógicos de Platão. É indício de azia e
indigestão vomitar a carne tal qual foi engoli-
da. O estômago não faz seu trabalho enquanto
não mudam o aspecto e a forma daquilo que se
lhe deu a digerir.
Nosso espirito, no sistema que condeno, não
procede senão por crença e adstrito às fanta-
sias de outrem, servo e cativo de ensinamentos
estranhos. Tanto nos oprimiram com as anda-
deiras que já não temos movimentos livres.
Vigor e liberdade extinguiram-se em nós:
“nunca se dirigem por si próprios”? “8. Tratei
intimamente em Pisa com um homem bom,
mas tão aristotélico que o mais geral de seus
dogmas é que a pedra de toque e a regrá de
toda inteligência sólida e de toda verdade estão
na doutrina de Aristóteles, fora da qual só há
quimeras e inanidade, pois tudo ele viu e disse.
Essa afirmação, por ter sido interpretada com
certa amplitude e malícia, comprometeu du-
rante muito tempo e muito seriamente seu
autor junto à Inquisição em Roma.
Tudo se submeterá ao exame da criança e
nada se lhe enfiará na cabeça por simples auto-
ridade e crédito. Que nenhum princípio, de
Aristóteles, dos -estóicos ou dos epicuristas,
seja-seu princípio. Apresentem-se-lhe todos em
sua diversidade e que ele escolha se puder. E se
247 Cícero.
248 Sêneca.
82 MONTAIGNE
não o puder fique na dúvida, pois só os loucos
têm certeza absoluta em sua opinião.
“Nao menos que saber, duvidar me
apraz? *ºº Porque se por reflexão própria abra-
çar as opiniões de Xenofonte e Platão, elas dei-
xarão de ser deles e se tornarão suas. Quem
segue outrem não segue coisa nenhuma; nem
nada encontra, mesmo porque não procura.
“Não estamos sob o domínio de um rei; que
cada qual se governe a si próprio”? *º, Que ele
tenha ao menos consciência de que sabe. Não
se trata de aprender os preceitos desses filóso-
fos, e sim de lhes entender o espírito. Que os
esqueça à vontade, mas que os saiba assimilar.
A verdade e a razão são comuns a todos e não
pertencem mais a quem as diz primeiro do que
ao que as diz depois. Não é mais segundo Pla-
tão, do que segundo eu mesmo, que tal coisa se
enuncia, desde que a compreendamos e a veja-
mos da mesma maneira. As abelhas libam flo-
res de toda espécie, mas depois fazem o mél
que é unicamente seu e não do tomilho ou da
manjerona. Da mesma forma os elementos
tirados de outrem, ele os terá de transformar e
misturar para com eles fazer obra própria, isto
é, para forjar sua inteligência. Educação, tra-
balho e estudo não visam senão a formá-la.
Que ponha de lado tudo aquilo de que se
socorreu e mostre apenas o que produziú. Os
ladrões e os que vivem de empréstimos, fazem
alarde de suas casas, de suas compras, não do
que tomam aos outros. Não se conhecem os
ganhos de um magistrado, vêem-se os casa-
mentos e as honrarias que arranjou para os
seus.-Ninguém publica suas receitas e sim suas
despesas. O proveito de nosso estudo está em
nos tornarmos melhores e mais avisados. E a
inteligência, dizia Epicarmo, que vê e ouve; é a
inteligência que tudo aproveita, tudo dispõe,
age, domina e reina. Tudo o mais é cego, surdo
e sem alma. Certamente tornaremos a criança
servil e tímida se não lhe dermos a oportuni-
dade de fazer algo por si. Quem jamais pergun-
tou a seu discípulo que opinião tem da retóri-
ca, da gramática ou de tal ou qual sentença de-
Cicero? Metem-nas em sua memória bem
arranjadinhas, como oráculos que devem ser
repetidos ao pé da letra. Saber de cor não é
saber: é conservar o que se entregou à memó-
ria para guardar. Do que sabemos efetiva-
mente, dispomos sem olhar para o modelo,
sem voltar os olhos para o livro. Triste ciência
a ciência puramente livresca !2 8? Que sirva de
ornamento mas não de fundamento, como
pensa Platão, o qual afirma que a firmeza, a
2*º Dante: Che non men che saper dubbiar
m'aggrada.
280 Sêneca.
281º No texto “suffisance” que parece pejorativo,
mas significava então, como interpreta Michaut,
saber ou ciência. (N. do T)
boa-fé, a sinceridade, são a verdadeira filoso-
fia, e que as outras ciências, com outros fins,
não são mais do que brilho enganoso. Queria
ver se Palnel e Pompeio, esses belos dançari-
nos de nosso tempo, seriam capazes de nos
ensinar suas cabriolas pela vista, sem nos fazer
mudar de lugar, como cs que querem desen-
volver nossa inteligência sem a excitarem; e se
podem ensinar-nos a montar a cavalo, manejar
uma alabarda ou um alaúde, cantar, sem exer-
cício, como nos querem ensinar a bem julgar e
bem falar sem nos exercitar nem a uma coisa
nem a outra. Ora, para exercitar a inteligência,
tudo o que se oferece aos nossos olhos serve
suficientemente de livro: a malícia de um
pajem, a estupidez de um criado, uma con-
versa à mesa, são, como outros tantos, novos
assuntos. ;
Por isso, o comércio dos homens é de evi-
dente utilidade, assim como a visita a países
estrangeiros; não para.nos informar, como o
fazem nossos fidalgos franceses, acerca das
dimensões da Santa Rotonda, ou da riqueza
das calças da Signora Lívia, dizer-nos se a ca-
beça de Nero em uma velha ruína qualquer é
mais comprida ou mais larga do que em certas
medalhas, mas para, observar os costumes e O
espírito dessas nações e para limar e polir
nosso cérebro ao contato dos outros. Gostaria
que fizessem a criança viajar desde pequena e
em primeiro lugar pelos países vizinhos cuja
língua se afasta mais da nossa, pois se não a
habituarmos a ela desde cedo, a ela não se
acostumará. , ;
Admite-se também geralmente que a criança
não deve ser educada junto aos pais. A sua
afeição natural enternece-os e relaxa-os dema-
siado, mesmo aos mais precavidos. Não são
“capazes de lhes castigar as maldades nem de a
verem educada algo severamente como con-
vém, preparando-a para as aventuras da vida.
Não suportariam vê-la chegar do exercício, em
suor e coberta de pó, ou vê-la montada em ca-
valo bravo ou de florete em punho, contra um
hábil esgrimista, ou dar pela primeira vez um
tiro de arcabuz. E no entanto não há outro
caminho: quem quiser fazer do menino um
homem não o deve poupar na juventude nem
deixar de infringir amiúde os preceitos dos mé-
dicos: “que viva ao ar livre e no meio dos peri-
gos”? 82, Não basta fortalecer-lhe a alma, é
preciso também desenvolver-lhe os músculos.
Terá de se esforçar demasiado se, sozinha, lhe
couber dupla tarefa. Sei quanto custa à minha
a companhia de corpo tão frágil, tão sensível e
que nela confia excessivamente. E vejo muitas
vezes, nas minhas leituras, que meus mestres
em seus escritos poem em evidência feitos de
valentia e firmeza de ânimo que decorrem
muito mais da espessura da pele e da dureza
252 Horácio.
ENSAIOS— 1 83
dos ossos. Vi homens, mulheres e crianças de
tal modo conformados que uma bastonada
lhes dói menos do que a mim um piparote; e
não tugem nem mugem quando apanham.
Quando os atletas imitam os filósofos em
paciência, é de se atribuir a coisa mais ao
vigor dos nervos que ao da alma. O hábito do
trabalho leva ao hábito da dor:“O trabalho ca-
leja para a dor”2º3. É preciso acostumar o
jovem à fadiga e à aspereza dos exercícios a
fim de que se prepare para o que comportam
de penoso as dores físicas, a luxação, as cóli-
cas, Os cautérios, e até a prisão e a tortura, que
nestas ele também pode vir a cair nos tempos
que correm, em que tanto atingem os bons
como os maus. Estamos arriscados a elas.
Todos os que combatem as leis ameaçam os
homens de bem com o chicote e a corda. Por
outro lado, a presença dos pais é nociva à
autoridade do preceptor, a qual deve ser sobe-
rana; e o respeito que lhe têm os familiares, o
conhecimento da situação e da influência de
sua família, são a meu ver de muita inconve-
niência na infância.
Nessa escola do comércio dos homens, notei
amiúde um defeito: em vez de procurarmos
tomar conhecimento dos outros, esforçamo-
nos por nos tornarmos conhecidos e mais nos
cansamos em colocar a nossa mercadoria do
que em adquirir outras novas. O silêncio e a
modéstia são qualidades muito apreciáveis na
conversação. Educar-se-á o menino a mos-
trar-se parcimonioso de seu saber, quando O
tiver adquirido; a não se formalizar com toli-
ces e mentiras que se digam em sua presença,:
pois é incrível e impertinente aborrecer-se com
o que não agrada. Que se contente com corri-
gir-se a si próprio e não pareça censurar aos
outros o que deixa de fazer; e que não contra-
rie os usos e costumes: “pode-se ser avisado
sem arrogância”? 5*. Que evite essas atitudes
indelicadas de dono do mundo, e a ambição
pueril de querer parecer mais fino por ser dife-
rente; e não procure (o que não oferece dificul-
dade) mostrar seu valor pelas suas críticas €
originalidades. As licenças poéticas não são
permitidas senão aos grandes poetas; assim
também somente as almas superiores e ilusires
têm o privilégio de se alçarem acima dos cos-
tumes: “se Sócrates e Aristipo nem sempre
respeitaram os usos e costumes de seu país,
não julgue que possa agir do mesmo modo;
grandes e divinos méritos lhes autorizaram tais
licenças”? 5 8. Ensinar-lhe-ão a somente discor-
rer e discutir quando encontrar alguém capaz
de responder, e ainda assim a não empregar
todos os meios de que disponha mas apenas os
253 Cícero.
254 Sêneca.
255 Cicero.
mais apropriados a seu assunto. Que o tornem
exigente na escolha e peneiramento de suas
razões, amigo da exatidão e, portanto, da bre-
vidade. Que lhe ensinem sobretudo a ceder e
sustar a discussão ante a verdade, logo que a
enxergue, surja ela dos argumentos do adver-
sário ou de sua própria reflexão, pois não lhe
cabe desempenhar um papel prescrito e falar
de cátedra; e se defende uma causa é porque a
aprova; e não fará como aqueles que vendem
em moeda sonante a liberdade de poder refletir
e reconhecer o erro: “ Nenhuma necessidade o
obriga a defender o que lhe prescrevem e
ordenam”?2 8 8.
Se seu preceptor for como eu, formar-lhe-á a
vontade para que sirva seu príncipe com leal-
dade, afeição e coragem; mas o desviará de se
prender a ele senãc por dever cívico. Além de
vários outros inconvenientes dessas obrigações
particulares que ferem a nossa liberdade, a opi-
nião de um homem salariado a serviço de
outro ou é menos íntegra e livre, ou tachada de
imprudente e ingrata. Um cortesão não tem
direito nem vontade de pensar senão bem do
senhor que, entre tantos milhares de súditos o
escolhe, atende a suas necessidades e o
engrandece? *? por suas próprias mãos. Os
favores € o interesse corrompem-lhe, não sem
razão, a franqueza. E o deslumbram. Por isso é
a linguagem dessas pessoas em geral diferente
das outras linguagens, e pouco digna de fé.
Que a consciência e a virtude brilhem em
suas palavras e que só a razão tenha por guia.
Ensinar-lhe-ão a compreender que confessar o
erro que descobriu em seu raciocínio, ainda
que ninguém o perceba, é prova de discerni-
mento e sinceridade, qualidades principais a
que deve aspirar. Teimar e contestar obstina-
damente são defeitos peculiares às almas vul-
gares, ao passo que voltar atrás, corrigir-se,
abandonar sua opinião errada no ardor da
discussão, são qualidades raras, das almas for-
tes e dos espíritos filosóficos.
Ensinar-lhe-ão que em sociedade deve pres-
tar atenção a tudo, pois verifico que os primei-
ros lugares são muitas vezes ocupados pelos
menos capazes e o bafejo da sorte quase nunca
atinge os competentes. Tenho observado que,
não rarc, enquanto conversam à cabeceira da
mesa acerca da beleza de uma tapeçaria ou do
sabor do malvasia, bons ditos se perdem do
outro lado. Terá de sondar o valor de cada um:
boiadeiro, pedreiro ou viandante. Cada qual
em seu domínio pode revelar-nos coisas inte-
ressantes e tudo é útil para nosso governo. As
28:68 “Td.
257 “fever”, não no sentido de educar como pen-
saram alguns comentaristas, dado o tema do capítu-
lo, e sim de elevar na posição social. (N. do T.)
84 MONTAIGNE
próprias.tolices e fraquezas dos outros nos ins-
truem. Observando as graças e maneiras de
todos, será levado a imitar as boas e desprezar
as más.
Que lhe incutam no espírito uma honesta
curiosidade por todas as coisas; que registre
tudo o que haja de singular à sua volta: um
edifício, uma fonte, um homem, um antigo
campo de batalha ou o lugar por onde passa-
ram César ou Carlos Magno:“Qualo solo que
enrija com o frio, qual o que se queima ao sol;
qual o vento marítimo que conduz à Itá-
lia”2 58. Que se instrua acerca dos costumes,
dos recursos e alianças de tal ou qual principe.
É agradável aprender essas coisas, e muito útil
sabê-las.
Nessa prática: dos homens, entendo que se
inclua também, como 'extremamente impor-
tante, a frequentação daqueles que só vivem na
memória dos livros. Pela história, entrará na
intimidade dos grandes homens dos mais belos
séculos. Pode ser estudo vão, mas pode ser
igualmente estudo de fruto inestimável, e diz
Platão que era o único estudo que admitiam os
lacedemônios. Que proveito não tirarã neste
assunto da leitura das vidas de Plutarco? Mas
que-o guia desse menino se lembre do objetivo
de sua missão e que procure gravar menos no
seu discípulo a data da destruição de Cartago
que os costumes de Aníbal ou Cipião; e menos
o lugar em que morreu Marcelo do que o fato
de aí ter morrido porque faltou a seu dever.
Que lhe ensine a apreciar os fatos mais do que
os registrar. E a meu ver a matéria a que o
espírito se aplica de mais diferentes maneiras.
Li em Tito Lívio cem coisas que outros não
perceberam, e Plutarco leu outras cem que eu
não vi e talvez diversas das que concebeu o
autor. Uns estudam a história como um
gramático? $º, outros como um filósofo que
analisa e põe em evidência as partes mais difi-
ceis de penetrar em nossa natureza. Há em
Plutarco muitos trechos, e extensos, dignos de
serem lidos, pois o considero mestre na maté-
ria. Mas há mil assuntos em que apenas tocou
de leve e simplesmente aponta onde devemos
ir, se nos apetecer, contentando-se algumas
vezes em fazer uma alusão no texto palpitante
de uma narrativa. É preciso tirá-la e realçá-la.
Assim o que nos diz dos habitantes da Ásia,
que sempre serviram a um só senhor por não
saberem pronunciar a palavra “não”, foi sem
dúvida o que inspirou a La Boétie sua obra “A
Servidão Voluntária”. Mesmo quando cita
apenas uma palavra, um ato sem importância
da vida de alguém, valem suas reflexões um
258 Propércio.
259 Decorando.
tratado. É pena que as pessoas inteligentes
gostem tanto da brevidade; por certo com isso
se valoriza sua reputação, mas nós perdemos,
não aproveitamos tanto. Plutarco prefere que
em lugar do saber lhe louvem o discernimento;
gosta mais de nos deixar desejosos do que
saciados. Sabia que mesmo quando tratamos:
de assuntos admiráveis em si podemos falar
demais e que Alexandridas censurou justa-
mente alguém que dava aos éforos conselhos
bons mas demasiado longos: “ Ó estrangeiro,
dizes o que é preciso, mas não como é preci-
so”. Os que são magros de corpo, engrossam-
no com enchimentos; os que têm assunto frá-
gil, incham-no de palavras.
Da freqientação da sociedade tira-se mara-
vilhosa clarividência para julgar os homens.
Vivemos todos apertados, dentro de nós mes-
mos, e não vemos um palmo diante do nariz.
Perguntaram a Sócrates de onde era e ele não
- respondeu: de Atenas, mas: do mundo. Para
ele, cuja inteligência mais vasta e aberta que a
de outrem abarcava o universo e dele fazia sua
cidade, o objeto de sua afeição era o gênero
humano; e não agia como nós que apenas
“olhamos em torno de nós. Quando a vinha se -
queima sob a geada em minha aldeia, o cura
imagina que a cólera divina ameaça a humani-
dade e crê que já andam os canibais mortos de
sede. Ao ver nossas guerras civis, quem não
grita que toda esta máquina se subverte, que o
dia do juizo está iminente; sem refletir que já
se viram coisas piores e que, no entanto, o
resto do: mundo continua a divertir-se? Eu, em
sabendo que ponto alcançam neste momento a
licença e a impunidade, admiro-me de as ver
tão suaves e brandas. Quem sente sobre a ca-
beça cair chuva de pedra, logo supõe que todo
O hemisfério sofre tormenta e tempestade. Pois
não dizia o camponês saboiano que “se esse
tolo. rei de França tivesse sabido governar o
barco era homem para chegar a mordomo do
duque”? Sua imaginação não bastava para que
concebesse grandeza mais elevada que a de seu
senhor. Todos caímos nesse mesmo erro, de
consegiências grandes e perigosas. Só mede as
coisas segundo sua verdadeira grandeza, quem
se representa, como num quadro, essa grande
imagem da madre natureza na plenitude de sua
majestade; quem lê em sua face uma variedade
infinita de formas em. constante transforma-
ção; quem nela vê, não sua ínfima pessoa mas,
um reino inteiro..ocupar o espaço de um risco
de alfinete.
Este mundo tão grande, que alguns ampliam
ainda, como as espécies de um gênero, é o
espelho em que nos devemos mirar para nos
conhecermos de maneira exata. Em suma,
quero que seja esse o livro do nosso aluno. A
ENSAIOS — IT 85
infinita diversidade de costumes, seitas, juízos,
opiniões, leis ensina-nos a apreciar sadiamente
os nossos, a reconhecer suas imperfeições e
fraquezas naturais, o que já não é pouco. Tan-
tas revoluções nos diferentes países, tantas
mudanças nos destinos públicos, induzem-nos
a não encarar como extraordinários os nossos.
Tantos nomes, tantas vitórias e conquistas
enterradas no esquecimento tornam ridícula a
esperança de eternizar o nosso nome pela cap-
tura de dez archeiros e de uma piolheira? ºº
conhecida tão-somente pelos que dela se
assenhorearam. O fausto orgulhoso de tantas
cerimônias estrangeiras, a exagerada majes-
tade de tantas cortes e grandezas fazem-nos cé-
ticos e permitem à nossa vista sustentar o bri-
lho das nossas sem nos deslumbrarmos.
Tantos milhares de homens que nos precede-
ram no túmulo encorajam-nos a não temer ir
ao encontro de tão boa companhia no outro
mundo. E assim o resto.
Nossa vida, dizia Pitágoras, assemelha-se à
grande e populosa assembléia dos jogos olim-
picos. Uns se exercitam para conquistar a gló-
ria; outros levam sua mercadoria para vender
e ganhar. Outros, e não são os piores, nada
querem senão ver o porquê e o como de cada
coisa e ser espectadores da vida dos outros
para assim julgarem e regularem a sua. Aos
exemplos se poderão sempre adaptar as mais
proveitosas reflexões da filosofia, em cujas re-
“gras devem inspirar-se as ações humanas.
Dirão ao jovem: “o que se deve desejar, que
utilidade tem o dinheiro dificil de ganhar, o
que exigem de nós a pátria e a família, o que
quis Deus fosse o homem sobre a terra, que
lugar lhe assinalou na sociedade, o que somos
e para que nascemos”? 81, o que significam
saber e ignorar (objetivo de nosso estudo), o
que são valentia, moderação, justiça, servidão
e sujeição, licença e liberdade, como se reco-
nhece a verdadeira e duradoura alegria, até
que ponto cumpre temer a morte, a dor e a ver-
gonha, “e como evitar e suportar as afli-
ções”2 82, que móveis nos impelem e a causa
de tantos impulsos diferentes em nós. Porque
me parece que Os primeiros raciocínios de que
lhe devem embeber o espírito são os que deve-
rão regular-nos os costumes e Os juízos, Os que
lhe ensinarão a conhecer-se, a saber viver e
morrer bem.
Entre as artes liberais comecemos pela que
nos faz livres. Todas contribuem em verdade
para a nossa instrução e a satisfação de nossas
2680 No texto “pouillier”” — piolheira, ninho de pio-
lhos. No caso, lugar ou fortificação de nenhum inte-
resse ou importância. (N. do T.)
261 Pérsio.
262 Virgílio.
necessidades, como aliás todas as coisas em
certa medida. Mas ela? 8º passa antes das
demais, porquanto influi mais diretamente em
nossa vida e ajuda-nos a orientá-la.
Se soubéssemos restringir as necessidades
de nossa existência a justos e naturais limites,
veriamos que a maior parte das ciências em
uso é sem utilidade para nós. E mesmo nas que
nos são proveitosas existem pontos supérfluos
ou obscuros que fora melhor abandonarmos,
atendo-nos, como queria Sócrates, ao que
comportam de útil: “Ousa ser avisado; quem
adia a hora de viver é como o camponês que
espera que o rio acabe de correr; mas ele
passa, e passará rolando eternamente? º 4?
E de um grande simplismo ensinar aos
meninos “o sentido dos Peixes, do Leão
resplendente, ou Capricórnio que se banha nas
águas da Hespéria”2 85, a ciência dos astros e
os movimentos da oitava esfera antes de lhes
abrir os olhos para os próprios sentidos: “que
tenho a ver com a Plêiade, e a estrela
boleira?? 8 8”
Anaximenes escrevia a Pitágoras: “Como
posso preocupar-me com o segredo das estre-
las, quando tenho sempre presente a meus
olhos a morte ou a escravidão?” (Preparavam
então os reis da Pérsia a guerra contra a sua
pátcia.) Cada um deve dizer a mesma coisa:
“assaltado pela ambição, a avareza, a temeri-
dade, a superstição, e com tantos outros inimi-
gos dentro de mim, como hei de pensar no
movimento dos mundos?”
Depois que lhe tiverem dito o que convém
para o tornar mais avisado e melhor, falar-
lhe-ão da Lógica, da Física, da Geometria, da
Retórica; e como. já terá a inteligência forma-
da, logo aprenderá a ciência que escolher. O
ensino deverá ser ministrado ora por conver-
sas, ora por leituras; ora O preceptor lhe apre-
sentará o próprio texto do autor mais ade-
quado ao fim da educação, ora lhe fornecerá
somente o miolo, a substância. E se, de si
mesmo, esse preceptor não for tão familiar
com os livros para neles descobrir o material
necessário à sua missão, poderão juntar-lhe
algum letrado que, no momento certo, lhe for-
neça os alimentos precisos que depois lhe
caberá distribuir ao seu aluno. O ensino assim
dado serã mais fácil e natural do que com o
método preconizado por Gaza. Este enuncia
preceitos em excesso, prenhes de dificuldades e
pouco compreensíveis; emprega palavras so-
noras e vazias que não se entendem e não sus-
citam nenhuma idéia; no nosso método a alma
2683 Montaigne, como se induz do trecho que prece-
de imediatamente, refere-se à filosofia.
284 Horácio.
265 Propércio.
286 Anacreonte.
86 MONTAIGNE |
acha a que se apegar, com que se alimentar. O
que dele tirar o jovem será maior e mais
depressa amadurecerá.
É estranho que em nosso tempo a filosofia
não seja, até para gente inteligente, mais do
que um nome vão e fantástico, sem utilidade
nem valor, na teoria como na prática. Creio
que isso se deve aos raciocínios capciosos e
embrulhados com que lhe atopetaram o cami-
nho. Faz-se muito mal em a pintar como
inacessível aos jovens, e em lhe emprestar uma
fisionomia severa, carrancuda e temível. Quem
lhe pôs tal máscara falsa, lívida, hedionda?
Pois não há nada mais alegre, mais vivo e diria
quase mais divertido. Tem ar de festa e folgue-
do. Não habita onde haja caras tristes e
enrugadas.
Demétrio, o gramático, encontrando um
grupo de filósofos sentados junto ao templo de
Delfos, disse-lhes: “Ou muito me engano, ou
discorreis de assunto elevado, tanto vos mos-
trais calmos e alegres.” Ao que lhe respondeu
Heracleu de Mégara: “São os que sabem se o
verbo iançar? 8.7 se escreve com s ou cem ç, €
deblateram acerca da etimologia dos superia-
tivos pior e melhor que franzem a testa em se
entretendo de sua ciência predileta. Os estudos
filosóficos alegram e satisfazem quem os
empreende, e não o entristecem nem o põem
carrancudo: “pelo rosto que os reflete igual-
mente percebem-se os prazeres e os tormen-
tos'2 88 A alma em que se aloja, a filosofia
faz com que o corpo participe de sua saúde.
Leva ao exterior o brilho de seu repouso e de
sua serenidade; modela o aspecto do corpo e o
reveste de graciosa segurança, dá-lhe um
aspecto ativo e alegre, um ar de satisfação e
bonomia. O mais visível sinal de sabedoria é
uma alegria constante. O sábio é sempre sere-
no. São o Barroco e o Baralipton? *º que tor-
nam seus adeptos sujos e ressequidos; não a
filosofia, pois mal a conhecem de oitiva. Mas o
ofício da filosofia é serenar as tempestades da
alma e ensinar a rir da fome e da febre, não '
mediante um epiciclo imaginário qualquer,
mas por meio de razões naturais e sólidas.
Tem por fim a virtude, a qual não está, como
quer a Escolástica, colocada no cimo de algum
monte alcantilado, abrupto e inacessível. Os
que dela se aproximaram afirmam-na ao
contrário, alojada em bela planície, fértil e flo-
rida, de onde se descortinam todas as coisas.
Pode-se ir até lá em se conhecendo o local, por
caminhos ensombrados, cobertos de relva e
267 Em grego no texto. Não se traduziu literal-
mente, optou-se por uma equivalência. (N. do T.)
268 Juvenal.
269 Yocábulos que então designavam duas das
dezenove formas de silogismo.
suavemente floridos, sem esforço e por uma
subida fácil e lisa como a da 'abóbada celeste.
Por não terem fregientado essa virtude
suprema, bela, triunfante, amorosa, tão deli-
ciosa quanto corajosa, inimiga declarada e
inconciliável do mau humor, do desprazer, do
temor e do constrangimento, e que tem por
guia a natureza e por companheiros a felici-
dade e a volúpia, foi por não a frequentarem
que, na sua ignorância, a julgaram tola, triste,
disputadora, aborrecida, ameaçadora e a colo-
caram sobre um rochedo afastado, dentro do
mato, a fim de espantar as gentes como um
fantasma.
Meu preceptor, que sabe dever criar no espi-
rito de seu discípulo mais afeto do que respeito
pela virtude, dir-ihe-á que os poetas seguem as
opiniões vulgares e tornar-lhe-à evidente que
os deuses puseram maiores obstáculos no
caminho de Vênus que no de Palas. E ao des-
pertar para o amor, apresentar-lhe-á, para que
escolha amante, Bradamante ou Angélica,
aquela, beleza natural, ativa, generosa, vigo-
rosa mas não machona; esta, beleza mole, afe-
tada, delicada, artificial. Uma fantasiada de
rapaz, com brilhante capacete à cabeça; outra
vestida de rapariga, penteado alto guarnecido
de pérolas. E verá se o amor confirma a educa-
ção viril, em sendo a escolha contrária à do
efeminado pastor da Frígia. E lhe dirá também
que a recompensa € a grandeza da verdadeira
virtude estão na facilidade, utilidade e prazer
do seu exercício; que ela apresenta tão poucas
dificuldades que nela são igualmente fortes as
crianças e os homens, os simples e sutis; e faz-
se pela moderação e não pela força. Sócrates,
seu adepto favorito, propositadamente recu-
sou-se a impô-la pela força, e passou a contar
com a simplicidade e a brandura para fazê-la
vencedora. É a fonte dos prazeres humanos.
Tornando-os legítimos, torna-os seguros e
belos; moderando-os, conserva-lhes a disposi-
ção; cortando os*que recusa aguça-nos para os
que nos permite; e deixa-nos com largueza
todos os prazeres naturais, até à saciedade,
maternalmente, mas não até o cansaço, pois a
moderação, que faz parar o bebedor antes da
embriaguez, o comedor antes da indigestão e o
lascivo antes do esgotamento, nunca foi inimi-
ga do prazer. Se não tem a fortuna vulgar, dis-
pensa-a e fabrica outra inteiramente sua nem
flutuante nem rodante? 7º. Sabe ser rica, pode-
rosa e sábia e deitar-se em colchões almiscara-
dos. Ama a vida, a beleza, a glória, a saúde.
Mas sua função própria é saber usar esses bens
moderadamente e perdê-los sem fraquejar, fun-
270 Alusão à imagem da Fortuna, sobre uma roda
alada.
ENSAIOS — I “587
ção bem mais nobre do que penosa, sem a qual
decorre a existência fora das regras da natu-
reza na agitação e na confusão. E então pode-
sé falar de escolhos, sarças e monstros com
que depara quem não a conhece.
Se o aluno for de tão estranho tempera-
mento que prefira ouvir histórias à narrativa
de uma bela viagem ou à de sábios propósitos;
que, ao som do tambor que excita o jovem
entusiasmo de seus camaradas, se volte para
quem o convida a ver histriões; que não ache
mais agradável e reconfortante regressar, em-
poeirado e vitorioso de um combate do que
vencedor na péla ou na dança, não vejo outro
remédio senão que o preceptcr o estrangule
logo, em não havendo testemunhas, ou que o
coloque como pasteleiro — ainda que seja
filho de duque — em qualquer das nossas boas
cidades, pois ensina Platão que é preciso colo-
car as crianças, não de acordo com as posses
dos pais mas segundo as faculdades de seu
próprio espírito.
Posto que a filosofia é a ciência que nos en-
sina a viver e que a infância como as outras
idades dela pode tirar ensinamentos, por que
motivo não lha comunicaremos? “Enquanto
úmida, a argila é mole; apressemo-nos, e que a
roda ágil em girando a modele? 71.”
Ensinam-nos a viver quando passada a vida.
Centenas de estudantes contraem doenças
venéreas antes de chegarem a aprender o que
Aristóteles diz da temperança. Cícero afir-
mava que, embora vivesse duas vidas de
homem, não gastaria tempo em ler os poetas lí-
ricos; os disputadores de nossos dias são
muito mais desoladoramente inúteis. Nosso
jovem tem mais pressa: não deve ficar entregue
aos pedagogos senão até aos quinze ou dezes-
seis anos; o resto é da ação. Empregue-se, pois,
esse tempo que é curto no ensino do necessá-
rio. Deixem-se de lado todas as árduas sutile-
zas da dialética, ilusórias e sem efeito sobre a
vida; tomem-se os mais singelos preceitos da
filosofia, escolham-nos com cuidado e tratem-
nos bem: são mais simples de entender que um
conto de Boccaccio. Uma criança os aprende,
ao sair da ama, mais facilmente do que a ler e
escrever. A filosofia tem regras para os recêm-
nascidos como para os decrépitos. ;
Estou de acordo com Plutarco quando diz
que Aristóteles ocupou menos seu aluno???
com a arte do silogismo ou com os princípios
da geometria do que com bons preceitos sobre
a valentia, a coragem, a magnanimidade, a
moderação e o destemor. E com este cabedal o
enviou, ainda moço, à conquista do império do
mundo, apoiado apenas em trinta mil infantes,
quatro mil cavalos e quarenta e dois mil escu-
271 Pérsio.
272 Alexandre, o Grande.
dos. As outras artes e ciências, acrescenta Plu-
tarco, honrava-as Alexandre e reconhecia O
que nelas havia de bom e agradável, mas o
pouco prazer que delas tirava não nos permite
crer que as quisesse exercer.
“Buscai nela? 72, jovens e velhos, um obje-
tivo para vosso espírito; um viático para quan-
do tiverdes encanecido? 7 *.”
E o que diz Epicuro no início de sua carta a
Meniceus: “Por moço que seja, que ninguém se
recuse a praticar a filosofia, e que os velhos
não se cansem dela.” Quem procede de outro
modo parece dizer que ainda não é tempo de
viver feliz, ou que já o não é. Mas para tais
ensinamentos não quero que prendam o jovem:
não quero que o abandonem ao mau humor e à
cólera de um mestre-escola furioso; não quero
corromper-lhe o espírito torturando-o com tra-
balho, como o fazem a outros, catorze a quin-
ze horas por dia, a exemplo de um carregador.
Não acharia bom tampouco se, inclinado por
temperamento para a solidão e a melancolia, e
manifestando demasiado amor aos livros, lhe
incentivassem esse gosto; isso os torna inaptos
para a vida da sociedade e os afasta de melho-
res ocupações. Quantos homens de meu tempo
tenho visto embrutecidos por uma temerária
avidez de ciência!
Carnéades andava tão obcecado por ela que
mal tinha tempo para cortar o cabelo e as
unhas. Não quero estragar suas generosas
disposições com os processos bárbaros de
outrem. Dizia-se outrora que a sabedoria fran-
cesa começava cedo mas durava pouco tempo.
Convenhamos em que ainda agora não hã
nada mais interessante do que as crianças fran-
cesas; mas, em geral, não realizam o que delas
se espera e depois de grandes não revelam
excelência nenhuma. Ouvi dizer por pessoas
sensatas que é porque as mandamos para os
colégios, que temos em tão grande número; e
que assim se atoleimam.
Para nosso jovem, um gabinete, um jardim,
a mesa e a cama, a manhã e a tarde, todas as
horas e lugares lhe servirão; em toda parte
estudará pois a filosofia, que será sua principal
matéria de estudo; como formadora da inteli-
gência e dos costumes, tem o previlégio de se
misturar a tudo.
Pedindo-se a Isócrates, o orador, que falasse
de sua arte em um banquete, assim se houve
com aplauso geral: “Não é hora de fazer o que
sei, e não sei fazer o que cumpre se faça no
momento.” Com efeito, discorrer ou divagar
acerca de temas de retórica em uma assem-
bléia que se reúne para rir e comer seria mistu-
ra de má inspiração. E o mesmo se dirá de
qualquer arte ou ciência. Só a filosofia, na
273 A filosofia.
274 Pérsio.
88 - MONTAIGNE
parte em que trata do homem, seus deveres e
obrigações; não deveria ser recusada nem nos
festins nem nos jogos como assunto de conver-
sação. E essa é a opinião de muitos sábios.
Convidou-a Platão ao seu Banquete e vemos
como ela entretém os convivas de maneira
suave, adequada ao tempo e ao lugar, embora
suas teses figurem entre as mais salutares e de
maior alcance desse filósofo: “igualmente
útil aos pobres e aos ricos; desprezá-la preju-
dica igualmente jovens e velhos”2 7 5,
É provável que nessas condições nosso
Jovem ficará menos inútil do que os outros.
Mas como os passos que damos quando pas-
seamos numa galeria não nos cansam tanto
quanto em um caminho determinado, ainda
que sejam três vezes mais, assim também nos-
sas lições, dadas ao acaso do momento e do
lugar, e de entremeio com nossas ações, decor-
rerão sem que se sintam. Os exercícios e até os
Jogos, as corridas, a luta, a música, a dança, a
caça, a equitação, a esgrima constituirão boa
parte do estudo. Quero que a delicadeza, a
civilidade, as boas maneiras se modelem ao
mesmo tempo que o espírito, pois não é uma
alma somente que se educa, nem um corpo, é
um homem: cabe não separar as duas parcelas
do todo. Como diz Platão, é preciso não edu-
car uma sem a outra e sim conduzi-las de par,
como uma parelha de cavalos atrelados ao
mesmo carro. E parece até dar mais tempo e
cuidado aos exercícios do corpo, achando que
o espírito se exercita ao mesmo tempo, e não
ao contrário.
Seja como for, a essa educação deve proce-:
der-se com firmeza e brandura e não como é de
praxe, pois, como o fazem atualmente, em
lugar de interessarem os jovens nas letras,
desgostam-nos pela tolice e a crueldade. Dei-
xem-se de lado a violência e a força: nada a
meu ver abastarda mais e mais embrutece uma
natureza generosa. Se quereis que o jovem
tema a vergonha e o castigo não o calejeis nele.
Habituai-o ao suor e ao frio, ao vento, ao sol,
aos acasos que precisa desprezar; tirai-lhe a
moleza e o requinte no vestir, no dormir, no:
comer e no beber: acostumai-o a tudo. Que
não seja rapaz bonito e efeminado, mas sadio €
vigoroso. Menino, homem velho, sempre tive a
mesma maneira de pensar a esse respeito. A
disciplina rigorosa da maior parte de .nossos
colégios sempre me desagradou. Menos preju-
diciais seriam talvez se a inclinassem para a
indulgência. São verdadeiras prisões para cati-
veiro da juventude, e a tornam cínica e debo-
chada antes de o ser. Ide ver esses colégios nas
horas de estudo: só ouvireis gritos de crianças
martirizadas e de mestres furibundos. Linda
275 Horácio.
maneira de acordar o interesse pelas lições
nessas almas tenras e tímidas, essa de minis-
trá-las carrancudo e de chicote nas mãos! Que
método iníquo e pernicioso! E observa muito
bem Quintiliano que uma autoridade que se
exerce de modo tão tirânico comporta as mais
nefastas consequências, em particular pelos
castigos. Como seriam melhores as classes se
juncadas de flores e folhas e não de varas
sanguinolentas! Gostaria que fossem atapeta-
das de imagens da alegria, do júbilo, de Flora
e das Graças, como mandou fazer em sua es-
cola o filósofo Espeusipo. Onde esteja O pro-
veito esteja também a diversão. Há que pôr
açúcar nos alimentos úteis à criança e fel nos
nocivos. É admirável como Platão se mostra
atento em suas “Leis” à alegria e aos diverti-
mentos da juventude da cidade e como se atar-
da na recomendação das corridas, dos jogos,
das canções, dos saltos e das danças cujo
patrocínio e orientação se confiaram aos pró-
prios deuses: Apolo, as Musas, Minerva. Alon-
ga-se em mil preceitos sobre os ginásios,
enquanto pouco discorre acerca das letras e
parece não recomendar particularmente a poe-
sia, a não ser musicada.
É preciso evitar, como inimigas da socieda-
de, todas -as particularidades e originalidades
de nossos usos é costumes. Quem não se
espantaria com a compleição de Demofonte,
mordomo de Alexandre, que suava a.sombra e
tiritava ao sol? Já vi quem fugisse do cheiro de
maçã mais do que de tiros de arcabuz; e quem
sé amedrontasse com um rato ou vomitasse à
vista de nata; e quem ao ver revolverem um
colchão de penas sentia náuseas. E Germânico
não podia suportar nem a vista nem o canto
dos galos. Tais fenômenos podem provir de al-
guma predisposição natural que ignoramos,
mas a meu ver obviariamos a esses males em
os atacando desde cedo. Assim o consegui em
mim pela educação, com dificuldades certo,
mas atualmente, à exceção da cerveja, meu
paladar acomoda-se indiferentemente a tudo o
que se come e bebe. Enquanto o corpo é ainda
maleável, cumpre habituá-lo a toda espécie de
usos e costumes. E desde que permaneça se-
nhor de seus apetites e de sua vontade, não se
hesite em tornar o jovem capaz de fregiientar
qualquer sociedade, no estrangeiro como jem
sua terra; e que mesmo, se necessário, saiba
suportar desregramentos e excessos. Que sua
conduta se acomode aos costumes e que possa
fazer todas as coisas mas só goste de fazer as
boas. Os próprios filósofos não aprovam
Calístenes que caiu em desgraça por não ter
querido acompanhar seu senhor, Alexandre, o
Grande, na bebida. O nosso jovem deverá rir e
brincar e dar-se a excessos com o seu principe;
ENSAIOS —I 89
quero que até na devassidão suplante seus
companheiros e que não faça o mal por falta
de vontade e não por carência de forças ou
informação, pois “é muito diferente não querer
fazer o mal e não saber fazê-lo”? 7 8. Foi pen-
sando em prestar homenagem a um senhor (o
mais afastado, em França, desses excessos)
que perguntei em certa reunião quantas vezes
se embriagara na Alemanha por conveniência
dos negócios do rei. Tomou nesse sentido a
pergunta e respondeu que o fizera três vezes e
as contou. Conheço quem se tenha visto emba-
raçado no trato dos negócios com esse país,
por não ter igual qualidade. Muitas vezes notei
com grande admiração a maravilhosa natureza
de Alcebiades, a qual lhe permitia adaptar-se
facilmente a tudo, sem prejuízo da saúde, ora
ultrapassando a suntuosidade dos persas, ora a
austeridade e a frugalidade dos lacedemônios;
“tão puritano em Esparta como licencioso em
Jônia. “Aristipo soube satisfazer-se com todas
as situações e fortunas”? 7 7.
Assim desejaria formar o nosso jovem:
“Admiraria quem não se envergonhe de seus
trapos nem se espante com a riqueza e desem-
penhe ambos os papéis de bom grado”? 72.
Eis as minhas lições. Aproveita-as melhor
quem as pratica do que quem apenas as sabe.
Para aquele, ver é ouvir e ouvir é ver. “Graças
a Deus”, diz alguém em Platão, “filosofar não
é nem muito aprender nem tratar das artes.”
“Foi muito mais nos costumes do que nos
escritos que os filósofos aprenderam a maior
de todas as artes: a de bem viver”? 7º.
Leão, príncipe dos fliásios, perguntou a
Heraclides do Ponto, que ciência ou arte
professava, ao que ele respondeu: não conheço
arte nem ciência, sou filósofo. Censuraram
Diógenes pelo fato de que se metesse a filoso-
far, ignorante como era; e ele respondeu: mais
uma razão para isso. E pediu-lhe Hegésias que
lhe lesse um livro. “Sois divertido”, disse o
filósofo, “quando tendes figos por escolher,
escolheis os verdadeiros, os naturais e não os
pintados; por que não escolheis igualmente
para discutirdes os assuntos reais, da natureza,
e não os escritos?” e '
Estas lições, o jovem as traduzirá em ações,
e as aplicará aos atos de sua vida. Ver-se-á
assim se é prudente em seus cometimentos, se é
bondoso e justo no seu proceder; se é sensato e
gracioso no seu falar; se tem ânimo na doença,
modéstia nos jogos, moderação nos prazeres, O
gosto fácil no que concerne aos manjares, seja
carne ou peixe, e no que respeite às bebidas,
276 Sêneca.
277 Horácio.
278 Td.
279 Cicero. E
seja vinho ou água; “se seus conhecimentos lhe
servem, não para mostrar o que sabe mas para
ordenar seus hábitos; se se domina e obedece a
si próprio”28º. O verdadeiro espelho de nosso
pensamento é a maneira de vivermos.
Zeuxidamo, a alguém que lhe perguntava
por que os lacedemônios não punham por
escrito o regulamento da valentia e o davam a
ler aos jovens, respondeu que era porque que-
riam antes acostumá-los aos feitos do que às
palavras. ;
Ao fim de quinze a dezesseis anos compa-
re-se o nosso jovem a um desses latinistas de
colégio que terá levado o mesmo tempo a
aprender a falar! O mundo é apenas tagarelice
e nunca vi homem que não dissesse antes mais
do que menos do que devia. E nisto gastamos
metade da vida. Obrigam-nos durante quatro
ou cinco anos a aprender palavras e a juntá-las
em frases, e outros tantos a compor um longo
discurso em quatro ou cinco partes; e mais
cinco pelo menos a aprender a misturâ-las e a
combiná-las de maneira rápida e mais ou
menos sutil. Deixe-se isso a quem o faz por
profissão. 5 k Ma!
Indo um dia a Orleães encontrei na planície,
aquém de Clery, dois professores de colégio
que se dirigiam a Bordéus e marchavam a
cefca de cinquenta passos um do outro. Pouco
atrás deles percebi uma comitiva, à frente da
qual ia o falecido Conde de La Rochefoucauld.'
Um de meus criados indagou'do primeiro pro-
fessor quem era o fidalgo que vinha atrás. O
. professor, que não vira a comitiva e pensava
aludissem a seu companheiro, deu-nos esta res-
posta divertida: “Não é um fidalgo, é um
gramático; quanto a mim, sou um logicista.”
Nós que não queremos formar nem um gramá-
tico, nem um logicista, mas um fidalgo, deixe-
mo-lo a seus lazeres; temos o que fazer
alhures.
Se nosso jovem estiver bem provido de
conhecimentos reais, não lhe faltarão palavras;
e virão por mal se não quiserem vir por bem.
Há quem se desculpe por não poder exprimir
as coisas belas que pretende ter na cabeça e
lastime sua falta de eloquência para as revelar:
é mistificação. Quereis saber o que isso signifi-
ca, a meu ver? É que entrevê algumas vagas
concepções que não tomaram corpo, que não
pode destrinçar, e esclarecer, e por conseguinte
expressar. Não se compreende a si próprio.
Contemplai-o a gaguejar, incapaz de parir, ve-
reis logo que sua dificuldade não está no parto
mas na concepção, e anda ainda a lamber um
embrião. Acredito, e Sócrates o diz formal-
mente, que quem tem no espírito uma idéia
clara e precisa sempre a pode exprimir, quer de
280 Cícero.
90 MONTAIGNE .
um modo quer de outro, por mímica até, se fôr
mudo: “Não falham as palavras para o que se
concebe bem”281. Ora, como diz um outro, de
modo igualmente poético embora em prosa:
“Quando as coisas se assenhoram do espírito
as palavras ocorrem”282. ou ainda:“As coisas
atraem as palavras”?28º. Pode ignorar ablati-
vos, conjuntivos, substantivos e gramáticas,
quem é dono de sua idéia; é o que se verifica
com um lacaio qualquer ou rapariga do “Petit
Pont”, que são capazes de nos entreter do que
quisermos sem se desviarem muito mais das
regras da língua que um bacharel de França..
Não sabem retórica nem começam por captar
a benevolência do leitor ingênuo e nem se
preocupam com isso. Em verdade, todos esses
belos adornos se apagam ante o brilho de uma
verdade simples e natural. Esses requebros ser-
vem apenas para divertir o vulgo incapaz de
escolher alimento mais substancial e fino,
como Afer o demonstra claramente em Tácito.
Os embaixadores de Samos tinham-se apre-
sentado a Cleômenes, rei de Esparta, com uma
bela e longa arenga a fim de convencê-lo a ir à
guerra contra o tirano Polícrates. Depois de os
ter deixado falar à vontade, ele respondeu: “De
vosso exórdio já não me lembro, nem me
recordo do meio. Quanto à conclusão, não me
interessa.” Eis, parece-me, uma boa resposta
aos discursadores bem documentados.
Há outra: os atenienses deviam escolher
entre dois arquitetos um para a construção de
um grande edifício. Apresentou-se o primeiro,
muito afetado, com um belo discurso cuidado-
samente preparado acerca do trabalho que ia
executar, e já O povo se manifestava a seu
favor quando o segundo pronunciou apenas
estas palavras: “Senhores atenienses, o que
este acaba de dizer eu o farei.”
Pasmavam-se muitos ante a eloglência de
Cícero no auge de sua força. Catão ria-se tão-
somente: “Temos”, dizia, “um cônsul diverti-
do.” Antes ou depois, uma sentença útil, uma
frase bonita vem a calhar: ainda que não se
enquadrem no que precede nem no que segue,
valem por si. Não sou dos que pensam que o
bom ritmo faz o bom poema; alonguem se
assim o entenderem uma sílaba breve, se as
idéias são nele agradáveis, se há espírito e
inteligência, direi que o poeta é bom, embora
possa acrescentar que é também mau versifica-
- dor: “Seus versos são duros mas seu gosto é
sutil?28 4. Tirem-se de uma obra, diz Horácio,
todas as suas ligações e medidas (“Trocai o
ritmo e a medida, invertei a ordem das pala-
vras, encontrareis o poeta nesses trechos
281 Horácio.
282 Sêneca.
283 Cícero.
284 Horácio.
dispersos”28 5), não se destruirá com isso: os
próprios fragmentos continuarão belos. Foi
nesse sentido que respondeu Menandro a quem
“repreenderam porque não começara ainda uma
comédia prometida para tal dia: “Está com-
posta e pronta, falta só juntar os versos.”
Desde que Ronsard e Du Bellay deram relevo
a nossa poesia francesa, não há aprendiz que
não se inche de palavras e as cadencie à moda
deles: “em tudo isso há mais ruído do que
sentido”28 8, Para o vulgo nunca houve tantos
poetas. Mas se lhes foi fácil copiar o ritmo
daqueles mestres, incapazes se mostraram de
imitar as ricas descrições do primeiro e a deli-
cada fantasia do segundo.
Mas que fará o nosso jovem se o apertarem
com a sofística sutil de algum silogismo, como
este, por exemplo: o presunto faz beber, beber
estanca a sede, logo o presunto estanca a sede?
Rir-se-á, que mais vale rir que responder. Pode
ainda tirar de Aristipo a divertida resposta
dada em semelhante ocorrência: “por que o
resolverei, se não resolvido já me embaraça?”
A alguém que propunha a Cleantes essas finu-
ras dialéticas, disse ele: “Vai divertir as crian-
ças com essas peloticas, não desvies de seus
pensamentos um homem sério.” Se essas tolas
argúcias — sofismas retorcidos e espinho-
sos28 7? — tiverem por fim convencê-lo de uma:
mentira serão perigosas; mas não terão conse-
qiências se forem simples farsas, e não vejo
por que devam preocupá-lo. Há tolos capazes
de se desviarem do caminho por um bom dito:
uns “não aplicam as palavras às coisas a que
pertencem e vão buscar coisas a que possam
aplicar as palavras”288. outros, “a fim de
colocar uma frase, embicam por assuntos de
que não pensavam tratar”2ºº. Prefiro amoldar
a frase a meu pensamento a modificar minha
idéia para a engastar. Cabe às palavras se
adaptarem ao que se quer exprimir e se o fran-
cês não o pode fazer, empregue-se O gascão.
Quero que o pensamento a ser comunicado do-
mine e penetre a imaginação de quem ouve, a
ponto de que não mais se lembre das palavras.
Gosto de uma linguagem simples e pura, a
escrita como a falada, e suculenta, e nervosa,
breve e concisa, não delicada e louçã, mas vee-
mente e brusca: “ Que a expressão impressione
e será certa”2ºº. Uma linguagem antes difícil
do que aborrecida, sem afetação, ousada,
desregrada, descosida, expressiva em todos os
seus aspectos, não uma linguagem pedante,
fradesca, ou de advogado, mas de preferência
285 Id.
286 Sêneca.
287 Cicero.
288 Quintiliano.
289 Sêneca.
290 Tucano.
ENSAIOS —I 91
soldadesca como Suetônio qualifica a de Júlio
César, embora eu não perceba muito bem por
quê.
De bom grado tenho imitado a maneira
excêntrica de se trajarem os jovens de hoje:
manto de banda, capa ao ombro, mal esticada
a meia, pois assim se dão ares de altivo des-
dém pelas modas estrangeiras e seus artifícios.
Semelhante atitude no modo de falar me agra-
da ainda mais. Qualquer afetação, sobretudo
com a alegria e a liberdade francesas, vai mal
ao homem de corte, e em uma monarquia
todos devem ser educados como cortesãos,
sendo portanto recomendável que nos incline-
mos um pouco para o natural e o desdenhoso.
Não aprecio os tecidos em que aparecem a
trama e as costuras, e em um corpo bem feito
não se devem ver Os ossos e as veias; “a verda-
de precisa falar uma linguagem simples, sem
artifícios; e quem fala com afetação, quem fala
com artifícios senao aquele que pretende falar
afetadamente?”2º1 A eloquência que atrai por
si mesma prejudica as coisas. Assim como é
pequenez de espírito querer-se distinguir por
maneiras estranhas de trajar, na linguagem o
rebuscamento, a procura de expressões origi-
nais e de vocábulos pouco conhecidos decor-
rem de uma ambição escolástica e pueril.
Pudesse eu usar sempre e unicamente a lingua-
gem que se emprega nos mercados de Paris!
Errava o gramático Aristófanes em criticar
Epicuro por causa da simplicidade das pala-
vras, bem como em seus discursos a perfeita
clareza da expressão. Imitar alguém em sua
maneira de falar é fácil, qualquer pessoa o faz
sem esforço; mais árdua é a imitação da inteli-
gência e da imaginação. Em geral quem encon-
tra vestimenta igual pensa erroneamente que
tem o mesmo corpo; no qual se engana muito.
A força e os nervos não se tomam de emprés-
timo: enfeites e capas, sim. A maior parte das
pessoas que frequento fala como eu nos
Ensaios, mas não sei se pensa do mesmo
modo. Os atenienses, diz Platão, falam abun-
dantemente e com elegância: os lacedemônios
são lacônicos; os cretenses têm a imaginação
mais fecunda do que a linguagem; e são os
privilegiados. Zenão dizia que tinha duas espé-
cies de discípulos: uns, a que chamava
“filólogos”, gostavam de aprender as coisas
por si e eram seus preferidos; aos outros cha-
mava “logófilos”, e não se importavam senão
com as palavras. Não é que o bem falar não
seja bonito e bom, mas não é tanto como o
apregoam, e lamento que toda a vida se passe
nisso. Desejaria em primeiro lugar conhecer
bem a minha lingua e em seguida as dos vizi-
nhos com quem tenho mais relações. O latim e
291 Sêneca — reuniram-se as duas citações por
comodidade tipográfica.
o grego são sem dúvida belos ornamentos mas
custam caro demais. Pois direi aqui o modo de
adquiri-los mais barato que de costume, modo
esse experimentado por mim mesmo. Quem
quiser que o adote.
Meu falecido pai, tendo procurado por
todos os meios, entre homens de saber e inteli-
gência, a melhor forma de educação, percebia
os inconvenientes do método então em uso.
Disseram-lhe que o tempo que levávamos a
aprender as linguas que a gregos e romanos
nada haviam custado era o único motivo por
que não podíamos alcançar a grandeza de
alma e os conhecimentos dos antigos. Não
creio que essa seja a única causa, mas o que
importa no caso é a solução que meu pai
encontrou. Logo que desmamei, antes que se
me destravasse a língua, confiou-me a um ale-
mão, que morreu médico famoso em França e
que ignorava completamente. o francês mas
possuía perfeitamente o latim. Esse alemão,
que meu pai mandara vir de propósito e paga-
va muito caro, ocupava-se continuamente de
mim. Dois outros menos sábios do que ele
acompanhavam-me sem cessar quando folgava
o primeiro. Os três só me falavam em latim.
Quanto aos outros de casa, era regra inviolável
que nem meu pai, nem minha mãe, nem cria-
dos ou criadas, dissessem em minha presença
senão as palavras latinas que haviam apren-
dido para se entenderem comigo. Excelente foi
o resultado. Meu pai e minha mãe adquiriram
conhecimento suficiente dessa língua para um
caso de necessidade e o mesmo aconteceu com
as outras pessoas que lidavam comigo. Em
suma, tanto nos latinizamos que a coisa se
“estendeu às aldeias circunvizinhas onde ainda
hoje se conservam, pelo uso, vários nomes lati-
nos de artífices e ferramentas. Quanto a mim,
aos seis anos não compreendia mais o francês
ou o dialeto da terra do que o árabe. Mas sem
método, sem livros, sem gramática, sem
regras, sem chicote nem lágrimas, aprendera
um latim tão puro quanto o do meu professor,
porquanto nenhuma noção de outra língua o
podia perturbar. Se por exemplo queriam dar-
me um tema, à moda dos colégios, tinham que
o dar em mau latim, a fim de que o vertesse
para o bom. E Nicolau Gronchi, que escreveu
“De comitatis romanorum”, Guilherme Gue-
rente, que comentou Aristóteles, Georges Bu-
chanan, o grande poeta escocês, Marc Antoine
Muret, reconhecido na França e na JItália
como o melhor orador da época, e que foram
todos meus preceptores, dizem todos que eu
sabia tão bem o meu latim que temiam discutir
comigo. Buchanan, que vi mais tarde no sé-
quito do falecido Marechal de Brissac, disse-
me que estava escrevendo sobre a educação
92 MONTAIGNE
das crianças e que tomava a minha como
exemplo. Estava então encarregado da educa-
ção do Conde de Brissac, que depois vimos tão
valoroso e bravo.
Quanto ao grego quase não o compreendo.
Meu pai tentou ensinar-me com método mas
não como habitualmente, antes sob forma de
jogo e folguedo. Inscrevíamos as declinações
em pedacinhos de papel que dobrávamos e
pregávamos ao acaso, à maneira dos que
aprendem aritmética ou geometria. Porque
entre outras coisas lhe tinham aconselhado que
me levasse a amar as ciências e o dever não
pela força, mas por minha própria vontade, e
que me educasse pela doçura e sem rigor nem
constrangimento, dando-me inteira liberdade.
E isso até a superstição, porquanto em susten-
tando alguns que perturba o cérebro tenro da
criança acordá-la em sobressalto e arrancá-la
ao sono, mais profundo nelas do que em nós,
de repente, bruscamente, mandou que me acor-
dassem ao som de algum instrumento, e nunca
faltou quem o fizesse.
Este exemplo basta para julgar do resto, e
para pôr em evidência, também, a prudência e
a afeição de meu pai, tão bom e que não-teve
culpa de não colher fruto que correspondesse a
tão requintada cultura. Duas foram as causas:
a primeira, o campo estéril, e impróprio, pois
embora tivesse boa saúde e fosse de tempera-
mento brando e fácil, era tão lerdo, mole e apá-
tico que não me podiam arrancar da ociosi-
. dade nem para brincar. O que eu via, via bem.
E sob o aspecto pesado nutria pensamentos
ousados e opiniões acima de minha idade. Mas
tinha o espírito lento e que só trabalhava quan-
do o excitavam. Minha compreensão era tar-
dia, a inspiração sem vigor, e sobretudo care-
cia por completo de memória. Com tudo isso,
não há como espantar não obtivesse meu pai
algo que valesse a pena. Por outro lado, como
aqueles que têm um ardente desejo de se curar
seguem toda espécie de conselhos, esse exce-
lente homem, temeroso de não poder levar a
cabo a coisa que tanto desejava, acabou por se
deixar influenciar -pela opinião comum que
segue sempre os que vão na frente, como os
grous, e obedecer ao costume, por já não ter a
seu lado os que lhe tinham dado as primeiras
indicações na Itália. E por volta dos seis anos
mandou-me para o Colégio de Guyenne, o me-
lhor então em França. Não fora possível juntar
mais cuidados aos que meu pai teve em dar-me
professores particulares e atentar para minha
alimentação em mais de um pormenor contra
as regras do colégio. Contudo era um colégio.
Meu latim, do qual perdi o hábito por falta de
exercício, abastardou-se logo. E o modo inê-
dito que haviam empregado para mo ensinar
serviu apenas para me fazer pular as primeiras
classes. De maneira que com treze anos tinha
concluído o meu curso, como dizem, mas na
verdade sem qualquer fruto que seja agora de
utilidade.
Meu gosto pelos livros nasceu do prazer que
tive à leitura das fábulas das “Metamorfoses”
de Ovídio. Aos sete ou oito anos mais ou
menos fugia para as ler, desprezando quais-
quer outros divertimentos; e como a língua era
minha língua materna?º2, era o livro mais
fácil que eu conhecia e o mais adequado pelo
assunto à minha idade. Quanto aos Lançarotes
do Lago, aos Amadis, aos Huôes de Bordéus, e
outras obras do mesmo gênero, com que diver-
tem as crianças, não as conhecia sequer pelos
títulos e não lhes conheço ainda o conteúdo,
tao forte foi a minha obediência às proibições
que me eram impostas. Com essa paixão me
tornava mais descuidado no estudo das outras |
matérias, mas felizmente encontrei um homem
inteligente e cônscio de seu dever de preceptor
que soube tirar partido desses excessos e de
outros semelhantes. De modo que devorei de
fio a pavio a “Eneida”, e Terêncio e Plauto, e
as comédias italianas, sempre levado pelo que
essas obras têm de agradável. Se tivesse tido a
mania de mo impedir, creio que só houvera
trazido do colégio ódio aos livros, como acon-
tece com quase toda a nossa nobreza. Proce-
deu com inteligência, fingindo nada ver,
aguçando-me a curiosidade com deixar-me ler
tão-somente às escondidas tais livros e obri-
gando-me a trabalhar, quanto ao resto, sem
exagerada autoridade, pois as principais quali-
dades que buscava meu pai naqueles a quem
me confiava eram a benevolência e a bondade
de'espírito. Por isso mesmo não tinha eu outro
defeito senão indolência e preguiça. Não corria
o risco de fazer mal, e sim o de não fazer nada.
Ninguém presumia que me pudesse tornar
mau; mas inútil, sim. Previam em mim a ocio-
sidade, não a maldade. Reconheço que foi o
que sucedeu. As queixas com que me enchem
os ouvidos são deste gênero: preguiçoso; frio
nas relações de amizade e parentesco; desinte-
ressado dos negócios públicos. Os mais maldo-
sos não dizem: por que tomou? por que não
pagou? mas sim: por que não faz | tal
concessão? por que não dá isso ou aquilo?
Agradeceria muito que não me pedissem
mais do que devo, mas exigem injustamente o
que não devo e com bem maior rigor do que
empregam em exigir deles próprios o que
devem. Com tais exigências apagam todo o
mérito da ação e a gratidão que pudera ganhar
292 O latim, posto que o aprendera, como explica,
ainda no berço.
— es =
ENSAIOS —I 93
e que devera ser tanto maior quanto o que
faço, faço-o de boa vontade, não tendo nenhu-
ma obrigação de fazê-lo. Tenho tanto maior
liberdade de dispor de minha fortuna quanto
não a devo a ninguém; e de mim, porquanto
sou independente. Entreianto, se quisesse enca-
recer o que faço, ser-me-ija fácil responder a
essas censuras. E a muitos mostraria que
cedem à inveja e se ofuscam mencs com que
não faça bastante do que com a possibilidade
minha de fazer mais.
Contudo, meu espírito não deixava ao
mesmo tempo de ter resoluções firmes, juízos
seguros e claros sobre objetos de seu conheci-
mento; e digeria-os sozinho, sem influência
alheia, e era incapaz de me submeter à força e
à violência.
Direi ainda desta qualidade que tinha em
criança: uma segurança na expressão, uma voz
e um gesto flexíveis que me permitiam desem-
penhar qualquer papel? Antes da idade normal
(“mal entrava eu então no ano doze”?º2),
representei as primeiras personagens das tragé-
dias de Buchanan, de Guerente e de Muret
que dignamente se montaram no Colégio de
Guyenne. Nisto, como nas demais funções de
seu cargo, foi André de Gouveia?º*, nosso
diretor, o maior diretor de França; e era eu seu
melhor intérprete. É este um exercício que não
deixo de louvar nos jovens de boa família; vi
283 Virgílio.
294 Humanista português (1497-1555).
depois príncipes nossos entregarem-se a ele, a
exemplo dos antigos, e o fazerem muito bem.
Na Grécia até as pessoas de categoria o po-
diam fazer como profissionais: “revela seu
plano ao ator trágico Ariston, homem de berço
e fortuna; sua profissão em nada o diminuia
posto que nada tinha de desonroso na Gré-
Gral ra
Sempre acusei de impertinência os que con-
- denam tais distrações, e de injustiça os que
recusam a entrada de nossas cidades aos
comediantes dignos, privando o povo de um
prazer público. Os bons governos tratam de
unir os cidadãos, de os juntar, tanto nos deve-
res sérios da devoção como nas festividades e
Jogos; assim se aumentam a solidariedade e a
amizade. E não se poderia ademais conceder-
lhes passatempos preferíveis a esses a que
todos assistem na presença do magistrado.
Acharia razoável que este e o príncipe, à sua
custa, o dessem algumas vezes ao povo, com
afeição e bondade paternal, e que nas cidades
maiores houvesse lugares destinados a tais
espetáculos que, por vezes, poderiam desviar
de más ações para cuja execução se escondem
os homens. sa Ee
Para voltar ao assunto, direi que o melhor é
atrair a vontade e a afeição, sem o que se con-
seguem apenas asnos carregados de livros.
Dao-lhes a guardar, com chicotadas, um saco
de. ciência, a qual, para que seja de proveito,
não basta ter em casa: cabe desposar.
295 Tito Lívio
CAPÍTULO XXVII
Da loucura de opinar acerca do verdadeiro e do falso
unicamente de acordo com a razão
Não é sem motivo que atribuímos à simpli-
cidade e à ignorância a facilidade com que cer-
tas pessoas-acreditam é se deixam persuadir,
pois penso ter aprendido outrora que acreditar
é por assim dizer o resultado de uma espécie
de impressão sobre a nossa alma, a qual a re-
cebe tanto melhor quantô mais tenra e de
menor resistência: “Assim como o peso faz
pender a balança, assim a evidência determina
o espírito” 2º 8. Quanto mais a alma é vazia e
nada tem como contrapeso, tanto mais ela
cede facilmente à carga das primeiras impres-
sões. Eis por que as crianças, O povo, as
mulheres e os enfermos são sujeitos a serem
296 Cícero.
conduzidos pela sugestão? º 7. Por outro lado, é
tola presunção desdenhar ou condenar como
Falso tudo o que não nos parece verossímil,
defeito comum aos que estimam ser mais dota-
dos de razão que o homem normal. Esse defei-
to eu o-tive outrora. Se ouvia falar de almas do
outro mundo, presságios, encantamentos, feiti-
çaria, ou de outra coisa em que não acredi-
tasse: “sonhos, visões mágicas, milagres, feiti-
ceiras, aparições noturnas e outros prodígios
de Tessália”2º8, sentia pena desse pobre povo
de que abusavam com tais fantasias.
297 No texto “par les oreilles”, pelo que ouvem.
(N.do T).
298 Horácio.
94 MONTAIGNE
Acho agora que eu também merecia pieda-
de. Não porque, desde então, a experiência
haja acrescentado algo a minhas primeiras
convicções, embora eu tenha procurado verifi-
car as crenças que recusava, mas minha razão
me impeliu a reconhecer que condenar uma
coisa de maneita absoluta é ultrapassar os
limites que podem atingir a vontade de Deus e
a força de nossa mãe, a natureza; e que O
maior sintoma de loucura no mundo é reduzir
essa vontade e essa força à medida de nossa
capacidade e de nossa inteligência. Chamemos
ou não monstros ou milagres às coisas que não
podemos explicar, não se apresentarão elas em
menor número à nossa vista. Por certo obser-
varemos que é mais o hábito do que a ciência
que nos faz considerá-las naturais: “cansados,
saciados do espetáculo dos céus, nós não nos
dignamos mais erguer nosscs olhos para esses
templos de luz?2ºº. e essas mesmas coisas, se
com elas deparássemos de novo, nós as acha-
riamos tão incríveis quanto quaisquer outras:
“se agora, em virtude de uma aparição repenti-
na, essas maravilhas se nos oferecessem pela
primeira vez, que achariamos para as compa-
rar?” Quem nunca viu um riacho, ao deparar
com o primeiro, pensou que fosse o oceano; as
coisas maiores entre as que conhecemos, nós
as estimamos as maiores em seu gênero: “um
rio que não é muito extenso parece imenso a
quem não viu maior; do mesmo modo uma ár-
vore, e um homem, e qualquer objeto quando
nada se viu maior na espécie”390;
“familiarizados com as coisas que cotidiana-
mente vemos, não as admiramos mais e não
procuramos entender as tausas disso”*º1. A
novidade de uma coisa, mais do que sua
importância, incita-nos a procurar-lhe a ori-
gem. O infinito poder da natureza deve ser jul-
gado com mais deferência e tendo em conta
nossa ignorância e nossa fraqueza. Quantas
coisas pouco verossímeis são afirmadas -por
gente digna de fé! Se seus testemunhos não
bastam para nos convencer, sejamos ao menos
prudentes em nosso julgamento, pois conside-
rá-las impossíveis é vangloriar-se de saber até
onde vão a possibilidade e a impossibilidade, o
que, sem dúvida, é presunção exagerada. Se
aprendêssemos com exatidão a diferença entre
uma coisa e outra, entre o que está contra a
ordem e a natureza, e o que se situa simples-
mente fora do que admitimos comumente,
entre não acreditar cegamente e não duvidar
com - facilidade, observariamos fielmente a
regra do “nada de mais” que Quilon tanto
recomenda.
299 Tucrécio.
300 Td.
301 Cicero.
t
Quando lemos em Froissart que o Conde de
Foix soube no Béarn da derrota do Rei João de
Castela, em Jubera, no dia seguinte ao aconte-
cimento, é as explicações que dá, podemos
duvidar; o mesmo pode acontecer quando
vemos nos “Anais” que, no próprio dia da
morte do Rei Filipe de Nantes, o Papa Hono-
rato mandou fazer-lhe funerais públicos, orde-
nando que assim procedessem em toda a Itália.
Esses testemunhos não terão talvez autoridade
bastante para nos convencer. Entretanto, se
entre numerosos exemplos que cita dos anti-
gos, Plutarco diz saber de fonte fidedigna que,
no tempo de Domício, a notícia da batalha
perdida por Antônio, na Alemanha (a várias
Jornadas de Roma), foi publicada e espalhada
no mundo inteiro no mesmo dia de sua ocor-
rência; se César admite que a nova de um
acontecimento mais de uma vez o precedeu,
não diremos deles que são pobres de espírito,
que se deixaram ludibriar como o vulgo ou que
não são tão clarividentes quanto nós. Pode-se
exprimir uma opinião com maior delicadeza,
nitidez e espirito do que Plínio, quando o
quer? Impossível encontrar juízos mais bem
fundamentados; nesses pontos não poderíamos
excedê-lo, e não falo aqui de seu saber tão
extenso, que entretanto me interessa menos.
Contudo, não há estudante que o não tache de
inexatidão e não pretenda ensinar-lhe alguma
coisa acerca do progresso das obras da
natureza.
Quando lemos em Bouchet os milagres das
relíquias de Santo Hilário, vá ainda que seja-
mos incrédulos, pcis não tem o autor autori-
dade suficiente para que o aceitemos sem
prova. Mas condenar ao mesmo tempo. todos
os fatos semelhantes que nos são referidos,
parece-me singular presunção. Santo Agosti-
nho, esse grande doutor da Igreja, afirma ter
presenciado em Milão uma criança cega recu-
perar a vista ao tocar nas relíquias de São Ger-
vásio e São Protásio: e diz que uma mulher
cancerosa foi curada em Cartago com o sinal-
da-cruz que lhe fez uma recém-batizada; e que
Hespério, um de seus familiares, expulsou os
espíritos que frequentavam sua casa com um
pouco de terra trazida do Santo Sepulcro; e
que essa terra, conduzida mais tarde a Igreja,
devolveu subitamente o uso de seus membros a
um paralítico; e que uma mulher, durante uma
procissão, em levando aos olhos o ramalhete
com o qual tocara a urna de Santo Estêvão,
recobrou a vista de há muito perdida; e cita
outros casos milagrosos a que pessoalmente
assistiu. Que diremos dele, que os afirma; e dos
Santos Aurélio e Maximino cujos testemunhos
invoca? Diremos que se trata de ignorantes e
de simples de espírito, ou de perversos e
impostores? Haverá em nosso século alguém
ENSAIOS — 95
assaz imprudente para se comparar a ele, tanto
quanto à virtude e à piedade como quanto à
inteligência e à capacidade? “Ainda que não
trouxessem nenhum argumento razoável, eles
me persuadiriam com a sua autoridade”302 É
ousadia perigosa e de possíveis conseqiiências
sérias, fora mesmo do que tem de temerário e
absurdo, desprezar o que não compreendemos.
Que após terdes acertado, com vosso julga-
mento impecávei, os limites entre o verdadeiro
e o falso, sobrevenham, como é inevitável,
fatos inegáveis, ultrapassando ainda mais em
sobrenatural os que recusais, e eis-vos obri-
gado a vos desmentirdes.
A meu ver O que acarreta tanta confusão em
nossas consciências, nestes tempos de pertur-
bações religiosas, é esse abandono parcial que
fazem os católicos de sua fé. Imaginam que
são moderados e sensatos cedendo aos adver-
sários no que diz respeito a certos pontos em
litígio; não vêem a vantagem que lhes dão em
bater em retirada, e quanto essa desistência in-
cita os outros a prosseguirem, pois os pontos
302 Cicero.
em que cedem os católicos e que lhes parecem
de nonada podem ao contrário ser de grande
importância. Ora, é necessário, em tudo,
submetermo-nos aos poderes eclesiásticos que
reconhecemos; ou tudo lhes recusarmos. Não
cabe a nós determinar no que lhes devemos ou
não obediência. Mais ainda (e posso dizê-lo
porque o experimentei, tendo outrora usado
essa liberdade de eliminar certas práticas em
relação às quais julgava não dever observar os
deveres impostos pela Igreja, porque os achava
demasiado inúteis ou demasiado singulares, e
entretendo-me com homens que sabiam a
fundo a ciência teológica me foi demonstrado
repousarem eles sobre fundamentos de pri-
meira ordem e seriedade): é unicamente por to-
lice e ignorância que os tratamos com menos
deferência do que o resto. Lembremos em
quantas contradições tem caído o nosso juiga-
mento! Quantas coisas que ontem considerá-
vamos artigos de fé, hoje julgamos fábulas! A
glória e a curiosidade sao dois flagelos de
nossa alma; esta nos impele a meter o nariz em
tudo; aquela nos proíbe deixar seja o que for
sem decisão ou solução.
CapítTuLO XXVIII
Da amizade
Contemnplando o trabalho de um pintor que
tinha em casa, tive vontade dê ver como proce-
dia. Escolheu primeiro o melhor lugar no cen-
tro de cada parede para pintar um tema com
toda a habilidade de que era capaz. Em .segui-
da encheu os vazios em volta com arabescos,
pinturas fantasistas que só agradam pela varie-
dade e originalidade. O mesmo ocorre neste
livro, composto unicamente de assuntos estra-
nhos, fora do que se vê comumente, formado
de pedaços juntados sem caráter definido, sem
ordem, sem lógica e que só se adaptam por
acaso uns aos outros: “o corpo de uma bela
mulher com uma cauda de peixe”*ºº. Quanto
ao segundo ponto fiz, pois, como o pintor, mas
em relação à outra parte do trabalho, a
melhor, hesito. Meu talento não vai tão longe,
e não ouso empreender uma obra rica, polida e
constituída em obediência as regras da arte.
Eis por que me veio à idéia tomar de emprés-
timo a Etienne de la Rcétie algo que honrará,
303 Horácio.
em suma, o restante. É um ensaio a que deu o
título de “Servidão Voluntária”, mas que
outros, ignorando-o, batizaram mais tarde, e
com razão, “Contra Um”. Escreveu-o La Boé-
tie em sua adolescência, a fim de se exercitar
em favor da liberdade e contra a tirania. Há
muito circula esse ensaio em mãos de gente
séria, entre a qual goza de grande e merecida
reputação, pois é cheio de nobreza e de argu-
mentação tão sólida quanto possível. E não é
porque q autor não pudesse ter escrito melhor
ainda. Se na idade, já mais madura, em que o
conheci, tivesse, como eu, concebido a inten-
ção de escrever seus pensamentos, houvera
deixado coisas notáveis, bem próximas daque-
las de que se orgulha a antiguidade, pois, em
* particular quanto a isso, era dotado como nin-
guém. Esse ensaio, que nunca reviu, creio, de-
pois de composto, é a única coisa que sobra
dele; e por efeito do acaso, juntamente com al-
guns cornentários acerca desse edito de janeiro
tão famoso na história de nossas guerras civis,
comentários que encontrarão talvez lugar
96 /MONTAIGNE
E
,
alhures. Eis tudo o que, além do catálogo das
obras que possuía e que publiquei /pude reco-
lher — eu a quem, por afetuosa /atenção, ao
render o último suspiro, entregou sua biblio-
teca e seus papéis. Por isso sou Muito apegado
a esse ensaio, tanto mais quanto foi o ponto de
partida de nossas relações. Fora-me comuni-
cado muito antes que conhecesse o autor cujo
nome só então me foi revelado, e assim se pre-
parou essa amizade que nos uniu e durou
quanto Deus o permitiu, tão inteira e completa
que por certo não se encontrará igual entre os
homens de nosso tempo. Tantas circunstâncias
se fazem necessárias para que esse sentimento
se edifique, que já é muito vê-lo uma vez cada
três séculos.
A natureza parece muito particularmente
interessada em implantar em nós a necessidade
das relações de amizade e Aristóteles afirma
que os bons. legisladores se preocupam mais
com essas relações do que com a, justiça. E
verdade que a amizade assinala o mais alto
ponto de perfeição na sociedade. Em geral
sentimentos a que damos o nome de amizade,
nascidos da satisfação de nossos prazeres, das
vantagens que usufruímos, ou de associações
formadas em vista de interesses públicos ou
privados, são menos belos, menos generosos, e
participam tanto menos da amizade, a qual
tem outras causas, visa a outros fins. Essas
afeições, que se classificavam outrora em qua-
tro categorias, segundo fossem ditadas pela
natureza, a sociedade, a. hospitalidade ou as
exigências dos sentidos, nem em conjunto nem
isoladamente atingem o ideal. 7
Nas relações entre pais e filhos é mais o res-
peito que domina. A amizade nutre-se de
comunicação, a qual não pode estabelecer-se
nesse domínio em virtude da grande diferença
que entre eles existe, de todos os pontos de
vista; e esse intercâmbio de idéias e emoções
poderia por vezes chocar os deveres recíprocos
que a natureza lhes impôs, pois, se todos os
pensamentos íntimos dos pais se comuni-
cassem aos filhos, ocorreriam entre eles fami-
liaridades inconvenientes. Mais ainda: não
podem os filhos dar conselhos ou formular
censuras a seus pais, o que é entretanto uma
das primeiras obrigações da amizade.
Entre certos povos é costume que os filhos
matem os pais; entre outros são os' pais que
matam os filhos, a fim de evitar, como acon-
tece às vezes, que se constituam em obstáculos
recíprocos, porque a natureza pela eliminação
de um libera o outro. Houve filósofos que afe-
taram não levar em consideração os laços de
família. Aristipo, por exemplo, a quem fala-
vam da afeição que devia aos filhos, saídos
dele, pôs-se a cuspir dizendo que isso também
saía dele. E acrescentava que se engendramos
filhos engendramos igualmente piolhos e ver-
- mes. Outro, que Plutarco procurava reconci-
liar com o irmão, respondeu: “Não o estimo
mais, apenas porque saiu do mesmo buraco”.
É, em verdade, um belo nome e digno da
maior afeição o nome de irmão; e por isso La
Boétie e eu o empregamos quando nos torna-
mos amigos; mas na realidade, a comunidade
de interesses, a partilha dos bens, a pobreza de
um como consequência da riqueza de outro,
destemperam consideravelmente a união for-
mal. Em devendo os irmãos, para vencer neste
mundo, seguir o mesmo caminho, andar com
passo igual, inevitável se torna que se choquem
amiúde. Mais ainda: é a correspondência dos
gostos que engendra essas verdadeiras e perfei-
tas amizades e não há razão para que ela se
verifique, entre pai e filho, ou entre irmãos, os
guais podem ter gostos totalmente diferentes.
E meu filho, meu parente, mas isso não impede
que se trate de um indivíduo pouco sociável,
um mau, um tolo. Nas amizades que nos
impõem a lei e as obrigações naturais, nossa .
vontade não se exerce livremente; elas não
resultam de uma escolha, e nada depende mais
de nosso livre arbítrio que a amizade e a afei-
ção. E não digo isso porque não tenha tido a
oportunidade de conhecer o que de melhor
pode haver como amizade familiar, porquanto
meu pai foi o melhor dos pais, o mais indul-
gente; e assim permaneceu até a mais avan-
çada velhice. Nossa família era reputada pela
excelência das relações entre pais e filhos, e a
concórdia entre irmãos era nela exemplar:
“conhecido eu mesmo pelo amor paternal que
dediquei a-meus irmãos”3º *. ;
Nossa afeição pelas mulheres, embora pro-
veniente de nossa escolha, não poderia compa-
rar-se à amizade nem substituí-la. Nos seus
impulsos, confesso-o: “pois somos também
conhecidos da deusa que mistura um doce
amargor às suas preecupaçõés”*º 8, ela é mais
ativa, mais aguda, mais áspera; é uma chama
temerária e volúvel, agitada e versátil; cnama
febril, sujeita a intermitências de temperatura e
que só nos prende por uma parte de nós. O
calor da amizade estende-se a todo o nosso
ser; é geral e igual; temperada e serena; sobe- '
ranamente suave e delicada, nada tendo de às-
pero nem de excessivo. O amor é antes de mais
nada um desejo violento do que nos escapa:
“— como o caçador perseguindo a lebre, no
frio e no calor, por montanhas e vales; desde-
nha-a ao alcançá-la e só a deseja enquanto a
persegue na fuga” “0 8,
304 Horácio.
305 Catulo.
306 Ariosto.
ENSAIOS —I 97
Quando o amor reveste as formas da amiza-
de, o que ocorre quando se estabelece uma
concordância- das vontades, ele se esvai ou
definha. O gozo apaga-o, porque seu objetivo é
carnal, e a saciedade o extingue. A amizade,
ao contrário, cresce com o desejo que dela
temos; eleva-se, desenvolve-se e se amplia na
frequentação, porque é de essência espiritual e
a sua prática apura a alma. Juntamente com
essa perfeita amizade, conheci outrora essas
afeições passageiras acerca das quais não fala-
rei porquanto as descrevem demasiado bem
estes versos*º?. Estas duas paixões, eu as
experimentei simultaneamente, sem “as escon-
der uma da outra, mas sem que jamais tam-
pouco houvesse competição entre elas: cheia
de nobreza, manteve-se sempre a primeira nas
regiões elevadas, olhando desdenhosamente
para a outra, que, quase invisível, pairava
muito mais. baixo.
Quanto ao casamento, além de ser um negó-
cio em que nossa liberdade se restringe às pri-
meiras gestões e cuja duração indeterminada
nos é imposta, conclui-se geralmente em vista
de outros objetivos e mil e um incidentes estra-
nhos e imprevisíveis se misturam a ele, o que
basta para perturbar o curso da mais viva afei-
ção e romper o fio a que ela se prende. Ao
passo que, quando se trata de amizade, nada
intervém senão ela e ela unicamente. A tanto
se acrescenta não estarem, em geral, as mulhe-
res em condições de participar de conversas e
trocas de idéias, por assim dizer necessárias à
prática dessas relações de ordem tão elevada
que a amizade cria; a alma delas parece care-
cer do vigor indispensável para sustentar O
abraço apertado desse sentimento de duração
ilimitada e que tão fortemente nos une.
Por certo, se se pudesse formar com uma
mulher, livre e voluntariamente, . semelhante
ligação, em que não apenas a alma provasse
plena satisfação mas também o corpo encon-
trasse seu prazer, em que cada qual assim se
entregasse por inteiro, a amizade seria mais
perfeita e total; mas não há exemplo de mulher
que a tanto tenha chegado e, de comum acor-
do, todas as escolas filosóficas da antiguidade
concluíram ser isso impossível.
Esse outro gênero de licenciosidade contra a
natureza que era permitida entre os gregos,
mas que nossos costumes reprovam com
razão, exigindo como exigia certa diferença de
307 O periodo é confuso. Thibaudet anota:
“sonetos de La Boétie”, mas Michaut interpreta:
“estes versos que acabo de citar” e que seriam por-
tanto os de Ariosto. Na impossibilidade de um
esclarecimento preciso, respeitamos a letra do texto.
(N. do T.)
idade e papéis diferentes, não atendia muito
mais ao entendimento perfeito e à conformi-
dade de sentimentos a que a amizade aspira:
“ Que significa afinal esse amor de amizade?
Por que não se ama de amor nem um adoles-
cente feio nem um belo ancião?”?*ºº E não me
desmentirão os filosófos da Academia, pois
tomo de empréstimo sua própria descrição:
esse delírio, dizem eles, inspirado pelo filho de
Vênus, que desde logo se apodera do amante e
faz com que se entregue, sobre a flor de moci-
dade a que se afeiçoou, aos gestos mais extra-
vagantes e apaixonados que pode insuflar um
ardor excessivo, era simplesmente provocado
pela beleza das formas exteriores e uma falsa
semelhança com o ato do amor. Não era pelo
espírito que o adolescente, objeto dessa paixão,
podia inspirá-lo, não estava em condições de
mostrá-lo, porque jovem demais e em vias de
desenvolvimento. Se esses transportes tinham
por objeto um indivíduo de sentimentos vulga-
res, dinheiro, presentes, honrarias, e outros
favores igualmente pouco recomendáveis e
que, de resto, tais filósofos condenavam, eram
os meios postos em prática para vencer quais-
quer resistências; se o indivíduo era de caráter
mais elevado, faziam-se também os meios mais
honrosos: ensinamentos filosóficos que pro-
pugnavam respeito à religião, a obediência às
leis, o devotamento à pátria até o sacrifício da
vida, a coragem, a sabedoria, a justiça. Era
então pelas graças do espírito e a elevação da
alma, compensando a beleza física já gasta,
que o amante procurava ser aceito por aquele
a quem propunha uma espécie de associação
mental na esperança de acordo mais sério e
duradouro. Realizada a ligação, ocorria um
momento em que O espirito acordava no ser
amado sob a influência das qualidades morais
do amante. Um tal resultado não era imediato,
pois nossos filósofos não impunham ao aman-
te nenhum limite de tempo e lhe deixavam toda
latitude para alcançar seus fins, admitindo que
tais condições eram ainda mais normais no ob-
jeto da afeição, porquanto descobrir naquele
com quem se ligava essas qualidades que cons-
tituiam uma beleza escondida e ser por elas
seduzido era coisa longa e dificil. O desejo de
uma concepção espiritual devia ser o princi-
pal: a beleza física não passaria de acidente.
No amante o contrário era o certo e por isso
davam os filósofos preferência ao papel do
amado e pensavam que assim quisessem os
deuses. Daí a censura ao poeta Ésquilo que
invertera esses papéis nos amores de Aquiles e
Pátrocio, dando o papel de amante a Aquiles,
o qual imberbe e adolescente fora o mais belo
PO É CCO.
98 MONTAIGNE
dos gregos. Desta ligação moral e física, e da
afeição dela decorrente, elemento essencial e
confessável, diziam eles que resultavam conse-
quências muito úteis tanto para os interessados
como para o país. Que contribuíam antes de
mais nada para o fortalecimento da nação que
aceitava o costume, e se constituta em princi-
pal defesa da justiça e da liberdade, como o
testemunhavam os salutares amores de Har-
módio e Aristogiton. Daí, tacharem-na de divi-
na, não tendo sido hostilizada senão pelos tira-
nos e a covardia do povo.
Todavia, pode-se alegar em favor da Acade-
mia o fato de que tais amores acabavam por se
tornar amizades, o que se adapta bastante bem
à definição que os estóicos dão do amor:“O
amor é o desejo de alcançar a amizade de uma
pessoa que nos atrai pela beleza”*º.º.
Volto à minha tese que diz respeito a uma
amizade mais natural e estimável: “A amizade
atinge sua irradiação total na maturidade da
idade e do espírito”? 1º.
Em suma, isso a que chamamos comumente
amigo e amizade não passam de ligações fami-
liares, travadas ao sabor da oportunidade e do
interesse e por meio das quais nossas almas se
entretêm. Na amizade a que me refiro? "1, as
almas entrosam-se e se confundem em uma
única alma, tão unidas uma à outra que não se
distinguem, não se lhes percebendo sequer a
linha de demarcação. Se insistirem para que eu
diga por que o amava, sinto que o não saberia
expressar senão respondendo: porque era ele;
porque era eu.
E mais do que poderia dizer, de uma manei-
ra geral e no caso em apreço, intervém em tiga-
ções dessa natureza uma força inexplicável e
fatal que eu não saberia definir. Nós nos
procurávamos antes de nos termos visto, pelo
que ouvíamos um acerca do outro, e nascia em
nós uma afeição em verdade fora de propor-
ções com o que nos era relatado, no que vejo
como que um decreto da Providência. Abraça-
vamo-nos pelos nossos nomes e em nosso pri-
meiro encontro casual em Bordéus, por oca-
sião de uma festa pública e em numerosa
companhia, sentimo-nos tão atraídos um pelo
outro, já tão próximos, já tão íntimos que
desde então não se viram outros tão íntimos
como nós. La Boétie escreveu em latim uma
sátira que se publicou, na qual justifica e expli-
ca como nossa amizade tão repentina alcançou
tão rapidamente esse grau de perfeição. Devia
durar tão pouco, formara-se tão tarde (éramos
ambos homens feitos e ele um pouco mais
308 Cicero.
310 Cicero.
311 A amizade com La Boétie.
velho do que eu) que não havia tempo a perder
e não podia essa amizade tomar por modelo
outras amizades banais e moles que são neces-
sariamente precedidas de frequentação mais
ou menos prolongada. A nossa foi única no gê-
nero e deve-se tão-somente a si própria. Não
ocorreu em consequência de um fato especi-
“fico, ou de dois, de três ou de mil; a ela fomos
levados por não sei que atração total, a qual
em se assenhoreando de nossas vontades as
impeliu a um impulso simultâneo e irresistível
de se perderem uma na outra, de se fundirem
em uma só. E digo “perderem-se” porque na
verdade essa associação de nossas almas se
efetuou sem reserva de espécie alguma; nada
tinhamos mais que nos pertencesse pessoal-
mente, que fosse dele ou meu.
Quando, após a condenação de Tibério
Graco, em presença dos cônsules romanos que
intentavam processo contra os que o haviam
acompanhado, perguntou Lélio a Caio Blós-
sio, o mais intimo amigo do condenado, até
que ponto teria acedido às solicitações de
Graco, respondeu-lhe Blóssio: — “Até o fim.”
— “Como até o fim? E se houvesse mandado
incendiar os templos?” — “Jamais o houvera
feito.” — “Mas se o fizesse?” — “Eu obedece-
ria.” Amigo de Graco em toda a força do
termo, como no-lo dizem os historiadores, não
temia ofender os cônsules com uma resposta
tão ousada e não queria que pensassem não ter
ele absoluta certeza da vontade de seu amigo.
Os que consideram essa resposta sediciosa não
compreendem o ascendente que ele exercia
sobre tal vontade, o conhecimento que dela
tinha e a segurança do que podia ser. Não con-
seguem entender esse mistério: Graco e ele
eram amigos e mais amigos do que cidadãos, e
mais do que amigos ou inimigos de seu país.
Sua ambição, seus projetos subversivos vi-
nham depois da amizade; tinham-se dado
inteiramente um ao outro, suas vontades mar-
chavam lado a lado, Imaginai-os guiados pela
virtude e a razão — e não poderia ser de outro
Jeito — e convireis em que a resposta de Blós-
sio foi a que devia ser. Se tivessem divergido
em suas ações, não teriam sido amigos um do
outro, da maneira por que compreendo a ami-
zade. Ademais, essa resposta não significa
muito mais do que se eu afirmasse que, em me
vindo a mim mesmo vontade de matar minha
filha, eu o faria. Isso não quer dizer que seme-
lhante idéia esteja nas minhas intenções, pois
não duvido um só instante de meu- domínio
sobre a minha vontade, como não ponho em
dúvida a deste meu amigo. Todos os argumen-
tos do mundo não me tirarão a certeza que
tenho de suas intenções e de sua maneira de
pensar. Nenhuma de suas ações poderia ser-me
ENSAIOS — I 99
apresentada sem que de imediato lhe perce-
besse o móvel. Nossas almas caminharam tão
completamente unidas, tomadas uma pela
outra de tão ardente afeição, essa afeição que
penetra e lê no fundo de nós mesmos, que não
somente eu conhecia a sua como a minha, mas
teria, nas questões de meu interesse pessoal,
mais confiança nele do que em mim mesmo.
Não se ponham no mesmo plano as amiza-
des comuns; conheço-as tão bem quanto qual-
quer outro e algumas das mais perfeitas no gê-
nero, mas seria um erro confundir-lhes as
regras. Nessas outras amizades há sempre que
segurar as rédeas e caminhar com prudência; o
nó da união não é de tal solidez que não se
deva desconfiar dele. “Amai”?, dizia Quilon,
“como se tivésseis um dia que odiar, odiai
como se tivésseis de amar.” Este princípio,
abominável no caso de uma amizade exclusiva
que nos possua por inteiro, é salutar quando se
trata dessas amizades verificáveis no curso
habitual da existência e às quais se aplicam
estas palavras de Aristóteles: “Ô meus amigos,
um amigo é coisa que não existe.”
Entre amigos, unidos por esse nobre senti-
mento, Os serviços e favores, elementos essen-
ciais às outras amizades, não entram em linha
de conta e isso porque as vontades intima-
mente fundidas são uma só vontade. Assim
como a afeição que tenho por mim não se am-
plia com um serviço que preste a mim mesmo
(embora os estóicos afirmem o contrário);
assim como não sou grato a mim mesmo do
serviço prestado por mim mesmo, assim tam-
bém a união de tais amigos atinge tal perfeição
que os leva a perder a idéia de se deverem al-
guma coisa, e odiar e rechaçar todas essas
palavras que tendem a estabelecer uma divisão
ou diferença, como o favor, obrigação, reco-
nhecimento, pedido, agradecimento e outras.
Efetivamente, em tudo lhes sendo comum, von-
tade, pensamento, maneira de ver, bens, mu-
lheres, filhos, honra e até a vida, e em procu-
rando ser apenas uma alma em dois corpos, na
expressão muito certa de Aristóteles, nada se
podem pedir ou dar. Eis por que os legislado-
res, com o fito de emprestar ao casamento uma
vaga semelhança com essa ligação de essência
divina, proíbem as doações entre marido e
mulher, tentando assim levar-nos a entender
que o que é de cada um deve ser de ambos e
que nada do que lhes pertence se pode dividir
ou atribuir pessoalmente a um dos cônjuges.
Se nessa amizade a que me refiro, um ptdes-
se dar alguma coisa ao outro, o benfeitor é que
seria o favorecido. Colocando ambos acima de
tudo a felicidade de obsequiar o outro, quem
dá a seu amigo a oportunidade de fazê-lo é
quem se mostra mais generoso, pois lhe outor-
ga a satisfação de realizar o que mais lhe
apraz. Quando o filósofo Diógenes precisava
de dinheiro dizia que ia reclamá-lo dos amigos,
e não que lhes ia pedir. À fim de exemplificar
com um fato esse estado de alma, vou apelar
para os antigos. O corintiano Eudaâmidas tinha
dois amigos: Charixênio de Licíon e Areteu de
Corinto. Era pobre e eles ricos. Às vésperas de
morrer, assim redigiu seu testamento: “Lego a
Áreteu o cuidado de tomar conta de minha
mãe e suprir-lhe as necessidades durante a
velhice; a Charixênio a obrigação de desposar
minha filha e constituir-lhe um dote tão eleva-
do quanto possível. No caso em que um deles
venha a morrer, lego sua parte ao outro.” Os
primeiros que viram o testamento muito
caçoaram dele, mas os herdeiros o aceitaram
com uma alegria espantosa. Vindo a falecer
Charixênio cinco dias depois, Areteu substi-
tuiu-o na parte que lhe cabia e tratou cuidado-
samente do sustento da mãe;.e, elevando-se seu
patrimônio a cinco talentos, deu dois e meio à
sua própria filha, que era filha única, e dois e
meio de dote à filha de Eudâmidas. E as casou
ambas no mesmo dia.
Este exemplo seria perfeito sem o número de
amigos, pois essa perfeita amizade é indivisi-
vel. Cada qual se entrega tão inteiramente ao
outro que nada resta por dividir. Ao contrário,
lamenta não ser duplo ou triplo ou múltiplo e
não ter várias almas para as entregar todas ao
mesmo. As amizades comuns podem dividir-
se: pode-se apreciar a beleza em certo amigo, e
noutro o bom gênio. Num a liberalidade, nou-
tro o modo pcr que se conduz como pai, e em
outro ainda sua afeição fraternal, etc. Mas
essa amizade que nos enche a alma e a domina
não pode subdividir-se. Se temos dois amigos e
ambos ao mesmo tempo pedem socorro, a
quem acudiremos? Se solicitam favores anta-
gônicos, qual deles atenderemos? Se um nos
exige silêncio acerca de alguma coisa que inte-
ressa ao outro, que faremos? Com um amigo
único que ocupe em nossa vida lugar prepon-
derante estamos desobrigados de tudo. O
segredo que jurei não comunicar a ninguém,
posso, sem ser perjuro, comunicá-lo a quem
não é outro senão eu mesmo. Já é grande mila-
gre dobrar-se assim. Os que falam de triplicar-
se não lhe percebem a grandeza. Nada que
possui seu semelhante é extremo. Quem supõe
que, tendo dois amigos ama tanto um quanto o
outro, e tanto quanto se amam entre si e quan-
to o amam igualmente, imagina ser possível
multiplicar e transformar em confraria essa
coisa única e homogênea tão dificil de encon-
trar no mundo. À história de Eudâmidas o
confirma: emprega seus amigos segundo suas
necessidades e com isso lhes outorga um favor
100
que testemunha sua amizade para com eles;
dá-lhes generosamente os meios de lhe serem
úteis e a afeição que lhes dedica é muito maior
ainda que a de Areteu.
Em suma, trata-se de sensações incompreen-
síveis a quem não as sentiu e que fazem com
que eu aprecie tanto a resposta daquele jovem
soldado a quem Ciro perguntava quanto que-
ria pelo cavalo com o qual acabara de ganhar
uma corrida, e se o trocaria por um reino:
“Seguramente não, senhor, e no entanto eu o
daria de bom grado se com isso obtivesse a
amizade de um homem que eu considerasse
digno de ser meu amigo.” E estava certo ao
dizer “se”, pois se encontramos facilmente ho-
mens aptos a travar conosco relações superfi-
ciais, O mesmo não se verifica quando procura-
mos uma intimidade sem reservas. É preciso
então que tudo seja límpido e ofereça segu-
rança total.
No que concerne às ligações que se susten-
tam por um só ponto, basta atentar para.o que
é suscetível de comprometer a solidez desse
ponto. Não me importa a religião de meu mé-
dico ou de meu advogado, porquanto nada tem
a ver com os serviços que deles espero. Assim
penso em relação à minha criadagem. Não me
informo acerca da castidade de um lacaio,
quero saber somente se é eficiente; se preciso
de um palafreneiro não me preocupo em verifi-
car se é jogador e sim se não é imbecil; pouco
se me dá seja meu cozinheiro um desbocado,
conquanto saiba cozinhar; aliás, não me meto
a ensinar às gentes o que devem fazer; outros
se encarregam disso. Digo simplesmente o que
faço: “Assim procedo; quanto a vós, fazei
como entenderdes” 312.
A farniliaridade da mesa associo a pessoa
agradável, não o sábio; para o leito procuro a
beleza e não a bondade; para conversar, O
homem competente, ainda que careça de
nobreza de alma. E em tudo penso da mesma
maneira. y
Assim como aquele que foi encontrado
montado a cavalo numa vassoura brincando
com os filhos, pedia a quem o surpreendera
que nada dissesse a ninguém antes de ser pai,
na convicção de que os sentimentos, que uma
tal qualidade faria nascer nele, o tornariam
mais apto a entender a infantilidade, gostaria
de me dirigir aqui somente a pessoas que te-
nham conhecido aquilo de que falo, não igno-
rando eu, embora, que uma tal amizade é rara
e nao esperando portanto deparar com um
bom juiz. As próprias obras que a esse respeito
nos legou a antiguidade parecem-me insossas,
se comparadas com os sentimentos que experi-
mento e cujos efeitos ultrapassam até os pre-
312 Terêncio.
MONTAIGNE
ceitos dos filósofos: “Enquanto for clarividente,
não encontrarei nada comparável a um terno
amigo” 13,
Dizia Menandro que podia estimar-se feliz
quem tivesse encontrado a sombra de um
amigo. E tinha por certo razão de o dizer
mesmo que houvesse conhecido tal felicidade.
Se, com efeito, comparo o resto de minha vida,
a qual graças a Deus me foi suave e fácil, isen-
ta de aflições penosas (à exceção da perda de
meu amigo), cheia de tranquilidade de espírito,
tendo-me contentado com as vantagens que
devo à natureza e a minha condição social sem
procurar outras; se comparo minha vida intei-
ra aos quatro anos durante os quais me foi
dado gozar a companhia tão amena de La
Boétie, ela não passa de fumaça. É uma noite
escura e aborrecida. Desde o dia em que o
perdi, “dia infeliz, mas que honrarei sempre,
porquanto tal foi a vontade dos Deuses”?! *,
não faço senão me arrastar melancolicamente.
Os próprios prazeres que se me oferecem, em
vez de me consolar ampliam a tristeza que
sinto da perda, pois éramos de metade em tudo
e parece, hoje, que lhe sonego a sua parte:
“assim decidi não mais participar de nenhum
prazer, agora que já não tenho aquele com
quem tudo dividia”3 18.
Já me acostumara tão bem a ser sempre dois
que me parece não ser mais senão meio:
“como uma morte prematura roubou-me a me-
lhor parte de minha alma, que fazer com a
outra? Um só e mesmo dia causou a perda de
ambos”??? 8. Nada fazia, nem um só pensa-
mento tinha que não lhe percebesse a ausência,
como certamente, em caso semelhante, eu lhe
faltaria. Porque se me ultrapassava em méritos
de toda espécie e em virtude, também me
sobreexcedia nos deveres da amizade: “Por
que se envergonhar? Por que deixar de chorar
tão querida alma?”3*? “Ó irmão, como sou
infeliz por te haver perdido! Contigo perece-
ram de um só goipe todas as nossas alegrias e
esse encanto que tua suave amizade deitava em
minha vida. Ao morrer, irmão, despedagaste
toda a minha felicidade; minha alma desceu ao
túmulo com a tua. Desde que não és mais,
disse adeus ao estudo e a todas as coisas da
inteligência”318. “Não poderei mais falar-te e
ouvir-te? Nunca mais te verei, então, ó irmão
mais caro do que a vida! Ah, ao menos amar-
te-ei sempre”*1º,
313 Horácio.
314 Virgílio.
315 Terêncio.
316 Horácio.
317 Td.
318 Catulo.
219 Td.
ENSAIOS—I 101
Projetara incluir aqui seu “Discurso sobre a
Servidão Voluntária”; mas esse escrito foi
posteriormente publicado. Os que o publica-
ram, indivíduos que procuram perturbar nossa
situação política atual, e modificá-la, sem
saber se a melhorarão, fizeram-no de má fé,
intercalando-o entre outros escritos de autoria
alheia e concebidos dentro de um mau espírito,
razão pela qual desisti de meu intento. Não
querendo entretanto que sobre a memória do
autor pese a opinião desfavorável de quem não
o viu de perto nas suas opiniões e ações, advir-
to que este ensaio, que foi composto na sua
juventude e tão-somente a título de exercício,
ventila um tema frequentemente tratado nos
livros. Não ponho em dúvida que La Boétie
pensasse O que escrevia, pois era demasiado
consciencioso para mentir, mesmo em se diver-
tindo. E sei também que se pudesse escolher
teria preferido nascer em Veneza a nascer em
CAPÍTULO
Este capítulo comporta os vinte e nove sone-
tos de La Boétie, que Montaigne dedica a Mme
de Grammont, Condessa de Guiche. Não figu-
ra — salvo a dedicatória, de nenhum interesse
sem os sonetos — na edição de La Pléiade,
Sarlac; e com razão. Mas obedecer e subme-
ter-se às leis sob as quais vivia era um princi-
pio que, para ele, primava entre os demais.
Nunca houve melhor cidadão; ninguém dese-
Jou mais a tranqiilidade de seu país, nem foi
mais inimigo das perturbações e das idéias
novas que ocorreram em seu tempo. Muito
mais se devotara a extingui-las do que a fornecer
argumentos que lhes favorecessem a propaga-
ção. Seu espírito era moldado sobre o modelo
de séculos diferentes dos nossos.
Em troca dessa obra apresentarei outra,
mais livre e leve, elaborada nessa mesma fase
de sua vida?2º,
320 Os sonetos de La Boétie, que Montaigne apre-
senta no capítulo seguinte, podem ser lidos em algu-
mas edições dos “Ensaios”. Não os reproduz a edi-
ção de La Pléiade. (N. do T.) .
RXIX
organizada e anotada por Thibaudet, e de cujo
texto, por ser o mais fiel, nos vimos valendo
nesta tradução. Deixamos, portanto, igual-
mente, de incluí-lo.
N. do T.
CAPÍTULO XXX
Da moderação
Como se tivéssemos infeccioso o tato, ecor-
re-nos corromper em as manuseando, as coisas
que, em si, são belas e boas. A virtude pode
tornar-se vício se ao seu exercício nos dedica-
mos com demasiada avides e violência. E
jogam com as palavras os que dizem não haver
excesso na virtude porque não há virtude onde
há excesso: “Não é sábio o sábio, nem justo o
Justo, se seu amor à virtude é exagerado?? 1.”
Trata-se de uma sutileza filosófica. Pode-se
dedicar imoderado amor à virtude e ser exces-
sivo em uma causa justa. Preconiza o apósto-
321 Horácio.
lo, a esse respeito, um equilíbrio razoável:
“Não sejais mais comportados do que o neces-
sário; ponde alguma sobriedade no bom
comportamento” 22. Vi um dos grandes deste
mundo prejudicar a religião por se entregar a
práticas religiosas incompatíveis com a sua
condição social. Aprecio os caracteres mode-
rados e prudentes: ultrapassar a medida, ainda
que no sentido do bem, é coisa que me espanta,
se não me incomoda, e a que não sei como
chamar. Mais estranha do que justa se me afi-
gura a conduta da mãe de Pausânias que foi a
322 São Paulo.
102 MONTAIGNE
primeira a denunciá-lo e a contribuir com a
primeira pedra para a morte do filho?2º; nem
tampouco aprovo a atitude do ditador Postú-
mio mandando matar o filho que, no entu-
siasmo da mocidade, saíra das fileiras para
atacar O inimigo, com felicidade aliás. Não me
sinto propenso nem a aconselhar nem a imitar
tão bárbara virtude, e tão cara. Falha o
archeiro que ultrapassa o alvo da mesma
maneira que aquele que o não alcança. Minha
vista se perturba se de repente enfrenta uma
luz violenta, e então vejo tão pouco como na
escuridão.
Calicles diz, em Platão, que a filosofia leva-
da ao extremo é prejudicial e aconselha que
não nos dediquemos a ela além dos limites de
sua utilidade. Praticada com moderação é
agradável e cômoda; mas se ultrapassa tais
limites, ela acaba tornando o homem inso-
ciável e viciado, desdenhoso da religião e das
leis que nos governam, inimigo da boa conver-
sação, dos prazeres permitidos, incapaz de
exercer funções públicas, de prestar socorro a
alguém e a si próprio, bom para ser impune-
mente esbofeteado. Calicles tem razão: levada
ao exagero, a filosofia escraviza nossa fran-
queza natural e, mediante sutilezas importu-
nas, nos desvia do belo caminhe que a natu-
reza nos traça.
A sa que dedicamos às nossas mulhe-
res é legítima. Não deixa entretanto a teologia
de freá-la e de restringi-la. Creio ter lido outro-
ra em Santo Tomás um trecho em que, entre
outras razões alegadas contra o casamento de
parentes próximos, havia esta: a possibilidade
de ser a amizade, por uma mulher nessas
condições, imoderada. Porque se à afeição
inteira, perfeita e natural do marido pela mu-
lher se acrescenta ainda a do parentesco, é de
se temer que a sobrecarga arraste o homem
para além do razoável.
As ciências que regem os costumes, como a
teologia e a filosofia, tudo controlam. Não hã
ato privado e secreto que não conheçam e que
escape à sua jurisdição. Errados os que lhe
censuram tal ingerência, pois nisso se asseme-
lham às mulheres que se entregam a todas as
fantasias mas se envergonham de se mostrar
ao médico. Que os maridos — se ainda exis-
tem demasiado propensos às relações conju-
gais — saibam que esses prazeres são reprova-
dos quando não há moderação e que assim
também podem pecar por licenciosidade e
desregramento tal qual nos casos de relações
323 A mae de Pausânias depositara um tijolo dian-
te do templo de Minerva onde se refugiara o rei seu.
filho. Os lacedemônios, aprovando-lhe o julgamento
simbólico, ergueram muros em torno do refúgio e
assim forçaram o prisioneiro a morrer de fome.
ilegitimas. Ag carícias vergonhosas a que a
paixão pode impelir no ardor dos primeiros
transportes, em se tratando de nossas mulhe-
res, são não apenas indecentes mas ainda
prejudiciais. Que não seja, ao menos, por
nosso intermédio que aprendam o despudor.
Para as nossas necessidades não precisam ser
mais sabidas do que são. Quanto a mim, nunca
agi senão de maneira mais simples e natural.
G casamento é uma ligação consagrada pela
religião e o respeito; eis por. que o prazer que
dele auferimos deve ser um prazer recatado,
sério, até certo ponto austero; deve ser um ato
de volúpia particularmente discreto e conscien-
cioso. Sendo o seu objetivo essencial a procria-
ção, há quem duvide de sua legitimidade se
não tivermos a esperança de um fruto, como
no caso de estar a mulher grávida ou ser dema-
siado idosa. Trata-se então de um homicídio,
segundo Platão.
Em certos povos, em particular entre os
muçulmanos, é abominável ter relações se-
xuais com uma mulher grávida. E há quem
reprove igualmente qualquer aproximação
com a mulher nas épocas de suas regras. Zenó-
bia somente dava satisfação ao marido em
vista da concepção. Deixava-o em seguida
divertir-se com outras durante a gravidez e só
9 aceitava novamente depois do parto. Eis um
belo exemplo de casamento.
É provável que Platão tenha colhido em
algum poeta esfaimado de prazeres a seguinte
história: Júpiter, de uma feita, andava em tal
estado de excitação que, sem esperar que sua
mulher alcançasse o leito, a possuiu no chão
mesmo, e com a violência do prazer esqueceu
as grandes e importantes resoluções que aca-
bara de tomar em sua corte celeste, de acordo
com os outros deuses; e vangloriava-se do fato
dizendo que a sensação de então fora tão gran-
de quanto a que tivera ao desvirginá-la às
escondidas dos pais.
Os reis da Pérsia admitiam que suas mulhe-
res lhes fizessem companhia nos festins, mas
quando o vinho começava a esquentar os espí-
ritos e que não podiam mais conter-se, manda-
vam-nas de volta a seus apartamentos a fim de
que não compartilhassem dos apetites imode-
rados, e determinavam que fossem substituídas
por cortesãs, às quais não deviam o mesmo
respeito.
Não são decentes para todas as pessoas os
mesmos prazeres. Epaminondas mandara en-
carcerar um jovem debochado; pediu-lhe Peló-
pidas que o soltasse. Epaminondas recusou-o;
cedeu entretanto à solicitação da jovem aman-
te do rapaz, dizendo que tal satisfação se dava
a uma amiga e não a um capitão. Sófccles,
quando pretor juntamente com Péricles, disse
ENSAIOS — 103
ao ver passar um belo rapaz: Oh! que lindo
jovem! Ao que Péricles atalhou: uma tal
exclamação seria permitida a qualquer um
menos a um pretor, pois o magistrado deve ser
casto e não só nas ações como nos olhares.
O Imperador Élio Vero respondeu à sua
mulher, que se queixava de que ele a abando-
nasse para ter relações alhures: que o fazia
porque era consciencioso, porquanto o casa-
mento é ato digno e honroso e não de lasciva
concupiscência. Nossa história eclesiástica
conservou e honrou a memória daquela mulher
que repudiou o marido não querendo prestar-
se a suas carícias insolentes e desregradas.
Em suma, não há prazer, por mais legítimo,
que não seja censurável em seus excessos. A
bem dizer o homem é um pobre animal. Tem
apenas um prazer, um único cujo gozo pleno e
-puro a natureza lhe concede, e sua razão reco-
menda que não abuse dele. Não se acha bas-
tante miserável, é preciso ainda que pelo racio-
cinio e o estudo aumente sua miséria:
“esforçamo-nos nós mesmos por agravar a
miséria de nossa condição”32 *.
A sabedoria humana tolamente se empenha
em restringir o número e o sabor dos nossos
prazeres, ao passo que se mostra judiciosa-
mente engenhosa em dissimular ou embelezar
os males da existência, atenuando-lhes os efei-
tos. Se estivesse em mimº? 8, houvera seguido
caminho mais natural, isto é, verdadeiro, cô-
modo e perfeito? 2 º, e talvez tivesse conseguido
contê-la, embora nossos médicos, tanto os do
espírito como os do corpo, e como que de
comum acordo, só considerem capazes de
curar ou mitigar nossas enfermidades fisicas e
morais, OS tormentos, a dor, o esforço penoso.
Para tanto, inventaram-se as vigílias, Os jejuns,
os cilícios, os exílios longínquos e voluntários,
a prisão perpétua, as vergas e outras aflições,
mas aflições reais de que resultem tristes
mortificações e não como ocorreu com um tal
Gálio, o qual, exilado em Lesbos, aí levava
uma vida airosa. Souberam em Roma que o
que lhe haviam imposto como castigo se trans-
formara em prazer. Voltaram atrás então e o
chamaram para junto da mulher e da família,
com ordem de não se deslocar, regulando
assim a natureza do castigo pelos seus efeitos.
Em verdade, não seria O jejum regime salutar
para quem com ele se sentisse mais alegre e
saudável; ou o peixe para quem o preferisse à
carne. Da mesma forma, na outra terapêutica
324 Propércio.
328 No texto: “si J'eusse été chef de part” — Se
fosse chefe de seita — que Thibaudet interpreta
como “se tivesse autoridade para”... (N. do T.)
326 “Saincte” — santo, perfeito. (N. do T.)
são as drogas sem efeito para quem as toma
com prazer, pois O amargor e o suplício de
tomá-las ajuda a cura. O ruibarbo perderia sua
eficiência em quem o aceitasse de bom grado;
para que opere é preciso que o remédio excitê
o estômago e a regra que determina que cada
coisa seja curada pela coisa contrária falha
aqui: o mal é que cura o mal.
Esta impressão tem alguma relação com
essa outra mui antiga, de conciliar o céu e a
natureza mediante sacrifícios humanos, e que
tiveram universalmente todas as religiões.
Ainda em épocas mais ou menos recentes
Amurat, por ocasião da tomada do istmo de
Corinto, imolou seiscentos jovens gregos à
alma de seu pai, a fim de que o sangue redi-
misse os pecados do defunto.
Nessas regiões ultimamente descobertas,
ainda puras e virgens comparativamente às
nossas, é costume sejam os ídolos embebidos
de sangue humano, o que por vez ocorre em
meio a horríveis requintes de crueldade. As vi-
timas são queimadas vivas e retiradas da
fogueira semi-assadas, para que lhes arran-
quem o coração e as entranhas. Alhures esfo-
lam-nas vivas e com a pele sanguinolenta
revestem outras pessoas, ou as mascaram, e
assim procedem mesmo quando as vítimas são
do sexo feminino. Isto dá azo por vezes a
exemplos notáveis de firmeza de ânimo e de
resolução. Esses infelizes, velhos, mulheres e
crianças, destinados ao sacrificio, vão eles pró-
prios esmolar oferendas para a cerimônia e se
apresentam ao massacre dançando e cantando
junto com os espectadores.
Os embaixadores do rei do México, que-
rendo dar a Cortez uma alta idéia do poder de
seu senhor, após afirmar que tinha trinta vas-
salos, cada qual com um exército de cem mil
guerreiros, e que ele residia na cidade mais
bela e forte do mundo, acrescentaram que lhe
cumpria sacrificar aos deuses cinquenta mil
homens anualmente. E disseram ainda que se
mantinha em estado de guerra contra alguns
grandes povos vizinhos, não somente a fim de
exercitar a juventude do império mas ainda
para suprir com prisioneiros a cerimônia. Com
esse mesmo Cortez aconteceu em certa aldeia
sacrificarem em sua honra cinquenta homens.
E mais um fato: alguns desses povos, vencidos
por ele, enviaram-lhe uma delegação a fim de
reconhecer sua autoridade e obter sua amiza-
de. E os mensageiros ofereceram-lhe presentes
de três espécies, dizendo: “Senhor, eis cinco
escravos. Se és um deus altivo, que se alimente
de carne e sangue, come-os; mais ainda te
amaremos. Se és um deus complacente, aqui
estão incenso e plumas. Se és um homem,
toma estes pássaros e estes frutos.”
104 MONTAIGNE
CAPÍTULO XXXI
Dos canibais
Quando o Rei Pirro entrou na Itália, e veri-
ficou a formação de combate do exército
romano, disse: “ Não sei que espécie de bárba-
ros são estes (pois os gregos assim chamavam
a todas as nações estrangeiras), mas.a forma-
ção de combate, que os vejo realizar, nada tem
de bárbaro”.. A mesma coisa diziam os gregos
do exército que a seu país Flamínio conduziu.
E Filipe assim falou igualmente, ao perceber
do alto de um outeiro a bela ordenação do
acampamento daquele que, sob Públio Sulpt-
cio Galba, acabava de entrar em seu reino.
Isso mostra a que ponto devemos desconfiar
da opinião pública. Nossa razão, e não o que
dizem, deve influir em nosso julgamento.
Durante muito tempo tive a meu lado um
homem que permanecera dez ou doze anos
nessa parte do Novo Mundo descoberto neste
século, no lugar em que tomou pé Villegaignon
e a que deu o nome de “França Antártica”.
Essa descoberta de um imenso país parece de
grande alcance e presta-se a sérias reflexões.
Tantos personagens eminentes se enganaram
acerca desse descobrimento que não saberei
dizer se o futuro nos reserva outros de igual
importância. Seja como for, receio que tenha-
mos os olhos maiores do que a barriga, mais
curiosidade do que meios de ação. Tudo abra-
çamos mas não apertamos senão .vento?? 7.
Platão mostra-nos Sólon afirmando ter ou-
vido dos Sacerdotes de Saís, no Egito, que
antes do dilúvio existia em frente de Gibraltar
uma grande ilha chamada Atlantida, mais
extensa do que a África e a Ásia reunidas e
que os reis déssa região não possuíam apenas a
ilha mas exerciam igualmente sua autoridade
tao longe, em terra firme, que ocupavam a
África até o Egito e a Europa até a Toscana.
Que haviam empreendido ir até a Ásia e subju-
gar as nações do Mediterrâneo até o golfo for-
mado pelo mar Negro; que para tanto haviam
atravessado a Espanha, a Gália, a Itália e che-
gado à Grécia onde os atenienses sustaram a
arremetida; que algum tempo depois sobre-
viera o dilúvio que os afogara juntamente com
os atenienses e sua ilha.
327 Quem tudo aharca nada aperta. (N. do T.)
É muito provável que nesse cataclismo hor-
rível as águas tenham provocado modificações
inimagináveis em todos os países habitados da
terra. Assim é que se atribui à ação das águas
do mar a separação da Sicília com a Itália:
“Dizem que essas regiões, outrora um só conti-
nente, foram violentamente separadas pela
força das águas”*?2º. e a da ilha de Chipre
com a Síria e a da de Negroponto com a terra
firme da Beócia. Em compensação, alhures, o
mar teria juntado terras separadas por estrei-
tos que foram aterrados por limo e areia: “um
pantanal há muito estéril, e que percorriam a
remo, alimenta hoje as cidades vizinhas e
conhece o arado fecundo do lavrador”*2º.
Não hã muitos indícios entretanto de que
seja a Atlântida o Novo Mundo que acabamos
de descobrir, pois quase tocava a Espanha e
seria efeito incrível da inundação tê-la trans-
portado à distância, em que se encontra, de
mais de mil e duzentas léguas. Ademais os
navegadores modernos já verificaram não tra-
tar-se de uma ilha, mas de um continente con-
tíguo às Índias Orientais, por um lado, e por
outro às terras dos pólos; e se destes se acha
separada é por tão pequeno estreito que não se
deve tampouco considerá-la uma ilha.
Creio que ocorreram nessas grandes massas
movimentos semelhantes aos que se constatam
em nossas regiões, naturais uns, acidentais e
violentos outros. Quando observo a ação exer-
cida pelo rio Dordonha, no decurso de minha
existência, abaixo de casa, na margem direita;
quando vejo quanto em vinte anos conquistou
de terras, e o que solapou de alicerces das
construções erguidas à sua margem, concluo
que não se trata de um fato normal. Se, com
efeito, assim tivesse sido sempre, ou que isso
devesse continuar, a configuração do mundo
acabaria por mudar. Mas esses movimentos
não são constantes: ora as âguas se expandem
por um lado, ora por outro; e ora param. Não
falo aqui das cheias súbitas cujas causas
conhecemos. Na região de Médoc, junto ao
mar, item meu irmão, Sr. de Arzac, uma de
328 Virgilio.
329 Horácio.
ENSAIOS —I
suas terras enterradas sob as areias que o mar
lhe vai jogando em cima. Os telhados de algu-
mas habitações se vêem ainda e essa proprie-
dade e suas culturas transformaram-se em bem
magras pastagens. Dizem os habitantes que de
uns tempos para cá avança o mar tão rapida-
mente que já perderam quatro léguas de terras.
Essas areias são seus arautos; como uma espé-
cie de dunas movediças precedem-no de cerca
de meia légua e conquistam insensivelmente a
região.
Outro testemunho da antiguidade, que se
quer aplicar a esse descobrimento, se encon-
traria em Aristóteles, se for de sua autoria a
obra intitulada “Maravilhas Extraordinárias”.
Nela se conta que alguns cartagineses, tendo-
se aventurado pelo Atlântico afora, alêm do
estreito de Gibraltar, teriam acabado, após
uma longa navegação, por descobrir uma
grande ilha férti!, coberta de bosques, regada
por grandes e profundos rios, e muito afastada
da terra firme. E que atraídos, eles e outros
mais tarde, pela qualidade e fertilidade do solo,
para ali teriam transportado suas mulheres e
filhos, nela se fixando. De tal amplitude se
revestira essa migração que as autoridades de
Cartago teriam proibido expressamente e sob
pena de morte que emigrassem quaisquer
outros. E teriam expulso da ilha cs que ali já
residiam, com receio de que se multiplicassem
a ponto de suplantar e arruinar o domínio da
metrópole. Esta narrativa de Aristóteles, tal
qual a de Sólon, não deve referir-se às nossas
novas terras.
O homem que tinha a meu serviço, e que
voltava do Novo Mundo, era simples e gros-
seiro de espírito, o que dá mais valor a seu
testemunho. As pessoas dotadas de finura
observam melhor e com mais cuidado as coi-
sas, mas comentam o que vêem e, a fim de
valorizar sua interpretação e persuadir, não
podem deixar de alterar um pouco a verdade.
Nunca relatam pura e simplesmente o que
viram, e para dar crédito à sua maneira de
apreciar, deformam e ampliam os fatos. A
informação objetiva nós a temos das pessoas
muito escrupulosas ou muito simples, que não
tenham imaginação para inventar e justificar
suas invenções e igualmente que não sejam
sectárias. Assim era o meu informante, o qual,
ademais, me apresentou marinheiros e comer-
ciantes que conhecera na viagem, o que me
induz a acreditar em suas informações sem me
preocupar demasiado com a opinião dos
cosmógtrafos. Fora preciso encontrar topógra-
fos**ºque nos falassem em particular dos
330 Exploradores.
105
lugares por onde andaram. Mas, porque levam
sobre nós a vantagem de ter visto a Palestina,
reivindicam o privilégio de contar o que se
passa no resto do mundo. Gostaria que cada
qual escrevesse o que sabe e sem ultrapassar os
limites de seus conhecimentos; e isso não só na
matéria em apreço mas em todas as matérias.
Há quem tenha algum conhecimento especial
ou experiência do curso de um riacho, sem
saber de resto mais do que qualquer um, e no
entanto para valorizar sua pitada de erudição
atira-se à tarefa de escrever um tratado acerca
da configuração do mundo. Este defeito muito
comum acarreta graves inconvenientes.
Mas, voltando ao assunto, não vejo nada de
bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles
povos; e, na verdade, cada qual considera bár-
baro o que não se pratica em sua terra. E é
natural, porque só podemos julgar da verdade
e da razão de ser das coisas pelo exemplo e.
pela idéia dos usos e costumes do país em que
vivemos. Neste a religião é sempre a melhor, a
administração excelente, e tudo o mais perfei-
to. A essa gente chamamos selvagens como
denominamos selvagens os frutos que a natu-
reza produz sem intervenção do homem. No
entanto aos outros, àqueles que alteramos por
processos de cultura e cujo desenvolvimento
natural modificamos, é que deveríamos aplicar
o epíteto. As qualidades e propriedades dos
primeiros são vivas, vigorosas, autênticas,
úteis e naturais; não fazemos senão abastar-
dá-las nos outros a fim de melhor as adaptar a
nosso gosto corrompido. Entretanto, em certas:
espécies de frutos dessas regiões, achamos um.
sabor e uma delicadeza sem par e que os torna
dignos de rivalizar com os nossos. Não há
razão para que a arte sobrepuje em suas obras
a natureza, nossa grande e poderosa mãe.
Sobrecarregamos de tal modo a beleza e rique-
za de seus produtos com as nossas invenções,
que a abafamos completamente. Mas, onde
permaneceu intata: e se mostra como é real-
mente, ela ridiculariza nossos vãos e frívolos
empreendimentos: “a hera cresce ainda melhor
sem cuidados; o medronheiro nunca se apre-
senta tão belo como nos antros solitários e o
canto dos pássaros é assim tão suave porque
natural?3º1. Nem apelando para todas as nos-
sas forças e os nossos talentos seriamos capa-
zes de reproduzir o ninho do pássaro mais
insignificante, com sua contextura e sua bele-
za, nem de o tornar adequado ao uso a que se
destina; e não saberíamos tampouco tecer a
teia de uma mirrada aranha. Todas as coisas,
disse Platão, produzem-nas a natureza ou o
331 Propércio.
106 MONTAIGNE
acaso, ou a arte. As mais belas e grandes são
frutos das duas primeiras causas; as menores €
mais imperfeitas, da última.
Esses povos não me parecem, pois, merecer
o qualificativo de selvagens somente por não
terem sido senão muito pouco modificados
pela ingerência do espírito humano e não have-
rem quase nada perdido de sua simplicidade
primitiva. As leis da natureza, não ainda
pervertidas pela imisção dos nossos, regem-
nos até agora e mantiveram-se tão puras que
lamento por vezes não as tenha o nosso mundo
conhecido antes, quando havia homens capa-
zes de apreciá-las. Lamento que Licurgo e Pla-
tão não tenham ouvido falar delas, pois sou de
“opinião que o que vemos praticarem esses
povos, não somente ultrapassa as magníficas
descrições que nos deu a poesia da idade de
ouro, é tudo o que imaginou como suscetível
de realizar a felicidade perfeita sobre a terra,
mas também as concepções e aspirações da
filosofia. Ninguém concebeu jamais uma sim-
plicidade natural elevada a tal grau, nem nin-
guém jamais acreditou pudesse a sociedade
subsistir com tão poucos artifícios. É um país,
diria eu a Platão, onde não há comércio de
qualquer natureza, nem literatura, nem mate-
máticas; onde não se conhece sequer de nome
um magistrado; onde não existe hierarquia
política, nem domesticidade, nem ricos e
pobres. Contratos, sucessão, partilhas aí são
desconhecidos; em matéria de trabalho só
sabem da ociosidade; o respeito aos parentes é
o mesmo que dedicam a todos; o vestuário, a
agricultura, o trabalho dos metais aí se igno-
ram; não usam vinho nem trigo; as próprias
palavras que exprimem a mentira, a traição, a
dissimulação, a avareza, a inveja, a calúnia, O
perdão, só excepcionalmente se ouvem. Quan-
to a República que imaginava lhe pareceria
longe de tamanha perfeição ! “São homens que
saem das mãos dos deuses” 332, “Como essas,
foram as primeiras leis da natureza” 23.
A região em que esses povos habitam é de
resto muito agradável. O clima é temperado a
ponto de, segundo minhas testemunhas, rara-
mente se encontrar um enfermo. Afirmaram
mesmo nunca terem visto algum epiléptico?* 4,
remeloso, desdentado ou curvado pela idade.
A região estende-se à beira-mar e é limitada do
lado da terra por platôs e altas montanhas, a
cerca de cem léguas, o que representa a
profundidade de seus territórios. Têm peixe e
carne em abundância, e de excelente qualida-
332 Sêneca.
333 Virgílio.
334 No texto “aucun tremblant”, o que supomos
referir-se à epilepsia. (N. do T.)
de, contentando-se com os grelhar para os
comer. O primeiro indivíduo que viram a cava-
lo inspirou-lhes tal pavor que embora já hou-
vessem estado com ele de outras feitas, o mata-
ram a flechadas e só então o reconheceram.
Suas residências constituem-se de barracões:
com capacidade para duzentas a trezentas pes-
soas, e são edificadas com troncos e galhos** 8
de grandes árvores enfiados no solo e se
apoiando uns nos outros na cumeada, à seme-
lhança de certos celeiros nossos cujos tetos
descem até o chão fechando os lados. Possuem
madeiras tão duras que com elas fabricam
espadas e espetos para grelhar os alimentos.
Seus leitos, formados de cordinhas de algodao,
suspendem-se ao teto, como nos nossos navios.
Cada qual tem o seu, dormindo as mulheres
separadas dos maridos. Levantam-se-com o sol
e logo merendam, não fazendo outra refeição
durante o resto do dia. Não bebem ao se
alimentarem, agindo nesse ponto, segundo Sui-
das, como outros povos. Fora das refeições,
bebem quanto e quando querem. Sua bebida
extrai-se de certa raiz; tem a cor de nossos cla-
retes e só a tomam morna. Conserva-se apenas
dois ou três dias, com um gosto algo picante,
sem espuma. É digestiva e laxativa para os que
não estão acostumados e muito agradável para
quem se habitua a ela. Em lugar de pão,
comem uma substância branca parecida com o
coentro cozido. Experimentei, é doce e algo
insosso. Passam o dia a dançar; os jovens vão
à caça de animais grandes contra os quais
empregam o arco unicamente. Enquanto isso,
uma parte das mulheres diverte-se com prepa-
rar a bebida, o que constitui sua principal
ocupação.
Todas as manhãs, antes que iniciem a refei-
ção, um ancião percorre o barracão, que tem
bem cem passos de comprimento, e prega aos
ocupantes sem cessar as mesmas coisas: valen-
tia diante do inimigo e amizade a suas mulhe-
res. E nunca esquêcem, ao fazer esta última
recomendação, de lhes lembrar que são elas
que fabricam a bebida e a conservam morna.
Podem ver-se em muitos lugares, em particular
em minha casa, esses leitos, cordas, espadas,
pulseiras de madeira que lhes protegem o pulso
no combate, e longos caniços furados dé um
lado que tocam para ritmar suas danças. Cor-
tam os pêlos'todos e se escanhoam melhor do
que nós, usando apenas navalhas de madeira
ou pedra. Acreditam na imortalidade da alma.
As que mereceram aprovação dos deuses alo-
jam-se no céu do lado do nascente; as amaldi-
çõadas do lado do poente.
335 O texto diz “écorses”, mas deve tratar-se, pela
descrição, de troncos. (N. do T.)
ENSAIOS— 107
Têm não sei que tipos de sacerdotes ou pro-
fetas que aparecem rararnente e moram nas
montanhas. Quando surgem, há grandes festas
e realiza-se úma assembléia solene a que se
apresentam todas as aldeias. Cada uma das
habitações a que me referi forma uma al-
deia?3 * e distam uma da outra cerca de uma
légua de França. O profeta fala-lhes em públi-
co, exortando-os à virtude, e ao dever. Sua
moral resume-se em dois pontos: valentia na
guerra e afeição por suas mulheres. Prediz
também o futuro e o que devem esperar de seus
empreendimentos, incitando à guerra ou a
desaconselhando. Mas importa que diga certo,
pois do contrário, se o pegam, é condenado
como falso profeta e esquartejado. Por isso
não se revê jamais quem uma vez errou. Adivi-
nhar é dom de Deus, enganar é uma imposiura
merecedora de castigo. Entre os citas, pcr
“exemplo, quando os adivinhos se enganavam
em suas previsões, jogavam-nos, pês e mãos
algemados, dentro de um carro de boi cheio de
gravetos a que deitavam fogo. Os que têm a
seu cargo dirigir os fatos cometidos à sagaci-
dade humana, são desculpáveis se recorrerem
a todos os meios a seu alcance. Mas não
devem ser punidos os outros, pela sua impostu-
ra, Os que nos iludem apresentando-se como
donos de uma faculdade extraordinária e fora
do nosso conhecimento? a
Esses povos guerreiam os que se encontram
além das montanhas, na terra firme. Fazem-no
inteiramente nus, tendão como armas apenas
seus arcos e suas espadas de madeira, pontia-
gudas como as nossas lanças. E é admirável a
resolução com que agem nesses combates que
sempre terminam com efusão de sangue e mor-
tes, pois ignoram a fuga e o medo. Como tro-
féu, traz cada qual a cabeça do inimigo truci-
dado, a qual penduram à entrada de suas
residências. Quanto aos prisioneiros, guar-.
dam-nos durante algum tempo, tratando-os
bem e fornecendo-lhes tudo de que precisam
até o dia em que resolvem acabar com eles.
Aquele a quem pertence o prisioneiro convoca
todos os seus amigos. No momento propício,
amarra a um dos braços da vítima uma corda
cuja outra extremidade ele segura nas mãos, O
mesmo fazendo com o outro braço que fica
entregue a seu melhor amigo, de modo a man-
ter o condenado afastado de alguns passos e
incapaz de reação. Isso feito, ambos o moem
de bordoadas às vistas da assistência, assan-
do-o em seguida, comendo-o e presenteando os
amigos ausentes com pedaços da vitima. Não
o fazem entretanto para se alimentarem, como
o faziam os antigos citas, mas sim em sinal de
336 Taba, sem dúvida. (N. do T.)
vingança, e a prova está em que, tendo visto os
portugueses, aliados de seus inimigos, empre-
garem para com eles, quando os aprisionavam,
outro gênero de morte, que consistia em enter-
rá-los até a cintura, crivando de flechas a parte
fora da terra e enforcando-os depois, imagina-
ram que essa gente da mesma origem daqueles
seus vizinhos que haviam espalhado o conheci-
mento de tantos vícios, que essa gente, muito
superior a eles no mal, não devia ter escolhido
sem razão um tal processo de vingança, o qual
por isso adotaram, porque o acreditavam mais
cruel, e abandonaram seu sistema tradicional.
Não me parece excessivo julgar bárbaros
tais atos de crueldade, mas que o fato de con-
denar tais defeitos não nos leve à cegueira
acerca dos nossos. Estimo que é mais bárbaro
comer um homem vivo do que o comer depois
de morto; e é pior esquartejar um homem entre
suplícios e tormentos e o queimar aos poucos,
ou entregá-lo a cães e porcos, a pretexto de
devoção e fé, como não somente o lemos mas
vimos ocorrer entre vizinhos nossos conterra-
neos; e isso em verdade é bem mais grave do
que assar e comer um homem previamente
executado.
Crisipo e Zenão, chefes da escola estóica,
admitiam não haver mal em tirar partido de
nossos cadáveres se necessário, nem mesmo
em nos alimentarmos deles como o fizeram
nossos antepassados que, assediados por
César em Alésia, resolveram, a fim de prosse-
guir resistindo, matar a fome comendo os
“velhos, as mulheres e todos os que não fossem
úteis 2o combate: “dizem que os gascões
prolongaram a vida valendo-se de semelhantes
alimentos?*2 7. E os médicos não temem
empregá-los em toda espécie de usos internos e
externos em benefício de nossa saúde. Mas não
se ouviu iamais ninguém que tivesse o julga-
mento moral assaz pervertido para desculpar a
traição, a deslealdade, a tirania, a crueldade,
nossos defeitos habituais. Podemos portanto
qualificar esses povos como bárbaros em
dando apenas ouvidos à inteligência, mas
nunca se Os compararmos a nós mesmos, que
os excedemos em toda sorte de barbaridades.
Fazem a guerra de um modo nobre e gene-
roso e ela é neles desculpável e bela na medida
em que pode ser desculpável e bela essa doen-
ça da humanidade, pois não tem entre eles
outra causa senão a da inveja da virtude?*8.
Não entram em conflito a fim de conquistar
novos territórios, porquanto gozam ainda de
uma uberdade natural que sem trabalhos nem
fadigas lhes fornece tudo de que necessitam e
337 Juvenal.
338 No caso, a virtude da valentia.
108
em tal abundância que não teriam motivo para
desejar ampliar suas terras. Têm ademais a
felicidade de limitar seus desejos ao que exige
a satisfação de suas necessidades naturais,
tudo o que as excede lhes parecendo supérfluo.
Tratam-se mutuamente por irmãos quando são
da mesma idade, e aos mais jovens chamam
filhos; e pais aos velhos, indistintamente.
Quando morrem estes, passam os seus bens
aos herdeiros naturais; as heranças não são
divididas, conservando todos os participantes
a posse do todo, sem outro título que o que
lhes dá a natureza ao criá-los. Se Os povos vizi-
nhos descem das montanhas para os atacar €
- são vitoriosos, o benefício de sua vitória con-
siste unicamente na glória que auferem dela e
na vantagem de se terem mostrado superiores
em valentia e coragem, pois não saberiam que
fazer dos bens dos vencidos. Voltam para suas
terras onde nada lhes falta e onde podem gozar
a felicidade de saber contentar-se com sua con-
dição. Se são vencidos, seus inimigos proce-
dem de igual maneira. Aos prisioneiros não se
exige senão que se confessem vencidos. Mas
não se encontra um só, em um século, que não
prefira a morte a assumir uma atitude ou a
proferir uma palavra suscetíveis de desmen-
tirem uma coragem que timbram em ostentar
acima de tudo. Não se vê nenhum que não pre-
fira ser matado e comido a pedir mercê. Dão-
lhes inteira liberdade, a fim de que a vida lhes
seja mais cara, e não cessam de entretê-los
acerca da morte que os espera brevemente, das
torturas que experimentarão, dos preparativos,
para o suplício, de seus membros decepados e
do festim que farão com eles. Tudo isso no
intuito de lhes arrancar alguma palavra de
queixa ou fraqueza, ou de os levar à fuga, com
o que mostram tê-los apavorado e triunfado de
sua firmeza de ânimo. Nisso, em verdade, e só
nisso consiste a vitória: “A vitória verdadeira
é a que constrange O inimigo a confessar-se
vencido”33º.
Os: húngaros, que são muito belicosos, não
prosseguiam na guerra senão até que o inimigo
se rendesse; logo que se confessava vencido,
deixavam-no ir sem o molestar, nem exigir res-
gate. Apenas queriam que prometesse não
mais pegar em armas contra eles. Quando ven-
cemos nossos inimigos, devemo-lo antes a van-
tagens ocasionais e não a nosso mérito exclusi-
vo. Ter braços e pernas sólidos é apanágio do
carregador e não da virtude; independe de nós,
e é cóisa toda física, ter boa saúde. E é golpe
de sorte abalar o inimigo ou conseguir com
que tenha o sol nos olhos e se ofusque. E é
tão-somente prova de habilidade e treino, que
338 Cláudio.
MONTAIGNE
pode oferecer igualmente um covarde ou um
plebeu, saber manejar o florete. O valor de um
homem, e a estima que nos inspira, medem-se
pelo seu caráter e força de vontade. A valentia
não decorre do vigor físico e sim da firmeza de
ânimo e da coragem; não consiste na superio-
ridade de nossa montaria e de nossas armas,
mas na nossa. Quem sucumbe sem que sua
coragem se abata; “quem, se cai, combate de
joelho”3 *º: «quem, apesar das ameaças de
morte não perde sua altivez; quem, agonizante,
permanece impassível é com o olhar desafia
ainda O inimigo, não é por nós abatido e sim
pelo destino. Morre mas sem ser vencido. Os
mais valentes são por vezes os mais infelizes, O
que faz com que haja derrotas mais gloriosas
do que as vitórias. As quatro brilhantes vitó-.
rias de Salamina, Platéia, Micale e Sicília, as
mais belas que testemunhou o sol, serão mais
gloriosas do que a que conquistou o Rei Leôni-
das nas Termópilas? Quem jamais preparou a
vitória com mais cuidado da glória e mais
ardente desejo de vencer, do que Ischolas sua
derrota? Quem preparou a sua salvação mais
engenhosa e estranhamente do que ele a sua
perda? Fora encarregado de defender uma pas-
sagem do Peloponeso contra os árcades.
Compreendendo que os não poderia rechaçar,
em virtude da topografia local e da inferiori-
dade numérica de suas forças; certo de que
tudo o que se opusesse ao inimigo seria
destruído; julgando por outro lado indigno de
sua própria coragem e de sua grandeza de
alma, tanto quanto de um lacedemônio, faltar
ao dever, entre duas resoluções extremas esco-
lheu uma que as conciliasse: dispensou os mais
jovens e vigorosos da tropa, a fim de os con-
servar para a defesa do país, e, com os que
menos falta deviam fazer, resolveu defender a
passagem entregue a sua guarda, cobrando
com a morte dos defensores o mais caro possi-
vel a vitória do inimigo. Foi o que aconteceu:
logo cercados de todos os lados pelos árcades,
Ischolas e os seus sucumbiram e foram levados
ao fio de espada após verdadeira carnificina.
Que troféu assinalado aos vencedores não fora
antes devido a vencidos dessa ordem? À ver-
dadeira vitória reside na maneira por que com-
batemos e não no resultado final. E não con-
siste a honra em vencer mas em combater..
Voltemos à nossa história. Com tudo! isso
que lhes fazem, não conseguem nem de longe
que os prisioneiros cedam; ao contrário,
durante os dois ou três meses que permanecem
prescs, afetam alegria e incitam seus senhores
a se apressarem em submetê-los às provações
com que os ameaçam. Desafiam-nos e os inju-
340 Sêneca.
ENSAIOS —i 109
riam, censurando-lhes a covardia e lhes recor-
dando os combates que perderam em outras
ocasiões. Tenho em meu poder o canto de um
desses prisioneiros. Eis o que diz: “Que se
aproximem todos com coragem e se juntem
para comê-lo; em o fazendo comerão seus pais
e seus avós que já serviram de alimento a ele
próprio e deles seu corpo se constituiu. Estes
músculos, esta carne, estas veias, diz-lhes, são
vossas, pobres loucos. Não reconheceis a subs-
tância dos membros de vossos antepassados
que no entanto ainda se encontram em mim?
Saboreai-os atentamente, sentireis o gosto de
vossa própria carne.” Haverá algo bárbaro
nesta composição? Os que lhes descrevem os
suplícios e os representam no momento em que
são esbordoados, pintam-nos cuspindo no
rosto dos que os trucidam em meio a caretas.
E, com efeito, até exalarem o último suspiro,
não param de desafiar os inimigos tanto pelas
atitudes como pelos propósitos. Por certo, em
relação a nós são realmente selvagens, pois
entre suas maneiras e as nossas há tão grande
diferença que ou o são ou o somos nós.
Os homens têm várias mulheres, em tanto
maior número quanto mais famosos e valentes.
Particularidade que não carece de beleza, nes-
ses lares o ciúme, que entre nós impele nossas
esposas a impedir que busquemos a amizade €
as boas graças de outras mulheres, entre eles
as induz a arranjarem outras para seus mari-
dos. A honra deste primando entre todas as de-
mais considerações, pôem elas todo o cuidado
em ter o maior número possível de companhei-
ras, pois esse número comprova a coragem do
esposo. Entre nós falariam de milagre. Não se
trata disso e sim da virtude matrimonial eleva-
da ao máximo. Não nos mostra a Bíblia,
Sara? *'e as mulheres de Jacó, Lia e Raquel,
pondo suas serventes à disposição de “seus
maridos? Não auxiliou Lívia, contra seu inte-
resse, a satisfação dos desejos de Augusto? E
Estratonice, mulher de Dejótarc, não somente
emprestou ao marido uma de suas mais belas
serventes, para que a usasse como entendesse,
mas ainda educou os filhos da concubina e os
ajudou a suceder ao pai. E não se imagine que
se trate da observação servil de um costume,
imposta pela autoridade dos costumes tradi-
cionais, e que se aplique sem maior discussão,
porquanto são os selvagens demasiado estúpi-
dos para se rebelarem. Eis alguns traços que
demonstram o contrário. Transcrevi aqui um
de seus cantos guerreiros: pois tenho também
uma canção de amor: “Serpente, pára; pára,
341 No texto: “Lia, Rachel e Sarah, femmes de
Jacob”, mas há confusão porquanto Sara era mu-
lher de Abraão. (N. do T.)
serpente, a fim de que minha irmã copie as
cores com que te enfeitas; a fim de que eu faça
um colar para dar à minha amante; que tua be-
leza e tua elegância sejam sempre preferidas
entre as das demais serpentes.” E a primeira
estrofe e o estribilho da canção; ora, eu conhe-
ço bastante a poesia para julgar que este pro-
duto de sua imaginação nada tem de bárbaro,
antes me parece de espírito anacreôntico. Aliás
a lingua que falam não carece de doçura. Os
sons são agradáveis e as desinências das pala-
vras aproximam-se das gregas.
Três dentre eles (e como lastimo que se te-
nham deixado tentar pela novidade e trocado
seu clima suave pelo nosso !), ignorando quan-
to lhes custará de trangiúilidade e felicidade o
conhecimento de nossos costumes corrompi-
dos, e quãó rápida será a sua perda, que supo-
nho já iniciada, estiveram em Ruão quando ali
se encontrava Carlos IX. Entreteve-se o rei
com eles, iongamente: mostraram-lhes como
viviamos no cotidiano; ofereceram-lhes gran-
des festas; ensinaram-lhes como era uma cida-
de grande. Alguém lhes havendo perguntado
mais tarde o que pensavam da cidade e o que
ela lhes tinha revelado, citaram três coisas.
Esqueci a terceira, e o lamento, mas lembro-
me das duas outras. Disseram antes de tudo
que lhes parecia estranho tão grande número
de homens de alta estatura e barba na cara,
robustos e armados €e que se achavam junto do
rei (provavelmente se referiam aos suíços da
guarda) se sujeitassem em obedecer a uma
criança e que fora mais natural se escolhessem
um deles para o comando. Em segundo lugar
observaram que há entre nós gente bem
alimentada, gozando as comodidades da vida,
enquanto metades de homens emagrecidos,
esfaimados, miseráveis mendigam às portas
dos outros (em sua linguagem metafórica a tais
infelizes chamam metades”); e acham ex-
traordinário que essas metades de homens
suportem tanta injustiça sem se revoltarem e
incendiarem as casas dos demais.
Conversei longamente com um deles, mas
meu intérprete compreendia tão mal e se mos-
trava tão embaraçado com as perguntas que,
graças à sua estupidez, não pude obter algo
mais sério de meu interlocutor. Tendo-lhe per-
guntado de onde provinha sua ascendência
sobre os seus (era um chefe e nossos mari-
nheiros o tratavam como rei), respondeu-me
que tinha o privilégio de marchar à frente dos
outros quando iam para a guerra. À minha
pergunta: quantos homens o acompanhavam?
mostrou um terreno como para dizer: o que
cabia naquele espaço, cerca de cinco mil
homens. Indaguei ainda se nas épocas de paz
110 MONTAIGNE
ele conservava alguma autoridade,e disse-me:
“Quando visito as aldeias que dependem de
mim, abrem-me caminhos no mato para que eu
possa passar sem incômodo.” Tudo isso é, em
verdade, interessante, mas, que diabo, essa
gente não usa calças!
CapíTULO XXXII
De como é preciso prudência no julgar
os desígnios da Providência
No desconhecido situa-se o verdadeiro
campo de ação da impostura; já porque a pró-
pria extravagância a favorece e lhe dá crédito,
já porque, escapando à razão comum, não
temos meios para a combater. Eis por que, diz
Platão, é mais fácil ser acreditado quando se
fala de coisas da natureza divina do que de
coisas de natureza humana; pois a ignorância
dos ouvintes abre bela carreira aos argumentos
inverificáveis. Daí resulta nada encontrar mais
credulidade do que o que menos se conhece; e
não haver quem fale com mais segurança do
que os que nos contam fábulas, os alquimistas,
os profetas, os astrólogos? *2, os quiromantes,
os médicos, e gente da mesma espécie, a que eu
juntaria de bom grado, se ousasse, um punha-
do de sujeitos que se metem constantemente a
interpretar e controlar? *º os desígnios de
Deus, pretendendo penetrar as causas de tudo,
os segredos da vontade divina e as razões
insondáveis de suas obras. E apesar dos
desmentidos contínuos que lhes infligem os
acontecimentos, e embcra se vejam jogados de
um lado para outro, não cessam de se entregar
à sua mania? *4, de pintar com o mesmo car-
vão o preto e o branco.
Entre certos índios, há uma prática digna de
elogios. Se lhes ocorre algum malogro em
duelo ou combate, pedem publicamente perdão
ao sol, seu Deus, como se o houvessem ofendi-
do, reconhecendo assim auferirem felicidade e
desgraça da divindade, juiz de seus projetos e
ações. Ao cristão basta-lhe crer que tudo di-
342 “Tudiciaire”, já arcaico no tempo de Mon-
taigne com esse significado. (N. do T.)
343 Montaigne emprega exatamente a palavra
“contreoller”, de que saiu “contrôler”, a qual não é
inglesismo como muitos pensam. Ver a propósito o
dicionário de Oxford. (N. do T.)
344 No texto “suivre son esteuf”. Não se encontrou
explicação clara para a expressão. Godefroy dá
para esteuf o significado de “peixe” migratório. —
Seguir seu peixe, sua mania, “son dada”, Michaut
interpreta: “praticar o mesmo jogo”. Thibaudet diz:
“seguir a bola”. (N. do T.)
mana de Deus, aceitar e agradecer conformado
o bem e o mal que, em sua infinita sabedoria,
Ele lhe oferece sem que possamos penetrar-
lhes os móveis. O que eu reprovo é que se apele
para OS nossos sucessos felizes como meio de
exaltar e consolidar nossa religião. Nossa fé
assenta em outros alicerces, e não lhe é neces-
sária a ajuda dos acontecimentos. Habituar o
povo a semelhantes argumentos, aos quais ja é
por demais levado, apresenta um perigo: se
uma reviravolta se opera nos favores da sorte,
se esta nos é contrária, .a fé pode abalar-se. É o
que ocorre neste momento em nossas guerras
religosas: os que levaram vantagem na batalha
de Roche-Abeille argumentaram com seu
êxito, como se decorresse de uma aquiescência
divina; posteriormente explicaram as derrotas
de Montcontour e Jarnac como um castigo, a
exemplo do que um pai administra por vezes
aos filhos. Mas se o povo, a quem assim fala-
mos, não nos é inteiramente devotado, sem difi-
culdade compreende que procuramos tirar
duplo benefício de uma só coisa, que com a
mesma boca sopramos calor e frio. Melhor
fora entretê-lo acerca daquilo que na realidade
constitui os princípios fundamentais da verda-
de. À
Bela foi a batalha naval que ultimamente
vencemos contra os turcos e sob o comando de
D. João da Austria; mas Deus permitiu que em
idênticas circunstâncias perdêssemos batalhas
não menos importantes. Em suma, é-nos dificil
pesar as coisas divinas, sem as diminuir, uni-
camente com a nossa balança. Quem quisesse
tirar uma conclusão do fato que Ário e o Papa
Leão, principais chefes da heresia a que O pri-
meiro deu o nome, tenham morrido em épocas
diferentes mas em condições idênticas e parti-
culares (tomados de dores e obrigados a aban-
donar a discussão para irem à privada e aí
sucumbirem repentinamente) e levasse o exa-
géro a ver na circunstância de lugar mais uma
prova da vingança divina, poderia citar ainda
em abono de sua tese a morte de Heliogábalo
ENSAIOS — I. 111
também ocorrida na retrete. Mas como expli-
car por que teve Irineu igual fim?
Deus quer mostrar assim que os bons têm
outra coisa a esperar e os maus outra a temer,
que não as graças e desgraças deste mundo.
Delas dispõe, segundo seus desígnios impene-
tráveis, e nos tira desse medo os meios de nos
vangloriarmos ou de as explorarmos. Enga-
nam-se contudo os que se prevalecem disso
para justificar atos humanos; não invocam
uma só prova a favor que não se apresentem
imediatamente duas contra, e Santo Agostinho
o demonstra vitoriosamente a seus contradi-
tores. E uma questão que foge ao domínio da
razão. Somos obrigados a nos contentarmos
com a luz que apetece ao sol comunicar-nos, e
quem tente fixá-la, a fim de absorver maior
quantidade em seu corpo, não se espante se
com sua temeridade presunçosa perder a vista:
“Porquanto que homem pode saber o conselho
de Deus? Quem pode alcançar o querer do
Senhor ts
345 “Sabedoria”, IX, 13.
CAPÍTULO XXXIII
Devemos fugir da volúpia ainda que nos custe a vida
Sempre vi convirem as escolas antigas em
que é chegada a hora de morrer quando nos
cabe esperar da vida mais males do que bens; e
conservá-la quando só nos causa tormentos e
nos pesa, é ir de encontro ao que a própria
natureza determina, como dizem estas senten-
ças de outrora:
Ou uma vida trangúila ou uma morte
feliz;
é belo morrer quando a vida é opróbrio;
não viver é melhor do que viver desgra-
çado? * 8.
Mas levar o desprezo à morte a ponto de recor-
rer a ela a fim de evitar honrarias, riquezas,
grandezas e outros bens que aos nossos olhos
constituem a fortuna, como se não nos bas-
tasse apelar para a razão a fim de os abando-
nar, nunca o vira ainda, quando me caiu entre
as mãos um trecho em que Sêneca aconselha
Lucífio, poderoso personagem da Corte do
imperador, junto ao qual gozava de grande
prestígio, a renunciar à vida de prazeres e
luxos que levava, a renunciar à ambição e
substituir a tais desordens uma existência soli-
tária, trangúila, dedicada à filosofia. Lucílio
objetou alegando certas dificuldades, ao que
Sêneca respondeu: “Estimo que é preciso
renunciar a esse gênero de vida ou à própria
vida. Embora te aconselhe o meio mais suave,
que é o de desfazeres o que tão mal amarraste
em lugar de cortares o nó, só to aconselho sob
346 -Crispino de Heracléia, segundo Thibaudet;
Strobeu, segundo Michaut.
a condição de o cortares se não puderes desfa-
zê-lo de outro modo. Não há homem, por mais
covarde, que não prefira cair uma vez por
todas a viver constantemente sob a ameaça de
uma queda iminente.” “Teria achado acertado
um tal conselho na boca dos estóicos; sur-
preendeu-me que fosse tirado de Epicuro, o
qual escreve, a propósito, coisas idênticas a
Idomeneu. Parece-me ter observado em certos
fatos de nossa época essa mesma tendência,
embora mitigada pela moderação crista. .
Santo Hilário, bispo de Poitiers, inimigo
declarado da heresia ariana, soube, na Síria,
que Abra, a filha única que deixara na Gália
com a mãe, era pedida em casamento por
grandes senhores do país, por ser bem educa-
da, bela, rica e jovem. Escreveu-lhe o santo,
como sabemos, que não atentasse para esses
pedidos, por vantajosos e desejáveis que lhe
parecessem, porquanto em sua viagem lhe
havia encontrado partido melhor e mais digno,
um marido poderoso e magnífico que lhe faria
presente de jóias e vestidos de valor incalcu-
lável. Na realidade, aspirava a levá-la a des-
prezar Os prazeres mundanos para que se dedi-
casse a Deus. Pensando, depois, que a morte
da filha era ainda o meio mais rápido e certo
de atingir esse objetivo, não cessou de pedir a
Deus, mediante preces e promessas, que a
fizesse sair do mundo e a chamasse a si, O que
aconteceu. Pouco depois de sua volta ela mor-
reu, do que tirou ele singular alegria.
Santo Hilário parece sobreexceder aos ou-
tros porque apela antes de mais nada para a
morte, o que os outros só fazem como último
recurso, e-também porque se trata de sua filha
es ea a is We D0 = = Sa]
LIZ
única. Mas a história tem uma continuação
que não quero omitir, embora não se prenda
precisamente a meu assunto. A mulher de
Santo Hilário sabendo, dele, que a morte da
filha fora premeditada e solicitada, e quanto
mais feliz seria longe deste mundo, tomou-se
MONTAIGNE
de tão ardente desejo de ir para o céu gozar a
eterna beatitude, que suplicou ao marido a
mesma graça. E Deus, acedendo às preces
comuns, chamou-a a si logo depois. E essa
morte, acolhida com entusiasmo, causou a
ambos excepcional satisfação.
CAPÍTULO XXXIV
Não raro a sorte na razão se apóia
A inconstância da sorte faz que se apresente
necessariamente a nós sob os mais diversos
aspectos.
Haverá algo mais justo do que o seguinte
fato? O Duque de Valentinois resolvera enve-
nenar Adriano, cardeal de Cornete, em casa de
quem seu pai, o Papa Alexandre VI, e ele pró-
prio deviam cear. Mandou-lhe por isso com
antecedência uma garrafa de vinho envene-
nado, recomendando ao despenseiro que a
guardasse cuidadosamente. O papa chegou
antes de seu filho e pediu algo para beber. O
despenseiro, imaginando que lhe haviam espe-
cialmente recomendado o tal vinho porque era
particularmente bom, serviu-o ao papa. Che-
gando o duque naquele momento, e certo de
que não era a sua garrafa, bebeu também. O
pai teve morte imediata; quanto ao filho, ficou
gravements e durante muito tempo doente. Um
fim mais desgraçado lhe estava reservado.
A sorte parece por vezes brincar conosco.
Embora de partidos opostos, como acontece
entre.vizinhos de um e outro lado da fronteira,
o Sr. d'Estrée, então porta-estandarte do Sr. de
Vendôme, e o Sr. de Liques, tenente do Duque
d'Ascot, eram ambos pretendentes à mão da
irmã do Sr. de Foungueselles. Venceu o Sr. de
Liques. No próprio dia do casamento, e o que
é pior, antes de a possuir, teve ele a idéia fanta-
sista de romper uma lança em honra da jovem
esposa e foi duelar perto de St. Oner. O Sr.
dºEstrée ganhou e fê-lo prisioneiro. E aguardou
que a jovem, “forçada a renunciar ao amor de
seu novo esposo antes que as longas noites de
um ou dois invernos saciassem a avidez de seu
desejp”* * 7, lhe requeresse em pessoa a Jiber-
dade do marido, ao que ele aquiesceu, pois a
nobreza de França nada recusa às senhoras.
E parece por vezes que a sorte aja também
347 Catulo.
com arte. Constantino, filho de Helena, funda
o Império de Constantinopla, o qual: séculos
depois termina outro Constantino filho de
outra Helena. De outras feitas ela se compraz
em exceder nossos milagres. Assim é, dizem,
que o Rei Clóvis, que assediava Angoulême,
viu caírem as fortificações da cidade por efeito
de divina proteção. Conta também Bouchet
que o Rei Roberto, que sitiava certa cidade,
dela se afastou para ir a Orleães tomar parte
nas festividades de Santo Agnan. A certo
momento da missa, ruíram os baluartes da ci-
dade assediada, sem terem sido objeto-de ne-
nhum assalto. Nas guerras da região milanesa,
idêntico prodígio se verificou, porém contra
nós: sitiando por nossa conta a cidade de
Arona, mandou o Capitão Rense colocarem
uma mina sob um grande trecho das muralhas,
o qual se ergueu da terra subitamente mas tor-
nou a cair no mesmo lugar, verticalmente, de
modo que os sitiados continuaram tão protegi-
dos quanto antes.
Por vezes a sorte cura. Jason de Pheres, com
um abscesso no peito, fora desenganado pelos
médicos. Resolvido a libertar-se da dor, ainda
que lhe custasse a vida, jogou-se de corpo €
alma no combate. Traspassado por um golpe
de lança, teve o abscesso vazado e sarou.
Não se mostrou ela, com o pintor Protóge-
nes, mais talentosa do que ele na mesma arte?
Protógenes pintara, e muito bem, um cão
exausto e agonizante, e andava muito contente
com sua obra, salvo quanto à espuma e à baba
que não conseguia representar com perfeição.
Despeitado, tomou de uma esponja impreg-
nada das diversas cores e lançou-a contra a
tela no intuito de a destruir. À sorte tão bem
orientou o golpe que a esponja deu na goela do
cão e fez o que o artista não pudera fazer.
Vemo-la não raro retificar e corrigir-os nos-
sos projetos. Isabel, rainha da Inglaterra, vol-
ENSAIOS — 113
tava a seu reino, vinda da Zelândia, e conduzia
um exército em socorro do filho contra o mari-
do. Estava perdida se entrasse no porto como
pretendia, porquanto seus inimigos aí a espera-
vam. Quis a sorte, contra a sua vontade, jogá-
la em outro ponto da costa onde desembarcou
em segurança. E não estava com a verdade
aquele personagem da antiguidade que, que-
rendo jogar uma pedra em um cachorro, atin-
gira a sogra e a matara? E dizia: “A sorte é
mais sábia do que nós”? 4º.
Hiícetas subornara dois soldados a fim de
que assassinassem Timoleão durante sua esta-
da em Ádrana, na Sicília. Combinaram os
conjurados que agiriam durante um sacrifício
que a vítima devia oferecer. Misturados à mul-
tidão, faziam-se reciprocamente sinais de que
o momento era propício, quando alguém
assentou um golpe de espada na cabeça de um
deles, matando-o e fugindo a seguir. Acredi-
tando-se descoberto e perdido, o segundo cor-
reu ao altar pedindo mercê e prometendo tudo
revelar. E enquanto contava a verdade, eis que
surge o agressor, arrastado, pelo povo que o
pretendia linchar, até aos pés de Timoleão e
outros personagens importantes. Aí pede ele
perdão e narra como com razão matara o
348 Menandro.
assassino de seu pai. Comprovando-se com
testemunhas, por acaso presentes, que dizia a
verdade, que seu progenitor fora realmente
assassinado na cidade dos leontinos por aquele
de quem agora se vingava, teve, como recom-
pensa por ter salvo assim ao se vingar aquele a
quem os sicilianos chamavam “Pai do Povo”,
dez minas áticas? *º. Não ultrapassa qualquer
previsão humana um tal golpe de sorte?
Terminarei com um fato que nos mostra a
sorte revelando particular favor, bondade e
devoção sem iguais. Inácio e seu filho, proscri-
tos de Roma pelos triúnviros, resolveram
matar-se mutuamente, a fim de escapar à
crueldade dos tiranos. De espada em mãos
precipitam-se um contra o outro e a sorte diri-
ge tão bem os golpes que eles se ferem mortal-
mente. Mas como homenagem a tão bela ami-
zade permite ela que tenham ainda força de
retirar Os ferros dos ferimentos, caindo ensan-
guentados nos braços um do outro. E assim
morrem tão estreitamente abraçados, que os
carrascos lhes cortam as cabeças deixando os
corpos nobremente ligados e afetuosamente
aspirando pelos seus ferimentos o sangue €e as
últimas manifestações vitais de cada um.
349 Mina, moeda grega.
CAPÍTULO XXXV
Uma lacuna de nossa administração
Meu falecido pai, homem de juizo sadio,
formado unicamente pela experiência e têndên-
cia natural, disse-me de uma feita que pensara
outrora em fazer com que nas cidades hou-
vesse um [lugar onde o cidadão necessitado de
alguma coisa pudesse levar seu pedido a um
funcionário, o qual o registraria mais ou
menos da seguinte maneira: “Fulano procura
vender pérolas; — Sicrano deseja companhia
para ir a Paris; — Beltrano precisa de um
lacaio; — X. quer colocação; pede um operá-
rio; etc.” Parece-me que esse modo de infor-
mação seria de grande comodidade para o pú-
blico, pois a todo instante há necessidades que
exigem satisfação e em se ignorando não se
acertam.
Considero extremamente vergonhoso para
nosso século que dois homens de grande saber,
Lílio Gregório Giraldi, na itália, e Sebastião
Chasteillon, na Alemanha, tenham morrido de
fome. Penso que pelo menos umas mil pessoas
os houveram socorrido ou oferecido condições
vantajosas de trabalho se tivessem tido notícia
de sua miséria. O mundo não está assim tão
corrompido que não se encontre ninguém
capaz de dispor com satisfação de seu patri-
mônio (enquanto a sorte lho permite) a fim de
colocar ao abrigo da necessidade personagens
excepcionais, que se distinguiram por qualquer
motivo e que a infelicidade levou não raro às
mais lamentáveis situações. E os poriam em
estado que, a menos de serem insensatos, os
contentaria.
Na direção econômica da casa, tinha meu
pai um hábito que louvo assaz mas que não
soube imitar. Além do registro das transações
cotidianas, em que se inscrevem as pequenas
contas, os pagamentos que não passam pelo
114 MONTAIGNE
tabelião, registro esse que mantinha em dia
nosso homem de negócios, meu pai exigia de
seu secretário que anotasse em um' diário todas
as informações de alguma utilidade para a his-
tória da família, o que é muito curioso de se
ver quando o tempo começa a apagar a lem-
brança dos fatos, e o que nos pode tirar de cer-
tas dificuldades, pois por esse diário sabemos
quando se iniciou ou terminou tal tarefa, quem
nos veio visitar, com quantas pessoas em seu
séguito, quanto durou a sua estada; e sabemos
quando viajamos, quais as nossas ausências,
os casamentos e falecimentos, as boas e mãs
notícias, as modificações verificadas entre nos-
sos principais servidores, etc. Acho conve-
niente lembrar esse uso antigo que nos permite
reviver o passado, e considero-me um tolo por
não o ter seguido.
CAPÍTULO XXXVI
Do hábito de se vestir
Qualquer que seja o assunto que deseje ven-
tilar, choco-me com a barreira dos costumes
aceitos e que nos governam. Nesta estação
fria, ponho-me a meditar acerca do hábito que
faz com que esses povos recém-descobertos
andem nus, e pergunto a mim mesmo se o
fazem por causa da temperatura elevada
(como o dizem, no que respeita aos índios e
aos mouros) ou porque originalmente assim
andaram os homens. Estando tudo o que existe :
sob os céus submetido às mesmas leis, como
diz a Bíblia, admitem as pessoas sensatas que
nas questões dessa ordem, para distinguir as
leis naturais das por nós inventadas, é preciso
que nos reportemos as regras gerais que presi-
dem ao trabalho da natureza neste mundo e
que não sofrem alteração. Ora, tudo, à exceção
do homem, se acha naturalmente provido do
que é necessário à própria conservação; não é
portanto admissível que somente nós tenhamos
sido criados em condições tão miseráveis e
defeituosas que não possamos prescindir de
socorro estranho. Eis por que considero que,
assim como as plantas, as árvores, os animais
e tudo o que vive foram naturalmente providos
de meios para se defenderem contra as injúrias
do clima, “razão por que todos os seres se co-
brem de couro, de pêlo, de carapaças, calosi-
dades ou casca”? 8º, assim nos ocorreu igual-
mente. Mas assim como há quem use a luz
artificial que enfraquece a luz do dia, enfraque-
cemos a eficiência dos meios naturais que nos
protegem substituindo-os por outros artificiais.
É fácil de se compreender que é o costume
que nos faz parecer natural o que não o é, pois,
entre os povos que não usam roupa, alguns
habitam em climas semelhantes ao nosso e ou-
350 Tucano.
tros bem mais rudes. Nós mesmos trazemos
sempre descobertas as partes mais sensíveis de
nosso corpo: olhos, boca, nariz e orelhas,
enquanto nossos camponeses — tal qual nos-
sos antepassados — ainda andam de peito e
ventre descobertos. Se tivêssemos nascido com
saias e calças, sem dúvida teria a natureza do-
tado de pele mais espessa as partes de nosso
corpo expostas às intempéries das estações,
como os dedos e a planta do pé. Por que isso
nos hã de parecer inverossimil? Entre minha
maneira de vestir e a de um camponês de mi-
nhas terras, hã maior diferença do que entre a
do camponês e a de quem só tem a pele por
vestimenta. Quantas pessoas, particularmente
na Turquia, não andam inteiramente nuas por
simples devoção?
Não sei quem perguntava a um mendigo, em
pleno inverno vestido de uma só camisa e que
no entanto se mostrava alegre como se esti-
vesse envolvido em peles até as orelhas, como
podia andar de bom humor sendo assim tão
miserável, ao que lhe respondeu o mendigo:
“Tendes o rosto descoberto, senhor, pois eu
dos pés à cabeça sou inteiro cara.” Contam os
-stalianos, creio eu, que o bobo do rei de Flo-
rença a quem seu senhor perguntava como, tão
mal vestido, suportava um frio que, a ele rei,
incomodava e muito, respondeu: “Fazei como
eu, carregai convosco todas as vossas roupas €
não sentireis mais frio do que eu.” O Rei Masi-
nissa até a mais avançada velhice não pôde
acostumar-se a cobrir a cabeça e assim andava
no frio, na borrasca e na chuva. O mesmo
dizem do Imperador Severo. Heródoto relata
que, examinando com outros os mortos. após
as batalhas dos egípcios contra os persas, veri-
ficou terem aqueles o crânio sem dúvida muito
mais duro, o que explica o fato de os persas
ENSAIOS —I 115
usarem toucas e turbantes, enquanto os egip-
cios desde criança raspam a cabeça e jamais a
cobrem. O Rei Agesilau, até o momento em
que se viu abalado pelas enfermidades, usava a
mesma roupa tanto no inverno como no verão.
César, diz Suetônio, marchava à frente de seus
exércitos quase sempre a pé e de cabeça desco-
berta, chovesse ou fizesse sol. O mesmo dizem
de Aníbal: “enfrentando a chuva e o desaba-
mento dos céus”? 81. Um veneziano, que esteve
muito tempo no reino de Pegu, de onde acaba
de voltar, conta que nessa região homens e
mulheres cobrem o corpo todc menos os pés,
que têm descalços mesmo a cavalo. Platão
aconselha como muito saudável não cobrir pés
nem cabeça senão com aquilo que lhes deu a
natureza. O fidalgo que os poloneses escolhe-
ram como rei, em substituição aquele-que lhes
havíamos dado, é seguramente um dos maiores
príncipes de nosso século; nunca usou luvas.
No inverno, e qualquer que seja o tempo, sai
com o boné que costuma pôr dentro de casa.
Não suporto andar desabotoado, com roupas
folgadas; os campeneses da minha vizinhança
se sentiriam entrevados em se abotoando.
Varro acredita que a obrigação de nos desco-
brirmos na presença dos deuses ou de um
magistrado foi criada mais em vista da nossa
saúde, a fim de que nos fortalecêssemos contra
as intempéries, do que em sinal de respeito.
Como falamos de frio, e em França gostam
de cores variegadas no vestuário (não no que
me diz respeito, porquanto só me visto de
branco e de preto, como o fazia meu pai),
variando o meu assunto, direi que o Capitão
Du Bellay relata ter experimentado em sua via-
gem ao Luxemburgo um frio tão intenso que o
vinho destinado aos soidados se cortava com
machadinhas e machados e era servido a peso
à tropa que o levava em cestas. Aliás, Ovídio
afirma que “o vinho gelado conserva a forma
do recipiente que o continha; não o bebem li-
351 Sílio Itálico.
quido e o distribuem em pedaços”. As geadas
são tão fortes à entrada do Palus Méotides* *2,
que no mesmo local em que batera a pé o ini-
migo, o lugar-tenente de Mitridates ganhou, no
verão seguinte, uma batalha naval contra os.
mesmos adversários. Os romanos acharam-se
em estado de grande inferioridade por ocasião
do combate de Placência contra os cartagine-
ses, porque lutaram gelados até o sangue e
com os membros retesados pelo frio. Ao passo
que Aníbal tivera o cuidado de acender gran-
des fogueiras ao longo de suas linhas, para.que
seus soldados pudessem aquecer-se; e a seus
diversos corpos de exército mandara distribuir
azeite, a fim de que esfregassem pernas e bra-
ços, tornando-os não somente mais elásticos
mas ainda protegendo os poros da pele contra
o vento glacial que então soprava.
A retirada dos gregos da Babilônia em
demanda da pátria ficou famosa pelos sofri-
mentos e obstáculos que tiveram de vencer.
Foram, entre outras desventuras, assaltados
nas montanhas de Armênia por forte tempes-
tade de neve, a qual os fez perder momentanea-
mente o caminho, impedindo-os de reconhe-
cerem a região. Constrangidos a permanecer
no lugar, aí passaram um dia e uma noite sem
comer nem beber; e houve alguns que, embora
perfeitamente conscientes, foram tomados pelo
frio, e para sempre paralisados. Alexandre
conheceu um país onde enterravam no inverno
as árvores frutíferas para protegê-las da geada;
podemos, aliás, observar por vezes a mesma
coisa em nossa terra.
Voltemos ao vestiário. O imperador do Mé-
xico mudava de roupa quatro vezes por dia e
nunca punha duas vezes a mesma. As que des-
pia serviam para suas liberalidades: dava-as de
presente, como recompensa. Assim também
fazia com os vasos, os trapos e os utensílios de
sua cozinha, pois deste modo não podiam ser-
vir duas vezes.
352 Mar de Azov.
CapíTULO XXXVII
Catão, o Jovem
Não cometo esse erro tão comum de julgar
os outros por mim. Acredito de bom grado que
o que está rros outros possa divergir. essencial-
mente daquilo que está em mim. Não obrigo
ninguém a agir como ajo e concebo mil e uma
maneiras diferentes de viver; e, contrariamente
ao que ocorre em geral, espantam-me bem
menos as diferenças entre nós do que as seme-
116 MONTAIGNE
lhanças. Não imponho a outrem nem meu
modo de vida nem meus princípios; encaro-o
tal qual é, sem estabelecer comparações. O
fato de não ser continente não me impede de
admirar e aprovar os Feuillants? *º e os capu-
chinhos que o são; pela imaginação ponho-me
muito bem em sua pele e os estimo e honro
tanto mais quanto divergem de mim. Aspiro
particularmente a que julguem cada qual como
é, sem estabelecer paralelos com modelos tira-
dos do comum. Minha fraqueza não altera
absolutamente o apreço em que deva ter quem
possui força e vigor. “Hã pessoas que só acon-
selham aquilo que imaginam poder imitar”? 8 *.
Embora me arraste ao nível do solo, não deixo
-de perceber nas nuvens, por mais alto que se
elevem, certas almas que se distinguem pelo
heroísmo. Já é muito para mim ter o julga-
mento justo, ainda que não o acompanhem mi-
nhas ações, e manter ao menos assim incorrup-
tivel essa qualidade. Já é muito ter boa
vontade, mesmo quando as pernas fraquejam.
Nosso século, pelo menos no meio em que
vivemos, é tão viciado que não somente não
pratica a virtude como ainda não a concebe
sequer. Dir-se-ia que já não passa ela de jargão
acadêmico: “Pensam que a virtude é apenas
uma palavra, e em um bosque sagrado não
vêem senão madeira para queimar”? 85. “A
virtude que deveriam respeitar ainda que não
possam entender”? 8 8, À virtude tornou-se um
penduricalho bom para se pendurar no gabine-
te, uma palavra solta na ponta da língua, um
simples enfeite, como um brinco.
Não se verificam mais atos de virtude. Os
que assumem esse aspecto não lhe têm a essên-
cia. São o lucro, a glória, o hábito e o medo
que nos levam a praticá-los. Os atos de justiça,
coragem ou bondade que emanam de nós
podem ser considerados pelos outros como
provocados pela virtude, mas não é a virtude
que no-los inspira. Têm outro objetivo, provêm
de outras causas e a virtude só admite o que se
faz por ela e para ela.
Após a grande batalha de Platéia, vencida
pelos gregos sob as ordens de Pausânias con-
tra os persas comandados por Mardônio,
tendo os vencedores que determinar, segundo o
costume, a quem competia a glória do êxito,
atribuíram-na aos espartanos pelo valor excep-
cional que haviam demonstrado durante o
combate. Quando estes, excelentes juízes em
matéria de virtude, tiveram de decidir a qual
deles em particular cabia a honra de ser pro-
clamado o melhor, reconheceram que Aristo-
353 Ordem religiosa.
354 Cícero.
355 Horácio.
35€ Cicero.
demo fora quem enfrentara o perigo com
maior coragem. Não lhe deram entretanto o
prêmio, porque sua coragem fora sobreexci-
tada pelo desejo de apagar a censura que lhe
valera sua conduta nas Termópilas e de se
redimir, por morte digna, do passadc vergo-
nhoso.
Nossos julgamentos estão longe de ser jus-
tos, porquanto se ressentem da depravação dos
nossos costumes. Vejo a maioria dos belos
espíritos de nosso tempo esforçar-se por dimi-
nuir a glória das belas e generosas ações que
nos revela a antiguidade, depreciando-as e
inventando circunstâncias e causas inexis-
tentes para as explicar. Grandes sutileza em
verdade! Dêem-me a ação mais bela, mais
pura, e conseguirei sem dificuldade atribuir-ihe
as piores intenções por móvel. Deus sabe
quanto nossa vontade íntima pode ser diversa-
mente interpretada? 7. A má língua dos esper-
tos mostra-os menos maliciosos do que gros-
seiros e estúpidos.
Sinto-me tentado a empregar na defesa e
Icuvor dos grandes homens os mesmos proces-
"sos abusivos de que usam para os diminuir.
Pois não hesitaria em engrandecer ainda mais,
e quanto possível, essas admiráveis figuras, tão
raras e escolhidas entre as demais pelos pró-
prios sábios, para servirem de exemplo ao
“mundo. Não hesitaria em ampliar ainda, quan-
to pudesse, a sua glória por meio de interpreta-
ções e de circunstâncias favoráveis a meu
ponto de vista, que conseguiria inventar. E
creio que o resultado da imaginação se situaria
bem abaixo de seus méritos. É dever do
homem de bem representar a virtude sob as
mais belas formas e não teria nada a criticar se
a paixão nos induzisse a exagerar os elogios a
essas manifestações dignas de nosso respeito.
O que fazem os detratores, fazem-no ou por
maldade ou porque são impelidos a colocar os
fatos da história ao seu alcance, ou, melhor,
porque sua inteligência carece da força e clari-
vidência necessárias à concepção do esplendor
da virtude em toda a sua pureza. Assim, diz
Plutarco que em seu tempo havia quem atri-
buísse a morte de Catão, o jovem, ao medo que
tivera de César, o que o irritava mui justa-
mente. E pode-se imaginar quanto mais sé irri-
taria se ouvisse o que depois se disse, a saber,
que essa morte tivera por causa a ambição.
Que tolice! Pois Catão teria muito mais facil-
mente perpetrado uma ação generosa e justa
pondo as aparências contra si do que se
vangloriando. Esse grande homem foi real-
357 A frase é confusa. Michaut diz “influenciada”.
Optamos por “interpretada”, mais condizente com
o texto. “Deturpada” também exprimiria o pensa-
mento do autor. (N. do T.)
ENSAIOS —I 117
mente um modelo que a natureza escolheu
para nos mostrar a que ponto podem chegar,
no homem, a virtude e a resolução.
Não me cabe aqui comentar tema tão rico
em' ensinamentos. Quero apenas estabelecer
um paralelo (a fim de realçar sua glória e
incidentemente a deles) entre cinco trechos de
poetas latinos consagrados ao elogio de Catão.
Creio que uma simples criança culta verá logo
serem os dois primeiros fracos em relação aos
outros. O terceiro, o mais comovente, perde-se
pelo exagero; entre este e os dois precedentes
há lugar para um ou mais trechos de valor
intermediário. Diante do quarto não poderá
deixar de cair de mãos postas, de admiração.
Mas o primeiro lugar dará ao último trecho
que se distancia de todos os outros sem que o
intervalo que o separa dos demais possa ser
preenchido por nenhum espírito humano. Ma-
ravilhar-se-á e ficará tomado de intensa emo-
ção.
Coisa espantosa: temos muito mais poetas
do que pessoas aptas a julgar e interpretar a
poesia. É mais fácil fazê-la do que compreen-
dê-la. A não considerarmos senão a questão .
secundária da forma, pcederemos julgá-la pela
aplicação dos preceitos, pela arte com que foi
composta; mas no que tem de bom, de subli-
me, de divino, está acima de todas as régraste
de todos os raciocínios. Quem procura, com.
calma e reflexão, analisar-lhe a beleza não o
consegue, como não consegue analisar o
esplendor de um relâmpago. Ela não seduz
nossa inteligência; encanta-a e a devasta. O êx-
tase de quem a sabe penetrar se repercute
sobre quem a ouve recitar e interpretar. Assim
o imã não somente atrai a agulha mas também
lhe infunde a propriedade de atrair outras agu-
ihas. E o que se vê melhor no teatro; a inspira-
ção sagrada das musas, que se apodera do
poeta e o enche de cólera, de tristeza, de ódio,
contagia o ator e, por este, o público. É o caso
das agulhas presas umas às outras.
esde a infância, a poesia produziu em mim
o efeito de me penetrar e comover profunda-
mente; mas esse sentimento poético muito vivo
e natural em mim foi: influenciado de modo
diferente segundo a forma, não na sua maior
ou menor elevação, porquanto só conheci o
que havia de melhor em cada gênero, mas pelo
próprio tom da poesia: em primeiro lugar a
fluidez graciosa e engenhosa, em seguida a
sutileza aguda e nobre; finalmente a força viril
e madura. Os nomes de Ovídio, Lucano, Virgi-
lio, que encarnam esses gêneros, são exemplos
do que afirmo.
Diz um dos poetas, Marcial, que “assim foi
Catão, maior ra vida do que o próprio César”.
E outro, Manílio, observa: “que Catão, indo-
mável, triunfou da morte”. Outro, Lucano,
referindo-se às guerras civis entre César e
Pompeu, comenta: “Os deuses abraçam a
causa do vencedor, Catão defende a do venci-
do.” Diz o quarto, Horácio, elogiando a
César: “Todos estão a seus pés, sé o altivo
Catão faz exceção.” Eis afinal Virgílio, o cori-
feu, que, após haver enumerado os nomes dos
maiores homens de Roma, assim termina:
“Enfim Catão, que a todos dita as leis.”
CAPÍTULO XXX VIII
Como uma mesma coisa nos faz rir e chorar
Mosira-nos a história Antigônio muito
descontente com o filho que lhe apresenta a ca-
beça do Rei Pirro, seu inimigo, morto momen-
tos antes em combate contra ele. E tendo-a
visto põe-se a chorar. O Duque René de Lore-
na, que lamentou igualmente a morte de Car-
los de Borgonha, na derrota que acabava de
sofrer, pôs luto no enterro do inimigo. OQ
Conde de Montfort na batalha de Auray,
ganha contra Carlos de Blois que lhe dispu-
tava o ducado de Bretanha, mandou procurar
o corpo do morto e o acompanhou ao túmulo.
Tais fatos não nos autorizam entretanto a
concluir sem hesitação que: “assim a alma
esconde sob um véu enganoso as paixões
contrárias que a perturbam; não raro estã ela
triste quando seu rosto irradia alegria, e alegre
quando parece triste”3 58.
Dizem os historiadores que quando lhe
apresentaram a cabeça de Pompeu, César
virou o rosto, desviando o olhar, como o faria
diante de um triste e feio espetáculo. Tinham
estado tanto tempo de acordo e associados na
gestão dos negócios públicos, seus destinos se
358 Petrarca.
118
haviam ligado tão amiúde, haviam prestado
mútuos serviços tantas vezes, e tantos interes-
ses lhes tinham sido comuns, que não se dirá
fosse hipócrita a atitude de César ou contrária
a seus sentimentos íntimos, como insinua
Lucano: “Logo que pensou poder enternecer-
se, sem riscos, sobre o genro, fingiu chorar €
arrancou alguns gemidos de um coração trans-
bordante de alegria.” Sem dúvida nossas
ações, em sua maioria, são máscara € artifício,
e é verdade por vezes que “as lágrimas do her-
deiro se fazern risos sob a máscara”? 8º. Cabe,
porém, a fim de emitir um juízo em seme-
lhantes circunstâncias, considerar a que ponto
sornos por vezes agitados por paixões diversas.
Em nosso corpo, dizem os médicos, pro-
duz-se um conjunto de humores diferentes; um
deles domina, aquele que segundo oc nosso
temperamento atua mais comumente sobre
nós. Da mesma forma, entre os múltiplos senti-
mentos que agitam nossa alma um prevalece,
mas não a ponto de impedir que, em virtude da
facilidade e flexibilidade que tem a alma de
modificar o curso de suas impressões, os mais
fracos sejam capazes, ocasionalmente, de
sobrepujar o mais forte durante alguns mo-
mentos. É o que explica por que as crianças,
ingênuas, naturais nas suas expansões, riem e
choram muitas vezes pelo mesmo motivo. E
nenhum de nós pode vangloriar-se de não ter,
não obstante o prazer que pensa auferir de
uma bela viagem, sentido faltar-lhe a coragem
de deixar família e amigos; e, se não chegou a
derramar lágrimas de verdade, não foi nunca
sem um” aperto no coração que pôs o pé no
estribo.
Por bela que seja a chama que aquece o
coração da jovem de boa família, no momento
de entregá-la ao esposo cumpre arrancá-la ao
pescoço de sua mãe; em que pesem as palavras
do cético jovial: “Será Vênus odiosa às jovens
esposas, ou caçoam elas da alegria dos pais
com todas as lágrimas derramadas à entrada
do quarto nupcial? Que eu morra, se tais lágri-
mas são sinceras!”S 8º Eis por que não há
como estranhar que lamentemos a morte de
quem não gostaríamos que vivesse.
Quando admoesto meu criado, faço-o tão
severamente quanto possível; minhas impreca-
ções são reais, minha cólera não é fingida;
mas, passada a borrasca, viro a página. E se
precisa de mim vou-lhe em socorro de bom
grado. Quando o trato de tonto ou de animal,
não o faço para marcá-lo definitivamente,
359 Públio Siro.
360 Catulo.
MONTAIGNE
porém não penso desdizer-me se acho, pouco
depois, que é um bom sujeito. Nenhum adje-
tivo nos é aplicável sem restrição. Se não fosse
próprio de um louco falar sozinho, não houve-
ra dia em que não me ouvissem gritar comigo
mesmo e dizer-me: espécie de idiota! embora
com isso não quisesse em absoluto definir-me.
Quem me vê emburrado diante de uma mulher
e logo em seguida sorridente, e pensa que em
um caso ou noutro não sou sincero, é um
imbecil. Nero, dizendo adeus à sua mãe, que ia
ser afogada por sua ordem, mostrou-se como-
vido, cheio de horror e piedade.
Dizem que a luz do sol não nos atinge de
um jato; que o sol nos envia raios sucessivos
mas com uma tal rapidez e em tal profusão
que não lhes podemos apreender a intermi-
tência: “fonte fecunda de luz, o sol brilhante
inunda sern descontinuidade o céu de uma cla-
ridade renascente, substituindo sem cessar seus
raios por outros raios novos”? 8!. Da mesma
forma, lançam-se de nossa alma, sem que nos
apercebamos, mil e uma manifestações.
Xerxes, às margens do Helesponto, conside-
rava quanto seus exércitos que atravessavam o
estreito estavam fora de proporção com a Gré-
cia contra a qual os conduzia. Experimentando
a princípio um sentimento de bem-estar diante
de tantos milhares de homens de que era
senhor, satisfação e alegria lhe vieram ao
rosto. Mas eis que se põe a pensar que todas
essas vidas terão terminado dentro de um sécu-
lo ao mais tardar e ante essa idéia sua fronte se
enruga e a tristeza arranca-lhe lágrimas, o que
lhe censura Artábano, seu tio e testemunha da
súbita mudança de atitude.
Com absoluta resolução chegamos a vin-
gar-nos de uma injúria e sentimos um conten-
tamento singular por termos alcançado o obje-
tivo; no entanto choramos por vezes. Não é,
porém, porque atingimos a meta que chora-
mos; desse ponto de vista não mudamos, mas
nossa alma vê a coisa com outros olhos, enca-
ra-a por outro ângulo, pois tudo pode ser enca-
rado de diferentes lados e apresentar aspectos
diversos.
O parentesco, as relações antigas, a amizade
do passado voltam-nos ao espírito e a passa-
gem de um aspecto a outro é tão brusca que se
torna imperceptível: “nada há tão rápido
quanto o espírito quando concebe ou age; a
alma é móvel por isso, e mais do que tudo o
que nos apresenta a natureza”? 92, E erramos
361 Lucrécio.
362 TLucrécio.
ENSAIOS —I
quando com esses movimentos todos quere-
mos constituir um conjunto a desenrolar-se de
maneira seguida.
Quando Timoleão chora a morte que, em
conseguência de madura e generosa resolução,
119
acaba de cometer, não é sobre a liberdade
devolvida à sua pátria que derrama lágrimas,
nem sobre o tirano que imolou; é o irmão que
ele chora. Cumpriu uma parte de seu dever;
deixemo-lo desempenhar a outra.
CAPÍTULO XXXIX
Da solidao
Deixemos de lado qualquer comparação,
por demasiado longa, entre a vida solitária e a
vida mundana; e quanto a esta bela frase que
dissimula a ambição e a avareza: não nasce-
mos para nossa própria satisfação e sim para a
de todos, apelemos para os que estão na dança
e que após cuidadoso exame de consciência
nos respondam se os trabalhos, os encargos e
os aborrecimentos da vida na coletividade são
procurados e aceitos por outros motivos que
não o proveito pessoal ambicionado. Os meios
pouco confessáveis que empregamos em nosso
século para avançar, bem demonstram o ne-
nhum valor do objetivo fixado. Se para comba-
ter nossa tendência para a solidão a atribuírem
à ambição, responderemos que é precisamente
esta que nos inspira, pois quem mais do que a
ambição foge da sociedade, e que deseja mais
senão a inteira liberdade?
Praticar o bem ou o mal é possível em toda
parte, entretanto se o que diz Bias é certo, “que
a maioria dos homens é também a pior”, ou o
que se escreve no Eclesiastes, “que sobre mil
não Há um que preste”, ou ainda o poeta,
“raros são os bons, apenas se achariam tantos
quantas as portas de Tebas ou as embocaduras
do Nilo”? 8º, grande é o contágio do mal para
quem vive na sociedade. É preciso imitar os
viciados ou odiá-los, alternativas igualmente
perigosas. Imitá-los porque são muitos; odiá-
Jos porque são diversos. Por isso os nego-
ciantes que viajam por mar evitam que subam
a seus navios pessoas dissolutas, blasfema-
doras ou mãàs, porquanto um tal aglomerado
de gente só pode ter péssimas conseguências.
Por isso, também, dizia Bias aqueles em cuja
companhia enfrentava violenta tempestade e
que invocavam a proteção divina: “Calai, que
Deus não perceba que estais aqui comigo.” O
exemplo de Albuquerque, vice-rei da Índia, é
mais típico ainda. Correndo o risco de morrer
em acidente marítimo, tomou uma criança
383 Juvenal.
pequena aos ombros, a fim de que, no perigo
comum, sua inocência lhe servisse de garantia.
Não é que o homem sábio não possa viver
satisfeito onde quer que seja e isolar-se no
meio dos cortesãos que entopem o palácio;
mas se lhe for dado escolher, evitará até o sim-
ples espetáculo deles, dizem os filósofos. Se
necessário resignar-se-à a ficar; se puder, esco-
lherá outra situação. Não lhe parecerá sufi-
ciente libertar-se dos próprios vícios, se tiver
ainda de lutar contra os dos outros. Charondas
punia como maus os que comprovadamente
andavam em más companhias. Não há ser
mais sociável ou menos sociável do que o
homem; é ele uma coisa pela sua própria natu-
reza € outra em consequência de seus vícios.
Antístenes não foi a meu ver judicioso quando,
a alguém que lhe censurava as más compa-
nhias, respondeu: “os médicos também vivem
com os doentes”. Em verdade os médicos cui-
dam da saúde dos doentes, mas comprometem
a sua, pelo contágio e a influência perniciosa
da presença continua da doença.
O fim que visamos quando procuramos a
solidão é, creio, viver mais à vontade e como
nos agrada; mas nem sempre acertamos com o
caminho. Amiúde imaginamos ter abandonado
quaisquer ocupações e não fazemos senão
mudar de atividade. O governo de uma família
não causa menos aborrecimentos que o de um
Estado. Ao que quer que se entregue, o espírito
entrega-se por inteiro, e em sendo as ocupa-
ções domésticas menos importantes nem por
isso são menos importunas. Mais ainda: pode-
mos retirar-ncs da Corte, renunciar aos negó-
cios, não estaremos contudo ao abrigo dos
principais tormentos da vida: “são a razão e a
prudência, e não essas praias de onde se vê a
imensidade do mar, que dissipam a triste-
za”3 84%. A ambição, a avareza, a indecisão, O
medo, a concupiscência não nos abandonam
ce
tão-somente porque mudamos de lugar: “a
364 Torácio.
120
preocupação monta na garupa e galopa com
eles”3 85. Acompanham-nos até nos claustros e
nas escolas de filosofia. Não há desertos,
cavernas nos rochedos, mortificações e jejuns
que nos libertem: “a seta mortal continua
presa a seus flancos”* 8 8.
Diziam a Sócrates de alguém que de ne-
nhum defeito se corrigira durante a longa via-
gem que realizara: “bem o creio”, retrucou o
filósofo, “ele se levara a si mesmo em sua
companhia”. “Por que procurar países ilumi-
nados por outros sóis? Bastaria então fugir da
pátria para fugir de si mesmo??? 8? Se prelimi-
narmente não descarregamos a alma do peso
que a oprime, mais se machucará com o movi-
mento; assim o navio se estraga menos se a
carga é bem distribuída. Mais mal do que bem
faz-se ao doente em o mudando de lugar. Com
o movimento, o mal acumula-se no fundo dele,
como o conteúdo de um saco quando sacudi-
do, e como a estaca afunda e se solidifica
quanto mais a tentam abalar. Não basta pois
deslocar-se, evitar a multidão, é preciso ainda
afastar de nós as idéias que nos são comuns, a
ela e a nós. É preciso que nos seqiestremos e
tomemos posse de nós mesmos: “quebrei os
ferros, dizeis? Sim, o cão, depois de ter puxado
a corrente e a ter partido, foge mas arrastando
uma parte ao pescoço”? 88, Carregamos nos-
sos ferros conosco, nossa liberdade não é com-
pleta, volvemos o olhar para o que deixamos €
que nos emprenha a imaginação: “Se a alma
não é pura, quantos riscos corremos! Quantas
lutas sem proveito contra nós mesmos! Quan-
tas preocupações amargas, quantos temores,
quantas inquietações roem o homem prisio-
neiro de paixões! Que devastações produzem
em nosso espírito o orgulho, a luxúria, a cóle-
ra, O luxo, a moleza, a preguiça !?3 89
“Nosso mal está dentro da alma e esta não
pode fugir de si mesma”37º, E necessário,
pois, extirpá-lo dela e então nos concentrarmos
em nós mesmos. Nisso consiste a verdadeira
solidão, a que podemos gozar na cidade e na
Corte, mas que gozamos melhor no isola-
mento. Se projetamos viver sozinhos, longe de
todos, façamos com que nossa satisfação só
dependa de nós; destruamos tudo o que nos
amarra aos outros, arranjemo- nos de maneira
a viver efetivamente sós, e, nesta condição,.
sem mais preocupações.
Estilpon escapara do incêndio de sua cidade
365 Worácio — Esse “eles” refere-se a
“tormentos”. (N. do T.)
388 Virgílio.
387 Horácio.
368 Pérsio.
369 Tucrécio.
370 Horácio.
MONTAIGNE
natal, mas perdera a mulher, os filhos e tudo o
que possuía. Vendo-o sereno em tão sombria
situação, perguntou-lhe Demétrio Poliorcetes
se não tivera prejuizos. “Ao que ele respondeu
que, mercê de Deus, nada perdera de seu.” É o
que exprimia de modo jocoso o filósofo Antís-
tenes: “O homem deve abastecer-se de provi-
sões suscetíveis de flutuar, a fim de que possa,
em caso de naufrágio, salvá-las a nado.” E,
com efeito, o sábio nada perde em conser-
vando a posse de si mesmo.
Quando a cidade de Nola foi saqueada pelos
bárbaros, Paulino, bispo do lugar, perdeu
todos os seus bens e foi feito prisioneiro. Nem
por isso deixou de endereçar diariamente a
Deus esta prece: “Preservai-me, Senhor, de
sentir esta desgraça, pois o que está em mim,
bem o sabeis, não foi até agora atingido.” As
riquezas que o faziam realmente rico, os bens
que o faziam bom, continuavam intatos. Cum-
pre, pois, selecionar os tesouros que podem ser
preservados de quaisquer danos e escondidos
em lugar fora do alcance de qualquer um e que
só nós mesmos podemos revelar. É preciso ter,
se possível, mulher, filhos, fortuna e principal:
mente saúde, mas não se prender a isso a
ponto de prejudicar nossa felicidade. É preciso
ter como reserva um recanto pessoal, indepen-
dente, em que sejamos livres em toda a acep-
ção da palavra, que seja nosso principal retiro
e onde estejamos absolutamente sozinhos. Aí
nos entreteremos de nós com nós mesmos, e a
essa conversa, que não versará nenhum outro
assunto, ninguém será admitido. Aí nos aban-
donaremos a nossos pensamentos sérios ou
divertidos, como se não tivéssemos mulher
nem filhos, nem bens, nem casa, nem criada-
gem, de maneira que se um dia eles nos falta-
rem não nos custe demasiado a carência.
Temos uma alma suscetível de se recolher, de
se bastar em sua própria companhia, de atacar
e defender-se, de dar e receber; não nos arre-
ceemos, portanto, nesse diálogo com nós mes-
mos, de vegetar em uma aborrecida ociosi-
dade. “Na tua solidão, sê para ti mesmo o
mundo”3 71. A virtude satisfaz-se com ser, sem
necessidade de regras, palavras, consegliên-
cias.
Em nossas ocupações habituais não há uma
entre mil que nos diga respeito. Este, ve vês
furioso e fora de si, escalar as ruínas do forte,
em meio à fuzilaria; e o outro que, cadavérico,
esfomeado, coberto de cicatrizes e decidido
antes a morrer do que a deixar passar o inimi-
go, imaginas que agem por conta própria?
Pois é por conta de fulano e beltrano, que
371 Tibulo.
ENSAIOS —I 121
nunca viram, fulano e beltrano que não se
preocupam sequer com seus feitos e mergu-
lham no ócio e nos prazeres enquanto eles se
matam. Aquele que vês sair depois da meia-
noite de seu gabinete de estudo, tomado de
pituíta, olhos doentes, miseravelmente vestido,
pensas que passou seu tempo a buscar nos li-
vros o que lhe cumpre fazer para se aperfeiçoar
no bem, para se satisfazer com a sorte e pro-
gredir em sabedoria? Nada disso! Morrerã na
tarefa ou acabará revelando à posteridade o
ritmo em que se escreveram os versos de Plau-
to ou a verdadeira ortografia de certa palavra
latina. Quem não troca deliberadamente a
saúde, o repouso, a vida, pela reputação e a
glória, as mais inúteis e vas, e falsas, das moe-
das correntes? Como se nossa própria morte já
não nos inspirasse suficiente terror, interessa-
mo-nos pela de nossas mulheres, filhos e servi-
dores! Como se não tivéssemos bastantes
aborrecimentos, acrescentamos aos nossos os
dos nossos vizinhos e amigos! “Como pode
um homem .pretender amar mais a alguma
coisa do que a si mesmo?” 3 72
A solidão parece-me em particular indicada,
e necessária, aqueles que consagraram à
humanidade a mais bela parte de sua vida, a
mais ativa e produtiva, como o fez Tales. Já.
vivemos bastante para os outros, vivamos para
nós ao menos durante o pouco tempo que nos
resta. Isolemo-nos, e na calma, rememoremos
nossos pensamentos e nossas intenções. Não é
nada fácil um retiro consciencioso; isso nos
preocupará suficientemente para que não pro-
curemos atrelar-nos a outros empreendi-
mentos. Desde que Deus nos dá lazeres a fim
de nos prepararmos para deixar este mundo,
mãos à obra, arrumemos nossas bagagens.
Com antecedência digamos adeus a todos;
libertemo-nos desses compromissos que nos
amarram a outrem e nos distraem de nós
mesmos.
É preciso romper com quaisquer obrigações
imperativas. Talvez ainda gostemos disto ou
daquilo, mas só a nós mesmos poderemos des-
posar. Em outras palavras, o que está fora de
nós pode não nos ser indiferente, mas não a
ponto de se colar a nós de modo que não se.
arranque sem nos esfolar e sem levar alguma
parcela de nós. A coisa mais importante do
mundo é saber pertencermo-nos.
Já é tempo de nos retirarmos da sociedade,
porquanto nada mais lhe podemos dar e quem
não está em condições de emprestar não deve
pedir emprestado. Se nos faltam forças, recue-
mos e nos recolhamos. Quem puder então
372 Terêncio.
emprestar a si próprio os serviços que de cos-
tume se esperam da amizade e da sociedade,
preste-os. Mas nessa queda que o torna inútil,
importuno e pesado a outrem, evite tornar-se
inútil, importuno e pesado a si próprio. Que se
elogie e se trate, mas se domine; que respeite e
tema sua razão e sua consciência para que não
dê, sem se envergonhar, um passo em falso
diante delas: “E raro, com efeito, que alguém
saiba respeitar-se suficientemente” 73.
Diz Sócrates que os jóvens devem instruir-
se; os homens feitos procurar agir acertada-
mente; os velhos abandonar toda ocupação
civil ou militar e viver para sua idéia, sem obri-
gações precisas. Há temperamentos mais ou
menos predispostos a se conformarem com
tais princípios. Os tímidos, os fracos, cujos
sentimentos e vontade não se dobram (e sou
desses tanto por tendência natural como pelo
raciocínio) aceitam-nos mais facilmente do
que aqueles cuja atividade e necessidade de
ação levam a se meter em tudo, a se apaixonar
por tudo, aqueles que se oferecem, se apresen-
tam e se dão em quaisquer circunstâncias.
É preciso valermo-nos das vantagens que
porventura encontramos em torno de nós, mas
na medida em que nos convêm e sem fazer
delas um alicerce essencial. Não o seriam, pois
a razão € a natureza não o aprovam. Por que,
desobedecendo às suas leis, nos colocaríiamos,
no que respeita à nossa comodidade, sob a
dependência de outrem? Antecipar-se aos aci-
dentes que pode provocar a má sorte, não é
coisa de se fazer. Privar-se voluntariamente
das satisfações ao nosso alcance, como o
fazem alguns por devoção e certos filósofos
por convicção; dispensar criados; dormir ao
relento; vazar os próprios olhos; deitar fora
riquezas; procurar a dor, como o fazem muitos
na: esperança de que os sofrimentos em vida
lhe acarretem a eterna beatitude no outro
mundo; ou como fazem outros que pensam,
em descendo ao degrau mais baixo da socieda-
de, garantir-se contra queda maior, são coisas
que resultam de exagerada virtude. Que as
naturezas particularmente severas e resolutas
assim se defendam contra os vendavais deste
mundo é coisa que as honra e vale como exem-
plo: “Quanto a mim, se não posso ter muito,
contento-me com pouco e. louvo a possível
mediocridade; se minha fortuna melhora, pro-
clamo que não há sábios e homens felizes
senão entre aqueles cuja renda provém de boas
terras”? 74. Creio que muito se pode fazer sem
ir tão longe. Basta-me a mim, quando a sorte
373 Quintiliano.
374 Horácio.
122
me sorri, preparar-me para suas infidelidades,
e representar-me, enquanto tenho o espírito
livre, o mal que me pode ocorrer; assim em
plena paz nos entregamos às justas e aos tor-
neios, a fim de nos exercitarmos para a guerra.
Não considero o filósofo Agesilau menos
digno, só porque usava baixela de ouro e prata,
de acordo com sua fortuna; estimo-o mais por
tê-la usado com moderação e liberalidadé do
que se dela se houvesse desfeito.
Procuro verificar até onde podem ir as
necessidades a que estamos expostos. Quando
vejo um pobre mendigar à minha porta, tento
fazer com que meu pensamento se amolde ao
seu. E passando dele a outros em idênticas
condições, sou impelido a pensar na morte, na
pobreza, na perda de consideração, na doença,
que podem ocasionalmente acontecer-me. A
apreensão que experimento atenua-se à idéia
da paciência com que outros, em piores situa-
ções, acatam suas desventuías, pois não posso
acreditar que a fraqueza de espírito seja, em
semelhante ocorrência, mais eficiente que a fir-
meza de ânimo, ou que a razão não possa con-
duzir aos mesmos resultados que o hábito.
Sabendo quanto essas comodidades da vida,
tão supérfluas, são frágeis, ao gozá-las não
deixo de pedir a Deus a mercê de fazer com
que me sinta satisfeito comigo mesmo e com o
que possuo. Vejo pessoas ainda jovens e em
perfeita saúde ter sempre em casa quantidade
de pílulas para o caso de sobrevir um resfria-
do, o qual tanto menos receiam quanto imagi-
nam ter o remédio à mão. É preciso agir de
maneira idêntica; e se nos sentimos expostos a
alguma doença séria devemos prover-nos de
drogas que acalmem e adormeçam o órgão
ameaçado.
A ocupação que cumpre escolher quem pro-
cura a solidão, não deverá ser nem cansativa
nem aborrecida, pois de outro modo não vale-
ria a pena isolar-se no intuito de encontrar o
repouso. Depende ela da predileção natural de
cada um. A minha tendência não me induz a
valorizar minhas propriedades; os que apre-
ciam uma tal atividade a ela se entreguem pois,
mas com moderação: “que busquem colocar-
se acima das coisas, em vez de se sujeitar a
elas”? 7º, sem o que a ocupação se transfor-
mará em servidão, como diz Salústio.
Entre as ocupações que comporta a explora-
ção de uma propriedade, algumas hã que eu
compreendo e desculpo. Cuidar:do jardim, por -
exemplo, o que, segundo Xenofonte, fazia
Ciro. E é possível encontrar um meio-termo
entre o trabalho grosseiro, pesado, exigente de
375 Horácio.
MONTAIGNE :
atenção que se impõe a quem se dedica por
inteiro a ele e a displicência profunda, exces-
siva dos que deixam tudo ao abandono: “O
gado dos vizinhos vinha comer as colheitas de
Demócrito enguanto, liberto do corpo, seu
espírito viajava pelo espaço”? 7 8
Ouçamos o conselho de Plínio, o Jovem, a
seu amigo Canínio Rufo a respeito da vida
solitária: “No retiro absoluto que criaste, e
onde tens a possibilidade de viver como enten-
des, aconselho-te abandonares a teus servido-
res as tarefas penosas e humilhantes, e te entre-
gares ao estudo das letras, a fim de chegares a
produzir alguma coisa pessoal.” Plínio quer
dizer com isso que aplicasse seus lazeres em
criar um nome. É o que pensava Cicero, que
dizia querer empregar a solidão e o repouso
que lhe deixariam os negócios públicos em
conquistar com seus escritos uma glória imor-
tal: “Teu saber nada valerá se não souberem
que tens saber”? 7? Seria normal, a meu ver,
que olhasse para fora do mundo quem dele
quer retirar-se. Plínio e Cicero só o fazem
entretanto por metade; tudo dispõem para o
momento em que se hão de retirar, mas por
uma ridícula contradição, embora separados
do mundo, deste é que pretendem tirar sua
satisfação.
Os que por devoção procuram a solidão, e
se animam na certeza de outra vida acenada
pelas promessas divinas, são mais coerentes.
Aspiram a Deus, infinitamente bom e podero-
so, e sua alma, livre, encontra à saciedade a
satisfação dos desejos que concebe no retiro.
Aflições e dores são-lhes vantajosas, por-
quanto constituem créditos a mais para um dia
possuírem a saúde e a felicidade eternas. A
morte se lhes afigura desejável porque os intro-
duzirã na perfeição. O rigor das regras que se
impõem é atenuado desde o início pelo hábito,
e os apetites da carne, repelidos sem cessar,
adormecem afinal, pois nada os entretém me-
lhor do que o uso e os exercícios. Essa outra
vida feliz e imortal que se lhes promete, mere-
ce, sozinha, que renunciem sem restrições às
comodidades e doçuras da nossa. Quem pode
abrasar a alma com a chama dessa fé que nada
abala e dessa esperança que engendra uma
convicção real e constante, leva na solidão
uma existência cheia de volúpias e de delícias,
que deixa muito distantes todas as satisfações
outorgadas por qualquer outro gênero de vida.
Nem o objetivo que aponta Plínio, nem o
meio que propõe satisfazem portanto. Vamos
assim de mal a pior. Dedicar-se às letras é tra-
376 Td.
377 Pérsio.
ENSAIOS —1I 123
balho tão penoso como outro quaiquer e igual-
mênte perigoso para a saúde, o que é o ponto
essencial a ser considerado. E não nos deve-
mos deixar encantar pelo prazer que tiramos
dele, pois é sempre o prazer excessivo, que o
homem aufere da satisfação do que mais apre-
cia, que o perde, seja ele avarento, voluptuoso
cu ambicioso. Os sábios advertem-nos assaz
contra a traição de nossos apetites; ensinam-
nos a discernir, entre os prazeres que se nos
oferecem, os verdadeiros e não suscetíveis de
amargor dos que não são sem mistura e dos
quais cumpre esperar mais fadiga do que satis-
fação. À maior parte dos prazeres, dizem,
acaricia-nos e nos abraça para nos estrangular,
como faziam os bandidos a que os egípcios
chamavam filistas. Se a dor de cabeça da
embriaguez ocorresse antes e não depois,
evitariamos beber demais; pois a volúpia age
como a embriaguez: para melhor nos enganar
vai à frente, escondendo-nos as consegiiências
que acarreta. As letras são um agradável
passatempo, mas se nos devemos absorver
nelas a ponto de perdermos a alegria e a saúde,
o que em suma nos é mais precioso, renuncie-
mos. Sou de opinião que as vantagens que elas
nos oferecem não compensam tais prejuízos.
Os homens enfraquecidos por alguma enfermi-
dade prolongada acabam por se entregar ao
médico e se submetem a determinadas regras
de vida a que não devem desobedecer; ora,
quem, por desgosto ou aborrecimento, se retira
da vida na sociedade deve guiar-se pelas regras
da razão, e ordenar a nova existência com pru-
'* dência e sensatez.
Deverá renunciar a qualquer trabalho, como
quer: que se apresente, e também de um modo
geral evitar as paixões que perturbam a
tranquilidade do corpo e do espírito, e
“escolher o caminho mais adequado a seu
temperamento”? 78.
Que se dedique ao governo da casa, ao estu-
do, à caça ou a outro exercício se nisso se
compraz, mas que não vá além do prazer por-
que então começa a fadiga. É preciso não
inventar tarefas nem ocupações senão dentro
dos jimites em que se impõem para nos manter
em forma e preservar dos incômodos que acar-
reta o exagero contrário, a ociosidade que
amolece e embota. Há ciências estéreis e ár-
duas que em sua maioria interessam principal-
mente a sociedade. Que as estudem os que
estão a serviço desta. Quanto a mim, só apre-
cio os livros agradáveis e fáceis, que me dis-
traem, cuja leitura é agradável, ou então os que
me consolam e me fornecem regras para orien-
378 Propércio.
tar a vida e preparar-me para a morte,
“passeando em silêncio pelos bosques e ocu-
pando-me de tudo o que é digno de um homem
bem ordenado e virtuoso”? 7º.
As pessoas mais sábias do que eu, de alma
mais forte e elevada, podem criar para si um
repouso inteiramente espiritual. Eu, que a
tenho como todo mundo, preciso que as como-
didades do corpo me ajudem. E, tendo chegado
a idade de perder as que mais me apeteciam,
procuro as que me permite ainda esta época da
vida, e arranjo-me para as aproveitar. É preci-
so, por todos os meios possíveis, inclusive
unhas e dentes se necessário, que conservemos
o gozo das satisfações da vida que os anos nos
arrancam aos poucos, umas após outras, das
mãos: “gozemos; somente os dias que damos
ao prazer são nossos; brevemente não serás
mais que cinza, sombra, fábula”380.
Plínio e Cícero sugerem-nos como objetivo
a glória. Não me interessa nem de longe. A
disposição de espírito mais contrária à vida
solitária está na ambição**1, Glória e repouso
são incompatíveis entre si. Plínio e Cícero
somente livraram o corpo da muitidão; mais
do que nunca a ela se prenderam pelo espírito
e a intenção: “velho pândego, então só traba-
lhas para divertir o povo???82: recuaram para
melhor saltar e mediante violento impulso caí-
ram em cheio no rebanho.
Quereis ver a que ponto estão errados?
Comparemos sua opinião com as de Epicuro e
Sêneca, filósofos pertencentes a escolas diver-
sas e escrevendo um a Idomeneu e outro a
Lucílio, seus amigos, a fim de induzi-ios a
abandonarem a vida pública, com suas grande-
zas, e a se retirarem: “Vivestes até agora —
dizem eles — nadando e flutuando pelos
mares; voltai ao porto para morrerdes. Passas-
tes a vida em plena luz, vivei à sombra o
tempo que vos resta. Não vos libertarieis de
vossas ocupações se ao mesmo tempo não
renunciásseis aos benefícios que vos outor-
gam; eis por que é preciso que abandoneis
qualquer idéia de glória e renome. Seria preju-
dicial para vosso repouso que a irradiação de
vossos feitos do passado vos acompanhasse
em vosso refúgio, pondo-vos demasiado em
evidência. Com os outros prazeres renunciai
379 Horacio.
380 Pérsio.
381 No início do capítulo diz Montaigne exata-
mente o contrário: que a ambição inspira o gosto
peta solidão. Tais contradições são comuns em
Montaigne, muitas vezes mais interessado em' bri-
lhar na defesa da tese do que em dizer exatamente o
que pensa. (N. do T.)
282 Pérsio.
124
ao que emana do aplauso dos homens. Quanto
a vosso saber e a vossas capacidades, não vos
preocupeis; não estarão perdidos se vós mes-
mos valerdes mais. Lembrai-vos daquele sujei-
to a quem perguntavam por que se esforçava
tanto por adquirir um saber de que poucas pes-
soas teriam conhecimento; respondeu ele:
*'Contento-me com poucos; contento-me com
um; contento-me com nenhum.” Estava certo.
Vós e mais um já vos bastareis neste teatro da
vida, em vos servindo mutuamente de público;
e se estais só, sede a um tempo ator e especta-
dor. Que o público seja para vós uma só pes-
soa e que uma só pessoa tenha a importância
de um grande público. É covarde ambição que-
rer auferir glória e renome da ociosidade e da
solidão; fazei como os animais que apagam
suas pegadas à entrada de seu covil. Não vos
deveis esforçar para que o mundo fale de vós;
só vos deveis preocupar com o que dizeis a vós
mesmos. Recolhei-vos em vós, mas antes
preparai-vos para vos receber. Pois seria lou-
cura confiardes em vós se não sabeis gover-
nar-vos. Pode-se errar na vida solitária como
MONTAIGNE
quando se vive na sociedade. Enquanto não
puderdes mostrar uma atitude irrepreensível,
enquanto não inspirardes a vós mesmos res-
peito e pudor, “oferecei a vosso espírito nobres
imagens”28?. tende sempre presentes à imagi-
nação Catão, Fócion, Aristides, diante dos
quais os próprios loucos esconderiam seus
erros; € fazei-vos juízes de vossas intenções. Se
estas não forem o que deveriam ser, a defe-
rência que por eles tendes vos indicará o cami-
nho certo. Eles vos ajudarão a vos bastardes, a
nada pedirdes senão a vós mesmos, a fazerdes
com que vosso espirito se atenha às medita-
ções em que possa comprazer-se. Assim
compreendereis quais os verdadeiros bens, de
que gozamos na medida em que os vamos
entendendo, e assim sereis felizes, sem desejar
que vossa vida se prolongue e vosso nome se
torne famoso.”
Eis um conselho de verdadeira e natural
filosofia, e não de uma filosofia de ostentação
e verborragia como a de Plínio e Cícero.
383 Cicero.
CaPpíTULO XL
Considerações acerca de Cícero
Mais um fato que ressaltará a diferença
entre Epicuro e Sêneca de um lado e Cícero e
Plínio de outro?8*: os escritos deste, que se
assemelham bem pouco aos de seu tio38 5 e os
de Cícero são testemunhos irrecusáveis de
naturezas ambiciosas. Pois, entre outras coi-
sas, não solicitam eles abertamente aos histo-
riadores de seu tempo que não os esqueçam em
suas obras? O destino, como que para zombar,
fez que nos chegassem às mãos esses vaidosos
apelos quando de hã muito perdidas as obras
em que se fala deles.
Mas o que revela a mesquinhez de senti-
mentos desses personagens de alto coturno é
terem querido tirar renome e glória de sua
intemperança e futilidade de linguagem, e até
guardando para a posteridade as cartas que
escreviam a parentes e amigos, indo ao cúmulo
384 O texto diz: “Encore un fait à la comperaison
de ces couples.” A frase refere-se visivelmente ao
capítulo precedente em que à atitude de Plínio e Cí-
cero opõe Montaigne a de Epicuro e Sêneca. (N. do
TS
388 O naturalista Plínio
de publicar algumas que não chegaram a ser
enviadas, sob a alegação de não desejarem per-
der seu trabalho e suas vigílias. Não ime parece
decente que dois cônsules. romanos, primeiros
magistrados de uma república que governava o
mundo, empregassem seus lazeres em preparar
e adornar belas missivas no intuito de adquirir
a reputação de bem. escreverem a língua de
suas amas-de-leite. Faria pior um simples
mestre-escola que com isso ganhasse a vida?
Se os feitos de Xenofonte e César não houves-.
sem ultrapassado de muito sua eloguência, du-
vido que os tivessem escrito. O que procura-
ram tornar conhecido foi sua conduta nos
acontecimentos de que participaram e não sua
maneira de os contar. Se a perfeição da lingua-
gem pudesse granjear uma glória de bom qui-
late, Cipião e Lélio não teriam por certo cedi-
do a um escravo africano a honra que podiam
auferir de suas comédias e outros escritos em
que ressaltam as mais deliciosas sutilezas da
lingua latina, pois é indiscutível ser deles a
obra de Terêncio, coisa que o próprio autor
confessa e se evidencia em sua beleza e perfei-
AY
ENSAIOS — 1 125
ção. E lamentaria muito que me provassem o
contrário.
E grotesco e injurioso procurar valorizar
alguém em lhe atribuindo qualidades, por mais
louváveis que sejam em si, que não convenham
à sua condição social; ou que não devam figu-
rar em primeiro plano. É como se elogiassem
um rei por ser bom pintor, ou bom arquiteto,
ou bom atirador, ou bom corredor de argo-
las38 8, Tais elogios somente são honrosos
quando se acrescentam aos que a pessoa mere-
ce pelas qualidades adequadas à situação que
ocupa. No caso tomado como exemplo, o espí-
rito de justiça do príncipe, a habilidade com
que governa na paz como na guerra. Assim é
que seus conhecimentos de agricultura honra-
ram Ciro; que sua eloquência e sua cultura
literária honraram Carlos Magno. Vi outrora
personagens, que deviam seus títulos e sua
situação a seu talento caligráfico, renegarem
seu aprendizado, exibirem uma letra ruim, afe-
tarem profunda ignorância de tão vulgar saber
que o povo acredita não se encontrar entre as
pessoas de certa classe, e tentarem recomen-
dar-se por qualidades mais importantes. Os
companheiros de Demóstenes, enviado em
missão junto a Filipe, elogiavam o principe
por ser belo, eloquente e grande bebedor. Tais
qualidades, atalhou Demóstenes, honrariam
mais uma mulher, um advogado e uma espon-
Ja, do que um rei. Este deve “comandar, esma-
gar o inimigo que resiste, mostrar-se clemente
em relação aos que reduz à impotência”** 7.
Não é profissão real dançar bem ou caçar
bem: “Que outros discursem com eloqiuência;
que outros, armados de compassos, descrevam
os movimentos dos céus, predigam o curso dos
astros. Seu papel consiste em saber gover-
marta,
Plutarco vai mais longe e acha que, mos-
trar-se alguém superior nas coisas acessórias, é
prova de que não aproveitou seu tempo, não o
empregou quanto devia no estudo do neces-
sário e do útil. É o que levava Filipe, rei da
Macedônia, a dizer a seu filho Alexandre, o
Grande, o qual cantava em um festim exibindo
um talento suscetível de infundir inveja aos
melhores músicos: “Não tens vergonha de can-
tar assim tão bem?” E idêntico sentimento fez
que um músico, com o qual o mesmo Filipe
discutia arte, respondesse: “Deus vos preserve,
senhor, de experimentardes algum dia desas-
tres de tal monta que possais chegar a ser mais
perito do que eu nessa matéria.” Um rei deve
3º 6 Jogo da época, espécie de cavalhada, em que
competia ao gavaleiro arrancar a argola com a
lança. (N. do T.)
387 Horácio.
388 Virgílio.
poder responder como o fez de uma feita Ifi-
crates a um orador que em sua arenga o apos-
trofara nestes termos: “Quem és, para te mos-
trares tão bravo? Guerreiro, archeiro,
lanceiro?” — “Não sou nada disso, mas sou
aquele que sabe comandar toda essa gente.”
Antístenes viu um indício da mediocridade de
Ismênias no fato de o louvarem por ser exce-
lente tocador de flauta.
Quando ouço alguém se referir ao estilo dos
“Ensaios”, preferiria que calasse. Pois não são
tanto as expressões que relevam; são as idéias
que denigram e com tanto maior mordacidade
quanto o fazem de maneira indireta. Pude
enganar-me, mas quantos outros se prestam
mais ainda à critica no mesmo gênero! O fato
é que, bem ou mal, nenhum escritor ventilou
maior número de assuntos, nenhum, em todo o
caso, os deitou no papel. Para que aí se agru-
pem mais e mais, enuncio-os apenas; se os
desenvolvesse, muitos voiumes mais seriam
necessários e não apenas um. Muitos fatos aí
se mencionam que nada dizem. Quem os qui-
ser analisar engenhosamente fará longos en-
saios. Nem eles nem minhas alegações servem
sempre simplesmente de exemplo ou se apre-
sentam para dar autoridade ao texto, e maior
interesse à obra. Não os encaro apenas do
ponto de vista do partido que deles tiro: com-
portam por vezes, independentemente de
minha intenção, a semente de uma matéria
mais rica e ousada e revelam, indiretamente,
algo mais requintado, tanto para mim, que não
quero exprimir mais, como para os que se
encontrarem comigo.
Voltando à questão do talento literário,
acho que entre só saber exprimir-se defeituosa-
mente e saber unicamente falar bem, não há
muito que escolher. “A elegância não é adorno
para o homem? 8º,
Dizem os sábios que, do ponto de vista do
“saber, só a filosofia, e, do ponto de vista dos
atos, só a virtude se acertam a todas as idades
e condições sociais.
Encontramos em Epicuro e Sêneca alguma
coisa semelhante às idéias de Plínio e Cícero:
eles também dizem que as cartas que escrevem
a seus amigos viverão eternamente. Mas é de
outro modo e se adaptando, em vista de um
fim útil, à vaidade dos outros. Explicam-lhes
que se é o desejo de renome e fama que os
amarra ainda às funções públicas e os induz a
temerem a solidao, suscetível de prejudicar tal
resultado, podem tranquilizar-se: eles, Epicuro
e Sêneca, gozam de suficiente crédito sobre a
posteridade para lhes assegurar, ainda que tão
389 Sêneca
126 MONTAIGNE
somente pelas cartas que lhes enviam, que seus
nomes serão conhecidos e mais famosos do
que o seriam pelos atos de sua vida pública.
Além dessa diferença, as cartas de nossos
dois filósofos não são dessas cartas vazias e
sem consistência que apenas se salientam por
alguma delicadeza de expressão, algum ritmo
harmônico; são substanciais, cheias de sabedo-
ria, e quem as lê não se faz mais eloquente e
sim mais avisado; não nos ensinam a bem
dizer, e sim a bem fazer. Abaixo a eloguência
que atrai nossa atenção para ela mesma e não
para seus temas. Observemos, entretanto, que
a de Cícero, de tão perfeita adquiriu valor pró-
prio. A propósito, contarei uma anedota que
põe em evidência a sua natureza. Tinha de
falar em público e não lhe sobrara tempo para
preparar convenientemente seu discurso. Eros,
um de seus escravos, veio preveni-lo de que o
comício fora adiado para o dia seguinte. Pois
Cícero ficou tão contente com a notícia que o
forrou.
Uma palavra acerca desse gênero epistolar
em que meus amigos julgam que eu poderia
alcançar algum êxito e que de bom grado teria
escolhido para publicar meus devaneios se
soubesse a quem endereçar as cartas. Para
tanto fora preciso que tivesse hoje, como tinha
outrora, uma pessoa com a qual mantivesse
relações contínuas, que me agradassem, me
animassem e me inspirassem. Pois raciocinar
ao léu como fazem outros, só o faria em sonho.
Inimigo declarado de tudo que é falso, não
poderia entreter-me de coisas sérias com
correspondentes imaginários. Fora mais atento
e claro no que escrevo se me dirigisse a um
amigo, de cuja inteligência e caráter tivesse
idéia precisa, do que me dirigindo a um pú-
blico formado de toda espécie de gente. E
estou certo de que me teria dado muito bem.
Meu estilo, espontâneo e familiar, não convém
ao trato dos negócios públicos, mas é bem
meu, de acordo com minha maneira de falar,
que é substancial? ºº, desordenada, sincopada,
de um tipo muito particular.
Não sei escrever cartas cerimoniosas, que
são no fundo 'uria seguência de belas frases
amáveis. Os longos protestos de afeição e de
dedicação não estão em minhas forças nem
são de meu gosto. Não acredito nisso e não sei
dizer o que não penso. Eis-me bem longe dos
hábitos de hoje, que comportam um esbanja-
mento de fórmulas obsequiosas e servis, real-
mente de uma prolixidade jamais vista, e em
que se abusa nas relações comuns de palavras
como vida, alma, devoção, servo, escravo, de
PRA
380 No texto: “touffue” = densa. (N. do T.)
modo que, se desejamos acentuar uma simpa-
tia especial e respeitosa, os termos para fazê-lo
nos faltam.
Aborrece-me parecer adulador, e como
tenho naturalmente a expressão concisa, dire-
ta, sem adornos, considera-me algo desde-
nhoso quem não me conhece por outros aspec-
tos. Os que eu mais admiro € respeito são os
que menos demonstro admirar e respeitar, e
quando me sinto particularmente feliz esqueço
as convenções mundanas. Em relação às pes-
soas de que dependo, mostro-me pouco solícito
e algo altivo; e agrado ainda menos os que me
são mais caros. Parece-me que devem ler em
meu coração e que minhas palavras trairiam a
expressão certa de meus sentimentos. Trate-se
de dar boas-vindas, de dizer adeus, de agrade-
cer, de oferecer meus préstimos, ou de quais-
quer outros cumprimentos enfáticos que deter-
mina o cerimonial da boa sociedade, não
conheço ninguém que se sinta tão inibido
quanto eu. Nunca escrevi uma carta de reco-
mendação que o destinatário não achasse seca
ou mole.
Os italianos gostam de editar correspon-
dências. Possuo cerca de cem volumes de car-
tas, entre as quais as de Aníbal Caro se me afi-
guram as melhores. Se possuísse todas as
cartas que escrevi às mulheres, na mocidade,
quando minha pena traduzia os impulsos de
meu coração, talvez nelas se encontrassem pá-
ginas dignas de ser divulgadas entre os jovens
ociosos e atormentados com idênticas paixões.
Escrevo sempre minhas cartas às pressas,
tão precipitadamente que embora tenha uma
péssima caligrafia prefiro ainda escrevê-las eu
mesmo a recorrer a alguém, pois não acho
quem possa acompanhar-me quando dito.
Ademais não recopio nunca. Habituei os altos
personagens que me conhecem a admitirem
minhas rasuras e correções, bem como meu
papel sem dobra nem margens. As cartas que
mais exigem de mim são as que menos impor-
tam; quando demoro em redigi-las é sinal de
que não me sinto disposto a enviá-las. Começo
em geral sem plano predeterminado; uma frase
puxa a outra. Hoje os preâmbulos e os enfeites
ocupam mais espaço do que o próprio assunto.
Escrever duas cartas custa-me tanto quanto
dobrar e lacrar uma única, por isso deixo a ou-
trem esse cuidado. Não menos alegremente
outorgaria a alguém, ao encerrar meu assunto,
a tarefa de acrescentar essas longas arengas,
esses protestos e cumprimentos com que termi-
namos nossas cartas e que espero ver abolidos
algum dia por alguma nova moda. Da mesma
forma, aborrece-me transcrever a teoria de ti-
tulos e qualidades do destinatário, o que mui-
tas vezes, de medo de me enganar, me levou a
ENSAIOS— I
não escrever, principalmente a homens de
finanças e de leis. Inventaram-se tantos cargos
novos, proliferaram a tal ponto as distinções
honoríficas e de tal ordem é sua hierarquia
que, além da dificuldade em diferençá-las, nos
127
arrissamos a confusões e ofensas tanto mais
graves quanto custaram muito caro a seus
donos. Sobrecarregar as páginas de rosto de
nossos livros com dedicatórias e louvações
parece-me igualmente de muito mau gosto.
CaríTULO XLI.
O homem não cede a outrem a glória que conquistou
De todas as quimeras?º* do mundo, a mais
admitida e universalmente espalhada é a do
cuidado com nossa reputação e nossa glória,
que apreciamos a ponto de, em troca de tão vã
imagem, de uma simples voz sem corpo,
renunciarmos às riquezas, ao repouso, à saúde,
à vida, bens efetivos e substanciais. “A fama,
que com a doçura de sua voz vos encanta,
arrogantes mortais, e vos parece tão bela, não
passa de um eco, um sonho ou, antes, a som-
bra de um sonho que se dissipa e se esvai com
o vento”3º2. De todas as idéias desproposi-
tadas que podem passar pela mente dos ho-
mens é ela a mais indomável e tenaz, “porque
não cessa de tentar os espiritos mais avança-
dos na virtude”3º3. Parece, com efeito, que
dela mais do que de quaisquer outras se liber-
tam com maior dificuldade os filósofos.
Não há nenhuma cuja futilidade seja mais
claramente demonstrada pela razão, mas ela
tem raízes tão vivas dentro de nós que não sei
se jamais alguém conseguiu livrar-se inteira-
mente dela. Depois de tudo dito a fim de a evj-
tar, quando o pensamos ter conseguido, provo-
ca ela em nós uma tal reação contra os
argumentos emitidos que estes não mais se
sustentam. Pois, como afirma Cicero, exata-
mente os que mais a combatem querem que
seus nomes figurem nos livros que escreveram
a respeito e que o seu desprezo pela glória os
glorifique..
Com tudo negociamos. Emprestamos se
necessário nossos bens e nossas vidas aos ami-
gos, mas despojarmo-nos de honrarias em
benefício de outrem ou lhes cedermos um
pouco de glória são gestos que ainda não se
viram.
Durante a guerra contra os cimbros, Lutá-
381 No texto “rêveries”, sonhos vãos, devaneios,
etc. Godefroy consigna o significado de quimera
que parece melhor. (N. do T.)
392 Tasso.
383 Santo Agostinho.
cio Catulo desenvolveu mil esforços a fim de
sustar a debandada de seus soldados diante do
inimigo. Nada conseguindo, misturou-se a
eles, simulando covardia, para que parecessem
segui-lo, e não fugir; sacrificava assim sua
reputação para salvar a honra do exército.
Quando, em 1537, Carlos Quinto invadiu a
Provença, dizem que Antônio de Leve, vendo
que o imperador estava decidido e conside-
rando que o resultado da invasão seria infinita-
mente glorioso, opinou entretanto em sentido
contrário e o desaconselhou a fim de que toda
a glória e a honra da empresa coubessem intei-
râmente ao monarca e que se proclamasse que
graças à segurança de suas concepções e à sua
previdência tinha, em oposição a todos, levado
a cabo e com grande êxito o empreendimento.
Glorificava-o deste modo em detrimento pró-
prio.
Tendo dito os embaixadores da Trácia, ao
apresentar suas condolências a Arquileônidas,
por ocasião da morte de seu filho, que o jovem
não tivera quem o igualasse, refutou o elogio a
mãe de Brásidas, endereçando-o a todos: “não
faleis assim; Esparta, a meu ver, possui nume-
rosos cidadãos maiores e mais valentes”. Na
batalha de Crécy o Principe de Gales, ainda
jovem, comandava a vanguarda. O principal
peso do ataque fora dirigido contra ele. Os
fidalgos que o acompanhavam, considerando
que a situação era crítica, chamaram em seu
socorro o Rei Eduardo. Este perguntou pelo
filho e, ao ser informado de que estava vivo e a
cavalo, observou: “Poderia roubar-lhe a honra
de um combate em que se empenhou durante
tanto tempo; qualquer que seja o destino, o
mérito há de caber-lhe. E não quis ir nem man-
dar socorro, certo de que se lá fosse teriam dito
que tudo se perderia sem ele e lhe houveram
atribuído o resultado da jornada” 3º *. Certas
pessoas pensavam em Roma, e isso se dizia
Va
384 Tito Lívio.
128 MONTAIGNE
comumente, que os altos feitos de Cipião eram
em parte da autcria de Lélio, o qual, entre-
tanto, jamais cessou de exaltar a grandeza e a
glória de seu general e de ajudá-lo sem cuidar
em absoluto de sua própria fama. A alguém
que dizia a Teopompo, rei de Esparta, que se
og negócios púbiicos iam tão bem era porque
ele sabia comandar, respondeu o monarca:
“Digam, antes, que o povo sabe obedecer.”
As mulheres que herdavam o título de par,
tinham, apesar do sexo, o direito de assistir e
opinar nas causas de sua jurisdição; e Os pares
eciesiásticos, apesar de seu caráter religioso,
eram obrigados a assistir nossos reis quando
em guerra, não somente enviando seus amigos
e servidores mas tambêm em pessoa. Em virtu-
de disso é que vimos o Bispo de Beauvais ao
lado de Filipe Augusto na batalha de Bouvi-
nes, em que tomou parte e na qual se conduziu
com bravura, sem contudo tirar proveito e gló-
ria de exercício tão sangrento e brutal, Pôs
nesse dia vários inimigos fora de combate,
entregando-os sempre ao primeiro fidalgo que
encontrava para que os degolasse cu os
conservasse prisioneiros. Entre outros; assim
entregou Guilherme, Conde de Salisbury, nas
mãos do Sr. Jean de Nesle. Por sutil desen-
cargo de consciência consentia em espancar
mas não em derramar sangue; e por isso com-
batia unicamente armado de maça. Há tempos,
alguém que era censurado pelo rei por ter
erguido a mão contra um padre, negou o crime
com segurança afirmando que apenas o batera
e espezinhara...
CarítTuLO XLII
Da desigualdade entre os homens
Disse algures Plutarco que a diferença entre
um animal e outro é menor do que a que vai de
um a outro homem. Referia-se à alma e às qua-
lidades intelectuais. Por mim, acho que há
uma tal desproporção entre Epaminondas, tal
qual o imagino, e certa pessoa muito minha
conhecida, que não hesitaria em ser mais
peremptório, dizendo que a diferença entre tal
e tal homem é maior do que entre tal homem e
tal bicho. “Ah, como pode um homem ser
superior a outro !3º 8 O espírito humano com-
porta tantos graus quantas braças vão daqui
ao céu.
No que concerne à apreciação das coisas, é
espantoso que tudo julgando pelas suas quali-
dades específicas não nos encaremos da
mesma maneira. Elogiamos um cavalo por ser
vigoroso e ágil: “Apreciamo-lo por sua rapi-
dez, pelos numerosos prêmios que ganhou em
circos sob os aplausos de bulhenta multi-
dao”*º 8, e não por causa do arreio; elogiamos
o galgo pela velocidade e não peia coleira; o
falcão pela potência de vôo e não pela correia
e a sineta; por que, pois, não apreciarmos o
homem pelas suas qualidades específicas?
Tem um belo trem de vida, um magnífico palá-
cio, tanto de rendimento, comentamos; e tudo
isso lhe diz respeito evidentemente, mas não é
395 Terêncio.
396 Juvenal.
ele. Ninguém compra nabos em sacos. Se que-
remos adquirir um cavalo de justa começamos
por lhe tirar a manta a fim de examiná-lo nu. E
se permanece coberto, como o apresentavam
outrora aos príncipes, são as partes menos
importantes que se sonegam a vista para que
não fiquemos a admirar o pêlo e as ancas, €
nos atardemos na apreciação das pernas, dos
olhos, e dos pés, coisas essenciais no cavalo:
“têm os reis por costume quando compram
cavalos examiná-los cobertos, com receio de se
o cavalo tem a cabeça bonita e os pés cansa-
dos, o comprador se deixe seduzir pelo aspecto
de um traseiro bem-feito, de uma certa elegân-
cia”397, Por que, portanto, antes de julgar um
homem o encaramos já todo empacotado?
Nada do que nos mostra é dele e ele esconde
tudo o que pode esclarecer-nos a seu respeito.
0) que precisamos saber é quanto vale a espada
e não a bainha, porquanto talvez não demos
grande coisa por ela. É necessário juigar o
- homem em si e não pelos seus adornos. Como
diz espirituosamente um filósofo do passado:
“Sabeis por que o achais grande? Porque o
medis com o pedestal.” O pedestal de uma
estátua não é parte integrante dela. Devemos
medi-lo sem pernas de pau, nem riquezas, nem
dignidades: em mangas de camisa. É o seu físi-
co adequado a suas funções? É ele sadio e ale-
397 Horácio.
ENSAIOS — 1
gre? Como tem a alma? Bela, capaz, bem do-
tada sob todos os aspectos? Tem a fortuna
influência sobre ela? Perturba-se ante um peri-
go iminente? É indiferente ac tipo de mcrte
que, a cada instante, a pode atingir? É calma,
igual, satisfeita com a sorte? Eis o que é preci-
so procurar saber € nos permite avaliar as dife-
renças existentes entre os homens: “É sábio e
sabe dominar-se? É capaz de resistir às .pai-
xões e desprezar as honrarias? Fechado por
inteiro dentro de si mesmo, semelhante a uma
bola perfeita que nenhuma aspereza impede de
rodar, é influenciado pela fortuna?” 3º* Um tal
homem estã quinhentas braças acima dos rei-
nos e ducados; é ele próprio o seu império. “O
sábio é o artesão de sua própria felicida-
de!3º9 Que tem ainda a desejar? “Não esta-
mos vendo que a natureza só exige de nós um
corpo sadio e uma alma serena, isenta de preo-
cupações e receios?” 4ºº Comparemos com ele
a turba de homens estúpidos, de alma vil, ser-
vil, inconstante, joguetes de toda espécie de
paixões tormentosas, dependentes, todos, de
ouirem; dele a eles a distância é maior que do
céu à terra. Entretanto, nossa cegueira é de tal
ordem que pouca ou nenhuma atenção damos
a esse homem. Quando consideramos um cam-
ponês e um rei, um nobre e um plebeu, um
magistrado e um simples particular, um rico €
um pobre, uma enorme diferença nos salta aos
olhos, mas essa diferença não consiste por
assim dizer senão na diversidade de calçado
que usam uns e outros. Na Trácia o rei distin-
guia-se do povo de modo singular, muito mais
do que podemos imaginar: tinha uma religião
própria, um deus particular, Mercúrio, que
seus súditos não deviam adorar. Aos deuses do
povo, Marte, Baco, Diana, não rendia homena-
gem.
Tudo isso, em suma, não passa de cenário,
não constitui diferença essencial entre os
homens. Assim, esses atores de comédia que
vemos exibirem-se no palco com atitudes dé
duques e imperadores para logo depois volta-
rem a ser lacaios ou carregadores, suas profis-
sões originais.
fisse imperador, por exemplo, cuja pompa
em público nos ofusca, “porque brilham neje,
engastadas em ouro, grandes esmeraldas da
mais linda água, vestido de magníficos trajes
verde-mar que não tardará em sujar nas orgias
e nos baixos prazeres” *º1, ide espiá-lo atrás
da cortina: é apenas um homem vulgar, por
vezes mais vil do que a maioria dos outros. “O
sábio encontra sua felicidade em si mesmo; os
398 Horácio.
39º Piauto..
400 Tucrécio.
401 Td.
129
demais não possuem senão uma felicidade
superficial” “02, A covardia, a indecisão, a
ambição, o despeito, a inveja perturbam o
potentado como qualquer outro homem. “Nem
Os tesouros, nem os fachos consulares, afugen-
tam as inquietações e preocupações que ade-
Jam sob os tetos dourados” *º3, Mesmo junto
de seus exêrcitos não escapa a elas: “a apreen-
são, as preocupações peculiares ao homem,
não se espantam nem com o ruido das armas
nem com os golpes cruéis; frequentam ousada-
mente as cortes dos reis, e não respeitam o
esplendor que envolve os tronos”“º*. Pou-
pam-no, por acaso, mais do que a nós, a febre,
a enxaqueca, a gota? Quando a velhice pesar
sobre seus ombros, virão aliviá-los os archei-
ros de sua guarda? Quando tremer com receio
da morte, acalmar-se-á com a presença dos
seus fidalgos camareiros? Quando o ciúme ou
o desejo o atingirem, reconfortá-lo-ão os nos-
sos cumprimentos? Esse dossel recamado de
ouro e pérolas não tem o poder de atenuar as
dores de uma cólica: “deitado sobre a púrpura,
sobre tapetes caros ou na esteira do plebeu, a
febre ardente não vos deixará mais cedo” *º 8.
Os aduladores de Alexandre, o Grande,
repetiam-lhe sem descontinuar que era filho de
Júpiter. De uma feita, olhando o sangue que
lhe escorria de um ferimento, disse ele: “Então,
que"vos parece? Não achais que é um sangue
vermelho como o de qualquer ser humano? Ou
é ele da cor do sangue que Homero põe nos
ferimentos dos deuses?” O poeta Hermodoro
compusera em honra de Antígono uns versos
em que o denominava filho do sol. “Quem
limpa a minha retrete bem sabe que não é ver-
dade”, observou-lhe Antígono agastado com a
"bajulação.
Esse homem não passa afinal de um
homem. Se não tiver valor próprio não lho
dará o império do mundo. “Que as jovens o
disputem, que por toda parte as rosas nasçam
sob os seus pés ”*º 8, de que servirá tudo isso se
tem a aima grosseira e o espírito lerdo? Sem
vigor e sem espírito não se chega a sentir a feli-
cidade e nem mesmo a volúpia. “O valor das
coisas depende de quem as possui: boas para
os que sabem utilizá-las, são más para os que
as empregam mal?*º?7. Para saborear os bens
quaisquer que sejam, que nos outorga a fortu-
na, cumpre ter o sentimento que a sensação
cria. É pelo gozo e não pela posse que somos
felizes: “não são essas terras, esses palácios,
402 Sêneca.
“03 Horácio.
+04 Tucrécio.
s0s
308 Pérsio.
467 Terêncio.
130
esses montes de ouro e prata, que hão de curar
a febre de quem os possui ou lhe purgar a
angústia da alma. O gozo exige a saúde do
corpo e da alma. Para quem deseja ou teme,
que significam tais riquezas? São quadros para
olhos remelentos, estufas para paralíticos” “º8.
Se se trata de um tolo seu gosto estragado
nada apreende; não pode apreciar, como um
endefluxado não aprecia a suavidade do vinho
grego; como um cavalo permanece indiferente
à riqueza de seus arreios. Por isso diz Platão
que a saúde, a beleza, a força, as riquezas e
tudo o que consideramos felicidade são males
para quem tem um juízo errado, enquanto
quem possui um espirito bem formado os enca-
ra como o que realmente são. E essa diver-
gência verifica-se igualmente em sentido inver-
so. Ademais, para corpo e alma em mau
estado, de que servem essas vantagens exterio-
res? A menor picada basta para tirar todo o
prazer que poderia ter em governar o mundo.
A primeira pontada da gota, seja senhor e
majestade, “coberto de ouro e prata” *ºº, perde
ele a lembrança dos palácios e grandezas. E
por ser principe deixará de corar, de empalide-
cer, de ranger os dentes quando tomado de
cólera?
Se se trata de homem inteligente e bem nas-
cido pouco acrescenta a realeza à sua felici-
dade: “se tens bom estômago, válidos os pés e
os pulmões, as riquezas dos reis nada te darão
a mais” ?1º. Percebe que tudo isso é aparência
e trapaça. Será talvez da opinião do Rei Seleu-
co que dizia que “quem soubesse quanto pesa
um cetro não se daria o trabalho de o erguer se
encontrasse um no chão”, e com essas pala-
vras queria mostrar como são grandes e peno-
sos os encargos de um bom rei. E sem dúvida
não é fácil lidar com os negócios alheios, se os
nossos já nos custam tanto suor. Quanto a
mandar, o que se afigura sumamente agradá-
vel, em considerando a fraqueza da razão hu-
mana e quanto é dificil escolher quando se
duvida, sou de opinião que é mais cômodo se-
guir do que guiar; e repousa o espírito não
andar senão por caminhos já abertos e não res-
ponder senão por si próprio: “mais vale obede-
cer tranquilamente que levar a mão ao leme do
Estado” *!1. Acrescente-se a isso o que afir-
mava Ciro, a saber, que o comando só deve
caber a quem valha mais que os comandados.
Segundo Xenofonte, o Rei Híeron pretendia
que quanto ao gozo das volúpias íntimas estão
os soberanos em piores condições que os parti-
culares, pois a facilidade com qué as satisfa-
“08 Horácio.
40º Tibulo.
“10 Horácio.
“11 Lucrécio.
MONTAIGNE
zem tira-lhes algo desse sabor agro-doce que
lhes empresta a dificuldade. “Amor demais
enjoa, como perturba o estômago um prato
agradável comido com exagêro”*12. Imagi-
nam que às religiosas do coro apeteça a músi-
ca? A saciedade torna-a aborrecida. Os festins,
as danças, as mascaradas, Os torneios divertem
quem não os vê amiudadamente e os deseja
ver, mas para quem os tem como espetáculo
comum são insossos e nada atraentes. Assim
também não são as mulheres excitantes para
quem delas goza à saciedade. Quem não tem
tempo de ter sede, não tem prazer em beber.
As peloticas dos prestidigitadores divertem-
nos, mas para eles são corvéias. Por isso gos-
tam os príncipes de por vezes se fantasiar e
viver nas baixas classes da sociedade: “alguma
mudança não desagrada aos grandes; às vezes
uma refeição frugal, sem tapetes nem púrpuras
sob o teto do pobre, lhes desanuvia a fron-
te? 413. Nada incomoda mais do que a abun-
dância. Que desejo não se amortecerá diante
de trezentas mulheres, como as tem o sultão
em seu harém? Que prazer de caçar teria quem
o fizesse com sete mil falcões?
Além disso o brilho da grandeza comporta a
meu ver inconvenientes dos mais incômodos,
quando os grandes se dispõem a gozar os pra-
zeres mais doces. Estão por demais visados,
gente demais se preocupa cem eles, tanto que
não compreendo que não exijam deles que
escondam melhor e dissimulem seus erros.
Pois o que é para nós indiscrição neles consi-
dera o povo tirania, desprezo, desobediência à
lei. Além da inclinação para o vício, dir-se-ia
que juntam a seus desmandos o prazer de vio-
lar e espezinhar as ordenações. Platão está
certo quando em seu “Górgias” define como
tirano aquele que na cidade tem licença de
fazer o que bem entende e acrescenta que o
espetáculo e a publicidade dos abusos chocam
mais, por vezes, do que os próprios abusos.
Todos receiam ser espionados e controlados;
eles o são até em suas atitudes e pensamentos,
porquanto todos pretendem ter o direito de os
Julgar e interesse em fazê-lo. Sem contar que as
manchas são tanto mais visíveis quanto o
lugar em que se encontram é mais aparente e
iluminado. Um sinal ou verruga na fronte
vêem-se melhor do que uma cicatriz alhures. É
por esse motivo que os poetas sempre repre-
sentem Júpiter, em suas aventuras galantes,
sob um aspecto diferente do verdadeiro, e que,
entre as muitas cenas do gênero que lhe atri-
buem, em uma só, ao que me parece, é ele
apresentado em toda a sua majestade.
412 Ovídio.
413 Horácio.
ENSAIOS —T
.
Hieron conta igualmente quanto o inco-
moda a realeza, impedindo-o de viajar livre-
mente, mantendo-o por assim dizer prisioneiro,
sem poder ultrapassar as fronteiras do país e
cercando-o por toda parte de uma importuna
multidão. E preciso convir em que, as mais das
vezes, vendo nossos reis à mesa, assediados
por desconhecidos faladores e curiosos, tenho
sentido mais dó do que inveja. Dizia o Rei
Afonso, a propósito, que a sorte dos asnos era
preferível à sua; deixam-nos ao menos pastar à
vontade, o que os reis não conseguem de seus
servidores. Nunca admiti que pudesse ser agra-
dável para um homem sensato e normal supor-
tar os olhares de dezenas de pessoas quando
precisa ir à retrete. Tampouco compreendo
que se acomode melhor um rei com os serviços
de alguém que possui dez mil libras de rendi-
mento, que tomou Casal ou defendeu Siena, do
que com os de um bom e experiente criado de
quarto. As vantagens do príncipe são em sua
maioria puramente imaginárias e cada camada
social tem seus príncipes. César chamava rei-
zinhos aos senhores que, na Gália de seu
tempo, tinham o direito de julgar.
Salvo o título de Sire*"*, vai-se longe atual-
mente na imitação dos nossos reis. Nas províin-
cias afastadas da Corte, na Bretanha por
exemplo, onde o senhor vive em permanência
em seu feudo, a administração da casa, as rela-
ções com seus súditos, os oficiais que o cer-
cam, o gênero de vida que leva, as ocupações,
o protocolo seguido, sua vida íntima no meio
dos servidores, até as próprias idéias, tudo se
assemelha e se ajusta ao que se faz na Corte.
Ouve falar do rei uma vez por ano, como ouve
falar do rei da Pérsia; e se o reconhece é em
virtude de algum parentesco longínquo assina-
lado em seus arquivos. Em verdade, nossas leis
dão-nos grande liberdade, O peso da autori-
dade real não se faz sentir mais do que duas
vezes na vida de um fidalgo francês. A sujei-
ção completa e efetiva só se impõe âqueles que
a consideram vantajosa porque a trocam por
proventos e honrarias. Quem permanece sosse-
gado em suas terras e sabe dirigir seus negó-
cios sem querelas nem processos é tão livre
quanto o doge de Veneza: “Poucos homens
são atados à servidão, inúmeros a ela se
amarram ”*158.
Mas o que Híeron coloca entre os maiores
inconvenientes da realeza é a carência de ami-
zades e relações cordiais que constituem o
"mais doce e perfeito encanto da existência
414 Corresponde a Senhor e por Senhor se traduz,
mas somente se emprega em relação ao rei.
(N. do T.)
*15 Sêneca.
131
humana. “Pois que prova de afeição posso
alcançar de quem, queira ele ou não, me deve
tudo o que possui? Posso levar em conta a
humildade de suas palavras e a sua respeitosa
cortesia, se não tem a possibilidade de se con-
duzir diferentemente? As homenagens que me
prestam os que me temem não me honram, são
prestadas à realeza e não a mim pessoalmente.
Como diz Sêneca, a maior vantagem da reale-
za estã em que o povo é não somente obrigado
a sofrer mas ainda a louvar os gestos do
senhor. E não vejo que o bom como o mau rei,
o que detestam como o que amam, são trata-
dos da mesma maneira? De igual modo, com o
mesmo cerimonial trataram o meu predecessor
e assim tratarão o meu sucessor. O fato de
meus súditos não me ofenderem não significa
afeição; nem o poderia assim considerar, por-
quanto ainda que o quisessem não estaria em
suas possibilidades ofender-me. Ninguém me
freguenta por amizade, porque esse sentimento
não pode existir quando as relações e as trocas
de idéias são tão raras; a altura de minha posi-
ção afasta-me de qualquer intimidade. Entre
mim e os outros homens há demasiada desi-
gualdade e desproporção. Seguem-me porque é
bonito ou por costume; e mais do que a mim à
minha fortuna, a fim de aumentar a deles pró-
prios. Tudo o que me dizem e fazem não passa
de dissimulação, estando sua liberdade contro-
lada pelo grande poder que tenho sobre eles.
Nada vejo em torno de mim que não se escon-
da sob uma máscara.”
Os cortesãos elogiavam de uma feita o
Imperador Juliano porque se esforçava por ser
Justo. “Orgulhar-me-ia de vossas louvações —
disse — se viessem de pessoas que ousassem
denunciar e censurar meus atos, caso me con-
duzisse de outra maneira.”
Todas as verdadeiras vantagens de que
gozam os principes são comuns aos homens de
fortuna média (somente os deuses cavalgam
animais alados e se alimentam de ambrosia);
não diferem de nós quanto ao sono e ao apeti-
te; o aço de suas armaduras não é mais bem
temperado do que o das nossas; suas coroas
não os abrigam do sol e da chuva.
Diocleciano, elevado aos pincaros da fortu-
na, tudo abandonou um dia para gozar Os pra-
zeres de um simples cidadão. Tempos depois,
exigindo os negócios públicos que assumisse
novamente a direção do Estado, respondeu aos
que lhe foram solicitar que aceitasse o cargo:
“não procuraríieis persuadir-me se vísseis o
belo renque de árvores que eu mesmo plantei
em minhas terras, e os melões que semeej?.
Anacársis é de opinião que o Estado mais
feliz seria aquele em que, dadas as condições
iguais de tudo e de todos, a preeminência se
132
medisse pela virtude e fosse o vício relegado
para o último lugar.
Quando o Rei Pirro quis entrar na Itália, Ci-
neas, seu avisado conselheiro, lhe disse, que-
rendo mostrar-lhe a inanidade de sua ambição:
“Com que fim, Senhor, concebeis semelhante
empreendimento? — Com o fim de me tornar
senhor da Itália. — E feito isso? — Passarei à
Gália e à Espanha. — E depois? — Irei subju-
gar a África, e quando afinal for senhor do
mundo irei repousar €e viver satisfeito e tran-
quilo. — Por Deus, Senhor, dizei o que vos
impede de fazê-lo desde logo se tal é vossa
MONTAIGNE
vontade? Por que não gozar imediatamente
esse repouso a que aspirais e vos poupar assim
tantas dificuldades, tantos acasos a que vos
ides aventurar?” “E sem dúvida porque não
conhecia os limites que devemos opor aos nos-
sos desejos, limites além dos quais cessa o pra-
zer verdadeiro” *1 8. Termino com esta máxima
de Cornélio Nepos; que acho singularmente
ajustada ao nosso assunto: “E com seus costu-
mes que cada um constrói o seu destino.”
416 Lucrécio.
CapíTULO XLIII
Das leis suntuárias
A maneira pela qual nossas leis procuram
regular as nossas despesas extravagantes e
ostensivas com a mesa e o vestuário parece
contrária ao fim visado. O verdadeiro modo de
atingir um tal objetivo seria infundir no
homem o desprezo pelo ouro e a seda, como
coisas vãs e inúteis; e em vez disso, nós as
valorizamos ainda mais, o que é maneira bem
toia de os desgostar delas. Dizer, como o
temos feito, que só os príncipes poderão comer
chernote, usar veludo e tecidos de ouro, proi-
bindo-o ao povo, é dar importância a essas
coisas e aumentar em todos o desejo de as ter.
Que os reis renunciem corajosamente a esses
sinais de grandeza, pois não carecem de
outros; semelhantes excessos são mais descul-
páveis em particulares do que nos príncipes. O
que vemos em certos países mostra-nos que
não faltam meios melhores de estabelecer
distinções exteriores nos graus de hierarquia
social (o que considero aliás medida inteligente
em um governo), sem que se recorra a um
exibicionismo suscetível de desenvolver a cor-
rupção e que comporte inconvenientes tão
visíveis.
É realmente admirável ver como, nessas coi-
sas de nonada, impõe o costume com facili-
dade e rapidez a sua autoridade. Mal decorrera
um ano que, em virtude do luto pela morte de
Henrique II, se usava tecido de lã, e ja a seda
tanto se desacreditara que, vendo alguém
assim vestido, logo se imaginava fosse algum
burguês da cidade. Tornara-se peculiar aos
médicos e cirurgiões. E embora em todas as
classes da sociedade todos se vestissem de
igual modo, a elegância natural de cada um
bastava para revelar a que classe pertencia. Da
mesma forma, rapidamente se fez moda no
exército o uso de usar sujos gibões de camurça
ou tecido ordinário; e logo se abandonaram as
elas e ricas vestimentas, que passaram
mesnio a ser criticadas. Dêem o exemplo ós
reis, renunciando a tais despesas: em menos de
um mês, sem decreto nem ordenação, será
coisa feita; todos os seguiremos. Ao contrário
do que diz hoje, deveria a lei determinar que
ninguém, à exceção dos funânbulos e prostitu-
tas, teria o direito de usar tecidos de cores
vivas e jóias.
Foi assim que Seleuco corrigiu os costumes
corruptos dos lócrios. Determinavam suas
ordenações que as mulheres de condição livre
não podiarn fazer-se acompanhar de mais de
uma criada, a menos que estivessem embriaga-
das. Que somente as mulheres públicas e de
vida airada pudessem sair à noite, usar jóias de
ouro e-vestidos bordados. Que à exceção dos
que, por profissão, prostituem mulher e filhas,
nenhum homem tivesse anéis de ouro ou roupa:
de tecido fino, no gênero do tecido fabricado
em Mileto. Com essas exceções, que estigmati-
zavam quem delas se beneficiava, desviou
engenhosamente seus concidadãos das futili-
dades e dos prazeres perniciosos. Foi um
modo muito eficiente de chamar os homens ao
dever e à obediência, incentivando neles o sen-
timento de honra e a ambição.
Nossos reis tudo podem nessas reformas
exteriores. Seu gosto faz a lei: “tudo o que
fazem os príncipes, dir-se-ja que o prescre-
ENSAIOS — 1
vem?*17. O resto da França acomparha a
Corte. Que abandonem essas braguilhas tão
feias que exibem as partes ocultas do corpo; e
esses gibões tão amplos e pesados que nos
deformam e incomodam quando precisamos
armar-nos; e esses cabelos efeminados; e esse
habito de beijar os que saudamos, no rosto ou
nas mãos, gesto que só aos príncipes era outro-
ra devido; e que condenem esse hábitê de, em
lugar de respeito, se apresentar o fidalgo sem
espada, desbragado como se saísse da retrete;
e mais esse outro costume (contrário ao privi-
légio que sempre teve a nobreza francesa) de
manter a cabeça descoberta em torno deles,
ainda que longe, e não somente deles mas de
cem outros, pois temos numerosos terços e
quartos de rei que exigem a mesma coisa. Que
o queiram realmente, e essas inovações é ou-
tras muitas do mesmo gênero igualmente
*17 Quintiliano
133
lamentáveis, logo serão desprezadas e desapa-
recerão. Trata-se de erros superficiais rnas de
mau prognóstico: quando vemos rachar o re-
boco da parede temos aviso de que a estrutura
se desconjunta.
Platão em suas leis acha que não há no
mundo calamidade mais nefasta para a Repú-
biica do que permitir que a mocidade intro-
duza modificações no vestuário, nos gestos,
nas danças, nos exercicios e nas canções, em
obediência a impressões instáveis; e que cor-
ra atrás das novidades e aplauda os inven-
tores. Pois com isso se corrompem os costu-
mes e se tornam as antigas instituições objeto
de desprezo. Em tudo, com exceção do que é
ruim, devem-se temer as mudanças: das esta-
ções, dos ventos, des alimentos e dos humcres.
Nenhuma lei tem vaior efetivo, fora daquelas a
que Deus deu uma duração tal que ninguém
lhes conhece a origem nem as viu diferentes.
CapítruLO XLIV
Do sono
Ordena-nos'a razão que sigamos sempre o
mesmo caminho, mas não nos diz que o faça-
mos sempre com o mesmo passo. E embora O
sábio não deva permitir que as paixões huma-
nas o desviem do caminho certo, pode ele
muito bem ponderá-las a fim de apressar ou
retardar a própria marcha, em vez de se man-
ter no meio delas como um gigante imóvel e
impassível. Se a própria virtude fosse encarna-
da, o pulso bater-lhe-ia mais rapidamente,
segundo fosse ela jantar ou se: lançasse ao
assalto. Há mesmo circunstâncias em que é
necessário que se inflame e se exalte.
Eis por que observei como coisa rara que
por vezes os grandes personagens em seus
mais importantes empreendimentos se conser-
vam tão serenos que nem sequer perdem o
sono.
No dia da batalha que travou contra Dario,
Alexandre, o Grande, dormiu 1au profunda-
mente e até ja manhã alta, que, em sendo quase
hora de combater, Parmênion foi obrigado a
entrar-lhe no quarto a fim de acordá-lo, cha-
mando-o duas ou três vezes pelo nome. Na
noite em que resolveu suicidar-se, o Imperador
Otão, depois de pôr em ordem seus negócios
domésticos, dividir seu dinheiro entre seus
servidores, afiar a espada com a qual se ia
matar, já tão-somente à espera de saber se seus
amigos estavam em segurança, adormeceu tão
profundamente que seus criados o ouviam ron-
car. A morte desse imperador apresenta certa
analogia com a do grande Catão. Este, às vês-
peras de se suicidar e à espera da notícia de
que os senadores que afastava de si tinham
embarcado em Útica, pôs-se a dormir tão bem
que do quarto vizinho lhe ouviam o ruído da
respiração. À pessoa que mandara ao porto
tendo-o acordado para dizer que a tempestade
perturbava consideravelmente a manobra das
velas, enviou ele outro e se enfiando nova-
mente no leito voltou a adormecer; e assim
ficou a dormir até a volta do segundo mensa-
geiro com a notícia de que a partida se
efetuara.
Encontramos ainda em Catão certa simili-
tude com o que contamos de Alexandre. Quan-
de da grande e perigosa borrasca que por
pouco não fez vingar a sedição do tribuno
Metelo, o qual, a propósito da conjuração de
Catilina, queria publicar o decreto chamando
a Roma Pompeu e seu exército, ao que somnen-
te Catão se opusera, graves palavras e pesadas
ameaças tinham sido trocadas no Senado entre
134
Metelo e ele. No dia seguinte, devia efetuar-se
a publicação no Forum. Os dois adversários
iam encontrar-se. Metelo apoiado pelo povo e
por César, então favorável a Pompeu, devia
apresentar-se acompanhado de numerosos es-
cravos estrangeiros e de espadachins dispostos
a todas as violências; Catão tinha por si ape-
nas sua indomável coragem. Por isso, seus
parentes, servidores e muita gente boa estavam
preocupadíssimos. Pensando no perigo que ia
correr, houve muitos que passaram a noite em
casa dele, mas não puderam descansar nem
comer. Sua mulher e filhas não paravam de
chorar. Ele, ao contrário, reconfortava todo
mundo. Depois de haver ceado como de costu-
me, foi deitar-se e dormiu um sono tão pro-
fundo que pela manhã um de seus colegas do
tribunato teve que ir acordá-lo a fim de que
chegasse até o tribunal onde os partidos se
defrontariam. Conhecendo, pelos atos de sua
vida, quanto era grande sua coragem, podemos
sem receio de nos enganarmos atribuir essa
calma em tais circunstâncias ao fato de estar
sua alma muito acima de semelhantes aciden-
tes, os quais para ele não eram motivo de
maior preocupação que os incidentes habituais
da vida.
Na batalha naval que ganhou na Sicília con-
tra Sexto Pompeu, Augusto, no momento de
MONTAIGNE
iniciar o combate, dormia tão profundamente
que foi preciso que seus amigos o acordassem.
Isso deu ensejo a que Marco Antônio mais
tarde alegasse não ter tido ele a coragem se-
quer de assistir às evoluções de seus navios e
de não se ter mostrado a seus soldados senão
depois que Agripa lhe veio anunciar que -a
vitória era sua. Mário, o Jovem, fez pior ainda:
no dia de seu último esforço contra Sila, após
haver ordenado a tropa, dado a palavra de
ordem e o sinal de combate, deitou-se à som-
bra de uma árvore para descansar e dormiu,
tão profundamente que só acordou quando
seus homens em fuga passaram por ele; nada
tinha visto da luta. Atribuem o fato a uma fa-
diga excessiva provocada por exagerado traba-
lho e falta de sono. Não podia mais consigo.
Cabe aos médicos dizer-nos se o sono é tão
necessário ao homem que sua vida dele depen-
da. Em apoio dessa asserção temos em Roma
o caso de Perseu, rei da Macedônia, que fize-
ram morrer impedindo-o de dormir. Mas, por
outro lado, Plínio relata casos de pessoas que
viveram durante muito tempo sem dormir.
Heródoto fala de povos que dormem a metade
do ano e velam os outros seis meses. E os bió-
grafos de Epimênides contam que esse.sábio
dormiu durante cinquenta e sete anos seguidos.
CAPÍTULO XLV
A batalha de Dreux
Houve em nossa batalha de Dreux particu-
laridades raramente vistas. Os que não são
favoráveis ao Duque de Guise observam que
não há desculpas para o fato de ter ele sustado
a ação de sua tropa e contemporizado en-
quanto O inimigo esmagava o Sr. Condestável,
comandante dos exércitos, e lhe arrebatava a
artilharia. E dizem que ele teria feito melhor, a
fim de evitar as perdas consideráveis que se
verificaram, atacando o adversário pelo flanco
em lugar de aguardar a possibilidade de fazê-lo
pela retaguarda. Além do que demonstra o
resultado da batalha, devemos convir, sem
sectarismo, em que não somente os chefes mas
também cada soldado deve ter em vista unica-
mente .o êxito final, e que nenhum incidente
particular por mais interessante que seja deve
desviá-los desse objetivo.
Filopêmen, em um encontro com Macâni-
das, fizera-se preceder de numeroso grupo de
archeiros e lanceiros. O inimigo, depois de os
ter rechaçado, divertiu-se em os perseguir a ga-
lope e se encontrou assim desfilando ao longo
do corpo de batalha de Filopêmen. Este, ape-
sar da emoção provocada em seus soldados,
não julgou conveniente mexer-se para ir em
socorro dos seus. Deixou que a cavalaria os
perseguisse e os liquidasse sob suas vistas e só
atacou os infantes inimigos quando os viu sem
possibilidade de serem apoiados pelos cavaléi-
ros. E embora se tratasse de lacedemônios,
derrotou-os facilmente tanto mais quanto os
atacou quando imaginavam ter ganho e come-
çavam a debandar. Isso feito, lançou-se contra
Macânidas. É este um caso que tem grande
analogia com o do Duque de Guise.
Na batalha, tão vivamente disputada, de
Agesilau contra os beócios, batalha a que
ENSAIOS — 1
Xenofonte assistiu e declara ter sido a mais
encarniçada que jamais presenciou, Agesilau
não quis aproveitar a vantagem que a sorte lhe
oferecia, de deixar desfilar o corpo principal
do exército inimigo e atacá-lo pela retaguarda,
muito embora não duvidasse da vitória. Acha-
va que assim agindo daria prova antes de habi-
lidade que de valentia. Para demonstrar seu
valor e sua coragem excepcional, preferiu ata-
car de frente. E errou, pois sofreu sério malo-
gro e foi gravemente ferido. Obrigado a reunir
135
de novo sua gente, tomou então o partido que
recusara antes. Abriu uma brecha na tropa
para dar passagem aos ardorosos beócios e de-
pois que estes passaram e já marchavam em
desordem como gente que se acredita fora de
perigo, perseguiu-os carregando contra eles
pelos flancos. Não conseguiu, entretanio, rom-
per suas fileiras nem apressar-lhes a retirada.
Foram-se devagar, sempre agressivos, até se
porem a salvo.
CapíruLO XLVI
Dos nomes
Por grande que seja a diversidade das ervas,
chamam a tudo salada. Vou fazer o mesmo e,
-a propósito de nomes, apresentar aqui uma sal-
galhada de coisas. Cada país tem, não sei por
quê, nomes que são levados a mal. Assim, em
nossa terra, João, Guilherme, Benedito. Dir-
se-ia igualmente que na genealogia dos prínci-
pes certos nomes se reproduzem fatalmente:
Ptolomeu, no Egito; Henrique, na Inglaterra;
Carlos, em França; Baudouin, nas Flandres; e
em nossa velha Aquitânia, os Guilhermes, de
que dizem derivar o nome atual de Guyenne,
etimologia que não se aceitaria facilmente se
outras tão pouco admissíveis não se encon-
trassem no próprio Platão.
E coisa de nonada e no entanto digna de
nota, em virtude de sua singularidade, o que
relata uma testemunha ocular: Henrique,
Duque da Normandia, filho de Henrique,
segundo rei da Inglaterra, deu em França um
festim no qual o número de nobres convidados
era tão considerável que, por divertimento,
sendo os mesmos divididos em: grupos de pes-
soas de nomes idênticos, o mais numeroso foi
o dos Guilhermes, pois cento e dez cavalheiros
assim batizados tomaram lugar à mesa. E.não
se contaram os simples fidalgos nem os
serviçais.
Não é mais singular agrupar à mesa os con-
vivas pelos nomes do que servir os pratos na
ordem de suas iniciais, como o fez o Impera-
dor Geta. Serviram em primeiro lugar os que
começavam por m*'2.e em seguida os outros.
218 Não se traduziram esses nomes porque em por-
tuguês começam com letras diferentes. No texto
diz-se: “moutons, marcassin, merluche, marsouin”.
EN. do T.)
Dizem que é vantajoso ter bom nome ou
renome, isto é, ter crédito e reputação. Há
igualmente utilidade em ter um nome bonito e
que seja fácil de se pronunciar e reter na
memória. Nós mesmos, entre nossos serviçais,
chamamos de preferência os que nos vêm mais
facilmente aos lábios:
Vi o Rei Henrique II não poder pronunciar
exatamente o nome de um fidalgo daqui da
Gasconha e esse mesmo principe opinar que se
desse a uma das camareiras da rainha o nome
de sua terra natal, porquanto considerava que
o nome de sua família era por demais vulgar.
Sócrates considera que dar belos nomes a seus
filhos é um cuidado que os pais não devem
esquecer.
Conta-se que a fundação de Notre Dame La
Grande, em Poitiers, é devida ao fato de um
jovem debochado, que morava no local, haver
encontrado uma prostituta à qual indagou do
nome. Em lhe respondendo que era Maria,
acordou nele repentinamente seus sentimentos
religiosos. Tomado então de respeito pelo
santo nome da Virgem, não só expulsou
imediatamente a mulher como se corrigiu em
definitivo. Em vista desse milagre, ali se cons-
truiu uma capela a Nossa Senhora e mais tarde
a igreja que conhecemos. Foi pela voz e o ou-
vido que a devoção, atuando diretamente sobre
a alma, provocou essa reviravolta no jovem.
O fato seguinte, do mesmo gênero, verifi-
cou-se em consequência de ação imediata
sobre os sentidos: Pitágoras, em companhia de
alguns jovens, em uma festa, percebeu que, em
se esquentando os espíritos, se propunham
penetrar violentamente em uma casa respeitá-
vel. Determinou então à orquestra que tocasse
136 MONTAIGNE
outras músicas, graves, severas, monótonas, as
quais adormeceram pouco a pouco os entu-
siasmos.
E não dirá a posteridade que essa Reforma
que surgiu em nossos dias não foi exata € vigi-
lante, pois se aplicou não apenas em combater
os erros e os vícios, em encher o mundo de
devoção, humildade, obediência, paz e toda
sorte de virtudes, mas também em proscrever
nossos nomes de batismo, Carlos, Luís, Fran-
cisco, substituindo-os por Matusalém, Eze-
quiel, Malaquias, muito mais de acordo com
os dogmas da fé? *1º
Um fidalgo da minha vizinhança, suputando
a superioridade do passado sobre os tempos
atuais, não esquecia de levar em conta o sabor
e a elegância dos nomes da nobreza antiga:
Grumedan, Quedragan, Agesilau. Só em os
ouvir já se sentia que eram de gente bem dife-
rente dos Pedros e Miguéis!
Agrada-me que Jacques Amyottenha conser-
vado em seus escritos em francês os nomes
latinos em latim. Agrada-me que não os tenha
alterado e modificado, a fim de lhes emprestar
um feitio francês. A princípio isso me pareceu
algo estranho, mas já sua tradução, tão conhe-
cida, de Plutarco contribuira para que o estra-
nhasse menos. Muitas vezes desejei que os que
escrevem crônicas em latim, transcrevessem os
nomes próprios como são; metamorfoseando-
os em grego ou romano para os tornar mais
graciosos, fazendo de Vandemont, Vallemon-
tanus”, acabam confundindo-nos. Não sabe-
mos mais onde estamos.
Encerrando nossas reflexões sobre os
nomes, digamos que é mau hábito e de péssi-
mas consequências chamar cada qual pelo
nome de suas terras ou de seu castelo. Isso,
mais do que tudo, faz que se misturem as raças
e não mais possam distinguir-se uma da outra.
Um caçula de boa família que recebeu uma
terra cujo nome tomou de empréstimo, e com
ele se tornou conhecido e respeitado, não o
pode honestamente abandonar. Em falecendo,
dez anos após, passa a terra as mãos de um
estranho que faz a mesma coisa. Como será
possível deslindar tal embrulhada? A esse res-
peito, aliás, não é necessário procurar exem-
plos fora de nossa casa real, em que há tantos
nomes quantas partilhas houve, a ponto de não
mais sabermos sua origem. Com tal liberdade
e fantasia procedem nesse sentido em nossos
dias, que não sei de pessoa elevada pela fortu-
na a uma situação qualquer, que não lhe des-
cubram logo títulos genealógicos ignorados de
seu progenitor, enxertando-o em alguma ilustre
+18 Montaigne iroriza o sectarismo dos reforma-
dores.
linhagem. E são as mais obscuras famílias que
melhor se prestam a tais falsificações. Quantos
fidalgos não temos nós.em França que, pelo
que dizem (mais do que pelo que dizem os
outros), são de raça real! Isso foi observado
um dia muito espirituosamente por um de
meus amigos nas seguintes circunstâncias: em
certa reunião, tendo-se verificado uma desa-
vença entre dois senhores, um dos quais, pelos
seus títulos e alianças, tinha preeminência
incontestável sobre a nobreza comum, procu-
rava cada um dos presentes igualar-se ao mais
ilustre alegando sua origem, a semelhança do
nome, velhos títulos familiares, o brasão,
sendo que o que menos podia alegar se dizia
tataraneto de um rei de além-mar. Quando
passaram à sala de comer, meu amigo, em vez
de se dirigir para seu lugar, começou a recuar,
multiplicando as reverências e suplicando à
assistência que lhe desculpasse a temeridade
que tivera de se manter até então em pé de
igualdade com tão eminentes fidalgos. Só
agora porém estava sendo informado de suas
qualidades e privilégios e solicitava que lhe
permitissem desde já prestar homenagem à sua
condição social, e que não lhe cabia sentar-se
junto a tão numerosa coorte de príncipes. E
terminando a brincadeira com mil sarcasmos
disse: “Contentemo-nos, por Deus, com aquilo
com que se contentaram nossos pais e com o
que somos. Que nossa condição nos baste, e
nos bastará se soubermos honrá-la; não negue-
mos a fortuna e a condição de nossos antepas-
sados. Evitemos essas ridículas invencionices
que não podem senão confundir quem quer
que tenha a impudência de as alegar.”
Como os ncmes, nada provam os brasões. E
o meu “de blau semeado de trevos de ouro,
com uma pata de leão do mesmo, armada de
goles e posta de frente”. Quem me garante que
não sairá de minha família? Não poderá um
genro transportá-lo alhures? E talvez um novo
rico se apodere dele em não tendo outre. Não
há coisa mais sujeita a freqlentes mudanças €
confusões.
Estas reflexões acarretam outras de ordem
diferente. Examinemos sobre que assenta essa
glória e essa reputação pelas quais revolvemos
céu e terra; em que consiste essa fama que
tanto nos esforçamos por conquistar?! Em
suma é a Pedro ou a Guilherme que se aplica,
a eles cabe guardá-la, a eles interessa. Admirã-
vel faculdade a da esperança! Em um simples
mortal ela abarca o infinito, a imensidade, a
eternidade, e, como por efeito de uma mira-
gem, substitui à indigência absoluta tudo o que
pode imaginar e desejar! Com ela, deu-nos a
natureza um brinquedo maravilhoso. Mas, afi-
ENSAIOS —I
nal de contas, que são Pedro ou Guilherme
senão um som ou três ou quatro rabiscos de
pena, e em verdade tão pouco precisos que
podemos por vezes indagar, perplexos, a quem
cabe a honra de tantas vitórias: Guesquin,
Glesquin ou Gueaquin?*2º. O problema pode-
ria dar azo a uma polêmica ainda mais espi-
nhosa do que a que Luciano imaginou entre as
letras sigma e tau. O prêmio, no caso atual,
não é de valor desprezível, pois a coisa tem sua
importância, tratando-se, como se trata, de
determinar a qual dos nomes diversamente
ortografados se devem atribuir tantos assédios
empreendidos e sustentados, tantas batalhas
travadas, ferimentos recebidos, cativeiro su-
portado, serviços prestados à coroa real pelo
famoso condestável.
Nicolas Denisot ocupou-se unicamente com
as letras de seu nome, cujo arranjo modificou
para fazer “Conde d'Alsinois”, tornando esse
nome ilustre com suas poesias e sua pintura.
Suetônio, historiador, apreciava o significado
do seu: não podendo chamar-se Lenis (doce)
que era o sobrenome de seu pai, adotou o de
Tranquilo ao qual fez herdeiro da reputação de
seus escritos. Quem sabe que o Capitão Ba-
yard tirou sua fama dos feitos perpretados por
Pierre Terrail? E que Antoine Escalin deixou
que o Capitão Paulin e o Barão de La Garde
lhe roubassem a glória de tantas viagens mari-
timas e de funções exercidas em terra e mar?
Além das variações que sofrem, esses rabis-
cos de pena são comuns a milhares de pessoas.
Quantos em um país não têm os mesmos
420 Nos documentos antigos, o nome de Du Gues-
clin figura mais de uma vez deturpado, conhecen-
do-se numerosas variantes.
137
nomes e sobrenomes? E quantos outros em
países e raças diferentes, atravês dos séculos?
A história conservou os nomes de três Sócra-
tes, cinco Platões, oito Aristóteles, sete Xeno-
fontes, vinte Demétrios, vinte Teodoros; e
quantos mais não permaneceram ignorados?
Nada impede que meu palafreneiro se chame
Pompeu, o Grande; e nada se opõe a que final-
mente a ele, depois de morto, e não ao homem
que foi executado no Egito, se atribua a glória
do nome. E qual dos dois a aproveitará?
“Acreditais que com isso se preocupem as cin-
zas e os manes dos mortos? “21,
Que podem sentir Epaminondas e Cipião, o
Africano, esses dois êmulos pelo valor que os
eleva acima dos outros homens, o primeiro
diante de tão belo verso gravado no pedestal
de sua estátua há tantos séculos: “Por mim
Lacedemônia perdeu seu esplendor”; e o
segundo ante o dístico escrito em seu louvor:
“Do levante ao poente não há guerreiros cujas
frontes cinjam tão nobres louros” “22.
Tais testemunhos impressionam de modo
agradável os sobreviventes, excitando neles a
inveja e a ambição; e, sem refletir, estes
emprestam aos mortos suas próprias sensa-
ções, iludindo-se ao mesmo tempo acerca de
sua capacidade de conquistar a celebridade. Só
Deus sabe entretanto. Contudo: “essa espe-
rança incitou gregos, romanos e bárbaros.
Nela está a razão de seus trabalhos, dos peri-
gos que correram, pois mais que de virtude
têm os homens sede de renome” “23,
421 Virgílio.
Cicero.
Juvenal.
422
423
CapíTULO XLVII
Da incerteza dos nossos juízos
De qualquer coisa é fácil falar: pró ou con-
tra, diz Homero com muita razão. Eis, por
exemplo, o que afirma Plutarco: “Aníbal ven-
ceu os romanos mas.não soube aproveitar a
vitória.” Quem assim pensasse e considerasse
um erro, como é comum entre nós“? *, não ter
o partido católico explorado o êxito que alcan-
çamos em Montcontour, ou censurasse ao rei
da Espanha não haver aproveitado a vantagem
424 Os católicos.
conseguida contra os franceses em St. Quentin,
poderia, em apoio de sua tese, apresentar os
seguintes argumentos: semelhantes erros pro-
cedem de uma alma embriagada pelo êxito ini-
cial e cuja coragem limitada, satisfeita com um
princípio de sorte, perde a vontade de prosse-
guir, já embaraçada com o resuitado obtido;
seus braços nãc podem abarcar mais. Seme-
lhante chefe não merece o bem que o destino
lhe pôs nas mãos, pois dá ao inimigo a possibi-
lidade de se refazer. Poder-se-á esperar dele
138 MONTAIGNE
que ouse renovar seu ataque contra um adver-
sário recuperado, e armado, já agora, de des-
peito e ansioso por se vingar, se não ousou ou
não soube persegui-lo em desordem e tomados
de pavor? “Quando a sorte já se decidira e que
ao terror tudo cedia?” *2 5 Mesmo porque, que
hã de esperar melhor do que o que deixou esca-
par? A guerra não é como. a esgrima em que
quem consegue maior número de toques
ganha; se continua de pé cumpre recomeçar,
sempre com mais resolução, não havendo vitó-
ria enquanto não terminem as hostilidades. Em
seguida àquela batalha perto de Oricum, em
que correu os maiores riscos, César criticou os
soldados de Pompeu por terem perdido a opor-
tunidade de ganhar se houvessem sabido ven-
cer. E ele próprio agiu de outra maneira quan-
do lhe coube persegui-los.
Em apoio da tese contrária, pode-se dizer
que não opor limites a seus desejos é caracte-
rístico dos espíritos impacientes e insaciáveis;
que querer ultrapassar as medidas em que nos
é concedida a proteção divina constitui um
abuso; que se expor a um malogro após uma
vitória é entregá-la novamente à mercê da
sorte; que um dos princípios mais sábios da
arte militar consiste em não impelir o inimigo
ao desespero. Sila e Mário durante a guerra
civil haviam batido os marses; vendo um
punhado deles retomar a ofensiva, como que
furiosos, porque desesperados, acharam que
não deviam enfrentá-los. Se o Sr. de Foix não
se tivesse deixado levar pelo entusiasmo a per-
seguir encarniçadamente o inimigo depois de
sua vitória em Ravena, não a houvera estra-
gado com sua morte. Seu exemplo, ainda
recente, serviu, de resto, de lição ao Sr. de Eng-
hien, em Cerisolles, preservando-o de igual
desventura.
É perigoso assaltar um homem ao qual se
tirou toda possibilidade de salvação fora da
luta, pois a necessidade é um mestre-escola
violento: “terríveis são as mordidas da necessi-
dade excitada” “2 é e “quem desafia a morte só
é vencido com danos para o vencedor” “27. Foi
o que fez com que Pharax impedisse que o rei
da Lacedemônia, que acabava de vencer os
mantineanos, se atirasse contra um milhar de
argensianos, os quais, ainda intatos, haviam
escapado ao desastre. E persuadiu-o a que os
deixasse se retirarem sossegadamente, a fim de
não ter de guerrear com homens valentes e
despeitados, estimulados pela desgraça. Clo-
domiro, rei da Aquitânia, depois de sua vitória
contra Gondemar, rei da Borgonha, perse-
guiu-o tão ardorosamente que o obrigou a vol-
*25 Tucano.
426 Pórcio Latro.
“27 Lucano.
tar-se contra o perseguidor. No combate que se
seguiu foi ele morto e perdeu assim por causa
de sua obstinação o fruto da vitória.
Serã preferível ter soldados abundante e
suntuosamente armados ou será melhor armá-
los tão-somente de acordo com as necessida-
des? Sertório, Filopêmen, Bruto, César e ou-
tros são favoráveis à primeira alternativa
alegam que a honra -e a vaidade estimulam o
soldado; que, ademais, em devendo salvar
armas que, pelo seu valor venal, constituem
uma espécie de fortuna e um como que legado,
tanto mais tenaz se mostra na luta. E diz
Xenofonte que por esse motivo os povos da
Ásia levavam para a guerra com seus exércitos
suas mulheres e concubinas, com suas jóias e O
que possuíam de mais precioso.
Quanto ao segundo método, pode-se alegar
que mais vale desviar do soldado a idéia de
conservação do que o induzir a pensar nisso,
pois assim dobraremos seu desprezo aos peri-
gos. Fazer exibição de luxo é, também, excitar
no inimigo o desejo de vencer para se apro-
priar de ricos despojos, como se observou mais
de uma vez, e o que constituiu o móvel dos
romanos contra os salamitas. Antíoco mos-
trava com orgulho a Aníbal o exército que reu-
nia contra Roma, faustoso e magnífico em
toda espécie de equipamentos, e lhe pergun-
tava: “Achais que este exército será suficiente
para os romanos? — Será sem dúvida sufi-
ciente, respondeu Aníbal, por cobiçosos que
sejam 28.
Licurgo proibira aos seus concidadãos não
somente qualquer luxo no equipamento de
guerra mas ainda que despojassem o inimigo
vencido, querendo desse modo que se honras-
sem de sua pebresar e frugalidade tanto quanto
da vitória.
Nos assédios e outras circunstâncias que
nos põem ao alcance do inimigo, permitimos
em geral a nossos soldados que lhe dirijam
bravatas e insultos. Não sem razão aliás. E de
certa importância afastar da tropa qualquer
esperança de mercê ou entendimento, mostran-
do-lhe que nada devem esperar de um inimigo
que de tal modo insultou e que só lhe resta por-
tanto vencê-lo. Vitélio fez a experiência mas
em seu detrimento. Achando-se em presença
de Otão cujo exército se compunha de solda-
dos de reduzido valor, desacostumados de há
muito à guerra, amolecidos pelos prazeres da
cidade, de tal modo os agastou com ditos vene-
nosos, censurando-lhes a pusilanimidade, a
*28 No texto “contenter” com os sentidos de bas-
tar, ser suficiente na pergunta, e de dar satisfação,
na resposta. Quanto a cobiçosos, a palavra usada
no texto é “avarento”, mas no seu sentido de ávidos,
cobiçosos, cúpidos. (N. do T.)
ENSAIOS— 1
saudade das mulheres belas e das festas deixa-
das em Roma, que acabou por fazer-lhes das
tripas coração e jogá-los contra si, o que
nenhuma exortação conseguira. E em verdade
as ofensas graves podem facilmente fazer com
que os que, de má vontade, combatem a servi-
ço de seu rei, lutem com outra disposição a seu
próprio serviço.
Considerando-se a importância da preserva-
ção do chefe em um exército, e que a sua cabe-
ça, de que dependem as demais, é a mais visa-
da, parece não se deva desprezar essa
determinação, seguida por numerosos grandes
chefes, de se fantasiar ou camuflar ao entrarem
em combate. Entretanto, o inconveniente dessa
tática não é menor do que as vantagens, pois,
em não sendo reconhecido pelos seus, a cora-
gem que lhes inspira com seu exemplo e pre-
sença pode faltar. Não percebendo as marcas
distintivas que de hábito o assinalam, imagi-
nam que tenha morrido ou que, desesperando
do êxito, se haja retirado do campo de batalha.
Quanto aos fatos, vemo-los corroborar ora um
ora outro desses métodos. O que ocorreu com
Pirro na batalha travada na Itália contra o
cônsul Levínio depõe a um tempo a favor e
contra. Tornara-se irreconhecível, tomando
para lutar as armas de Demogacles a quem
dera as suas. Salvou-lhe por certo a vida essa
idéia, mas quase foi vítima do referido incon-
veniente e quase perdeu a batalha. Alexandre,
César, Luculo gostavam de ir para o combate
com vestimentas e armas luxuosas, de cores
vivas, reveladoras de suas personalidades;
Agis, Agesilau, o grande Gilipo, ao contrário,
iam para a guerra com costumes severos que
não denunciavam sua condição de chefes.
Entre as críticas que fizeram a Pompeu,
relativas à batalha de Farsália, figura a de ter
aguardado firmemente o ataque do inimigo.
Eis o que a propósito diz Plutarco, mais
conhecedor do assunto do que eu: “isso, além
de atenuar a violência com que se dão os pri-
meiros golpes ao fim de uma carga, priva OS
combatentes do entusiasmo que, quando se
lançam aos berros uns contra os outros, como
ocorre habitualmente, com impetuosidade e
excitação, lhes aumenta a coragem no momen-
to do choque decisivo. Ao passo que, em
permanecendo imóveis no lugar, em vez de se
esquentarem como que 'se lhes coalha o
sangue”. ;
Mas se César houvesse perdido não se diria,
de maneira igualmente sensata, que uma posi-
ção é tanto mais forte e difícil de se tomar
quanto nela nos mantemos firmemente? E que
quem suspende a marcha, se concentra e
poupa suas forças para o momento decisivo,
leva vantagem sobre quem já se acha abalado
139
por uma carga que quase lhe esgotou o fôlego?
Por outro lado, um exército compõe-se de tan-
tas frações diversas que não pode, ao se atirar
com fúria. contra o adversário, fazê-lo com pre-
cisão suficiente para que sua ordem de batalha
não se perturbe e rompa, e para que os mais
entusiastas não se empenhem antes de contar
com o apoio dos companheiros de armas.
Na batalha, tão contrária às leis da moral,
em que dois irmãos disputaram o império
persa, o lacedemônio. Clearco que comandava
os gregos (os quais haviam abraçado o partido
de Ciro) conduziu-os tranquilamente, sem se
apressar, ao combate, e ao chegar a cinquenta
passos do inimigo mandou-os que acelerassem.
Diminuindo assim o espaço a ser transposto
com rapidez, poupava-lhes as forças, e con-
quanto os conservasse em formação, dava-lhes
a vantagem da impetuosidade que aumentava
sua potência de choque e a precisão das armas
de arremesso. Outros, nos exércitos sob suas
ordens, assim resolveram esse ponto contro-
vertido: “Se o inimigo vos ataca, aguardai-o de
pé firme; se ele assim vos espera, atacai-o.”
Quando da invasão da Provença por Carlos
Quinto, o Rei Francisco I teve que escolher
entre ir ao encontro dele na Itália, ou o esperar
em seus Estados. Optou por esta decisão, em-
bora soubesse da vantagem que consiste em
levar a guerra para fora de suas fronteiras, de
maneira a ter intatos os recursos do país em
homens e dinheiro. Ademais, as necessidades
da guerra acarretam devastações a que de bom
grado não podemos expor o que nos pertence,
tanto mais quanto o habitante se resigna
menos a elas quando são causadas pelos seus,
o que pode levar a sedições e motins, do que
quando provocadas pelo inimigo. Finalmente,
a licença de roubar e pilhar, que atenua gran-
demente as misérias da guerra para o soldado,
não se pode exercer em seu próprio país; e
como, então, não há mais nenhum benefício a
esperar senão o soldo, dificil se faz segurá-lo,
tão perto de sua mulher e de seu lar. Acrescen-
temos que quem põe a toalha paga as despesas
da festa; que é mais agradável atacar do que se
defender; que o abalo provocado pela perda de
uma batalha é tão violento que, em ocorrendo
ela em nosso solo, é raro que o país inteiro não
seja atingido, pois nada é tão contagioso quan-
to o medo, nada se espalha mais depressa,
sendo de temer que as cidades a cujas portas a
borrasca se abate, que recolham chefes e sol-
dados ainda pasmos e tremendo de pavor,
tomem, sob a emoção, qualquer resolução
perniciosa. Todas essas considerações não
impediram que o rei chamasse suas forças de
além Alpes e resolvesse aguardar O inimigo.
Na verdade, apoiava-se em razões de outra
140
ordem: imaginou que estando em seu próprio
território, no meio de populações amigas, teria
todas as facilidades. Rios e meios de comuni-
cação estando em sua posse, os comboios de
víveres e de dinheiro se efetuariam com segu-
rança e sem escolta. Seus súditos se mostra-
riam tanto mais dedicados quanto mais pró-
ximo o perigo. Dispondo de numerosas
cidades e pontos de resistência seguros, pode-
ria combater quando quisesse e somente quan-
do achasse oportuno e vantajoso. Em lhe con-
vindo contemporizar, fá-lo-ia sem riscos,
deixando que o inimigo se consumisse na espe-
ra e se desagregasse sozinho em virtude das
dificuldades que teria de vencer em uma região
onde tudo seria contra ele; onde tudo, em fren-
te, atrás, nos flancos, lhe seria hostil e onde
estaria na impossibilidade de dar repouso a
seus homens, de acampar em caso de epide-
mias; onde não encontraria com que proteger
seus feridos; onde não poderia obter dinheiro e
víveres senão pela força; onde não teria a
oportunidade de se refazer e tomar fôlego;
onde, não conhecendo a região nem em con-
Junto nem em seus pormenores, não se defen-
deria contra as emboscadas e os ataques de
surpresa; e onde finalmente, em perdendo uma
batalha, veria sua situação irremediavelmente
comprometida, não tendo onde reunir os des-
troços de seu exército. Em suma, não faltariam
exemplos que se invocassem em prol de uma
ou outra resolução.
Cipião considerou — e com razão — muito
mais vantajoso levar a guerra ao território de
MONTAIGNE
seu inimigo na África do que defender sua pró-
pria terra e combater na Itália um adversário
que aí já se encontrava. Aníbal, ao contrário,
perdeu-se por abandonar suas conquistas em
país estrangeiro a fim de ir defender o seu. À
sorte foi contrária aos atenienses que deixando
O inimigo em seu próprio território invadiram
a Sicília. Mostrou-se entretanto favorável a
Agátocles, rei de Siracusa, o qual, desprezando
O inimigo às portas de sua capital, fo: atacá-lo
na África.
Temos por hábito dizer, c com justeza, que
os acontecimentos e suas consequências
decorrem — particularmente na guerra — da
sorte que não quer sujeitar-se às regras de
nossa inteligência e de nossa razão, o que
assim exprime um posta latino: “muitas vezes
a imprevidência acerta e a prudência engana: a
sorte não está forçosamente com os mais dig-
nos; sempre inconstante, como cega, joga-se de
qualquer lado. Uma força superior nos domi-
na, dita nossos atos e mantém a ordem mortal
sob suas leis?*2º. Dir-se-ja que essa in-
fluência se exerce sobre nossos projetos **º e
deliberações; e que até os nossos raciocínios se
ressentem da incerteza da sorte. Raciocinamos
ao acaso e inconsideradamente, diz o Timeu de
Platão, porque, como nós mesmos, é a nossa
razao grandemente influenciada pelo acaso.
“29 Manílio.
“30 “Conseils” no
“projetos”. (N. do T.)
caso, segundo Godefroy,
CapíTULO XLVIII
Dos cavalos de guerra **'
Eis-me agora gramático, eu que nunca
aprendi nenhuma língua senão pela prática e
que não sei ainda o que seja adjetivo, subjun-
tivo ou ablativo. Parece-me ter cuvido dizer
que os romanos tinham cavaios a que chama-
vam Jfunales (de tiro) e outros que denomi-
navam dexirarios, os quais se conduziam à
direita ou se empregavam nas postas fora das
diligências *32. Daí chamarmos “destriers” aos
“31 Destriers — do provençal; cavalo que o guer-
reiro conduzia à direita quando não o montava —
cavalo de guerra. (N. do T.)
“32 A frase é extremamente confusa. Interpreta-a.
ainda mais confusa e prolixamente Michaut. Thi-
baudet não diz nada a respeito. (N. do T.)
cavalos de sela. E os nossos autores que escre-
vem em romano“? dizem comumente “ades-
trer? para acompanhar. Tinham também os
romanos os desultorios equos, cavalos adestra-
dos para que, sem freio nem sela, galopassem
com igual rapidez um ao lado do outro, sem se
afastar, de modo que ao sentir o cavaleiro a fa-
diga de seu animal pudesse pular no outro sem
diminuir ou atenuar a corrida. E isso inteira-
mente armado. Os guerreiros númidas tinham
+33 Thibaudet anota: romances de cavalaria. Mi-
chaut diz: “autores que eserevem em romano”,
latim de transição para o provençal, o que parece
mais certo. Littré dá como definição —- latim vulgar
de após a queda do Império. (N. do T.)
-
ENSAIOS —I l41
igualmente à mão um segundo cavalo para tro-
car de montaria no meio do combate: “como
nossos cavaleiros que pulam de um cavalo
para o outro, os númidas costumavam ter sem-
pre dois cavalos, e por vezes, no auge da luta,
lançavam-se armados do cavalo cansado ao
cavalo fresco, tão grande era sua agilidade e
tão dóceis seus cavalos” “3 4
Há cavalos ensinados a defender o cavalei-
ro, a jogar-se contra quem lhes apresenta uma
espada nua, a precipitar-se com coices e mor-
didas contra os que os atacam e os enfrentam.
Mas ocorre que, assim, mais mal fazem aos
amigos do que aos inimigos. Sem contar com o
fato de que não podeis dominá-lo à vontade €
que uma vez na batalha ficareis à mercê do
que acontecer.
Tal desgraça aconteceu a Artíbio, que
comandava os persas contra Onesilo, rei de
Salamina, e montava um cavalo desse. Empe-
nhara-se em combate singular com ÔOnesilo, do
que se aproveitou o escudeiro deste último
para lhe cravar uma foice entre as espáduas.
Contam os italianos que na batalha de For-
nuovo o cavalo de Carlos VIII se desvencilhou
com coices e corcovos de bom número de ini-
migos seus, os quais de outro modo o teriam
desacatado. Se a coisa é exata, eis um bem
feliz acaso. Vangloriam-se os mamelucos de
terem os cavalos de guerra mais hábeis e bem
ensinados do mundo, os quais, por instinto ou
por educação, são adestrados a distinguir e
reconhecer o inimigo contra o qual, a um sinal
do dono, se precipitam com dentadas e coices.
E chegam a pegar no solo lanças e dardos com
a boca para os entregar ao cavaleiro, a seu
pedido.
Dizem de César, e também do grande Pom-
peu, que entre outros talentos de primeira
ordem possuiam o de ser cavaleiros eméritos.
César na mocidade montava a cavalo sem sela
nem freio e, mãos às costas, entregava-se ao
galope do animal. A natureza, que fez dele e de
Alexandre dois prodígios da arte militar, pare-
ce tê-los igualmente dotado de montarias
excepcionais. Todos sabem que Bucéfalo, o ca-
valo de Alexandre, tinha a cabeça à seme-
lhança de um touro, que não se deixava caval-
gar por ninguém senão por seu dono e só por
este fora adestrado; que depois de morto hon-
ras divinas lhe foram rendidas e que seu nome
foi dado a uma cidade construída a fim de lhe
perpetuar a memória. César possuía também
um cavalo cujas patas dianteiras tinham a
forma semelhante à do pé humano. O casco
234 Tito Lívio.
era cortado como dedos. Somente César fora
capaz de adestrá-lo e só ele o montava. Ao
morrer o animal, mandou ele colocar sua ima-
gem no templo de Vênus.
Quando monto a cavalo, não tenho pressa
em largar a montaria, pois doente ou com
saúde é o meu meio de locomoção preferido.
Platão recomenda a equitação como favorável
ao físico e Plínio diz que ela convém ao estô-
mago e conserva a flexibilidade das articula-
ções. Mas continuemos nossos comentários.
Xenofonte cita uma lei proibindo que via-
jasse a pé quem possuísse um cavalo. Trogo-
Pompeu e Justino relatam que os partos ti-
nham por costume não somente combater a
cavalo mas ainda do mesmo modo tratar de
seus negócios públicos ou particulares, fazer
suas compras, discutir, conversar, passear; e
que entre eles a diferença entre homens livres e
servos consistia em andarem estes a pé e aque-
les a cavalo. Tal instituição remontaria a Ciro.
Dá-nos a história romana — e Suetônio o
observa em César particularmente — exem-
plos de capitães que prescreviam a seus guer-
reiros a cavalo que abandonassem suas monta-
rias nos momentos críticos, tanto para tirar do
soldado toda a esperança de fuga, como por
causa das vantagens que pensavam auferir
desse gênero de combate “em que, sem dúvida,
excele o romano”, diz Tito Lívio. Como quer
que fosse, a primeira precaução tomada para
dominar as revoltas dos povos que iam subju-
gado consistia em lhes confiscar as armas e
os cavalos. Por isso, lemos comumente em
César: “manda que entreguem as armas, tra-
gam os cavalos e dêem os reféns”. O sultão
não permite até hoje em todo o seu império
que judeu ou cristão possua um cavalo.
Nossos antepassados, em particular durante
a guerra contra os ingleses, combatiam a pé
nos combates de certa importância e nas bata-
lhas campais, não confiando senão na força,
na coragem e no vigor pessoais para defender
tão preciosas coisas quanto a honra e a vida.
Em que pese a opinião de Crisanto, em Xeno-
fonte, quando combatemos a cavalo temos
nossa sorte ligada à do cavalo; os ferimentos e
a morte que os podem atingir podem também
provocar a nossa desgraça; que não o possa-
mos segurar ou tocar para a frente, e eis nossa
honra entregue ao acaso. Por isso não acho
estranho que os combates que nossos antepas-
sados travaram a pé tenham sido mais sérios
do que os travados a cavalo: “vencedores e
vencidos precipitavam-se uns contra Os outros,
massacrando-se. Ninguém pensava em
fugir” “258, A vitória era outrora muito mais
435 Virgílio.
142 MONTAIGNE
disputada, enquanto hoje a derrota é imediata:
“os primeiros berros e a primeira carga deci-
dem do êxito” “* 8.
Em uma questão em que o acaso contribui
com tão grande parte, é preciso pôr de nosso
lado as maiores probabilidades de êxito. Por
isso aconselharia o emprego das armas de mão
as mais curtas possíveis, porquanto são aque-
las que mais dependem de nós em seus efeitos.
E evidente que temos muito mais certeza da
eficiência de nossa espada que de uma bala de
arcabuz, o qual compreende elementos diver-
sos como a pólvora, a pedra, a roda** 7; que
falhe um só deles e eis comprometida a sorte.
Mais seguro é o golpe dado pessoalmente que
aquele que mandamos pelos ares: “os golpes
cuja direção se subordina ao vento são incer-
tos; a espada é a força do soldado. Todas as
nações guerreiras combatem com a espa-
da” 43 8.
Quanto às armas de fogo de nossa época,
falarei mais pormenorizadamente quando as
comparar com as da antiguidade. Salvo o
ruído da detonação, que surpreende mas a que
já estamos habituados, são elas, creio, pouco
eficazes e espero que um dia renunciem ao seu
emprego. A arma que os italianos usavam
outrora era muito mais terrível: era a um
tempo uma arma de arremesso e uma arma de
fogo: denominavam-na falárica e era uma
espécie de azagaia com uma ponta de ferro de
três pés, capaz de traspassar um homem com
sua armadura. Arremessava-se à mão em cam-
panha rasa ou com máquinas nos sítios, quan-
do a empregavam como arma de defesa. A
haste revestia-se de estopa embebida de pez e
óleo e se inflamava no ar; em penetrando o
corpo ou o escudo impedia que a vítima se
valesse de suas armas, imobilizando-lhe braços
e pernas. Contudo, parece que quando chega-
vam ao corpo-a-corpo, ela se tornava um
transtorno para o atacante e o solo juncado
desses troços incandescentes a todos pertur-
bava: “semelhante ao raio a falárica fendeu o
ar com um horrível assobio” **º.
Possuíam ainda outros meios de ação que,
em virtude do hábito, eram de grande eficácia
e supriam a ausência de pólvora e canhão, mas
nos quais mal podemos acreditar com nossa
inexperiência. Arremessavam o dardo com
tamanha violência que por vezes traspassavam
dois homens com seus escudos e os pregavam
um no outro. Suas fundas alcançavam tão
33 6 Tito Lívio.
*37 A engrenagem do arcabuz que, movimentada
pelo gatilho, faz que a pedra produza a faísca.
“38 Tucano.
439 Virgílio.
longe e com tanta precisão quanto nossas
armas atuais: “Arremessando seixos ao mar
com suas fundas, adestrados em acertar em
círculos de pequenas dimensões, atingiam seus
inimigos não somente na cabeça como em
qualquer parte do rosto que visassem ?* *º. As
máquinas que empregavam para derrubar as
muralhas produziam resultados e estrépito
idênticos aos das nossas. “Ao ruído terrível
que repercutia nas muralhas sob os golpes dos
sitiantes, a inquietação e o pavor apoderaram-
se dos sitiados”4 “1. Os gauleses da Ásia, da
mesma origem que a dos nossos, adestrados no
combate com armas de mão, mais exigentes de
coragem, detestavam essas armas traiçoeiras
que atingem à distância: “a amplitude dos feri-
mentos não os amedronta; e quando são mais
largos do que profundos até se vangloriam
deles, como provas de valentia. Mas se, ao
contrário, uma ponta de flecha, ou uma bala
de chumbo arremessada com a funda, lhes
penetra profundamente a carne, deixando ape-
nas um leve vestígio à superfície da pele, furio-
sos por morrer de uma simples picada, rolam
no chão de raiva e vergonha” * *2. Não se apli-
cam essas palavras quase textualmente aos
nossos arcabuzes? PR
Os gregos, na tão longa e dificil retirada dos
“Dez mil”, depararam com um povo que lhes
causou graves perdas, atirando com grandes e
fortes arcos flechas de tal comprimento que
arremessadas mesmo com a mão, à maneira de
um dardo, atravessavam um escudo e com este
o homem que o usava. As catapultas que Dio-
nísio inventou em Siracusa para arremessar
troncos e pedras enormes com tamanha violên-
cia correspondem ou se assemelham os nossos
recentes inventos. :
Não hã como esquecer tampouco a graciosa
atitude, em sua mula, de um tal Sr. Pedro Pol,
doutor em teologia, e que Monstrelet nos des-
creve como tendo por hábito passear pela cida-
de de Paris sentado de lado como as mulheres.
Esse mesmo historiador escreve, em outro tre-
cho de suas crônicas, que os gascões possuiam
cavalos terríveis acostumados a dar meia volta
a galope, sem parar, o que maravilhava os
franceses, picardos, flamengos e brabantinos,
os quais “não estavam habituados a vê-los”,
como diz. César observou a propósito dos sue-
vos: “nos encontros a cavalo, saltam muitas
vezes à terra e combatem a pé; seus cavalos,
o |
estando acostumados a não se mover do lugar
em que os deixam, correm a eles em caso de
necessidade. A seu ver nada é menos honroso
nem mais efeminado que usar selas e armadu-
440 Tito Lívio.
aa1 Td.
442 Tito Lívio.
ENSAIOS —I
ras para as montarias, e desprezam os que as
têm. Graças a esses métodos não temem, ainda
que em pequeno grupo, atacar um inimigo
superior em número.”
O que muito admirei há tempos ao ver um
cavalo que com uma simples vareta e sem
auxílio de rédeas tudo fazia como se queria,
era comum entre os massilianos: “Os massilia-
nos, montando. seus cavalos em pêlo e sem
freios, conduziam-nos com uma vareta” * 43,
“Os númidas guiavam seus cavalos sem
freio” * 4º. “Desprovidos de freios, seus cavalos
são disformes, têm o pescoço rígido e a cabeça
esticada” * 48,
O Rei Afonso, fundador da ordem dos
Cavaleiros da Lista, ou da Banda, estabeleceu,
entre outras ordenações, que não se montasse
mula nem besta sob pena de um marco de
prata de multa, segundo se consigna nas cartas
de Guevara, às quais deram, alguns, o quaiifi-
cativo de douradas, tendo delas melhor juízo
do que eu. Lê-se em “O Cortesão” que, antes
da época em que foi escrito o livro, incorria em
censura o fidalgo que cavalgasse uma mula.
Ao contrário, entre os abissínios, quanto mais
perto do príncipe pela condição social, maior
dignidade e luxo consideram montar uma bela
mula. Xenofonte conta que os assírios manti-
nham seus cavalos sempre amarrados em suas
casas, a tal ponto eram fogosos e selvagens; e
precisavam de tanto tempo para os arrear e
desamarrar que, a fim de que isso não lhes
acarretasse prejuízos, caso fossem colhidos
desprevenidos, jamais acampavam sem cerca-
rem o campo de fossos e estacadas. Ciro, seu
rei, grande conhecedor de cavalos, só dava
repouso e comida aos seus depois que os sujei-
tava mediante um bom e rude exercício. Os
citas na guerra, quando a necessidade os força-
va a tanto, sangravam seus cavalos e usavam o
sangue como alimento: “nutre-se assim o sár-
mata com sangue de seus cavalos” * * *.
Oscretenses, sitiados por Metelo e semoutro
meio de estancar a sede, recorreram a urina de
seus cavalos. Para provar que os exércitos tur-
cos se sustentam com menos do que os nossos,
dizem que além de só beberem água e come-
rem arroz com farinha de carne salgada, de
que cada qual leva consigo o suficiente para
um mês, vivem, se preciso, como os tártaros e
os moscovitas do sangue de seus cavalos, que
salgam para conservar.
Esses povos novos da Índia**7 imagina-
443 Tucano.
444 Virgílio.
445 Tito Lívio.
4146 Marcial.
447 América.
143
vam, ao chegarem os espanhóis, que homens e
cavalos fossem deuses ou pelo menos seres de
natureza superior à sua. Alguns, depois de ven-
cidos, vinham implorar perdão e pedir paz e,
depois de oferecer ouro e viandas aos homens,
o mesmo faziam aos cavalos com idênticas
palavras, interpretando os relinchos como
assentimento dado às propostas de trégua.
Nas Índias Orientais, montar um elefante
era outrora a maior das honras, reservada
exclusivamente aos reis; vinha em seguida
andar em carro puxado por quatro cavalos; em
terceiro lugar montar um camelo; em último
valer-se de veículo puxado por um só cavalo.
Um contemporâneo nosso escreve ter visto,
nessas mesmas regiões, lugares onde cavalgam
bois com. cangalha, estribo e rédeas; e dão-se
bem com a montaria.
- Vendo Quinto Fábio Máximo Rutiliano, na
guerra contra os samnitas, que seus cavaleiros
não tinham conseguido romper as fileiras ini-
migas após duas ou três cargas, mandou que
tirassem os freios dos cavalos e os espo-
reassem com energia, de modo que nada os
podendo deter, por cima de armas e homens
derrubados abriram passagem para a infanta-
ria, O que completou a sangrenta derrota dos
adversários. Igual conduta teve Quinto Fúlvio
Flaco contra os celtiberos: “A fim de se tornar
mais impetuoso o choque, tirai os freios aos
cavalos e lançai-os contra o inimigo; é uma
manobra que não raro favoreceu a cavalaria
romana e muito a honra (...). Arrancam os
freios, rompem as fileiras inimigas, e voltam
em seguida, atravessando-as novamente, par-
tem todas as lanças e fazem enorme carnifici-
na
O Duque de Moscóvia devia outrora, como
sinal de respeito, ir a pé ao encontro dos
embaixadores tártaros e oferecer-lhes um copo
de leite de jumenta (o que muito apreciavam);
se, em o bebendo, algumas gotas caíssem sobre
o pêlo de seus cavalos, cabia-lhes lambê-las. O
exército que Bajazet enviou à Rússia foi assal-
tado por tamanha tempestade de neve que para
se abrigar e preservar do frio inventaram al-
guns soldados destripar seus cavalos e se meter
dentro deles para aproveitarem o calor vital.
Bajazet, após essa violenta batalha em que foi
derrotado por Tamerlão, fugiu a toda veloci-
dade num jumento árabe; teria escapado ao
inimigo se ao atravessar um riacho não tivesse
deixado o animal beber à saciedade, o que, em
lhe tirando o vigor, o tornou tão lerdo que foi
facilmente alcançado pelos perseguidores.
Dizem que os deixar urinar lhes diminui as for-
448 Tito Lívio.
144 MONTAIGNE
ças; mas quanto a beber eu imaginava, ao
contrário, que os reanimasse.
Ao atravessar a cidade de Sardes, Creso
encontrou uma grande pastagem onde havia
quantidade de serpentes que os cavalos come-
ram com apetite; o que, diz Heródoto, foi de
mau augúrio para seus empreendimentos.
Chamamos cavalosinteiros aos quetêm crina
e orelhas; os outros não são admitidos nas
paradas. Os lacedemônios, vencedores dos ate-
nienses na Sicília, ao entrar em Siracusa fize-
ram entre outras bravatas tosar os cavalos dos
vencidos e os agregar a seu desfile triunfal.
Alexandre teve de lutar contra um povo, os
daas, que iam à guerra com dois soldados para
cada cavalo; na refrega um descia e combatia
a pé, enquanto o outro continuava a lutar a
cavalo; e nisso se revezavam.
Não creio que nenhuma nação ganhe da
nossa em equitação. E em nossa maneira de
falar, a expressão bom cavaleiro diz antes res-
peito à coragem do que à destreza. O homem ..
mais hábil, firme e gracioso a cavalo, que eu
conheci, foi o Sr. de Carnavalet, que era escu-
deiro do Rei Henrique IJ. Ocorreu-me ver um
cavaleiro de pé sobre a sela, afrouxá-la, tirá-la,
substituí-la e tornar a sentar-se com o cavalo
sempre a galope; pular por cima de um chapéu
no chão e crivá-lo de flechas de costas; pegar
ao solo o que queria, um pé no estribo e o
outro solto; e realizar outras tantas proezas
para ganhar a vida.
Em meu tempo viram-se em Constantinopla
dois homens montados no mesmo cavalo e que
no mais forte da galopada se atiravam ao chão
alternativamente e tornavam a pular em cima
do animal; outro que com os dentes unica-
mente arreava o seu. Outro que a todo galope
cavalgava dois cavalos ao mesmo tempo, um
pé em cada um e carregava sobre os ombros
um segundo homem. Este, de cima do primei-
ro, e sem que se reduzisse a velocidade da
montaria, atirava flechas certeiras com seu
arco. Outros corriam de pernas para o ar, a ca-
beça sobre a sela entre lâminas de alfanges
amarrados aos arreios.
Naminha infânciao Principe de Sulmone em
Nápoles obtinha o que queria de seu rude
cavalo, sustentando sob os joelhos e os pés
peças de moeda que não se moviam sequer, a
fim de mostrar a firmeza com que montava.
CAPÍTULO XLIX
Dos costumes antigos
Desculparia de bom grado em nosso povo a
tendência para não admitir como modelo e
regra de perfeição senão os próprios usos e
costumes, pois é defeito generalizado, não
somente no homem comum como em quase
todos os homens, ver e seguir apenas o que se
praticou desde o berço. Não me aborrece que o
povo se surpreenda com Lélio ou Fabrício e os
considere bárbaros porque não se vestem
como nós e não têm boas maneiras. Mas
lamento encontrar em meus compatriotas essa
inconsegiência que faz que se deixem tão
cegamente influenciar e iludir pela moda do
momento, que são capazes de mudar de opi-
nião tantas vezes quantas ela própria muda,
isto é, de mês em mês, e forjando cada vez
novas razões para justificar a seus próprios
olhos seus juízos mais díspares. Quando se
usavam barbatanas no gibão até o meio do
peito, à altura dos seios, todos descobriam
excelentes argumentos para achar que assim
-
devia ser. Anos depois, a moda fe-las descerem
ao nível das ancas e cada qual moteja agora a
moda anterior e a declara absurda tanto quan-
to insuportável. A maneira de hoje se vestir
acarreta crítica imediata à de se vestir ontem,
crítica que se exerce tão precisamente e de
comum acordo que se diria estarmos, quanto a
isso, dominados por uma mania perturbadora
de nossa inteligência. E sendo essa mudança
tão repentina e rápida, não pode a imaginação
de todos os alfaiates do mundo criar novidades
em número suficiente, ocorrendo então, o que
se verifica amiúde, reaparecerem ao fim de
algum tempo as modas abandonadas, ' en-
quanto outras, ainda recentes, deixam de agra-
dar. E assim chegamos a emitir sobre uma
mesma coisa, em espaço de tempo de quinze a
vinte anos, duas ou três opiniões não apenas
diferentes mas, por vezes, absolutamente con-
trárias, revelando uma inconstância e uma
leviandade incríveis. Os mais espertos dentre
ENSAIOS —I
nós não evitam essas contradições e insensivel-
mente não mais as percebem.
Proponho-me colecionar aqui certos costu-
mes antigos que me vêm à memória. Entre
eles, alguns nós os conservamos; outros diver-
gem dos nossos. Ante o espetáculo dessas
mudanças continuas das coisas humanas,
nossa inteligência talvez se aclare e nosso jul-
gamento se torne mais estável.
Dizemos combater com capa e espada. Isso
Já se praticava no tempo dos romanos, e César
diz: “envolvem a mão esquerda no saio e
puxam a espada”. Assinala ele igualmente essa
feia brincadeira, ainda em voga entre nós, de
fazer parar os transeuntes, obrigando-os a
declinar nome e qualidades nara em seguida os
injuriar e/ou Os provocar, se se recusam a
responder. a
Os antigos tomavam banhos cotidianos,
antes das refeições e os tomavam tão seguida-
mente quanto nós lavamos as mãos. À princi-
pio lavavam apenas os braços e as pernas.
Mais tarde porém (e isso durou Séculos e se
propagou por toda parte) mergulhavam com-
pletamente nus em banhos acrescidos de suds-
tâncias perfumadas. Empregar água natural
era prova de grande simplicidade. As pessoas
particularmente delicadas e requintadas perfu-
mavam o corpo todo ao menos três ou quatro
vezes por dia. Arrancavam todos os pêlos
como nossas mulheres se acostumaram a fazer
com os da fronte, de algum tempo para cá:
“tens o peito, as pernas e os braços depila-
dos” *“*º e os arrancavam, embora possuissem
ungientos para o mesmo fim: “Unta a pele de
unguento depilatório ou a embebe de giz derre-
tido no vinagre? 4 5º. Gostavam de deitar-se em
leitos muito moles e consideravam prova de
austeridade fazê-lo em colchões. Comiam
reclinados sobre camas mais ou menos como
os turcos atualmente: “Então, de cima do leito,
assim falou Enéias” * 51, Dizem que desde a
batalha de Farsália, em sinal de luto pelo pés-
simo estado dos negócios públicos, Catão, o
Jovem, comeu sempre sentado, adotando uma
vida austera.
Beijavam as mãos dos grandes para os
homeriagear e adular. E beijavam-se entre ami-
gos, como os venezianos: “e eu te saudarei
com. palavras e beijos” * 2. E tocavam os joe-
lhos dos grandes a quem saudavam ou de
quem solicitavam alguma coisa. Pásicles, filó-
sofo, irmão de Crates, em vez de levar a mão
ao joelho de alguém a quem se dirigia, levou-a
as partes genitais. Repelindo-o brutalmente o
+28 Marcial.
250 Td.
451 Virgílio.
452 Ovídio.
145
outrc, disse-lhe Pásicles: “Pois não achas que
esta parte do corpo vale tanto quanto qualquer
outra?” Comiam frutas no fim da refeição
como o fazemos também. Limpavam o cu
(deixemos às mulheres a vã superstição das
palavras) com uma esponja; eis por que o
vocábulo spongia é obsceno em latim. Essa
esponja era fixada na extremidade de um bas-
tão, como o prova a história do indivíduo que
levado às arenas a fim de ser entregue às feras
pediu para satisfazer suas necessidades e, não
tendo outro meio de suicídio, enfiou a esponja
e o bastão na garganta, asfixiando-se. Enxuga-
vam o membro * *º com tecido de lã perfumado
depois de usá-lo: “não te farei nada senão te
lavar com esta toalha de lã”, diz Marcial.
Havia nos cruzamentos das ruas em Roma
recipientes e meias-tinas para que os passantes
urinassem dentro: “Não raro os meninos em
sonho pensam erguer suas vestimentas diante
da tina em que se urina”? * 84,
Faziam colação entre as refeições. No verão
vendia-se neve para refrescar o vinho; algumas
pessoas também a usavam no inverno, não
achando ainda bastante fresca a bebida. Ti-
nham os ricos trinchantes e copeiros para os
servir à mesa, bem como histriões para os
divertir. No inverno serviam a carne sobre
pequenos braseiros. Possuíiam cozinhas portá-
teis, como vi algumas, nas quais quando viaja-
vam carregavam todo o serviço: “guardai
esses pratos para vós, riccs voluptuosos, não
gostamos da cozinha ambulante” * 38,
No verão, em suas salas baixas, faziam cor-
rer água fresca e límpida em canaletes junto ao
chão e nos quais colocavam peixes vivos que o
conviva podia pegar e mandar preparar a seu
“gosto. O peixe sempre teve esse privilégio, que
ainda tem, de pretenderem os ricos saber
prepará-lo a seu modo; e a meu paladar sabe
mais deliciosamente do que a carne.
Em matéria de magnificência, festins, inven-
ções voluptuosas, lazer e luxo, fazemos o pos-
sível para ombrear com eles, pois nossas von-
tades são igualmente pervertidas, mas não
temos o talento necessário para alcançar o seu
nível, trate-se de vícios ou virtudes, porque em
ambos os casos o ponto de partida é um vigor
de espírito que era sem dúvida muito maior
neles do que em nós. E, também, porque as
almas, na medida em que são menos fortes,
contam com menos meios de realizar o bem
em grande ou de executar o mal na mesma
proporção.
453 Montaigne emprega a palavra “catze” que não
encontramos em nenhum dicionário. Trata-se sem
dúvida de reminiscência italiana. (N. do T.)
2454 [ucrécio.
455 Marcial.
146 MONTAIGNE
O lugar de honra para eles era o do meio.
Citar alguém antes ou depois, em escrevendo
ou falando, não significava em absoluto
preeminência, como se vê de sua literatura. Di-
ziam Ópio e César, mas também César e Ópio,
e indiferentemente eu e tu e tu e eu. Observei
de uma feita, na tradução francesa da vida de
Flamínio, por Plutarco, um trecho em que,
falando da rivalidade que se desenvolvera
entre os italianos e os romanos, acerca do
direito à maior parte da vitória que juntos ha-
viam obtido, o tradutor, no intuito de resolver
a questão, deu importância ao fato de serem
citados os etolianos antes dos romanos, nos
cantos gregos em que se alude ao aconteci-
mento. .Penso que nessa apreciação ele foi
influenciado pelas regras da língua francesa.
Mesmo quando estavam nas salas em que
tomavam seus banhos de vapor, as mulheres
recebiam as visitas dos homens. E aí se entre-
gavam aos cuidados de seus criados que lhes |
faziam massagens e as untavam: “um escravo,
com um avental de couro preto, aguarda tuas
ordens, quando, nua, tomas teu banho quen-
te? 4586. Tinham certos pós para absorver o
suor.
Os antigos gauleses, diz Sidônio Apolinário,
usavam os cabelos compridos na frente e cur-
tos atrás, moda que vem sendo novamente
seguida neste século de costumes efeminados e
relaxados.
456 Marcial.
Os romanos pagavam aos barqueiros o
preço de sua passagem ao embarcar, o que nós
só fazemos depois da chegada: “hora inteira
decorre em pagar passagens e em jungir os ani-
mais de tiro”*87. As mulheres dormiam no
leito do lado do beco entre a cama e a parede;
daí o apelido dado a César: “o beco do Rei
Nicodemo” * 88,
Tomavam alento ao beber e batizavam o
vinho: “que escravo irá temperar depressa o
falerno com a água viva que corre aqui
perto??*59
Encontramos igualmente nessa época as ati-
tudes impudentes dos lacaios de nosso tempo:
“S Jano, ninguém te põe cornos por trás, nem
orelhas de asno; nem a língua, como o faria
um cão sedento das Apúlias”* 89,
Para as senhoras de Argos e Roma, o bran-
co era a cor do luto, como entre nós até há
bem pouco tempo, costume que não se devia
ter abandonado, a meu ver.
Mas há livros inteiros sobre estes assuntos.
*57 Horácio.
+58 Suetônio. Em francês esse lado do leito cha-
ma-se “rnelle?. O que dá para a “ruelle”, o espaço
entre a cama e a parede. O trocadilho não é traduzi-
vel, porque “ruelle” é também ruela, ou viela, ou
beco. “O beco do Rei Nicodemo” pareceu-nos mais
no espírito da piada sarcástica. (N. do T.)
*5s Horácio. Falerno — vinho dos arredores de
Falerno.
260 Pérsio.
CapítTULO L
Sobre Demócrito e Heráclito
É o juízo * º' um instrumento útil em tudo.
Estes ensaios me fornecem amiúde a oportuni-
dade de empregá-lo. Se não entendo de algum
tema, recorro a ele e o ponho à prova, com ele
sondando o vau. E se verifico ser este dema-
siado profundo, fico na margem. E o reconhe-
cimento de que não posso ir além é a um dos
serviços que me presta e de que mais se orgu-
lha. Por vezes, quando o assunto é fútil procu-
ro ver a que ponto lhe dará consistencia,
apoio e alicerce. E se ventilo coisa importante
e já batida, ele me ajuda a descobrir o melhor
461 Aquino sentido de bom-senso. (N. do T.)
desses caminhos, tão frequentados que não há
como o evitar. E entre mil veredas diferentes
indica a que devo seguir. Ao acaso escolho vm
assunto, pois todos me são igualmente bons e
não pretendo esgotar nenhum, porquanto; de
nenhum chego a ver o fundo. E Os que nos pro-
metem mostrá-lo não cumprem suas promes-
sas.
Entre cem aspectos da mesma coisa, tomo
um. E ora o debico apenas, ora o mordisco,
ora vou até O Osso. Escruto-o, não em larga
superfície, mas tão profundamente quanto mo
permite o meu saber, e as-mais das vezes me
comprazo em o encarar por um ângulo dife-
ENSAIOS —I 147
rente do habitual. Gostaria de tratar a fundo
um tema qualquer, mas me conheço demais
para me iludir acerca de minha incapacidade.
Agindo como ajo, arriscando uma palavra
aqui, outra acolã, amostras tiradas do todo,
isoladas, sem intenção preestabelecida, e nada
prometendo, não tenho por obrigação realizar
uma obra de real valor, nem sequer me acho
comprometido em relação a mim mesmo e
conservo a liberdade de variar, quanto me ape-
teça, os assuntos de que trato e a maneira de
fazê-lo, sem que me retenham dúvidas ou
incertezas ou (o que acima de tudo me domina)
a ignorância.
Qualquer ato nosso revela o que somos. A
personalidade de César tanto se manifesta na
preparação da batalha de Farsália, e na manei-
ra por que a conduziu, quanto nas reuniões de
prazeres e galanteios que organizava. Julga-se
um cavalo não apenas pelo galope, mas ainda
pelo passo natural e até em seu descanso na
estrebaria.
Entre as funções da alma algumas há que
são mesquinhas; quem não a julga também por
esse prisma não a conhece senão imperfeita-
mente. É em geral quando está calma que me-
lhor se observa. O vento das paixões não a
atinge na serenidade, tanto mais quanto ela se
dá por inteiro em cada caso, nunca se preocu-
pando com duas coisas ao mesmo tempo, e
tratando do que a ocupa, não segundo o seu
temperamento e sim segundo o nosso. As coi-
sas em si mesmas podem ter peso, medida,
condições intrínsecas; dentro de nós, a alma as
trahsforma como entende. A morte é coisa ter-
rível para Cícero, desejável para Catão, indife-
rente para Sócrates. A saúde, a consciência, a
autoridade, a ciência, a riqueza, a beleza e seus
contrários, em se incorporando a nós, despo-
jam-se do que lhes é peculiar e, graças à nossa
alma, recebem nova vestimenta, da aparência
que ela lhes empresta: marrom, clara, verde,
preta, ácida, doce, profunda, superficial, a que
- mais em harmonia esteja com cada uma, pois
as almas não se puseram de acordo acerca de
seus estilos, regras e formas. Cada uma delas é
soberana em seu domínio. Portanto não nos.
desculpemos com as qualidades externas das:
coisas; cabe-nos, a nós, determiná-las. Nosso
bem como nosso mal só dependem de nós. A
nós mesmos e não à fortuna devemos endere-
çar as nossas preces e a expressão de nossos
desejos; ela nada pode sobre nossos costumes
de- que é, ao contrário, a consequência. São
eles que a arrastam e a fazem tal qual é.
Por que não julgar Alexandre à mesa,
conversando, bebendo, ou jogando xadrez?
Qual a fibra de seu espírito que não vibre e não
se movimente nesse jogo tolo e pueril que
detesto e evito porque é um jogo que não é
jogo, um passatempo demasiado sério e exi-
gente de uma atenção que lamentaria dar-lhe,
porquanto tenho para ela melhor aplicação. A
preparação e a conquista das Índias não solici-
taram maior trabalho desse herói macedônio,
como de tal outro não o exigiu a interpretação
de um texto essencial à salvação do
homem * $2. Vede como nossa alma amplia e
engrandece esse jogo ridículo: vede como ele
absorve todas as suas faculdades, a ponto de
dar a cada um a possibilidade de se conhecer
tal qual é. Nunca me vejo e me'sinto melhordo que
quando jogo xadrez. Todas as minhas paixões
se expandem: a cólera, o despeito, o Ódio, a
impaciência e também a ambição de vencer em
uma coisa em que fora preferível ser vencido,
pois não é de um homem de honra buscar em
coisas fúteis, como em partidas de xadrez, uma
superioridade excepcional. E o exemplo apli-
ca-se às demais circunstâncias da vida. Todo.
“pormenor da existência do homem, toda ocu-
. pação a que se entregue, o revelam e o mos-
tram com suas qualidades e defeitos.
Demócrito e Heráclito eram dois filósofos.
O primeiro, achando que a condição humana é
vã e ridícula, apresentava-se sempre em pú-
blico a rir e motejar. Heráclito, tomado de pie-
dade por essa mesma humanidade, andava
permanentemente triste e de lágrimas nos
olhos: “Logo que punham o pé fora de casa,
um ria e 'o outro chorava ”* 83. Prefiro o pri-
meiro, não porque seja mais agradável rir do
que chorar, mas porque sua atitude é testemu-
nha de seu desdém, porque ela nos condena
mais do que a outra e acho que nunca pode-
mos ser desprezados quanto o merecemos. Pie-
dade e comiseração misturam-se a alguma esti-
ma por aquilo de que temos dó; o de que se
caçoa, consideramo-lo sem valor. Penso que
há em nós mais vaidade do que infelicidade,
mais tolice do que malícia, mais vazio do que
maldade, mais vileza do que miséria.
Diógenes, em seu tonel, divertindo-se com
seus botões em zombar das vaidades humanas,
escarnecendo de Aiexandre, encarando os ho-
mens como moscas ou bexigas cheias de vento,
foi um crítico mais acerbo e agudo, e por
conseguinte mais de meu agrado, do que
Timão, a quem chamavam o Misantropo por-
que odiava os homens. O que odiamos, por
algum aspecto nos interessa e preocupa.
Timão desejava o nosso mal, aspirava à nossa
ruína, fugia da nossa conversação que achava
462 Um texto da Bíblia.
483 Juvenal.
148 MONTAIGNE
perigosa porque de gente ruim e depravada.
Diógenes estimava-nos tão pouco que não
supunha sequer que nossa fregientação o
pudesse perturbar ou lhe alterar o humor. Se
não desejava nossa companhia, não era por
temor de contágio, mas por desprezo. Não nos
acreditava capazes nem de fazer o bem nem de
fazer o mal.
A resposta de Estatílio a Bruto, que procu-
rava filiá-lo à conspiração contra César, está
impregnada da mesma idéia: “Era justo em-
preendimento, a seu ver, mas os homens para
os quais o tentavam não eram dignos de qual-
quer esforço em seu favor.” Dentro do mesmo
espirito Hegésias afirmava como regra que “o
sábio nada deve fazer senão para si próprio,
porque só ele merece o que por ele fazem”. E
Teodoro estabeleceu que “não é justo que o
sábio se arrisque pelo bem de seu país e corm-
prometa a sua sabedoria em favor da loucura”.
Nossa condição própria é tão ridícula quão
risível.
CarítTuLO LI
Vas são as palavras
Dizia um retórico do passado que sua pro-
fissão consistia em “fazer com que as coisas
pequenas parecessem grandes e como tal se
aceitassem”. O que equivale a dizer um sapa-
teiro fazendo sapatos grandes para pés peque-
nos. Em Esparta tê-lo-iam fustigado por exer-
cer ofício tão mentiroso e enganador. E penso
que foi sem espanto que Arquimedes, um de
seus reis, ouviu esta resposta de Tucídides, a
quem indagava qual o mais forte na luta: Péri-
cles ou ele. “E difícil verificá-lo, porque quan-
do o derrubo ele persuade os espectadores de
que não caiu, e ganha.” Os que maquilam as
mulheres causam menor mal (porquanto
pouco se perde com não as ver ac natural) do
que os que têm por profissão abusar, não de
nossos olhos, mas da nossa inteligência, abas-
tardando e corrompendo a própria essência
das coisas.
As repúblicas bem organizadas e adminis-
tradas não deram muita importância aos ora-
dores. Assim foi em Creta e na Lacedemônia.
Ariston diz com sabedoria que a oratória é a
ciência de persuadir o povo. Sócrates e Platão
a definem como a arte de enganar e adular. E
os que se erguem contra esta definição geral,
comprovam-na em seus preceitos. Os maome-
tanos proibem-lhe o ensino às crianças, por
inútil. E os atenienses, entre'os quais ela fora
tão apreciada, ordenaram a-supressão de suas
partes mais importantes e que mais atuam
sobre os sentimentos: o exórdio e a conclusão,
ao verificarem quanto lhes era prejudicial.
Trata-se de um instrumento muito adequado
a excitar ou acalmar o populacho alvoroçado e
que, como a medicina, só se aplica aos Estados
enfermos. Naqueles em que o vulgo ou os igno-
rantes tiveram todo o poder, como em Atenas,
Rodes e Roma, e onde a coisa pública sofreu
continua agitação, proliferaram os oradores.
Em verdade não se vêem muitos personagens
adquirir grande influência nessas repúblicas,
sem ajuda da eloquência. Para Pompeu, César,
Crasso, Lúculo, Lêntulo, Metelo, foi ela o
principal fator de sua grandeza e de seu poder.
Auxiliou-os mais do que a sorte das armas, o
que não aconteceria em tempos melhores. L.
Volúmnio, falando em público a favor da elei-
ção de A. Fábio e P. Décio, ao consulado,
dizia: “São: homens que se fizeram na guerra,
homens de ação pouco afeitos às justas orató-
rias, caracteres como devemos exigir dos que
elevamos ao Consulado; os de espírito manho-
so, eloquentes e eruditos, são bons para os car-
gos que se exercem sem sair de Roma, cargos
de pretores, por exemplo, encarregados de apli-
car as leis.” Foi quando os negócios andavam
pior, quando a tempestade das guerras civis
abalava a cidade, que a eloquência floresceu
em Roma; assim as ervas daninhas em um
campo abandonado ou não roteado ainda cres-
cem com mais vigor. Pode-se concluir daí que
os governos dependentes de um monarca têm
menos do que os outros necessidade de
eloquência, pois a tolice e a credulidade da
maioria, impelindo-a a ser manejada e orien-
tada pelo ouvido ao doce som daquela música,
sem que possa pesar nem conhecer a verdade
das coisas pela força da razão, não se encon-
tram tão facilmente em um só homem, o qual é
possível assegurar contra os efeitos de tal vene-
no, mediante uma boa educação e bons conse-
ENSAIOS— I 149
lhos. Nem a Macedônia nem a Pérsia tiveram
oradores famosos.
Uma palavra acerca de um italiano com o
qual acabo de me entreter e que serviu junto ao
falecido Cardeal Caraffa na qualidade de mes-
tre de hotel, cargo que exerceu até a morte do
prelado. Falamos de seu cargo e, a respeito da
ciência gastronômica, deu-me eie verdadeir
preleção com gravidade e atitude de professor
como se desenvolvesse um ponto da teologia.
Enumerou-me as diversas espécies de apetites:
o que se tem em jejum; os que se experi-
mentam depois do segundo e terceiro pratos;
os meios de os satisfazer simplesmente ou de
os excitar; a técnica dos molhos, a princípio de
um modo geral e em seguida pormenorizada-
mente, entrando na minúcia dos ingredientes e
de seus efeitos; a variedade de saladas segundo
a estação, as que devem ser servidas cozidas e
as que devem ser servidas frias, a maneira de
as apresentar agradavelmente. Entrou depois
em considerações acerca da ordem com que
convém servir os pratos: “pois não é coisa de
pouco saber como cortar uma lebre ou trin-
char um frango” * 84. E tudo isso ornamentado
de belas palavras como as que se usam para
falar de um governo, de um império, o que me
lembrou este trecho de Terêncio: “Salgado
" demais! queimado demais! insosso! estã
bom! repita isso outra vez! Dou-lhes meus
melhores conselhos, de acordo com o pouco
que sei. Finalmente insisto. Demea, para que
tenham por espelho sua baixela. E ensino-lhes
tudo.” Observe-se que os próprios gregos elo-
giaram, e muito, o banquete que lhes ofereceu
Paulo Emílio de volta da Macedônia. Mas não
me ocupo aqui de fatos e sim das palavras que
se usam para os relatar.
Não sei se outros sentem o que sinto, mas
364 Tuvenal.
quando ouço nossos arquitetos lançar estas
palavras pretensiosas: pilares, arquitraves, cor-
nijas, ordem coríntia ou ordem dórica, e outras
de seu jargão, não posso impedir-me de pensar
imediatamente no palácio de Apolidon e, por
comparação, o que citam com tanta ênfase não
me parece muito superior às mesquinhas peças
da porta de minha cezinha. Quando ouvis
falar de metonímia, metáfora, alegoria e outras
expressões da gramática não vos parece que
sejam locuções de uma língua rara e peregri-
na? Pois se aplicam muito simplesmente às
formas de linguagem que vossa criada de quar-
to emprega na sua tagarelice. É erro seme-
lhante aplicar aos cargos de nosso Estado poli-
tico os pomposos títulos que usavam os
rcmanos, pois não há nenhuma relação nem
quanto às funções, nem no que concerne à
autoridade e ao poder. E é erro igualmente,
que nos censurará a posteridade, atribuir a
quem bem entendemos — e não são dignos
deles — esses gloriosos cognomes com que a
antiguidade honrou um cu dois personagens
apenas em sua longa sequência de séculos. Pla-
tao foi chamado “divino” por universal con-
senso e sem que ninguém pensasse em contes-
tar-lhe o título, e eis que os italianos, que no
entanto se vangloriam, com alguma razão, de
ter o espírito mais vivo e o juízo mais equili-
brado do que os demais povos, acabam de gra-
tificar o Aretino com igual apelido, esse Areti-
no que, salvo pelo falar empolado, marchetado
de saídas em verdade espirituosas, porém
demasiado requintadas e rebuscadas, nada tem
a meu ver, afora a eloquência, que o coloque
acima dos autores comuns deste século e que o
aproxime, ainda que de longe, daquele que os
antigos divinizaram. Quanto ao epíteto
“grande? a quantos príncipes não o concede-
ram, que em nada ultrapassam os outros?
CAPÍTULO LII
Parcimônia dos antigos
Atílio Régulo, que comandava o exército ro-
mano na África, no auge de sua glória pelas
vitórias contra Os cartagineses, comunicou ao
soverno de Roma que um agricultor que deixa-
ra em sua fazenda, a qual tinha apenas três
hectares * 8º, fugira com seus instrumentos de
465 No texto “sept arpents”; valendo cada
“arpent” quarenta e dois ares e pouco, têm-se mais
ou menos três hectares. (N. do T.)
150 MONTAIGNE
trabalho. Em consequência do que pedia licen-
ça para voltar a seu lar a fim de resolver o
assunto, pois temia que sua mulher e seus fi-
lhos viessem a sofrer. O Senado encarregou-se
de colocar outro agricultor no lugar do desa-
parecido, entregou-lhe outros instrumentos de
trabalho e ordenou que a mulher e os filhos
fossem sustentados pelo Estado.
Catão, o Velho, ao voltar da Espanha onde
exercera o cargo de cônsul, vendeu seu cavalo
a fim de economizar o dinheiro que lhe teria
custado o transporte por mar, para a Itália. O
governador da Sardenha fazia suas inspeções a
pé, levando em sua companhia unicamente um
oficial que lhe carregava a toga e um vaso des-
tinado à cerimônia dos sacrifícios. As mais das
vezes carregava ele próprio a sua maleta.
Vangloriava-se de nunca haver possuído toga
de mais de dez escudos, de não gastar mais do
que dez soldos por dia na feira e de não ser
nenhuma de suas casas de campo rebocada e
caiada.
Cipião Emiliano depois de duas vitórias e
dois consulados foi como legado para uma
província somente com sete servidores. Dizem,
que Homero nunca teve mais de um, Platão
três e que Zenão, o chefe dos estóicos, não
tinha nenhum. A Tibério Graco não se conce-
deram senão cinco soldos e meio por dia quan-
do desempenhou missão especial da Repú-
blica, e era o personagem mais importante de
Roma. j
CapíruLo LIII
De uma sentença de César
Se nos divertissemos com nos examinar e
se o tempo que empregamos em observar os
outros e em nos informar acerca do que não é
de nossa conta nós o consagrássemos a ver
dentro de nós mesmos, compreenderíamos
logo quão frágeis e insignificantes são as peças
de que somos feitos. Não constitui, com efeito,
prova de imperfeição o fato de que nada nos dê
inteira satisfação? E que nossa própria imagi-
nação e nossos próprios desejos nos impeçam
de escolher o que nos convém? E a evidência
dessa impossibilidade está na grave questão
pendente entre os filósofos de saber em que
consiste o soberano bem dos homens, questão
que continua sem resposta e assim continuará
eternamente, sem que jamais se chegue a um
acordo: “O bem que não temos parece prefe-
rível ao resto; quando obtemos a coisa dese-
jada logo queremos outra, e nossa sede é
inestancável” * 88,
Por grandes que sejam os conhecimentos
que adquirimos e os bens de que podemos usu-
fruir, sentimos que-algo nos falta e suspiramos
pelo futurô desconhecido, tanto mais quanto
não nos sacia o presente. E isso, a meu ver,
466 Tucano.
não porque nos ofereça com que nos embria-
garmos, mas porque só RE o que nos
apresenta com reticência | prevenção:
“quando viu que os mortais já is pGemi de
quase tudo o que lhes é necessário; que apesar
das riquezas, das honrarias, da glória, dos fi-
lhos bem formados, não escapam à angústia
nem aos dolorosos conflitos interiores, Epicu-
ro compreendeu que o mal vem do próprio
continente, o qual, por se haver corrompido,
estraga o bem que se derrame dentro dleje nEscr
Nossos desejos carecem de resolução e
convicção. Não sabemos conservar nem des-
frutar convenientemente. Obcecado pela idéia
de que o que possui é imperfeito, o homem
entrega-se por inteiro e pela imaginação às coi-
sas que não tem e'não conhece, nelas concen-
tra seu desejo e sua esperança e as encara com
respeito e amor; o que César assim exprime:
“Em consequência de um vício de nossa natu-
reza, e comum a todos os seres, tememos
sobretudo as coisas que não conhecemos 6 se
nos ocultam, ao mesmo tempo que nelas con-
fiamos de preferência.”
467 Lucrécio.
CapítruLO LIV
Das vas sutilezas
Os homens recorrem por vezes a sutilezas
fúteis e vãs para atrair nossa atenção. Assim,
Os que escrevem poemas inteiros em que todos
os versos começam pela mesma letra. Na anti-
ga literatura grega deparamos com poemas em
forma de ovo, de bola, de asa, de machadinha,
obtidos mediante a variação das medidas dos
versos que se encurtam ou alongam para, em
conjunto, representar tal ou qual imagem. A
ciência de Fulano que se divertiu com calcular
de quantas maneiras se combinavam as letras
do alfabeto, e achou esse número incrível que
Plutarco menciona, também participa desse
gênero de singularidades. Aprovo a atitude
daquele personagem a quem apresentaram um
homem que com tamanha habilidade atirava
um grão de alpiste que o fazia passar pelo bu-
raco de uma agulha sem jamais errar o golpe.
Tendo pedido ao outro que lhe desse uma
recompensa por essa habilidade excepcional,
atendeu o solicitado, de maneira prazenteira e
justa a meu ver, mandando entregar-lhe três
medidas de alpiste a fim de que pudesse conti-
nuar a exercer tão nobre arte. E prova irrefu-
tável da fraqueza de nosso julgamento apaixo-
narmo-nos pelas coisas só porque são raras e
inéditas, ou ainda porque apresentam alguma
dificuldade, muito embora não sejam nem
boas nem úteis em si.
Ultimamente jogamos em minha casa um
jogo que consiste em achar o maior número de
palavras que se liguem pelos extremos em suas
aplicações. Por exemplo: “Sire? é um título
que se dã ao mais alto personagem do Estado,
o rei; mas se aplica igualmente ao vulgo, aos
comerciantes, sem jamais se empregar entre-
tanto em relação às pessoas de classe média.
Às senhoras da classe alta chamam “dames” ;
às da classe média “demoiselles”; e às da clas-
se mais baixa “dames” também. Os dados só
se jogam nos palácios dos principes e nas
tavernas. Demócrito dizia que os deuses e os
bichos tinham sentimentos mais delicados do
que os homens, os quais estão no meio da
escala. Os romanos usavam vestimentas idên-
ticas nos dias de luto e de festa.
É sabido que o medo desesperado e a extre-
ma coragem atuam sobre o organismo, pertur-
bam os intestinos e os relaxam. O apelido de
“trêmulo” dado a D. Sancho, décimo segundo
rei de Navarra, mostra que a valentia, tal qual
o medo, provoca tremores no corpo. Os que
lhe vestiam a armadura procuravam tranquúili-
zá-lo, atenuando o perigo a que se ia expor:
“Conheceis-me bem mal”, respondeu ele, “se
minha carne soubesse onde meu arrojo vai
conduzi-la ficaria absolutamente transida.” Se
a repugnância e a indiferença ocasionam a
impotência nos jogos de Vênus, à mesma fra-
queza levam o desejo violento e o imoderado
ardor. O frio intenso e o exagerado calor quei-
mam e assam igualmente. Diz Aristóteles que
as barras de chumbo, que fundem à tempera-
tura elevada, fundem também e escorrem
quando o frio é excessivo. O desejo e a sacie-
dade machucam igualmente os nossos órgãos
antes e depois de nos satisfazermos. A estupi-
dez e a sabedoria comportam-se de maneira
análoga na dor; os sábios a dominam e os ou-
tros ignoram. Estes ficam, por assim dizer,
aquém do sofrimento; os outros vão além. O
filósofo, depois de ter pesado e considerado as
coisas, depois de as ter medido e analisado,
coloca-se acima delas mercê de um corajoso
esforço, despreza-as e as rechaça, porque pos-
sui uma alma forte e sólida, contra a qual se
partem, sem a penetrar, as flechas da fortuna.
Os homens em sua maioria situam-se entre
estes extremos: percebem o mal, sentem-no e
não o podem suportar. À infância e a decrepi-
tude têm em comum a simplicidade de espírito.
A avareza e a prodigalidade mostram idêntico
desejo de adquirir e acaparar. Parece haver
motivos para afirmar que existe uma igno-
rância inicial que precede a ciência e uma
ignorância doutoral que a segue. A ciência faz
e engendra esta última, assim como desfaz e
destrói a primeira. Fazem-se bons cristãos
com espíritos simples, pouco curiosos e pouco
instruídos e que tanto por respeito como por
obediência acreditam singelamente e observam
os mandamentos. É entre as pessoas de espi-
rito e capacidade médios que nascem as opi-
niões errôneas; adotam pela simples aparência
uma qualquer interpretação primária das Escri-
turas e se imaginam autorizadas a considerar
152 MONTAIGNE
tolice e estupidez continuarmos fiéis à antiga
crença, alegando não assentar a nossa opinião
em nenhum estudo prévio. Os grandes espiri-
tos, mais sérios e clarividentes, fornecem outra
espécie de bons crentes. Mediante longas e
minuciosas investigações alcançaram um co-
nhecimento aprofundado dos textos sagrados,
penetraram-lhes e sentiram-lhes o segredo mis-
terioso e divino que regula o governo dos negó-
cios eclesiásticos. Vemos entretanto alguns, da
categoria intermediária, que chegaram com
maravilhoso resultado e fé ao extremo limite
da inteligência cristã e gozam sua vitória sobre
a ignorância entre ações de graças. Reformam
seus costumes e demonstram resignada modês-
tia. Não incluo porém entre estes os que, a fim
de afastar de st a suspeita de terem abraçado o
erro que hoje renegam e na esperança de dar
provas de sua convicção, se revelam extrema-
dos e indiscretos na defesa de nossa causa,
manchando-a com inúmeras violências. Os
camponeses simples são gente honrada; e o
são também os filósofos ou, como se diz hoje,
os espíritos fortes e esclarecidos que possuem,
sobre as ciências úteis, conhecimentos exten-
sos. Os* 8º que não são sábios nem tampouco
ignorantes, venceram a primeira etapa no estu-
do das letras mas não puderam alcançar o
grau superior que completa a nossa instrução.
Ássim, com o traseiro entre duas selas, são
perigosos, absurdos e incômodos. São pessoas,
+88 No texto “métis” = mestiço. (N. do T.)
como eu e tantas outras, que perturbam o
mundo. No entanto, no que me diz respeito,
procuro agarrar-me como posso áquilo que
constitui naturalmente minha primeira crença
e da qual, de uma feita, tentei em vão
desprender-me.
Da mesma forma, a poesia, quando eclode
no seio do povo, revela uma pureza e uma
graça que rivalizam com o que de mais belo
oferece quando, por cfeito da arte, atinge a
perfeição. É o que podemos observar em nos
reportando aos vilancetes de Gasconha e às
canções que se conservaram de nações a que
era estranha a ciência e não conheciam sequer
a escrita. Entre esses dois gêneros temos a poe-
sia medíocre, pouco apreciada e de nenhum
valor.
Observei que quando o espírito dá seus pri-
meiros passos, consideramos — como ocorre
comumente — dificil e raro o que muitas vezes
não possui absolutamente esse caráter; e logo
que nossa fantasia descobre o caminho da
inspiração, enconira um número infinito de
exemplos como aqueles a que aludo neste capi-
tulo. Aos quais acrescentarei apenas o seguin-
te: se estes Ensaios fossem dignos de ser julga-
dos, não agradariam muito aos espíritos
comuns €e vulgares, nem às inteligências supe-
riores que constituem a exceção. Os primeiros
não os achariam assaz compreensíveis, e Os
segundos os compreenderiam de sobra. Talvez
os aceitassem as pessoas de mediana enverga-
dura.
CapíruLo LV
Dos odores
Conta-se de alguns homens, como de Ale-
xandre, o Grande, que seu suor, em virtude de
uma compleição especial, tinha um cheiro
bom. Plutarco e outros autores procuram
explicar o fenômeno. Mas em geral ocorre o
contrário, e a melhor qualidade que podem ter
é não cheirar. O hálito mais puro é tanto mais
doce quanto sem cheiro nenhum, como no
caso das crianças saudáveis. Eis por que Plau-
to diz: “o mais delicioso perfume de uma mu-
lher está na ausência de qualquer odor”. Quan-
to aos bons odores provenientes dos perfumes
agregados ao corpo há que desconfiar de quem
os usa, pois é de se temer que sirvam a disfar-
çar algum defeito natural dessa espécie, o que
deu aliás origem a estes aforismos de poetas
antigos: “é sinal de fedor o bom odor”.
“Caçoas de nós, Coracino, porque não nos
perfumamos, mas prefiro não ter cheiro ne-
nhum a cheirar bem”*8º. Ou ainda: “Quem
sempre cheira bem, póstumo, cheira imal.”
Entretanto gosto muito de um ambiente que
exale bons odores e tenho horror aos maus que
sinto de mais longe que qualquer outro: “Meu
olfato distingue os miaus cheiros mais sutil-
mente do que um excelente cão sente o lameiro
do javali” * 7º. E os perfumes mais simples e
+69 Marcial.
“27º Horácio.
ENSAIOS —I 153
naturais são para mim os mais agradáveis.
O uso de perfumes é principalmente reser-
vado às mulheres. As mulheres da Cítia, região
em que a barbárie imperava de maneira abso-
iuta, cobriam o rosto e o corpo depois do
banho com uma certa droga odorifera de sua
terra. E quando se aproximavam dos homens,
tiravam a crosta ficando com a pele mais lisa e
cheirosa.
É espantoso a que ponto um cheiro qualquer
se impregna em mim facilmente. Quem se
queixava de que a natureza não dotara o
homem de instrumento capaz de levar os odo-
res ao nariz, laborava um erro, porquanto os
próprios odores sabem encontrar seu caminho.
A mim, em particular, serve-me de veículo o
espesso bigode. Se aproximo as luvas ou o
lenço, o cheiro nele permanece o dia todo; daí
estar ele sempre a denunciar por onde andei.
Os beijos apaixonados da juventude, saboro-
sos, gulosos e úmidos, nele deixavam outrora
vestígios que se percebiam muitas horas mais
tarde. Sou no entanto pouco propenso às epi-
demias provenientes de um ar contaminado e
que se transmitem até pela simples conversa-
ção. Permaneci imune a todas as que em nos-
sas cidades como em nossos exércitos se verifi-
caram em meu tempo; e que foram de toda
espécie. Lê-se, a propósito de Sócrates, que
nunca deixou Atenas durante a peste que a
dizimou mais de uma vez, e jamais se
contagiou.
Os médicos, creio, poderiam tirar melhor
partido de que tiram dos odores, pois verifiquei
amiúde que atuam sobre mim, segundo sua
natureza, e impressionam meu espírito de
diversas maneiras; O que me induz a conside-
rar exato o que dizem a respeito do incenso e
dos perfumes usados nas igrejas, a saber, que
esse costume tão antigo, e tão encontradiço
nas diferentes nações e religiões, tem por obje-
tivo acordar, purificar e tornar eufóricos os
nossos sentidos, a fim de melhor nos predispor
à contemplação.
Gostaria de ter tido a oportunidade de sabo-
rear a obra desses cozinheiros que sabem tem-
perar o sabor das viandas mediante perfumes
escolhidos, o que se pôde ver e foi muito nota-
do quando dos jantares oferecidos pelo rei de
Túnis em Nápoles, onde desembarcou para se
entender com o Imperador Carlos Quinto.
Recheavam-se essas viandas com plantas
odoríferas e com tamanha abundância que um
pavão e dois faisões assim guarnecidos vinham
a custar cem ducados. Ao se trincharem, exa-
lavam um aroma dos mais deliciosos, que se
espalhava não somente pela sala mas ainda
por todos os aposentos do palácio e até nas
ruas da vizinhança, persistindo durante algum
tempo.
Meu principal cuidado, quando tenho de me
hospedar, é evitar os bairros onde o ar é pesa-
do e empestado. Apesar de sua beleza, Veneza
e Paris perdem muito de seu encanto a meus
olhos, por causa do mau cheiro. Na primeira
dessas cidades são causa disso os canais e as
lagunas que a cercam; na outra a lama das
ruas.
CapítuLo LVI
Das orações
À semelhança do que fazem nas escolas os
que poem em discussão questões controver-
tidas, enuncio idéias fantasistas e mal defini-
das: não a fim de provar a verdade pois não
tenho tal pretensão mas para a procurar. É
essas idéias, eu as submeto ao juízo daqueles a
quem cabe não somente orientar meus atos e
meus escritos mas ainda meus próprios pensa-
mentos. Que me aprovem ou me condenem,
igualmente útil me será a sentença, e a aceito
de antemão, reconhecendo desde já como
absurdo e ímpio tudo o que, por ignorância ou
inadvertência de minha parte, possa, nesta
compilação, imiscuir-se de contrário às deci-
sões e prescrições da Santa Jgreja Católica,
Apostólica e Romana, na qual nasci e na qual
morrerei. Embora muito temerariamente me
meta, como faço aqui, a tudo discutir, confor-
mo-me inteiramente com sua censura, diante
da qual me inclino de maneira integral.
Não sei se me engano, mas posto que por
favor especial da bondade divina uma oração
nos foi prescrita e ditada palavra por palavra
pela boca de Deus, sempre me pareceu que a
ela deviamos recorrer mais do que o fazemos.
Se minha opinião pesasse no assunto, nós a
154 MONTAIGNE :
diríamos no início e no fim das refeições, ao
“deitar e ao levantar. Em todos os momentos
em que é costume rezar, gostariamos que fosse
o padre-nosso a oração de todos os cristãos.
Pode a Igreja aumentar o número de orações e
modificá-las segundo nossas necessidades e os
fins a que ela visa, e bem sei que o espírito e o
fundo são sempre os mesmos, essa é a oração
por excelência e ela diz incontestavelmente
tudo o que há para se dizer, convém a todas as
circunstâncias em que nos podemos encontrar
e portanto justificaria o privilégio de a ter sem-
pre nos lábios o povo. É a única oração de que
me valho sempre e sempre a repito em vez de
variar, porquanto nenhuma tanto se gravou em
minha memória.
Estava a pensar de onde nos vem o erro de
recorrer a Deus a propósito de todos os nossos
projetos, de todos os nossos empreendimentos;
de para ele apeiar em todas as ocasiões, qual-
quer que seja a nossa preocupação, cada vez
que nossa fraqueza precisa de auxílio, sem
mesmo ponderarmos se temos ou não razão,
invocando assim o seu nome e o seu poder em
qualquer situação, sejam ou não repreensíveis
os nossos atos. Ele é por certo o nosso único
protetor e tudo pode quando nos ajuda. Mas,
ainda que nos honrando com seu apoio pater-
nal e benevolente, não deixa de ser justo na
medida em que é bom e poderoso. E como cos-
tuma empregar mais comumente a justiça do
que o poder, é-nos favorável enquanto ela o
permite e não segundo o que pedimos.
Em suas “Leis”, Platão admite três casos
em que nossas crenças se revelam injuriosas
aos deuses: quando lhes negamos a existência;
quando negamos sua intervenção em nossas
vidas; e quando afirmamos que não rechaçam
jamais nossas súplicas, nossas oferendas e nos-
sos sacrifícios. A primeira dessas crenças, a
seu ver, não é imutável no homem, o qual pode
mudar de idéia no decurso de sua. existência; .
as outras duas podem ser mantidas indefinida-
mente.
A justiça e o poder de Deus estão insepara-
velmente ligados; em vão apelaremos para Ele
se nossa causa é mà. É preciso, quando lhe
suplicamos, que esteja nossa alma em estado
de pureza e que pelo menos nesse momento
não estejamos animados de maus sentimentos,
sem o que Lhe damos nós mesmos o látego
para que nos castigue. Em vez de nos redimir-
mos, agravamos os nossos pecados em nos
apresentando, a quem deveríamos pedir per-
dão, com o coração cheio de Ódio e irreve-
rência. Eis por que não admiro em absoluto
aqueles que vejo orar a Deus amiudada e regu-
larmente, sem que os atos que acompanham
suas preces testemunhem arrependimento ou
intenção de se corrigirem: “Para te entregares,
à noite, ao adultério, cobres a cabeça com um
embuço gaulês” 471.
A conduta de um homem que associa à
devoção uma vida execrável parece-me até
certo ponto mais condenável que a de quem,
coerente consigo mesmo, se mostra dissoluto
sob todos os aspectos. No entanto, vemos a
Igreja recusar diariamente licença, para que
penetrem em sua sociedade, às pessoas que se
obstinam em palmilhar caminhos particular-
mente irrepreensíveis * 72.
Rezamos por hábito e costume. Ou antes:
lendo e murmurando preces fingimos rezar.
E-me penoso ver persignarem-se ao “Benedici-
te? * 73 pessoas que durante as demais horas do
dia praticam o ódio, a avareza, a injustiça.
Isso me desagrada tanto mais quanto tenho
esse sinal em grande veneração e o emprego
continuadamente, até mesmo quando me pego
bocejando. Os vícios têm sua hora, Deus a
dele; como por compensação ou composição.
E espantoso ver sucederem-se ações tão diver-
sas, tão bem ligadas umas às outras que não se
lhes percebem interrupções e mudanças, quan-
do da passagem de uma a outra, nem se vê
quando uma termina e outra começa. Que pro-
digiosa consciência, essa cuja calma não se
desmente conquanto abrigue o criminoso e o
Juiz numa tranqúila vida em comum.
Um homem que tem sempre na cabeça
idéias libidinosas e consciência da reprovação
divina que elas lhe acarretam, que pode dizer a
Deus quando com Ele se entretém? Que se
arrepende? Mas se logo em seguida volta ao
vício? Se estivesse compenetrado de sua justi-
ça e de sua presença, como o diz, e se sua alma
as sentisse, por curto que fosse o momento de
penitência, o simples temor o haveria de preo-
cupar tão seguidamente que acabaria por
triunfar de seus vícios habituais, por mais
arraigados que se achassem. E que dizer dessa
gente que passa a vida inteira a gozar e benefi-
ciar-se do que sabe constituir pecado mortal?
E, no entanto, quantas profissões e quantos
divertimentos admitidos e que vivem do vício,
não temos nós? Confessando-se a mim, disse-
me certo individuo que passara a vida a prati-
car uma religião que acreditava lhe compro-
|
*71 Juvenal. |
+72 Montaigne parece endereçar uma censura à
Igreja pela desigualdade de tratamento dado aos
hipócritas e aos dissolutos. Aliás, como observa
Michaut, o capítulo todo é dos mais difíceis de
entender. (N. do T.)
+73 Fórmula de ação de graças usada na liturgia
católica. (N. do E.)
ENSAIOS — I 155
metesse a salvação eterna e contrária à que
tinha no coração, a fim tão-somente de não
perder prestígio e honrarias. Quanto não lhe
devia custar semelhante atitude? Como esses
indivíduos justificarão sua conduta ante a jus-
tiça divina? Seu arrependimento os obrigaria a
uma reparação efetiva e manifesta; em não a
satisfazendo, não a podem alegar perante Deus
nem perante os homens. E que ousadia, essa
deles, de pedir perdão sem repararem nem se
arrependerem?
A meu ver, OS primeiros, os que misturam a
devoção à má conduta, são iguais aos outros,
os que vivem na devassidão; mas é menos fácil
ainda reconduzilos ao bom caminho. As
variações incessantes e súbitas de opinião, que
vão de um extremo ao outro, são para mim
incompreensíveis: elas revelam um espírito to-
mado de insopitável angústia. Como me pare-
ce absurda a imaginação daqueles que, nestes
últimos anos, tinham por hábito tachar de
hipócrita quem quer que tivesse a inteligência
um pouco mais lúcida e praticasse a religião
católica, indo até a afirmar que no intimo esta-
va de acordo com a Reforma. Triste enfermi-
dade essa desses indivíduos, de se acreditarem
tão fortes a ponto de se persuadirem de que os
outros não podem crer o contrário do que eles
próprios crêem. Pior ainda, pois essa gente
prefere os benefícios imediatos auferidos de
uma religião, em que no fundo não acreditam,
às esperanças da vida eterna. Podem crer-me:
se algo devesse tentar-me na mocidade, o risco
e os obstáculos inerentes à Reforma teriam
influído por certo, na decisão * 7 *.
Não é sem razão séria, parece-me, que a
Igreja proíbe que quem quer seja, sem distin-
ção de pessoa, idade e sexo, se arrogue o direi-
to temerário e indiscreto de comentar e salmo-
diar esses divinos cantos que o Santo Espírito
inspirou a Davi. Não se deve imiscuir Deus em
nossas ações, senão com reverência e aten-
cioso respeito. Esses cantos, pela sua origem
divina, têm outra finalidade que não a de
desenvolver nossos pulmões e encantar nossos
ouvidos. É da consciência e não da boca que
devem emanar. Não é admissível que permi-
tam a um caixeiro qualquer falar disso e com
274 A frase, como ocorre muitas vezes em Mon-
taigne, quando ele procura não se comprometer em
matéria de religião, presta-se a interpretações dife-
rentes. Michaut desenvolve, a propósito, explicação
quase oposta à nossa. A seu ver os riscos e as difi-
culdades da Reforma é que teriam impedido Mon-
taigne de se decidir pelo protestantismo. Reza o
texto: “Si rien eút du tenter ma jeunesse Pambition
du hasard et difficultê qui suivaient cette récente
entreprise, y eút eu bonne part.” Preferimos ficar
mais fiéis ao original. (N. do T.)
isso se divertir enquanto enche, concomitante-
mente, a cabeça com idéias fúteis e tolas. Não
é, tampouco, razoável ver o Livro Santo, em
que se descrevem os sagrados mistérios de
nossa fé, serem lidos e comentados na copa €
na cozinha. Tais textos eram outrora misté-
rios; hoje não passam de pretexto para debates
e divertimentos.
Não é de passagem e em tumultuosas
assembléias que cumpre atentar para assunto
tão sério e tão digno de veneração. Deve ser
um ato meditado e sereno, e que sempre deverá
ser precedido de um “Sursum corda” * 78. essa
introdução ao ofício divino. E que nossa atitu-
de seja de particular atenção, evidenciando
nosso respeito.
Um tal estudo não é da alçada de qualquer
um; a ele só se entregarão os que a ele se dedi-
cam e que por Deus foram escolhidos; maus,
os ignorantes tornam-se piores do que antes.
Não é história a ser contada e sim a ser vene-
rada, temida, adorada. Ingênua gente, em ver-
dade, essa que a imagina ter colocado ao
alcance do povo, somente porque a traduziu
em linguagem popular! Será unicamente ques-
tão de palavras e bastará mudá-las para que a
entenda o vulgo? Direi mais: em assim fazen-
do, afastam-no de Deus em vez de o aproxi-
mar. A ignorância total e que confia em ou-
trem é mais salutar e avisada do que essa
ciência verbosa e va, alimentada de presunção
e ousadia.
Creio também que a liberdade dada a todos
de propagar, traduzida em tantos idiomas
diversos, a palavra sagrada, de tão conside-
rável importância, é muito mais perigosa do
que útil. Os judeus, os muçulmanos, e quase
. todos Os povos de outras religiões, conservam,
com veneração e devoção, seus mistérios
sagrados na língua original em que lhes foram
comunicados. E não é sem razões de sobra que
se proíbe a introdução neles de quaisquer
modificações. Haverá, por exemplo, entre os
bascos e os bretões gente bastante categori-
zada para dar autoridade a uma tradução des-
ses textos em sua língua”? Nada, na Igreja Uni-
versal, é mais árduo e de maior alcance.
Faladas ou pregadas, as interpretações perma-
necem vagas, não se impõem, podem ser modi-
ficadas e somente dizem respeito a pontos par-
ciais. O 'mesmo não acontece com as
traduções.
Um historiador grego, que era cristão, criti-
ca com razão o seu século porque então se
divulgaram os segredos de nossa religião e se
permitiu ao mais insignificante artesão que os
275 Elevai os corações.
sta
156 MONTAIGNE
comentasse à vontade. Nós que, por graça de
Deus, temos o privilégio de conhecer os mais
puros mistérios confiados à nossa devoção,
deveriamos envergonhar-nos de os ver profa-
nados na boca das pessoas ignorantes do povo,
quando os gentios proibiam a Sócrates, a Pla-
tão — e aos demais sábios — se interessarem
pelas coisas entregues a discrição dos sacerdo-
tes de Delfos. Esse mesmo historiador diz tam-
bém que a intervenção dos príncipes em maté-
ria de teologia não é ditada pelo zelo mas pela
cólera. O zelo procede da razão divina e da
Justiça e sua ação é equilibrada e moderada;
transformando-se, sob a influência da paixão,
em ódio e inveja, em vez de trigo e uva produz
joio e urtigas. Outro historiador conduziu-se
de maneira igualmente certa quando, dando
um conselho a Teodoro, lhe disse que as
discussões não só não evitam os cismas da
Igreja mas ainda os suscitam, engendrando as
heresias; que, conseguintemente, era preciso
evitar qualquer debate, toda argumentação
metódica e ater-se unicamente às prescrições £
às fórmulas da lei, tais como as estabeleceram
os antigos. O Imperador Andronico, encon-
trando em seu palácio dois grandes persona-
gens discutindo com Lapódio acerca dos pon-
tos mais importantes de nossa religião,
admoestou-os vivamente, chegando a ameaçã-
los de os jogar no rio se continuassem. Em
nossos dias, as mulheres e as crianças querem
saber mais de leis eclesiásticas que os velhos
mais experimentados. Entretanto, a primeira
das prescrições de Platão os proibia de se ccu-
parem sequer das razões das leis civis, que
substituem as divinas. E, ao permitir aos ve-
lhos que falassem a respeito com os magistra-
dos, acrescentava: “mas sempre longe dos jo-
vens e dos profanos”.
Escreveu certo bispo que no outro lado do
mundo há uma ilha, por nome Dioscórida,
notável pela sua fertilidade em árvores de toda
espécie, suas frutas e clima. O povo é cristão;
tem igrejas e altares de que a cruz, com exclu-
são de qualquer outra imagem, constitui o
único ornamento. Observa com regularidade
os jejuns e as festas, paga o dizimo ao clero, e
tal é a sua pureza de costumes que ninguém
tem mais de uma mulher em sua vida. Ade-
mais, satisfeito com sua sorte a ponto de não
conhecer o uso dos navios, embora isolado no
meio do mar, é tão simples que, apesar de
estrito observador da religião, dela não sabe
uma só palavra; o que há de parecer incrível a
quem ignorar que os pagãos, tão devotos em
sua idolatria, só conhecem de seus deuses o
nome e a estátua. “Menalipe”, uma das antigas
tragédias de Eurípides, assim começava: “Ô
Júpiter, de quem conheço apenas o nome!”
Tenho visto também, ultimamente, queixa-
rem-se de que certas obras tratam de assuntos
exclusivamente literários ou filosóficos sem
intromissão de teologia. Isso pode entretanto
defender-se; pois é preferível que a doutrina
divina, como soberana que tudo domina, tenha
seu lugar à parte. Convém que onde entre
constitua o assunto principal, e não se relegue
para o segundo plano, como que em apoio
simplesmente da tese que se desenvolve. Se nos
ocorre ter necessidade de exemplos, podemos
antes colhê-los na gramática, na retórica, na
lógica, ou nas peças representadas nos teatros,
nos jogos, nos espetáculos públicos, do que
ncs textos sagrados. Há mais respeito e vene-
ração em tratar separadamente, em estilo ade-
quado, os assuntos referentes à religião do que
incidentemente em obras profanas. Escrever
sobre as coisas sagradas no estilo de todo
mundo, como fazem certos teólogos, é erro
mais comum do que o dos homens de letras
que abusam da teologia. À filosofia, diz São
Crisóstomo, foi de há muito banida da teolo-
gia, como acessório inútil. Consideram-na
indigna até de lançar, de passagem, um olhar
no santuário em que se guardam os dogmas
sagrados da doutrina celeste. A linguagem
comum a todo mundo tem formas menos esco-
lhidas, o que faz que não possa ser empregada
na expressão de uma maneira assaz digna da
majestade real da palavra sagrada. No que me
diz respeito, consinto em que se qualifiquem
como “verbis indisciplinatis”? 78 os termos
fortuna, destino, felicidade, desgraça, deuses é
outros que costumo empregar. É verdade que
os assuntos fantasistas de que trato, eu os con-
sidero isoladamente e os encaro unicamente do
ponto de vista deste mundo, a meu modo, e
não como fixados e já regulados pela lei divi-
na, caso em que nem dúvidas nem discussões
me foram permitidas. É minha maneira de ver
que exprimo e não um artigo de fé que contes-
to; raciocino de acordo com o que me vem ao
espírito e não acerca do que participa de
minha crença religiosa; falo como um leigo e
não como um clérigo, sem que jamais, entre-
tanto, venha a ferir a religião. Assim como as
crianças que executam lições úteis à sua ins-
trução e não à dos que as instruem. Talvez
observem, e com razão, que seria útil e perfei-
tamente justificável proibir, a quem não) o
tenha por profissão, que escreva acerca da réli-
gião, embora discretamente. E talvez digam
que, pessoalmente, faria melhor calando.
Disseram-me que os que se separaram da
Igreja proíbem, eles também, que se invoque
em vão o nome de Deus nos fatos da vida
+78 Termos pouco ortodoxos.
ENSAIOS —1 157
comum. Que não querem tampouco que o
usem como interjeição ou exclamação; que se
lhe invoque o testemunho ou que o tomem por
termo de comparação. Acho que nisso têm
razão e cada vez que invocamos a Deus em
nossos propósitos e negócios devemos fazê-lo
seriamente, e por devoção.
Há, parece-me, em Xenofonte, um trecho
em que se expõe como deveriamos apelar
menos para Deus, tanto mais quanto não é
fácil fazer com que nossa alma se encontre
tantas vezes nesse estado de calma, pureza é
devoção que se exige em tais casos e sem o que
nossas preces não somente são inúteis mas
ainda viciadas: “Perdoai-nos as nossas ofensas
assim como nós perdoamos aos que nos ofen-
deram”, dizemos. Que significará isso senão
que oferecemos a Deus uma aima isenta de
rancor e de desejo de vingança? E, no entanto,
quantas vezes não invocamos a Deus e não lhe
pedimos que nos ajude, associando-o a nossos
erros e .convidando-o a praticar injustiças?
“Pedindo coisas que não podeis confiar aos
deuses senão em segredo” * 77.0 avarento reza
para a conservação ilusória e supérflua de seus
tesouros; o ambicioso para que a vitória e a
sorte lhe sejam fiéis; o ladrão para vencer os
riscos que lhe perturbam as mãs intenções ou
para agradecer a facilidade com que pôde
degolar um transeunte. Rezam ao pé da casa
que vão assaltar, com o espírito prenhe de
crueldade, de luxúria e cobiça: “Dize a Staius
o que desejarias obter de Júpiter, e Staius
exclamará: ó Júpiter, é bom Júpiter! Pode-se
pedir-vos tais coisas? — Quanto a Júpiter, não
te responderá ele do mesmo modo?” * 78
Margarida, rainha de Navarra, conta de um
Jovem príncipe, que ela não nomeia mas cujos
feitos tornaram famoso, que para se encontrar
amorosamente com a mulher de um advogado
de Paris tinha que atravessar uma igreja pela
qual não passava nunca, nem na ida nem na
volta, sem parar para uma oração. Deixo-vos
imaginar o que podia pedir a Deus, com o
espírito tomado pela sua aventura. Cita entre-
tanto a rainha esse fato como testemunho de
grande devoção. Eis uma prova (e não é a
única) de que às mulheres não cabe tratar de
coisas da religião.
Uma verdadeira oração e uma reconciliação
com Deus não podem provir de uma alma
impura, e portanto sob c domínio do demônio.
Quem apela para a ajuda de Deus em palmi-
lhando o caminho do vício, faz como o bandi-
do que apelasse para a justiça ou como quem
invocasse o nome de Deus para cometer falso
testemunho. “Murmuramos em voz baixa cri-
477 Pérsio.
478 ld.
minosas orações” *7º. Poucos homens ousa-
riam repetir publicamente as súplicas que em
segredo endereçam a Deus: “Não seria fácil
expulsar do templo as preces feitas em voz
baixa; pouco numerosos são os capazes de
exprimir seus anseios em voz alta” “8º, Por
essa razão queriam os pitagóricos que as pre-
ces fossem públicas, ouvidas de todos, a fim de
que não se solicitassem coisas indecentes e
injustas como fazia aquele que “dizia distinta-
mente em voz alta: Apolo! e acrescentava
mexendo apenas com os lábios de medo de ser
ouvido: bela Laverna“8?, dá-me os meios de
enganar e passar por homem de bem; cobre
meus erros com o véu da noite e meus furtos
com uma nuvem” “82,
Os deuses puniram severamente os iníquos
desejos de Edipo, fazendo com que se realizas-
sem. Pedira em suas preces que a sorte das
armas decidisse qual de seus filhos deveria
suceder-lhe no trono de Tebas, e foi suficiente-
mente infeliz para se ver atendido. Não deve-
mos pedir que as coisas aconteçam de acordo
com o que queremos, e sim de conformidade
com o que manda a prudência.
Parece, efetivamente, que usamos as orações
e preces como uma espécie de linguagem caba-
lística, como fazem os que abusam da sagrada
palavra de Deus nas suas feitiçarias e mágicas,
como se acreditássemos dependerem seus efei-
tos do contexto, da inflexão da voz ou de nossa
atitude. Mergulhada a alma na concupis-
cência, sem arrependimento nem desejo de
reconciliação com Deus, aproximamo-nos
d'Ele repetindo palavras que nossa memória
dita à nossa língua e vemos nisso expiação
suficiente para nossos erros.
Nada é mais suave, fácil, acessivel do que a
lei divina. Atrai-nos, por mais inclinados que
nos mostremos a cometer pecados, por mais
detestáveis que sejamos. Ela nos estende os
braços e nos recebe em seu seio, por mais vis €
impuros que nos revelemos e possamos nos
tornar, mas ainda assim cumpre sermos gratos
ao perdão recebido e, pelo menos na hora em
que dela necessitamos, estarmos realmente
arrependidos, aborrecermos de fato as paixões
que nos impeliram a ofender a Deus. Nem os
deuses, nem os homens de bem aceitam O pre-
sente do tratante: “A mão inocente que toca o
altar aplaca mais seguramente acólera dos deu-
ses com um simples bolo de farinha e alguns
grãos de sal do que imolando vítimas suntuã-
rias Ses,
479 Tucano.
380 Pérsio.
*81 Divindade romana protetora dos ladrões.
482 Horácio.
483 Td.
158 MONTAIGNE
CaríruLO LVII
Da idade
Não posso aprovar a maneira por que enten-
demos a duração da vida. Vejo que os filósofos
lhe assinam um limite bem menor do que o
fazemos comumente. “Como podem alegar
que renuncio prematuramente à vida?”, disse
Catão, o Jovem, aos que procuravam evitar
que se suicidasse. Tinha apenas quarenta e oito
anos e considerava essa idade já avançada,
dado o reduzido número de homens que a atin-
gem. Os que falam de uma certa duração nor-
mal da vida, estabelecem-na pouco além. Tais
idéias seriam admissíveis se existisse algum
privilégio capaz de os colocar fora do alcance
dos acidentes, tão numerosos, a que estamos
todos expostos e que podem interromper essa
duração com que nos acenam. E é pura fanta-
sia imaginar que podemos morrer de esgota-
mento em virtude de uma extrema velhice, e
assim fixar a duração da vida, pois esse gênero
de morte ê o mais raro de todos. E a isso cha-
mamos morte natural como se fosse contrário
à natureza um homem quebrar a cabeça numa
queda, afogar-se em algum naufrágio, morrer
de peste ou de pleurisia; como se na vida
comum não esbarrássemos a todo instante
com esses acidentes. Não nos iludamos com
belas palavras; não denominemos natural o
que é apenas exceção e guardemos o qualifica-
tivo para o comum, o geral, O universal.
Morrer de velhice é coisa que se vê raramen-
te, singular e extraordinária e portanto menos
natural do que qualquer outra. É a morte que
nos espera ao fim da existência, e quanto mais
longe de nós menos direito temos de a esperar.
Constitui efetivamente o limite além do qual
não iremos, que a natureza nos fixou como
não devendo ser ultrapassado; mas é um privi-
légio viver até esse limite, privilégio que só é
concedido em dois a três séculos a um de nós,
preservando-o das aflições e dos percalços tão
abundantemente espalhados em tão longo per-
curso. Por isso, minha opinião é que se consi-
dere a idade a que cheguei como ao alcance de
poucos. Desde que em condições normais o
homem não vive tanto, já estamos além do fim
fixado. E, ultrapassados esses limites habituais
que dão a medida exata da vida, não devemos
esperar ir adiante. Pelo próprio fato de termos
escapado de morrer em tantas-ocasiões fatais a
tanta gente, devemos reconhecer que uma sorte
tão extraordinária, que nos mantém vivos a
despeito da regra comum, não se há de prolon-
gar demasiado.
É um erro da lei imaginar que um homem
não é capaz de gerir seus bens antes dos vinte
e cinco anos e que só então pode orientar sua
vida como bem entende. Augusto reduziu para
trinta anos, diminuindo assim de cinco, a idade
em que o acesso à magistratura era permitido
pelas ordenações romanas. Sérvio Túlio dis-
pensara do serviço militar os cavaleiros que ti-
nham ultrapassado quarenta e sete anos;
Augusto liberou-os aos quarenta e cinco. Apo-
sentar os homens antes de cinqiienta e cinco ou
sessenta anos não me parece muito acerta-
do*8*. A meu ver deveriam manter-nos em
nossos cargos e empregos tanto tempo quanto
possível, enquanto com isso não se comprome-
tesse o interesse geral; mas acho, por outro
lado, um erro não nos aproveitarem mais cedo.
E Augusto que, com dezenove anos, presidia
ao destino do mundo considerava necessário
que tivesse trinta anos o encarregado de con-
sertar uma goteira.
Sou de opinião que aos vinte anos nosso
espírito já se desenvolveu completamente, já é
o que será e mostra o de que é capaz. O espí-
rito que até cessa idade não deu demonstração
evidente de sua fortaleza, nunca o dará mais
tarde. As qualidades e virtudes de nossa natu-
reza já revelaram, então, o que têm de vigoroso
e belo — ou nunca o revelarão: “Se o espinho
não pica ao nascer, bem pouco ou nada pica-
rá”, dizem no Delfinado.
Penso que, em sua maioria, as mais belas
ações que conheço, deste século ou dos séculos
*84 Há divergências na interpretação da frase. Pejo
contexto cremos ter interpretado certo, embora
Michaut julgue que Montaigne continue a referir-se
a Augusto nesta reflexão, e a traduz um tantolivre-
mente: “não me parece que tenha posto os outros
em disponibilidade antes dos cinquenta e cinco ou
sessenta”. — No texto original porém não se fala
em “outros” — mas diz-se: “De renvoyer les hom-
mes au séjour (ao repouso) avant (...) il me semble
nºy avoir grande apparence (razão).”
ENSAIOS —I 159
passados, foram praticadas antes dos trinta
anos e não depois; e isso às vezes pelo mesmo
individuo. Não o podemos assegurar, por
exemplo, quanto as de Aníbal e Cipião, seu
grande inimigo? Viveram ambos a mais bela
metade da vida da glória que granjearam na
juventude. Posteriormente, se os comparamos
aos outros, ainda são grandes homens; não,
porém, se os comparamos a eles mesmos.
Quanto a mim, creio ser evidente que. meu
espírito e meu físico antes diminuíram, depois
dessa idade, do que aumentaram em forças e
lucidez; antes retrocederam do que progredi-
ram. É possível que o saber e a experiência
cresçam com os anos em quem emprega bem
seu tempo; mas a vivacidade, a rapidez, a fir-
meza de ânimo e as demais partes físicas ou
morais, integrantes de nós mesmos, as mais
importantes e essenciais se desgastam e se
atrofiam: “quando o corpo se abate ao peso
dos anos, e as molas da máquina estão
usadas, oblitera-se a inteligência, obscurece- -se
o espírito, delira a língua” Pia
Ora é o corpo que primeiro cede diante da
velhice, ora a alma. Muitos vi cuia mente fra-
quejou antes do estômago e das pernas, mal
tanto mais perigoso quanto não o percebe a vi-
tima. É o que me leva a considerar desajus-
tadas as nossas leis, não porque nos deixam
trabalhar até uma idade demasiado avançada,
mas por não o permitirem suficientemente
cedo. Parece-me que, dado o enfraquecimento
que nos pode atingir e os numerosos escolhos
com que deparamos naturalmente no decurso
de uma vida comum, não se deveria dar tanta
importância ao ano de nosso nascimento, nem
nos deixar tanto tempo entregues | a ociosidade
ou presos ao aprendizado.
285 T[ucrécio.
LIVRO TI
Pa
CAPÍTULO I
Da incoerência de nossas ações
Os que se dedicam à crítica das ações huma-
nas jamais se sentem tão embaraçados como
quando procuram agrupar e harmonizar sob
uma mesma luz todos os atos dos homens, pois
estes se contradizem comumente e a tal ponto
que não parecem provir de um mesmo indivi-
duo. Mário, o Jovem, ora parece filho de
Marte ora filho de Vênus. Dizem que o Papa
Bonifácio VIII assumiu o papado como uma
raposa, conduziu-se como um leão e morreu
como um cão. E quem diria que Nero, essa
verdadeira imagem da crueldade, como lhe
apresentassem para ser assinada, de acordo
com a lei, a sentença contra um criminoso,
observou: — Prouvera a Deus que eu não sou-
besse escrever! — tanto lhe apertava o cora-
ção condenar um homem à morte. Há tantos
exemplos semelhantes, e tão facilmente os
encontrará sozinho quem quiser, que estranho
ver por vezes gente de bom senso procurando
juntar tais contradições, mesmo porque a irre-
solução me parecê ser o vício mais comum e
evidente de nossa natureza, como o atesta este
verso de Públio, o satírico: “Má opinião, a de
que não se pode mais mudar.”
É aparentemente possível julgar um homem
pelos fatos mais comuns de sua vida; mas,
dada a instabilidade natural de nossos costu-
mes e opiniões, pareceu-me muitas vezes que
os melhores autores erravam em se obstinar a
dar de alguém uma idéia bem assentada e lógi-
ca. Adotam um princípio geral e de acordo
com este ordenam e interpretam as ações,
tomando o partido de as dissimular quando.
não as deformam para que entrem dentro do
molde preconcebido. O Imperador Augusto
escapou-lhes; deparamos nesse homem com
uma tal flagrante diversidade de ações, tão
inesperada e contínua no decurso de sua exis-
tência, que os mais ousados juízes, renun-
ciando a julgá-lo em seu conjunto, tiveram de
deixá-lo assim indefinido. Acredito que a cons-
tância seja a qualidade mais difícil de se
encontrar no homem, e a mais fácil a incons-
tância. Quem os julgasse pormenorizadamente
de acordo com seus atos, um por um, estaria
mais apto a dizer a verdade a seu respeito.
Fora dificil encontrar em toda a antiguidade
uma dúzia de homens que tenham orientado
sua vida em obediência a determinados princi-
pios, o que é o fim principal da sabedoria. A
qual, segundo um autor antigo”, se resume em
uma frase que enfeixa, em uma só, todas as re-
gras da vida: “querer e não querer são sempre
a mesma e única coisa”. E poderia acrescen-
tar: à condição de que o que queremos ou não
queremos seja justo, pois, se não o é, impos-
sivel se faz que permaneça constantemente a
mesma coisa. Efetivamente, sei de hã muito
que o vício nada mais é senão desregramento e
falta de medida e por conseguinte não o pode-
mos imaginar constante. Atribui-se a Demós-
tenes a seguinte máxima: a virtude, qualquer
que seja, consiste de início em recolhimento e
deliberação; a constância, a seguir, compro-
va-lhe a perfeição. Em refletindo seguimos
sempre o melhor caminho, mas ninguém pensa
antes de agir. “Desdenha o que pediu, volta ao
que largou e, sempre hesitante, contradiz-se
sem cessar”2. . Senda :
Nossa maneira habitual de fazer está em se-
guir os nossos impulsos instintivos para a
direita ou para a esquerda, para cima ou para
baixo, segundo as circunstâncias. Só pensamos
no que queremos no próprio instante em que o
queremos, e mudamos de vontade como muda
de cor o camaleão. O que nos propomos em
dado momento, mudamos em seguida e volta-
mos atrás, e tudo-não passa de oscilação e
inconstância. “Somos conduzidos como titeres
que um fio manobra”.
Não vamos, somos levados como os objetos
-que flutuam, ora devagar, ora com violência,
segundo o vento: “Acaso não vemos todo
mundo indeciso; uns procurando sem desconti-
nuar, outros mudando de lugar, como para lar-
gar uma carga pesada demais?” * Cada dia
nova fantasia, e movem-se as nossas paixões
de acordo com o tempo: “o pensamento dos
homens assemelha-se na terra aos cambiantes
raios de luz com que Júpiter a fecunda ”5.
1 Sêneca.
2 Horácio.
3 Td.
* Lucrécio.
5 Cícero.
164
Hesitamos em tomar partido; nada decidi-
mos livremente, de maneira absoluta, coerente.
Se alguém traçasse e estabelecesse determi-
nadas leis de conduta e regime político de vida,
veriamos brilhar em seus atos e atitudes uma
harmonia cabal e em seus costumes uma
ordem e uma correlação evidentes. Empédo-
cles observa a seguinte contradição entre os
agrigentinos: alguns se entregam aos prazeres
como se devessem morrer no dia seguinte e ou-
tros edificam como se a vida não tivesse de
acabar jamais. O plano de vida fora entretanto
fácil de se estabelecer, como se vê em Catão, o
Jovem: quem nele toca uma tecla, toca todas,
pois há nele uma harmonia de sons bem afina-
dos que nunca se entrechocam. Não seguimos,
nós outros, tão sábio exemplo e cada uma de
nossas ações decorre de um juízo específico. E
na minha opinião seria até melhor procurar-
lhes as causas nas circunstâncias do momento
sem mais aprofundada pesquisa e sem tirar
delas quaisquer conseglências.
Durante as desordens que agitaram nosso
pobre país, disseram-me que uma jovem, bem
perto do local onde eu me encontrava, se joga-
ra pela janela a fim de escapar à brutalidade de
um soldado que hospedava. Não teve morte
instantânea e para se acabar tentou cortar o
pescoço com uma faca, o que não a deixaram
fazer. Nesse triste estado, confessou que o sol-
dado nada mais fizera do que lhe declarar seu
amor, solicitá-la e presenteá-la, mas ela temera
que chegasse a violentá-la. Daí seus gritos, sua
atitude, o sangue derramado, como se se tra-
tasse de uma nova Lucrécia. Entretanto, eu
soube que antes e depois dessa ocorrência sem-
pre se mostrou muito menos arisca. Como
dizem por aí, “por mais belo e decente que
sejas, se não és aceito pela tua amada, não
concluas, sem mais amplas informações, ser
ela de uma castidade a toda prova; isso não
impede que o arrieiro tenha a sua possibilida-
de”.
Antígono, que se afeiçoara a um de seus sol-
dados por causa de sua valentia e coragem,
mandou que o médico tratasse de uma doença
que o atormentava havia muito. Observando,
após a cura, que o homem se expunha muito
menos nos combates, perguntou qual a razão
dessa mudança que o tornara poltrão: “Vós
mesmo, Sire, porquanto me libertastes dos
males que faziam com que eu não apreciasse a
vida.”
Um soldado de Luculo fora roubado pelo
inimigo. Para se vingar executou contra ele um
golpe de mão notável, amplamente compen-
sador de seus prejuízos. Luculo que ficara com
excelente opinião dele quis empregá-lo em uma
MONTAIGNE
arriscada expedição e, a fim de decidi-lo, usava
todos os meios de persuasão, “com palavras
capazes de entusiasmar os mais tímidos”.
Mas o soldado atalhou: “Mandai algum solda-
do miserável que tenha sido roubado.” E recu-
sou peremptoriamente. Como diz Horácio:
“Irá quem tiver perdido a bolsa.”
Maomé II admoestara violentamente Cha-
san, chefe de seus janízaros cuja tropa fora
desfeita pelos húngaros, sendo que se condu-
zira ele próprio covardemente durante o com-
bate. Como única resposta, Chasan, sozinho,
sem precisar de ninguém, precipitou-se furioso,
espada na mão, contra o primeiro pelotão ini-
migo que percebeu e desapareceu em poucos
instantes como se fora por ele tragado. Nesse
ato, parece que foi movido menos pelo desejo
de se reabilitar do que em virtude de uma revi-
ravolta em seus sentimentos: não agia sob o
impulso da coragem moral e sim por despeito.
Quem ontem vistes tão temerário, não vos
espanteis em vê-lo poltrão no dia seguinte. A
cólera, a necessidade, a companhia ou o vinho,
ou o som de uma trombeta, terão feito de suas
tripas coração. Não foi o raciocínio que lhe
deu coragem: foram as circunstâncias. Não
nos espantemos, pois, de ver que mudou ao
mudarem elas. Essa variação e essa contradi-
ção, tão comuns em nós, levaram muitas pes-
soas a pensar que possuímos duas almas, ou
duas forças que atuam cada qual num sentido,
uma no sentido do bem e outra no do mal.
Uma só alma e uma só força não poderiam
conciliar-se com tão repentinas variações de
sentimentos.
Não somente o vento dos acontecimentos
me agita conforme o rumo de onde vem, como
eu mesmo me agito e perturbo em conse-
quência da instabilidade da posição em que
esteja. Quem se examina de perto raramente se
vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha
alma ora um aspecto, ora outro, segundo o
lado para o qual me volto. Se falo de mim de
diversas maneiras é porque me olho de diferen-
tes modos. Todas as contradições em mim se
deparam, no fundo como na forma. Envergo-
nhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela,
taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso,
tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sin-
cero, sábio, ignorante, libera! e avarento, e.pró-
digo, assim me vejo de acordo com tada
mudança que se opera em mim. E quem quer
que se estude atentamente reconhecerã igual-
mente em si, e até em seu julgamento, essa
mesma volubilidade, essa mesma discordância.
Não posso aplicar a mim mesmo um juízo
* Horácio.
ENSAIOS — II 165
completo, simples, sólido, sem confusão nem
mistura, nem o exprimir com uma só palavra.
“Distinguo” é o termo mais encontradiço em
meu raciocínio.
Embora acredite sempre que é preciso falar
bem do que é justo e interpretar com simpatia
o que a tal juízo se presta, nossa condição é
tão singular que não raro o próprio vício nos
impele a bem fazer (se o bem não se julgasse
unicamente pela intenção que o determina).
Daí não se dever tirar de um ato corajoso a
conclusão de que um valente o praticou.
Valente será efetivamente quem o for sempre
em todas as ocasiões. Se fosse um hábito e não
um gesto imprevisto, a virtude faria que um
homem mostrasse sempre igual resolução;
seria o mesmo, só ou acompanhado, na justa
como em campo raso; pois, diga-se o que se
disser, a coragem não é uma na rua e outra no
campo de batalha. Suportaria esse homem
com igual atitude uma enfermidade em seu
leito e um ferimento na guerra e não temeria
mais a morte em seu lar do que em um assalto.
Não o veríamos lançar-se através de uma bre-
cha com insopitável bravura e em seguida cho-
rar como uma mulher a perda de um processo
ou de um filho; ser covarde diante da infâmia e
resoluto na miséria, ter medo da navalha do
barbeiro e desafiar a espada do adversário. Em
tais casos, a ação é louvável, não o homem.
Há gregos, diz Cícero, que tremem à vista do
inimigo e se mostram tenazes quando enfer-
mos, e tem-se o inverso nos cimbros e nos
celtiberos: “Nada pode ser estável se não parte:
de um princípio sólido””.
Não há maior valentia, no gênero, dc que a
de Alexandre, o Grande, e no entanto não se
verifica em tudo. Por incomparável que seja,
tem suas falhas, o que o faz perturbar-se à
mais insignificante suspeita de conjuras e O
leva a incrível e absurda crueldade na repres-
são e a temores em nada compatíveis com sua
apreciação habitual das coisas. A superstição
que lhe era peculiar participa também da
pusilanimidade, e a exagerada penitência que
se impõe a si mesmo após o assassínio de Clito
prova igualmente a desigualdade de sua cora-
gem. Somos um amontoado de peças juntadas
inarmonicamente e queremos que nos honrem
quando não o merecemos. À virtude vale por si
mesma; se para outro fim tomamos a sua más-
cara, logo ela no-la arranca da cara. Quando
nossa alma se impregna dela, forma ela uma
espécie de verniz fortemente adesivo que só se
tira com a própria pele. Eis por que para julgar
um homem é preciso seguir suas pegadas,
? Cicero.
penetrar sua vida, e se não deparamos com a
constância alicerçando os seus atos, “com um
plano de vida bem ponderado e previsto” º , se
sua marcha, ou antes, seu caminho (pois é líci-
to acelerar ou diminuir o passo) se modifica
segundo as circunstâncias, abandcnemo-lo.
Como a ventoinha gira de acordo com o vento,
assim reza a divisa de nosso Talbotº.
Não é de espantar, diz um autor antigo, que
o acaso tenha tanta força sobre nós, pois por
causa dele é que existimos. Quem não orientou
sua vida, de um modo geral, em determinado
sentido, não pode tampouco dirigir suas ações.
Não tendo tido nunca uma linha de conduta,
não lhe será possível coordenar e ligar uns aos
outros os atos de sua existência. De que serve
fazer provisão de tintas se não se sabe que pin-
tar? Ninguém determina do princípio ao fim o
caminho que pretende seguir na vida; só nos
decidimos por trechos, na medida em que
vamos avançando. O archeiro precisa antes
escolher o alvo; só então prepara o arco e a fle-
cha e executa os movimentos necessários; nos-
sas resoluções se perdem porque não temos um
objetivo predeterminado. O vento nunca é
favorável a quem não tem um porto de chega-
da previsto. Não estou de acordo com o juizo
que se fez, ao assistir a uma tragédia de Sófo-
cles, declarando-o, contra a opinião de seu
filho, capaz de administrar seus bens. Não
acho tampouco muito mais lógico o que fize-
ram os párias enviados com a missão de refor-
mar o governo dos milésios. Depois de visitar
a ilha, observando o cultivo cuidadoso da
terra, a boa ordem das propriedades, e regis-
trando os nomes dos proprietários, reuniram
em assembléia os cidadãos e entregaram o
governo a esses proprietários, considerando
que a atenção e a eficiência demonstradas na
administração de seus negócios particulares
eram uma garantia de que de igual modo iam
gerir os negócios do Estado.
Somos todos constituídos de peças e peda-
ços juntados de maneira casual e diversa, e
cada peça funciona independentemente das
demais. Daí ser-tão grande a diferença entre
nós e nós mesmos quanto entre nós e outrem:
“Crede-me, não é coisa fácil conduzir-se como
um só homem ?1º, Se a ambição pode impelir
o homem a ser valente, sóbrio, liberal e mesmo
justo; se a avareza pode dar coragem a um cai-
xeiro criado no ócio e na indolência e infun-
8 Id.
º General inglês que lutou contra os franceses c se
tornou muito querido dos camponeses pelo seu espi-
rito de justiça e seu grande caráter. Montaigne alude
provavelmente ao brasão de armas.
1º Sêneca.
166
dir-lhe bastante confiança para que se lance à
aventura em frágil navio, à mercê de Netuno, e
lhe ensina a discrição e a prudência; se a pró-
pria Vênus arma de resolução e audácia o.
jovem ainda sob a autoridade paterna, e faz
com que se mostre impudica a virgem de cora-
ção terno ainda sob a égide de sua mãe:
“Passando furtivamente entre
os guardas que dormem, prote-
gida por Vênus, vai a jovem sozi-
MONTAIGNE
nha, dentro da noite, juntar-se a
seu amante” 11,
se assim é, não deve um espírito refletido jul-
gar-nos pelos nossos atos exteriores; cumpre-
lhe sondar as nossas consciências e ver os mó-
veis a que obedecemos. É uma tarefa elevada e
difícil e desejaria por isso mesmo que menor
número de pessoas se dedicassem a ela.
1 Tibulo.
CapíTULO II
Da embriaguez
O mundo não é senão variedade e desseme-
lhança. Os vícios têm entretanto em comum o
fato de serem vícios. Contudo, acrescentam os
estóicos, embora igualmente vícios não são os
vícios iguais entre si. Assim, quem ultrapassou
de cem passos esse limite “além e aquém do
qual o direito não mais existe”*2, é sem dúvida
mais culpado do que aquele que apenas deu
dez passos. Nem se dirá que o sacrilégio não é
pior do que o roubo de um repolho de nossa
horta: “Nunca se poderá provar gue seja igual-
mente condenável surripiar repolhos da horta
alheia e roubar, à noite, no templo dos
deuses” '3. Há tanta diversidade no vício quan-
to em qualquer outra coisa.
Não levar em consideração a escala de gra-
vidade dos pecados, confundindo-os, é por
certo perigoso, pois disso tirarão vantagem os
assassinos, os traidores e os tiranos. Não é
justo que sua consciência se alivie com a idéia
de que Fulano é preguiçoso, lascivo ou pouco
assíduo à missa. Todos têm tendência para
agravar o pecado de outrem e atenuar o pró-
prio. E não raro até as próprias pessoas encar-
regadas de os esclarecer os classificam mal, a
meu ver.
Assim tomo para Sócrates o principal papel
da sabedoria consiste em ensinar a distinguir O
bem do mal, para nós, em quem c melhor
ainda é vício, esse papel deveria consistir em
estabelecer as diferenças existentes entre os
diversos vícios, pois em não havendo exatidão
confundem-se virtuosos e maus.
Entre outros vícios, o da embriaguez pare-
'2 Horácio.
13 Id
'
«embaixador enviado por
ce-me grosseiro e brutal. O espírito entra por
alguma coisa nos demais vícios, alguns há que
têm mesmo algo generoso; outros estão liga-
dos à habilidade, à esperteza, à coragem, à
prudência, à finura: a embriaguez é bestial e
avilta tão-somente. Por isso mesmo é na nação
menos civilizada! * que em nossos dias é esse
vício mais comum. Os outros vícios alteram o
nosso bom senso; esse o aniquila, perturban-
do-nos igualmente o físico: “Quando o vinho
nos penetra, os membros tornam-se pesados,
as pernas vacilam, a língua engrola, embota-se -
o espírito, os olhos amortecem; em seguida
vêm os berros, os soluços, os insultos”! E
pior das condições humanas é aquela em que o
homem, não tem mais consciência de si, não
mais se domina. E dizem que assim como o
mosto a ferver faz subir à superfície do tonel
tudo o que estava no fundo, o vinho faz trans-
bordar os mais íntimos segredos de quem o
bebeu exageradamente: “Gs Baco, é teu alegre
vinho que arranca aos sábios seus mais secre-
tos pensamentos”" *. Conta Josefo que, em o
fazendo beber além da medida, induziu certo
seus inimigos a
confiar-lhe tudo o que tinha interesse em saber.
Entretanto Augusto, que se abrira com Lúcio
Piso, o conquistador da Trácia, nunca teve a
oportunidade de se arrepender; nem Tibério foi
jamais traído por Cássio a quem tudo contava;
e sabemos de fonte segura que Piso € Cássio
gostavam tanto de beber que mais de uma vez
foi preciso retirá-los do Senado por estarem
14 Segundo Michaut, Montaigne aludiria à Fica
nha. Thibaudet é da mesma opinião.
15 Lucrécio.
Ea fa
espírito: “dizem mesmo que nessa nobre justa
ENSAIOS — II 167
inteiramente embriagados: “inchados, como de cita entre outras provas de superioridade sobre
costume, pelo vinho bebido na véspera”'?. seu irmão Artaxerxes, O fato de suportar me-
Com igual confiança Cássio, bebedor de água, lhor a bebida. Nas nações mais bem adminis-
comunicou a Amber, que se embebedava tradas e governadas era habitual exercitar-se
continuamente, sua intenção de acabar com em beber. E ouvi de Sílvio, excelente médico
César. Ao que respondeu o bêbedo: “como | parisiense, que a fim de conservar a eficiência
queres que vença o tirano quem não pode se- do estômago é útil acordâ-lo e estimulá-lo uma
quer vencer o vinho?” E vemos os alemães vez por mês com excessos dessa natureza.
saturados de vinho lembrarem-se de seus quar- - Diz-se ainda que os persas discutiam seus
téis, da palavra de ordem e de seus lugares nas negócios depois de beber.
fileiras: “e não é fácil vencê-los, ainda que Mais por gosto e temperamento do que pela
embriagados, gaguejantes e titubeantes” 18. razão, sou inimigo de tais excessos, pois, con-
Nunca acreditara que pudesse haver embria- quanto de bom grado acomode minhas opi-
guez tão profunda e aniquiladora, se não hou- | niões à autoridade dos antigos e considere a
vesse lido na história que Átalo convidou Pau- embriaguez um vício vergonhoso e estúpido,
sânias a cear, no intuito de cometer com ele 'acredito-o menos perverso e nefasto do que os
grave indignidade, esse mesmo Pausânias que outros, os quais prejudicam diretamente a
pelo mesmo motivo matou mais tarde Filipe sociedade. Se, como afirmam, não há prazer
da Macedônia, notável pela educação que que não nos custe algum sacrifício, é esse vício
recebeu de Epaminondas e de sua família. o menos pesado à nossa consciência; é, por
Átalo deu tanta bebida a seu conviva que pôde outro lado, o de mais fácil realização, o que
converter-lhe insensivelmente o corpo nc de precisa ser ponderado. Um senhor já de idade
uma prostituta de baixa extração a entregar-se e de certa condição social dizia-me contá-lo
aos criados e mais abjetos arrieiros da casa. entre os três prazeres principais de que ainda
Da mesma ordem de idéias é o fato que me foi podia gozar na vida. E, de fato, onde encontrar
referido por uma senhora que muito honro e satisfações preferíveis às que a própria natu-
aprecio: perto de Bordéus, para o lado de Cas- reza nos oferece? Mas essa pessoa não agia
tres onde tem propriedade, uma viúva da com bom senso, pois o requinte não é de rigor
aldeia, de uma castidade a toda prova, sen- em tais circunstâncias e é supérfluo escolher
tindo alguns sintomas estranhos dizia a sua Vinhos finos para tanto. Se gostais de saborear
vizinha que se fosse casada acreditaria estar O que bebeis, experimentareis no caso em apre-
grávida. Os sintomas, dia a dia mais precisos, SO O desgosto de beber em condições diferen-
tornaram-se afinal evidentes, levando-a a de- tes, porquanto para ser beberrão é necessário
clarar ao cura do lugar que a quem se confes- um paladar mais grosseiro, menos requintado.
sasse culpado de a ter posto naquele estado, Os alemães bebem qualquer vinho com igual
não somente ela perdoaria como o desposaria . prazer, não pensam senão em engolir. Tém-no
se concordasse. Um de seus lacaios, encora- assim mais barato, mais copioso e fácil. :
jado pela proclamação, confessou então que de - Beber como os franceses somente às refei-
uma feita, ao vê-la bêbada e profundamente ções e moderadamente é restringir demasiado
adormecida, e em posição indecorosa, dela OS favores de Baco. A tal exercício cumpre
abusara sem a acordar-Casaram-e c continuam-” consagrar mais Tempo e constância. Os antigos
casados. e : consagravam-lhe noites inteiras e às vezes os
É sabidó que na antiguidade esse vício não dias também; é preciso, pois, dar-lhé lugar
—erarmuito condenado. Chegam mesmo alguns mais importante na vida “cotidiana. Conheci
"filósofos a referir-se com muita indulgência à um grande senhor ao qual missões de TEspon-
embriaguez; e entre os próprios estóicos houve sabilidade foram confiadas e cujos êxitos são
quems resômendasse beber-de-vez-em Pquandorã conhecidosequesiCaia. regula mente E Rod
vontade, até a embriáguez, a fim de alegrar O S us cinco lots?" de
trava menos clarividente e precavido nos nos negô-
cios, o que nos foi dado comprovar em nosso
detrimento. É necessário dedicar-se mais a esse
prazer, se se deseja que conte na vida; é neces-
sário fazer como esses caixeiros e operários
que nunca recusam uma oportunidade de
beber e têm esse desejo sempre em mente.
venceu por vezes o grande Sócrates”!º. Ao se-
vero Catão, censor dos demais, censurou-se a
tendência para este vício: “conta-se também
que Catão, o Ancião, aquecia sua virtude no
vinho”2º. Ciro, príncipe de tão grande renome,
7 Virgílio. Dir-se-ia que o prazer da mesa vai dimi-
18 Juvenal.
1º Pseudo Galo.
20º Horácio. 21 Aproximadamente 20 litros. (N. do T.)
q
is
vinho“e.que ao levantar da Mm AQuSCemas-<————="
168
nuindo dia a dia em nossa terra; parece-me que
no meu tempo de infância os almoços, os jan-
tares, as ceias, eram mais frequentes e mais co-
muns do que hoje. Estaremos, em algo pelo
menos, nos corrigindo? Por certo que não, mas
talvez nos inclinemos mais do que nossos pais
para a libertinagem, e o vinho e as mulheres
são coisas que levadas ao exagero se prejudi-
cam mutuamente. A libertinagem debilita o
estômago. Por outro lado a sobriedade faz-nos
mais galantes, mais requintados no amor.
É admirável o que ouvi de meu pai acerca
da castidade de seu século. E cabia-lhe dizê-lo
pois tudo tinha, por natureza e educação, para
ser muito querido das mulheres. Falava pouco
e bem, e entremeava sua conversação com
reminiscências dos livros mais afamados,
principalmente espanhóis, entre os quais
“Marco Aurélio” 22 era o que mais prezava.
Era de uma gravidade suave, discreto, muito
modesto, de uma polidez esquisita, sempre
bem vestido e cuidado, a pé como a cavalo.
Escravo de sua palavra, e tão devoto em matê-
ria religiosa que tendia para a superstição. De
estatura pequena, bem proporcionado, andava
sempre bem aprumado e era muito vigoroso.
Agradável de rosto, moreno de pele, era hábil e
sobressaia em todos os exercícios a que se
entregam as pessoas de categoria. Para fortale-
cer os braços fazia esgrima, lançava pedras e
erguia barras de ferro. Ainda cheguei a ver os
bastões chumbados que serviam para o treina-
mento e os sapatos de solas de chumbo com
que se exercitava na corrida e no salto. A esse
respeito deixou a lembrança de feitos espanto-
sos. Vi-o aos sessenta anos, desafiando nossa
agilidade, saltar num cavalo com suas vesti-
mentas forradas de pele e fazer a volta da mesa
sobre as mãos. Quando se retirava para seus
aposentos, amiúde subia a escada-de-trêS êem==.
três degraus. Quanto à boa opinião que tinha
das— mulheres, dizia que em -uma província
inteira havia apênas umã senhora distinta de
reputação duvidosa, e: narrava também casos
singulares de galanteria, Seus em geral, em que
andara na companhia « Quia Cosmulheres- honestas,
sem se compromefter-dê “modo algum.* Eur
LC
EI a
que-seé casara virgem, embora muito depôis de
ter tomado parte nas guerras além Alpes, guer-
ras a respeito das quais deixou um diário em
que relata ponto por ponto tudo o que ocorreu
e que testemunhou. No entanto tinha trinta e
três anos em 1528 quando em voltando da Itá-
lia se casou.
Tornemos agora às nossas garrafas...
Os incômodos da velhice, que exigem de nós
2? De Antônio de Guevara.
MONTAIGNE
algum alívio, podiam com razão excitar em
mim o desejo de beber, último dos prazeres de
que nos privam os anos. O calor natural,
dizem os galhofeiros, sente-se primeiramente
nos pés, durante a infância; daí sobe para a
parte média do corpo onde permanece longo
tempo, dando-nos os únicos verdadeiros praze-
res da vida animal e ao lado dos quais os ou-
tros são insignificantes; finalmente, como o
vapor que sobe sempre e se exala, chega à gar-
ganta onde faz a última parada.
Não consigo, entretanto, compreender como
se encontra ainda satisfação em beber sem ter
sede e a criar pela imaginação um desejo artifi-
cial contrário à natureza. Meu estômago não,
!
resistiria, pois já tem dificuldade em dar cabo
do que toma dentro dos limites de suas necessi-
dades. Minha constituição faz que só tenha
vontade de beber depois de comer, por isso
mesmo é o gole final o mais copioso. Na velhi-
ce o nosso paladar se vicia com defluxos e
corrompe-se com outras deficiências de nosso
organismo; parece-nos então melhor o vinho
na medida em que vai desobstruindo e lavando
os nossos poros; é pelo menos a sensação que
tenho e raramente percebo o gosto do vinho
quando começo a bebê-lo. Anacáârsis espanta-
va-se com ver os gregos beberem ao fim da
refeição em copos maiores do que no início.
Creio que isso provém da mesma causa que
leva os alemães a agirem da mesma maneira,
porque é no fim que se pôem a ver quem bebe
mais.
Platão determina que não bebam as crian-
ças antes dos dezoito anos; e aos homens que
- não se embriaguem senão aos quarenta. Aos
que ultrapassam esta idade admite que se com-
prazam nisso e que reservem maior parte a
Baco em suas, refeições, essa boa divindade
Sque de devolve-a-alêgria-ao: «homem, e ao ancião, a
mocidade; que suaviza as paixões da alma,
tira-lhes a agudeza como o fogo “amolece o
ferro. Em suas leis, concorda em que reunir=
para beber tem sua utilidade, conquanto sejam
as reuniões des presididas por alguém” que as regu-
“vel, sendo a embriaguez; diz cióúma maneira
eficiente de ressaltar a natureza do indivíduo, e
também eminentemente adequada a dar às pes-
soas idosas a coragem de participar dos praze-
res da dança e da música, recreações úteis que
não ousarão buscar se não estiverem algo exci-
tadas. Platão reconhece igualmente a virtude
que tem o vinho de temperar as agitações da
alma e conservar a saúde do corpo. Aprova
contudo as seguintes restrições copiadas em
parte dos cartagineses: proibição de vinho aos
soldados na guerra ou em expedição; aos
sze-as-mantenhasdentro dos limitessdo Ti TAZOÁ-S..
“.
a E E
DT
7
ENSAIOS — TI 169
magistrados quando no exercício de seus car-
gos; durante o dia a todo mundo, bem como
nas noites em que pretendam unir-se a suas
mulheres no intuito de procriar. Dizem que o
filósofo Estilpon, acabrunhado pela velhice,
apressou voluntariamente seu fim bebendo
vinho puro. Agindo de igual maneira, embora
não deliberadamente, o filósofo Arcesilau viu
abaladas as poucas forças que ainda lhe
restavam.
E antiga e graciosa pergunta a que indaga se
o espirito do sábio é capaz de resistir à força
do vinho, “no caso em que o vinho ataque o
sábio”23. A vaidade incita-nos por demais a
ter boa opinião de nós mesmos. À alma mais
ponderada, mais perfeita, já precisa esforçar-se
muito para se sustentar de pé e evitar de ser
derrubada pela sua própria fraqueza. Não hã
uma só em mil que durante um minuto de sua
existência se mantenha estável e a prumo; a
julgar pela nossa própria natureza, podemos
duvidar de que isso aconteça; e se acontecesse,
e de modo constante, seria o supremo grau de
perfeição. Mas para tanto fora necessário que
nenhum choque a abalasse, coisa que mil aci-
dentes podem provocar. Que adiantou a Lucré-
cio, esse grande poeta, filosofar e observar-se?
Um filtro amoroso enlouquece-o. A apoplexia
tanto pode atingir um carregador como Sócra-
tes. Há quem esqueça o próprio nome em
consequência de uma doença, outros em virtu-
de de um ferimento perdem a razão, Por mais
sábio que seja, O sábio não passa afinal de um
homem; e haverá algo mais caduco, mais mise-
rável, mais insignificante do que um homem?
Não é capaz a sabedoria de melhorar nossas
condições naturais: “sob a influência do medo
o corpo torna-se lívido e molhado de suor, a
lingua embaraçada; extingue-se a voz, pertur-
ba-se a vista, zumbem os ouvidos, todo o orga-
nismo se relaxa e desmantela”? *. Não pode o
sábio, mais do que qualquer um, impedir que
instintivamente se fechem os olhos à ameaça
de um golpe, nem que lhe tremam as pernas à
beira de um precipício, tal qual ocorreria com
uma criança. A natureza quis reservar para si
esses pequenos sinais de seu poder a que não
escapam nossa razão nem a virtude dos estói-
cos, e assim o quis porque nos lembra que
somos mortais, e pouco pesamos. O medo fá-
lo empalidecer, a vergonha corar, a cólica
gemer ao menos em surdina, senão desespera-
damente: “jamais poderia imaginar que está
livre de qualquer acidente”2º. Os poetas que
tudo acomodam à sua fantasia não ousam can-
23 Horácio.
24 Lucrécio.
25 Terêncio.
tar heróis incapazes de chorar: “Assim falava
Enéias debulhado em lágrimas enquanto a
frota vogava a toda vela” 28. Que o sábio se
contente, pois, com conter e moderar seus ins-
tintos; aniquilá-los não está em seu poder.
O próprio Plutarco, juiz perspicaz, ao consi-
derar que Bruto e Torquato mandaram matar
os próprios filhos, duvida que a virtude possa
levar a tanto e pergunta se alguma paixão não
os terá movido. Todos os atos humanos que
sáem fora do comum prestam-se a más inter-
pretações, tanto mais quanto não admitimos
nem o que se acha acima nem o que se coloca
abaixo do que aprovamos.
Sem buscar nossos exemplos nessa seita que
professa expressamente a altivez? 7, atentemos
para a outra que dizem mais fraca?º e ouça-
mos as fanfarronadas de Metrodoro:“Domi-
nei-te, ó destino, e te reduzi à impotência, bar-
rei todas as avenidas pelas quais podias chegar
a mim.” Quando Anaxarco, por ordem de
Nicocreonte, tirano de Chipre, deitado em leito
de pedra, esmagado a marteladas repete sem
cessar: “Batei, quebrai, não é Anaxarco que
estais macetando, é seu invólucro”; quando
vemos os mártires proclamar na fogueira:
“este lado já está bem assado, passemos ao
outro agora”; quando Josefo assinala aquela
criança que, com o corpo rasgado pelas tor-
queses e traspassado pela sovela de Antíoco, o
desafiava ainda clamando com voz firme:
“Tirano, perdes o teu tempo; sinto-me à vonta-
de. Onde essa dor de que me ameaçavas? Onde
os tormentos? E tudo o que sabes fazer?
Minha tenacidade aborrece-te mais do que me
causa pena a tua crueldade. Covarde imbecil!
Cansas-te e eu estou cada vez mais decidido.
Faze com que me queixe, me lamente, me
renda, se o podes. Reanima a coragem de teus
satélites e de teus carrascos. Não podem mais.
Carecem de nervos. Dá-lhes novos instru-
mentos de tortura e que se encarnicem”; quan-
do vemos semelhantes fatos, somos por certo
levados a reconhecer que essas almas têm algo
errado e estão presas de uma espécie de frene-
si, O qual, por santo que seja, continua sendo
frenesi.
Quando deparamos com essas saídas da es-
cola estóica: “prefiro ser louco furioso a ser
voluptuoso”, como diz Antístenes, ou como
observa Sêxtio: “prefiro o abraço da dor ao
abraço da volúpia”; quando Epicuro parece
deleitar-se com a gota e recusando alegremente
repouso e saúde desafia o mal que pode atin-
gi-lo, e desdenhando as dores que suporta não
26 Virgilio.
27 Os estóicos.
28 Osepicuristas.
170
as combate, antes as conclama maiores e mais
dignas dele, “não se preocupando com esses
animais tímidos, desejaria que um javali furio-
so o atacasse ou que um leão de ruiva juba
descesse das montanhas” 2º, logo percebemos
que tais invectivas provêm de uma coragem
exasperada pela própria superexcitação.
Nossa alma em condições normais não
poderia erguer-se tão alto. É preciso que ela
saia de seu estado habitual, que se eleve e,
tomando o freio nos dentes, arraste o seu
homem tão longe que, em voltando a si, ele
próprio se espante do que fez. É o que ocorre
na guerra onde o calor do combate empurra os
valentes soldados a tão ousadas aventuras que,
voltando a si, são os primeiros a tremer de
susto. Fato análogo se observa nos poetas que,
28 Virgílio.
MONTAIGNE
transportados de admiração por suas próprias
. obras, não compreendem como puderam pro-
duzi-las, o que se denomina neles estro e entu-
siasmo poéticos. Um homem sério, diz Platão,
baterá em vão à porta da poesia. Por seu lado
Aristóteles pretende que; por perfeita que seja,
a alma não está isenta de uma pitada de loucu-
ra, € chama com razão loucura a esses vôos
que, embora louváveis, ultrapassam nossa inte-
ligência e nossa razão. A sabedoria não é
outra coisa senao uma orientação regular dada
à nossa alma, a fim de a conduzir com medida
e equilíbrio. E assim sustenta Platão a sua
tese: “Sendo a faculdade de profetizar superior
as nossas luzes, necessário se faz que nos
encontremos fora de nós quando a praticamos;
o sono, a doença, paralisam então nossa inteli-
gência ou uma inspiração divina a domina.”
CaPpíTULO III
A propósito de um costume da ilha de Ceos
Dizem que filosofar é duvidar. Com maior
razão ainda fantasiar e divagar. Cabe porêm
aos aprendizes inquirir e indagar; e só aos
mestres resolver. O meu mestre é a autoridade
da vontade divina, a qual sem contestação pos-
sível nos rege, pairando acima das vãs indaga-
ções humanas.
Tendo Filipe entrado no Peloponeso com
seu exército, disse alguém a Damidas que os
lacedemônios muito iriam sofrer se não pedis-
sem mercê. “Poltrão”, exclamou Damidas,
“que podem sofrer os que não temem a
morte?” Perguntaram a Ágis como devia fazer
um homem para viver livre: “desprezando a
morte”, respondeu. Tais palavras, e outras
semelhantes, que se ouvem a esse respeito,
implicam evidentemente outra coisa que não
apenas aguardar a chegada da morte, pois há
na vida numerosos acidentes que fazem sofrer
mais do que a morte. Haja vista aquele menino
da Lacedemônia feito prisioneiro por Anti-
gono e vendido como escravo. Instado a um
trabalho abjeto, respondeu: “Vais ver quem
compraste; seria uma vergonha fazê-lo, tendo
a liberdade a meu alcance.” E precipitou-se do
alto da casa. Antíipatro ameaçava duramente
os lacedemônios a fim de os obrigar a atender
a uma de suas exigências: “Se tu nos amea-
ças”, responderam eles, “com Coisas piores do
que a morte, preferimos morrer.” A Filipe, que
os advertia de que faria malograr tudo o que
empreendessem, observaram: “Quererás impe-
dir-nos de morrer?” Eis por que se diz que o
sábio vive quanto deve e não quanto o poderia;
e o que de melhor recebemos da natureza e que
nos tira todo direito de queixa, foi a possibili-
dade de desaparecer quando bem quisermos.
Criou ela um só meio de entrar na vida, mas
cem de sair. Podemos carecer de terras para
viver; não faltam para morrer, como diz Boio-
catus em sua resposta aos romanos: “Por que
te queixas deste mundo? Não te convém?
Vives infeliz? Culpa apenas a tua covardia.
Para morrer basta desejá-lo; a morte está em
toda parte, devemo-la à bondade dos deuses;
“podem tirar a vida a um homem: não lhe
podem tirar a morte. Mil caminhos abertos a
ela conduzem”*º. |
E não se trata dE receita para uma só doen-
ça. A morte é um remédio para todos os males,
é um porto de inteira segurança que não é de se
temer jamais e sim de se procurar não raro.
Tudo consiste nisto: que o homem decida aca-
bar, que corra à frente de seu fim ou o aguarde,
3º Sêneca.
agees
ENSAIOS — II 171
é sempre ele que está em causa: em qualquer
ponto que se rompa o fio, ei-lo fora do jogo. É
a extremidade do rojão que arrebenta ao ser
atingida pelo fogo. A morte voluntária é a
mais bela.Nossa vida depende da vontade de
outrem; nossa morte, da nossa. Em nenhuma
coisa, mais do que nesta, temos liberdade para
agir. A reputação não atinge tal empresa, é to-
lice pois qualquer respeito. Viver é ser escravo,
sem a liberdade de morrer.
De costume a cura só se obtém em detri-
mento da vida; fazem-nos incisões, cauteri-
zam-nos, privam-nos de alimento, tiram-nos
sangue; um passo a mais e eis-nos curados
para sempre. Por que não teríamos a liberdade
de nos cortar a garganta, como temos a de pro-
ceder a uma sangria? Quanto mais grave a
doença tanto mais exigente de remédio enérgi-
co. Sérvio; o gramático, sofrendo de gota não
achou solução melhor do que tomar um vene-
no que lhe paralisou as pernas. Conquanto se
tornassem insensíveis, pouco lhe importava
ficassem impotentes. Deus muito faz por nós
em nos dando a possibilidade de agir como
entendemos desde que julguemos ser a vida
pior do que a morte. Ceder ao mal é sinal de
fraqueza, mas entretê-lo é loucura. Conside-
ram os estóicos que o sábio obra de acordo
com a natureza quando abandona a vida,
ainda que se sinta feliz, desde que a deixe no
momento oportuno; e é próprio do louco afer-
rar-se à existência quando ela é insuportável.
Assim como não violo as leis contra os ladrões
quando carrego meus haveres e tomo minha.
bolsa a mim mesmo; nem as leis contra os
incendiários quando queimo a minha lenha;
não desobedeço tampouco às que punem o
assassínio quando me tiro a vida. Hegésias
dizia que, dependendo de nós as condições de
nossa vida, devemos dispor igualmente das
condições de nossa morte. Diógenes, ao encon-
trar de liteira o filósofo Espeusipo de há muito
atacado de hidropisia, exclamou: “Não te de-
sejo nada, já que desejas viver no estado em .
que estás.” Algum tempo depois, cansado de
tão penosa existência, Espeusipo suicidou-se.
Mas quantas objeções a isso ! Alguns consi--
deram que não podemos abandonar este
mundo em que estamos aquartelados, sem
ordem expressa de quem nele nos colocou; e a
Deus, que para cá nos enviou não apenas para
nosso prazer mas para-.sua glória e serviço de
nossos semelhantes, cabe despedir-nos quando
Lhe agradar e não quando nós o desejarmos.
Não nascemos apenas para nós, mas também
para a nossa terra. As leis, em seu próprio inte-
resse, exigem que prestemos contas de nós e
podem punir-nos como homicidas; por outro
y
lado, no outro mundo seremos castigados por
deserção: “além, mantêm-se acabrunhados de
tristeza os que, embora não hajam cometido
crime nenhum, se deram a morte por ódio à luz
e para rejeitar o fardo da vida ” 31,
Há mais coragem em esperar que caiam por
aí, roídos peio uso, os ferros de nosso cativei-
ro, do que em os quebrar nós mesmos. Régulo
foi mais forte de ânimo que Catão. São a falta
de discrição-e a impaciência que nos induzem
a apressar o momento fatal. A virtude real-
mente digna desse nome não cede ante nenhum
acidente, qualquer que seja; males e doenças
são por assim dizer seu alimento; ela os procu-
ra. As ameaças dos tiranos, os tormentos, os
“carrascos animam-na e a fortalecem: “Assim o
carvalho nas negras florestas do Álgido; des-
bastado pelo machado, apesar de suas perdas e
chagas, recobra novo vigor sob o ferro que o
talha”*2, Pode-se ainda dizer com esses auto-
res: “a virtude, meu pai, não consiste como
pensas em temer a vida, mas em nunca fugir
dela e em enfrentar a adversidade”33. “Na des-
graça é fácil desprezar a morte; e há mais
coragem em saber ser infeliz”? *.
É sinal de covardia, e não de virtude, ir aga-
char-se em um buraco sob o túmulo maciço, a
fim de escapar aos golpes do destino. Por
maior que seja a tempestade, a virtude não
modifica seu caminho nem seu passo: “que o
universo partido se desmantele, sem temor ela
ficará sob as ruínas”3 5. O mais comum é que
cheguemos à morte para fugir de outros incon-
venientes; por vezes mesmo é para fugir desta
que vamos a ela: “Digam-me, peço, morrer de
medo de morrer não será loucura?”* * Assim
fazem os que com receio do precipício nele se
atiram: “O pavor do perigo faz que nos atire-
mos ao perigo. O homem corajoso é o que
enfrenta o perigo se preciso e o evita se possi-
vel?º 7. “O homem temeroso da morte desgos-
ta-se da vida, fica com horror à luz; mata-se
ele próprio, esquecido de que a fonte dos males
é o medo de morrer” 38. À
Platão em suas leis ordena que uma sepul-
tura ignominiosa se reserve a quem prive da
vida seu parente mais próximo e seu melhor
amigo, em outras palavras, ele próprio, e assim
interrompa o curso do destino, sem a tanto ser
constrangido pela opinião pública, por algum
31 Virgílio.
*2 Horácio.
33 Sêneca.
34 Marcial.
35 Horácio.
368 Marcial.
37 Lucano.
38 TLucrécio.
192
triste e inevitável acidente da sorte, por uma
insuportável vergonha, tendo tido apenas
como móvel a covardia ou a fraqueza de um
espírito temeroso. Desdenhar a vida é ridículo,
porque afinal de contas a vida é nosso ser,
nosso tudo. As coisas de essência mais rica e
nobre podem acusar nossa vida; é porém ir de
encontro à natureza desprezar-se a si mesmo e
odiar-se; é uma doença de gênero especial que
não se depara em nenhuma outra criatura
senão o homem. É também vaidade desejar-
mos ser diferentes do que sornos; um tal desejo
não leva a nada: contradiz-se e traz em si o
obstáculo à sua realização. Quem deseja que o
homem se faça anjo, não trabalha por si; se
seu desejo se realizasse, não o aproveitaria,
pois não mais existindo não poderia regozijar-
se com a transformação e sentir-lhe os efeitos.
“Nada há que temer de um mal futuro, se não
devemos existir quando esse mal ocorrer”3º.A
segurança, a indolência, a impassibilidade, a
isenção dos males da vida, que compramos
pelo preço da morte, não se nos tornam de
nenhuma vantagem. É por nada que evita a
guerra quem não pode gozar a paz; por nada
que foge da pena quem não pode saborear o
repouso.
Entre os que pensam seja lícito suicidar-se,
um ponto é controvertido: quando as circuns-
tâncias justificam suficientemente que um
homem se mate? Embora admitam que causas
insignificantes possam muitas vezes motivar
semelhante resolução, tendo tudo na vida
importância relativa, cabe estabelecer uma
medida. Há disposições de espírito inteira-
mente desprovidas de sentido e lógica que
levaram não somente homens, mas também
povos, à autodestruição. Citei exemplos, mas
eis mais outro: em seguida a um entendimento
nascido de loucura furiosa, as jovens de Mileto
puseram-se a enforcar-se umas após outras, O
que só terminou quando o magistrado, inter-
vindo, determinou que arrastassem pela cida-
de, inteiramente nuas e com a corda ao pesco-
ço, as que assim haviam morrido.
Tericião instava junto a Cleômenes para
que se matasse, dado o mau estado de seus
negócios. Visto que escapara a uma morte hon-
rosa no combate perdido, aceitasse outra, a
qual, embora o sendo menos, privaria o vence-
dor de lhe impor uma morte — ou uma vida
— vergonhosa. Cleômenes, com uma coragem
bem lacedemônia e realmente estóica, recusou
o conselho por considerá-lo covarde e efemina-
do: “eis ” disse “um recurso que não me falta-
rã nunca e de que não me valerei enquanto
3º Lucrécio.
MONTAIGNE
houver a menor parcela de esperança; viver é
por vezes dar prova de ânimo e valentia; quero
que minha própria morte seja útil a meu país,
seja um ato que testemunhe minha coragem e
me honre”. Tericião, coerente com suas idéias,
matou-se. Cleômenes também, mais tarde, mas
somente depois de ter tentado até o fim vencer
a sorte. Nenhum dos males da vida justifica
que nos suicidemos para o evitar. Ademais, as
coisas humanas estão sujeitas a tais reviravol-
tas, que se faz dificil julgar em que momento
nos cumpre renunciar a qualquer esperança:
“Estendido na arena, o gladiador vencido espe-
ra ainda viver, quando já a multidão ameaça-
dora faz o gesto da morte” *º.
O homem tem o direito de tudo esquecer
enquanto vive, diz um aforismo antigo. Sim,
atalha Sêneca, mas por que dizer que a sorte
tudo pode para quem estã vivo, em vez de afir-
mar que ela nada pode contra quem sabe mor-
rer? Conhecido é o caso de Josefo que, achan-
do-se em grave perigo por se haver sublevado
o povo inteiro contra ele, não podia, razoavel-
mente, esperar qualquer salvação; aconselhado
por alguns de seus amigos a matar-se, seguiu o
caminho de se obstinar na esperança. Contra
toda previsão humana, a sorte mudou e Josefo
se viu salvo sem ter sofrido dano algum. Não
perderam Cássio e Bruto os últimos restos da
liberdade romana, de que eram os sustentá-
culos, pela precipitação que mostraram em se
matar antes que as circunstâncias o exigissem
realmente?
Na batalha de Cérisoles, o Sr. de Enghien
tentou por duas vezes atravessar a garganta
com sua espada, nc desespero de ver o comba-
te perder-se no lugar em que se encontrava. E
com essa precipitação quase deixou de gozar
uma bela vitória. Vi cem lebres fugirem quan-
do estavam quase nos dentes dos cães. “Há
quem tenha sobrevivido ao seu carrasco” *!.
“O tempo, os diversos acontecimentos podem
acarretar mudanças felizes; não raro em seus
jogos a sorte caprichosa volta àqueles que
enganou e os eleva” 42.
Plínio disse que há três espécies de doença
em virtude das quais temos. o direito de nos
matar para as evitar, e cita como a mais dolo-
rosa de todas a pedra quando obstrui a bexiga
e ocasiona retenções de urina. Sêneca só admi-
te as que comprometem durante muito tempo
as funções do espírito. Outros são de parecer
que para abreviar uma morte dolorosa pode-
mos matar-nos quando o julgamos conve-
10º Pentádio.
41 Sêneca.
42 Virgílio.
ENSAIOS -— II 173
niente. Demócrito, chefe dos etólicos, levado
em cativeiro para Roma, descobriu certa noite
um meio de fugir; perseguido pelos guardas e a
ponto de lhes cair nas mãos, atravessou o pró-
prio corpo com a espada. Antinoo e Teódoto,
cidadãos do Epiro, vendo sua cidade prestes a
ser destruída pelos romanos, aconselharam a
todos que se matassem. Tendo vencido a idéia
da rendição, decidiram-se eles pela morte e, a
fim de a buscar, atiraram-se contra O inimigo,
esforçando-se unicamente por atacar, sem se
preocuparem com a própria segurança. Quan-
do há poucos anos a ilha de Gozo caiu em
poder dos turcos, um siciliano que aí se achava
e tinha duas belas filhas em idade de casar,
matou-as com as próprias mãos, bem como a
mulher que acorrera para as socorrer; isso
feito, saiu à rua com uma besta e um arcabuz
e, ao se aproximarem os turcos, descarregou
suas armas matando os dois primeiros. Em
seguida, de espada na mão, precipitou-se con-
tra os outros. Imediatamente cercado, foi pica-
do em pedaços, escapando da escravidão de-
pois de haver livrado os seus do mesmo risco.
As mulheres judias, a fim de fugir à crueldade
de Anúoco, jogavam-se em um precipício com
os filhos depois de os mandar circuncidar.
Contaram-me que estando na prisão certo se-
nhor de elevada condição social, seus parentes,
avisados de que seria seguramente condenado
à morte, para obviar a vergonha do suplício
pediram a um padre que lhe transmitisse o
meio certo de se libertar: que se recomendasse
a tal ou qual santo com tal ou qual promessa e
que ficasse oito dias sem tomar o menor aii-
mento, por mais fraco que se sentisse. Acredi-
tou ele nisso e assim, sem pensar, libertou-se
da vida e do perigo em perspectiva. Escribônia
aconselhou seu sobrinho a suicidar-se antes
que se desse a intervenção da justiça, mos-
trando que era precisamente ir ao encontro da
vontade dos outros conservar a vida para a
entregar nas mãos dos que dentro de três ou
quatro dias o viriam buscar. E que guardar seu
sangue para que o bebessem seus inimigos era
em verdade servi-los.
Lê-se na Bíblia que Nicanor, perseguindo os
fiéis, mandou alguns guardas se apoderarem
de Razias, ancião de grande virtude, por todos
respeitado e apelidado o “Pai dos judeus”.
Vendo-se perdido, queimada a sua casa e
quase em mãos do inimigo, esse homem de
bem procurou matar-se com sua espada, prefe-
rindo morrer nobremente a sofrer um trata-
mento indigno de sua condição. Com a pressa
o golpe falhou e ele correu a jogar-se de cima
de um muro sobre os assaltantes e, em tendo
estes se afastado, caiu de ponta cabeça.
Conservando entretanto um resto de vida,
mediante terrível esforço levantou-se e, ensan-
guentado e ferido, forçou o cerco a fim de
alcançar um rochedo a pique. Mas exausto,
obrigado a parar, arrancou com as mãos as
entranhas por um dos ferimentos, despedaçan-
do-as e as jogando à cara dos perseguidores. E
invocava o testemunho dos céus para a justiça
de sua causa, apelando para a vingança divina.
Entre as violências perpetradas contra a
consciência, as que mais se devem evitar, a
meu ver, são as que dizem respeito à castidade
das mulheres, tanto mais quanto envolvem o
prazer físico, razão pela qual a resistência não
pode ser total, unindo-se necessariamente à
força certa aquiescência inconsciente da viti-
ma. À história eclesiástica venera a memória
de muitas santas que preferiram a morte aos
ultrajes que os tiranos infligiram à sua religião
e à sua consciência. Pelágia e Sofrônia, ambas
canonizadas, mataram-se, a primeira jogan-
do-se ao rio com sua mãe e suas irmas a fim de
evitar a brutalidade dos soldados, e a segunda,
para escapar à insistência do Imperador
Maxêncio.
Talvez os séculos vindouros venham a lou-
var esse sábio parisiense“? que se esforça por
persuadir as mulheres de não tomarem tão
desesperada resolução em casos análogos.
Lamento que esse autor não tenha conhecido,
a fim de reforçar sua argumentação, as pala-
vras que ouvi de uma senhora de Tolosa, a
qual passara pelas mãos de alguns soldados:
“Louvado seja Deus, pois ao menos uma vez
em minha vida me fartei sem pecar.” Matar-se
por causa de semelhante aventura é, em verda-
de, uma crueldade indigna da doçura dos cos-
tumes franceses. Graças a Deus, depois de tais
conselhos vemo-nos vingados dessas cruelda-
des, pois basta que as mulheres digam “não”
enquanto sofrem a violência, segundo a regra
do bom Marot* *.
A história está cheia de exemplos de pessoas
que trocaram pela morte uma vida difícil de se
suportar. Lúcio Arúncio matou-se, dizem, “a
fim de fugir do passado tanto quanto do futu-
ro”. Grânio Silvano e Estácio Próximo a quem
Nero perdoara, mataram-se para não dever a
vida a um homem tão cruel, e não se expor a
um segundo perdão, em virtude da facilidade
com que esse indivíduo desconfiado ouvia as
acusações aos homens de bem. Spargapizes,
filho da Rainha Tômiris, feito prisioneiro por
f
*3 Na opinião de Thibaudet: Henri Estienne, autor
de “Apologia de Heródoto”. (N. do T.)
4º Clement Marot, poeta francês contemporâneo
de Montaigne, autor de epístolas muito espirituosas.
(N. do T.)
174
Ciro, aproveitou a primeira oportunidade que
lhe deu o monarca, para se matar, pois da
liberdade não queria senão a possibilidade de
punir-se pelo fato de se ter deixado aprisionar.
Boges, governador de Eijone, no tempo de Xer-
xes, estando sitiado pelos atenienses sob as or-
dens de Cimon, recusou as propostas de reti-
rada em segurança, não podendo resignar-se a
sobreviver à perda daquilo que seu senhor lhe
confiara. Depois de defender a cidade até esgo-
tar os últimos recursos, e já sem víveres, man-
dou jogar no rio Estruma o ouro e tudo o que
pudesse ser aproveitado pelo inimigo. Acendeu
em seguida imensa fogueira em que jogou suas
mulheres, seus filhos, suas concubinas e seus
servidores previamente degolados e na qual se
precipitou então ele próprio.
Ninachetuen, senhor indiano, tendo ouvido
que o vice-rei português, sem motivo aparente,
premeditava destituí-lo do cargo que ocupava
em Malaca a fim de dá-lo ao rei de Campar,
tomou a seguinte resolução: mandou erguer
um palanque mais comprido do que largo, sus-
tentado por colunas, ricamente atapetado,
ornamentado de flores e impregnado de perfu-
mes. Vestiu uma túnica bordada de ouro, guar-
necida de pedras preciosas, saiu à rua e subiu
ao tablado a uma das extremidades do qual
ardia uma fogueira de madeiras aromáticas.
Acudiu o povo para ver a que se destinavam
tais preparativos inesperados, e Ninachetuen
expôs então, com semblante corajoso, mas sem
esconder seu ressentimento, Os serviços presta-
dos por ele à nação portuguesa. Disse da
eficiência com que desempenhara os cargos
que tivera e acrescentou que tendo demons-
trado sempre de armas na mão ser para ele a
honra mais preciosa do que a vida, não falha-
ria agora. E tendo-lhe a sorte recusado qual-
quer outro meio de se opor à injúria que lhe
era feita, sua coragem ordenava-lhe não sobre-
viver à desonra, não constituir motivo de mofa
para O povo nem colaborar para o triunfo de
gente de pouco valor. E, assim dizendo, preci-
pitou-se na fogueira.
Sextília, mulher de Escauro, e Páxea, mu-
lher de Labeo, a fim de encorajar os maridos a
evitar, com a morte, OS perigos que os ameaça-
vam e cujas conseguências elas só sentiriam
como esposas, sacrificaram voluntariamente a
vida, querendo com isso não somente dar o
exemplo, mas ainda acompanhâ-los. O que
essas heroínas fizeram com seus consortes, fê-
lo por sua pátria Coceio Nerva, menos util-
mente por certo mas com igual determinação.
Esse grande jurisconsulto, que tinha saúde,
riqueza, reputação e prestígio junto ao impera-
dor, matou-se unicamente por considerar la-
MONTAIGNE
mentável a situação do governo de Roma.
Nada porêm pode ultrapassar em estranheza a
morte da mulher de Fúlvio, que era amigo de
Augusto. Tendo este percebido qué Fúlvio
divulgara um segredo importante, acolheu-o
muito mal certa manhã. Fúlvio voltou para
casa desesperado e disse à mulher que ante tão
grande desgraça estava resolvido a suicidar-se,
ao que ela respondeu de imediato: “Fazes bem,
pois já tendo verificado várias vezes que eu
não sei calar, não tomaste nenhuma precau-
ção; mas deixa que me mate em primeiro
lugar.” E sem nada acrescentar mergulhou
uma adaga no seio.
Quando do cerco de Cápua pelos romanos,
Víbio Viro, descrente de salvar a cidade bem
como da generosidade do inimigo, depois de
discutir longamente no Senado as medidas
possíveis de defesa, chegou à conclusão de que
a morte era o melhor meio de lutar contra a
má sorte; que os inimigos os respeitariam mais
e Aníbal compreenderia melhor quão fiéis
eram os amigos que abandonara. Convidou os
que o aprovavam para um festim em sua casa,
onde, depois de lauto banquete, beberiam algo
que livraria seus corpos dos tormentos físicos,
suas almas das aflições, seus olhos e ouvidos
do espetáculo que aos vencidos seria imposto
por vencedores cruéis e despeitados“Providen-
ciei, acrescentou, para que logo depois de
nossa morte nossos corpos sejam queimados
diante de minha residência.” Muitos concor-
daram com essa resolução de um grande cará-
ter, mas poucos a seguiram. Vinte e sete sena-
dores somente juntaram-se a ele, os quais, após
buscarem no vinho o esquecimento, acabaram
por tomar a bebida fatal. Abraçando-se então,
e lamentando o destino do país, retiraram-se
alguns e ficaram os demais com o anfitrião a
fim de serem incinerados. A morte de todos foi
lenta, pois o vinho perturbou o efeito do vene-
no e muitos correram o risco de ver o inimigo
entrar em Cápua, no dia seguinte, e de supor-
tar as misérias que procuravam evitar.
Voltando o Cônsul Fúlvio da terrível carni-
ficina em que por sua causa pereceram duzen-
tos e vinte e cinco senadores, foi orgulhosa-
mente interpelado por Táurea Jubélio, cidadão
de Cápua, o qual lhe disse: “manda trucidar-
me como os demais, e depois poderás vanglo-
riar-te de teres matado alguém mais valente do
que tu?. Fúlvio desdenhou essas palavras que
se lhe afiguravam de um louco, e também por-
que acabava de receber de Roma uma censura
à sua crueldade ordenando que sustasse a
matança. Mas Jubélio continuou: “Visto que
meu país já estã vencido, que meus amigos
morreram, que matei minha mulher e meus fi-
ENSAIOS — II 175
lhos para lhes evitar as calamidades que acar-
reta a nossa ruína, e que não posso morrer
como meus concidadãos, que a coragem me
ajude a deixar esta vida odiosa.”? E puxando a
espada que escondera enfiou-a no peito, vindo
a morrer aos pés do cônsul.
Assediava Alexandre uma cidade indiana.
Vendo-se sem mais recursos, os sitiados resol--
veram privá-lo do prazer da vitória mediante
um gesto viril. Incendiaram a cidade e perece-
ram todos nas chamas, apesar do sentimento
de humanidade que reconheciam no vencedor.
E viu-se o fato inédito de uma batalha em que
os assaltantes se esforçavam por salvar os
sitiados, os quais para não serem salvos tudo
puseram em prática como se lutassem pela
vida.
Não tendo a cidade de Ástapa, na Espanha,
fortificações sólidas nem meios de defesa con-
tra os romanos, juntaram os habitantes os seus
móveis e riquezas na praça pública, colocaram
em cima suas mulheres e filhos, cercando tudo
de lenha e outros materiais combustíveis.
Encarregando cinquenta jovens da execução
de seus projetos, saíram todos para o ataque,
jurando morrer desde que não lhes era possível
vencer. Enquanto isso os cinquenta jovens pro-
cediam à matança dos seres vivos que encon-
travam, precipitando-se em seguida no fogo.
Sua liberdade chegava ao fim e assim não se
impressionavam com essa perspectiva, graças
ao ato generoso que lhes poupava a dor e a
vergonha de perdê-la, ato pelo qual mostravam
que, se a sorte não lhes tivesse sido contrária,
poderiam ter tido a coragem de tirar-lhes a
vitória, como também torná-la frustrada e hor-
renda, e até mortal, pois numerosos eram os
adversários que, atraídos pela isca do ouro em
fusão, se aproximavam demasiado das chamas
sufocando-se é se queimando, porquanto não
podiam recuar sob a pressão dos outros que vi-
nham atrás.
Os habitantes de Abido, em idêntica situa-
ção, tomaram igual resolução. Tarde demais,
porém. O Rei Filipe, a quem repugnava assis-
tir a tão cruel e precipitada carnificina, depois
de apreender todos os tesouros e móveis que
queriam queimar ou deitar ao mar, retirou seus
soldados e concedeu-lhes três dias para qué
pudessem pôr em execução com mais ordem e
serenidade o projeto de matança em massa.
Durante esses três dias o sangue correu e
verificaram-se cenas que ultrapassaram tudo o
que o mais cruel inimigo poderia cometer.
Ninguém sobreviveu.
A história relata bom número de resoluções
análogas, tomadas por populações inteiras.
Impressionam tanto mais quanto atingem
todos sem exceção, e no entanto são menos
dificeis de ocorrer com multidões do que com
indivíduos isolados, pois o raciocínio que não
fariam sozinhos aceitam-no quando coletivo.
A febre que nos agita, reunidos, obnubila a
razão de cada um em particular.
No tempo de Tibério os condenados à
morte, quando executados pelo carrasco, per-
diam seus bens e eram privados de sepultura.
Os que se adiantavam e se matavam a si pró-
prios, eram inumados e podiam, mediante
testamento, dispor de suas riquezas.
Deseja-se as vezes a morte, na esperança de
um bem futuro: o desejo de morrer, disse São
Paulo, “para estar com Jesus no outro
mundo”. E de outra feita: “quem me romperá
os laços que aqui me retêm?” Tendo lido o
“Fedon”, de Platão, Cleômbroto de Ambrácia
viu-se presa de tal desejo da vida futura que,
sem motivo, se precipitou no mar. Vemos por
esses exemplos quanto erramos em atribuir ao
desespero certas mortes voluntárias, a que nos
induz por vezes uma esperança radiosa e que
também são, não raro, consequência de deter-
minações tomadas com calma, maduramente
refletidas.
Jacques de Chatel, Bispo de Soissons, que
acompanhara São Luís em uma de suas expe-
dições de além-mar, vendo que a volta do rei
com seu exército era coisa decidida, quando os
interesses religiosos que a fizeram empreender
não tinham sido ainda atendidos, resolveu
apressar sua entrada no Paraíso. Disse adeus
aos amigos e sozinho, às vistas de todos, cami-
nhou contra o inimigo, sucumbindo. Em um
reino desse continente recém-descoberto, em
certos dias de procissão solene o ídolo que
adoram é levado em triunfo sobre enorme
carro. Durante a procissão numerosas pessoas.
cortam pedaços de sua carne para Os oferecer
em homenagem, enquanto outras, prosternan-
do-se, deixam-se esmagar sob as rodas, a fim
de conquistar uma reputação de santidade que
as torne veneradas depois da morte. A morte
desse bispo comparada a tais sacrifícios
demonstra mais grandeza, porém o sentimento
religioso parece menor, mascarado em parte
pelo entusiasmo na luta.
Houve governos que estabeleceram os casos
em que a morte voluntária era justificável e
oportuna. Em nosso país mesmo, em Marse-
lha, conservava-se outrora à custa do tesouro e
sempre à disposição do público um pouco de
cicuta para os que quisessem abreviar seu fim.
Era necessário que antes o conselho dos seis-
centos, que representavam o Senado, apro-
vasse as razões do suicida, Não era permitido
matar-se sem a autorização do magistrado ou
LG a MONTAIGNE
sem motivos legais. Esta lei existiu também
alhures. :
Sexto Pompeu, a caminho da Ásia, passava
pela ilha de Ceos no Negroponto. Aí, relata
um membro de seu séquito, aconteceu que uma
senhora da alta sociedade, que advertira seus
concidadãos de seu suicídio, explicando-lhes
os motivos, solicitou de Pompeu que a hon-
rasse com sua presença. Ele aceitou o convite €
depois de ter longamente e em vão tentado
demovê-la, empregando todos os recursos de
sua maravilhosa eloqtência, consentiu em que
ela agisse como decidira. Tinha ela mais de
noventa anos e se achava em pleno gozo de
suas faculdades físicas e mentais. Estendida
sobre um leito magnificamente ornamentado,
apoiando-se sobre o cotovelo, assim falou: “O
Sexto Pompeu, que os deuses, antes os que
deixo nesta terra do que os que vou encontrar,
te protejam por não teres desdenhado ser meu
conselheiro dos últimos instantes e testemunha
de minha morte. Sempre fui favorecida pela
fortuna, mas com receio de que me abandone
em se prolongando demasiado a minha vida,
renuncio em circunstâncias felizes aos poucos
dias que ainda poderia viver; e parto, deixando
duas filhas e uma legião de sobrinhos!” Isso
dito, deu alguns conselhos aos seus, exortan-
do-os a viverem unidos e em paz, procedeu à
partilha de seus bens, recomendou seus deuses
domésticos à sua filha mais velha, e, segu-
rando com mão firme a taça, solicitou de Mer-
cúrio que a conduzisse a algum lugar agradá-
vel do outro mundo e, de uma só vez, engoliu o
veneno. A partir de então, não cessou de se
entreter com os presentes acerca da marcha da
intoxicação, indicando as diferentes partes do
corpo que se iam finando até o momento em
que, sentindo os efeitos nas entranhas e no
coração, chamou suas filhas para os derra-
deiros ritos e a fim de lhe cerrarem os olhos.
Conta Plínio que em certa nação hiperbórea
o clima é tão ameno que a vida dos habitantes
só termina por vontade própria. Cansados de
viver, fartos da existência, ao alcançar uma
idade avançada, depois de um bom jantar,
arrojam-se ao mar do alto de um rochedo des-
tinado a esse uso.
Somente a insuportável dor ou a certeza de
uma morte pior do que o suicídio se me afigu-
ram motivos justificáveis para abandonar a
vida.
CaPpíTULO IV
Fiquem para amanhã os negócios
Entre todos os nossos escritores franceses,
coloco em primeiro lugar, e com razão, creio,
Jacques Amyot. Não somente pela simplici-
dade e clareza de seu estilo (no que ultrapassa
os demais), não apenas pela persistência que
precisou ter para levar a cabo tão longo traba-
lho como a tradução de Plutarco, mas também
pelos conhecimentos aprofundados que lhe
permitiram, com tamanha felicidade, exprimir
um amor tão difícil e conciso, pois digam o
que disserem, embora eu nada entenda de
grego, vejo sua tradução apresentar um sentido
tão adequado e seguro, que sou impelido a
concluir que, ou ele lhe apreendeu admiravel-
mente as idéias ou praticou tão amiudada-
mente o autor que delas se impregnou — e tão
fortemente — que nada lhe acrescenta susce-
tível de o desmentir ou contradizer. E lhe sou
grato ainda por ter escolhido, entre muitas,
uma obra de tal mérito e atualidade.
Nós outros, ignorantes, estaríamos perdidos
se esse livro não nos houvesse arrancado do
tremedal em que andávamos mergulhados.
Graças a ele, ousamos hoje falar e escrever, €
até as mulheres podem dar lições aos mestres-
escola. É nosso breviário. Se esse excelente
homem ainda vivesse, eu lhe indicaria Xeno-
fonte como igualmente digno de ser traduzido.
Seria tarefa mais fácil e mais adequada à sua
idade avançada. E depois, parece-me que, ape-
sar da facilidade e da precisão que evidencia
nos trechos difíceis, seu estilo é mais pessoal e.
natural quando não tem pressa e escreve a
vontade * 8.
Estava naquele trecho em que Plutarco,
falando de si mesmo, conta que Rústico, assis-
tindo em Roma a uma de suas conferências,
recebeu uma mensagem do imperador e aguar-
dou o fim da palestra para abri-la, discrição
que valeu a esse personagem a calorosa apro-
“5 A frase é confusa, porquanto não se esclareceu
bem se Montaigne se refere a Amyot ou a Xenofon-
te. Não se encontraram notas arespeito. (N. do T.)
ENSAIOS — II
vação da assistência. A anedota é contada a
propósito da curiosidade, essa paixão ávida e
insaciável de notícias, de novidades, que nos
impele a tudo abandonar com indiscrição e
impaciência, para nos entretermos com o
recém-chegado; e que nos induz a abrir sem
mais demora as cartas recebidas, onde quer
que estejamos. Plutarco tem razão em louvar a
reserva de Rústico; podia ter acrescentado o
elogio de sua polidez e cortesia, porquanto
assim agiu com o fim de não perturbar o
conferencista. Não creio, porém, que lhe
devesse elogiar a prudência, pois quando se
recebem cartas inesperadas e em particular do
imperador, diferir a leitura talvez se torne real-
mente grave.
O defeito contrário é a displicência, a que
me inclino por temperamento, e conheci quem
a levasse a ponto de guardar no bolso, sem
abrir, as cartas que recebera três ou quatro
dias antes. Quanto a mim, nunca abri as que
me confiaram nem as que o acaso me pôs nas
mãos, e perturba-me a consciência deitar sem
querer o olhar sobre algum escrito de impor-
tância que porventura alguém leia perto de
mim. Nunca houve quem se preocupasse
menos com as coisas alheias.
No tempo de nossos pais, M. de Boutiêres
quase perdeu Turim porque, jantando em boa
companhia, adiou a leitura de uma advertência
que lhe entregaram acerca da traição tramada
na cidade sob seu comando. Plutarco afirma
que Júlio César se houvera salvo se, a caminho
JF.
do Senado, no dia em que foi morto pelos
- conjurados, tivesse lido o relatório que lhe
apresentaram. O mesmo autor nos conta que
na noite em que se executou o projeto arquite-
tado por Pelópidas para matar Árquias, tirano
de Tebas, e devolver a liberdade à sua pátria,
um ateniense homônimo lhe escreveu uma mis-
siva relatando o que se tramava. Árquias rece-
beu a carta durante a ceia e deixou de abri-la,
dizendo estas palavras que se tornaram prover-
biais em Atenas: fiquem para amanhã os
negócios.
A meu ver um homem prudente, por educa-
ção, a fim de não cometer uma descortesia
para com as pessoas em cuja companhia se
encontra, como fez Rústico, ou a fim de não
interromper algo importante de que se ocupe
no momento, pode adiar para mais tarde o
conhecimento de uma notícia que lhe enviam.
Mas será indesculpável se não o fizer por inte-
resse ou prazer pessoal, principalmente quan-
do ocupa um cargo público, caso em que lhe
cabe até interromper seu repouso e seu sono.
Outrora em Roma, havia, à mesa, o lugar dito
consular, considerado o mais honroso, e era o
de mais fácil acesso ou retirada, o que bem
demonstra que, embora à mesa, não se desinte-
ressava o seu ocupante dos demais negócios
nem dos acontecimentos que pudessem ocor-
rer. Mas pode-se ter dito tudo acerca das ações
humanas, sempre será dificil traçar uma regra
de conduta que obvie às surpresas do acaso,
por mais justa que pareça do ponto de vista da
razão.
CAPÍTULO V
Da consciência
" RE ca ed
Achando-nos certa vez em viagem durante ==
“as“nossãs guerras civis, meu irmão, Sr. de la.
Broóusse, e eu, encontramos um fidalgo de boa
aparência. Era do partido contrário mas eu
não o sabia, porquanto simulava ser dos nos-
sos. Ai está um dos maiores percalços dessas
guerras: as cartas tanto se misturaram que o
inimigo não se distingue do amigo de um
modo visível, nem pela lingua nem pela condu-
ta; condicionam-se a idênticos costumes e leis,
têm igual aparência, sendo assim difícil evitar
a confusão e a desordem. Isso me levava
mesmo ao receio de encontrar os nossos exér-
DES
os
> Feitogcem um lugar Ermque.eu não fosse conhe-
“cido, do que resultaria ter” dificuldade.emzpro=* =
var minha identidade e-expor-me assim aos
piores vexames, como me aconteceu de uma
feita, quando perdi homens e cavalos e um
pajem, morto estupidamente, fidalgo italiano
que eu vinha educando cuidadosamente e
muito prometia.
Nosso companheiro de jornada estava tão
apavorado, eu o via tão desnorteado cada vez
que deparávamos com alguns grupos de cava-
leiros ou que atravessávamos cidades do parti-
do do rei, que acabei por adivinhar que seus
SEA
178 | MONTAIGNE.
temores provinham de uma consciência intran-
quila. Parecia-lhe que, em sua fisionomia e
através das cruzes que trazia ao casaco, se
liam seus mais íntimos pensamentos, tal o efei-
to maravilhoso e irresistível da consciência.
Obriga-nos a nos denunciarmos, a combater-
mo-nos a nós mesmos e, na ausência de qutra
testemunha, depõe contra nós: “servindo ela
própria de carrasco e fustigando-nos com láte-
go invisível?“ 8.
Eis uma anedota que está sempre na boca
das crianças: um Sr. Besso, da Peônia, a quem
censuravam por ter destruído, sem motivo
plausível, um ninho de pardais e matado os
filhotes, respondeu que não o fizera semi razão,
pois as avezinhas não cessavam de acusá-lo
erroneamente do assassínio de seu pai. Esse
parricida permanecera até então ignorado, mas
as fúrias vingadoras da consciência fizeram
que fosse denunciado por quem devia arcar
com a punição, isto é, por ele mesmo. Diz Pla-
tão que o castigo segue de perto o pecado.
Hesíodo assim retifica o aforismo: nasce o cas-
tigo no momento mesmo em que nasce o peca-
do. Quem quer que receie o castigo já o está
recebendo. E quem o merece o apreende. A
maldade engendra os próprios. tormentos: “o
mal recai em quem o faz”*??. Assim a vespa,
ao picar, perde o ferrão e com este as suas for-
ças, para sempre: “deixa a vida no ferimento
que provoca”*8. As cantáridas trazem em si o
contraveneno de seu veneno. É o que também
ocorre com quem se compraz no vício; engen-
dra um desprazer que lhe atormenta a cons-
ciência, na vigília como no sono: “numerosos
culpados revelam durante o sono ou o delírio
da febre, crimes de há muito escondidos”*º.
Apolodoro via em sonhos os citas esfolarem-
no, jogarem-no dentro de uma ' marmita,
enquanto sua alma murmurava: sou a causa
desses suplícios. O mau, diz Epicuro, não tem
onde se esconder, porque não tem certeza de
estar escondido, pois que sua consciência o
denuncia a si próprio: 'o primeiro castigo do
culpado estã em não poder absolver-se a-Seus
próprios olhos ”*º. san Sae
Se a consciênciaznõs inspira temor, dá-nos”
iBudihtente-segirânça e confiança. Posso afir- -.
mar que me conduzir em várias circunstâncias
difíceis com muito maior decisão em virtude
da convicção intima em que estava da pureza
de minhas intenções e de minha vontade de
não desistir: “Enche-se a alma de esperança ou
“8 Juvenal.
37 Aulo Gélio.
48 Virgílio.
48 TLucrécio.
5º Juvenal.
temor segundo o testemunho que damos de nós
a nós mesmos”*1. E há mil exemplos disso.
Contentar-me-ei com três.
Estava Cipião certa vez sob grave acusação
contra ele lançada diante do povo romano. Em
vez de se desculpar ou procurar enternecer os
Juízes, disse-lhes: “Não vos cabe, em verdade,
Julgar uma acusação capital contra quem vos
deu o poder de julgar o mundo inteiro.” Outra
vez, em lugar de se defender contra as imputa-
ções de que era alvo por parte de um tribuno
do povo, exclamou: “Cidadãos, como respos-
ta, iremos render graças aos deuses pela vitória
que me deram contra os cartagineses e cujo
aniversário se festeja hoje.” Tendo Catão inci-
tado Petílio a pedir-lhe que prestasse contas
. dos dinheiros postos à sua disposição para
administrar a província de Antioquia, Cipião,
no Senado, apresentou seu caderno de notas
afirmando que receita e despesas aí se inscre-
viam com fidelidade. E como o instassem para
que o depositasse no arquivo, recusou obser-
vando que não desejava impor a si mesmo
semelhante humilhação; e o rasgou em peda-
ços. Não penso que alguém com a consciência.
suja pudesse demonstrar igual confiança em si.
Cipião tinha naturalmente um belo caráter e
estava habituado à fortuna, escreve Tito Lívio,
para se rebaixar à defesa de sua inocência.
A tortura é uma invenção perigosa que pare-
ce antes pôr à prova a resistência à dor do que
a sinceridade. Quem a não pode suportar
esconde a verdade tanto quanto quem a supor-
ta; pois por que a dor o levaria a confessar o
que é mais do que o que não é? E, inversa-
mente, se quem não cometeu o que lhe recrimi-
nam é bastante resistente para suportar a tor-
tura, por que não o há de ser o culpado que em
tal circunstância joga a vida? Penso que o
emprego desse processo tem sua origem na
ação da consciência; dir-se-ia que no culpado
em a enfraquecendo ela colabora com a tortu-
ra e o induz à confissão, enquanto fortalece a .
determinação do inocente. Em verdade, tráta- Ee
se de um meio cheio. de incertezas &-perigos,| a
poisa «querray se ha de dizer é fazer à fim de ob-
viar a tais suplícios? “A “dor obrnigadspróprio —
inocente a mentir ”52. Daí ocorre que aqueles a
quem o juiz inflige a tortura para não se expor
a condenar um inocente, na realidade morre
inocente e torturado. Mil e muitos acusados
sob os efeitos da tortura confessam o que não
fizeram. Entre esses incluo Filotas, a julgar
pelas circunstâncias do processo que lhe
moveu Alexandre e os resultados das torturas
a que foi submetido. Como quer que seja e em-
51 Ovídio.
82 Públio Siro.
ENSAIOS — II
bora se diga que é o que de menos falho encon-
trou o homem em sua fraqueza, para chegar à
verdade, considero a tortura um processo inu-
mano e bem pouco útil.
Muitos povos, menos bárbaros a esse res-
peito do que os gregos e os romanos que assim
os chamavam, achavam horrível e cruel tortu-
rar alguém cuja culpabilidade não estivesse
estabelecida. Que culpa terá ele de nossa igno-
rância? Não somos injustos em obrigâá-lo a
suportar coisa pior do que a morte, a fim de
não matá-lo sem razão? E não se negará que
assim seja, pois vemos muitos inocentes prefe-
rirem a morte a submeter-se a tal meio de
informação mais penoso do que a execução e
que pela sua violência não raro acarreta de
179
antemão a morte. Não me lembro onde deparei
com este caso; mas ele mostra bem como enca-
rar esse processo justiceiro: diante de um gene-
ral de exército muito rigoroso, uma camponesa
acusava um soldado de ter roubado a seus fi-
lhos o pouco de sopa que lhes restava. Não
havia prova. O general depois de advertir a
mulher acerca do alcance do que dizia e de
chamar sua atenção para a responsabilidade
que assumia, mandou abrir o ventre do solda-
do a fim de verificar o fundamento da acusa-
ção. E aconteceu que a camponesa tinha
razão. Condenação instrutiva *3.
83 Que instrufa ao mesmo tempo o processo. (N.
do T.)
CapíTULO VI
Do exercício
É dificil que o raciocínio e o conhecimento,
se bem que nossa convicção nos ajude, sejam
assaz poderosos para nos levar à ação se, ade-
mais, não nos exercitamos, e pela prática não
adaptamos a alma ao que queremos. De outro
modo, no próprio momento de agir ela se
encontrará em dificuldade. Eis por que os filó-
sofos que visaram à perfeição não se conten-
taram com aguardar na serenidade do repouso
os rigores da sorte. De medo de que ela nos
achasse desprevenidos e inexperientes para a
luta, foram-lhe ao encontro, enfrentando riscos
e tormentos de moto próprio, renunciando uns
a suas riquezas, a fim de se acostumarem a
uma pobreza voluntária, exercitando-se outros
por meio das mais duras tarefas e austeridades
de uma vida de privações, em se calejarem.
Outros ainda se mutilaram, privando-se de
seus órgãos mais preciosos, Como os olhos ou
as partes genitais, com receio de que, sentindo
exagerado prazer em seu uso, tivessem enfra-
quecido a alma.
Mas não nos é possível exercitar-nos a mor-
rer, o que constitui entretanto a mais árdua ta-
refa que nos cumpre enfrentar. Podemos, pelo
hábito e a experiência, fortalecer-nos contra a
dor, a vergonha, a indigência, etc. No que con-
cerne à morte só a podemos experimentar uma
vez, e quando chega não passamos todos nós
de aprendizes.
Houve outrora homens tão ciosos de bem
empregar seu tempo, que procuraram, ao pas-
sarem da vida à morte, fixar suas impressões €
analisá-las. Mas nenhum deles voltou para nos
comunicar o que pôde aprender: “Jamais acor-
da quem, uma vez, adormeceu no frio repouso
da morte” 8 *,
Um nobre romano, Cânio Júlio, dotado de
notável coragem e caráter, entre outras provas
espantosas de sua resolução, deu a seguinte:
condenado à morte por esse monstro que se
chamou Calígula, ao ser executado pelo car-
rasco e ouvindo de um filósofo seu amigo:
"* “Então, Cânio, qual o teu estado de alma neste
momento? Em que pensas?”, respondeu:
“Penso. em estar preparado para morrer e em
procurar com todas as minhas forças, neste
instante tão curto, verificar o que sentirá
minha alma, se experimentará algum tremor
ao separar-se do corpo, e se eu conseguir algo
hei de voltar, em podendo, para dizê-lo a meus
amigos.” Eis um filósofo que continuou filó-
sofo até durante a morte. Quanta coragem,
quanta firmeza de ânimo em desejar que ela
servisse de lição, em conservar uma tal liber-
dade de espírito, em poder pensar assim noutra
coisa em semelhante ocasião! “Que domínio
tinha sobre a alma na hora da própria
morte !?8 8
Parece-me contudo que haja possibilidade
de nos familiarizarmos com a morte, de apre-
54 Lucrécio.
85 Lucano.
180
ciá-la de perto. Podemos tentar a experiência,
se não inteira e perfeita, ao menos em condi-
ções em que nos seja proveitosa, fortalecendo
nossa coragem e dando-nos alguma segurança.
Se não podemos alcançá-la, podemos aproxi-
mar-nos dela, reconhecê-la. Se não podemos
penetrar no edifício, podemos palmilhar as
avenidas de acesso. Não sem razão, compa-
ram-na ao sono, que mui parecidos são. Com
que facilidade adormecemos, perdemos a
noção da luz e de nós mesmos, quase sem nos
apercebermos. Talvez esse sono que nos priva
momentaneamente de movimento e sensação,
se nos afigurasse inútil e inexplicável se não
víssemos nisso uma lição da natureza, a de que
estamos destinados tanto a morrer como a
viver. Para que nos acostumemos e não tenha-
mos receio, ela nos mostra no decurso da vida
o estado que nos reserva para quando deixar-
mos a existência.
Quem, em consequência de algum acidente,
desmaiou e perdeu por completo o conheci-
mento das coisas, esteve, imagino, bem perto
da morte natural. Quanto ao instante preciso
da passagem da vida à morte não há como
temer que comporte esforço ou dor. Pois nada
podemos sentir sem a presença do tempo. Nos-
sas sensações precisam de tempo para serem
sentidas e o tempo é demasiado curto no
momento da morte. É a aproximação da morte
que cabe temer, e essa aproximação é passível
de estudo.
Muitas coisas parecem maiores quando pen-
samos nelas do que quando com elas depara-
mos. Passei boa parte de minha existência em
perfeita saúde, não somente ignorando a doen-
ça, mas ainda cheio de vida e atividade. Esse
estado de verdor e alegria fazia-me temer a tal
ponto a enfermidade que, ao experimentá-la, a
achei menos horrivel do que imaginara. Eis um
fato que se repete cotidianamente comigo: se
me encontro comodamente aquecido no meu
quarto durante uma noite de tempestade,
tremo pelos outros e me apiado deles. No
entanto, se me acho eu próprio na tempestade
não procuro sequer um refúgio. Estar constan-
temente fechado dentro de um quarto; pare-
cia-me insuportável. Uma doença que muito
me aborreceu, mudou-me e me enfraqueceu a
ponto de me obrigar a guardar o leito durante
cinco semanas. Verifiquei então que, quando
estava com saúde, os doentes me pareciam
muito mais dignos de pena do que eu em idên-
tica circunstância e que minha apreensão
dobrava quase a desgraça real. Espero que
ocorra o mesmo quanto à morte e que ela não
valha em verdade todo o esforço que faço para
me preparar a recebê-la dignamente, nem
MONTAIGNE
todos os recursos que tento juntar a fim de
resistir a seu ataque. Em todo caso não con-
vém negligenciar nenhum de seus aspectos.
Quando da terceira, ou segunda (não me
lembro exatamente) guerra de religião, estando
um dia a passear a uma légua de minha casa
situada no centro do teatro das guerras civis €
julgando-me em segurança, pensei não me ser
necessário mais do que um cavalo ágil mas
pouco resistente. Ao voltar, uma circunstância
inesperada fez que me visse forçado a exigir
dele mais do que podia dar. Procurando auxi-
liar-me, um de meus homens, grande e forte e
que cavalgava um atlético rocim duro de boca,
quis mostrar sua habilidade e chegar antes de
seus companheiros, de modo que se precipitou
a todo galope diante de mim e caiu com seu
peso colossal sobre o homenzinho e o cavali-
nho que éramos nós, jogando-nos ambos de
pernas para o ar. Assim ficou o cavalo ator-
doado e eu sem sentidos, a doze passos, de cos-
tas para o chão, todo machucado e esfolado, a
espada ao longe, a cinta em pedaços. Foi, até
agora, o único desfalecimento que tive. Os que
me acompanhavam, depois de tudo fazer para
que voltasse a mim, acreditaram-me morto.
Tomando-me então nos braços, transporta-
ram-me com muita dificuldade durante cerca
de meia légua francesa até a minha casa. No
caminho, após duas horas durante as quais es-
tive como morto, comecei a fazer alguns movi-
mentos e a respirar. Tamanha quantidade de
sangue se expandira em meu estômago que a
fim de aliviá-lo teve a natureza de provocar
uma reação. Puseram-me em pé e eu expeli em
grandes golfadas um balde cheio de sangue
puro. Várias vezes durante o caminho o fato
ocorreu. Graças a isso comecei a recuperar mi-
nhas forças, mas aos poucos, e tanto tempo foi
preciso que a princípio o que eu sentia partici-
pava mais da morte que da vida: “porque
ainda incerta de sua volta, a alma atônita não
pode afirmar-se 5 8.
Essa recordação, que se gravou fundamente
em meu espírito, de um acidente em que a
morte me apareceu por assim dizer com o
aspecto que deve realmente ter, causando-me a
impressão que devemos sentir, essa recordação
reconcilia-me até certo ponto com ela. Quando
comecei a ver de novo, minha vista estava tão
turva, tão fraca, extinta, que não discerni a
princípio senão um pouco de luz: “cómo
alguém que, meio acordado meio dormindo,
ora abre os olhos e ora os fecha ”º 7. Quanto às
funções do espírito, voltavam à vida junta-
56 Tasso.
57 Td.
ENSAIOS — TI 181
mente com o corpo. Vi-me ensangientado,
com o gibão empapado de sangue perdido. O
meu primeiro pensamento foi o de haver rece-
bido um tiro de arcabuz ra cabeça, pois
ouviam-se tiros de quando em quando nos
arredores. Parecia-me que a vida estava sus-
pensa a meus lábios e eu fechava os olhos a
fim de ajudá-la a desprender-se de mim,
comprazendo-me nesse estado de langor e tam-
bém em me sentir esvair. Em meu espírito
ocorria a sensação vaga da volta da faculdade
de pensar, mal definida ainda, mais suspeitada
do que percebida, sensação terna e doce como
tudo o que experimentava, não somente isenta
de desprazer mas ainda lembrando a quietude
que se apodera de nós ao sermos dominados
pelo sono. Creio que é nesse estado que se
devem sentir os que na agonia desfalecem de
fraqueza. E julgo que deles nos apiedamos sem
razão, pois imaginamos erroneamente que sua
agitação provém de dores excessivas ou de
pensamentos penosos. Sempre fui de opinião,
contrariamente a outros, inclusive La Boétie,
que os vemos assim perturbados e acabru-
nhados nos seus últimos instantes, seja em
consequência de longa enfermidade, seja de
ferimentos, de apoplexia ou epilepsia.
“Muitas vezes um infeliz tomado de mal sú-
bito cai repentinamente diante de nós como
que fulminado: a boca espuma, o peito geme,
os membros tremem; fora de si, retesa-se, tor-
ce-se ofegante, exaure-se em toda espécie de
movimentos convulsivos”58. Fui sempre de
opinião que os que vemos engrolar as palavras
suspirando fundamente, sem que nada indique
que ainda estão conscientes nem que estejam
privados de qualquer movimento, já tinham
então a alma e o corpo adormecidos e como
que amortalhados: “vivem sem ter consciência
de que estão vivos” ºº. E não creio que, dada a
fraqueza dos membros, o embotamento dos
sentidos, possa o nosso espirito conservar
força suficiente para sentir o que quer que seja.
Portanto, esses moribundos não estão sujeitos
a pensamentos que os atormentem e lhes reve-
lem a triste condição em que se acham. Por
conseguinte não nos devem inspirar piedade.
Quanto a mim, não sei de nada tão insupor-
tável e horrível como ter uma alma aflita sem
poder expressá-lo; assim os que são enviados
ao suplício após se lhes cortar a língua (se bem
que nesse gênero de morte uma atitude silen-
ciosa e uma fisionomia severa e grave sejam o
que melhor convém), e do mesmo modo os que
caem nas mãos dos soldados transformados
8 Lucrécio.
5º Ovídio.
em carrascos e que são torturados cruelmente
a fim de pagarem um resgate impossível, e que
enquanto não o fazem permanscem presos em
condições e locais ignóbeis, sem possibilidade
de tornarem conhecidos os seus pensamentos.
Os poetas inventaram alguns deuses favoráveis
à liberação dos que arrastam desse modo uma
morte lenta: “executo as ordens que recebi”,
diz Íris, “e liberto o teu corpo cortando o fio de
cabelo louro consagrado ao deus dos infer-
nos 2ºº, Às palavras, as respostas breves e sem
nexo que lhes arrancam em lhes gritando aos
ouvidos, os movimentos que fazem e parecem
ter alguma relação com o que se lhes pergunta,
não são provas de que vivem. Acontece o que
se verifica quando adormecemos e que o sono
ainda indeciso não se assenhoreou completa-
mente de nós: temos, como em sonho, alguma
idéia do que ocorre em torno de nós, acompa-
nhamos o que se diz, mas o percebemos ape-
nas vagamente e de maneira imperfeita que
mal toca o espírito. Assim as nossas respostas
participam mais do acaso que da lógica.
Agora que tive uma experiência, não duvido
da exatidão de minhas idéias. Antes de mais
nada, embora desmaiado trabalhava com as
unhas (pois estava desarmado) para abrir o
meu gibão e no entanto não tinha a impressão
de haver sido ferido. Mas temos muitas vezes
movimentos inconscientes: “os dedos agoni-
zantes contraem-se e se cerram sobre a lâmina
que lhes escapa ?º!. Quando caímos, estende-
mos os braços, em um impuiso natural de nos-
sos membros que se prestam mútuos serviços €
se movimentam com autonomia: “dizem que,
nos combates, os carros armados de foices
decepam com tamanha rapidez os membros
dos combatentes que os vemos ainda palpi-
tantes no chão, antes que a dor de tão súbito
golpe lhes atinja a alma 2.
Estava com o estômago oprimido por esse
sangue coalhado. Minhas mãos o procuravam
espontaneamente como fazem, sem interven-
ção de nossa vontade, quando sentimos cocei-
ras. Há animais — e isso também se vê entre
os homens — cujos músculos se contraem e
mexem mesmo depois da morte. E todos
sabem que certas partes do nosso corpo se agi-
tam, se retesam e se relaxam sem que haja
qualquer intenção de nossa parte. Ora, esses
sofrimentos que mal nos roçam não nos per-
tencem; para que fossem nossos seria neces-
sário que nos tomassem por inteiro. Assim, as
dores que enquanto dormimos nos tomam o pé
ou a mão, não nos pertencem.
80 Virgílio.
81 Virgílio.
82 Lucrécio.
182 MONTAIGNE |
Quando me acerquei de casa, onde já chega-
ra a notícia do acidente e minha família me
acolhia com os gritos comuns a tais circuns-
tâncias, não somente respondi com algumas
palavras, mas ainda, ao que soube depois, dei
ordens também para que arranjassem um ca-
valo para minha mulher que eu via em dificul-
dades no caminho íngreme e penoso. Dir-se-á
que semelhante preocupação era prova de ter
eu recuperado a razão, mas assim não era.
Eram rasgos de lucidez, confusos, provocados
pelo que percebiam meus olhos e meus ouvidos
e que não provinham de dentro de mim. Eu
não sabia nem de onde vinha nem para onde
ia; não podia tampouco entender o que me
perguntavam, nem refletir; o pouco que então
me era possível fazer ou dizer decorria de
meus sentidos agindo maquinalmente; o espi-
rito não participava disso. Este se encontrava
como em um sonho, ligeiramente impulsio-
nado pela débil impressão dos sentidos. Contu-
do a sensação que tinha era de calma e de,
doçura; não pensava em mim nem em nin-
guém, estava em um estado de languidez e de
fraqueza extremas, sem sentir dor alguma. Via
minha casa mas não a reconheci. Quando me
deitaram, o repouso causou-me infinito bem-
estar. Fora terrivelmente sacudido e abalado
pelos pobres diabos que se haviam revezado
no transporte de meu corpo durante a longa e
extenuante caminhada. Deram-me inúmeros
remédios que eu recusei, certo de que estava
mortalmente ferido na cabeça. Teria sido, sem
mentira, uma morte muito agradável, impedin-
do-me o enfraquecimento da razão de perceber
o do corpo. Deixei-me ir ao léu, tão suave-
mente, de maneira tão indolente e fácil que
nada sei de menos penoso.
Quando principiei a viver de novo.e a recu-
perar minhas forças: “quando meus sentidos
enfim recobraram algum vigor Ӽ3, o que ocor-
reu duas ou três horas depois, senti-me tomado
de dores por todo o corpo, com os membros
moídos pela queda. Sofri tanto durante as noi-
tes que se seguiram, .que pensei morrer nova-
mente mas de morte extremamente dolorosa
então, e até hoje me ressinto do choque causa-
do pelo acidente. É de se observar que a última
coisã que pude recordar foi a maneira por que
se verificou o caso. Tive que fazer com que me
repetissem várias vezes para onde eu ia, de
onde vinha, a hora da ocorrência, antes de o
conceber nitidamente. Quanto à queda mesma,
escondiam-me os pormenores dela, inventando
outros, por comiseração para com o culpado.
No dia seguinte, em me voltando aos poucos a
63 Ovídio.
memória, quando me revi no estado em que es-
tava ao ver o cavalo jogar-se contra mim (pois
eu o percebera no momento em que ia cair-me
em cima e me considerava morto, mas o pen-
samento fora tão rápido que não tivera medo),
essa reminiscência foi como um clarão galva-
nizante e pareceu-me que voltava do outro
mundo.
Essa narrativa de acontecimento de tão
pequena importância seria prova de vaidade,
não fosse a lição que dele tirei, pois para se
acomodar ao pensamento da morte creio ser
preciso ter-se aproximado dela. Ora, como diz
Plínio, cada qual é para si mesmo excelente
objeto de estudo, desde que tenha qualidades
suficientes para se observar. O que exponho
aqui não é doutrina, mas experiência; não é
lição dada por outrem e sim por mim a mim
mesmo; por conseguinte não me devem censu-
rar se a comunico, pois o que me é útil pode
ocasionalmente ser útil aos outros. Ademais
não prejudico ninguém e, se é tolice, somente
em mim repercutirá; e em morrendo comigo
não terá conseguências. Não conhecemos
senão dois ou três filósofos antigos que assim
tenham agido, e como os conhecemos apenas
de nome ignoramos se o fizeram do mesmo
modo **. Desde então ninguém os imitou. É
mais difícil do que parece acompanhar o espi-
rito na sua marcha insegura, penetrar-lhe as
profundezas opacas, selecionar e fixar tantos
incidentes miúdos e agitações diversas. É uma
ocupação inédita e excepcional, mas das mais
recomendáveis, que nos afasta das ocupações
habituais a que se entrega em geral a gente.
Hã vários anos, somente a mim mesmo
tenho como objetivo de meus pensamentos,
somente a mim é que observo e estudo; se aten-
to para outra coisa logo a aplico a mim ou a
assimilo. E não creio seguir caminho errado
se, - como fazem com as outras ciências
incontestavelmente menos úteis, comunico a
outrem minhas experiências, embora me consi-
dere pouco satisfeito com meus progressos.
Não há descrição mais difícil do que a de si
próprio, nem mais aproveitável, mas é neces-
sário enfeitar-se, arranjar-se para se apresentar
em público. Assim, enfeito-me sem desconti-
nuar, por isso que me descrevo constante-
mente.
Costuma-se condenar quem fala de si; O uso.
o proíbe de modo absoluto por causa dá ten-
dência para nos vangloriarmos, que sempre
parece apontar-nos testemunhos que damos de
84 Montaigne alude a Arquilóquio e Alceu entre os
gregos e a Lucílio e Marco Aurélio entre os autores
latinos.
ENSAIOS — II
nós mesmos. É como se, para não assoar uma
criança, lhe arrancássemos o nariz: “não raro
o medo de um mal conduz a outro maior”*S.
Um tal remédio se me afigura mais prejudicial
do que eficaz. Ainda que fosse verdadeiro, que
houvesse necessariamente presunção em entre-
ter o público acerca de si mesmo, não poderia,
querendo manter-me fiel à regra que me impus,
passar em silêncio o que pode revelar em mim
essa disposição doentia, desde que existo. É
um erro que não devo esconder, pois, não
somente o cometo, como escolhi por profissão
cometê-lo. Entretanto, para dizer o que penso,
julgo errado esse costume, pois é como se
condenassem o vinho porque há quem se
embriague. Só se abusa das coisas boas e não
falar de si é uma regra que condena apenas o
abuso em que podemos cair. São tolices que
não embaraçaram nem os santos nem os filó-
sofos; a mim tampouco me apoquentam, em-
bora esteja tão longe de uns como de outros.
Se não proclamam que falarão de si, não dei-
xam contudo de o fazer quando se apresenta
uma oportunidade. De que fala Sócrates mais
abundantemente que de si próprio? Para que
encaminha suas conversações com seus disci-
pulos, senão para as suas pessoas? E nunca
para uma lição dos livros mas para os movi-
mentos da alma e do ser. Nós, católicos, nos
confessamos a Deus € ao nosso confessor, e os
protestantes fazem-no em público. Sim, dirão,
mas confessamos unicamente os nossos peca-
dos. Ora, confessando-os, tudo dizemos, pois
até em nossa virtude podemos falhar e ter
motivos para arrependimento.
Meu ofício, minha arte, é viver; quem me
censura falar disso segundo meu sentimento, a
experiência que tenho e o emprego que dou,
proíba a um arquiteto referir-se às suas pró-
prias construções, obrigando-o a comentá-las
de acordo com as de outrem. Se é vaidade falar
das coisas que nos valorizam, por que Cícero
não elogia a eloquência de Hortênsio e este a
de Cicero? Talvez desejem, para me julgar,
que eu apresente atos e não palavras. Mas são
sobretudo os pensamentos que me agitam e,
em sua forma mal definida;-não podemtradui
zir-se por atos; que procuro reproduzir. Já me
- custa-ríúito traduzi-los pela voz, que é coisa
aérea e sem consistência. Os homens mais sá-
bios e prudentes, e os mais devotos, passaram
a vida evitando qualquer ato exterior. Tais
atos emanam mais da sorte que de mim; evi-
denciam o seu papel e não o meu, a não ser de
maneira conjetural e incerta; são amostras de
85 Horácio.
183
uma parte do indivíduo e não de sua totali-
dade. Eu me mostro por inteiro, como uma
peça anatômica, cujas veias, músculos, ten-
dões, divisamos em seus lugares ao primeiro
golpe de vista, ao passo que a tosse indica ape-
nas o que ocorre em certo ponto de nósso ser,
a palidez e a pulsação o que se verifica em
outro ponto, e tudo isso de modo duvidoso.
Não são apenas meus gestos que escrevo, sou
eu mesmo, é a minha essência.
Devemos ser prudentes quando nos observa-
mos e com a mesma consciência nos apreciar
quanto ao bem e quanto ao mal. Se me acredi-
tasse bom e avisado, ainda que mais ou menos,
proclamá-lo- ia em altos brados. Colocarmo-
nos abaixo do que realmente somos, conside-
ro-o torpeza e não modéstia; diminuir-se é
covardia e pusilanimidade, segundo Aristóte-
les. Não há virtude que acompanhe a falsidade
e a verdade jamais será objeto de terror. Dizer
mais do que somos, nem sempre é presunção: é
por vezes ingenuidade; comprazer-nos em
ultrapassar a medida é cair no indiscreto amor
a nós mesmos, O que a meu ver constitui o fun-
damento desse vício. O único remédio consiste
em fazer exatamente o contrário do que nos
ordenam os que nos proíbem falar de nós. mes-
mos e portanto pensar em nós mesmos. O
orgulho está no pensamento, bem pequena é a
participação da língua.
Preocupar-se. consigo parece aos outros
admirar-se. Consideram que observar e sondar
a alma é amá-la exageradamente. Mas este
excesso só se verifica naqueles que se analisam
superficialmente, nos que se estudam após seus
negócios, nos que denominam delírio e ociosi-
dade a expressão das sensações próprias, nos
que acham que trabalhar em prol do desenvol-
vimento cultural é construir castelos na kispa-
nha, nos que são estrangeiros e indiferentes a si
próprios. Quem se embriaga com sua ciência
ao olhar para baixo, erga os-olhos para cima e
contemple os séculos passados. Baixará o tom
vendo milhares de espíritos aos pés dos quais
não poderia elevar-se. Se se sente envaidecido
com a própria váléntia, pense no que realiza-
ram-Cipião; Epaminondas e tantos exércitos e
povos! De nenhuma cir
se orgulhará quem tenha sempre na memória a
debilidade, a imperfeição e a miséria inerentes
à natureza humana. Somente Sócrates pôs em
prática o. preceito que recebera de Apolo:
conhece-te a ti mesmo. O que o levou ao des-
prezo por si próprio e também a ser julgado
pela posteridade digno do epíteto de sábio.
Quem assim se conhecer, ouse tornar-se
conhecido dos outros.
târnicia C particular"
Ta aa
=
o
184
MONTAIGNE
CarpítuLo VII
Das recompensas honoriíficas
Observam os historiadores do Imperador
Augusto que quando se tratava de serviços
militares, tinha ele como norma ser exagerada-
mente pródigo em presentes diversos para com
quem os merecia, enquanto era muito mais
parcimonioso em matéria de recompensas
puramente honorificas. Talvez por lhe ter o seu
tio prodigalizado todas as recompensas milita-
res antes mesmo que conhecesse a guerra. É
uma bela invenção que perdura na maior parte
dos países, essa de se terem criado, a fim de
honrar e recompensar a virtude, certas distin-
ções visando à satisfação da vaidade e sem
valor em si, tais como coroas de louros, de car-
valho, de murta, vestimentas de formas parti-
culares, privilégios de circular de carro nas
cidades ou à noite com tochas, lugar reservado
nas cerimônias públicas, sinais específicos nos
brasões, e coisas semelhantes, variáveis segun-
do o país.
Entre nós e entre certos povos vizinhos exis-
tem ordens de cavalaria que não têm outro
objetivo.
Idéia útil e boa, essa de recompensar o méri-
to de reduzido número de homens de valor
excepcional, contentá-los e satisfazê-los com
prêmios que não pesam no tesouro público e
nada custam ao príncipe. E prova a expe-
riência que as pessoas de qualidade sempre se
mostraram mais desejosas dessas recompensas
que das que lhes dão proveitos pecuniários. O
que explica e realça o amor que lhes dedicam.
Se a um prêmio que deve ser puramente hono-
rífico atribuem vantagens particulares, ou
remuneração importante, essa mistura em vez
de aumentar o apreço em que o têm, o diminui
e o envilece. A Ordem de São Miguel, que foi
- tão ambicionada durante-algum iémpo-ente
e re a 4 O E e
—-=>""n6s, tinha como mãior vantagem a de não con-
ferir nenhúma. Por isso, outrora, não havia
cargo ou situação a que mais aspirasse a
nobreza; nada outorgava maior respeito e
consideração, aceitando a virtude de prefe-
rência uma recompensa que constitui seu apa-
nágio exclusivo por ser mais gloriosa do que
útil.
Quaisquer outras recompensas são com efei-
to menos honrosas, tanto mais quanto servem
f
para tudo. Com dinheiro remuneram-se os ser-
viços de um lacaio, a diligência de um-estafeta,
o talento de um dançarino ou de um cavaleiro,
ou de um orador. Todos os serviços que nos
prestam, mesmo os mais vis, mesmo os vícios,
assim se pagam: adulação, traição, luxúria.
Não é pois de espantar que a virtude não aceite
de bom grado essa espécie de moeda corrente e
opte pela outra, a que não mancha o caráter
nobre e generoso que lhe é peculiar. Augusto
tinha razão no poupáâ-la, tanto mais quanto a
honra é um privilégio cuja característica essen-
cial está na raridade, a qual é também inerente
a virtude: “para quem não enxerga os maus
não existem os bons” 8. Não se distingue um
homem que se ocupa da educação de seus
filhos; não é um título de recomendação, por
louvável que seja o ato, pois é coisa corri-
queira. Distingue-se uma árvore grande em
uma floresta em que todas são iguais? Não
creio que jamais um cidadão de Esparta se
haja vangloriado de sua valentia, virtude prati-
cada por todos. Nem de sua obediência as leis
e de seu desprezo pelas riquezas. Não cabe
recompensa para a virtude, por grande que
seja, quando ela participa dos costumes, E não
creio mesmo que a consideraríamos grande se
fosse comum.
Ássim, não tendo as recompensas honori-
ficas significação real, senão porque são confe-
ridas a um pequeno número de pessoas, o meio
mais fácil de as destruir estã em as conceder
profusamente. Ainda que houvesse hoje maior
número de pessoas merecedoras dessa ordem
— € reconheço que isso possa ocorrer por-
quanto nenhuma virtude tende a expandir-se
"mais do que a coragem militar — não é razão
suficiente=para--que, em..a multiplicando, a
desacreditem. Além da valentia-que-aqui quali-
fico como virtude, empregando este vocábulo.
em sua acepção corrente, existe a virtude
propriamente dita, que constitui a perfeição e é
a única que reconhecem os filósofos. De natu-
reza mais elevada do que a valentia, ao contrá-
rio desta estende-se a tudo. E consiste nessa
força de caráter e nessa firmeza de ânimo que
86 Marcial.
ENSAIOS — II 185
tornam a alma indiferente a todas as ocorrên-
cias felizes ou infelizes; igual, uniforme, cons-
tante é ela, e dela só minimamente participa a
valentia.
Nossos costumes, nossas tradições, os
exemplos, fazem que a valentia nos seja fami-
liar e acessível e a tornam bastante comum
como se pode ver em nossas guerras civis. Se
alguém pudesse, nesta hora, conseguir a paz e
dirigir os esforços de todos para um mesmo
objetivo, veriamos reflorescer com ela nosso
renome militar. É certo que em outras épocas a
atribuição dessa ordem não visava apenas a
virtude da valentia; exigia-se mais e ela nunca
foi conferida a um soldado unicamente por
esse motivo. Outorgavam-na aos chefes que se
tivessem particularmente distinguido. Saber
obedecer não justificava então tão honrosa
distinção. Eram necessários também conheci-
mentos militares evidentes, abarcando a maior
parte e a mais importante das disciplinas da
carreira militar: “pois os talentos do soldado e
do general não são os mesmos”*?. Ademais
era imprescindível ser de uma condição social
digna de tão alta recompensa. Como quer que
seja, ainda que maior número de indivíduos a
merecessem não se devia ter sido tão liberai.
Melhor fora não a conferir a todos os que a
mereciam que a desacreditar definitivamente,
como aconteceu em virtude do abuso com que
a distribuíram. Nenhum homem de bem há de
querer ostentar o que tem em comum com tan-
tos outros. E em nossos dias os que menos
mereceram essa ordem honorífica são os que
mais afetam desdenhá-la, a fim de se colocar à
altura dos que justamente a receberam e aos
quais a liberalidade dos que a conferem
prejudica.
Depois de ter suprimido essa recompensa,
criar outra na esperança de vê-la de imediato
apreciada, é empresa arriscada nestes tempos
perturbados em que vivemos, e é de imaginar
que a nova ordem esbarre desde o início nas
687 Tito Lívio.
dificuldades que acarretaram a desmorali-
zação da primeira. Para que se imponha,
devem as condições em que será atribuída ser
muito severas e rigorosamente observadas.
Ora, neste momento confuso não parece possi-
vel um freio bem ajustado. Sem contar que
antes de lhe conceder algum crédito será preci-
so esquecer a precedente e o desprezo em que
caiu.
Poderia acrescentar aqui algumas conside-
rações acerca da valentia e da diferença entre
essa virtude e as demais. Mas é assunto de que
Plutarco tratou mais de uma vez e não me
caberia senão repeti-lo. É de se notar entre-
tanto que entre nós dá-se à valentia o primeiro
lugar como o testemunha seu nome, o qual
vem de valor; e quando dizemos de um homem
“que tem muito valor” ou que & um homem de
bem, isso significa na linguagem da Corte e da
nobreza que é um homem valente. Assim o
entendiam igualmente os romanos. Entre eles a
palavra virtude na sua acepção mais ampla
queria dizer força. Em França somente o servi-
ço militar concede título de nobreza. É condi-
ção essencial e exclusiva. É provável que essa
virtude que primeiro assinalou a superioridade
de um homem sobre o outro fosse a princípio a
que mais impressionou. Através dela os mais
fortes e corajosos dominaram os mais fracos e
assim granjearam reputação e situação espe-
cial, o que lhe valeu o lugar tão elevado e hon-
roso que ocupa em nossa língua. Pode ter
acontecido também que nossos antepassados,
de temperamento belicoso, tenham dado pree-
minência a essa virtude que lhes era familiar,
designando-a por isso por um vocábulo à altu-
ra da estima que por ela nutriam. É um senti-
mento análogo aó que, na nossa paixão pela
castidade da mulher, faz que ao dizermos uma
mulher boa, uma mulher de bem, honrada ou
virtuosa queiramos apenas referir-nos a uma
mulher casta, como se a fim de obrigá-la a ser
casta pouca ou nenhuma importância désse-
mos às outras qualidades e lhe perdoássemos
quaisquer faltas contanto que continue pura.
CapíruLO VIII
Da afeição dos pais pelos filhos
Senhora, se a originalidade e a novidade que
em geral valorizam as coisas não me salvarem,
nunca sairei com honra desta tola empresa.
Mas ela é tão fantástica e se apresenta sob
uma forma tão diferente da comum, que talvez
por isso mesmo seja aceita: Uma melancóiica
186 MONTAIGNE !
disposição de espírito, inimiga de meu tempe-
ramento natural, mas provocada pelas triste-
zas da solidão em que vivo sumido hã alguns
anos, engendrou em mim a idéia de escrever.
Achando-me inteiramente desprovido de qual-
quer assunto específico, tomei a mim mesmo
como objeto de análise e discussão. Concebido
nessa ordem de idéias, extravagante e fora de
todas as regras convencionais, meu livro tor-
nou-se o único do mundo no gênero. À parte
esse aspecto estranho, não merece ele atrair a
atenção, pois a tão magro e insosso tema não
daria relevo o melhor artesão da terra. E,
senhora, em sendo minha intenção pintar-me
com a possível exatidão, omitiria um fato
importante se calasse a homenagem que sem-
pre prestei a vossos méritos. Essa homenagem
eu a quis confirmar de maneira especial na
dedicatória deste capítulo, tanto mais quanto,
entre as vossas excelsas qualidades, ocupa o
primeiro lugar a afeição que dedicais a vossos
filhos. Quem souber da idade em que o Sr.
d'Estissac vos deixou viúva, dos grandes e
honrosos partidos que se vos ofereceram,
como grande dama de França que sois, da
constância e da resolução com que durante
muitos anos e em meio a dificuldades inúmeras
administrastes os bens e negócios de vossos fi-
lhos percorrendo sem cessar o país, bens e
negócios que ainda agora vos absorvem, dos
felizes resultados que alcançastes graças à
vossa prudência e que alguns atribuirão à
vossa sorte, quem souber disso tudo dirá comi-
go por certo que não há entre nós nestes tem-
pos mais admirável exemplo de afeição mater-
na. Louvado seja Deus que consentiu fosse
essa afeição tão bem empregada. As brilhantes
esperanças que dá de si vosso filho são a
garantia de que na idade certa tereis dele a gra-
tidão e a obediência de um excelente menino.
Por ora não pode ainda compreender os escla-
recidos € incessantes cuidados que lhe prodiga-
lizais. Espero que estas linhas se por acaso lhe
cairem sob os olhos, quando minha boca se
houver cerrado e minha palavra calado, sejam
o testemunho desta verdade, a qual lhe será
melhor comprovada pelos preciosos resultados
que, se aprouver a Deus, terá então alcançado.
Não há fidalgo em França que mais deva à sua
mãe e ele não poderá mais tarde dar melhor
prova de seu bom coração e de sui virtude
senão reconhecendo o que fizestes.
Se alguma lei natural existe, isto é; algum
instinto que se manifeste sempre em todos, bi-
chos e gente (embora haja quem diga o contrá-
rio), é, a meu ver, a da afeição que quem
engendra dedica ao engendrado, sentimento
esse que vem logo após o cuidado que cada
qual tem com sua conservação e com evitar o
que lhe pode ser nocivo. À própria natureza o
“parece ter desejado, a fim de que as diferentes
peças da máquina por ela criada se desen-
volvam e progridam. Daí não ser de se estra-
nhar que a afeição da criança pelos pais se re-
vele menor. À isso se acrescenta a afirmação
de Aristóteles de que quem faz bem a outrem
ama-o mais do que é por ele amado; que aque-
le a quem devem ama mais a seu devedor do
que este ao seu protetor. Todo operário aprecia
mais a obra que criou do que por ela seria
apreciado se ela fosse capaz de ter sentimento.
O que temos de mais caro é a vida; esta con-
siste em movimento e ação. Daí uma certa
compensação geral. Quem dá cumpre um aàto
belo e honesto; quem recebe apenas faz obra
útil a si próprio. Ora, o útil agrada menos do
que o honesto. O honesto é estável e perma-
nente e proporciona a seu autor uma recom-
pensa que se perpetua, enquanto o útil se perde
e a recordação que fica é menos agradável e
doce. As coisas boas nos são tanto mais caras
quanto mais nos custam. E dar é mais precioso
do que receber.
Posto que aprouve a Deus dotar-nos de al-
guma capacidade de raciocínio a fim de que
não nos assemelhássemos aos animais, sujeitos
às leis comuns, e nos foi permitido aplicá-las
Judiciosamente de acordo com o nosso arbí-
trio, devemos atentar para os desígnios da
natureza, sem contudo nos escravizarmos a
ela, pois somente a razão deve regular as nos-
sas inclinações.
Quanto a mim, não sinto nenhuma simpatia
por essas inclinações que surdem em nós
independentemente da nossa razão. Por exem-
plo, a respeito do que estou comentando, não
posso conceber que se beijem as crianças
recém-nascidas ainda sem forma definida, sem
sentimento nem expressão que as tornem dig-
nas de amor. Por isso mesmo foi com desa-
grado que as tive educadas ao meu lado. Uma
afeição sincera e justificável deveria nascer do
conhecimento que nos dão de si e com esse
conhecimento crescer, a fim de que então, se o
merecerem, e desenvolvendo-se de par com o
bom senso essa disposição para as amar, che-
guemos a uma afeição realmente paternal. Se
não forem dignos desta, nós o perceberemos
dando sempre ouvido à razão, apesar das
sugestões em contrário da natureza. Amiúde é
O inverso que ocorre. Em geral sentimo-nos
mais comovidos com os trejeitos, os folguedos
e as bobagens das crianças do que mais tarde
com seus atos conscientes, e é como se delas
gostâssemos à maneira de símios e não de
homens. Há quem as encha então de brinque-
ENSAIOS — TI
dos e se neguem, quando já grandes, a efetuar
a menor despesa em seu benefício. Dir-se-ia
mesmo que o ciúme de as ver em boas condi-
ções na sociedade, na hora em que já nos cabe
abandoná-la, torna-nos mais parcimoniosos e
avarentos; como se temêssemos tê-las aos nos-
sos calcanhares a nos empurrarem para fora.
Isso em verdade não nos deveria comover
tanto, ou então não deveríamos pensar em ter
filhos, pois estã na ordem das coisas não pode-
rem eles existir, nem viver, senão a expensas de
nossa própria existência.
Acho cruel e injusto não repartirmos com
“nossos filhos o gozo de nossos bens, não os
associarmos aos negócios domésticos, em se
tornando capazes, nem nada sacrificarmos das
nossas comodidades para prover as deles
quando para tanto é que os pomos no mundo.
Não é justo ver um ancião alquebrado, semi-
morto, gozar sozinho em um canto do lar os
bens que dariam para o bem-estar de vários
filhos, deixando-os perder-se em seus melhores
anos de vida sem que tenham a oportunidade
de entrar para o serviço público e de aprender
a conhecer os homens. Forçando-os ao deses-
pero, levam-nos a tomar qualquer caminho,
por pior que seja, a fim de se sustentarem; e
conheci muitos, de boa família, que se habitua-
ram ao roubo, a ponto de não mais o abando-
narem, mesmo sendo severamente punidos.
Conheço um, de excelente aparência, a quem,
a pedido do irmão, mui honesto e valente fidal-
go, interroguei a respeito. Confessou-me fran-
camente que fora levado a isso pela avareza de
seu pai e já estava tão habituado a essa vida
que não a podia mais deixar. Acabava de ser
surpreendido roubando as jóias de uma senho-
ra a cujo despertar assistira com outras pes-
soas. Isso me traz à mente o que me contaram
de outro fidalgo, tão condicionado a esse belo
ofício que exercera na mocidade que, entrando
na posse de seus bens e decidido a renunciar à
paixão do roubo, não o conseguia entretanto e
se porventura passava por algum armazém em
que via algo desejável o roubava, mandando
pagá-lo depois. E vi outros muitos que por
impulso e hábito roubavam objetos das pes-
soas de sua sociedade com a intenção de os
devolver mais tarde. Sou gascão e no entanto é
esse um dos vícios que menos compreendo, e o
detesto mais ainda por temperamento do que
por razão; mesmo em pensamento não sou ten-
tado a tirar o que quer que seja de alguém.
Minha terra ºº é a esse respeito um pouco mais
desacreditada do que as outras terras de Fran-
68 A Gasconha. Os gascões tinham fama de
ladrões.
187
ça, bem o sei, e contudo temos visto ultima-
mente nas mãos da justiça gente de condição
elevada de outras províncias, acusada de rou-
bos cometidos em circunstâncias abomináveis.
Creio que essa depravação pode ser imputada,
até certo ponto, ao vício que assinalei como
peculiar acs pais.
Poderão responder-me, como o fez certa vez
um senhor de bom senso e mui correto, que me
disse que, “se economizava, fazia-o apenas a
fim de poder continuar a ser honrado e procu-
rado pelos seus, pois tendo-lhe a idade sone-
gado qualquer outro meio de ação era esse o
único que lhe restava para conservar sua auto-
ridade junto à família e para não ser despre-
zado por todos”. Isso talvez se justifique, mas
não é somente a velhice que predispõe à avare-
za; é, principalmente, como observa Aristóte-
les, a imbecilidade. Eis uma explicação, porém
o mal é que convém extirpar. Infeliz será o pai
se a afeição (se é que assim se pode chamar) de
seus filhos se subordina à necessidade que têm
dele. E pela virtude e a capacidade que impo-
mos o respeito, pela bondade e a cordura dos
costumes que somos amados. As próprias cin-
zas de uma matéria preciosa têm valor e está
em nossas tradições respeitar e honrar os ossos
e os restos das pessoas que se tornaram ilus-
tres. Por mais caduco e decrépito que se mos-
tre na velhice, um personagem cuja vida foi
respeitável não será menos venerável, sobre-
tudo para seus filhos cuja alma terá sido for-
mada no sentimento do dever, sob a égide da
razão e não da necessidade ou do constrangi-
mento e da autoridade: “engana-se a meu ver
quem imagina ter sua autoridade mais solida-
mente assegurada pela força do que pela
afeição 78º.
" Sou inteiramente contrário a qualquer vio-
lência na educação de uma alma jovem que se
deseje instruir no culto da honra e da liberda-
de. O rigor e a opressão têm algo de servil e
acho que o que não se pode obter pela razão, a
prudência, ou a habilidade, não se obtém ja-
mais pela força. Fui educado assim, dizem-me,
desde a minha primeira infância. Só duas vezes
me bateram e ainda assim com muito cuidado.
Teria agido da mesma forma com meus filhos,
mas todos morreram cedo demais. Leonor, a
única filha que não tive a infelicidade de per-
der em semelhantes circunstâncias, chegou à
idade de seis anos — e mais — sem que se
empregasse para puni-la de seus pequenos
erros infantis (de que a mãe, na sua indulgên-
cia, era até certo: ponto culpada), senão pala-
vras, 6 bem anódinas. Se as esperanças que pus
8º Terêngio.
138
nela viessem a ser desmentidas, a outras razões
o poderiamos atribuir sem incriminar o meu
sistema de educação que, estou certo disso, é
Justo e natural. Com um menino teria obser-
vado ainda mais fielmente tais princípios, pois
os rapazes se destinam menos a obedecer aos
outros e são mais livres; gostaria de desen-
volver em seu coração a ingenuidade e a fran-
queza. O único resultado que pude constatar
no emprego da vara ou do chicote foi tornar as
almas mais covardes e mais obstinadas no.
mal.
Queremos ser amados de nossos filhos? Evi-
tar que sejam tentados a desejar a nossa morte,
embora em nenhuma circunstância um tal de-
sejo se desculpe ou justifique, pois “nenhum
crime tem justificativa 7º”? Demo-lhes uma
vida tão razoável quanto possível. Para tanto
não deveriamos casar muito jovens, a fim de
que nossa idade não se confunda quase com a
deles, do que podem decorrer graves: inconve-
nientes. Digo isso tendo principalmente em
vista a nobreza que vive na ociosidade e tão-
somente de suas rendas, pois nas outras classes
da sociedade são forçados a trabalhar para
viver e o número de filhos constitui uma fonte
de rendimento, porque são verdadeiros instru-
mentos de enriquecimento.
Casei com trinta e três anos, mas acho que
deveríamos fazê-lo aos trinta e cinco, como su-
gere Aristóteles. Platão não quer tampouco
que casemos antes dos trinta, mas caçoa com
razão dos que contratam núpcias após os cin-
quenta e cinco, declarando que sua progeni-
tura é indigna de viver. Tales fixou melhor
ainda os limites da idade. Na mocidade, à sua
mãe, que instava para que casasse, respondeu
que “ainda não era tempo”. Mais tarde, já
maduro, objetou “que não era mais tempo”.
Cada coisa tem sua hora; o que não chega no
momento certo deve ser afastado. Os antigos
gauleses consideravam muito repreensível ti-
vesse o homem relações com a mulher antes
dos vinte anos e recomendavam expressamente
aos que queriam seguir a carreira das armas
que se conservassem virgens durante longos
anos, pois a energia diminui e se altera ao con-
tato da mulher: “ele é agora o marido de uma
jovem, e é pai, essa dupla felicidade diminui-
lhe a coragem””!.
Muley Hassem, rei da Tunísia, a quem Car-
los Quinto devolveu o trono, censurava a
memória de Maomé, seu pai, pelo abuso que fi-
zera das mulheres e o considerava pesadão e
efeminado, capaz tão-somente de fazer filhos.
7º Tito Lívio.
71 Tasso.
MONTAIGNE
A história grega relata que Jecus de Tarento,
Crisson, Ástilo, Diopompo e outros, a fim de
se manterem em boa forma para os jogos olim-
picos, se privavam de quaisquer relações com
as mulheres durante todo o tempo do treina-
mento. Em certas regiões das Índias espanho-
las não autorizavam o casamento dos homens
antes dos quarenta anos, embora as mulheres
pudessem casar aos dez. Um fidalgo de trinta e
cinco anos não pode oferecer um lugar na
sociedade a seu filho de vinte; o pai é que está
na idade de guerrear e frequentar a Corte; pre-
cisa de todos os seus recursos € se algo deve
ceder não o fará em detrimento de seus interes-
ses. E com razão dirá isso que costumam dizer
os pais: não quero despir-me antes de ir
dormir.
Mas um pai acabrunhado pelos anos e as
enfermidades, obrigado a viver afastado de
tudo em virtude de sua saúde e da carência de
forças estã errado, e prejudica aos seus, se con-
serva sem a usar uma fortuna acima de suas
necessidades. Em sendo bem-avisado e tendo
meios, sem se despojar da própria camisa na
hora de dormir, e conservando ainda um bom
roupão bem quente, será levado a dar o resto,
que só serve para uma representação fora de
suas possibilidades, áqueles que, por direito
naturai, o deverão herdar. É razoável que lhes
entregue tais bens, pois que deles não pode
gozar. Agir de outro modo é sem dúvida agir
mal e obedecer a um sentimento mesquinho. O
mais belo gesto de Carlos Quinto foi ter sabi-
do, a exemplo de alguns antigos de seu quilate,
reconhecer que a própria razão nos manda
despojar-nos das vestimentas que pesam dema-
siado sobre nossos ombros e deitar-nos quan-
do as pernas fraquejam. Abdicou a glória e o
poder, entregando-os ao filho no momento em
que viu se enfraquecerem a tenacidade e a
força necessárias para dirigir os negócios pú-
blicos com a grandeza que alcançara: “Já é
tempo de abandonares teu cavalo velho, se não
queres vê-lo ofegante, tropeçando ao fim da
corrida, e ridicularizado” ? 2.
Esse erro de não saber reconhecer em tempo
oportuno o enfraquecimento e a profunda alte-
ração que a idade acarreta às nossas faculda-
des fisicas e morais, e talvez mais ao espirito
do que ao corpo, deu por terra com a reputa-
ção de quase todos os grandes homens do
mundo. Conheci pessoalmente personagens de
elevada condição social que souberam con-
quistar reputação e autoridade em seu bom
tempo e que na decadência as perderam; para
o brilho de sua fama houvera querido vê-los
72 Horácio.
ENSAIOS — II 189
retirados em suas casas, tranquilamente, livre
dos encargos públicos por demais pesados e
deveres militares que já não podiam cumprir.
Tive outrora grande intimidade com um fidal-
go viúvo e muito idoso, mas bastante conser-
vado. Tinha várias filhas em idade de casar e
um filho no ponto de ingressar na sociedade.
Isso redundava para ele em uma fonte de des-
pesas assaz pesadas e o obrigava a receber
muita gente, o que não lhe agradava nada, não
só porque contrariava a sua inclinação para a
poupança, mas ainda — e em particular —
porque em razão da sua idade levava uma vida
diferente da nossa. Disse-lhe um dia, o que era
ousado de minha parte mas muito dos meus
hábitos, que se por causa de seus filhos não
podia evitar os aborrecimentos que lhe causá-
vamos fora mais inteligente que entregasse a
casa a seu filho e se retirasse em uma de suas
propriedades onde ninguém lhe perturbaria o
repouso. Assim fez mais tarde e não se
arrependeu.
Isso não quer dizer que devamos tudo aban-
donar a nossos filhos sem possibilidade de vol-
tar atrás. Eu lhes deixaria o gozo da casa e dos
bens, mas com a condição de revogar essa
disposição caso me dessem motivo para tanto.
Dar-lhes-ia o usufruto porque me seria cômo-
do e quanto à direção geral de meus negócios
conservaria o que me apetecesse. Sempre pen-
sei que deve ser grande satisfação para um pai,
em sua velhice, ter iniciado os filhos na gestão
de seus negócios e poder assim, ainda em vida,
julgar sua maneira de agir, ajudando-os com
os conselhos de sua experiência. Entregando
ele próprio nas mãos de seus sucessores, com as
tradições do passado, a honra e a direção de
sua casa, verifica assim que esperanças pode
alimentar acerca de seu destino. Não evitaria
sua companhia € gozaria com eles, na medida
do possível, das alegrias e festividades. Sem
viver com eles, o que não poderia fazer sem os '
perturbar com o gênio melancólico decorrente
de minha idade, e com os incômodos de mi-
nhas enfermidades, bem como sem mudar o
gênero de vida e regime a que estaria adstrito,
gostaria de viver perto deles, em algum recanto
da residência que não seria o mais em evidên-
cia e sim o mais cômodo. Não faria como o
decano de Saint-Hilaire de Poitiers que vi há
tempos confinado em uma tal solidão pela
melancolia de que fora contaminado que,
quando entrei em seu aposento, havia vinte e
dois anos que não saía dele, e no entanto tinha
os movimentos livres e fáceis e somente sofria
de um defluxo que lhe passara ao estômago.
Estava sempre só, fechado no quarto. Uma vez
por semana permitia que entrassem para visi-
tá-lo; um criado trazia-lhe a refeição uma vez
por dia, mas devia entrar € sair apenas. O resto
do tempo passeava no quarto e lia, pois era
versado no estudo das letras. Disposto a assim
continuar até a morte, faleceu pouco depois.
Com boas maneiras procuraria desenvolver
em meus filhos uma afeição sincera e impreg-
nada de benevolência para comigo, o que não é
dificil conseguir com gente de bons sentimen-
tos. Mas se fossem animais furiosos como
nosso século produz aos milhares, trataria de
odiá-los e fugir deles.
Sou inimigo desse costume que proíbe às
crianças chamarem a seus pais, “pai e mãe”, e
impõe como mais respeitosa uma denomina-
ção que não acentua o parentesco, como se a
natureza não coadjuvasse nossa autoridade.
Damos o nome de pai a Deus Todo-Poderoso
e não queremos que nossos filhos o empre-
guem conosco. Eis um erro que corrigi em
casa.
É igualmente estultice e injustiça não tratar
os nossos filhos, quando em idade conveniente,
com certa familiaridade, e desejar manter em
relação a eles uma altivez austera e desde-
nhosa, na esperança de assim os educar no res-
peito e na obediência. E uma farsa inútil que
torna os pais aborrecidos e, o que é pior, ridí-
culos. Tem os filhos por si a mocidade e a
força, por conseguinte a aprovação da socieda-
de. As atitudes altivas e tirânicas de um velho
já sem sangue nas veias fazem sorrir; são
espantalhos para afugentar os pássaros do jar-
dim. Mas ainda que me fosse possível tornar-
me temido preferiria ser amado. Há tantos
defeitos na velhice, tanta impotência, ela pres-
ta-se tão bem ao desprezo, que o que de melhor
pode juntar a seu ativo é a afeição, o amor dos
seus. O mando e o terror já não são armas em
suas mãos.
Conheci alguém que foi muito autoritário na
mocidade. Atingiu-o a idade, mas ele ainda se
conserva em boas condições; bate, morde,
invectiva, mostra-se o senhor mais difícil de
França; esgota-se em cuidados e vigilância.
Tudo isso não passa de comédia. Em torno
dele hã uma verdadeira conjura de que parti-
cipa sua própria família. A maior parte do que
existe em sua adega, no seu celeiro, na sua
bolsa é para os outros, embora ele guarde as
chaves consigo e delas cuide mais que dos pró-
prios olhos. Enquanto se contenta com viver
de poupanças e com uma mesa mesquinha, em
todos os recantos de seu lar impera o desregra-
mento; divertem-se, esbanjam, motejam das
quimeras que criam sua cólera vã e sua previ-
dência. Todos estão de sentinela; se por acaso
algum insignificante servidor se revela dedi-
190 | MONTAIGNE |
cado a ele, excitam contra o importuno as
desconfianças do patrão, o que é coisa fácil,
porquanto tendência natural dos velhos. Mui-
tas vezes jactou-se ele junto a mim da firmeza
com que segura as rédeas da casa, da
obediência absoluta e do respeito que lhe devo-
tam. Em verdade enxerga muito mal os seus
negócios! “Só ele ignora o que ocorre em sua
casa” 73. Não conheço ninguém com maiores
recursos naturais e de experiência para dirigir
uma casa e nenhum outro mais enganado; foi
o que me fez escolhê-lo como exemplo típico
de casos semelhantes que conheço. Será me-
lhor assim ou não? Eis uma questão escolás-
tica que daria margem a muito devaneio.
Aparentemente cedem sempre, mas trata-se de
concessão de nenhum alcance; não lhe resis-
tem, escutam-no, temem-no, respeitam-no
quanto quer. Despede um criado? Este arranja
seus trapos e se vai, mas tão-somente para fora
de sua presença. A velhice é tão vagarosa, seus
sentidos perturbam-se tão facilmente que dito
criado continuará a seu serviço durante um
ano ainda sem que ele o perceba. Ao fim de um
lapso de tempo suficiente, começam a chegar
cartas de longe implorando mercê e prenhes de
promessas, e ei-lo novamente nas boas graças
do amo. Fecha algum negócio ou escreve algu-
ma carta desagradável, suprimem-nos e poste-
riormente se encontra uma desculpa para a
não execução de suas ordens. Nenhuma carta
de fora lhe é entregue de imediato; vê apenas
as que não são de recear que tome conheci-
mento. Se por acaso põe a mão em alguma que
se tenha interesse em esconder, como tem por
hábito passá-la a outrem para que a leia,
lêem-lhe o que bem entendem. Assim é que não
raro quem o insulta parece pedir-lhe perdão.
Em suma, todas as coisas se oferecem a seus
olhos sob um aspecto satisfatório, regrado de
antemão, a fim de que não se desperte sua có-
lera nem seu mau humor. Com variantes
conheci muitas casas em que os negócios
domésticos se regulavam de maneira igual-
mente fantasista.
As mulheres têm sempre uma tendência
natural para contrariar os maridos; não per-
dem uma só ocasião de fazer o contrário do
que eles querem e a mais tola desculpa basta
para justificá-las plenamente aos próprios
olhos. Conheci uma que roubava quantias
importantes para, como dizia a seu confessor,
dar esmolas maiores. Ide confiar-vos nessas
obras pias! Nenhum prazer se lhes afigura
digno se com ele concorda o marido; para que
lhes seja agradável e o considerem, é preciso
73 Terêncio.
que dele se apropriem com habilidade e autori-
dade e nunca da maneira por que deveriam
fazê-lo. Quando acontece, comô no caso acima
citado, que a mulher tem a ver com um pobre
ancião e age em benefício dos filhos, isso se
torna uma verdadeira paixão de que se jacta. E
para libertar-se ela e os seus da servidão
comum, chega facilmente a conspirar contra o.
domínio e a administração do marido. Se os fi-
lhos já são grandes, não hesitam em subornar
pela intimidação ou a corrupção o mordomo,
o agente de negócios e os outros. Quem não
tem nem mulher nem filhos está mais do que
os outros ao abrigo dessas desgraças, mas,
quando nelas cai, é de maneira mais cruel e
indigna. Dizia Catão, de sua época: “tantos
criados quantos inimigos”. Não pensais que,
dada a relativa pureza de seu século, compara-
tivamente ao nosso, ele diria hoje: “mulher,
filhos, criados, todos inimigos?” Felizmente a
decrepitude traz consigo um defeito de clarivi-
dência, uma ignorância do que se passa em
torno de nós, uma facilidade em nos deixar
enganar que são verdadeiros favores dos deu-
ses. Se assim não fosse e quiséssemos protes-
tar, que nos aconteceria nestes tempos em que
os juízes chamados a intervir nas dissensões
tendem eles próprios a dar razão aos filhos
interessados na questão. Se não percebo tais
artes domésticas não quero com isso-dizer que
me sinta livre de riscos. Por isso nunca se
encarecerã demasiado a superioridade de um
amigo sobre essas relações sociais. O que vejo
na sociedade dos animais inspira-me maior
respeito pela sua pureza” *. Se os demais me
enganam, ao menos não me engano a mim
mesmo, não forjo a ilusão de me acreditar tão
forte que possa evitar uma armadilha, nem dou
tratos à bola para alcançar esse privilégio.
Consolo-me com meus recursos interiores, não
com curiosidade inquieta e sempre alerta, mas
com diversões que iríivento e resoluções que
tomo. Quando ouço contar o que acontece à
alguém, não me apiado: volto-me para mim
mesmo e observo em que medida o fato pode-
ria aplicar-se a mim. Tudo o que diz respeito
ao próximo me diz respeito igualmente; qual-
quer acidente que lhe ocorra é uma advertência
para a qual atento. Todos os dias e a todas as
horas dizemos de outrem o que mais justa-
mente poderiamos dizer de nós, se nos, soubés-
semos observar tão bem quanto aos outros.
Muitos autores prejudicam sua causa entre-
gando-se irrefletidamente a ataques contra o
74 Todo o trecho é confuso. Houve interpolações
assinaladas por Thibaudet e efetuadas sem dúvida
por motivos de ordem familiar. (N. do T.)
ENSAIOS — II
adversário, lançando-lhe censuras e motejos
que podem ser devolvidos.
O falecido Marechal de Monluc tendo perdi-
do um filho na ilha da Madeira, jovem fidalgo
que muito prometia, contava-me sua tristeza
insistindo principalmente sobre o fato de
nunca ter tido maior intimidade com ele. Para
conservar em relação a ele a gravidade e a dis-
tância de que às mais das vezes se reveste a
autoridade paterna, privara-se voluntariamente
do prazer de apreciar e conhecer melhor o seu
filho e também de lhe revelar a profunda afei-
ção que lhe votava e a estima que lhe dedicava
por suas qualidades: “esse pobre rapaz, dizia,
nunca me viu senão carrancudo e aparente-
mente desdenhoso; levou consigo a crença de
que eu não o soube amar nem lhe apreciar os
méritos. A quem deveria eu, senão a ele,
demonstrar a ternura de meu coração? Com
ele sem dúvida devia abrir-me para que tivesse
alguma alegria e gratidão. Esforcei-me, tortu-
rei-me para conservar essa máscara va de indi-
ferença; isso me fez perder o prazer de sua
companhia, bem como de sua afeição, pois
nunca foi senão maltratado e por vezes tirani-
camente”. Acho tais sentimentos justos e
razoáveis. Bem Oo sei, por experiência, que
nada suaviza mais a tristeza que sentimos com
a perda de um amigo quanto a certeza de não
havermos omitido o que quer que fosse do que
cumpria dizer-lhe, e de ter estado com ele em
comunicação perfeita de idéias e emoções.
meu amigo, essa permuta de idéias entrê
nós terá sido um bem para mim? Ou um mal?
Foi um bem, sem dúvida; a saudade que con-
servo de ti honra-me e me consola. É dever pie-
doso e agradável de minha vida rememorar
constantemente os fatos que passaram, mas
cuja privação nenhum gozo compensa? 8.
Abro-me aos meus o quanto posso e lhes
mostro de bom grado a disposição de espírito
em que me acho; assim faço aliás com todos.
Apresso-me em me apresentar como sou, por-
que não quero que se enganem.
Lê-se em César que entre os costumes pecu-
liares aos nossos antepassados gauleses os fi-
lhos não se apresentavam aos pais, nem ousa-
vam aparecer em público com eles, enquanto.
não atingiam a idade de se armarem, como se
com isso sugerissem que então chegara o
momento para os pais de os receberem e se
mostrarem familiares.
Tenho observado ainda outro gênero de
abuso em alguns pais de família. Não satis-
feitos com ter privado seus filhos de sua parte
75 Este parágrafo da edição de 1595 figura em
nota na edição da Pléiade. Achamos melhor interca-
lá-lo no seu lugar primeiro. (N. do T.)
191
na renda que naturalmente lhes devia caber —
e isso durante longo tempo — deixam a suas
mulheres a posse de todos os bens com o direi-
to de disporem deles a seu bel-prazer. Conheci
um fidalgo que ocupava um dos cargos mais
importantes de França e que pelos seus direi-
tos tinha a esperança de receber mais de cin-
quenta mil escudos de renda e morreu aos cin-
quenta anos em dificuldades, crivado de
dívidas, com a mãe inteiramente decrépita
desfrutando toda a fortuna por vontade do pai,
O qual vivera cerca de oitenta anos. Isso não
me parece razoável. E no entanto não vejo
vantagem em que alguém, em boa situação
financeira, procure aliar-se a uma mulher que
lhe traga bom dote; de todas as dívidas que
podemos ter não hã nenhuma mais suscetível
de causar a ruína de uma casa. Meus pais
muito judiciosamente o evitaram. E eu tam-
bém. Contudo os que se afastam das mulheres
ricas com receio de que sejam orgulhosas e
dominadoras, não procedem tampouco ajuiza-
damente, pois perdem uma vantagem real e
tangível de medo de uma conjetura duvidosa.
Uma mulher insensata, não a detém a fortuna
nem a pobreza: o que gosta é de seus próprios
erros; o mal a atrai como a virtude atrai as
boas. As mais ricas são muitas vezes as mais
cordatas, como não-.raro as mais belas são as
mais castas.
É justo que se entregue a gerência dos bens
dos menores às mães; mas os terá muito mal
educado o pai se na maioridade não puder
contar mais com eles do que com a mulher,
dada a fraqueza inerente ao sexo. Concordo
entretanto em que é ainda mais antinatural dei-
xar a mãe dependente dos filhos. É preciso
provê-la de quanto necessite para manter sua
posição social, tanto mais quanto a indigência
é muito mais penosa para a mulher do que
para o homem. Que sofram antes os filhos,
portanto, que a progenitora.
Em geral a melhor partilha que podemos
fazer de nossos bens ao morrer consiste em
obedecer aos costumes do país, e as leis os
levaram em conta melhor do que o faríiamos, e
é preferível que elas se enganem na escolha a
incorrermos nós mesmos no erro agindo
inconsideradamente. Nossos bens, em verdade,
não nos pertencem, por isso que os disposi-
tivos legais determinam, sem ponderar a nossa
vontade, os que os devem possuir depois de
nós. Embora tenhamos alguma liberdade de
escolha, acho que é preciso um motivo sério,
indiscutível, para que tiremos de alguém o que
os fados lhe reservaram e as leis lhe autorizam
a possuir. E é abusar dessa liberdade pô-la a
serviço de nossas fantasias pessoais e por
- 192 MONTAIGNE
vezes fúteis. O destino não me deu oportuni-
dade para que me sentisse tentado a desviar
minha afeição daqueles a quem devia legitima-
mente dedicá-la, mas vejo muita gente com a
qual perdemos tempo em nos afeiçoarmos.
Uma simples palavra mal interpretada destrói
o mérito de dez anos. Feliz então quem tem a
sorte de se aproveitar dos últimos momentos!
A derradeira ação é a vencedora, não a melhor
nem a mais constante; a mais recente e pre-
sente é que produz efeito. Assim, pois, há pes-
soas que usam seu testamento como se se tra-
tasse de doces ou chicotes a fim de premiar ou
punir os interessados nele. O testamento
exige porém reflexão e é coisa demasiado
importante para que se modifique ao sabor da
hora. Os homens sensatos fixam sua vontade
de um modo definitivo, sem que os movam
senão a razão e a obediência às leis. Também
nos preocupamos demais com fazer cair a
herança nas mãos dos varões, na esperança de
dar a nossos nomes uma eternidade ridícula.
De igual maneira ponderamos exageradamente
as conjeturas incertas do futuro que vislum-
bramos nos filhos. Não fora injusto me poster-
garem em benefício de meus irmãos por ter
sido eu o mais lento, lerdo, e embotado na
infância, e não somente quanto aos exercícios
físicos mas também intelectuais? É loucura
estabelecer distinções baseadas no que pensa-
mos adivinhar e que raramente se confirma. Se
podemos infringir essa lei e corrigir a sorte
reservada a nossos herdeiros, só devemos
fazê-lo a fim de atender a uma situação espe-
cial, uma deformidade física, por exemplo, o
que constitui vício insanável e para mim, gran-
de apreciador da beleza, causa de grave
prejuízo. é
Aqui transcrevo, para dar maior brilho à
minha prosa, o divertido diálogo do legislador
de Platão com seus concidadãos: “Como,
dizem-lhe, sentindo nosso fim próximo não
poderemos dispor do que nos pertence em
favor de quem nos apeteça? Ô deuses! Que
crueldade! Tirai-nos'a possibilidade de dar
mais ou menos, segundo a nossa vontade,
àqueles que nos prodigalizaram seus cuidados
quando estávamos doentes, durante a nossa
velhice, ou que geriram nossos bens!” Ao que
responde o legislador: “Meus amigos, sem dú-
vida não tardareis a morrer e — assim se ins-
creve no templo de Delfos — como vos é difi-
cil conhecer-vos e conhecer o que é vosso, eu
que faço as leis julgo que não vos pertenceis e
aquilo que desfrutais tampouco vos pertence.
Vós e vossos bens pertenceis à vossa família
passada e futura. Mais ainda, vós, vossa fami-
lia e vossos bens pertenceis ao povo. Eis por
que, de medo que algum adulador esperto,
durante a vossa velhice ou a vossa doença, ou
alguma paixão vos inspirem um testamento
iníquo, eu vos preservarei do risco. E como
respeito o interesse comum da República, e de
vossa casa, farei leis em que, como é natural, o
interesse público primará sobre o particular.
Ide, pois, onde o destino comum vos chama; a
mim, que não me apaixono nem por uma coisa
nem por outra e que na medida do possível só
me preocupo com o interesse de todos, cabe
cuidar do que deixardes.”
Voltemos ao nosso tema. Parece-me, qual-
quer que seja o nosso ponto de vista, que pou-
cas mulheres nascem com aptidões bastantes
para que sua autoridade se imponha ao
homem, fora da autoridade materna e da
influência que por sua própria natureza exer-
cem. Somente os temperamentos fracos, os que
são incapázes de opor um dique à febre amoro-
sa, se submetem, para sua desgraça, volunta-
riamente a elas; mas isso não diz respeito às
velhas de. que aqui falamos. Por esse motivo
certamente se estabeleceu essa lei, tão favora-.
velmente acolhida e cujo texto nunca se viu,
que priva as mulheres do direito à coroa. Não
há soberania no mundo em que a questão não
tenha sido discutida em virtude dos motivos
que justificam o princípio, mas em verdade
certos países a resolveram diferentemente.
É perigoso permitir que a mulher disponha à
vontade de seus bens, pois a escolha que faz
entre seus filhos é sempre iníqua e fantasista,
porquanto os apetites estranhos e os gostos
depravados que se manifestam durante a gravi-
dez ficam gravados em sua alma. Não raro as
vemos dar preferência aos filhos mais doen-
tios e aleijados ou ainda aos que trazem ao
colo. Não possuindo uma inteligência bas-
tante forte para apreender e compreender as
coisas segundo seu valor próprio, entregam-se
comumente às impressões e intuições como os
animais que só reconhecem os filhotes en-
quanto os amamentam.
É de resto fácil julgar por experiência quão
pouco profundas são as raízes dessa afeição
natural a que outorgamos tamanha autoridade.
Mediante ínfimo salário, arrancamo-lhes! os fi-
lhos dos braços para que cuidem dos nossos.
Entregam os seus a alguma desprezível compa-
nheira, a quem não daríamos as crianças, ou a
uma cabra, e ajnda por cima são obrigadas a
não tratar deles a fim de empregarem todo o
seu tempo em atender aos nossos. Vemo-las
em sua maioria, e sem dúvida por hábito, nu-
trir uma afeição bastarda pelos intrusos que
aleitam, não raro mais viva do que a natural,
demonstrar mais solicitude do que o fariam
ENSAIOS — II 193
com seus próprios filhos. Se falei de cabra é
porque em nossa terra quando as mulheres não
podem amamentar seus filhos recorrem às
cabras. Estas acostumam-se rapidamente a
aleitar as crianças, conhecem-nas pela voz e
acorrem quando gritam. Se lhes apresentam
uma estranha, recusam-na; por seu lado a
criança aborrece um animal que não o habi-
tual. Sei de um menino a quem retiraram a
cabra que o pai pedira emprestada a um vizi-
nho: não quis de jeito nenhum a substituta e
morreu, provavelmente de fome. Entre os ani-
mais a afeição natural se altera e se abastarda
tão facilmente quanto entre os homens. Aquilo
que, segundo Heródoto, se praticava em certas
partes da Líbia onde homens e mulheres se
uniam indiferentemente e onde a criança ao
principiar a andar reconhecia o pai entre os de-
mais homens e corria ao seu encontro natural-
mente, devia provocar inúmeros enganos, a
meu ver.
Se consideramos como única razão de amar
os nossos filhos o fato de os termos engen-
drado, o que nos leva a enxergá-los como parte
de nós mesmos, outras coisas emanam igual-
mente de nós, que não me parecem menos dig-
nas de ser amadas. O que nossa alma engen-
dra, o que nasce de nosso espirito, de nossa
coragem, de nossa capacidade, provém da
parte mais nobre do nosso corpo e são mais
nós mesmos do que os nossos filhos, pois são a
um tempo pai e mãe. Essas criações custam-
nos muito mais caro, mas também quando dão
certo nos honram muito mais. Nossos filhos
valem pelo que são, nossa parte neles é peque-
na; nessas outras emanações de nós, ao contrá-
rio, a beleza, a graça, tudo o que as valoriza é
de nossa exclusiva autoria. Por isso nos repre-
sentam melhor do que os filhos e mais do que
estes chamam a atenção dos outros para nós.
Platão acrescenta que elas é que alcançam a
imortalidade, imortalizando seus genitores até
fazer deuses deles: Licurgo, Sólon, Minos bem
o exemplificam.
Estando a história cheia de fatos que com-
provam a afeição dos pais pelos filhos, pare-
ce-me não ser fora de propósito citar alguns
casos dessa afeição que devotamos às vezes às
criações de ordem imaterial.
Heliodoro, esse bom bispo de Trica, preferiu
perder a dignidade, os proveitos de tão venerá-
vel cargo, a renegar a autoria de uma novela
de amor intitulada “Teagenes e Charicléia”,
filha” 8 ainda viva e mui gentil mas porventura
demasiado picante, e amorosa, para um pai
eclesiástico.
78 A novela.
Em Roma houve um personagem de alto
valor e prestígio chamado Labieno, que se dis-
tinguia como escritor. Era, creio, filho do gran-
de Labieno, o primeiro dos lugar-tenentes de
César, na guerra da Gália e que posterior-
mente abraçou o partido de Pompeu no qual se
conduziu muito bem, sendo afinal derrotado
pelo próprio César, na Espanha. O Labieno a
que me refiro granjeou inúmeros invejosos, por
causa de sua virtude, e provavelmente, tam-
bém, muitos inimigos entre os cortesãos e
favoritos dos imperadores, graças à sua fran-
queza € seu espirito de oposição à tirania, que
herdara do pai e devia transparecer em seus
escritos. Seus adversários processaram-no e
conseguiram que fossem alguns de seus livros,
que o haviam tornado ilustre, queimados por
sentença judicial. Com Labieno iniciou-se em
Roma a destruição de escritos e obras dos
grandes, o que ocorreu não raro posterior-
mente. Sem dúvida era reduzido o campo de
nossa crueldade e precisávamos levá-la às coi-
sas que a natureza isentou de dor e sofrimento,
como as criações de nosso espírito. Tínhamos
necessidade de submeter aos rigores da disci-
plina e da tortura a inspiração das musas.
Labieno não pôde suportar a destruição de
suas obras, nem sobreviver à perda das filhas a
que dera vida e fez-se enterrar vivo no monu-
mento funerário de seus antepassados, onde
encontrou morte e sepultura. É dificil deparar
com afeição paternal mais veemente. Cássio
Severo, amigo de Labieno, ao ver queimarem-
se os livros gritou que igual sorte devia ter ele
próprio, pois conservava na memória todo o
conteúdo das obras. Análogo acidente ocorreu
com Cremúcio Cordo, acusado de haver elo-
giado Bruto e Cássio. O miserável senado, ser-
vil e corrupto, digno de um monarca pior do
que Tibério, condenou à fogueira as suas
obras. Cremúcio Cordo, a fim de acabar junta-
mente com elas, deixou-se morrer de fome.
Lucano, esse homem de bem, condenado
pelo monstro que foi Nero, mandara cortar as
veias pelo seu médico. Agonizava e já perdera
quase todo o sangue, já o frio lhe invadia os
membros e atingia os órgãos essenciais quan-
do se pôs a recitar certos versos de seu poema
sobre a batalha de Farsália. Extinguiu-se reci-
tando-o. Era uma terna e paternal despedida a
seus filhos, à semelhança dos adeuses e abra-
ços que damos aos nossos ao abandonarmos o
mundo, a par da tendência natural que temos
para nos lembrarmos na hora suprema das coi-
sas que nos foram mais caras em vida.
Epicuro ao morrer, atormentado por terri-
vel cólica, sentia vivo consolo à idéia da beleza
da doutrina que dera ao mundo. Teria sentido
194 MONTAIGNE |
igual satisfação se houvesse deixado uma prole
numerosa e sadia? E se tivesse de optar entre
deixar um filho contrafeito e doentio ou um
livro tolo e inepto, não escolheria a primeira
desgraça?
Se, por exemplo, houvessem proposto a
Santo Agostinho a destruição dos escritos que
tantos frutos deram à nossa religião cu a perda
dos filhos que porventura tivesse, não seria
uma impiedade sacrificar os primeiros? Não
sei em verdade se não preferiria ter engendrado
um filho”? perfeito, nascido de um comércio
com as musas, a um produto das minhas rela-
ções com minha mulher. A este que sou força-
do a aceitar tal qual é, o que dou, dou-o
simplesmente e de maneira irrevogável como
tudo o que damos a nossos filhos de carne e
osso; o bem que lhe faço deixa de imediato de
ser meu. Ele pode saber coisas que já não sei
mais e ter recebido de mim coisas de que não
recordo. Se devesse emprestar-lhe algo, preci-
saria um contrato como se fora um estranho;
se sou mais prudente do que ele, ele é mais
TICO.
Poucos homens que cultivam a poesia te-
riam preferido ser autores da “Eneida” a
engendrar o mais belo rapaz de Roma e mais.
sofreriam com a perda daquela, tanto mais
7? Livro, no caso.
quanto, segundo Aristóteles, de todos os cria-
dores é o poeta o que mais facilmente se apai-
xona pelas próprias obras. Dificilmente acredi-
tariamos que Epaminondas, que se
vangloriava de deixar como descendência ape-
nas duas belas filhas capazes de honrar o pai
(referia-se às vitórias contra os lacedemônios),
consentisse em as trocar pelas mais belas
mulheres da Grécia; ou que Alexandre e César
tenham jamais desejado sacrificar a celebri-
dade granjeada com suas conquistas, à vanta-
gem de alguns filhos que lhes sucedessem, por
perfeitos que fossem.
Duvido também que Fídias ou qualquer
outro escultor de gênio houvesse preferido a
conservação dos filhos naturalmente concebi-
dos à das obras que a força de trabalho e estu-
do teria levado à perfeição.
Mesmo essas paixões contrárias à natureza
que nada detém, e que impeliram por vezes o
pai a amar a filha e a mãe a se enamorar do
filho, se encontram nesse parentesco espiritual.
Assim é que Pigmalião, tendo esculpido uma
estátua de singular beleza, por ela se apaixo-
nou tão perdida e violentamente que, cedendo
ante sua angústia, os deuses lhe sopraram a
vida. “Toca o marfim e o marfim, esquecendo
sua dureza natural, cede e amolece”” 8
78 Ovídio.
CAPÍTULO IX
Às armas dos partos
Considero um erro e um hábito efeminado o
de não se decidir, a nobreza de nossa terra, a
pegar em armas enquanto a tanto não a obriga
uma necessidade urgente, e que as deponha tão
logo se esboce a menor probabilidade de desa-
parecer o perigo. Nasce disso grande confu-
são: cada qual se põe a gritar e correr em
busca de suas armas no momento mesmo da
batalha e, enquanto alguns ainda se ocupam
com ajustar a couraça, já outros estão derrota-
dos. Nossos pais entregavam unicamente aos
servidores, para que os carregassem, o capace-
te, a lança e a manopla, conservando o resto
do equipamento enquanto durava a guerra.
Hoje entre as nossas tropas reina a desordem
em consegiência da confusão das bagagens e
dos lacaios que precisam caminhar ao lado de
seus senhores, cujas armas transportam. Fa-
lando de nossos antepassados, já dizia Tito
Lívio: “incapazes de resistir à fadiga mal po-
diam carregar suas armas aos ombros”.
Muitos povos vão entretanto para a guerra
— € iam na antiguidade — sem armaduras,
“protegendo-se apenas com armas defensivas
pouco eficientes: “cobrindo a cabeça com
capacetes de cortiça ””º
Alexandre, o mais ousado capitão de todos
os tempos, quase nunca revestia a armadura.
Os que entre nós a desdenham, não correm em
verdade maior risco, pois se há quem morra
por não a usar, menor não é o número dos que
se perderam em virtude do peso da couraça €
da dificuldade em com ela se movimentarem.
Na realidade, ante a espessura e o peso das
79 Virgilio.
e
ENSAIOS —II
nossas couraças, dir-se-ã que com elas busca-
mos unicamente defender-nos. O incômodo é
maior do que a garantia que nos oferecem. E,
tão só a fim de as carregar, já temos trabalho
demais para as nossas forças; e é como se o
combate se limitasse a um choque de armadu-
ras e não tivéssemos a mesma obrigação de
defendê-las que elas têm de nos proteger. Táci-
to pinta de modo pitoresco os guerreiros gaule-
ses, a tal ponto armados, que mal se manti-
nham de pé e não podiam atacar nem ser
atacados, e quando caiam não mais se er-
guiam.
Vendo Luculo os soldados medos que for-
mavam a vanguarda do exército de Tigranes,
pesada e incomodamente armados, e como que
encerrados em prisões de ferro, pensou ven-
cê-los sem dificuldade e contra eles iniciou o
ataque, o que constituiu o prelúdio de sua vitó-
ria. Agora que preponderam os mosqueteiros
em nossos exércitos, inventarão sem dúvida
uma muralha atrás da qual estaremos ao abri-
go dos tiros, e iremos para a guerra embutidos
em baluartes semelhantes aos que os antigos
ajustavam a seus elefantes.
Essa maneira de combater estã longe da que
praticava Cipião, o jovem, o qual censurava
amargamente a seus soldados terem semeado
de armadilhas o fundo do fosso da cidade que
sitiava, no lugar em que os sitiados podiam
executar sortidas, pois, dizia, oS sitiantes
devem preocupaf-se com atacar e não com se
defender; e supúijlha que uma tal precaução
pudesse enfraquecêr a vigilância. E à um sol-
dado que lhe exibiu um belo escudo, observou:
“Magnífico, com efeito, mas um soldado ro-
mano deve confiar mais na mão direita do quê
na esquerda.”
Somente o costume de não as usar constan-
temente faz que não lhes suportemos o peso;
“dois dos guerreiros que aqui canto, tinham
couraça e Capacete; nem de dia nem de noite,
desde que haviam entrado no castelo, despiam
essa armadura que carregavam com a mesma
desenvoltura com que usariam suas vestimen-
tas, a tal ponto se haviam acostumado a
elas es
O Imperador Caracala marchava a pé, e
inteiramente armado, à testa de suas tropas.
Os infantes romanos usavam não somente o
morrião, a espada e o escudo como também vi-
veres para quinze dias e certo número de esta-
cas para edificar as fortificações (cerca de
setenta libras). E diz Cicero que estavam tão
80 Ariosto.
195
habituados a carregar suas armas, que eram
para eles como braços e pernas: “dizem que as
armas do soldado são como seus membros”.
Assim carregados, os soldados de Mário fa-
ziam cinco léguas em cinco horas, € até seis lé-
guas se necessário. Sua disciplina militar era
muito mais rude do que a nossa e os resultados
melhores, portanto. Cipião, o jovem, ao refor-
mar o exército em operações na Espanha,
determinou que seus soldados só comessem de
pé e nada cozido. Eis a propósito um fato
espantoso: a reprimenda feita a um soldado
lacedemônio que, estando em campanha, se
abrigara em uma casa; que era vergonhoso
procurasse outro refúgio senão a abóbada
celeste, por pior que fossem as condições
climatológicas. Nossos soldados seriam inca-
pazes de suportar tais provações.
Marcelino, homem afeito às guerras roma-
nas, relata como se armavam os partos e insis-
te tanto mais no assunto quanto a maneira por
que o faziam diferia muitíssimo da dos roma-
nos: “Tinham”, diz, “armaduras como que
tecidas de pequenas plumas (provavelmente
escamas metálicas entrosando-se umas nas
outras, em uso entre os nossos antepassados),
as quais não lhes tolhiam os movimentos e
eram tão resistentes que nossos dardos não as
penetravam e se viam rechaçados ao tocá-las.”
Em outro trecho, comenta: “tinham cavalos
vigorosos e calmos, com caparazões de couro
espesso; eles próprios se armavam dos pés à
cabeça com grossas lâminas de ferro entrela-
çadas e flexíveis nas articulações, de maneira a
facilitar os movimentos. Pareciam homens de
ferro. A parte da cabeça adequava-se às for-
mas do rosto e era tão bem ajustada que não
havia possibilidade de se atingir a cara senão
pelos buraquinhos redondos dos olhos, ou
através das fendas correspondentes às narinas
pelas quais respiravam penosamente. O metal
flexível parete animado pelos membros que
recobre. É horrível de se ver: dir-se-iam está-
tuas de ferro em movimento, incorporaiido-se
o metal ao guerreiro que o usa. Assim também
os corcéis, testa escondida sob o ferro, flancos
resguardados contra os ferimentos”81. Não
lembra esta descrição o êquipamento dé um
guerreiro nosso, com sua armadura completa?
Plutarco conta-nos que Demétrio mandou
fabricar para si e para Álcino, seu primeiro
capitão, duas armaduras pesando cento e vinte
libras cada uma. As que usavam geralmente
não ultrapassavam sessenta.
81 Cláudio.
196 MONTAIGNE
CAPÍTULO X
Dos livros
Bem sei que me ocorre não raro falar de coi-
sas que são melhor e mais precisamente
comentadas pelos mestres do ofício. O que
escrevo resulta de minhas faculdades naturais
e não do que se adquire pelo estudo. E quem
apontar algum erro atribuível à minha igno-
rância não farã grande descoberta, pois não
posso dar a outrem garantias acerca do que
escrevo, não estando sequer satisfeito comigo
mesmo. Quem busca sabedoria, que a busque
onde se aloja; não tenho a pretensão de
possuí-la. O que aí se encontra é produto de
minha fantasia; não viso explicar ou elucidar
as coisas que comento, mas tão-somente mos-
trar-me como sou. Talvez as venha a conhecer
a fundo um dia, ou as tenha conhecido, se por
acaso andei por onde elas se esclarecem. Mas
já não as recordo. Embora seja capaz de tirar
proveito do que aprendo, não o retenho na
memória: daí não poder assegurar a exatidão
de minhas citações. Que se veja rielas, apenas,
o grau de meus conhecimentos atuais.
Não se preste atenção à escolha das maté-
rias que discuto, mas tão-somente à maneira
por que as trato. E, no que tomo de emprés-
-. timo aos outros, vejam unicamente se soube
escolher algo capaz de realçar cu apoiar a
idéia que desenvolvo, a qual, sim, é sempre
minha. Não me inspiro nas citações; valho-me
delas para corroborar o que digo e que não sei
tão bem expressar, ou por insuficiência da lin-
gua ou por fraqueza dos sentidos. Não me
preocupo com a quantidade e sim com a quali-
dade das citações. Se houvesse querido tivera
reunido o dobro. Provêm todas, ou quase, dos
autores antigos que hão de reconhecer embora
não os mencione. Quanto às razões, às compa-
“rações e aos argumentos que transplanto para
meu jardim, e confundo com os meus, omiti
muitas vezes, voluntariamente, o nome dos
autores, a fim de pôr um freio nas ousadias
desses críticos apressados que se espojam nas
obras de escritores vivos e escritas na língua de
todo mundo, o que dá a quem queira o direito
de as atacar e insinuar que pianos e idéias
sejam tão vulgares quanto o estilo; e eu quero
que dêem um piparote nas ventas-de Plutarco
pensando dar nas minhas, e que insultem Sêne-
ca de passagem. Preciso esconder minha fra-
queza sob essas grandes reputações, mas de
bom grado veria alguém, clarividente e avisa-
do, arrancar-me as plumas com que me ador-
nei, distinguindo simplesmente pela diferença
de força e beleza as minhas das alheias. Se por
falta de memória não consigo deslindar-lhes as
origens, sei reconhecer entretanto que minha
terra é pobre demais para produzir as ricas flo-
res que entre elas se acham desabrochadas e
que apesar dos maiores esforços não as iguala-
ria jamais.
Respondo porém pela confusão e erros de
meus escritos, quando, por mim mesmo, por
vaidade ou insensatez, me mostro incapaz de
corrigi-los porque não os percebo ou não os
sinto, ainda que mos apontem. Efetivamente,
às vezes certos erros nos escapam; o mal estã
em não os admitir quando no-los mostram. A
verdade e a ciência podem alojar-se em nosso
espírito, embora sem que as saibamos julgar e
discernir, como pode a razão nele habitar sem
a companhia daquelas qualidades. Saber reco-
nhecer nossa ignorância é mesmo uma dás
mais belas e seguras garantias de que não care-
cemos da faculdade de julgar. Só o acaso guia
meus passos na escolha de meus assuntos. Na
medida em que meus devaneios tomam corpo
eu os agrupo: ora chegam aos magotes, ora de
um em um. Quero que me contemplem ao
natural, na atitude que assumo habitualmente,
por desordenada que seja, sem esforço nem
artifício. Não falo senão de coisas que nin-
guém ignora e de que é lícito tratar com liber-
dade e sem preparação especial.
Gostaria por certo de possuir, acerca do que
comento, um conhecimento completo, mas,
para o adquirir, não quero pagar o elevado
preço que custa. Tenho a intenção de viver
tranquilamente, sem me aborrecer, durante o
tempo que me resta, e não desejo quebrar a ca-
beça com o que quer que seja, nem mesmo
com a ciência que muito prezo.
Não busco nos livros senão o prazer de um
honesto passatempo; e nesse estudo não me
prendo senão ao que possa desenvolver em
mim o conhecimento de mim mesmo e me
auxilie a viver e morrer bem, “essa meta para
onde deve correr o meu corcel”*2.
82 Propércio.
ENSAIOS — II 197
As dificuldades com que deparo lendo, não
me preocupam exageradamente; deixo-as de
lado após tentar resolvê-las uma ou duas
vezes. Se me detivesse nelas, perder-me-ia e
perderia meu tempo, pois meu espírito é de tal
índole que o que não percebe de imediato
menos entende em se obstinando. Não sou
capaz de nada que não me dê prazer ou que
exija esforço, e atardar-me demasiado em um
assunto, ou nele me concentrar demorada-
mente, perturba minha inteligência, cansa-a e
me entristece. Embacia-se-me a vista e se
enfraquece, de modo que tenho de interromper
a leitura e repeti-la, como quando queremos
perceber o brilho de certos tecidos*?, e preci-
samos olhá-los várias vezes e de vários modos.
Se um livro me entedia, pego outro e só me de-
dico a leitura quando não sei que fazer; e o en-
fado me domina. Quase não leio livros novos;
prefiro os antigos que me parecem mais sérios
e bem feitos; não procuro tampouco os autores
gregos, porque meu espírito não pode tirar par-
tido do conhecimento insignificante que tenho -
da língua grega.
Entre as obras de mero passatempo, agra-
dam-me entre os modernos o “Decamerom? de
Boccaccio, Rabelais e “Os Beijos” de Jean
Second, se é que este último, escrito em latim,
pode incluir-se entre os modernos. Quanto aos
Amadis e outros romances do gênero, não me
interessaram sequer quando os li em criança.
Direi mesmo, o que há de parecer ousado ou
temerário, que meu espírito envelhecido não
aprecia mais a leitura, não somente de Ariosto
mas ainda do bom Ovídio. Sua imaginação,
sua facilidade, que outrora me encantavam,
não me distraem mais agora.
Exprimo livremente minha opinião acerca
de tudo, mesmo daquilo que, por ultrapassar
meus conhecimentos intelectuais, considero
fora de minha alçada. O meu comentário tem
entretanto por fim revelar meu ponto de vista,
e não julgar do mérito das coisas. Se digo que
o “Axioco” de Platão me enfada, por se tratar
de obra fraca, dado o valor e a força do autor,
não o faço convencido da infalibilidade de meu
juízo; não tenho a pretensão de contestar a
autoridade de tantos outros juízes de renome
da antiguidade, que considero meus mestres,
diante dos quais me inclino e com os quais
desejara enganar-me. A mim mesmo me con-
deno, pois; ou terei julgado superficialmente,
não penetrando profundamente a obra, ou a
terei encarado de mau ângulo. Contento-me
“com não me deixar perturbar, nem ser impe-
83 Ascarlate, no texto, o que, segundo Thibaudet,
significaria um tecido e não uma cor. (N. do T.)
lido ao devaneio; quanto à fraqueza de meu
Juizo, reconheço-a e a confesso. Penso dar uma
interpretação justa às aparências que apreen-
do, mas como são enganosas, imperfeitas ! Em
sua maioria as fábulas de Esopo apresentam
vários sentidos e significações. Os que as inter-
pretam mitologicamente palmilham por certo
um terreno bem adequado à fábula; mas é per-
manecer à superfície; há outra interpretação
mais viva, essencial e interior, a que não pude-
ram chegar os eruditos.
Prossigamos, porém. Sempre pensei que,
entre os poetas, Virgílio, Lucrécio, Catulo e
Horácio se situam longe dos outros, em pri-
meiro plano. Em particular, Virgílio, cujas
“(Geórgicas” são a meu ver a obra poética
mais perfeita; se a compararmos com a
“Eneida”, percebernos que há neste poema cer-
tos trechos que o autor houvera retocado se
tivesse tido tempo. O livro quinto da “Eneida”
é o que considero mais acabado. Gosto tam-
bém de Lucano e o leio com grande prazer,
menos pelo estilo do que pelo alcance de suas
opiniões e juízos. Quanto ao bom Terêncio, em
quem deparo com todas as elegâncias e as gra-
ças da língua latina, julgo-o admirável quando
trata dos sentimentos e descreve com vivaci-
dade os nossos costumes. À todo instante eu o
recordo e por mais que o leia sempre descubro
nele alguma beleza nova.
Lamentavam os contemporâneos de Virgílio
que o comparassern, alguns, a Lucrécio. Tam-
bém eu acho a comparação infeliz, mas não a
considero tão desacertada quando me detenho
em algum trecho mais belo de seu êmulo. Se se
contrariavam com o paralelo, que diriam dos
que hoje o comparam tola e ignorantemente a
Ariosto? E que pensaria o próprio Ariosto?
“O século grosseiro e sem gosto !8 * Sou de
parecer que mais razão tinham ainda os anti-
gos de lamentar os que equiparavam Plauto a
Terêncio (este muito mais nobre). Para julgar
do mérito de Terêncio e da preferência que lhe
devemos dar, devemos atentar para o fato de
Cícero, pai da elogiência romana, o citar
constantemente, o que não faz com ninguém
mais. E também a crítica severa que Horácio,
o maior crítico dos poetas latinos, dirige a
Plauto.
Muitas vezes pude constatar quanto, em
nossa época, os que escrevem comédias (como
os italianos, felizes no gênero) se inspiram em
Terêncio e Plauto, a quem tomam de emprés-
timo três ou quatro enredos para arquitetar um
dos seus. E assim procedem igualmente com
Boccaccio, reunindo em uma só comédia cinco
84 Catulo.
198 + MONTAIGNE
ou seis contos seus. O receio de não poder sus-
tentar o interesse das peças com seus próprios
recursos é que os leva a procurar algo sólido
em que as assentar. E não o podendo tirar de si
próprios, querem que nos divirtam as peripé- -
cias. O contrário ocorre com Terêncio: a per-
feição e a beleza de seu estilo nos induzem a
esquecer o tema; sua delicadeza e sua graça
cativam-nos em todas as cenas; é um autor tão
agradável, “tão fluido e semelhante a uma
água límpida”* 8, e nos seduz a tal ponto com
seu donaire que mal percebemos o assunto de
suas comédias.
Estas observações levam-me ainda a notar
que os bons poetas da antiguidade evitaram a
afetação e o rebuscamento, não somente das
fantasias exageradas que se encontram nos
espanhóis e nos petrarquistas, mas também
das graças mais atenuadas que se deparam nas
obras poéticas dos séculos seguintes. Assim o
critico competente lamenta observá-las por-
ventura nos antigos, e admira mais a perfeição
do acabado, a doçura perpétua, e a beleza flo-
rida dos epigramas de Catulo que todos os sar-
casmos das sátiras de Marcial. E o que disse
acima também o disse Marcial de si próprio:
“não era mister que se esforçasse; o assunto
substituía o espírito”.
Os antigos poetas, os que brilham pela
imaginação, logram o efeito visado sem se agi-
tar exageradamente nem se picar para se exci-
tarem; têm com que provocar o riso sem neces-
sidade de cócegas; os outros precisam de ajuda
estranha; quanto menos espírito têm, mais pre-
cisam de corpo e montam a cavalo porque não
podem sustentar-se sobre as pernas. Assim, em
nossos bailes públicos, esses cavalheiros de
baixa extração e que ensinam a dançar, na
impossibilidade de exibir uma nobre e decente
atitude, tentam valorizar-se com saltos perigo-
sos e outros movimentos extravagantes, à
maneira dos acrobatas. E as damas mostram-
se mais desenvoltas nas danças que compor-
tam figurações e balanceios do que nas ceri-
mônias em que lhes cumpre apenas andar,
conservando sua atitude e graça naturais.
Observa-se igualriente que os palhaços que
exercem sua profissão com talento tiram todo
partido possível de sua arte, mesmo quando
vestidos com seis trajes cotidianos, enquanto
os aprendizes, de menor competência, preci-
sam enfarinhar a cara, mascarar-se, gesticular,
e fazer caretas para nos obrigar a rir. Minha
opinião se esclarecerá melhor se compararmos
a “Eneida” com “Orlando Furioso”. No pri-
meiro poema mantém-se o poeta nas alturas,
88 Horácio.
em vôo reto, poderoso e firme; no segundo o
autor borboleteia saltitante, de episódio em
episódio, como se, não confiando em suas
asas, pulasse de galho em galho, de medo de
perder o fôlego. de carecer de forças: “terita
apenas pequenas corridas”, como diz Virgílio.
Eis os autores que mais me agradam nesses
gêneros.
Quanto às minhas demais leituras, as que
me instruem e deleitam ao mesmo tempo, as
que me ensinam a pensar e a conduzir-me,
tiro-as de Plutarco, na tradução francesa, e de
Sêneca. Ambos apresentam a vantagem, dado
o meu temperamento, de me oferecer os ensi-
namentos que neles busco, de um modo frag-
mentário e por conseguinte não exigente de lei-
turas demoradas de que sou incapaz. Os
opúsculos de Plutarco e as epístolas de Sêneca
constituem a parte mais formosa de seus escri-
tos, e também a mais proveitosa. Para em-
preender tais leituras não se faz mister um
grande esforço, e posso sustá-las quando
* quero, pois nenhuma ligação existe entre os
capítulos dessas obras. Esses dois autores, que
concordam na maioria de suas idéias funda-
mentais, têm ainda outros pontos em comum:
viveram no mesmo século, foram ambos
preceptores de imperadores romanos, nasce-
ram ambos em países estrangeiros, foram
ambos ricos e poderosos. Suas lições são da
melhor filosofia e se apresentam da maneira
mais simples, com competência. Plutarco é em
geral mais igual, Sêneca mais variado. Este se
esforça, se retesa, tenta defender a virtude con-
tra a pusilanimidade, o temor, o vício; o outro
não parece preocupar-se com esses inimigos,
não apressa O passo para fugir do perigo. Plu-
tarco é da escola de Platão, suas idéias estão
isentas de exagero e se acomodam à sociedade
tal qual é. No outro, que é da escola dos estói-
cos e dos epicuristas, elas se afastam mais do
que se admite na vida comum, mas são ao meu
ver mais cômodas para o indivíduo e impreg-
nadas de firmeza. Sêneca parece ter feito algu-
mas concessões à tirania dos imperadores de
sua época, pois creio que foi por imposição
que condenou a causa desses homens genero-
sos que mataram César. Plutarco conserva
sempre sua independência. Sêneca abunda em
comentários e críticas, ao passo que em Plu-
tarco predominam os fatos. O primeiro comove
mais e entusiasma; o segundo dá mais satisfa-
ção e comipensa melhor o tempo que lhe consa-
gramos; este nos guia, o outro nos empurra.
Quanto a Cícero, as obras que mais convêm
ao fim que me propus, são as obras filosóficas
que tratam da moral. Mas, para dizer a verda-
de, e por mais ousado que se afigure, sua
ENSAIOS — II
maneira de escrever, -bem diferente da dos
precedentes, parece-me aborrecida. Seus prefá-
cios, suas definições, suas classificações, suas
etimologias, ocupam efetiva e inutilmente
quase toda a obra; o que nesta hã de vivo e
nervoso é abafado por esses excessos prelimi-
nares. Se passo uma hora a lê-lo — o que já é
demais para mim — e recapitulo tudo o que
dele tirei de substancial e nutritivo, não encon-
tro a maior parte das vezes senão vento, pois
ainda não cheguei nem às razões, nem aos
argumentos relativos ao fundo do problema.
Para mim, que não procuro ampliar o meu
saber ou a minha eloguência, essa exposição
lógica, obediente às regras de Aristóteles, é
inadequada; gostaria que começasse pelo fim.
Sei muito bem em que consistem a morte e a
volúpia, para que se divirtam em as analisar
minuciosamente em minha intenção. Procuro
de imediato as razões sérias e certas que me |
reconfortem pelo esforço que me cabe supor-
tar. Nem as sutilezas caras aos gramáticos,
nem o engenhoso arranjo das frases e da argu-
mentação me ajudam a gostar. Quero pensa-
mentos que desde o início ataquem o ponto
principal do problema, e os seus se arrastam
em torno da questão. São bons para a escola, o
tribunal, o púlpito onde temos tempo de cochi-
lar e ainda reatar o discurso ao despertarmos
um quarto de hora depois. Assim é que se fala
aos magistrados quando se deseja ganhar uma
causa, com ou sem razão; ou às crianças, ou à
multidão, às quais é preciso tudo dizer e repe-
tir para que entendam alguma coisa. Mas eu
não quero que me gritem cinquenta vezes:
“ouça bem isto”.
Os romanos diziam em suas orações litúrgi-
cas: “hoc age” e nós “sursum corda”. São
palavras inúteis para quem, como eu, está dis-
posto a escutar. Condimentos e molhos não
me agradam pois gosto de caíne crua. E em
vez de provocar o apetite, esses preâmbulos me
cansam e me desencantam. Será a licença de.
nossa época uma déstulpa para que ache
igualmente tediosos, exaustivos os diálogos do
próprio Platão? Lamento o tempo que perde,
em vãs interlocuções preparatórias, um
homem que tinha tanta coisa importante a
dizer. Minha ignorância justificará sem dúvida
o desprazer que me causa seu estilo. Em geral
prefiro os livros em que me encontro com o
conhecimento daqueles que o explanam. Plu-
tarco, Sêneca, Plínio, o Velho, e outros não
nos dizem “hoc age”; têm eles por leitores os
que se advertem a si mesmos. E, se chamam
porventura a nossa atenção, ê para pontos
essenciais, E
Leio de bom grado as epístolas a Ático, de
199
Cícero, porque nos fornecem muitos pormeno-
res acerca da história de seu tempo e mais
ainda porque nos esclarecem a respeito de seu
caráter e, como disse alhures, é grande em
mim a curiosidade pela alma e o espírito dos
autores que leio. Somente sua capacidade, e
não seus costumes nem ele próprio, podemos
Julgar pela leitura de suas obras.
Mil vezes lamentei que a obra de Bruto
sobre a virtude não tenha chegado até nós;
fora admirável aprender a teoria com quem tão
bem a praticou. Contudo como quem prega, e
o que prega, são coisas diferentes, prefiro
ainda ver Bruto pintado por Plutarco a vê-lo
assinalado por si mesmo, mas gostaria antes
saber exatamente de que assuntos se entretinha
com seus amigos íntimos, na véspera de uma
batalha, do que os discursos feitos ao exército
depois do combate; e antes o que fazia em seu
quarto e em seu gabinete do que na praça pú-
blica e no Senado.
Quanto a Cícero, participo da opinião geral:
fora de seu saber, seu caráter, de muitos pon-
tos de vista, não era perfeito. Era bom cidadão,
indulgente, como a maioria dos homens gor-
dos e alegres, mas no fundo havia nele certa
carência de fibra, muita vaidade e ambição.
Não posso explicar de outro modo o apreço
em que tinha sua poesia, pois, se não constitui
defeito grave escrever versos maus, era fra-
queza sua não sentir quanto os que fazia eram
indignos de sêu renome. Sua eloquência era
incomparável e, creio, ninguém jamais poderá
ombrear com ele na arte de falar. Cícero, o
Jovem, seu filho, que do pai só tinha o nome,
comandava um exército na Ásia. De uma feita
reuniu à sua mesa vários estrangeiros, entre os
quais Céstio, que se achava em uma das pon-
tas, como um intruso. Cicero indagou quem
era; mas, distraído, não ouviu a resposta e tor-
nou a perguntar duas ou três vezes. O criado,
para não repetir sempre as mesmas palavras e
a fim de fixar a atenção do anfitrião em algu-
ma particularidade, acrescentou: “é aquele
Céstio de quem já nos disseram que não faz
grande caso da elogilência de vosso pai com-
parada à dele mesmo”. Irritado, Cicero orde-
nou qué prendessem Céstio e o açoitassem na
presença de todos. Eis um anfitrião bem pouco
delicado!
Mesmo entre os que julgavam sua elo-
quência incomparável, alguns houve que não
deixaram de apontar certas imperfeições. O
grande Bruto, seu amigo, dizia que era uma
eloquência descosida e sem vigor. Os oradores
posteriores censuraram-lhe o curioso afã de
certa cadência exagerada no final dos perio-
dos, bem como as palavras de “efeito” que tão
200 MONTAIGNE
seguidamente empregava. Apesar disso, embo-
ra raramente, não era muito eufórico como
pude verificar nesta frase: “em verdade, quan-
to a mim, preferiria envelhecer durante menos
tempo do que antes do tempo”.
Os historiadores constituem meu passa-
tempo predileto. Sua leitura é-me fácil e agra-
dável. Em seus livros encontro o homem que
procuro penetrar e conhecer, apresentado com
maior nitidez e mais completamente do que
alhures. Sua maneira de ser neles se projeta
com mais relevo e verossimilhança, tanto nos
pormenores como no conjunto. Assim, tam-
bém, seu caráter formado por um complexo de.
qualidades e defeitos, bem como pelos aciden-
tes a que se expõem. Entre os historiadores, os
que se atêm menos às ocorrências do que às
causas, e ponderam mais os móveis a que obe-
decem os homens do que lhes acontece, são os
que me agradam particularmente. Eis por que,
em todos os pontos de vista, Plutarco é meu
autor predileto.
Sinto muito não termos uma dúzia de Dió-
genes Laércio ou que sua obra não seja mais
extensa ou mais inteligentemente composta,
pois me interesso tanto pela vida dos grandes
educadores quanto por seus dogmas e suas
idéias. Quando nos dedicamos a estudos histó-
ricos desse gênero, precisamos folhear inúme-
ros autores, velhos ou novos, escritos em bom
ou mau francês, a fim de conhecermos os dife-
rentes pontos de vista sob os quais cada coisa
se apresenta.
Mais do que os outros, César merece ser
estudado, a meu ver, não somente pela história
mas por si mesmo. Tão grandes são a sua per-
feição e superioridade que o colocam acima de
todos os outros, mesmo de Salústio. Eu o leio
com um respeito e uma concentração de espi-
rito maiores do que em geral se dedicam às
obras humanas, atentando para a pureza e a
inimitável correção de seu estilo superior ao de
todos os demais historiadores, como diz Cíce-
ro, e por vezes ao do próprio Cícero.
Com tanta sinceridade julga seus adversá-
rios que, salvo as falsas aparências de que
reveste a causa que defende e a pestilência de
sua ambição, só se lhe pode criticar o fato de
não falar bastante de si mesmo, pois tão gran-
des coisas não podiam ter sido realizadas, se
sua parte não fosse maior do que afirma ter
sido.
Entre os historiadores, aprecio os que são
muito simples — ou os excelentes. Os que são
simples, não podendo acrescentar algo de seu
ao que contam, recolhem com cuidado e exati-
dão tudo o que chega a seu conhecimento,
tudo registram de boa-fé, sem selecionar, sem
nada fazer que possa influir no nosso julga-.
mento, na descoberta da verdade. Assim é, por
exemplo, o bom Froissart, o qual em sua obra
se mostra tão franco e ingênuo que, se comete
algum erro, não deixa de o reconhecer, retifi-
cando o trecho assinalado. Todos os boatos
em curso, ele os anota com as possíveis varian-
tes: consigna todas as versões que obtém; são
material bruto & informe que colige e servirá a
quem lhe suceder.
Os historiadores perfeitos têm a inteligência
necessária para discernir o que merece passar
a eternidade. São capazes de distinguir, entre
dois relatos, o mais verossimil. Da situação em
que se encontram os principes e de seu caráter,
induzem os móveis que ditam suas determina-
ções e pôem em sua boca as palavras adequa-
das às circunstâncias. São levados a impor-nos
sua maneira de ver, mas isso é peculiar tão-so-
mente a um pequeno número deles.
Os que ocupam um lugar intermediário — a
maioria — estragam tudo. Querem mastigar
os fatos para nós; pretendem julgar e falseiam
a história de acordo com o que dela pensam;
pois uma vez que se julgou num dado sentido
não há como deixar de deturpar os fatos ou os
apresentar de maneira a comprovarem a idéia
preconcebida. Seiccionam o que imaginam se
deva.conservar e escondem muitas vezes tal ou
qual palavra, tal ou qual ação particular que
esclareceriam a situação; eliminam, por incri-
vel que pareça, o que não compreendem e
mesmo o que não sabem exprimir em francês
ou em latim. Que desenvolvam tão ousada e
eloquentemente quanto puderem suas dedu-
ções, que julguem como pensam dever fazê-
lo, mas que nos deixem a possibilidade de tam-
bém julgarmos depois deles! Que nada alterem
nem suprimam a pretexto de serem concisos e
exatos & que nos apresentem seu material sem
falsificação, na íntegra.
Escolhem-se, geralmente, para historió-
grafos — sobretudo em nossa época — indivi-
duos medíocres, somente porque sabem falar
bonito como se fosse para aprender gramática
que precisássemos de suas obras. Quanto a
eles, tendo sido escolhidos unicamente por
causa de sua tagarelice com isto se prêocu-
pam; e, recheadas de belas frases e boatos
ouvidos nas praças das cidades, compõem as
suas crônicas.
As únicas histórias valiosas são as que
escreveram os que dirigiam os negócios por
eles relatados, ou outros do mesmo gênero.
o caso de quase todos os historiadores gregos
ou romanos, pois se várias testemunhas ocula-
res escrevem sobre o mesmo assunto (ocorria
frequentemente, então, encontrarem-sé reuni-
ENSAIOS — II 201
dos altos cargos e saber) e que haja erro, este
tem que ser de somenos ou referir-se a algum
incidente duvidoso. Que esperar de um médico
que fala de guérra ou de um estudante que dis-
serta acerca dos desígnios do príncipe? Um só
exemplo bastará para mostrar a que ponto os
romanos eram exigentes nesse domínio.
Asínio Pólio assinala nos próprios comentá-
rios de César alguns erros que seriam devidos
ao fato de não ter ele podido ver pessoalmente
tudo o que acontecia nos exércitos, ou ter acre-
ditado em pessoas que lhe narravam coisas
insuficientemente verificadas, ou ainda não
estar, no momento, a par dos relatórios de seus
lugar-tenentes a respeito das manobras realiza-
das durante a sua ausência. Por aí se percebe
quanto essa procura da verdade é delicada,
porquanto não podemos confiar sequer em
quem dirigiu, organizou, fez, nem nos solda-
dos, a menos de confrontar os testemunhos e
ouvir as objeções, antes de admitir como pro-
vados os menores detalhes de cada fato. O
conhecimento do que se passa em nossa épóca
é bem mais vago ainda, mas o assunto foi
muito bem tratado por Bodin, e de acordo com
o meu ponto de vista.
A fim de remediar um pouco as traições de
minha memória, tão fraca que me aconteceu
mais de uma vez voltar, como se não os conhe-
cesse, a livros lidos anos antes com atenção €
anotando, habituei-me de uns tempos para cá a
escrever, no fim dos volumes que não pretendo
tornar a consultar, a data do término da leitu-
ra, e, em grandes caracteres, a impressão senti-
da, ao menos para ter a qualquer momento
uma idéia geral do que |j. Eis algumas dessas
anotações.
Há dez anos mais ou menos em meu Gui-
chardin (qualquer que seja a língua dos livros,
eu lhes falo na minha), eu escrevia: Historió-
grafo cuidadoso, no qual se pode, melhor do
que em qualquer óutro, colher a verdade acer-
ca dos negócios de seu tempo, na maior parte
dos quais desempenhou um papel honroso.
Não me parece que, por ódio, condescen-
dência ou vaidade, tenha deturpado alguma
coisa. Pode-se vê-lo pela imparcialidade de
seus juízos sobre os grandes, particularmente
os que, como o Papa Clemente VII, o empre-
garam e o promoveram nos cargos que ocu-
pou. Prevalecem em sua obra as digressões e
os discursos, e os há muito bons e enriquecidos
com belas tiradas, mas neles se compraz dema-
siado. E a fim de nada esquecer, embora o
assunto em si já seja muito amplo, ele o dilui
anda ao infinito e seu estilo degenera em fala-
tório escolâstico. Observei também que, embo-
ra aprecie muito homens e coisas, aconteci-
mentos e resoluções, nunca atribui nada à
virtude, à religião, à consciência, como se isso
tudo não existisse neste mundo. Todas. as
ações, por mais belas que sejam na aparência,
ele-as atribui sempre a alguma causa viciasa
ou ao partido que o autor pode tirar delas. E
entretanto impossível admitir que nessa infini-
dade de fatos nenhum se depare cuja causa
seja louvável. A corrupção não deve ter sido
tao generalizada que ninguém lhe escapasse.
Isso me induz a crer que carece de senso cri-
tico e talvez haja julgado os outros por si
mesmo.
No meu Commines, escrevi: Eis uma lin-
guagem doce e agradável e extremamente sim-
ples. A narração vem isenta de circunlóquios,
a boa-fé do autor é manifesta. Fala de si
mesmo sem vaidade, e dos outros sem parciali-
dade nem inveja. Seus relatos e comentários
evidenciam uma autoridade e seriedade que
demonstram tratar-se de um homem de família
ilustre, familiarizado com negócios importan-
tes. y
Nas memórias dos Srs. Du Bellay: É sempre
agradável ler coisas escritas pelas pessoas que
por experiência viram como manejá-las. Mas é
evidente que nesses senhores observa-se uma
falta grande de franqueza e da liberdade que
fora de desejar como a que brilha nos antigos
cronistas —— em Joinville, por exemplo, da
Corte de São Luís, Eginard, ministro de Carlos
Magno, e mais recentemente Filipe de Commi-
nes. A obra em questão é mais uma defesa do
Rei Francisco I contra o Imperador Carlos
Quinto do que uma história. Não quero crer
que, quanto ao fundo, tenham os autores
modificado os fatos que relatam, mas os apre-
sentam não raro erroneamente, sob um aspecto
favorável a nós, omitindo tudo o que há de
particularmente delicado na vida de seu se-
nhor. Trata-se sem dúvida alguma de trabalho
encomendado. As desgraças dos Srs. de Mont-
morency e de Brion não são mencionadas, nem
se lê o nome de Madame dºEtampes. Pode-se
admitir que se silenciem as coisas secretas,
mas calar acerca do que todo mundo conhece,
ignorar o que tamanha importância teve nos
negócios públicos é indesculpável. Em suma,
se me acreditam, convém que se dirijam a ou-
tros se quiserem ter um completo conheci-
mento do Rei Francisco I e das ocorrências de
sua época. O que se lê com proveito é a nar-
rativa das batalhas e feitos de guerra a que
assistiram esses fidalgos, algumas palavras e
atos da vida privada de certos príncipes, as
gestões e negociações levadas a efeito pelo Sr.
de Langeais em que se consignam muitas coi-
sas que merecem divulgação e se acompanham
de reflexões notáveis.
202 MONTAIGNE
CAPÍTULO XI
Da crueldade
Parece-me que a virtude é coisa diferente, e
mais nobre, do que as inclinações para a bon-
dade, que nascem em nós. As almas bem-nas-
cidas e naturalmente bem equilibradas seguem
caminhos idênticos e apresentam em suas
ações fisionomia igual à das virtuosas. Mas a
virtude revela não sei que de maior, mais ativo,
do que deixar-se, sob a influência de uma feliz
compleição, serenamente conduzir pela razão.
Quem, por doçura e inclinação natural, esque-
ce as ofensas recebidas, comete uma bela ação,
digna de louvores; mas quem, profundamente
ferido. & irritado, luta contra um terrível desejo
de vingança e pela razão consegue dominar-se,
faz melhor sem dúvida. Aquele age certo; este
virtuosamente. O ato do primeiro é de bonda-
de, o do segundo de virtude. Dir-se-ia que, a
virtude pressupõe dificuldade e oposição e não
pode existir sem luta. Talvez seja por isso que
qualificamos Deus como bom, liberal, justo,
mas não “virtuoso”, porquanto tudo o que faz
é natural, não necessitando nenhum esforço
para realizá-lo.
Os filósofos, e não apenas os estóicos, mas
também os epicuristas, julgam que não basta
seja a alma animada por bons sentimentos,
veja com justiça e se-ache predisposta à prá-
tica da virtude, nem que por palayras e resolu-
ções se eleve acima das vicissitudes da sorte, é
preciso ainda que procure as oportunidades de
prová-lo. Vão assim ao encontro da dor, da
miséria, do desprezo a fim dé os combater,
mantendo sua alma nas alturas: “a virtude
consolida-se na luta” , diz Sêneca. Eu disse
não somente os filósofos estóicos mas também
os epicuristas, seguindo assim a opinião
comum que coloca os primeiros acima dos
segundos, erroneamente aliás, em que pese à
saída espirituosa de Arcesilau respondendo a
alguém que lhe perguntava por que tantas pes-
soas passavam de sua escola para a de Epicu-
ro, sem que se observasse o contrário: “muito
simples; com galos fazemos capões, mas com
capões não se fazem galos”. Na verdade, a
seita dos epicuristas, pela inteireza e rigidez de
seus princípios e preceitos, não fica atrás da
seita de Zenão. E um estóico que discutia com
mais seriedade do que aqueles que, para com-
bater Epicuro, lhe emprestam palavras que ja-
mais disse, ou as deturpam, armando-se de re-
gras gramaticais para o interpretar de má fé e
apontar idéias contrárias às que o filósofo pro-
fessava e praticava, um estóico afirmava ter
deixado de seguir Epicuro, entre outras razões,
porque o caminho lhe parecia demasiado ele-
vado e inacessível, pois “aqueles a quem cha-
mamos amigos do prazer, são na realidade
amigos da honestidade e da justiça, respei-
tando e praticando todas as virtudes”* *.
E porque a virtude se fortalece na luta que
Epaminondas, adepto, entretanto, de uma ter-
ceira seita, recusa as riquezas que muito legiti-
mamente lhe oferecem os fados, pois quer, diz,
lutar contra a pobreza, e a sua era grande e
nunca o abandonou. Sócrates, parece-me,
submetia-se a prova mais rude ainda, conser-
vando sua mulher que era má, e se engenhava
em o atormentar, verdadeira e permanente
armadilha em seu caminho. Em Roma, Mete-
lo, escutando apenas a voz da virtude, só entre
os senadores, resistia às violências do tribuno
do povo, Saturnino, o qual se batia pela apro-
vação de uma lei injusta em favor da plebe.
Tendo assim incorrido na pena de morte, que
Saturnino estabelecera para quem se opusesse
a seu projeto, dizia aos que o acompanhavam
ao lugar da execução: “é fácil fazer mal; isso
não exige muita coragem. Fazer bem sem cor-
rer riscos é coisa vulgar. Mas fazer bem, quan-
do há perigo em o fazer, é próprio do homem
virtuoso”. Essas palavras comprovam o que eu
quis demonstrar: que a virtude recusa a com-
panhia da facilidade; e que esse caminho cô-:
modo, de declive suave, pelo qual nos deixa-
mos levar naturalmente, não é o da verdadeira
virtude. O caminho desta é árduo e espinhoso.
A virtude exige luta para se realizar, ou contra
os obstáculos exteriores como no caso de
Metelo, cujas penas o destino se compróuve
em AboliE ou contra as dificuldades íntimas
provocadas em nós por nossos desordenados
apetites e as imperfeições da nossa natureza.
Até aqui minha tese se defende bem, mas
percebo de repente que, a ser justa, a alma de
86 Cícero.
ENSAIOS — II
Sócrates, a mais perfeita a meu ver, não se
recomendaria particularmente, pois não conce-
bo que tenha sido algum dia presa de desejos
condenáveis. Sua virtude, não creio que experi-
mentasse jamais alguma dificuldade em prati-
cá-la, ou tivesse para tanto que entrar em luta.
consigo mesmo. Seu raciocínio era tão perfei-”
to, e tal o seu domínio sobre si mesmo, que
nunca deve ter nascido nele o menor apetite
repreensível. Sua virtude era tão elevada que
não posso admitir alguma coisa censurável
tenha existido nele, e o vejo andando sempre
com passo vitorioso e triunfante, solene, sem
embaraço, sem nada que o detenha qu pertur-
be.
Se, para existir, precisa a virtude de lutas
contra as paixões contrárias, deveremos con-
cluir que ela não pode prescindir da colabora-
ção do vício e que este lhe é indispensável a
fim de que alcance a honrosa reputação em
que é tida? Que seria então dessa corajosa e
generosa volúpia que propugna Epicuro, a
qual exibe sentimentos maternais pela virtude,
essa virtude que ela embala, anima e diverte
com os brinquedos da febre, da vergonha, da
pobreza, da morte, das prisões? Se eu admitir
qué a virtude perfeita se reconhece pela manei-
ra por que combate a dor; a paciência com que
suporta a violência da gota sem se comover; se
a rispidez e as dificuldades são condições
essenciais à sua existência, como se definirá
então essa virtude elevada a um tal diapasão
que não somente despreza o sofrimento mas
com ele goza, deleitando-se sob o peso de uma |
cólica extenuante? Essa virtude, em obediência
a cujos princípios, estabelecidos por eles pró-
prios, os epicuristas moldaram seus atos e que
muitos outros, como Catão, ultrapassaram?
Quando penso em Catão a arrancar-se as
entranhas para morrer, não posso crer que o
haja feito simplesmente porque sua alma esta-
va isenta de medo e inquietação, nem que
assim tenha agido unicamente para obedecer
às regras dos estóicos, os quais exigiam que o
ato executado o fosse deliberadamente, sem
emoção e sem que a impassibilidade se
desmentisse. Creio que devia haver em sua vir-
tude um excesso de energia, que ela era de uma
têmpera excepcional. E penso que encontrava.
prazer e volúpia narealização de tão nobre.
gesto, comprazendo-se nele mais do que-em:
qualquer outro de sua existência: “saiu da
vida, feliz por ter encontrado uma razão para
morrer?8?. E tanto. assim o creio, que duvido
tivesse ele desejado que tão boa oportunidade
para um tal feito não se apresentasse. E eu
87 Cicero.
203
estaria convencido disso, não fosse a elevação
de sentimento que o levava a colocar o bem
público acima do seu próprio; e estou persua-
dido de que foi grato ao destino, o qual, em
favorecendo um bandido inimigo das liberda-
des de sua pátria, lhe reservara tão bela prova-
ção. Parece-me ver em sua conduta, nessa
circunstância, sua alma, a qual devia experi-
mentar um prazer extraordinário, uma volúpia
viril ao considerar a nobreza e a elevação do
que ia fazer, “tanto mais orgulhosa de si quan-
to ia morrer “88, e sustentado não pela vontade
de conquistar glórias, como pretenderam al-
guns que o julgaram como julgam as massas,
pelo lado mesquinho — o que fora indigno de -
tão generoso e escrupuloso espírito —, mas
pela beleza do gesto, cuja sublimidade apre-
ciava melhor do que nós, porquanto mais do
que ninguém lhe conhecia os móveis. Os filó-
sofos, felizmente, acharam que esse ato tão
belo em ninguém melhor do que em Catão se
acertaria, e que somente a ele cabia acabar
assim. É, no entanto, teve ele igualmente razão
em ordenar a seu filho e aqgs senadores que o
acompanhavam resolução bem diferente:
“Catão, que recebera da natureza uma severi-
dade incrível; que, pela sua constância e a
imutabilidade de seus princípios, consolidara
ainda mais seu caráter, tinha que morrer de
preferência a suportar a presença de um
tirano”8º.-
Toda'morte deve estar de acordo com a vida
a que põe fim. No momento de morrer, não
devemos ser diferentes do que fomos. Sempre
julgo a morte pela vida e se aludem a alguém
cuja morte revela energia em contraste com
uma vida de fraqueza, penso que se trata ape-
nas de uma aparência, que na realidade essa
morte foi provocada por uma causa fraca €
adequada à vida do morto.
Diante da satisfação e da facilidade com
que Catão suportou a morte, a que atingiu pela
força de caráter, deveremos imaginar que em
algo se ofusca'o brilho de sua virtude?
Quem tem em seu cérebro algumas noções,
embora sucintas, de filosofia, poderá represen-
tar-se Sócrates em sua prisão, acorrentado e
condenado, livre unicamente de seus temores?
Quem não percebe nele, além da firmeza de
ânimo e da tenacidade que possuía normal-
merite, algo mais, uma espécie de contenta-
ménto; de alegria, nas palavras que pronun-
“Ciou e nas atitudes que teve nos últimos
momentos? O estremecimento de prazer que
sentiu ao passar a mão nas marcas dos ferros,
88 Horácio.
89 Cicero.
204 MONTAIGNE |
não será um reflexo da felicidade que lhe inun-
dava a alma por se libertar dos incômodos do
passado e por se achar tão próximo o momen-
to em que o futuro lhe seria revelado? Catão
há de perdoar-me, espero: sua morte é mais
trágica e impressiona mais, mas a de Sócrates,
não sei por que, é ainda mais bela. Aristipo,
respondendo aos que dela se apiedavam, excla-
mou: “Quisessem os deuses dar-me uma
igual.” Depara-se nas almas de Catão e Sócra-
tes, e nas dos que os imitaram (pois duvido que
alguém os haja igualado), uma prática tão per-
feita e constante da virtude que se diria ter ela
se incorporado à natureza deles. Não é uma
- virtude nascida de um esforço, nem ditada pela
razão; a própria essência de suas almas, sua
vida normal e cotidiana elevaram-na a tal altu-
ra, mercê do prolongado exercício da filosofia,
a qual encontrou neles um esplêndido e rico
temperamento. E desse modo as paixões nefas-
tas, que em nós germinam e crescem, não
acharam brecha por onde penetrar seus espíri-
tos. À rigidez e a firmeza de seus caracteres
afogou e extinguiu a concupiscência, tão logo
tentou inquietá-los. Ora cumpre reconhecer
que é mais belo, em consequência de uma ele-
vada e divina resolução, impedir as tentações
de nascerem e edificar a virtude abafando o
vício em embrião do que se esforçar por detê-
lo em sua evoiução e contra ele triunfar após
se ter entregue às suas primeiras seduções. E
esta segunda maneira de se conduzir é por sua
vez mais meritória do que ser senhor de um
temperamento bondoso e fácil, por natureza
alheio ao vício e à devassidaoºº. Nesta ter-
ceira e última hipótese, o homem, ao que me
parece, pode permanecer inocente, mas não
será virtuoso. Não faz o mal, mas não tem
energia suficiente para fazer o bem. E isso
constitui uma condição vizinha da imperfeição
e da fraqueza, cujos limites são tão dificeis de
se estabelecerem quanto as próprias palavras
“bondade” e “inocência”, as quais já então só
despertam desprezo em nós.
Observo que várias virtudes, como a casti-
dade, a sobriedade, a temperança, podem
desenvolver-se em nós em conseqglência de um
enfraquecimento de nossas faculdades físicas.
A energia diante do perigo (se é que se há de
chamar energia), o desprezo pela morte, a
resignação na desgraça podem provir — e pro-
vêm muitas vezes — do fato de não saber o
homem julgar os acidentes e não os conceber
tal qual são; por isso, por não compreender ou
por tolice, por vezes parece alguém virtuoso, e
90 Inverteu-se a ordem do parágrafo para maior
clareza. (N. do T.)
vi elogiarem certas pessoas por atos que lhes
deviam censurar. Um senhor italiano disse-me
de uma feita o seguinte, que não depõe em
favor de seus patrícios: “a sutileza de espirito
dos italianos e a vivacidade de suas concep-
ções são tão grandes, prevêem com tal antece-
dência os perigos e acidentes, que não há como
estranhar que, na guerra, tratem de sua segu-
rança antes mesmo de surgir o risco”. Os fran-
ceses e os espanhóis, acrescentava, que não
têm tão bom olfato, o que os torna temerários,
precisam ver o perigo e tocá-lo com as mãos
para se atemorizarem. Quando ocorre o aci-
dente, não o sabem enfrentar. Quanto aos ale-
mães e aos suíços, concluia, mais grosseiros e
embotados, nem sequer se dão conta do perigo
antes de serem abatidos pelo golpe. Em verda-
de ta! opinião pode não passar de piada, mas
uma coisa é certa: na guerra os estreantes
arriscam-se não raro com uma imprudência
que não mais demonstram depois de escalda-
dos: “bem sabemos quanto podem sobre um
guerreiro a sede de glória e a docê-honra de um
primeiro embateӼ?. Eis por que, quando se
Julga uma ação particular, é necessário ponde-
rar as circunstâncias em que se verificou, e, em
seu todo, o homem que a praticou, antes de se
pronunciar acerca de sua classificação.
A propósito, uma palavra a meu respeito.
Ouvi meus amigos denominarem prudência o
que em mim era sorte, e considerarem resul-
tante de minha coragem e de minha tenacidade
o que decorria de minha clarividência na aná-
lise da situação, atribuindo-me assim ao acaso
qualidades más ou boas. Aliás estou tão longe
daquele grau de perfeição em que a virtuds se
torna hábito, que nunca dei provas de haver se-
quer alcançado o grau precedente, não me
tendo nunca esforçado de fato para conter os
meus desejos. Minha virtude não passa de
inocência,ou melhor, ela é acidental e fortuita.
Se tivesse vindo ao mundo com um tempera-
mento mais desordenado, creio que meus sofri-
mentos houveram sido grandes, pois quase
nunca sei opor uma vontade firme ao assalto
das paixões. Por um pouco violentas que se
tivessem mostrado, houvera-me rendido. Não
sei alimentar querelas e conflitos dentro de
mim. De sorte que nãc tenho grandes méritos
em não exibir muito vícios: “Se minha natu-
reza é boa, se tenho apenas uns leves defeitos,
um belo rosto também pode ter algumas
manchas”º2.E o devo menos à razão que ao
destino. Este fez-me nascer de uma raça repu-
tada por sua honradez, e de um pai excelente.
91 Virgilio.
92 Horácio.
ENSAIOS — II 205
Não sei se herdei em parte o seu caráter, se os
exemplos de minha família, a boa educação
que recebi na infância para isso contribuíram
insensivelmente, ou se nasci com tais predispo-
sições: “seja porque a Balança me viu nascer,
ou o Escorpião temível e funesto na hora do
nascimento, ou o Capricórnio que impera tira-
nicamente sobre os mares do Ocidente”*?*. O
que é certo é que aborreço os vícios. As pala-
vras de Antiístenes, a alguém que lhe indagava
qual o melhor aprendizado da vida, parecem
aplicáveis a meu caso: “desaprender o mal”. À
repulsa que sinto por ele parte de um senti-
mento tão natural e pessoal que esse instinto,
essa impressão que remonta aos meus primei-
ros anos se perpetuaram sem que nenhuma
circunstância os modificasse, embora, por não
obedecer a princípios: rigorosos, re ocorra
perpetrar atos que no intimo reprovo. Pode
isso parecer uma enormidade, não é menos
certo porêm que meus costumes são mais
morigerados do que minha inteligência, minha
concupiscência menos desregrada do que
minha razão. Áristipo professava idéias tão
ousadas em prol das riquezas e dos prazeres,
que revoltaram todos os filósofos; era no
entanto muito diferente na vida privada. Ten-
do-lhe Dionísio, o Tirano, apresentado três
belas jovens para que escolhesse, respondeu
que as levava todas, porquanto Páris errara ao
preferir uma às outras. Em chegando em casa,
porém, mandou-as embora intatas. Queixava-
se o seu criado certa vez em viagem do peso do
dinheiro que carregava; sugeriu Aristipo que
tirasse o excesso e o deixasse à beira do
caminho.
Epicuro, cujos dogmas não são religiosos e
nos incitam a gozar a vida, viveu muito preso
às práticas religiosas e ao trabalho. Assim é
que escreve a um de seus amigos dizendo que
vive somente de pão preto e àgua € pedindo-lhe
que lhe envie um pedaço de queijo a fim de ter
a possibilidade de uma refeição abundante.
Será verdade que, para sermos completa-
mente bons, tenhamos de o ser por disposição
natural e inconsciente, independentemente de
leis, raciocínios e exemplos?
Meus desregramentos não foram, graças a
Deus, dos mais repreensíveis; condenei-os
como mereciam, porque não chegaram a per-
turbar o meu discernimento. Reprovo-os
mesmo mais acerbamente em mim do que em
outrem. É tudo, porém, pois lhes oponho resis-
tência diminuta e deixo-me levar facilmente
por eles, conquanto saiba evitar abusos e impe-
dir que degenerem em excessos, porque, se não
93 Horácio.
tomamos cuidado, novos vícios nascem dos vi-
cios antigos e acabam por atuar simultanea-
mente. Esforcei-me por restringir os meus, iso-
lá-los e atenuá-los na medida do possível.
“Afora isso, não sou viciado”* *.
Afirmam os estóicos que, quando o sábio
age, todas as suas virtudes participam da ação,
embora uma delas, segundo a natureza do ato,
pareça predominar. Vemos algo semelhante no
corpo humano, o qual não pode, por exemplo,
entregar-se à cólera sem que todos os humores
se ponham em movimento. Daí a conclusão de
que, se nos abandonamos a um vício, todos os
outros se apossam de nós. Não creio que assim:
aconteça, pois percebo em mim o contrário.
São, tais coisas, sutilezas sem fundamento, em
que se comprazem por vezes os filósofos. Se
sou vitima de certos vícios, fujo de outros
como fugiria um santo.
Os peripatéticos negam essa união indisso-
lúvel e Aristóteles é de opinião que um homem
pode ser avisado e justo apesar de imoderado e
incontinente. Sócrates confessava, a quem lhe
observava que sua fisionomia revelava uma
tendência para o vício, que, efetivamente, se
sentia inclinado para o desregramento mas se
corrigira por considerar um dever fazê-lo. Os
amigos do filósofo Estílpon diziam que, tendo
nascido com um gosto acentuado pelo vinho e
pelas mulheres, chegara, pela força de vontade,
a abster-se de ambas as coisas.
Ao contrário, as boas qualidades que tenho,
devo-as à boa estrela que presidiu ao meu
nascimento; não as obtive por decreto, precei-
tos ou aprendizado. Minha inocência é inata e
ingênua; tenho pouca vontade e pouca malícia.
Entre os vícios, um há que detesto particu-
larmente: a crueldade. Por instinto e por refle-
xão, considero-o o pior de todos; e cheguei
mesmo a esta fraqueza de não poder ver mata-
rem um frango sem que me seja desagradável,
nem posso ouvir uma lebre gemer nos dentes
dos cães, apesar de adorar a caça.
Os que combatem a volúpia, a fim de mos-
trar que é viciosa e absurda, alegam que,
“quando levada' ao paroxismo, nos domina a
ponto de destruir-nos a razão”; e em apoio de
sua tese invocam o que sentimos ao nos unir-
mos à mulher “quando, à aproximação do pra-
zer, o sexo vai fecundar o sexoӼ 8, momento
em que a satisfação dos sentidos como que nos
destrói e destrói a razão enlevada pela volúpia.
Acho que pode ocorrer coisa diferente c que
nos é possível, em querendo, ter outros pensa-
mentos nesse instante, mas para tanto há que
S4 Juvenal.
95 Lucrécio.
206 MONTAIGNE
fortalecer a alma. Acho, por experiência, que
podemos conter o efeito desse prazer e não
penso que Vênus seja uma deusa imperiosa,
como afirmam alguns mais castos do que eu.
Nem considero milagre, como diz a rainha de
Navarra em um conto de seu “Heptameron”
(livro muito agradável no gênero), nem exces-
sivamente difícil passar noites inteiras, com
calma e tranqlilidade, ao lado da mulher dese-
jada durante longo tempo, cumprindo a pro-
messa feita de nos contentarmos simplesmente
com beijos e presença palpável. Creio que a
caça nos dá melhor exemplo da impotência
momentânea da razão; o prazer é menor, mas
as surpresas são maiores, e nossa razão mara-
vilhada perde a faculdade de agir quando,
inopinadamente, após demorada espera, surge
o animal onde menos o aguardamos. O inci-
dente, os gritos, comovem-nos de tal modo que
seria difícil, para quem aprecia a caça, dela
desviar o pensamento. Por isso os poetas
representaram Diana indiferente às chamas do
amor e às flechas de Cupido: pois “como não
esquecer então as malícias do amor 2” º &
Volvamos ao nosso tema. Entristecem-me
grandemente as misérias alheias. Quando, por
uma circunstância qualquer, me encontro com
alguém em lágrimas, choraria facilmente
Junto, se alguma coisa me arrancasse lágrimas.
Nada me comove mais do que ver chorar, de
verdade ou fingidamente, e até em pintura.
Não me apiado dos mortos; antes os invejaria,
mas tenho dó — e muito — dos agonizantes.
Os selvagens, que assam e comem o corpo dos
mortos, provocam em mim uma impressão
menos penosa do que os que os atormentam e
torturam quando ainda em vida; não posso se-
quer assistir calmamente às execuções capitais
impostas pela justiça, por mais razoáveis que
sejam.
Alguém, querendo dar uma prova da de-
mência de Júlio César, dizia: “era suave em
suas vinganças. Tendo forçado alguns piratas
a se renderem, piratas que o haviam aprisio-
nado antes exigindo resgate, contentou-se com
os mandar estrangular, só os crucificando de-
pois de mortos. E tendo Filêmon, seu secretá-
rio, tentado envenená-lo, mandou-o simples-
mente executar, sem antes o torturar”. Sem
dizer quem foi esse historiador latinoº 7 que se
atreve a considerar demência o fato de apenas
mandar matar o ofensor, fácil é adivinhar que
estava sob a impressão dos horríveis e repug-
nantes exemplos de crueldade que os tiranos de
Roma puseram em voga.
26 Horácio.
º7 Suetônio, na biografia de César.
, ”
Quanto a mim, parece-me cruel, mesmo nos
atos de justiça, tudo o que vai além da simples
morte. É mais cruel ainda de nossa parte, a nós
que deveriamos cuidar de fazer com que as:
almas abandonem a terra serenamente, o que
se torna impossível se as submêtemos a tor-
mentos intoleráveis e atrozes suplícios.
Ultimamente um soldado preso, percebendo
do alto da torre em que:se achava, que a multi-
dão se reunia e carpinteiros construiam um
patíbulo, imaginou que se tratasse dele. Resol-
veu então matar-se; e, como não encontrasse
senão um prego enferrujado, vibrou dois gol-
pes na garganta. Vendo que não obtinha o
resultado desejado, deu novo golpe no ventre,
deixando o prego no ferimento. O primeiro
guarda a entrar na cela encontrou-o nesse esta-
do, ainda vivo mas quase sem forças. Com re-
ceio de que falecesse, sem perda de tempo — e
às pressas — leu-lhe a sentença. Ao saber que
estava condenado apenas a ser degolado, o
preso como que recobrou o ânimo, aceitou o
vinho antes recusado e louvou seus juízes pela
brandura da pena, declarando que resolvera
suicidar-se de medo de sofrer mais dolorosa-
mente, pois pensara que os preparativos a que
assistira fossem para ele. E parecia ter-se livra-
do da morte, tão-somente porque trocara a
maneira de morrer.
Acho que esses exemplos de rigor, pelos
quais procuram impor respeito ao povo, só
deveriam ser praticados com os despojos mor-
tais dos criminosos. Vê-los privados de sepul-
tura, queimados, esquartejados produziria o
mesmo efeito nas pessoas quanto os suplícios
que lhes infligem em vida, embora na realidade
pouco signifiquem, pois como se diz nos Evan-:
gelhos: “matam o corpo; nada mais podem
fazer depois” *8,
Mas os poetas ressaltam muito bem o hor-
ror que essas sevícias acrescentam à morte:
“Ah! que se arrastem desonrosamente por
terra, gotejando sangue, os restos de um rei
semiqueimado, ossos à mostra ”*º.
Encontrei-me um dia em Roma, no momen-
to em que executavam Catena, ladrão famoso.
Estrangularam-no primeiramente, sem que os
assistentes manifestassem nenhuma emoção,
mas quando o começaram a esquartejar, já
não dava o carrasco um só golpe sem que o
povo o acompanhasse com gemidos e excla-
mações, como se cada qual atribuísse os pró-
prios sentimentos aquela carniça. Tais atroci-
dades devem exercer-se não no que ainda vive
e sim na carcaça. Inspirado em pensamento
º8 São Lucas.
8º Enio, citado por Cicero.
ENSAIOS — II 207
análogo é que Artaxerxes temperava o rigor
das antigas leis persas e determinava que os
fidalgos que faltassem ao seu dever, em vez de
serem açoitados, fossem despojados de suas
roupas, as quais seriam açoitadas em lugar
deles, e que, em vez de lhes arrancar os cabe-
los, lhes tirassem simplesmente os chapéus. Os
egípcios, tão devotos, achavam que atendiam
as exigências da justiça divina, sacrificando-
lhe porcos, vivos ou em efígie. Idéia ousada;
essa de querer pagar com pinturas e simbolica-
mente a Deus, que é substância essencial!
Vivo em uma época em que, por causa de
nossas guerras civis, abundam os exemplos de
incrível crueldade. Não vejo na história antiga
nada pior do que os fatos dessa natureza, que
se verificam diariamente e aos quais não me
acostumo. Mal podia eu conceber, antes de o
ver, que existissem pessoas capazes de matar
pelo simples prazer de matar; pessoas que
esquartejam o próximo, inventam engenhosos
e desconhecidos suplícios e novos gêneros de
assassínios, sem ser movidos nem pelo ódio,
nem pela cobiça, no intuito único de assistir ao
espetáculo dos gestos, das contorções lamentá-
veis, dos gemidos; dos gritos angustiados de
um homem que agóniza entre torturas. É o úl-
timo grau a que pode atingir a crueldade: “que
um homein mate um homem, sem ser impelido
pela cólera ou o mEão; e unicamente para o ver
morrer”190,
Quanto a mim, nunca pude sequer ver perse-
guirem e matarem um inocente animal, sem
defesa, e do qual nada temos a recear, como é
o caso da caça ao veado, o qual, quando sem
fôlego e sem forças, e sem mais possibilidade
de fuga, se rende e como que implora o nosso
perdão com lágrimas nos olhos: “gemendo,
ensangúentado, pede mercê ”'*º', Um tal espe-
táculo sempre me pareceu muito desagradável.
Se pego algum animal vivo, dou-lhe liberdade.
O mesmo fazia Pitágoras que comprava peixes
e pássaros para os soltar: “Foi, creio, com o
sangue dos animais que o ferro se tingiu pela
primeira vez” *º2. Os que são sanguinários
com os bichos, revelam uma natureza pro-
pensa à crueldade. Quando se acostumaram
em Roma com os espetáculos de matanças de
animais, passaram aos homens e aos gladiado-
res. A própria natureza, a meu ver, agrega ao
homem certa tendência para a inumanidade:
ninguém se compraz em ver os bichos brinca-
rem e se acariciarem, mas todos se excitam
ante suas lutas ferozes. Para que não riam
desta simpatia que demonstro pelos animais,
199 Sêneca.
101 Virgílio.
102 Ovídio.
observarei que a própria teologia os reco-
menda à nossa benevolência. Considerando
que o Criador nos pôs na terra para servi-Lo e
que eles são como nós da mesma família, anda
bem a teologia em recomendar algum respeito
e afeição pelos animais.
Pitágoras foi buscar nos egípcios o dogma
da metempsicose. Posteriormente essa idéia foi
aceita por outros povos, entre os quais os nos-
sos druidas: “as almas não 'morrem; após
àâbandonarem suas primeiras residências pas-
sam a outras, e assim é eternamente”193,
A religião dos antigos gauleses admitia que
a alma é imortal e deduzia que mudava sempre
de lugar transportando-se de um corpo para
outro. À esta idéia juntava-se a da justiça divi-
na, pois, segundo a conduta da alma durante a
sua permanência em dado corpo, Deus lhe
designa outro em condições mais ou menos
semelhantes: “aprisiona as almas em corpos de
animais: a que foi cruel no urso, a do ladrão
no lobo, a do velhaco na raposa... e depois
de ter assim passado por mil metamorfoses,
purificadas enfim no rio do Esquecimento, são
devolvidas as suas primitivas formas huma-
nas” 104 A alma valente, encarnavam-na em
um leão: concupiscente, em um porco; covar-
de, em um veado ou uma lebre; maliciosa, em
uma raposa; € assim por diante, atê que, purifi-
“cada pela penitência, voltasse para o corpo de
um homem!º 8: “eu mesmo, recordo-me, quan-
do da guerra de Tróia, era Eufórbio, filho de
Pantene
Não concordo com esse parentesco entre os
animais e nós. Não compartilho a maneira de
ver de certos povos, entre os mais antigos e
civilizados, que não somente admitiam os ani-
mais na sociedade dos homens, mas ainda os
colocavam muito acima de si mesmos. Encara-
vam-nos uns como familiares privilegiados dos
deuses e por eles demonstravam maior respeito
e consideração do que por qualquer ser huma-
no; outros, indo mais longe, reconheciam-nos
por deuses e não adoravam outras divindades:
“os bárbaros divinizaram os bichos porque
deles tiravam proveito?1º7, “Uns adoram o
crocodilo, outros contemplam com santo ter-
ror a íbis alimentada com serpentes. Aqui bri-
lha no altar a imagem em ouro de um símio de
cauda comprida. .. além, adora-se um peixe
do Nilo; alhures, cidades inteiras prosternam-
se diante de um cão” 198.
103 Ta.
194 Claudiano.
105 A citação é repetida no texto sob essa nova
forma. (N. do T.)
198 Ovídio.
107 Cícero.
108 Juvenal.
208 MONTAIGNE
A interpretação muito aceitável que dá Plu-
tarco desse erro, é também honrosa para os
animais; não era o gato ou o boi, por exemplo,
que os egípcios adoravam e sim os atributos
divinos que simbolizavam: no boi a paciência;
no gato a Vivacidade; ou como entre os borgui-
nhões e os alemães, o gosto pela liberdade que
eles colocavam acima de tudo o que vinha de
Deus.
Quando encontro em autores muito sensatos
dissertações tendentes a provar certa seme-
lhança entre os animais e nós, quanto partici-
pam de nossos próprios privilégios e quanto
temos em comum, torno-me muito menos pre-
sunçoso e abdico sem dificuldade essa realeza
imaginária do homem sobre as demais criatu-
ras.
Mas, ainda que tudo isso seja discutível,
cumpre-nos ter certo respeito não somente
pelos animais, mas também por tudo o que
encerra vida e sentimento, inclusive árvores e
plantas. Aos homens devemos justiça; às de-
mais criaturas capazes de lhes sentir os efeitos,
solicitude e benevolência. Entre elas e nós exis-
tem relações que nos obrigam reciprocamente.
Não me envergonho de confessar que sou tão
inclinado à ternura e tão infantil a esse respeito
que não sei recusar a meu cão-as festas iniem-
pestivas que me faz, nem as que me pede.
Os turcos possuem estabelecimentos em que
recolhem cs animais e hospitais em que os tra-
tam. Os romanos alimentavam a expensas do
tesouro os gansos que tinham salvo o Capitó-
lio. Os atenienses haviam decidido que as
mulas e os burros empregados na construção.
do templo de Hecatompedon seriam deixados
em liberdade e pastariam onde quisessem sem
que ninguém os pudesse impedir. Os agrigen-
tinos tinham por costume corrente enterrar
cerimoniosamente os animais queridos, cava-
los dotados de alguma qualidade rara, cães e
pássaros úteis ou simplesmente divertidos. A
riqueza e a quantidade dessas sepulturas, que
se admiraram ainda séculos depois, não fica-
vam atrás das que lhes eram peculiares em
tudo. Os egípcios enterravam os lobos, os
ursos, os crocodilos, os cães e os gatos em
lugares sagrados. Embalsamavam-nos e usa-
vam luto em sua memória. Cimon deu honrosa
sepultura às éguas com que ganhou três vezes
consecutivas as corridas olímpicas. Xantipo, o
Antigo, enterrou seu cão em um promontório,
no mar que desde então teve seu nome. E o
próprio Plutarco teve escrúpulos, diz-nos, em
vender com algum lucro, e enviar ao matadou-
ro, um boi que lhe fora útil durante muito
tempo.
CarítruLO XII
Apologia de Raymond Sebond
É em verdade a ciência coisa importante e
útil. Os que a desprezam dão prova de estupi-
dez. Não considero entretanto seu valor tão
elevado quanto' o imaginam alguns, como o
filósofo Herilo, por exemplo, que a encara
como o soberano bem e lhe atribui o poder que
não tem, a meu ver, de nos tornar sensatos e
satisfeitos. Ou como outros que nela vêem a
mãe de todas as virtudes, resultando da igno-
rância todos os vícios.
Se assim é, cabe interpretâ-lo.
Minha casa esteve sempre aberta aos ho-
mens de ciência, e eles a conhecem bem. Meu
pai, que a dirigiu durante mais de cinquenta
anos, animado por esse entusiasmo do Rei
Francisco I pelas letras, procurou sempre com
cuidado e grande interesse a companhia dos
doutos. Recebia-os como se fossem santos, ins-
pirados na sabedoria divina. Recolhia seus
preceitos e discursos como oráculos e com
tanto maior reverência e fé quanto não estava
à altura de os julgar, não tendo tido, como não
tiveram seus avós, íntimo contato com as
letras. Eu também os aprecio muito, mas não
os adoro.
Entre os que recebeu meu pai figura Pierre
Bunuel, homem de grande reputação e que se
demorara alguns dias em Montaigne! ºº, com
outros sábios. No momento de partir presen-
teou-nos com uma obra intitulada “Teologia
Natural ou Livro das Criaturas”, de Raymond
Sebond. Meu pai conhecia perfeitamente o ita-
lano e o espanhol, e sendo a obra escrita nesta
última língua, embora mesclada com termina-
10º No castelo.
ENSAIOS — II 209
ções latinas, pensava Bunuel que, com alguma
ajuda, ele a pudesse ler e dela tirar proveito.
Recomendou-lhe o livro por ser muito útil e
apropriado às circunstâncias, pois estávamos
na época em que a Reforma de Lutero come-
çava a expandir-se e a abalar em muitos países
as antigas crenças. A esse respeito Bunuel
mostrava-se clarividente, prevendo, simples-
mente pelo raciocínio, que esse princípio de
doença degeneraria logo em execrável ateísmo,
e isso porque o vulgo, não sendo capaz de jul-
gar as coisas em si, se atém as aparências.
Quando se tem a temeridade de, por uma vez
que seja, incitá-lo a desprezar e controlar as
opiniões ante as quais respeitosamente se incli-
na, porquanto implicam em sua salvação;
quando se pôóem em dúvida certos pontos de
sua religião, submetendo-os a seu julgamento,
ele acaba muito rapidamente por sentir a
mesma incerteza para com todas as suas de-
mais crenças, pois as que ficam têm menos
autoridade e fundamento do que aquelas de
que o despojaram. Liberia-se, então, como de
um jugo tirânico, de todos os princípios que
recebera com apoio nas leis ou nos antigos
costumes, “pois calcamos aos pés de bom
grado aquilo que mais veneramos”?1º, e deci-
de desde logo não mais aceitar o que não tenha
antes examinado e aprovado.
Dias antes de morrer, tendo meu pai por
acaso encontrado o livro sob-um monte de
papéis abandonados, pediu-me que o vertesse
para o francês. É tarefa das mais fáceis tradu-
zir autores como esse, em quem o fundo é
tudo; já o mesmo não ocorre com os que sacri-
ficam muito à graça e à elegância do estilo,
principalmente quando nos devemos expressar
em uma língua mais pobre que a do original.
Para mim tratava-se de trabalho inédito, mas
ocorrendo, por felicidade, ter então alguns
lazeres, e nada podendo recusar ao melhor dos
pais, fiz o possível e terminei a tradução. Meu
pai ficou satisfeitíssimo e quis que a obra se
imprimisse, o que se fez depois de sua morte.
Achei belas as idéias do autor, sólida a
estrutura da obra e piedosa a sua inspiração.
Como muitas pessoas se distraem em sua leitu-
ra, entre as quais senhoras a quem devemos
obrigações, não raro me foi dado ajudá-las,
destruindo as duas principais objeções que
fazem ao livro.
O objetivo deste é ousado e corajoso, pois se
propõe estabelecer e provar, contra os ateus,
todos os artigos de fé da religião crista,
baseando-se unicamente em razões humanas e
naturais. E, em verdade, acho-o tão firme e tão
0 Lucrécio.
brilhante desse ponto de vista, que não creio
seja possível conseguir mais, nem penso que
alguém o tenha conseguido. Parecendo-me a
obra demasiado rica e bela para autor tão
pouco conhecido e de quem nada sabemos,
senão que era médico, espanhol, e residira em
Tolosa há cerca de duzentos anos, indaguei de
sua importância junto a Adriano Tournebus
que tudo sabe. Este respondeu-me que, a seu
ver, podia muito bem tratar-se de uma quinta-
essência tirada de Santo Tomás de Aquino,
cuja infinita erudição e sutileza de espírito
eram as únicas capazes de tais idéias. Como
quer que seja (e a hipótese de Tournebus não
basta para despojar Sebond), trata-se por certo
de um homem eminente que escreveu belis-
simas páginas.
A primeira objeção ao livro é que os cris-
tãos se enganam em querer sustentar com
argumentos puramente humanos uma crença
que só se concebe pela fé e por intervenção
particular da graça divina. Parece-me que tal
objeção provém de uma exagerada piedade,
por isso mesmo convêm refutá-la com tanto
maior delicadeza e respeito. E é neste espírito
que gostaria de responder. Seria tarefa para
alguém mais versado em teologia do que eu,
que a ignoro. Entretanto, julgo que em uma
coisa tão elevada e divina, que sobreexcede a
inteligência humana, como essa verdade com
que a bondade de Deus houve por bem ilumi-
nar-nos, cumpre que Ele nos continue a auxi-
liar, e que só por um favor especial de Sua
parte podemos concebê-la e penetrá-la. Aban-
donados unicamente à nossa inteligência, não
seremos capazes, pois se assim não fosse, mui-
tos espíritos superiores e privilegiados como os
que floresceram nos séculos passados teriam
chegado à fé por intermédio da razão. É
somente a fé que nos revela os inefáveis misté-
rios de nossa religião e nos confirma a sua ver-
dade; o que não significa não seja bela e louvá-
vel empresa pôr a serviço dessa fé os meios de
investigação que o homem recebeu de Deus. E
não há como duvidar um momento sequer seja
este o emprego mais digno que nos caiba dar a
nossas faculdades mentais, nem exista ocupa-
ção e objetivo mais elevados para um cristão
do que os de orientar seus estudos e medita-
ções no sentido de embelezar, estender e
ampliar os alicerces de sua crença. Não nos
contentemos com colocar ao serviço de Deus
nosso espírito e nossa alma; devemos também
prestar-Lhe uma homenagem fisica, pois todos
os nossos órgãos, todos os atos e atitudes con-
correm para a Sua glorificação. Nossa razão
deve agir do mesmo modo e dedicar-se a
amparar nossa fé, sempre porém sob a reserva
210
de não imaginar que por si só, pela força que
pode alcançar, lhe seja dado adquirir essa ciên-
cia sobrenatural que provém de Deus.
Se essa ciência não nos penetrasse por
extraordinária graça, se não entrasse em nós
senão pela força do raciocínio e outros proces-
sos humanos, não ocuparia O lugar nem teria o
esplendor que deve ter. Creio, porém, que
assim é que nos penetra. Se estivéssemos uni-
dos a Deus por uma fé ardente, se a Ele nos
prendêssemos por Ele próprio e não por nós, se
nossa fé assentasse em fundamento divino, as
tentações humanas não teriam o poder de nos
abalar como têm; resistiriamos sem dificul-
dade a tão fracos assaltos. O amor à novidade,
a tirania dos príncipes, a sorte de um partido,
as mudanças temerárias e fortuitas de nossas
opiniões, não conseguiriam estremecer ou alte-
rar as nossas crenças; não nos deixariamos
perturbar por argumentos novos e nenhuma
retórica no mundo nos impressionaria. Resolu-
tos e serenos, enfrentariamos esses golpes:
“assim um vasto rochedo opõe sua massa ao
furor das ondas que rugem e se quebram de
encontro a ele?" 11,
Se esse raio divino nos atingisse ainda que
de leve, em tudo o veriam. Nossas palavras e
nossos atos lhe refletiriam o clarão, tudo o que
emana de nós seria iluminado por tão nobre
claridade.
Deveriamos envergonhar-nos. O adepto de
qualquer seita humana, por estranha que seja,
a ela adapta rigorosamente sua conduta, e nós
outros cristãos só nos unimos à nossa divina
doutrina por palavras. Quereis a prova? Com-
parai nossos costumes aos dos maometanos e
pagãos e vede quanto os nossos são inferiores,
mesmo quando devido à superioridade de
nossa religião deveriamos brilhar extraordina-
riamente. Cumpriria que dissessem: são justos,
caridosos, bons, logo devem ser cristãos. O
resto é comum a todas as religiões: a esperan-
ça, a confiança, os acontecimentos que fortale-
cem, as cerimônias, as penitências, os mártires.
O que deveria distinguir a nossa verdade fora a
virtude, o mais celestial distintivo, o - mais
digno e mais árduo produto da verdade. É por-
que não somos o que deveríamos ser, que
nosso bom São Luís insistia em desaconselhar
o rei tártaro que se convertera a vir a Lião bei-
jar os pés do papa e admirar a pureza de nos-
sos costumes, pois temia que, ao contrário,
nossos desregramentos lhe esgotassem a admi-
ração por nossas crenças. Isso, entretanto, não
se verificou com aquele que, visitando Roma
com idênticas intenções e observando a disso-
111 Virgílio (paráfrase).
MONTAIGNE
lução do clero e do povo, mais entusiasta se
tornou de nossa fé, considerando quanto devia
ser forte e divina para manter sua dignidade e
seu esplendor em meio a tamanha corrupção.
Se tivéssemos um pingo somente de fé,
removeriamos montanhas, dizem os Evange-
lhos. Nossas ações, inspiradas pela divindade
que presidiria igualmente à sua execução, não
se incluiriam apenas entre as que o homem
pode cumprir, mas participariam do milagre,
como nossas próprias crenças: “crê, e o cami-
nho que te conduzirá à virtude e à felicidade
será curto” !'2. Uns se engenham em fazer crer
que crêem, e não crêem; os outros — a maio-
ria — persuadem-se a si próprios e não sabem
o que seja crer. Achamos estranho, nas guerras
que atualmente assolam nosso país, que os
acontecimentos flutuem na indecisão; é que
não pomos nossa fé nessas lutas. Um dos par-
tidos tem por ele a justiça, mas faz dela apenas
uma bandeira e uma máscara; ostenta-a mas
não lhe obedece. Não é ela que impele a ação;
não a desposou realmente o partido, o qual
não a traz no coração mas tão-somente nos lá-
bios, como faria um advogado. Ora, Deus deve
Seu apoio extraordinário à fé e à religião e não
a nossas paixões. E nessa luta são os homens
que a orientam. Para eles a religião é um meio,
quando deveria ser um fim. Atentai para os
acontecimentos e vereis como acomodamos a
religião, tal qual uma cera mole, a nossos
caprichos, obrigando-a a assumir as formas
que queremos. Jamais se viu em França seme-
lhante abuso. Que a puxem para a esquerda ou
para a direita, que digam branco ou preto,
todos a colocam igualmente a serviço de suas
ambições, e agem de'maneira tão idêntica em
seus desregramentos e injustiças que tornam
difícil acreditarmos na divergência de opiniões
que alegam para justificar seus atos, por-
quanto nossa opinião é que deve inspirar nossa
conduta e regular nossa vida. Uma só e mesma
escola, com os mesmos princípios, não produ-
ziria costumes mais homogêneos, mais unifor-
mes. :
Yede a horrível impudência com que joga-
mos com a palavra divina, a irreligiosidade
com que acolhemos ou rejeitamos, segundo o
lugar que nos assinam os fados nessas tempes-
tades públicas. Que partido, há um ano, sus-
tentava solenemente ser permitido ao cidadão
revoltar-se e armar-se contra seu rei em defesa
de sua religião? Que defendia o partido contrá-
rio? E vede de que lado se situam um e outro
agora, e se as armas se entrechocam menos
por se terem invertido as posições! E queima-
132 Quintiliano.
-— — —
ENSAIOS — II 211
mos as pessoas que afirmam ser preciso modi-
ficar a verdade de acordo com os interesses de
nossa causa! Sejamos francos: se selecionás-
semos no exército, mesmo no exército da lega-
lidade, os que servem unicamente para defen-
der sua fé, e até os que querem o império da lei
e do príncipe, não se constituiria com eles uma
companhia sequer. Como se explica que sejam
tão poucos os que permanecem fiéis à sua fé,
qualquer que seja o desenvolvimento dos
sucessos, e tão numerosos os que ora vão a
passo e ora a galope, e malbaratam os nossos
interesses passando da violência à moleza e à
indiferença? Não será porque a massa obedece
a considerações pessoais e ocasionais, cuja
diversidade a impulsiona?
É evidente, para mim, que somente nos
conformamos com os deveres que se coadu-
nam com nossas paixões. Não há hostilidade
mais eficaz que a dos cristãos. Nosso zelo é
capaz de maravilhas quando secunda nossa
inclinação natural para o ódio, a crueldade, a
ambição, a avareza, a intriga, a rebeldia. Ao
contrário, só por milagre, ou temperamento
especial, nada nos induz à bondade, à benevo-
lência e à moderação. Nossa religião tem por
objetivo extirpar os vícios; mas fazem com que
os dissimule, os alimente e os incentive. É pre-
ciso não trapacear com Deus. Se acreditás-
semos nEle — não chego a dizer se tivés-
semos fé —, se tão-somente acreditássemos
nºEle, e com vergonha o digo, se O tivéssemos
em nós como um amigo, por exemplo, nós O
amaríiamos acima de tudo pela Sua infinita
bondade, e pela beleza que nEle resplende. Ao
menos ocuparia Ele o mesmo lugar que ocu-
pam as riquezas, os prazeres, a glória, os
companheiros. O melhor dentre nós, que receia
magoar seu vizinho, seus parentes, seu mestre,
não teme ultrajá-Lo. Haverá alguém, por mais
simples de espirito que seja, que não queira
trocar um desses prazeres que nos oferecem os
vícios pela esperança de uma glória eterna? E
no entanto quantas vezes renunciamos a essa
glória por simples desdém, pois, que nos induz
à blasfêmia senão o próprio desejo de ofender?
Quando iniciavam o filósofo Antístenes nos
mistérios de Orfeu, disse-lhe o sacerdote que
os que praticavam essa religião receberiam, ao
morrer, as mais admiráveis recompensas. “Por
que então não morres?”, observou o filósofo.
Diógenes, mais grosseiramente ainda, como
de hábito, respondeu ao sacerdote que lhe
recomendava que abraçasse sua religião à fim
de alcançar a felicidade eterna: “Queres que
acredite que grandes homens como Agesilau €
Epaminondas serão miseráveis enquaiito tu,
que és um burro e nada fazes, serás um bem-
- aventurado somente porque és sacerdote?”
Se acolhêssemos essas grandes promessas
de beatitude eterna com o mesmo respeito que
demonstramos pelas doutrinas filosóficas, não
teriamos tanto medo da morte: “Em vez de
lamentarmos a desagregação de nosso ser, nos
alegrariamos com partir e abandonar nossa
carcaça mortal, como a serpente muda de pele,
como o veado se desfaz. de seus velhos
cornos”'!º?. Quero desaparecer, diriamos,
para estar com Jesus. A eloquência de Platão
no que concerne à imortalidade da alma não
impeliu alguns de seus discípulos ao suicídio, a
fim de gozar mais cedo a recompensa que o
filósofo prometia”?
Tudo isso é sinal muito evidente de que.não
compreendemos nossa religião, senão a nosso
modo e a nosso bel-prazer, como compreen-
demos qualquer outra religião. Se é nossa, é
porque o destino nos fez nascer em um país
onde ela existe, porque é muito antiga, ou por-
que os homens que a estabeleceram merecem
nosso respeito, ou porque tememos os castigos
com que ameaça os que não a seguem, ou
ainda porque nos seduzem suas promessas.
Todas essas considerações podem pesar em
nossas crenças, mas são secundárias; são laços
de ordem puramente humana. Em outras
regiões, outras influências, promessas e amea-
ças poderiam igualmente impor-nos outras
crenças. Somos cristãos como somos perigor-
dinos ou alemães.
Diz Platão que poucos ateus o são a ponto
de não apelarem para o poder divino nos
momentos de perigo. O aforismo não se aplica
ao verdadeiro cristão. Isso diz apenas respeito
as religiões criadas pelo homem. Que espécie
de fé será essa que se desenvolve com a covar-
dia e a pusilanimidade? Linda fé, a que existe
somente porque não se tem mais a coragem de
deixar de crer! Sentimentos tão falhos quanto
a inconstância e o medo poderão provocar em
nossa alma uma influência sadia? Há quem
pretenda provar, diz ainda Platão, que a razão
ordena que consideremos puras invenções tudo
o que se afirma do inferno e dos castigos futu-
ros. Mas, apresente-se a oportunidade de
serem coerentes, surja a-velhice, apareçam as
enfermidades e com elas a ameaça do túmulo,
logo veremos que o receio do futuro lhes modi-
ficará as convicções. E é porque tais impres-
sões enfraquecem o ânimo, que o filósofo proí-
be em suas leis as alusões a essas ameaças €
procura persuadir os homens de que dos deu-
ses não receberão jamais o mal, a não ser
quando necessário ao bem, como remédio para
as afecções morais.
113 Lucrécio.
212
Diz-se de Bion que, adepto fervoroso do
ateísmo de Teodoro, durante muito tempo ca-
çoou dos devotos, mas, surpreendido pela
morte, entregou-se às práticas mais supersti-
ciosas, como se os deuses existissem ou deixas-
sem de existir segundo as suas conveniências.
Platão conclui — e os exemplos o confirmam
— que pela razão ou pela força somos sempre
levados a crer na existência de Deus. O
ateísmo é uma concepção monstruosa e anti-
natural, e difícil de ser aceita pelo espírito
humano, ainda que insolente e anárquico, em-
bora se encontre quem a ostente, seja por
rebeldia, seja pela vaidade .de emitir opiniões
originais e reformadoras; mas se esses ateus
são bastante loucos para se dizerem ateus, não
são suficientemente fortes para implantar tal
convicção em sua consciência. Uma boa esto-
cada no peito e ei-los de mãos postas a implo-
rar o céu. E quando o medo e a doença tiverem
abatido esse licencioso e volúvel ardor, volta-
rão a si e mui discretamente farão como os
outros, acreditando naquilo em que todos acre-
ditam. Uma coisa é um dogma seriamente
estudado e aceito por todos, outra coisa essas
impressões passageiras que, nascidas de espíri-
tos desequilibrados, vão alimentando as mais
temerárias idéias e as mais fantasistas. Pobres
loucos que se esforçam por ser piores do que
está em suas forças.
Os erros do paganismo e a ignorância de
nossa santa verdade, fizeram ainda que a gran-
de alma de Platão, grande na medida da huma-
na grandeza, caísse em outro absurdo da
mesma ordem, a saber, a afirmação de que as
crianças e o velhos são mais acessíveis à reli-
gião, como se esta resultasse de uma fraqueza
de espírito. O laço que deveria unir nosso jul-
gamento à nossa vontade, envolver nossa alma
e ligá-la ao Criador, não deveria decorrer de
nossas considerações, nem de nossos racioci-
nios e sim de um abraço divino e sobrenatural
sob uma só forma, um só aspecto, um só brilho
emanado da autoridade de Deus e de Sua
graça. Ora, sendo nosso coração e nossa alma
regidos pela fé, esta deve: poder valer-se de
todas as demais partes de nosso ser de acordo
com o que cada uma pode dar. Não é crível,
portanto, que esse conjunto que constitui o
mundo, que essa admirável máquina não reve-
le vestígios denunciadores da presença do
grande. arquiteto que a construiu e que não se
perceba em algumas de suas peças algo susce-
tível de lembrar o artesão que as fez e juntou.
E, efetivamente, Suas obras principais deno-
tam o caráter de Sua divindade, o qual somen-
te a nossa fraqueza impede de perceber. Pois,
como diz Deus, Suas obras invisíveis manifes-
MONTAIGNE
- tam-se pelas visíveis. Sebond dedicou-se a esse
estudo digno de nossa atenção, mostrando-nos -
que nada neste mundo desmente a grandeza do '
Criador. Aliás seria contrário à bondade divi-
na que o universo não oferecesse apoio à ver-
dade de nossa fé: o céu, a terra, os elementos,
nosso corpo e nossa alma, tudo concorre para
Justificá-la. Cabe-nos encontrar o meio de
utilizarmos tudo isso. Confiam-nos o seu
segredo com a condição de que o saibamos
compreender, pois o mundo é por excelência o
templo sagrado a que o homem tem acesso a
fim de contemplar monumentos que não foram
construídos pela mão humana, mas sim ergui-
dos pela divina sabedoria, a qual no-los tornou
sensíveis como o sol, as estrelas, as águas, a
terra, que representam as coisas inteligíveis.
As invisíveis, diz São Paulo, nós as concebe-
mos pelo que vemos desse mundo que .Ele
criou, testemunho de Sua eterna sabedoria e de
Sua divindade. “Não sonegando à terra o espe-
táculo do céu, desenrolando-o sem cessar
sobre nós, Deus se descobre em todos os seus
aspectos; oferece-se a nós e em nós se inculca;
desejando ser claramente percebido em Sua
obra, mostra-nos como é e nos convida a medi-
tar as Suas leis”!14.
Ora, todos os raciocínios humanos são iner-
tes e estéreis, e só tomam forma na medida em
que Deus, por meio da graça, lhes dá tal opor-
tunidade e lhes determina o valor. Os gestos de
Sócrates e Catão permaneceram vãos e inúteis
porque não tinham por objetivo o amor e a
obediência que devemos a Deus, verdadeiro
criador de tudo e que eles não conheciam. O
mesmo se verifica com nossos raciocínios e
discursos: parecem possuir uma forma, mas na
realidade não passam de massas confusas e
condenadas à impotência sem a fé e a graça. A
fé, colorindo e dando brilho aos argumentos de
Sebond, dá-lhes consistência e solidez e-os
torna capazes de servir de guia a um neófito e
conduzi-lo pelo caminho que leva ão conheci-
mento da verdade, moldando-o até certo ponto
e o predispondo a receber a graça de Deus que *
lhe fortalece a fé e a faz perfeita. Conheço um
senhor de categoria, versado no estudo das
letras, que me confessou ter sido afastado da
incredulidade pelos argumentos de Sebond. E
ainda que os despojássemos do ornamento,
ajuda e aprovação da fé, e os encarássemos
como fantasias puramente humanas destinadas
a combater as idéias dos que se precipitaram
nas pavorosas e temíveis trevas da irreligiosi-
dade, seriam contudo tão 'valiosos e eficientes
quanto quaisquer outros que se lhes oponham.
W* Manílio.
ENSAIOS — IH 213
De sorte que podemos dizer com razão aos
seus adversários: “se tendes melhores argu-
mentos, apresentai-os, se não, concordai”?! 8.
Reconheçam a validez de nossas provas ou
nos dêem outras mais substanciais. E eis-me,
sem dar por isso, a discutir a segunda objeção
que me proponho refutar em nome de Sebond.
Há quem ache seus argumentos fracos, insu-
ficientes para provar o que desejam provar e
facilmente refutáveis. Essa gente merece que
lhe responda com mais energia, pois é mais
perigosa porque mais maliciosa. Deturpam de
bom grado as palavras alheias no intuito de
valorizar as próprias: para o ateu tudo o que se
escreve tem alguma relação com o ateísmo e
ele envenena com seu próprio veneno o mais
inocente pensamento. Uns têm escrúpulos que
os levam a achar insossos os argumentos de
Sebond; acham que favorece os ateus e permi-
te-lhes que combatam nossa religião com
armas humanas, essa religião que não ousa-
riam atacar se ela lhes aparecesse em todo o
seu esplendor, na plenitude da autoridade e do
mando.
O meio que emprego para rebater essa obje-
ção — e me parece o mais adequado — é o de
humilhar e espezinhar o orguiho e a arro-
gância do homem; o de lhe fazer sentir sua jna-
nidade, sua vaidade, seu vazio; de lhe arrancar
das mãos as armas mesquinhas que lhe fornece
a razão; de o forçar a inclinar-se e beijar o
chão ante a autoridade e imponência da divina
majestade. Só a esta pertencem a ciência e a
sabedoria; só ela pode avaliar sozinha alguma
coisa e dela tiramos aquilo com que nos enfei-
tamos e tanto prezamos em nós. “Deus não
permite que ninguém se orgulhe, senão
Ele”'1 8, deitemos pois por terra nossa orgu-
lhosa pretensão, ponto de partida da tirania
que sobre nós exerce o diabo: “Deus enfrenta
os soberbos e perdoa os humildes”! 7. A inte-
ligência é apanágio dos deuses, diz Platão; os
homens pouca ou nenhuma têm. Por isso é de
grande consolo para o cristão ver nossos
instrumentos mortais e frágeis se adaptarem
tão bem ao que exige nossa fé santa e divina,
que, quando os utilizamos nos atos mortais €
frágeis como eles próprios não se revelam mais
adequados nem mais poderosos.
Vejamos se o homem dispõe de argumentos
mais eficazes que os de Sebond, e se lhe é pos-
sível chegar a uma certeza mediante provas e
raciocínio. Refutando os incrédulos, censura-
lhes Santo Agostinho a injustiça de conside-
rarem falso tudo aquilo que, em nossas cren-
15 Horácio.
18 Heródoto.
117 São Pedro.
ças, a razão não consegue provar. E a fim de
mostrar que muitas coisas são, ou podem ter
sido, sem que nossa inteligência lhes desvende
a natureza e as causas, cita-lhes fatos conheci-
dos e indiscutíveis que o homem confessa não
poder explicar. Nisso, como em tudo o que faz,
aliás, Santo Agostinho demonstra muita suti-
leza e engenho. É preciso ir mais longe e ensi-
nar-lhes que para que se convençam da debili-
dade de sua razão, não hã necessidade de
recorrer a exemplos singulares e peregrinos.
Ela apresenta tantos pontos fracos, é tão cega
que não há. verdade, por luminosa que seja,
que assim lhe pareça. O fácil e o difícil são
para ela uma só coisa. Tudo enfim o que ela
pretende julgar e a natureza em geral se sonega
à sua jurisdição e competência.
Qué nos prega a verdade quando nos convi-
da a fugir à filosofia deste mundo? E quando
nos adverte de que nossa sabedoria é simples
loucura diante de Deus? Quando nos diz que
de todas as vaidades o homem é a mais va; €
que quem se vangloria de seu saber não sabe o
que é o saber; e que o homem não é nada
quando pensa ser alguma coisa; e que se exalta
e se engana a si próprio? Estas sentenças que
emanam do Espirito Santo exprimem tão cla-
ramente e de um modo tão vivo o que pretendo
demonstrar, que não precisaria lançar mão de
nenhuma outra prova contra pessoas que se
inclinassem diante de sua autoridade; mas
estes a que nos referimos aqui se obstinam em
pagar o açoite com que serão açoitados e não
admitem que se combata sua razão, senão com
a própria razão. -
Consideremos, pois, um momento o homem
isolado, abandonado a si próprio, armado uni-
camente de graça e conhecimento de Deus, o
que constitui sua honra e toda a sua força, e o
fundamento de seu ser; e vejamos o de que é
capaz com esse equipamento. Que me explique
pelo raciocínio em que consiste a grande supe-
rioridade que pretende ter sobre as demais
criaturas. Quem “o autoriza a pensar que o
movimento admirável da abóbada celeste, a
luz eterna dessas tochas girando majestosa-
mente sobre sua cabeça, as flutuações como-
ventes do mar de horizontes infinitos, foram
criados e continuem a existir unicamente para
sua comodidade e serviço? Será possível ima-
ginar algo mais ridículo do que essa miserável
criatura, que nem sequer é dona de si mesma,
que está exposta a todos os desastres e se pro-
clama senhora do universo? Se não lhe pode
conhecer ao menos uma pequena parcela,
como há de dirigir o todo? Quem lhe outorgou
o privilégio que se arroga de ser o único capaz,
nesse vasto edifício, de lhe apreciar a beleza?
214 MONTAIGNE |
E de poder sozinho render graças ao arquiteto,
e de lhe computar os recursos e os valorizar?
Que nos dê as provas de tão grande e admirá-
vel faculdade, nem mesmo aos mais sábios
concedida! Bem poucos a possuem e seriam
dignos dela os loucos e os perversos? Seriam
os piores preferidos aos demais? E deveremos
acréditar em quem disse: “Para quem diremos
que o mundo foi criado? Sem dúvida para os
seres animados dotados de razão, isto é, os
deuses; e os homens-que são as criaturas mais
perfeitas”"18, Não, nunca estigmatizariamos
suficientemente a impertinência de semelhante
emparelhamento. Que terá, então, em si, o
pobrezinho, para se tornar digno de uma tal
distinção?
Consideremos a vida incorruptível dos cor-
pos celestes, sua beleza e grandeza, seu movi-
mento contínuo e regulado com tamanha exati-
dão: “quando contemplamos, no espaço
celeste do vasto mundo, o éter imóvel com
suas cintilantes estrelas, e meditamos nas sen-
das do sol e da lua”1"º; consideremos o domi-
nio e o poder que esses corpos exércem não
somente sobre nossas existências e nosso desti-
no, “pois todos os atos e a vida dos homens
dependem da influência dos astros”'2º, mas
também sobre nossas tendências, nossos racio-
cínios, nossas vontades, que governam e per-
turbam segundo o sentido dessa influência
como no-lo demonstra a razão: “percebendo o
secreto império que tão longínquos astros têm
sobre os homens, as leis fixas que regulam os
movimentos periódicos do universo e os sinais
que determinam o curso dos acontecimen-
-tos?121. Se não somente o homem isolado,
mas também os reinos e os impérios, tudo
neste mundo sofre a influência dos mais insig-
nificantes movimentos celestes (“as maiores
revoluções são provocadas por esses movimen-
tos insensíveis, tão grandes são as leis que
comandam os próprios reis”'22): se nossa vir-
tude, nossos vícios, nossas faculdades, nosso
saber, essa intuição que temos da influência
dos astros, essa compreensão das relações
existentes entre nós e eles, se tudo nos vem
deles e resulta de sua ação, como somos indu-
zidos a crer: “um, louco de amor, atravessa o
mar e vai destruir Tróia; outro tem por destino
escrever leis; aqui os filhos matam os pais,
além os pais matam os filhos, ou os irmãos
lutam contra os irmãos e se trucidam. Não
cabe acusar os homens; o destino, mais forte
118 Cicero.
119 TLucrécio.
12º Manílio.
121 Td.
122 Td.
do que eles, os arrasta, os obriga a se castiga-
rem e se esquartejarem mutuamente. Tudo pre-
cisa acontecer como o quer o destino”? 2º, se é
afinal ao céu que devemos a parcela de razão
que possuímos, como pode esta parte equipa-
rar-se ao todo? Como poderemos submeter ao
nosso saber seu princípio e as condições em
que este existe?
Tudo o que vemos desses astros é mistério e
maravilha: “que instrumentos, que alavancas,
que máquinas, que operários ergueram tão
vasto edifício”'2 4? Por que os julgaremos pri-
vados de alma, vida, razão? Deram-nos por-
ventura provas de estupidez e insensibilidade,
a nós que não temos outras relações senão de
dependência? Diremos que nunca constatamos
em nenhuma criatura outra que o homem o
testemunho de uma alma dotada de razão? E
que provaria isso? Nadá vemos que se asseme-
lhe ao sol, mas do fato de nada termos visto de,
semelhante concluiremos que não existe, como
não existiriam seus movimentos de rotação
porque não conhecemos coisa equivalente? Se
tudo o que não vemos não existisse, nossa
ciência se acharia muito empobrecida: “tão
estreitos são os limites de nosso espírito”? 8.
Não é um sonho da vaidade humana fazer da
lua uma terra celeste; pensar, como Anaxágo-
ras, que nela haja montanhas e vales, imaginar
como Platão e Plutarco que aí se encontram
residências para colônias de seres humanos; e
ainda que nossa terra é um astro luminoso?
“Entre outras doenças da natureza mortal há
que apontar a cegueira da alma que fião
somente induz o homem ao erro más ainda a
amar o seu erro”!2.8 “O corpo corruptível
entorpece a alma e essa morada terrena à
deprime no próprio exercício do pensamen-
to?127. A presunção é doença natural e inata
em nós. De todas as criaturas, a mais frágil e
miserável é o homem, mas ao mesmo tempo,
como diz Plínio, a mais orgulhosa. Ele se sente
e se vê colocado na lama e no esterco do
mundo, amarrado, pregado à pior parte do uni-
verso, à mais morta, à mais afastada dos céus,
junto com os animais da=mais baixa categoria
das três existentes, e ei-lo que pela imaginação
se alça acima da órbita da lua.e supõe o céu a
seus pés!
Pela vaidade mesma dessa imaginação,
iguala-se a Deus, atribuindo-se a si próprio
qualidades divinas que ele mesmo escolhe.
Separa-se das outras criaturas; distribui as
faculdades físicas e intelectuais que bem enten-
123 Id.
124 Cícero.
125 Td.
128 Sêneca.
127 Santo Agostinho.
ENSAIOS — II
de aos animais, seus companheiros. Como
pode conhecer com sua inteligência os móveis
interiores e secretos deles? Em virtude de que
comparações entre eles e nós chega à conclu-
são de que são estúpidos? Quando brinco com
minha gata, sei là se ela não se diverte mais do
que eu. Distraímo-nos com macaquices reci-
procas, e se tenho o meu momento de iniciar
ou terminar o folguedo, ela também o tem.
Platão em sua idade de ouro, sob Saturno,
inclui entre os principais privilégios do homem
de então o de se comunicar com os animais.
Assim, questionando-os e os estudando, co-
nhecia exatamente as faculdades de cada um
bem como as diferenças, o que tornava mais
agudo seu raciocínio, mais perfeita sua pru-
dência e mais eficiente sua conduta na vida.
Haverá melhor prova da insensatez do homem
em querer julgar os animais? Esse grande filó-
sofo crê que, quanto à forma corporal de que
os dotou a natureza, esta só atendeu aos prog-
nósticos possíveis naquela época.
Essa falha que impede nossa comunicação
recíproca tanto pode ser atribuída a nós como
a eles, que consideramos inferiores. Está ainda
por se estabelecer a quem cabe a culpa de não
nos entendermos, pois se não penetramos o
pensamento dos animais, eles tampouco pene-
tram os nossos e podem assim nos achar tão
irracionais quanto nós os achamos. E nada há
de extraordinário em que não os entendamos,
pois o mesmo ocorre em relação aos bascos €
aos trogloditas. Alguns entretanto preten-
deram entendê-los: Apolônio de Tiana, Me-
lampo, Tirésias, Tales, etc. E se nos dizem, os
que se ocupam com a descrição do mundo, que
há povos que têm um cão por monarca, é de se
admitir que seus súditos entendam algo de seus
latidos e atitudes.
Observemos ademais algumas semelhanças
existentes entre o homem e os animais. Conhe-
cemos alguma coisa de seus sentimentos,
pouco mais ou menos o que conhecem dos
nossos, pois nos fazem festa, nos ameaçam ou
nos pedem o que querem, quase da mesma
maneira por que nos conduzimos com eles. De
resto, entendem-se entre si perfeitamente e não
só entre os da mesma espécie, mas também
entre os de espécie diferente. “Os animais
domésticos, como os bichos ferozes, emitem
sons diferentes segundo o medo, a dor ou O
prazer que sentem”'28. Pelo latido do cão,
sabe o cavalo de sua cólera; não o receia quan-
do outra é a modulação da voz.
Quanto aos animais que não têm voz, pode-
mos verificar facilmente, pela comunicação e
128 Tucrécio.
215
inteligência que entre eles se observam, que pos-
suem outros meios de se compreender, valen-
do-se de movimentos com significações especi-
ficas. “Pelo mesmo motivo vemos as crianças
suprirem por gestos a palavra que lhes
falta”'2º. E por que não acreditar nisso? Não
é assim que os mudos discutem, conversam,
contam histórias? Eu conheci alguns, tão há-
beis e afeitos aos gestos, que de nada careciam
para se exteriorizar. Os amorosos brigam,
reconciliam-se, imploram, agradecem, marcam
encontros unicamente com olhares: “o próprio
silêncio tem sua linguagem 13º.
E não nos exprimimos com as mãos? Pedi-
mos, prometemos, chamamos, despedimo-nos,
ameaçamos, suplicamos, rezamos, negamos,
interrogamos, admiramos, recusamos, conta-
mos, confessamos, manifestamos nosso arre-
pendimento, nossos temores, nossa vergonha,
nossas dúvidas; informamo-nos, comandamos,
incitamos, encorajamos, blasfemamos, teste-
munhamos, exprimimos nosso desprezo, nosso
despeito; caçoamos, adulamos. desafiamos,
injuriamos, aplaudimos, benzemos, humilha-
mos, reconciliamo-nos, exaltamo-nos, regozi-
jamo-nos, queixamo-nos, entristecemo-nos; de-
monstramos nosso desânimo, nosso desespero,
nosso espanto; exclamamos e calamos, e que
mais não externamos, unicamente com as
mãos, cuja variedade de movimentos nada fica
a dever às inflexões da voz? Com a cabeça
convidamos, aprovamos, reprovamos, desmen-
timos, saudamos, honramos, veneramos, des-
prezamos, solicitamos, lamentamos, acaricia-
mos, censuramos, concordamos, desafiamos,
exortamos, ameaçamos, asseguramos, inquiri-
mos. E com as sobrancelhas? E com os
ombros? Não há gesto ou movimento em nós
que não fale, de uma maneira inteligível que
não é ensinada e todos entendem. Tudo isso
faz que, em se atentando para a variedade das
línguas e o trabalho que exigem para que as
aprendamos, possamos considerar essa comu-
nicação por meio de sinais a linguagem natural
do homem. Deixo de lado o que a necessidade
ensina em certos casos, bem como o alfabeto
dos dedos, a gramática inculcada por gestos,
as artes assim executadas, os povos que,
segundo Plínio, não falam senão por esse meio.
Um embaixador da cidade de Abdera, depois
de ter falado longamente com Ágis, rei de
Esparta, perguntou-lhe que resposta devia dar
a seus concidadãos. “Dize que te deixei falar
quanto quiseste, e tudo o que quiseste, sem
pronunciar uma palavra.” Eis um silêncio que
fala de modo muito claro.
129 Td.
130 Tasso.
216
Que faculdade teremos ainda que não
encontremos nos animais? Haverá organiza-
ção social mais perfeita que a das abelhas? À
divisão do trabalho e dos encargos é tão bem
regulada entre elas, que a não podemos imagi-
nar sem supormos esses insetos dotados de
inteligência: “por esses sinais, e exemplos, jul-
garam alguns sábios que as abelhas possuiam
uma parcela de espírito divino e tinham uma
alma”'31. As andorinhas que, na primavera,
vemos esquadrinharem os recantos todos de
uma casa, escolherão por acaso sem discerni-
mento e ponderação o mais cômodo dentre mil
lugares? Quando constroem seus ninhos, tão
“admiráveis pela contextura, podem os pássaros
adotar a forma quadrada ou redonda, o ângulo
obtuso ou reto, sem conhecimento das condi-
ções e efeitos de cada uma dessas formas? Ao
misturarem a água com a argila, ignorarão que
aqueia amolece esta? Atapetando seus palá-
cios de musgo ou de plumas, não estarão pre-
vendo a conveniência da moleza para os mem-
bros delicados dos filhotes? Será que se
resguardam do vento e da chuva e instalam
seus ninhos voltados para o oriente sem
conhecerem as condições climáticas e atenta-
rem para as mais favoráveis? Por que faz a
aranha sua teia mais espessa em certos lugares
e por que a tece diferentemente, ora de um jeito
ora de outro, se antes não pensou, e decidiu?
. Constatamos que na maior parte de seus
trabalhos e obras os animais nos são superio-
. res e que nossa arte não consegue imitar-lhes
com grande êxito as realizações, e no entanto -
no que fazemos, inferior ao que fazem os
bichos, pomos toda a nossa alma e apelamos
para todas as nossas faculdades. Por que não
acreditarmos que agem de igual maneira? Que
motivo nos leva a atribuir a não sei que ins-
tinto natural e servil tais obras que somos
incapazes de levar a cabo, nem por instinto
nem com a ajuda da razão? Com isso, sem
pensar, outorgamo-lhes grandes vantagens,
pois admitimos que a natureza, em virtude de
uma afeição especial, os acompanha e guia nos
atos e situações da existência, enquanto nos
abandona ao acaso e à sorte, obrigando-nos a
recorrer à arte para obtermos as coisas neces-
sárias à nossa conservação e recusando-nos
sempre os meios de alcançarmos, nem mesmo
mediante a mais violenta concentração de espí-
rito, a habilidade natural dos animais. Assim a
estupidez deles seria mais admirável do que a
nossa divina inteligência! Teriamos portanto
motivo de sobra para considerar a natureza
uma injusta madrasta. Entretanto erraríamos,
131 Virgílio.
MONTAIGNE
porquanto nossa maneira de ser não é tão
desordenada nem absurda.
A natureza cuida igualmente de todas as
suas criaturas. Não há nenhuma que ela não
tenha abundantemente provido de meios neces-
sários à sua conservação. E as recriminações
que ouço (pois a licença de nossas opiniões ora
nos eleva acima das nuvens ora nos rebaixa
aos antípodas) carecem de fundamento. Dizem
essas queixas que o homem é o único animal
abandonado nu sobre a terra nua. Chega
amarrado, arrochado, e para se armar e se
defender precisa recorrer aos despojos de
outrem. A natureza revestiu todas as-criaturas
de carapaças, casca, pelos, la, espinhos, couro,
escamas, seda, segundo suas necessidades;
armou-as de garras, dentes, chifres para o ataque
e a defesa, ensinando-lhes ainda nadar, correr,
voar, cantar, ao passo que o homem não pode,
sem aprendizado, andar, falar, comer. Apenas
sabe chorar. “Como o marinheiro lançado à
praia pelas ondas furiosas, jaz a criança na
terra, nua, sem palavra, privada de quaisquer
socorros para a vida, desde o momento em que
a natureza a arranca do ventre materno a fim
de a expor à luz. Enche então o ar de gemidos,
e com razão, tantos são os males que aqui a
esperam. Ao contrário, os animais domésticos
e os bichos ferozes crescem sem cuidados; não
precisam nem de chocalho nem de carícias,
nem da linguagem infantil de uma ama; a dife-
rença de temperatura não os obriga a trocar de
roupas; não necessitam enfim de armas, nem
de torreões para sua segurança, porquanto a
natureza amplamente os provê de tudo” 132,
Tais queixas não são justas. Hã na organi-
zação do mundo maior eglidade e uniformi-
dade. Nossa pele, como a dos animais, pode
opor resistência suficiente às injúrias do
tempo. Provam-no numerosos povos que não
usam roupas. E nossos antepassados gauleses
pouco se cobriam, tal qual os habitantes da
Irlanda"??, cujo clima ê tão frio. Julgamo-lo
melhor ainda por nós mesmos, pois todas as
partes do corpo que nos comprazemos em
expor ao sol e ao vento, como o rosto, os pés,
as mãos, os ombros, a cabeça, suportam-no
muito bem. E se há uma parte em nós que pa-
rece dever recear o frio é o estômago, no qual
se efetua a digestão. Nossos pais expunham-no
ao ar e as senhoras de hoje, tão frágeis, tão
delicadas, usam por vezes vestidos abertos até
c umbigo. O enfaixamento das crianças, as
precauções que tomamos para sustentar-lhes o
corpo, não são tampouco indispensáveis: as
!82 Lucrécio.
133 Escócia, provaveimente.
ENSAIOS —I 217
mães lacedemônias criavam seus filhos, dei-
xando-lhes inteira liberdade de movimentos,
não lhes arrochando os membros.
Se choramos, também choram os animais.
Há bem poucos que não fiquem a gemer e
lamentar-se durante muito tempo ainda após o
nascimento, o que é inerente ao seu estado de
fraqueza. Quanto a alimentar-se, é coisa natu-
ral neles como em nós; não há como ensiná-la,
pois “todo animal sabe de suas forças e
necessidades”'3*. Atingida a idade em que o
peito já não lhe basta, a criança pede comida.
E a terra produz espontaneamente, e oferece
ao homem, em quantidade suficiente, o que
necessita para sua alimentação, sem que seja
preciso cultivo ou preparação. Nem sempre, é
certo; mas os animais como nós — compro-
vam-no as formigas — sabem fazer provisões
para as estações estéreis do ano.
Esses povos que acabamos de descobrir !* 8,
tão copiosamente providos de camnes e bebidas
naturais, sem que as cultivem ou fabriquem,
mostram-nos que o pão não é nosso único ali-
mento e que, sem cultivo, nos fornece-a natu-
reza tudo o que nos é indispensável, provavel-
mente com maior abundância e variedade do
que depois que interviemos na produção: “No
princípio criou a terra, por si própria, as mais
ricas messes e os mais risonhos vinhedos; ela
mesma formou seus mais doces frutos e alegres
pastagens, o que agora só obtemos com suor,
exaurindo os bois e os lavradores”! * 8. Mas as
exigências desregradas dos nossos apetites
crescem mais do que a nossa possibilidade de
satisfazê-los.
Quanto às armas, a natureza nos deu maior
número do que aos animais. Nossos membros
são capazes de mais movimentos e deles tira-
mos melhor partido, sem mesmo nos termos
exercitado antes. E os homens que se habitua-
ram a combater nus enfrentam os mesmos
perigos que nós; e se alguns animais levam
vantagem sobre nós, em relação a muitos ou-
tros a vantagem é nossa. E a precaução de
aumentar nossa força e de nos proteger por
meios artificiais é em nós instintiva.
O elefante afia os dentes que emprega na
luta (tem-nos especialmente para tal fim); o
touro envolve-se em uma nuvem de pó que
levanta raspando o solo com os cascos; o java-
li aponta suas defesas; quando o mangusto
resolve atacar o crocodilo, cobre o corpo com
uma camada de lama bem compacta e amassa-
da, que forma uma espécie de couraça. Será
134 Lucrécio.
135 Montaigne refere-se aos índios de Brasil.
136 Tucrécio.
menos natural o fato de fabricarmos armas de
madeira e ferro?
Quanto à linguagem, pode-se dizer que se
não é natural tampouco é imprescindível.
Penso que uma criança entregue a si mesma e
criada em pleno isolamento, sem relações com
. outros seres humanos (experiência dificil de se
realizar) inventaria uma espécie de palavra
para se exprimir. Não é admissível que a natu-
reza nos tenha negado esse. instrumento que
deu a muitos outros animais, pois que outra
coisa será, senão uma linguagem, isso que lhes
permite queixar-se ou manifestar sua alegria,
chamar por socorro, ou para o amor, o que
fazem por meio da voz? Por que não falariam
conosco? E não falamos com eles? Quantas
coisas dizemos nós aos cães, que eles com-
preendem e a que respondem! A linguagem
que com eles empregamos não é a mesma que
nos serve para falar aos pássaros, aos porcos,
aos bois, aos cavalos. Mudamos de idioma
segundo o animal a que nos dirigimos. “Assim
no meio de negro batalhão uma formiga che-
ga-se a outra, talvez para saber de seu caminho
ou de seus tesouros”'3 7. Parece-me até que
Lactâncio atribui aos animais não somente a
faculdade de falar mas também de rir, e a dife-
rença de línguas que se observa entre os
homens, segundo sua terra de origem, igual-
mente se constata entre os animais de uma
mesma espécie. Aristóteles cita como exemplo
o canto da perdiz que varia segundo esteja em
região plana ou montanhosa. “E as aves
mudam de voz em diversas épocas e algumas
há que, ao mudar a estação, mudam de
gorjeio” 138.
Resta saber que linguagem falaria a criança,
mas nenhuma conjetura apresenta possibili-
dades de verossimilhança. Se me alegarem que
os surdos de nascimento não falam, respon-
derei que a única razão não está em que não
lhes ensinaram com sons, mas sim porque exis-
te uma correlação natural entre o ouvido e a
voz, de sorte que o que dizemos, dizemos
principalmente a nós mesmos, fazendo-o soar
aos ouvidos antes de transmitilo aos estra-
nhos.
Disse tudo isso para estabelecer a seme-
lhança que há entre os seres da criação e
recolocarmo-nos entre as demais criaturas.
Não estamos acima nem abaixo delas. Tudo o
que existe sob os céus estã sujeito à mesma lei
e às mesmas condições: “tudo se prende ao
destino”'3º. Há diferenças, ordens e graus
diversos, mas de um modo geral os caracteres
137 Dante.
138 Tucrécio.
139 Id.
218
essenciais são os mesmos: “cada coisa tem sua
organização própria, e todas conservam as
diferenças estabelecidas pela natureza”? *º.
É preciso limitar o homem e colocá-lo entre
as barreiras dessa ordem universal. Na reali-
dade não poderia o infeliz assaltar, preso que
está pelos entraves que o retêm e o amarram a
todas as outras obrigações das criaturas de sua
espécie, e isso sem nenhuma prerrogativa
essencial. A que se atribui, ou por crença real
ou por fantasia, não existe e nem sequer tem a
aparência da realidade. E ainda que a tivesse,
que sozinho entre os outros animais tivesse a
liberdade de imaginação, ou a desordem de
pensamento, que lhe permitem representar-se a .
um tempo o que é e o que não é, seria uma
vantagem muito cara de que não deveria envai-
decer-se, pois é a fonte principal dos males que
o acabrunham: o pecado, a doença, a indeci-
são, a inquietação, o desespero.
Eis por que eu não digo que não haja razão
para pensar que os animais fazem instintiva-
mente e determinadamente o que nós mesmos
fazemos por vontade e invenção próprias. Os
mesmos resultados decorrem de idênticas
faculdades, e quanto mais ricos os resultados
mais ricas as faculdades, o que nos leva a con-
cluir que raciocínios e meios idênticos aos que
acompanham -nossos atos acompanham os
atos dos animais, os quais, têm, ocasional-
mente, faculdades superiores às nossas.
Por que imaginar que neles a ação é magui-
nal e em nós mesmos não? Além do que, é
muito mais fácil ser obrigado a agir acertada-
mente, por natural e inevitável constituição, o
que nos aproxima ainda mais de Deus, do que
agir acertadamente por livre e espontânea von-
tade, exposto a erros e temeridades. Nestas
condições, o melhor seria abandonarmos à
natureza o cuidado de orientar nossa maneira
de fazer. Mas somos tão presunçosos que pre-
ferimos dever o que somos capazes de fazer a
nossas forças a dever à liberalidade divina
nosso valor e nossas possibilidades. E enrique-
cemos os animais com bens naturais a que
renunciamos, achando mais honrosos e nobres
os que nos cumpre adquirir; e isso, a meu ver,
por simplicidade de espírito, pois apreciaria
muito mais prendas inatas e pessoais do que as
que precisasse mendigar e exigissem aprendi-
zado. Não está ao nosso alcance obter melhor
recomendação que a de ser favorecido por
Deus e pela natureza.
Os habitantes da Trácia, quando têm que
atravessar um rio gelado, servem-se de uma ra-
posa que caminha à sua frente. Vê-sc o animal
140 Tucrécio.
MONTAIGNE | |
|
aproximar o ouvido do gelo, até tocá-lo para
verificar se a água corre perto ou longe. E veri-
ficada a espessura do gelo, avança: ou recua.
Não somos levados a pensar que em seu cére-
bro se observa um processo racional seme-
lhante ao que se processaria no nosso? “O que
faz barulho mexe; o que mexe não é gelo; o
que não é gelo é líquido; e o que é líquido afun-
da sob o peso de um fardo.” Atribuir o ato da
raposa à acuidade de seu ouvido, sem reflexão
de sua parte, é uma quimera que nosso espírito
não pode aceitar. Igual opinião devem merecer
todas as invenções e astúcias a que recorrem
os bichos para se verem livres de nossa
perseguição.
Se, em prol de nossa superioridade, quiser- -
mos argumentar com o fato de os aprisio-
narmos, empregá-los à vontade a nosso servi-
ço, direi que o mesmo podemos fazer com
outros homens. Assim é que temos escravos e
s “climâácides” eram, na Síria, mulheres que
se punham de quatro para servirem de estribo
às senhoras a fim de que estas subissem em
seus carros. E em sua maioriã as pessoas livres
entregam sua vida é seu ser a outrem em troca
de insignificantes vantagens. Na Trácia, as
- esposas e as concubinas disputavam entre si a
honra de serem imoladas sobre o túmulo do
senhor. Aos tiranos nunca faltaram homens
que lhes fossem inteiramente devotados, e os
arrastaram à morte quando quiseram. E exér-
citos inteiros não se acham presos por idêntico
dever a seus chefes? A fórmula de juramento
na rude escola dos gladiadores comportava as
seguintes promessas: “juro deixar-me acorren-
tar, queimar, bater, morrer pela adaga, e
suportar todos os sofrimentos que os gladia-
dores leais concordam em sofrer por seu
senhor”. E religiosamente lhe consagravam o
corpo e a alma: “Queima minha cabeça se qui-
seres, traspassa-me o corpo com o ferro, e cor-
ta-me as costas com o látego”! *".Constituíia o
Juramento uma obrigação sagrada, contraída
certos anos por mais de dez mil indivíduos, os
quais, todos, morriam. Os citas, à morte de seu
rei, estrangulavam sobre o corpo do defunto
sua concubina predileta, seu copeiro, seu escu-
deiro, seu camareiro, seu porteiro e seu cozi-
nheiro. No aniversário da morte matavam cin-
quenta cavalos montados por cinquenta pajens
empalados do ânus à garganta, e assim os dis-
punham em volta do túmulo para maior glória
do morto.
Os homens que nos servem, fazem-no mais
barato e em condições menos agradáveis e
menos vantajosas que as de nossos pássaros,
144 Tibulo.
ENSAIOS — II
cavalos e cães. Quantos sacrifícios não aceita-
mos em prol do bem-estar desses animais? E
nem os mais abjetos servidores fariam de bom
grado por seus senhores o que os príncipes se
vangloriam de fazer por seus bichos. Diógenes,
vendo seus parentes em dificuldades para
resgatá-lo, dizia: “É loucura desesperar-se;
E cuida de mim e me sustenta é meu cria-
* Os que sustentam bichos deveriam dizer
Ri que são seus servidores e não que se
servem deles. Os animais são ainda mais gene-
rosos do que nós, pois nunca se viu um leão
escravo de outro leão, nem um cavalo de outro
cavalo.
Assim como vamos à caça dos animais, os
tigres e leões vão à caça do homem. Esse exer-
cício praticam-no também reciprocamente: os
cães correm as lebres, a solha caça a tenca, as
andorinhas perseguem as cigarras, OS gaviões
procuram melros e cotovias. “A cegonha ali-
menta seus filhotes com serpentes e lagartixas
caçadas nos campos incultos; a águia, scrvi-
dora de Júpiter, caça nas florestas as lebres e
os cabritos”! “2.
Repartimos o produto da caça com nossos
cães e as aves que nos auxiliam” *º. Na Trácia,
além de Anfípolis, caçadores e falcões selva-
gens repartem pela metade os despojos. Às
margens dos pantanais Meótides os lobos, se
não lhes deixam os pescadores sua parte,
destroem-lhes as redes. Hã caçadas em que
empregamos mais a habilidade do que a força,
a caçada com laços e a pesca com vara, por
exemplo; assim as têm igualmente os animais.
Aristóteles diz que a siba projeta do pescoço
uma membrana semelhante a um caniço de
pesca, que estica e encolhe à vontade, quando
percebe aproximar-se algum peixinho. Deixa-o
morder, escondida no lodo, e aos poucos puxa
a membrana até trazer a presa ao seu alcance.
Quanto à força, não há animal no mundo
mais exposto a riscos do que o homem. Sem
falar da baleia, do elefante, do crocodilo, e ou-
tros animais que sozinhos podem dar cabo de
muitos homens, os simples piolhos bastam
para destruir a ditadura de Sila, um animal-
zinho qualquer, um verme, pode comer ao al-
moço o coração e a vida de um imperador no
apogeu de sua glória.
Dizemos que graças à ciência e à razão, O
homem obtém os conhecimentos necessários
para distinguir as coisas úteis à sua alimenta-
ção, e ao tratamento de suas enfermidades, das
que lhe são nocivas. Assim pode saber quais as
virtudes do ruibarbo e do polipódio. Mas
142 Juvenal.
143 Os falcões.
219
quando vemos que as cabras de Cândia, ao se
ferirem, escolherem entre mil ervas o ditamno
para sua cura; a tartaruga que comeu víbora,
procurar o orégaão para se purgar; o dragão
limpar os olhos com funcho; a cegonha minis-
trar-se clisteres de água do mar; os elefantes
retirarem do seu próprio e dos corpos de seus
companheiros, e até dos de seus donos (como
temos o exemplo no Rei Porus vencido por
Alexandre) os dardos e flechas, com uma des-
treza sem igual; como não atribuir tais fatos
igualmente à ciência e à sabedoria dos ani-
mais? Alegar, para amesquinhá-los, que obe-
decem simplesmente à natureza, sua orienta-
dora, realmente não significa que careçam de
saber e discernimento, significa, isso sim, que
possuem essas qualidades em mais alto grau
do que nós, graças a tão admirável professora.
k Crisipo, que desdenhava a inteligência dos
animais, como desdenhava de tudo e mais do
que qualquer outro filósofo, quando reflete
acerca dos movimentos do cão à procura do
dono ou de uma caça, deparando com uma
encruzilhada de três caminhos, farejando um
sem resultado, e o outro também sem êxito e
afinal escolhendo resolutamente o terceiro,
convém em que o animal fez o raciocínio
seguinte: “segui as pegadas de meu dono até
esta encruzilhada; necessariamente tomou
um desses caminhos; ora, não foi este nem
aquele, logo, forçosamente, foi o outro”. E
apoiado nessa dedução não hesita em seguir o
terceiro caminho sem mais pesquisa, sem
mesmo o vérificar antes pelo faro, obedecendo
apenas à força de sua razão. Esse esforço
dialético, esse“emprego de proposições exami-
nadas separadâmente e em conjunto, valerá
menos por fazê- lo o cão instintivamente do que
se o fizera em, consequência de lições de Jorge
de Trebizonda! **9
Não podemos tampouco afirmar que os ani-
mais são incapazes de se instruírem como nós
homens. Ensinamos a falar aos melros, às
pegas, aos papagaios. E com tanta facilidade
se ajeita a sua voz aos sons que lhes ensina-
mos, às sílabas que lhes comunicamos, que é
evidente a existência neles de um processo, de
raciocínio:
Todos viram sem dúvida, e estão fartos de
ver, as inúmeras macaquices que os peloti-
queiros ensinam a seus cachorros, danças em
obediência ao ritmo da música, saltos e movi-
mentos de acordo com as ordens recebidas. E
o que fazem os cães que servem de guia aos
cegos, nos campos como nas cidades? Vêde
como se detêm diante de determinadas casas,
"4º Lógico grego do século XV.
220
como evitam os veículos ao passarem por cer-
tos lugares onde, aparentemente, teriam tempo
para atravessar. Vi um cão que, ao longo de
um fosso, abandonou o caminho cômodo para
tomar por uma trilha difícil a fim de afastar o
seu dono do perigo a que se arriscava. Como
se ensinou a esse animal que lhe cumpria preo-
cupar-se exclusivamente com a segurança do
dono, sem levar em conta a própria comodi-
dade? Como podia saber que o caminho, bas-
tante largo para ele, não o era para o cego?
Explicar-se-ã isso sem a interferência do
raciocínio?
Não é de se esquecer o que nos conta Plu-
tarco de um cão que viu em Roma, no Teatro
Marcelo, onde se encontrava o Imperador
Vespasiano. O cachorro pertencia a um peloti-
queiro e desempenhava o papel em certa peça
teatral. Entre outras coisas, cabia-lhe fingir de
morto, durante algum tempo, por ter engolido
determinada droga. Depois de comer o pão
com que simulava o veneno, punha-se a tre-
mer, a vacilar, como se tomado de tonturas, €
afinal deitava-se no chão, esticado, morto,
deixando-se arrastar de um lado para outro de
acordo com as exigências do enredo. Em
seguida, quando calculava que era chegado o
momento, principiava a mexer-se devagar,
como se despertasse de um longo sono, erguia
a cabeça e olhava para todos os lados de um
modo que pasmava os espectadores.
Os bois, empregados na irrigação dos jar-
dins reais de Susa, faziam girar grandes rodas
com baldes ou tinas, como se yêem no Langue-
doc. Esses bois deviam dar cem voltas cada
um e conheciam tão bem esse número que ao
ser atingido, era impossível, por quaisquer
meios que fosse, obter mais deles. Cumprida a
tarefa, paravam imediatamente. Ora, nós al-
cançamos a adolescência sem saber contar até
cem e certos povos recém-descobertos não têm
idéia dos números.
Ensinar os outros exige maior raciocínio do
que aprender. Mas deixemos de lado o que
Demócrito afirma e prova, a saber, que a
maior parte das artes nós as aprendemos com
os animais: a tecer e a coser com a aranha, a
edificar com a andorinha, a fazer música com
o rouxinol e o cisne, e a curar com certos
bichos. Aristóteles acha que os rouxinóis ensi-
nam os filhos a cantar e a tanto dedicam
tempo e desvelos, daí o fato de perderem muito
de seu encanto os que criamos em gaiolas e
não aprendem com os pais. Podemos, portan-
to, deduzir que esses passarinhos melhoram
seu canto pelo estudo e a disciplina, e mesmo
entre os que estão em liberdade não há dois
cujo canto seja idêntico. Cada qual aproveitou
MONTAIGNE
a lição segundo sua capacidade. Mostram-se
ciosos de seu talento e competem por vezes
com tal ardor que chegam alguns a morrer por
falta de fôlego, não se resignando a parar nem
a se considerar vencidos. Os mais jovens rumi-
nam pensativos e tentam imitar as árias que
ouvem; o aluno escuta com muita atenção seu
mestre; ora um ora outro pára de cantar e per-
cebe-se que o preceptor lhe corrige os erros e,
mesmo, que o repreende.
Árrio conta ter visto um grupo de elefantes
entre os quais um tocava cimbalos. Trazia-os
amarrados às coxas e à tromba. Ao som da
música dançavam os outros, obedecendo à
medida; o conjunto agradava pela harmo-
nia. Em Roma, nos espetáculos de circo,
viam-se elefantes ensinados a se movimentar e
dançar com figuras complicadas e ritmos
diversos. Outros havia que se exercitavam
sozinhos, recordando os passos para não
serem castigados por seus donos.
A história da pega que Plutarco assegura ser
verdadeira é muito curiosa. Era seu dono um
barbeiro de Roma, e o pássaro fazia maravi-
lhas, imitando quantos sons ouvia. Aconteceu
em. certa ocasiao que se detiveram diante da
casa uns trombeteiros, tocando durante longo
tempo. Depois de os ter ouvido, passou a pega
o dia seguinte inteiro tristonha, pensativa €
muda. Todo mundo se espantou e pensou que
o som das trombetas a aturdira e que com o
ruído se lhe extinguira o canto. Mas, afinal,
descobriram que na realidade a pega estava
afundada em profunda meditação, recolhida
em si mesma, exercitando seu espírito e prepa-
rando a voz para imitar a música dos tais
instrumentos. E a primeira vez que voltou a
cantar após esse silêncio, foi para arremedar
perfeitamente o toque das trombetas com
todos os seus matizes; e desde então desprezou
totalmente o que antes aprendera.
Não quero tampouco esquecer o caso de um
cão que Plutarco diz ter visto (não procedo
com muita ordem na apresentação de meus
exemplos, mas é preciso considerar que assim
ocorre com o próprio livro). Achava-se Plu-
tarco em um navio € viu um cão que se esfor-
çava vigorosamente por beber o azeite de uma
vasilha. Não o podendo alcançar com a língua
por ser o orifício do gargalo muito estreito,
pôs-se a catar pedras ea jogá-las na vasilha
2 Ê q Ls
- ate que o azeite subiu a uma altura acessível.
Haverá raciocínio mais sutil? Dizem que os
corvos da Berberia assim agem também quan-
do o nível da água que querem beber está
muito baixo.
Esses casos se assemelham ao que Juba, um
dos reis dessas regiões, conta dos elefantes.
ENSAIOS — II
Para pegá-los, cavam-se fossos profundos que
se cobrem de galhos e capim. Quando um
deles cai na armadilha, acorrem os outros com
pedras e troncos a fim de encher o fosso e faci-
litar a saída. Mas os atos desses animais pare-
cem-se tanto com os dos homens, que se rela-
tasse tudo o que sei facilmente provaria a
minha tese, a de que hã maior diferença entre
um homem e outro do que entre um dado ani-
mal e o homem.
O guarda de um elefante pertencente a um
senhor sírio, sonegava-lhe a cada refeição a
metade da ração. Quis um dia'o dono tratar
pessoalmente do animal. Encheu a manjedoura
com a quantidade exata de cevada que cabia
ao elefante. Este, olhando com raiva para o
guarda, dividiu em duas partes a cevada e dei-
xando uma de lado revelou o prejuízo de que
era vítima. Outro elefante tinha um guarda que
punha pedras em sua comida, para aumentar a
medida; pois o animal aproximando-se da
marmita em que o homem fazia sua própria
sopa encheu-a de cinzas.
São casos especiais, sem dúvida, mas o que
todo mundo sabe, o que todos ouviram dizer, é
que outrora, em todos os exércitos do Oriente,
os elefantes constituam um dos elementos
mais importantes, e nas batalhas davam resul-
tados melhores do que os que obtemos hoje
com a artilharia, a qual ocupa mais ou menos
o espaço antes ocupado pelos elefantes (como
o sabem os que conhecem a história antiga):
“Seus ancestrais tinham sido utilizados pelo
cartaginês Aníbal, pelos generais romanos e
pelo rei do Epiro; transportavam no lombo
coortes e torres para a batalha”? “* 8. Era neces-
sário que confiassem nesses animais e em seu
raciocinio, para colocá-los à frente do exército,
em lugar em que a menor parada, o mais insig-
nificante incidente que os fizesse recuar, basta-
va para tudo deitar a perder por causa de seu
tamanho e peso. E, efetivamente, poucos exem-
plos se viram de elefantes se lançarem contra
as próprias tropas, ao passo que nos ocorre
mais amiúde jogar-nos uns contra os outros e
nos matarmos a nós mesmos. No entanto,
cumpria-lhes executar não somente movimen-
tos simples mas ainda evoluções complicadas.
Análogos serviços prestaram os cães aos espa-
nhóis na conquista das Indias, e eles lhes paga-
vam soldo, além de lhes darem parte dos des-
pojos do combate. Esses cães mostravam
grande destreza e discernimento na persegui-
ção do inimigo e na consecução da vitória,
avançando e recuando segundo os casos,
distinguindo amigos e adversários e lutando
com valentia e tenacidade.
145 Juvenal.
221
Admiramos e apreciamos mais as coisas
estranhas e singulares do que as que vemos
diariamente, sem o que não me teria dado o
trabalho de tão longa enumeração, pois creio
que, simplesmente em examinando de perto os
animais que vivem junto de nós, já depara-
riamos com fatos tão notáveis quanto os que
vamos buscar em outros países e outras épo-
cas. Idêntica é a natureza e inalterável o seu
curso; é quem haja penetrado suficientemente
o presente poderá com segurança conhecer as
leis do passado e do futuro.
Vi outrora homens vindos por mar de
longínquos países! *8. Como não compreen-
díiamos sua língua e seus costumes, suas atitu-
des e suas vestimentas não se assemelhavam
aos nossos, consideramo-los selvagens e estú-
pidos. Atribuímos à sua estupidez o fato de
não falarem francês e se calarem, de ignorarem
o beija-mão, nossas reverências requintadas,
nossas maneiras, tudo isso a que, sob pena de
incorreção, desejariamos se moldasse toda a
humanidade. Condenamos tudo o que nos pa-
rece estranho e também o que não compreen-
demos. E por esse prisma julgamos os animais.
Sob certos aspectos têm alguma semelhança
conosco e podemos, então, por comparação,
formular algumas hipóteses. Mas que sabemos
do que lhes é peculiar? Os cavalos, os cães, os
bois, as ovelhas, os pâssaros e a maioria dos
animais vivem a nosso lado, reconhecem nossa
voz e atendem ao nosso chamado, o que tam-
bém fazia a moréia de Crasso e o que fazem as
enguias da fonte Aretusa. E isso não é dificil
de comprovar, pois vi muitas vezes viveiros em
que os peixes acorriam para comer quando os
chamavam de certo modo: “cada qual tem seu
nome e acorre ao chamado do dono”? *?.
Podemos dizer igualmente que os elefantes
têm certo sentimento religioso. Vemo-los efeti-
vamente, após suas abluções e purificações,
erguerem a tromba para o céu, de olhos postos
no sol nascente e assim permanecerem em
contemplação durante algum tempo, a certas
horas do dia, entregues à meditação, e isso sem
terem sido instruídos nem forçados. Quanto
aos outros animais, por não sabermos de coisa
semelhante não devemos deduzir que não te-
nham religião, não nos sendo possível manifes-
tar-nos pró ou contra o que ignoramos.
O fato seguinte, citado pelo filósofo Clean-
tes, apresenta alguma analogia com o que nós
mesmos praticamos. Viu ele formigas carrega-
rem para outro formigueiro o corpo de uma
companheira morta. Deste segundo formi-
146 Índios do Brasil. (N. do T.)
147 Marcial.
222
gueiro saíram várias formigas que foram. ao
encontro das primeiras como a parlamentar.
Depois de uns instantes juntas, voltaram as úl-
timas, talvez para conferenciar com as compa-
nheiras de seu próprio formigueiro. Assim fize-
ram duas ou três vezes, provavelmente em
consequência de dificuldades nas negociações.
Finalmente trouxeram uma minhoca, dir-se-ia
a fim de resgatar o corpo da morta. As primei-
ras cárregaram então o verme, deixando o
pequeno cadáver às outras. Cleantes vê nisso
uma prova de que, embora certos animais não
tenham voz, não são desprovidos de meios de
comunicação. E considera uma inferioridade
nossa não podermos participar dessas rela-
ções, e uma tolice arvorarmo-nos em juízes.
Os animais fazem ainda muitas coisas quê
ultrapassam de muito aquilo de que somos
capazes, que não conseguimos imitar e que
nossa imaginação não nos permite sequer
conceber.
Vários historiadores relatam que na última e
grande batalha naval que Augusto perdeu para
Antônio, a galera almirante foi detida em sua
marcha por esse pequeno peixe a que os roma-
nos chamam rêmora, por causa da propriedade
que lhe é peculiar de deter os navios aos quais
se gruda. Esse mesmo peixe sustou repentina-
mente a marcha da galera de Calígula que vo-
gava com uma grande frota pelas costas da
Rumânia. O imperador mandou retirá-lo do
casco e ficou muito despeitado por ver que tão
pequeno animal, preso apenas pela boca ao
navio (pois trata-se de um peixe de concha),
pudesse enfrentar o mar, os ventos e o impulso
dos remos. Espantou-se também de que, fora
da água, perdesse o bichinho toda a sua força.
Um cidadão de Cizico adquiriu outrora a
reputação de muito bom matemático! *º por
ter observado os costumes do ouriço. Esse ani-
-mal cava o seu covil com vários orifícios
diversâmente orientados. Segundo a direção
prevista do vento, fecha o buraco que a ela
corresponde. Guiando-se pelo ouriço, o nosso
homem predizia aos seus a direção futura dos
ventos. O camaleão toma a cor do meio em
que se encontra. O polvo vai mais longe: colo-
ra-se da cor que bem entende segundo as
circunstâncias, seja para fugir a um animal
que teme, seja para atingir o “que deseja pegar.
No camaleão, a mudança não se subordina à
sua vontade; no polvo, sim. Nosso rosto tam-
bém muda por vezes de cor sob a influência do
us Melhor seria dizer meteorologista como se vê
do contexto. Mas não havia então especializações e
ao matemático, homem de cálculos, cabia inúmeras
tarefas. (N. do T)
MONTAIGNE |
terror, da cólera, da vergonha e outras emo-
ções e sentimentos; resulta de uma causa que a
impõe, como no caso do camaleão. Sob o efei-
to da icterícia tudo amarelece, independen-
temente de nossa vontade.
Essas coisas que os animais podem fazer e
que não conseguimos igualar são uma prova
de que, em certos pontos, eles possuem meios
mais desenvolvidos do que os nossos, e de nós,
ignorados. E é possível —— e provável — que
outros haja cuja existência nada nos revele.
De todos os meios de previsão empregados
no passado, os mais antigos e seguros eram os
que se tiravam do vôo dos pássaros. Nada
temos tão admirável. A maneira de bater as
asas, pela qual se tem a noção do futuro, devia
provir de algo intimamente ligado a essa ciên-
cia de caráter tão nobre. Atribuir resultado tão
peregrino ao instinto, sem o concurso da inteli-
gência e do raciocínio, e tomar as coisas
demasiadamente ao pé da letra sem se deter na
interpretação, é uma suposição absolutamente
falsa. E que dizer da raia que tem.a proprie-
dade de entorpecer os membros que a tocam e,
mesmo através das linhas do anzol e das redes,
transmitir esse entorpecimento às mãos dos
que as manejam? Essa faculdade maravilhosa
não é inútil à raia; ela tem consciência dela e a
emprega: afundada no lodo à espera da presa,
aguarda que os outros peixes deslizando por
cima dela sejam paralisados e caiam em seu
poder. Os grous, as andorinhas e outros pássa-
ros migratórios demonstram que podem adivi-
nhar o tempo e exercem à vontade essa facul-
dade. Asseguram os caçadores que a melhor
maneira de escolher entre vários cachorrinhos
os que se devem considerar superiores aos
demais, é colocar a cadela em condições de
proceder ela mesma à seleção. Apartando dela
os filhotes, o primeiro que ela vai buscar é o
melhor. E se simularem uma fogueira em torno
do ninho, o que primeiro for salvo será o mais
forte. Infere-se disso que os animais sabem
prever o que nós não prevemos, ou são senho-
res de alguma virtude singularíssima de julgar
as qualidades de seus filhos que nos é
desconhecida.
Os bichos nascem, reproduzem-se, alimen-
tam-se, movem-se, vivem e morrem como nós.
As vantagens que atribuímos à nossa condi-
ção, em menoscabo das suas, são gratuitas; a
nossa razão é incapaz de demonstrar sua
superioridade. Para nos conservar em boa
saúde, aconselham os médicos a vivermos
como os animais e o seguinte ditado está na
boca do povo: “Resguarda os pés e a cabeça e
quanto ao resto faze como os bichos.”
O principal ato a que nos incita a natureza é
ENSAIOS — II
o de engendrar; para executá-lo certas posi-
ções de nosso corpo são preferíveis às outras,
pois os médicos consideram que a posição dos
animais é a que melhor convém: “julga-se
comumente que parà ser fecunda a união dos
esposos deve fazer-se na posição dos quadrú-
pedes, porque então a posição horizontal do
peito e a elevação dos rins favorecem a direção
do fluido gerador”! *º. Os movimentos indis-
cretos e provocantes que a mulher imaginou
acrescentar são considerados prejudiciais e se
devem proibir. Que ela atente para o exemplo
dos animais entre os quais a fêmea se conduz
com mais modéstia e calma: “os movimentos
lascivos pelos quais a mulher excita o marido
são um obstáculo à fecundação; afastam o
arado do sulco e desviam os germes de seu
objetivo”! 5º,
Se, para sermos justos, devemos dar a cada
um o que lhe é devido, diremos que os animais
servem, amam, e defendem seus benfeitores;
perseguem e agridem os estranhos e os que os
ofendem, praticando uma justiça igual à nossa.
E vemos também que tratam com equidade
perfeita seus filhos. Quanto à amizade, prati-
cam-na os animais, sem dúvida alguma, de
maneira mais constante e viva do que o
homem. Hircano, o cão do Rei Lisímaco, não
quis abandonar o leito de seu dono quando
este morreu, nem comer nem beber, e no dia
em que o cremaram atirou-se à fogueira. O cão
de um indivíduo chamado Pirro assim fez
igualmente; não quis sair do leito quando seu
dono morreu e, ao transportarem o corpo, dei-
xou-se levar igualmente, jogando-se afinal ao
fogo no momento em que se queimavam os
restos mortais de Pirro.
Nascem por vezes no homem certas afeições
que nada devem ao raciocínio e resultam de
uma causa fortuita a que chamam simpatia.
Os animais são, como nós, capazes de as ter.
Assim é que se vêem cavalos se afeiçoarem uns
aos outros, a ponto de se tornar difícil fazê-los
viverem e viajarem separadamente. Outros se
apaixonam pelos de tal ou qual cor, como nós
por certo tipo de fisionomia, e quando divisam
algum de sua cor predileta logo se aproximam
e fazem festa e demonstram sua alegria; ao
passo que hostilizam os de outro matiz e só os
aceitam de má vontade. Os animais têm como
nós preferências em amor e sabem escolher a
fêmea. Não são isentos de ciúme, o qual os
. pode levar a atos de violência.
Os apetites são naturais e necessários como
beber e comer, ou, embora naturais, não exi-
gem satisfação absoluta, como o comércio
149 Tucrécio.
150 Td.
223
entre machos e fêmeas. Há finalmente os que
não são naturais nem necessários. Esta última
categoria compreende a maioria dos apetites
humanos que objetivam quase exclusivamente
coisas supérfluas e necessidades fictícias. É,
com efeito, maravilhoso ver como a natureza
se contenta com pouco e como nos incita a
pouco desejar. A arte de nossos cozinheiros
não é de sua alçada. Uma azeitona por dia,
dizem os estóicos, basta para alimentar um
homem. Não é ela, a natureza, quem nos incita
aos vinhos mais ou menos delicados nem ao
que acrescentamos aos prazeres do amor: “A
volúpia não lhe parece mais viva nos braços da
filha de um cônsul”! 81.
Esses desejos supérfluos, introduzidos em
nós pela ignorância do bem e a predominância
das idéias falsas, são tão numerosos que recha-
çam quase todos os apetites naturais. Verifi-
cou-se a esse respeito nem mais nem menos do
que o que ocorreria em uma cidade onde os
estrangeiros fossem tão numerosos que aca-
bassem expulsando os autóctones, destruindo-
lhes a autoridade e usurpando-lhes o poder.
Os animais são muito mais ordenados do
que nós e se mantêm com mais moderação
dentro dos limites que lhes impõe a natureza,
não a ponto, entretanto, de não serem por
vezes impelidos a desregramentos análogos
aos nossos. E assim como há homens que pre-
midos por desejos loucos são induzidos a amar
animais, há animais que procuram o amor do
homem, observando-se desse modo afeições
monstruosas entre espécies diferentes. Prova-o
o elefante rival de Aristófanes, o gramático,
que se enamorou da mesma jovem vendedora
de flores de Alexandria, desempenhando seu
papel como o mais apaixonado dos amantes.
Passeava pelo mercado de frutas, colhia-as
com a tromba e as levava à sua amada; procu-
rava não perdê-la de vista, acariciava-lhe fami-
liarmente os seios por baixo da blusa. Citam-
se também um lagarto amoroso de uma moça,
um ganso apaixonado por uma criança em
Acopa, um carneiro que amava Gláucia, can-
tora de rua. Diariamente vêem-se macacos
apaixonados por mulheres, bem como certos
animais se entregarem a carícias amorosas
com indivíduos do mesmo sexo e espécie.
Opiano e outros- autores dão-nos alguns
exemplos do respeito que os bichos têm pelos
laços de parentesco, mas a experiência mos-
tra-nos amiúde o contrário: “a novilha entre-
ga-se sem pudor ao pai; a égua ao cavalo de
que nasceu; o bode às cabras que engendrou e
o pássaro à fêmea que procriou ”” 82.
151 Horácio.
152 Ovídio.
224 MONTAIGNE
Em matéria de sutileza maliciosa, haverá
mais evidente que a do asno do filósofo Tales?
Carregado de sal, atravessava um riacho quan-
do por acaso deu um passo em falso. Os sacos
que carregava molharam-se, o sal dissolveu-se
e a carga ficou mais leve. Percebeu-o o asno, €
desde então, cada vez que deparava com um
córrego, entrava na água com sua carga, até
que, descobrindo a malícia, seu dono passou a
carregá-lo com lã. Não produzindo mais o
banho o resultado almejado, deixou o asno de
entrar na água.
Há animais que revelam, em seu modo de
ser, sinais característicos de avareza. VYemo-los
procurar constantemente apoderar-se de tudo
o que podem e o esconder com cuidado, embo-
ra não tirem proveito disso. Em matéria de
economia doméstica, os animais nos ultra-
passam não somente pela sua previdência, que
os leva a acumular e poupar para o futuro,
mas ainda em muitos outros pontos de impor-
tância. As formigas expõem ao ar, arrastan-
do-os para fora de seus subterrâneos, os grãos
de toda espécie que armazenam, a fim de are-
já-los e refrescá-los e fazê-los secar quando
percebem que estão mofando e se tornando
rançosos, de medo que se estraguem ou apo-
dreçam. Sua precaução em roer uma das extre-
midades de cada grão de trigo sobreexcede o
que possa imaginar a prudência humana.
Como o trigo não permanece sempre seco e
bem conservado, mas amolece e desfaz-se em
uma pasta leitosa ao germinar, perdendo então
suas qualidades nutritivas, as formigas roem a
ponta do grão por onde se inicia a germinação.
Quanto à guerra, a maior e mais pomposa
das ações humanas, e de que tanto nos vanglo-
riamos, quisera saber se prova a nossa superio-
ridade ou ao contrário demonstra a nossa
imperfeição. Em verdade, a ciência de nos
entrematarmos, concorrendo para a destruição .
da espécie, não me parece uma prerrogativa
que os bichos nos possam invejar: “quando se
viu um leão mais forte matar o mais fraco? E
quando na floresta morreu algum javali das
dentadas de um javali mais vigoroso?! 83
Nem todos os animais estão entretanto isentos
desse mau espírito, como se vê pelas furiosas
lutas em que se digladiam as abelhas e pelos
duelos singulares entre suas rainhas: “Muitas
vezes um combate se verifica entre duas rai-
nhas; é de se ver então o furor guerreiro de
seus povos”! 84. Nunca leio essa magnífica
narrativa sem que mz venham ao espirito a
inépcia e a vaidade do homem. Esses movi-
153 Juvenal.
184 Virgílio.
mentos guerreiros, que nos empolgam pelo
horror e o pavor, essa tempestade de sons e
gritos: “Aqui,em um clarão que brilha atê nos
céus pelo choque do bronze, a terra fulgura; e
treme sob o passo dos soldados, e as monta-
nhas enviam às estrelas os ecos dos clamo-
res”! 55. essa terrível refrega de milhares de
homens armados, combatendo com tamanho,
denodo, ardor e coragem, quase sempre decor-
re de causas vas, e cessa em circunstâncias
insignificantes: “conta-se que pelo amor de
Páris a Grécia deflagrou funesta guerra contra
os bárbaros”? 5 8: toda a Ásia se esgotou nessa
guerra provocada pelo adultério de Páris; o de-
sejo de um só homem, o despeito, um momen-
to de prazer, o ciúme de um marido, coisas que
não justificariam a briga de duas peixeiras, eis:
a causa de toda essa enorme anarquia. Ouça-
mos, a propósito, os autores de tão grave ocor-
rência. Ouçamos o que diz o imperador mais
poderoso e mais vitorioso que jamais houve,
divertindo-se em ridicularizar com muito espi-
rito os acontecimentos que abarcam várias
batalhas por mares e terras, nas quais, a fim de
atender à seus interesses, quinhentos mil ho-
mens se expuseram aos azares da guerra e
esgotaram os recursos e riquezas dos dois
continentes: “Porque Antônio se apaixonou
por Gláfira, Fúlvia se empenha agora em me
forçar a amá-la. Eu amar a Fúlvia? E se
Maànio o quiser também, deverei amá-lo? Seja-
mos prudentes! Guerra ou cama, diz ela.
Como! Melhor pensar em algo mais agradá-
vel. Soem as trombetas 7! 87 Talvez abuse de
meu latim mas vós me permitistes, senhora,
que o usasse! 88.
Um exército, esse grande corpo de tantas
cabeças e movimentos, que parece ameaçar
céus e terras: “como as ondas que rolam pelo
mar da Líbia quando o fogoso Órion mergulha
em suas águas, ou como as espigas que o sol
de verão doura nos campos de Hermo ou nos
ruivos prados de Lícia, o solo pisado treme e
os escudos ressoam”! 8º: esse monstro furioso
com tantos braços e cabeça é o homem, sem-
pre o homem, frágil, calamitoso, miserável.
Não passa de um formigueiro agitado e excita-
do, “negro batalhão em marcha pela plani-
cie”1 8º: um vento contrário, um grasnido de
corvos, o passo em falso de um cavalo, o vôo
!
185 TLucrécio.
156 Horácio.
157 Epigrama de Augusto, conservado por Mar-
cial.
158 Admite-se que este capítulo seja dedicado a
Margarida de Valois.
159 Virgílio.
180 Td.
ENSAIOS — II 225
fortuito de uma águia, um sonho, uma palavra,
um sinal, a neblina da manhã bastam para dar
com ele por terra. Que um raio de sol o ofus-
que, e eis o inimigo aturdido; que o vento nos
sopre um pouco de poeira nos olhos, como as
abelhas do poeta, e eis no mesmo instante nos-
sas bandeiras e nossas legiões, ainda que com
o grande Pompeu à frente, destroçadas e impo-
tentes, pois se não me engano, na Espanha,
Sertório empregou com êxito essas armas que
haviam usado Eumenes contra Antigono e Su-
rena contra Crasso. Joguem contra um exér-
cito um enxame de abelhas e estes animaizi-
nhos acabarão com sua força e arrojo.
Sitiando os portugueses a cidade de Tamly,
no território de Xiátima, transportaram os
habitantes para as muralhas grande número de
colmeias, as quais abundam entre eles, e com
um pouco de fumaça expulsaram as abelhas na
direção do inimigo. Este viu-se forçado a desis-
tir do empreendimento, não podendo suportar
as picadas. Com tão engenhoso expediente
defenderam a cidade e conquistaram a liber-
dade e a sorte fez que, terminada a batalha,
não faltasse uma só abelha nas colmeias.
As almas dos imperadores e as dos sapatei-
ros provêm do mesmo molde. Encarando ape-
nas os atos dos príncipes e suas consequências,
imaginamos que tenham outras causas e tam-
" bém mais peso e alcance. É um erro. Eles se
movem impelidos pela mesma mola que nos
impulsiona. O mesmo motivo que nos leva a
disputar com o vizinho, impele os príncipes à
guerra; a razão que nos induz a açoitar um la-
caio é bastante para que o príncipe devaste
uma província. Sua vontade se exerce tão
levianamente quanto a nossa, mas ele tem
maior poderio. Os mesmos apetites existem no
verme e no elefante.
No que concerne à fidelidade, não há no
mundo animal mais traiçoeiro do que o
homem. Numerosos são os fatos que se citam
de cães que encarniçadamente procuraram vin-
gar a morte de seus donos. Tendo o Rei Pirro
encontrado um cão que velava o cadáver do
dono, mandou enterrar o corpo e levou o ani-
mal. Dias depois, passando em revista O seu
exército, o cão ao deparar com os assassinos
correu-lhes atrás a ladrar furiosamente, de-
monstrando violenta irritação. Foi o primeiro
indício que levou à descoberta dos culpados,
logo após punidos pela justiça. O mesmo se
verificou com o cão de Hesíodo que denunciou
os filhos de Ganistor, de Naupacto, como
autores do assassínio de seu dono. Outro cão,
que guardava o templo de Atenas, viu o ladrão
sacrílego que carregava as mais valiosas jóias.
Pôs-se logo a latir mas os guardas não acorda-
ram. O cão seguiu então o gatuno; de dia
mantinha-se à distância, mas sem o perder de
vista. Se lhe dava de comer, recusava, ao passo
que dos demais transeuntes o aceitava, aba-
nando a cauda. Quando o ladrão parava para
dormir, o cão fazia o mesmo. Tendo chegado
essa conduta estranha ao conhecimento dos
guardas, indagaram eles das características do
animal, seguiram-lhe as pegadas e o alcança-
ram afinal em Crômion, bem como o ladrão,
que trouxeram de volta a Atenas onde foi con-
denado. Como recompensa pelo serviço pres-
tado, ordenaram os juízes que se alimentasse o
cão à custa do tesouro e ficasse ele a cargo dos
sacerdotes. Plutarco que narra o fato garante-
nos a sua autenticidade. Teria ocorrido em seu
tempo.
Quanto à gratidão, virtude que em nossos
dias anda muito precisada de reforçar o seu
crédito, um só exemplo bastará. É-nos contado
por Ápio, que se encontrava entre os especta-
dores. Uma dia, em Roma, dava-se ao povo
em espetáculo um combate de feras, principal-
mente de leões de tamanho respeitável,
meio aos quais havia um cujos rugidos e
musculatura atraíam a atenção geral. Entre os
escravos que compareceram para serem entre-
gues às feras, figurava um certo Androcles da
Dácia, pertencente a um personagem consular
de Roma. Ao vê-lo, deteve-se o leão imediata-
mente, como que tomado de espanto; aproxi-
mou-se em seguida, passo por passo, como se
procurasse reconhecê-lo. Tendo verificado
quem era, começou a abanar a cauda como
fazem os cães e a beijar as mãos e as pernas do
pobre miserável . transido de medo. Reco-
brando a calma, Androcles reconheceu por sua
vez o leão e ambos se puseram a festejar-se
mutuamente, e o povo dava gritos de alegria.
O imperador mandou chamar o escravo para
que lhe explicasse as razões de tão extraordi-
nária ocorrência e esta admirável história lhe
foi contada: “Quando meu amo e senhor era
procônsul na África, vi-me forçado a deixá-lo,
tal a crueldade com que me tratava. Todos os
dias era eu açoitado e precisei fugir. A fim de
escapar às buscas de um personagem de tão
grande autoridade na província, pareceu-me
mais fácil ganhar o deserto. Foi o que fiz,
resolvido a morrer de uma maneira ou outra,
caso nessas regiões arenosas e inabitáveis não
conseguisse alimentar-me. Por volta de meio-
dia, estando o sol violentíssimo e o calor
insuportável, descobri uma caverna de difícil
acesso e aí me abriguei. Pouco depois chegou
um leão; estava ferido na pata, que trazia
ensanguentada. A dor provocava-lhe gemidos.
Ao vê-lo, eu ficara apavorado, mas ele, depa-
226
rando comigo encolhido a um canto, achegou-
se e me estendeu a pata como para pedir ajutó-
rio. Tomei-a, arranquei uma lasca de madeira
que nela se espetara, limpando a ferida como
pude. Aliviado, começou a dormir, descan-
sando a pata em minhas mãos. Desde então
vivemos juntos, os dois, na caverna, comendo
as mesmas carnes, pois me trazia sempre os
melhores pedaços de suas caças; eu as assava
ao sol e com elas me alimentava. Isso durou
três anos, mas eu já andava cansado dessa
vida selvagem e certa vez em que o leão fora à
caça como de hábito, abandonei o abrigo. Três
dias mais tarde, surpreendido pelos soldados,
fui preso e entregue aqui a meu dono, que logo
me condenou às feras. Segundo me parece, o
leão deve ter sido aprisionado mais ou menos
na mesma época; reconhecendo-me, quis teste-
munhar sua gratidão pelos cuidados que lhe
prodigalizei.” A história, contada ao impera-
dor, propagou-se rapidamente entre os especta-
dores e, a pedido geral, concedeu-se graça a
Androcles, em nome do povo. O escravo con-
quistou sua liberdade e recebeu como presente
o leão. Depois disso, conta ainda Ápio,
viram-no passear pela cidade com o animal. Ia
de taverna em taverna recolhendo o dinheiro
que lhe davam e o leão deixava-se cobrir de
flores. E quem os encontrava dizia: eis o leão
que deu hospitalidade a esse homem e o
homem que foi o médico do leão!
Choramos por vezes a perda de um animal
querido; os bichos também nos choram:
“vinha em seguida, despojado de arreios, Eton,
seu cavalo de guerra, cujos olhos se enchiam
de lágrimas”? 81.
Ha pevos entre os quais as mulheres perten-
cem a vários homens e outros em que cada um
tem a sua. É o que se verifica também entre os
animais, e a fidelidade conjugal é igualmente
observada. Quanto à associação e união que
mantêm entre si para se defenderem e auxilia-
rem, vêem-se bois, veados e outros animais, OS
quais acodem ao chamado dos companheiros.
Quando o escaro engole o anzol que lhe esten-
de o pescador, juntam-se os outros e roem a
linha. Quando por acaso um deles cai na rede,
pegam-no os de fora pelo rabo e puxam com
força para fazê-lo sair. Os barbos, quando um
deles é fiszado, raspam a corda do arpão com
as costas, as quais são armadas de um osso em
forma de serra, e se esforçam por cortâ-la.
Quanto aos serviços pessoais que nos pres-
tamos na vida, o mesmo fazem animais de vá-
rias espécies. Dizem que a baleia não anda
sozinha: precede-a por toda parte um peixinho
181 Virgílio.
MONTAIGNE
a que chamam piloto. Acompanha-o a baleia,
deixando-se orientar por ele como o navio se
orienta pelo marujo do leme. Em compensa-
ção, enquanto tudo o que (bicho ou barco)! 8?
entra na boca do monstro é logo engolido, o
"guia, ou piloto, penetra-a sossegadamente e
nela dorme, sem que a baleia se mexa; mas
quando ele volta à água o cetáceo segue-o sem
hesitação e, se porventura o perde de vista,
principia a errar de um lado € de outro che-
gando a chocar-se contra os rochedos como
um barco sem timoneiro. Plutarco afirma ter
observado o fato perto da Ilha de Anticira.
Semelhante associação existe entre o pássaro
chamado corruíra e o crocodilo. A corruira
serve-lhe de sentinela e quando o mangusto,
seu inimigo, se aproxima, a corruíra desperta o
crocodilo com cantos e bicadas, prevenindo-o
do perigo. Em compensação vive dos restos do
monstro, o qual a recebe familiarmente na
goela e a deixa bicar entre os dentes para
comer as parcelas de carne aí remanescentes.
Quando o crocodilo quer fechar a goela, avisa
o pássaro, para que saia, cerrando-a a pouco €
pouco sem o magoar. À concha conhecida por
madrepérola vive com uma espécie de siri, que
lhe serve de porteiro. Estacionando à entrada
da concha, mantêm-na aberta até que algum
pequeno peixe a penetre. Entra ele então igual-
mente e belisca o animalzinho, forçando-o a
fechar-se; e assim comem ambos a presa. A
maneira de viver dos atuns demonstra um
conhecimento singular dos três ramos da mate-
mática. Quanto à astronomia podem ensiná-la
aos homens, pois detêm-se onde os surpreende
o solstício do inverno e não se mexem mais até
o equinócio seguinte, razão pela qual Aristó-
teles lhes atribuía o conhecimento dessa ciên-
cia. Revelam também conhecer a geometria e a
aritmética, porquanto se reúnem em cardumes
da forma de um cubo quadrado por todos os
lados, de sorte que formam um batalhão sólido
de seis faces iguais. Nadam nessa ordem de
dimensões idênticas atrás e na frente, de modo
que quem os encontra e conta uma fileira tem
idéia precisa do todo, porquanto a largura do
cardume é igual à profundidade e ao compri-
mento. ; à
Em matéria de magnanimidade será difícil
deparar com mais belo exemplo que o do enor-
me cão enviado de presente a Alexandre.
Apresentaram-lhe primeiramente um veado
para que lutasse, em seguida um javali e depois
um urso; não se dignou sequer sair do lugar,
mas quando o puseram diante de um leão,
162 Acreditava-se então que a baleia pudesse engo-
lir um barco. (N. do T.)
ENSAIOS — II 22
ergueu-se imediatamente, considerando-o
assim o único adversário de porte.
Como prova de arrependimento e reconheci-
mento de seus erros, citemos um elefante que,
dizem, tendo matado seu guia em um acesso de
raiva, lamentou-o tanto que não aceitou mais
alimento e morreu de fome.
A clemência dos animais é atestada por este
caso que atribuem a um tigre, o mais inumano
dos bichos. Haviam-lhe dado um cabrito;
durante dois dias passou fome por não querer
fazer-lhe mal; no terceiro dia quebrou a jaula
para buscar outra coisa, não desejando atacar
o hóspede de que se tornara familiar.
A familiaridade e as relações que nascem da
convivência podem existir entre os animais.
Acontece efetivamente que vivam juntos, e
muito bem, cães, gatos e lebres. Porém o que a
experiência revela aos que viajam por mar —
no mar da Sicília em particular — acerca dos
alciões ultrapassa tudo quanto o homem possa
imaginar. Nunca a natureza atentou tão prote-
toramente para o parto e o nascimento de ne-
nhum outro animal. Dizem os poetas que a
Ilha de Delos, outrora flutuante, foi tornada
imóvel a fim de permitir que Latona desse à
luz a Apolo, mas no caso em apreço Deus é
quem quer que o mar suste seu movimento,
permaneça estável e calmo, sem ondas, nem
ventos, nem chuvas enquanto o alcião põe seus
filhotes no mundo, exatamente na época do
solstício, no dia mais curto do ano. Graças a
esse privilégio de que goza o pássaro, não há
perigo para a navegação nesse período, em
pleno coração do inverno. Entre os alciões a
fêmea tem um só macho; com ele vive a vida
inteira sem nunca o abandonar. Se ele se enfra-
quece ou se inutiliza, carrega-o às costas € O
serve até a morte. Ninguém conseguiu ainda
compreender de que modo maravilhoso cons-
troem os alciões os seus ninhos. Plutarco, que
os viu e os teve nas mãos, pensa que são feitos
com espinhas de um certo peixe que o pássaro
junta, liga e entrelaça, dispondo umas em um
sentido e outras noutro, curvando-as e arre-
dondando-as de maneira a formar uma espécie
de esfera capaz de flutuar. Quando terminado,
expõe-no às ondas, as quais chocando-o deva-
gar revelam os pontos fracos, não suficiente-
mente aglutinados e que precisam ser reboca-
dos, pois tais pontos cedem ao choque da água
e o alcião verifica que os deve consolidar. Ao
contrário, os que nada deixam a desejar,
comprimem-se ainda mais e se fortalecem a
ponto de não se desfazerem a pauladas ou
pedradas, senão à custa de ingentes esforços.
As proporções e os dispositivos internos do
ninho são extraordinários. É construído de tal
maneira e com tais dimensões que só pode
receber o pássaro que o edificou e que só esse
nele pode entrar. Inacessível a qualquer outro,
fechado e firme, nem mesmo a água do mar o
penetra. Por mais clara que seja esta descrição,
a qual provém de boa fonte, parece-me que não
esclarece bastante as dificuldades da constru-
ção. É portanto inexplicável a nossa vaidade
de querer considerar inferior e interpretar
desdenhosamente o que não somos capazes
nem de imitar nem de entender.
Levemos um pouco mais longe este estudo
comparativo acerca dos pontos comuns ou
análogos entre nós e os bichos. Nossa alma
vangloria-se de elevar a seu nível tudo o que
concebe; de despojar todo ser que se apresente
a ela de tudo o que tem de material e mortal;
de considerar as coisas que preza, dignas de
sua atenção independentemente do que nelas é
passível de alteração, deixando de lado, como
acessórios supérfluos e vis, a espessura, a lar-
gura, a profundidade, o peso, a cor, o odor, a
rugosidade, o polimento, a dureza, a moleza,
em uma palavra, tudo o que é tangível e pereci-
vel, para se acomodar à sua condição que é a
de ser imortal e espiritual; de tal maneira que
se Paris ou Roma ocupam meu pensamento,
Paris, por exemplo, eu a imagino € a repre-
sento em mim mesmo abstraindo suas dimen-
sões, sua localização, a pedra, o gesso, a
madeira que nela se encontram, suas constru-
ções em suma. Não me parece que essa facul-
dade seja privilégio exclusivo de nossa alma; é
evidente que a possuem também os bichos. Um
cavalo habituado às trombetas, aos tiros, aos
combates, e que vemos agitado, comovido no
seu sono, mexendo-se e tremendo como se esti-
vesse em plena ação, tem em sua alma, sem
dúvida, a concepção de um som mudo de tam-
bor, de um exército sem armas e sem soldados:
“vereis generosos corcéis, embora adormeci-
dos, suarem, resfolegarem e se retesarem como
se disputassem uma corrida”! 83,
A lebre que em seu sonho o cão de caça
imagina perseguir, arquejante, cauda esticada
e tendões tesos, é uma lebre sem pelo nem
ossos: “por vezes em meio a profundo sono, os
cães de caça se agitam de repente, latem e fare-
jam como se estivessem correndo um. animal;
às vezes mesmo, ao despertarem, continuam a
perseguir o vão simulacro de um veado que
imaginam em fuga, até que, acordando defini-
tivamente, se apercebem do erro”! 8º. Vemos
também os cães de guarda grunhirem durante
o sono, ladrarem enfim £< despertarem como se
1683 Tucrécio.
164 Id. x
228 MONTAIGNE
vissem algum estranho. Esse estranho que
vêem em imaginação é um homem sem corpo,
imperceptível aos sentidos, sem dimensões
nem cor. Não existe. “Não raro o hóspede fiel
e carinhoso da casa, O cão, ergue-se repentina-
mente em meio a um sono leve, porque pensou
ver uma forma estranha, um rosto desconheci-
do”185, k
Quanto à beleza do corpo, dever-se-ia, antes
de falar, saber se estamos de acordo acerca
daquilo em que consiste. Não me parece que
de uma maneira geral concordemos a respeito.
Não sabemos ao certo como e de que se consti-
tut, pois ao que consideramos beleza no
homem damos as formas mais diversas. Se al-
guma regra natural houvesse, nós todos a
reconheceríamos como nos entendemos quan-
do aludimos ao calor produzido pelo fogo, ao
passo que. em relação à beleza todas as fanta-
sias se admitem: “A tez dos belgas não convi-
ria a um rosto romano”? 8 8,
Os índios pintam essa beleza negra e quei-
mada de sol, lábios espessos e carnudos, nariz
chato e largo, a cartilagem das narinas ormna-
da de argolas que a esticam até a boca, o
lábio inferior enfeitado com anéis incrustados
de pedrarias e caído até o queixo a mostrar os
dentes e as gengivas. No Peru a orelha quanto
maior tanto mais bonita. Alguém diz ter visto
em um país do Oriente aumentarem-na e carre-
garem-na de jóias pesadas e a furarem com
buracos tão amplos que podiam por eles pas-
sar o braço sem levantar a manga. Há povos
que enegrecem os dentes cuidadosamente, por-
que os dentes brancos são desprezíveis; outros,
pintam-nos de vermelho. Entre os bascos, as
mulheres pensam desenvolver seus encantos
raspando a cabeça; em outros lugares o
mesmo se verifica e, o que é mais estranho, nas
regiões boreais, segundo Plínio. As mexicanas
acham bela uma testa estreita, por isso arran-
cam os pelos do corpo e se esforçam por fazer
com que nasçam na fronte. Os seios grandes
são tão apreciados, que há mulheres que dão
de mamar aos filhos por cima dos ombros. A
isso chamaríamos horror. Entre os italianos o
ideal de beleza está em ser gorda e atarracada;
entre os espanhóis em ser magra e esbelta;
entre nós em ser loura para uns e morena para
outros; mole e delicada ou rija e vigorosa; há
quem exija dela graça e doçura.e quem a quei-
ra altiva e majestosa. Platão acha que nada é
mais belo do que a forma esférica, ao passo
que Epicuro prefere a pirâmide e o cubo, e não
admite um deus à semelhança de uma bola.
185 Id.
186 Propércio.
Como quer que seja, a natureza não nos
beneficiou, a esse respeito, mais do que qual-
quer ser vivo e se há animais menos favVore-
cidos do que nós, há outros, em maioria, que o
são mais: “muitos animais nos sobreexcedem
em beleza”?! 87, mesmó entre os que, como nós,
vivem na terra. Quanto aos que vivem no mar,
deixamos de os considerar porquanto suás for-
mas diferem demasiado das nossas para que se
comparem, mesmo porque já pela cor, a limpe-
za, O brilho, lhes somos inferiores, como o
somos em relação aos que vivem no ar.
À prerrogativa que invocam os poetas de
nos sustentarmos verticalmente sobre os pés,
olhando para os céus, de onde vimos, não
passa de uma licença poética: “Deus curvou os
animais e prendeu-lhes o olhar ao solo; dando
ao homem uma cabeça reta, quis que contem-
plasse os céus e os astros”! 88. Mas vários
animaizinhos olham para o céu e os camelos e
os avestruzes têm o pescoço mais comprido e
reto do que nós. Existirão animais que não te-
nham a cabeça colocada no alto e na frente do
corpo, podendo como nós, na sua posição nor-
mal, perceber certa extensão do céu e da terra?
Que qualidades físicas teremos nós, entre as
descritas por Cícero e Platão, que não sejam
igualmente apanágio de numerosos animais?
Entre estes, com os feios e abjetos é que temos
maior semelhança: o macaco, por exemplo,
quanto ao aspecto e forma do rosto: “por mais
disforme que seja o macaco se parece conos-
co”! 8º: o porco, no que concerne à nossa
organização interna e partes vitais.
Quando atento para o homem nu (mesmo
esse sexo a que se atribui a maior parte da
beleza), para suas taras e imperfeições, acho
que mais do que nenhum outro animal temos
razão de nos cobrirmos. E somos desculpáveis
por termos aproveitado os despojos daqueles
aos quais a natureza favoreceu, usando a la, a
pena, o pêlo e a seda para nos vestirmos.
Observemos ainda que o homem é o único ani-
mal cuja imperfeição se afigura chocante aos
seus semelhantes, o único que se esconde dos
demais de sua espécie a fim de satisfazer suas
necessidades naturais. E não é igualmente fato
digno de consideração que os mestres no
assunto ordenem como remédio contra as pai-
x0es eróticas o espetáculo total e livre do
corpo que ambicionamos? Pois basta, para
extinguir o desejo, contemplar sem peias o que
se deseja: “há quem, por ter visto a descoberto
as partes secretas do objeto amado, sentiu
extinguir-se a paixão no momento mesmo de
1687 Sêneca.
188 Ovídio.
189 Ênio.
peito Emos
ENSAIOS — II 229
sua realização”! 7º, E embora tal receita possa
provir de alguém de temperamento delicado e
já serenado, não deixa de ser uma prova mani-
festa de nossa imperfeição desgostarmo-nos
uns dos outros pela frequentação e a intimi-
dade.
Não é propriamente o pudor, mas a prudên-
cia que torna as nossas mulheres tão circuns-
petas e as leva a proibir-nos a entrada em seus
toucadores enquanto se maquilam e se enfei-
tam para aparecerem em público:
“Defendem-se as nossas beldades — e com
razão — evitando o acesso dos bastidores da
vida aos amantes que pretendem conservar sob
o seu jugo”"7!. Ora, nada há, em muitos ani-
mais, de que não gostemos, que não agrade a
nossos sentidos, a ponto de tirarmos de seus.
próprios excrementos e secreções manjares
- requintados, ornatos valiosos e perfumes sua-
ves. Claro estã que isso diz respeito tão-so-
' mente ao homem e às mulheres comuns; não
sou tão sacrílego que o estenda a essas belezas
divinas, sobrenaturais, que vemos por vezes
. resplandecer entre nós como astros caídos na
- terra e que dissimulam mal as formas humanas
tomadas de empréstimo.
Quanto ao resto, a parte mesma dos benefi-
cios da natureza que concedemos aos animais
é vantajosa a estes. Atribuimo-nos bens imagi-
nários e sobrenaturais, bens futuros e remotos,
e de cuja posse o homem é incapaz de se asse-
gurar; ou bens que em virtude do desregra-
mento de nosso espírito pretendemos falsa-.
mente possuir, como a razão, a ciência, a
honra. Aos outros seres deixamos, em compen-
sação, os que são materiais e palpáveis: a paz,
o repouso, a segurança, a inocência, a saúde, o
mais admirável e rico presente que podemos
receber da natureza, pois até a filosofia estóica
declara que se Heráclito e Ferecides tivessem
podido trocar sua sabedoria pela saúde e
livrar-se com isso, um da hidropisia e outro da
doença cutânea que o atormentava, houve-
ram-no feito de bom grado. Do que se deduz
que dão maior valor ainda a essa sabedoria,
que comparam à saúde, do que nesta outra
proposição igualmente deles filósofos: se Circe
tivesse apresentado a Ulisses dois filtros com a
propriedade, um deles, de tornar um louco
sábio e o outro um sábio louco, devia Ulisses
preferir a loucura a ver-se metamorfoseado à
semelhança de um animal, pois a própria sabe-
doria teria dito: “deixa-me, abandona-me, de
preferência a alojar-me em um corpo de asno”.
E eis nossos filósofos a darem menor impor-
170º Ovídio.
171 TLucrécio.
tância à grande e divina ciência que à carcaça
de nosso corpo nesta terra!
Não são pois a razão, a reflexão ou a alma
que nos tornam superiores aos animais; são
nossa beleza, nossa linda tez, a harmônica
disposição de nossos membros, ao lado do que
nossa inteligência, nossa prudência e o resto
são de pouca valia. Tomo nota de tão ingênua
e franca confissão, pois significa que reconhe-
cem que as prendas de que tanto nos vanglo-
riamos não passam de fantasia. E assim, ainda
que os animais tivessem todas as virtudes, a
ciência, a sabedoria, a inteireza dos estóicos,
continuariam animais e não poderiam ombrear
com um homem miserável, mau e insensato! A
meu ver, em suma, tudo o que não se nos asse-
melha nada vale. Deus mesmo, e é um ponto a
“que tornaremos, vale somente porque é feito a
nosso modo. Disso se conclui que não é em
virtude de um raciocínio judicioso, mas unica-
mente por orgulho e obstinação que nos -sobre-
pomos aos animais e nos afastamos de sua
companhia.
Voltemos ao nosso assunto. Somos vítimas
da inconstância, da irresolução, da incerteza,
do luto, da superstição, da preocupação com o
futuro, inclusive o de depois da morte, da
ambição, da avareza, do ciúme, da inveja, dos
apetites desregrados e insopitáveis, da guerra,
da mentira, da deslealdade, da intriga; da
curiosidade. Pagamos pois bem caro a tão
decantada razão de que nos jactamos, e a
faculdade de julgar e conhecer, se a alcança-
mos, é à custa do número infinito de paixões
que nos assaltam sem cessar. E nem sequer
contamos, por não apreciá-la mais do que Só-
crates, a prerrogativa que temos do prazer se-
xual a qualquer momento, quando aos bichos
impôs a natureza limites e épocas razoáveis.
“Assim como é preferível não dar vinho aos
enfermos, porque, sendo-lhes normalmente
nocivo, raramente proveitoso, com duvidosa
esperança de melhoria incorre-se em risco
manifesto, assim também seria preferível que
não se houvesse outorgado ao homem a facul-
dade de pensar, a compreensão, a perspicácia,
a razão em suma, a qual a todos foi liberal-
mente concedida mas a poucos beneficia e pre-
judica a muitos”! 72,
Que vantagens tiraram Varro e Aristóteles
dessa sua inteligência peregrina? Isentou-os
dos incômodos inerentes à natureza humana?
Eximiu-os dos acidentes a que se expõe um
carregador? A lógica consolou-os da gota?
Sentiram-na menos por saberem como ela se
aloja nas articulações? E por não ignorarem
172 Cicero.
230
que entre certos povos a morte é recebida com
alegria, foi-lhes ela mais suave? E por saberem
que em alguns países as mulheres pertencem a
todos, consolaram-se das infidelidades das
suas? Por outro lado, embora pelo seu saber
tenham ocupado o primeiro lugar, um entre os
. gregos, outro entre os romanos, em uma época
em que a ciência florescia, não nos consta que
suas vidas se tivessem aproximado da perfei-
ção. A de Aristóteles, em particular, apresenta
algumas manchas importantes que com difi-
culdade se limpariam. Estará demonstrado que
o prazer e a saúde tenham mais sabor nos que
conhecem a astronomia e a gramática?
“Sustenta o ignorante com menos vigor os
combates do amor ?* 73
Cem artesãos conheci, e cem lavradores,
mais prudentes e felizes do que professores
universitários. Com os primeiros gostaria de
me parecer. A meu ver, a erudição deve
incluir-se entre as coisas necessárias à vida,
como a glória, a nobreza, a grandeza, a digni-
dade, a beleza e a riqueza. Talvez, mas não de
um modo essencial.
Os princípios de moral e as leis não nos são
muito mais indispensáveis para vivermos em
comum do que seriam aos grous e às formigas,
muito organizados embora careçam de erudi-
ção. Se o homem fosse sensato, a cada coisa
daria um valor, segundo sua utilidade e sua
adequação à vida. Quem nos julgasse por nos-
sos atos e nossa conduta, observaria maior nú-
mero de indivíduos perfeitos entre os ignoran-
tes do que entre os sábios e isso em relação a
"quaisquer virtudes. A antiga Roma parece-mé
ter sido muito superior, na paz como na guer-
ra, à Roma sábia que se arruinou por suas pró-
prias mãos; e ainda que admitissemos terem
sido iguais, a probidade, a pureza predomina-
riam na primeira em consegiiência da simplici-
dade que aí reinava.
Para encerrar esta dissertação que nos leva-
ria muito longe, limitemo-nos a constatar que
só a humildade e a submissão engendram ho-
mens de bem. Não é possível deixar ao livre
arbítrio de cada um a escolha de seu dever; é
preciso prescrever-lho. De outro modo, dada a
variedade infinita de opiniões e inteligências,
forjariamos deveres que nos impeliriam a nos
destruirmos uns aos outros, como diz Epicuro.
A primeira lei que Deus impôs aos homens
foi obedecer; uma ordem simples, sem compli-
cações, poupando o trabalho do conhecimento
e do raciocínio. A obediência é, aliás, a condi-
ção natural de uma alma que reconhece em
Deus seu superior e benfeitor. Obedecer e
173 Horácio.
MONTAIGNE
o
submeter-se são o princípio de todas as virtu-
des, como a presunção é o princípio de todos
os pecados. Foi indo de encontro a esse princi-
pio que o homem experimentou sua primeira
tentação e que o diabo pôde inocular-lhe seu
primeiro veneno, prometendo-lhe ciência e
saber: “Serás como os deuses quando conhece-
res o bem e o mal”?! 7%. Em Homero, as sereias,
a fim de enganar Ulisses e atraí-lo a seus peri-
gosos recantos, oferecem-lhe a ciência. O mal
no homem está em pensar que sabe, por isso
nossa religião recomenda-nos com tanta insis-
tência a ignorância como meio adequado a
determinar em nós a fé e a obediência: “cuidai
de que ninguém vos iluda com a filosofia, nem
com as vas seduções das doutrinas do
mundo”? ??5. Todos os filósofos de todas as
seitas concordam em que o soberano bem resi-
de na serenidade da alma e do corpo. Mas
como alcançar essa serenidade? “O sábio só é
inferior a Júpiter; sente-se rico, livre, honrado,
belo, rei do mundo enfim, a menos que o deflu-
xo o atormente” 7 8.
Dir-se-ia em verdade que para nos consolar
de nossa condição miserável e doentia a natu-
reza só nos deu presunção. É a opinião de
Epicteto: “Nada existe no homem que lhe per-
tença integralmente, a não ser sua opinião;
somente vento e fumaça, constituem nosso
patrimônio. Os deuses têm a saúde, pelo pró-
prio fato de serem deuses e só conhecem a
doença porque lhes é dado saber tudo. O
homem, ao contrário, traz em si o princípio do
mal; o bem é uma miragem. Temos muita
razão para nos vangloriarmos da força de
nossa imaginação, pois nossos bens só existem
em sonho.”
Ouvi um exemplo do orgulho desse pobre e
calamitoso animal: “Nada é tão suave (Cicero
é quem fala) quanto nos dedicarmos às letras;
a essas letras, digo, que nos revelam o conheci-
mento da infinidade de coisas existentes; da
natureza no que tem de maior; dos céus
enquanto ainda somos deste mundo de terras e
águas. Por elas fomos instruídos na religião,
conhecemos a moderação e a coragem no que
têm de mais nobre.Porelas nossa alma foi tira-
da das trevas para ser iniciada em todas as coi-
sas, tanto as de ordem superior como as de
ordem inferior, as que ocupam o primeiro
como o último lugar. E assim envelhecemos
sem desprazer nem sofrimento.” Não vos'pare-
ce que de Deus e de Deus vivo e Todo-pode-
roso é que fala o autor? Na realidade, mil cam-
poneses viveram em suas aldeias uma
174 Gênesis.
175 São Paulo.
176 Horácio.
ENSAIOS — II 231
existência mais sossegada, doce e tranquila do
que a de Cicero. “Foi um Deus, ilustre Mêmio,
quem primeiro descobriu esse gênero de vida a
que chamam sabedoria, graças à qual a calma
e a luz sucederam à agitação e às trevas”! 77
Lindas, magníficas palavras! Entretanto,
apesar desse deus tão decantado e de sua divi-
na sapiência, um simples acidente bastou para
que a inteligência de quem as disse caísse ao
nível da de um pobre pastor.
Tão impudente quanto esses devaneios é o
que promete Demócrito quando diz: “Vou
falar de todas as coisas”; e o ridículo título que
Aristóteles dá aos homens, “deuses mortais”; e
a opinião de Crisipo a respeito de Dion cuja
virtude “o elevava à altura de Deus”; e esta
asserção de Sêneca de que “a Deus deve a vida
mas a si mesmo o fato de bem viver”; e esta
outra que se assemelha à precedente: “com
razão nos jactamos de nossa virtude, o que não
deveriamos fazer se proviesse de um deus em
vez de provir de nós mesmos”! 78. e esta ainda,
igualmente de Sêneca: “o sábio alia à fraqueza
humana uma força de alma semelhante à de
Deus e nisso ele lhe é superior”. Nada é tão
comum como encontrar exemplos de análoga
ousadia. Nenhum homem se ofende com se ver
comparado a Deus, mas deprime-se se o nive-
lam aos animais, prova evidente de que preza-
mos mais a nós mesmos do que a glória do
Criador.
É preciso dominar tão tola vaidade e sola-
par ousada e energicamente os fundamentos
ridículos sobre os quais se erguem as opiniões
errôneas. Enquanto o homem imaginar alguma
força e meios de ação próprios, nunca reconhe-
cerá o que deve a seu Senhor. Suas ilusões
serão infinitas. Eis por que é preciso despi-lo,
reduzi-lo à indigência.
Vejamos alguns exemplos dos resultados de
sua filosofia. Possidônio, torturado por uma
doença tão cruel que seus braços se torciam e
seus maxilares se contraiam, pensava demons-
trar seu desprezo pela dor, invectivando-a:
“Faze o que quiseres, não direi jamais que és
um mal.” Sofria tanto quanto um lacaio, mas
acreditava-se corajoso porque falava uma lin-
guagem obediente aos preceitos de sua seita:
“não devia sucumbir ante a realidade, quem se
jactava com palavras, de sua coragem”! ?º.
Achando-se Arcesilau atacado de gota, Car-
néades que o fora visitar quis retirar-se, embar-
gado pela piedade. Chamou-o o paciente e,
mostrando-lhe os pés e o peito, disse: “Nada
sinto aqui do que sofro lá.” Isto me parece
177 Lucrécio.
178 Cicero.
179 Id.
mais honesto, pois reconhecia que sofria e qui-
sera livrar-se do sofrimento, mas não se abatia
nem se enfraquecia ao passo que Possidônio,
penso, afetava uma serenidade que não pos-
suía. E Dionísio de Heracléia, sofrendo cruel-
mente dos olhos, viu-se forçado a desprezar
suas resoluções estóicas.
Mas ainda que a ciência produzisse os resul-
tados que os filósofos lhe atribuem, ainda que
atenuasse a violência dos males a que estamos
expostos, que poderia fazer a mais do que faz a
ignorância, e melhor? O filósofo Pirro, vítima
de uma tempestade no mar, não achou coisa
melhor para animar seus companheiros de
infortúnio senão incitâ-los a imitar a sereni-
dade de um porco que estava a bordo e
contemplava o fenômeno sem se apavorar. A
filosofia, como último recurso, apresenta à
nossa consideração os exemplos do atleta e do
arrieiro que, em geral, não temem a morte nem
os tormentos e são capazes de maior resolução
do que a ciência pôde jamais impor a nenhum
homem não predisposto naturalmente à resis-
tência física. Que é que faz, se não a ignorân-
cia, que se amputem os membros delicados de
uma criança, ou os de um cavalo, mais facil-
mente do que os nossos? E quanta gente fica
doente unicamente por efeito da imaginação !
É frequente vermos quem se faça sangrar, pur-
gar, medicamentar para curar males que só
existem porque os imagina ter. Quando nos
faltam males verdadeiros, a ciência no-los for-
nece. Pela cor de nosso rosto devemos estar
sob a ameaça de alguma doença catarral; o
calor da estação predispõe-nos a um acesso de
febre; a linha de vida de nossa mão esquerda
apresenta um aspecto que pressagia séria e
próxima indisposição. A ciência ataca mesmo
de frente a saúde: temos uma vitalidade, uma
força que não pode continuar, é preciso que
nos tirem algum sangue e nos enfraqueçam,
sem o que a saúde poderá voltar-se contra nós
mesmos.
Compare-se a existência de um homem
escravizado a essas idéias imaginárias com a
de um lavrador que se entrega ao fluxo normal
da vida, levando em conta as coisas no
momento em que ocorrem e sem se preocupar
com o que diz a ciência, sem se prender às
conjeturas; que só adoece quando a doença
chega, ao passo que outros já trazem os cálcu-
los na alma antes que alcancem a bexiga,
antecipando-se pela imaginação aos sofri-
mentos reais, correndo ao seu encontro como
se não lhes sobrasse tempo para sofrer na hora
certa.
O que digo dos efeitos nefastos da medicina
aplica-se igualmente a qualquer outra ciência.
232
Daí a opinião de certos filósofos antigos que
consideravam como felicidade suprema termos
consciência da fraqueza de nosso julgamento.
Quanto a mim, minha ignorância tanto me
induz a esperar como a temer: para regular
minha saúde, guio-me pelos exemplos dos ou-
tros e pelo que vejo verificar-se alhures nas
condições em que me acho. Essas observações
são de toda espécie e decido de acordo com a
comparação que estabeleço entre elas, esco-
lhendo o que me parece conveniente. Recebo
com a maior cordialidade a saúde, por julgá-la
coisa essencial e que nos torna livres. Subordi-
no-lhe o resto e procuro gozá-la tanto mais
quanto já se vai fazendo menos comum, mais
rara. Por isso evito perturbar-lhe o repouso e a
cordura com os aborrecimentos de uma nova e
forçada maneira de viver.
Os animais que devem à sua quietude uma
saúde mais robusta do que a nossa, mostram-
nos a que ponto a inquietação de espírito pode
ser causa de doença. Dizem que no Brasil as
pessoas só morrem de velhice, o que se atribui
à pureza e à calma do aí que respiram, e que,
a meu ver, provém antes da serenidade e da
tranquilidade de suas almas isentas de paixões,
de desgostos, de preocupações que excitam e
cóntrariam. Ignorantes, iletrados, sem lei nem
rei, nem religião alguma, sua vida desenvolve-
se numa admirável simplicidade.
Como explicar que os indivíduos mais gros-
seiros, de espírito mais curto, sejam os mais
dados ao amor? E que o amor de um arrieiro
seja mais desejável por vezes que o de um
fidalgo? Não será porque neste último as agi-
tações do espírito influem nos meios físicos,
desequilibram-nos, cansam-nos, enfadam-nos,
como cansam e enfadam a própria alma? Que
é que torna essa alma desregrada e a impele à
loucura, senão a vivacidade e a agilidade que
constituem sua força? Que diferencia a lJoucu-
ra mais sutil da mais sutil sabedoria? Das
grandes amizades nascem as grandes inimiza-
des; as saúdes vigorosas são o ponto de parti-
da das doenças mortais; assim também as
mais notáveis e belas inteligências podem con-
duzir às mais sublimes loucuras e extravagân-
cias. De umas a outras vai apenas um passo.
Pelo que são capazes de fazer os loucos, pode-
mos julgar quão próxima da generosidade da
alma se encontra a loucura. Quem ignora
quanto é imperceptível a linha de demarcação
entre a loucura e as inspirações mais ousadas
de um espírito completamente livre, ou as reso-
luções que pode tomar, em dadas circunstân-
cias, uma virtude excepcional?
Diz Platão que os melancólicos!8º são os
180 Assim se designavam os esquizóides. (N. do
T.
' que uma ligeira dor: “
MONTAIGNE |
mais aptos à disciplina e os melhores, mas não
há também mais propensos à loucura. Inúme-
ros espíritos se consomem pela sua própria
força e brilho. Assim vimos que, pela fulgu-
rante excitação de seu espírito, se consumiu o
mais judicioso, engenhoso e superior de todos
os poetas italianos! *?, na tradição da antiga e
pura poesia. Sim, tem de ser grato realmente à
vitalidade que o matou! À claridade que o
cegou! Ao acertado e constante exercício de
suas faculdades que lhe destruiu a razão! À
curiosa e laboriosa investigação científica que
o levou à loucura! À rara aptidão para os tra-
balhos do espírito que o deixou sem espírito e
sem possibilidade de trabalhar! Ao vê-lo em
Ferrara, em tão lamentável estado, não se
reconhecendo nem reconhecendo as suas obras
que se publicaram sem que as pudesse rever,
embora vivo, senti mais despeito pela fragili-
dade da natureza humana do que compaixão
pela sua infelicidade.
Quereis que um homem seja sadio, ponde-
rado em seus atos, com atitudes seguras e fir-
mes? Envolvei-o nas trevas, na ociosidade e
evitai que seu espirito trabalhe. Para sermos
sensatos, precisamos atoleimarmo-nos; para
nos guiarem devem cegar-nos. Dirão que a
vantagem de ser pouco sensível às dores e aos
males traz consigo o inconveniente de tornar
menos requintado o gozo dos bens e prazeres.
Com efeito, mas a miséria de nossa condição é
causa de que nos cabe fugir mais do que gozar
e um prazer total nos impressiona menos do
os homens são menos
sensíveis ao prazer do que à dor”'82, Mal per-
cebemos o bem-estar que acompanha a per-
feita saúde, tortura-nos porém a mais insignifi-
cante enfermidade. “Somos sensíveis ao menor
arranhão e no entanto a plenitude da saúde
deixa-nos indiferentes. Alegrámo-nos com não
sermos atormentados pela pleurisia ou a gota,
porém mal percebemos que somos sadios e
vigorosos”!83. Nosso bem-estar consiste em
não sentir dores, por isso a seita filosófica que
colocou o prazer acima de tudo definiu-o pela
ausência do sofrimento. É este o maior bem
que o homem pode esperar, como dizia Ênio.
Essa comichão, essa excitação que nos cau-
sam certos prazeres, afiguram-se a um tempo
excesso de saúde e de mal-estar. Essa volúpia
que nos atrai e a que cedemos, apesar do que
comporta de irritante, não terá por objeto apla-
car em nós a sensação? O impulso que nos
leva às mulheres, obedece tão-somente à neces-
181 O Tasso, encerrado em um manicômio e que
Montaigne viu provavelmente em sua viagem à
Itália.
182 Tito Lívio.
183 Ta Boétie.
ENSAIOS —TI
sidade de aplacar o mal-estar que produz em
nós o desejo ardente e excessivo; e não visa a
outra coisa senão saciá-lo, extinguindo a febre
e devolvendo-nos a calma. O mesmo acóntece
com os demais prazeres. Parece-me, pois, que
se a simplicidade de espírito nos induz a
preservar-nos do mal, conduz-nos a um estado
de felicidade, dada a nossa natureza. Mas que
não seja entretanto tão total que se dispa de
toda sensibilidade, e Crantor tinha razão em
combater essa indiferença preconizada por
Epicuro, que a exagerava a ponto de não con-
fessar a existência do mal, mesmo quando por
ele atingido: “não aprovo uma insensibilidade
elevada a esse grau, a qual em verdade não
existe e não é desejável. Alegra-me não estar
doente, mas se o estou quero sabê-lo, e se me
cauterizam ou me operam quero sentir”. Efeti-
vamente, quem nos tirasse a sensação da dor
nos privaria ao mesmo tempo do prazer. Seria
em suma o aniquilamento do homem. “Essa
indiferença não se conquista sem grande dure-
za de coração e insensibilidade do corpo”'8*.
O mal e o bem revezam-se no homem; a dor
não o persegue sem descontinuar e ele não
corre sem cessar atrás do prazer.
Constitui argumento poderoso em prol da
ignorância o fato de a própria ciência nos
Jogar em seus braços quando não encontra o
meio de nos tornar superiores ao sofrimento
demasiado intenso. Pois a ciência vê-se força-
da a transigir recomendando-nos a ignorância
e entregando-nos à proteção dela a fim de nos
resguardar contra os golpes e insultos da sorte.
Não significa outra coisa o que nos diz a ciên-
cia quando nos incita a não pensar em nossos
sofrimentos e a recordar os prazeres de outros
tempos; quando nos consola dos males presen-
tes com a lembrança das alegrias idas; quando
opõe, ao que nos oprime hoje, o que ontem nos
deu satisfação: “Epicuro diz que é preciso ob-
viar aos pensamentos tristes e atentar para os
alegres”18 8, Carecendo de força, recorre a
ciência à esperteza. E mediante trejeitos e pelo-
ticas supre o vigor dos braços. Mas recordar a
doçura dos vinhos da Grécia não somente a
um filósofo mas simplesmente a um homem
sensato em luta contra a febre, eis um estranho
remédio bem capaz de piorar a situação: “a
recordação da felicidade passada duplica a
desgraça presente” 8 8.
De igual natureza é este outro conselho da
filosofia: “guarde-se na memória apenas a lem-
brança das alegrias tidas e apague-se a recor-
dação das tristezas”. Como se de nosso arbi-
184 Cícero.
185 Id.
186 Tasso.
233
trio dependesse o esquecimento! Outra prova
de nossa insignificância.
“Doce é a lembrança das tristezas idas”187.
Então a filosofia que me deve dar armas
para combater os azares-do destino, que deve
temperar-me o caráter para que possa despre-
zar as adversidades humanas, confessa sua
impotência, recorrendo a escapatórias ridícu-
las e covardes? Sim, porque a memória não
fixa o que queremos e sim o que lhe apraz.
Mais ainda: nada imprime mais profunda-
mente alguma coisa na memória do que o de-
sejo de esquecer. Este é mesmo o melhor meio
de gravar em nós alguma coisa. É errado pre-
tender que “depende de nós enterrar para sem-
pre no olvido as nossas desgraças passadas e
lembrar unicamente as alegrias”'88, Mas é
certo dizer: “Lembro-me das coisas que quise-
ra esquecer e esqueço as que desejara lem-
brar”'8º. E de quem é este princípio? Daquele
que “superou com seu gênio a raça humana e
eclipsou todos os homens, como o sol ao surgir
apaga as estrelas”'ºº, do “único que entre
todos ousou dizer-se sábio”'91. Esvaziar a
memória não será seguir o verdadeiro caminho
da ignorância? “A ignorância que tudo aceita
sem discussão é um remédio para os nossos
males”!º2. Outros preceitos há, em virtude
dos quais nos é permitido tomar de emprés-
timo ao vulgo certas aparências frívolas que
nos sirvam de consolo. Quando não podem
curar a chaga satisfazem-se com atenuar a dor.
Creio que ninguém recusaria aceitar, ainda
que em troca de certa simplicidade de espírito,
uma- existência agradável e trangúila cuja
ordem e continuidade se lhe assegurassem:
“começaria por beber e jogar flores, embora
pudesse passar por louco” 83.
Por certo- encontraríamos muitos filósofos
da opinião de Licas. Este, aliás, de costumes
morigerados, vivia calmamente com sua famí-
lia, cumprindo seus deveres para com os seus e
os estranhos, sabendo muito bem evitar O que
lhe era prejudicial. Um transtorno qualquer de
seus sentidos induziu-o a imaginar que se
encontrava sempre no teatro assistindo às mais
belas peças. .Tendo-o curado os médicos,
pouco faltou para que os processasse, a fim de
lhe devolverem as delícias da imaginação:
“Ah! meus amigos, que fizestes ! Salvando-me,
vós me matastes, pois me privastes de toda a
187 Eurípides.
188 Eurípides, citado por Cícero.
189 Td.
190 Lucrécio.
191 Cícero.
192 Sêneca.
193 Horácio.
234 MONTAIGNE |
volúpia extirpando o erro que me encantava a
vida?”194.
Trasilau, filho de Pitodoro, sofria de mania
semelhante. Imaginava que todos os navios
que tocavam no Pireu trabalhavam por conta
dele. Alegrava-se quando não se verificavam
avarias e acolhia com júbilo a chegada dos
barcos. Curando-se, graças a seu irmão Cri-
ton, lamentava o passado em que vivera feliz.
É o que exprime este verso de um autor grego
da antiguidade: “Há grande vantagem em não
ser demasiado sensato 1º 5, Eno Eclesiastes se
diz: “Muita sabedoria é fonte de desprazer;
quem adquire saber adquire ao mesmo tempo
trabalho e tormento.”
Admite geralmente a filosofia, como último
remédio para os nossos males, que ponhamos
fim à vida, desde que não a possamos supor-
tar: “Agrada-te a vida? Suporta-a. Estás can-
sado dela? Sai como quiseres”'º 8. “A dor te
molesta ou te inferniza? Se não tens defesa,
estende o pescoço; mas se trazes as armas de
Vulcano, isto é, se és forte, resiste” 1º 7. E este
ditado: “que beba ou que se vá”, com que cos-
tumavam os gregos saudar seus convivas e
aplicavah às situações críticas mudando o b
em v, como fazem os gascões! º8, que significa
senão a confissão da impotência da filosofia?
Pois não somente apela para a ignorância, mas
também para a estupidez humana, preconi-
zando o abandono de todo sentimento e até da
existência: “Se não sabes como empregar a
vida, cede o lugar aos que sabem. Já te diver-
tiste bastante, já comeste e bebeste; está na
hora de te aposentares, pois poderias embria-
gar-te e te tornares alvo do escárnio dos
jovens, nos quais o desregramento é mais
desculpáve! do que em homem da tua
idade”! ºº, “Demócrito, vendo que os anos lhe
haviam enfraquecido as faculdades, matou-se
voluntariamente”2ºº. Antístenes exprime a
mesma idéia: “Fazer provisão de bom senso
para viver tranquilo ou arranjar uma corda
para se enforcar.” E Crisipo assegura, a propó-
sito de um verso de Tirteu, que “é preciso che-
gar à virtude ou morrer”. Crates dizia igual-
mente: “o amor cura-se com a fome ou com o
tempo; aqueles a quem nem um nem outro des-
ses meios satisfaz resta o recurso da corda
para o pescoço”. Sexto, de quem Sêneca e Plu-
19º Horácio.
195 Sófocles.
138 Sêneca.
197 Cícero.
188 Transforma-se assim o Bivat em vivat, pois,
embora se refira aos gregos, Montaigne cita em
latim.
188 Horácio.
200 Lucrécio.
tarco falam com tanta consideração, tudo
abandonara para estudar a filosofia. Progre-
dindo lentamente e se prolongando seus estu-
dos, resolveu precipitar-se ao mar. Não poden-
do alcançar a ciência, matava-se.
Eis os termos da lei dos estóicos: “se por-
ventura ocorrer alguma desgraça para a qual
não tenhamos remédio, o porto está próximo;
podemos salvar-nos a nado, abandonando o
corpo, como um barco que faz água. É o medo
de morrer e não o desejo de viver que retém o
louco amarrado ao corpo”.
A simplicidade torna a existência mais agra-
dável e a alma mais pura e melhor. Os simples
e os ignorantes, diz São Paulo, elevam-se e
conquistam o reino dos céus; nós, com todo o
nosso saber, afundamos nos abismos do infer-
no. Não lembrarei nem Valentiniano, inimigo
declarado da ciência e das letras, nem Licínio,
ambos imperadores e que as consideravam
nocivas como a peste; nem Maomé que, ao que
ouvi dizer, proibia o ensino da ciência; mas
invocarei o exemplo de Licurgo. A autoridade
“do legislador merece todo o nosso respeito,
como o merece também a divina legislação que
ele deu à Lacedemônia, onde durante tanto
tempo reinaram a virtude e a felicidade sem
que se admitissem o conhecimento e a prática
das letras.
Os que voltam desse Novo Mundo que os
espanhóis descobriram no tempo de nossos
pais, podem testemunhar como esses povos,
que não possuem leis nem magistrados, são
mais bem governados do que nós com nossos
tão numerosos funcionários e leis tão abun-
dantes que ultrapassam em quantidade os atos
a serem julgados: “têm as mãos cheias de
convocações, requerimentos, informações, pro-
curações e também maços de comentários,
pareceres, processos. Com tais indivíduos os
infelizes nunca se acham em segurança na sua
cidade. São assaltados por todos os lados por
uma multidão de escrivães, procuradores,.
advogados”?º1,
Um senador romano dos últimos séculos do
império exprimia a mesma idéia: “nossos ante-
passados recendiam fortemente a alho, mas ti-
nham o estômago perfumado por uma boa
consciência, ao passo que em nôssa época as
pessoas exalam bom odor, mas por dentro o
cheiro é nauseabundo e provém da fermenta-
ção de seus vícios”. Em outras palavras, com
muito saber e capacidade, careciam totalmente
de consciência. A falta de educação, a ignorân-
cia, a simplicidade de espírito, a franqueza
aliam-se em geral à ingenuidade. A curiosi-
201 Ariosto.
ENSAIOS — 1 235
dade, a sutileza, o saber acarretam a malícia.
A humildade, o temor, a obediência, a bonda-
de elevada até a fraqueza e que constitui o ali-
cerce sobre o qual assenta a conservação da
sociedade humana, são peculiares a uma alma
vazia, dócil, e presumindo pouco de si.
Os cristãos mais do que os outros sabem a
que ponto a curiosidade é um mal natural e
original no homem. O desejo de aumentar sua
ciência foi a causa primeira da queda do
homem, que lhe acarretou a danação eterna. O
orgulho perdeu-o e corrompeu-o. É o orgulho
que expulsa o homem dos caminhos batidos e
o induz a abraçar as novidades, a preferir ser
chefe de um bando errante, desviado em uma
senda de perdição e professor de erros e menti-
ras, a ser aluno de uma escola em que se ensine
a verdade, e a marchar sob a direção de
outrem, pela estrada larga que leva direito à
meta. É sem dúvida o que exprime esta antiga
máxima grega: “a superstição segue o orgulho
e lhe obedece como a um pai”. Ó presunção,
quanto nos prejudicas!
Quando Sócrates foi avisado de que o Deus
da sabedoria lhe outorgara o epíteto de sábio,
espantou-se. Sondando-se, analisando-se, nada
achava suscetível de motivar a declaração da
divindade, pois conhecia muitos justos, corajo-
sos, sábios como ele, e mais eloquentes, mais
belos, mais úteis a seu país. Acabou por con-
cluir que o que fazia que fosse sábio era o fato
de ele próprio não se considerar sábio; que seu
Deus devia encarar como tolice do homem a
opinião que este tem de sua ciência e de sua
sabedoria; e que a melhor doutrina está na
ignorância, como na simplicidade de espírito
está a verdadeira sabedoria. Nossos Evange-
lhos consideram bem miseráveis os que se
superestimam: “És barro e cinza, podes em
verdade vangloriar-te?” E ainda: “Deus fez o
homem semelhante a uma sombra; que se pode
ver dele quando, em se afastando a luz, desa-
parece a sombra?” Na realidade nada somos.
Muito falta para que possamos atingir as
alturas em que paira a divindade, e as obras do
Criador que mais evidenciam a Sua presença
são as que menos podemos alcançar. Deparar
com algo incrível é para o cristão uma oportu-
nidade de crer; tanto mais se aproxima da
razão quanto mais escapa à inteligência huma-
na. Se esta o pudesse entender, deixaria de ser
milagre, e se fosse análogo a qualquer outra
coisa. não seria incrível. “Conhece-se melhor
Deus não O procurando compreender” 202. “E
mais nobre e respeitoso crer que aprofundar os
desígnios dos deuses”, diz Tácito. Platão igual-
202 Santo Agostinho.
mente acha até certo ponto irreverente interes-
sar-se alguém, demasiado curiosamente, por
Deus, o mundo e as causas primeiras das coi-
sas. E finalmente lemos em Cícero que “é difi-
cil conhecer o criador deste universo; e se
conseguirmos descobri-lo será impossível tor-
ná-lo compreensível ao vulgo”.
Deus é poder, verdade, justiça, dizemos nós.
Estas palavras sugerem uma idéia de grandeza,
mas O que representam realmente nós não o
vemos, não o concebemos. Dizemos que Deus
tem medo ou está zangado, ou que ama,
“exprimindo o divino em termos humanos”,
segundo Lucrécio; são emoções, essas, de que
somos suscetíveis mas que não podem existir
em Deus como as concebemos, do mesmo
modo que não concebemos o que Ele possa
sentir. Só Deus tem a possibilidade de Se
conhecer e de explicar Seus atos, que não se
traduzem senão impropriamente em nossa lin-
guagem, a qual Ele emprega entretanto para,
abaixando-Se, descer até nós que jazemos na
terra. Como a sabedoria, que constitui um
ponto de equilíbrio entre o bem e o mal, pode-
ria ser-Lhe inerente, se nem o bem nem o mal
O atingem? Que Lhe importam essa razão e
essa inteligência que nos permitem deduzir das
coisas que mal conhecemos outras nitidamente
definidas, a Ele para quem nada é obscuro?
A justiça quê tem por objetivo dar a cada
um o que lhe cabe, foi engendrada pelos ho-
mens em sociedade e não pode figurar entre os
atributos divinos. A temperança, que consiste
em moderar o gozo dos prazeres materiais,
não tem nenhuma relação com a divindade. A
coragem, que nos induz a suportar e enfrentar
a dor, o trabalho, os perigos, nada tem tam-
pouco com Deus: as três coisas Lhe são estra-
nhas. São considerações idênticas que levam
Aristóteles a julgar que Deus está isento de vi-
cios e virtudes: “não é suscetível nem de amor,
nem de ódio, porque tais coisas são inerentes
aos seres frágeis”2º3.
A participação grande Ou pequena que
temos no conhecimento da verdade, não a
obtemos com nossas próprias forças; demons-
trou-nos Deus, escolhendo no povo gente sim-
ples e ignorante para nos revelar Seus admirá-
veis segredos. Nossa fé, não a adquirimos, é
um presente puríssimo de liberalidade alheia.
Não foi pelo raciocínio, pela inteligência, que
acolhemos nossa religião; foi porque assim o
quis uma autoridade situada fora de nós. Aju-
da-nos a fraqueza mais do que a força de
nosso juízo, e nossa cegueira mais do que
nossa clarividência. Graças à nossa ignorân-
203 Cícero.
|
EEE E EE SUE
236 MONTAIGNE:
cia, mais do que ao nosso saber, temos conhe-
cimento das coisas divinas. Não é de espantar
aliãs que nossos meios, que são os que recebe-
-mos da natureza e se aplicam às coisas da
terra, não nos permitam conceber as coisas
sobrenaturais e celestes. Tudo o que podemos
fazer é submeter-nos e obedecer, pois está
escrito: “destruirei a sabedoria dos sábios e
deitarei por terra a prudência dos prudentes”.
Onde está o sábio do século? E o censor? Não
reduziu Deus a zero a ciência humana? Pois
em não chegando o mundo ao conhecimento
de Deus pela ciência, prouve a Deus que, pela
prédica dos ignorantes e dos simples, fossem
salvos os crentes.
Examinemos, portanto, se está ao alcance
do homem encontrar o que procura e se essa
procura a que se vem entregando há séculos
lhe trouxe alguma força nova, alguma verdade
sólida. Creio que reconhecerão, se falarmos
honestamente, que tudo o que tirou de tão
longa busca foi a certeza de sua impotência.
Nesse longo estudo, a ignorância, que nos é
naturalmente inerente, ficou confirmada e
demonstrada. Aconteceu aos verdadeiros sá-
bios o que se verifica com as espigas de trigo,
as quais se erguem orgulhosamente enquanto
vazias e, quando se enchem e amadurece o
grão, se inclinam e dobram humildemente.
“Assim esses homens, depois de tudo terem
experimentado, sondado e nada haverem en-
contrado nesse amontoado considerável de
coisas tão diversas, renunciaram à sua presun-
ção e reconheceram a sua insignificância. E o
que Veleio Patérculo censura a Cota e a Cíce-
ro, quando diz: “Aprenderam com Filon que
não aprenderam nada.” Ferecides, um dos sete
sábios da Grécia, às vésperas da morte, escre-
via a Tales: “determinei aos meus que, depois
de me enterrarem, te entregassem meus escri-
tos. Se te agradarem, a ti e aos outros sábios,
publica-os; se não, destrói-os. Nenhuma certe-
za contêm que a mim mesmo satisfaça; aliás
não pretendo conhecer a verdade, nem mesmo
atingi-la. Entrevejo as coisas mais do que as
penetro”. Sócrates, o homem mais sábio que já
houve, respondeu ao lhe perguntarem o que
sabia: “uma coisa — e muito bem: que nada
sei”. Sua résposta confirma o que se diz comu-
mente, isto é, que por mais que saibamos nada
sabemos ao lado do que ignoramos. Em outras
palavras, aquilo mesmo que pensamos saber
não passa de uma ínfima parcela do que
ignoramos.
Conhecemos as coisas, diz Platão, em
sonho, mas as ignoramos na realidade,
“porque todos os autores antigos nos disseram
que nada podemos conhecer, nada compreen-
der, nada saber, eis que nossos sentidos são
limitados, nossa inteligência demasiado frágil,
a vida exageradamente curta”2º*. O próprio
Cicero, que aufere todo o seu valor de seu
saber, principiava, em sua velhice (segundo
Valério Máximo) a desprezar as letras. Quan-
do as cultivava, fazia-o sem optar por nenhu-
ma solução, tendendo ora para uma seita ora
para outra, segundo o que lhe parecia mais
certo, sem contudo se afastar da dúvida da
Academia: “Vou falar, mas sem nada afirmar;
tudo investigarei, sempre desconfiado de mim
mesmo”2º 8,
Não teria dificuldade em considerar o
homem em sua maneira habitual de ser, mas,
se o fizesse, o estaria imitando, julgando a ver-
dade não pelo valor das testemunhas e sim
pelo seu número. Deixemos de lado o povo
“que dorme acordado, e agoniza embora viva €
tenha os olhos abertos”2º 8, que não se sente,
não se julga, e deixa na ociosidade suas facul-
dades naturais; e vejamos o que de melhor
existe na humanidade. Estudemos nessa redu-
zida pléiade de homens excelentes, selecio-
nados com carinho e que, naturalmente dota-
dos de um espírito particularmente belo, ainda
o temperaram e requintaram pela erudição e a
arte, elevando-se tão alto quanto o permite a
sabedoria humana. Esses indivíduos traba-
lharam seu espírito de todas as maneiras, por
todas as suas facetas, preparando-o para tudo,
buscando em todas as fontes suscetíveis de
auxiliá-los o que podiam assimilar; enrique-
cendo-o, enfeitando-o com tudo o que poderia
concorrer para seu aperfeiçoamento interior e
exterior: Neles a natureza humana alcançou
seu mais alto grau de perfeição. Deram ao
mundo leis e instituições, desenvolveram as
artes e as ciências e ofereceram-lhe os exem-
plos admiráveis de sua conduta e de seus cos-
tumes. Desses invocarei o testemunho e a
experiência. Vejamos até onde foram, onde
pararam. As enfermidades e falhas que obser-
varmos nessa elite, deveremos julgá-las co-
muns a todos nós.
Quem procura alguma coisa acaba por
declarar, ou que a encontrou ou que não a
pôde descobrir, ou que continua a busca. Toda
a filosofia tende a uma dessas três conclusões;
seu objetivo é procurar a verdade, penetrá-la e
convencer-se dela. Os peripatéticos, os epicu-
ristas, os estóicos e outros pensam tê-la encon-
trado; estabeleceram o rol dos nossos conheci-
mentos e os consideram indiscutíveis.
Clitômaco, Carnéades e os acadêmicos em
204 Cícero.
20 6 Td.
2068 Tucrécio.
ENSAIOS — II
geral desesperam de encontrar a verdade e jul-
gam que nossas faculdades são incapazes de
descobri-la; daí concluírem pela fraqueza e
ignorância do homem. Sua doutrina foi a que
mais se expandiu e conta entre seus adeptos os
mais nobres espíritos. Pirro e os outros céticos,
cujos dogmas, dizem alguns autores antigos,
são tirados de Homero, dos sete sábios, de
Arquíloco, de Eurípides, escola a que se filiam
Zenão, Demócrito, Xenófanes, acham que a
verdade ainda está por se encontrar. Acham
que os que acreditam tê-la descoberto laboram
em profundo erro, e os que afirmam não serem
as nossas forças capazes de alcançá-la, são,
embora em menor grau, demasiado temerários
ainda em sua asserção, pois determinar em que
medida podemos conhecer as coisas e ajuizar
da dificuldade de um tal conhecimento é ciên-
cia tão elevada, ultrapassando a tal ponto
qualquer outra, que duvidam esteja o homem
em condições de possuí-la: “quem quer que
pense que o homem nada pode saber, não sabe
sequer se sabemos algo suscetível de afirmar-
mos que não sabemos nada”?º 7.
A ignorância que se conhece, se julga e se
condena não é uma ignorância completa. Para
que o fosse, fora necessário que se ignorasse a
si mesma, de sorte que a tarefa dos pirrônicos
consiste em duvidar das coisas, investigá-las
sem afirmar nem assegurar. O espírito conce-
be, deseja, admite; destas três impressões, acei-
tam as duas primeiras e mantêm a última em
situação ambígua, sem a aprovar por pouco
que seja, nem a negar. Essas três faculdades do
espírito, representa-as Zenão por gestos: a
mão estendida e aberta significaria a aparência
das coisas; a mão entreaberta e com os dedos
ligeiramente recurvados, o desejo de aprofun-
dar; a mão fechada, a compreensão; a mão
esquerda apertando o punho representava a
ciência. Essa atitude reta e inflexível de seu
espírito, considerando os objetos sem aplica-
ção nem consentimento, encaminha-os para a
ataraxia, estado de alma sereno e tranqúiilo,
inatingível às agitações que nos causam o sen-
timento e o conhecimento que podemos ter das
coisas e que provocam o temor, a avareza, a
inveja, os desejos imoderados, a ambição, o
orgulho, a superstição, o amor à novidade, a
rebeldia, a desobediência, a obstinação, e a
maior parte dos males a que estã exposto o
nosso corpo. Um tal estado de espírito os liber-
ta mesmo da intransigência em relação à sua
doutrina, que defendem apenas, não receando
ser vencidos em suas discussões. Se sustentam
que os corpos buscam o centro de gravidade,
aborrece-os nossa aquiescência, pois preferem
207 Lucrécio.
237
a contradição para que se engendre a dúvida e
se adie o julgamento, o que constitui seu obje-
tivo. Só apresentam proposições no intuito de
as opor às que supõem se encontrarem na
mente dos adversários. Se adotamos seu ponto
de vista, defendem de bom grado a tese contrá-
ria: não têm preferência. Se dizemos que a
neve é preta, afirmam que é branca; se acha-
mos que não é nem preta nem branca, susten-
tam logo que é de ambas as cores; se
concluímos que não sabemos ao certo o que
seja, esforçam-se por demonstrar que o sabe-
mos muito bem. E ainda que pelo raciocínio
estabeleçamos de maneira evidente a nossa dú-
vida, eles discutirão a fim de provar que a dú-
vida não existe em nós ou que não poderíamos
demonstrar que uma tal dúvida tenha funda-
mento e subsista realmente.
Graças a essa dúvida levada às últimas
consequências, os pirrônicos dividem-se e se
separam quanto às opiniões acerca das ques-
tões que tratam, inclusive a respeito da própria
dúvida e da ignorância. Por que não lhes seria
permitido duvidar, perguntam, quando se con-
corda em que entre os dogmáticos um possa
dizer verde e outro amarelo? Poderá alguém
propor-nos que aceitemos ou neguemos algu-
ma coisa, sem que nos seja lícito optar pela dú-
vida? E enquanto os demais são levados pelos
costumes de seu país, sua família, o acaso,
como por uma tempestade, sem reflexão nem
escolha, às vezes mesmo antes da idade da
razão, a tal ou qual opinião, a favor da seita
estoica ou da epicurista, às quais se escravi-
zam sem possibilidade de se libertar, “presos a
uma qualquer doutrina como se jogados sobre
um rochedo pela tempestade ”2º*, por que não
lhes dar a eles, pirrônicos, o direito de se
conservarem livres, encarando as coisas sem
entraves em seu julgamento? Não será muito
mais vantajoso ver-se desligado das necessi-
dades que detêm os outros? Não será mil vezes
preferível evitar um julgamento a se meter em
discussões fantasistas e puramente polêmicas?
Que escolher? Se pouco importa e se se trata
apenas de escolher, seria grande tolice. É no
entanto ao que impele o dogmatismo, o qual
não nos autoriza a ignorar o que ignoramos.
Ainda que se adote o melhor partido, nunca
será ele tão seguro que não se faça necessário,
para defendê-lo, atacar e combater centenas de
partidos contrários. Não será melhor ficar fora
da confusão? Se a qualquer pessoa se permite
defender como a honra e a vida a crença de
Aristóteles na eternidade da alma; se se admite
que se discuta o ponto de vista de Platão a res-
peito, por que se há de impedir que duvidem os
208 Cicero.
238 MONTAIGNE
céticos? Se Panécio se abstém de opinar acer-
ca do conhecimento do futuro pelas entranhas,
os sonhos, os orâculos, os vaticínios em que
acreditam os estóicos, por que não ousaria um
sábio, em relação aos demais assuntos, o que
ousa Panécio acerca dos pontos que seus mes-
tres aceitam e aprovam? Se é uma criança que
emite um juízo, dizem que o faz por ignorân-
cia; se é um sábio, está sendo vítima de suas
preocupações.
Assim os pirrônicos levam grande vantagem
nas discussões, pois pouco lhes importam os
ataques dos adversários, desde que possam
atacar também. Tudo lhes serve de argumento;
se vencem, nossas razões não têm valor; se
ganhamos, as deles é que não prestam; se
erram, fica demonstrado que a ignorância exis-
te; se nos enganamos, nós é que fornecemos a
prova de sua existência; se conseguem conven-
cer de que nada é certo, confirmam a tese que
defendem; se não o conseguem, ei-la natural-
mente confirmada: “encontrando a propósito
de um mesmo assunto razões idênticas .a favor
ou contra, é-lhes fácil suspender seu julga-
mento em um sentido ou noutro”2ºº. Conside-
ram que é mais fácil encontrar argumentos
para provar que uma coisa é falsa do que para
provar que é verdadeira; provar o que não é do
que o que é; o que não crêem do que o que
crêem. Suas expressões habituais são: “não
pretendo ter estabelecido que”, “não há mais
razões para que seja assim do que de outro
jeito”, “nao percebo”, “as. aparências são
iguais em um caso como noutro”, “não há
como falar mais a favor do que contra”, “nada
parece verdadeiro que não possa parecer
falso”. Sua palavra sacramental é “sustento”,
isto é, “argumento, mas não vou além e não
Julgo”. Eis seus estribilhos. Disso resulta que,
eludindo decididamente e de maneira absoluta
a obrigação de se pronunciar, adiam o julga-
mento. Só usam a inteligência a fim de desco-
brir pontos suscetíveis de discussão e de deba-
ter, sem jamais optar ou tomar uma decisão.
Imagine-se uma contínua confissão de igno-
rância, um juízo sempre indeciso acerca de
todos os assuntos, e ter-se-á a escola de Pirro.
Se tento descrever como me é possível esse es-
tado de espírito, é porque muitos não o perce-
bem e mesmo os que escrevem a respeito fize-
ram-no com obscuridade, de diversas
maneiras.
Na vida comum procedem os pirrônicos
como todo mundo. Deixam-se levar por seus
instintos, tanto quanto pela tirania das pai-
xões; acomodam-se às leis e aos costumes e se-
209 Cicero.
guem a tradição das artes. “Pois Deus não
quis que penetrássemos o sentido dessas coi-
sas, mas tão-somente que as usâssemos”21º,
São guiados pelo que guia os outros, sem
externar suas preferências nem emitir juízos.
Por isso não me parece muito verossímil o que
contam de Pirro, apresentando-o estúpido e
inerte, a viver uma existência de selvagem
insociável, caminhando sem desviar dos carros
ou dos buracos e recusando-se a atentar para
as leis. Pintá-lo assim é exagerar. Não quis ele
transformar-se em pedra ou tronco; quis ser
um homem vivo para discutir, argumentar,
gozar as comodidades postas à nossa disposi-
ção pela natureza, fazer uso de todas as suas
faculdades físicas e mentais honestamente e na
medida do permitido. Ao que renunciou,
desprezando-o, foi o direito absurdo, imagi-
nário e falso que o homem se arrogou de decre-
tar, ordenar e administrar a verdade. Não há
seita filosófica que não seja forçada a praticar
e seguir infinidade de preceitos que não com-
preende nem aceita, se quer viver no mundo.
Quando por exemplo quer viajar por mar tem
que o fazer sem saber se terá êxito ou não; cal-
cula que o navio é bom, o piloto experimen-
tado, favorável o vento. São probabilidades
apenas a que precisa entregar-se, confiando
nas aparências. Tem um corpo e uma alma,
impelem-no os sentidos, agita-o o espírito.
Ainda que não sinta em si essa competência
especial de julgar e reconheça que não pode
pronunciar-se com segurança, porquanto tudo
pode ser falso embora pareça verdadeiro, não
deixa de conduzir sua vida nas condições mais
cômodas e melhores.
Quantas artes há que assentam em conjetu-
ras mais do que na ciência! Quantas em que a
questão do verdadeiro e do falso importa
pouco e 'nas quais o que parece é a única
regra! O verdadeiro e o falso existem, dizem
os pirrônicos, e temos em nós os meios de o
pesquisar, mas não estamos em condições de
averiguar o valor do que descobrimos. É me-
lhor para nós não nos entregarmos a buscas
vas e atentarmos tão-somente para a ordem
estabelecida neste mundo. Um espírito isento
de preconceitos é uma vantagem preciosa para
a nossa tranquilidade. Quem julga e controla
seus juízos não se submete jamais convicta-
mente.
Como são mais dóceis e obedientes às leis
da religião e às leis políticas os simples de
espirito e sem curiosidade, do que os que
investigam e dogmatizam acerca das coisas
humanas e divinas! Nada do que concerne ao
homem apresenta mais incontestável utilidade
210 Cicero.
ENSAIOS — TI
do que essa simplicidade. Nessa filosofia pirrô-
nica ele aparece nu e vazio, consciente de sua
fraqueza natural e suscetível de receber de
cima, até certo ponto, a força de que carece.
Estranho a todos os conhecimentos humanos,
acha-se tanto mais preparado a se tornar um
domicílio para a ciência divina; faz abstração
de sua própria inteligência a fim de dar maior
espaço à fé; crê e não propõe nenhum dogma
contrário às leis e aos costumes; humilde, obe-
diente, disciplinado, estudioso, inimigo decla-
rado da heresia, está portanto livre dessas vas
opiniões contrárias à religião e introduzidas
pelas seitas dissidentes; é uma página em bran-
co, preparada para receber tudo o que apraz a
Deus nela traçar. Valemos tanto mais quanto
mais nos submetemos e nos encomendamos a
Deus, renunciando a nós mesmos: “Aceita de
bom grado e cotidianamente”, diz o Eclesias-
tes, “as coisas com o aspecto que a teus olhos
oferecem; tudo o mais ultrapassa os limites de
teu conhecimento.” E reza o salmo: “Deus
sabe que os pensamentos dos homens não são
senão vaidade.”
Eis como entre as três seitas gerais da filoso-
fia, duas professam expressamente a dúvida e a
ignorância; quanto à terceira, a dos dogmáti-
cos, é fácil verificar que, em sua maioria, seus
adeptos optaram pela certeza por presunção.
Pensaram menos em estabelecer princípios
indiscutíveis do que em mostrar a que ponto
chegaram na investigação da verdade: “os sá-
bios a imaginam mais do que a conhecem”.
A fim de iniciar Sócrates no que sabe dos
deuses,
propõe-lhe conversar de homem para homem,
bastando assim que seus argumentos consti-
tuam probabilidades, pois os exatos não estão
ao seu alcance nem tampouco nas mãos de ne-
nhum mortal. O que imitou um filósofo da
mesma escola: “Explicar-me-ei como puder;
não tomem minhas palavras como oráculos,
como se saíssem da boca de Apolo. Frágil
mortal, não viso senão ao provável”21". Alhu-
res, esse mesmo filósofo traduz o próprio texto
de Platão: “Se discorrendo sobre a natureza
dos deuses e a origem do mundo, eu me expli-
co imperfeitamente, não se espantem; lem-
brem-se de que eu que lhes falo e vocês que me
escutam somos homens e nada mais podemos
exigir senão probabilidades.” Quanto a Aristó-
teles, apresenta-nos em geral um punhado de
opiniões que compara com as suas, a fim de
nos mostrar quanto estas ultrapassam as
outras, aproximando-se mais da verossimi-
lhança. Mas não é sobre o testemunho e a
autoridade de outrem que a verdade se afirma.
211 Cicero.
do mundo e dos homens, Timeu,
239
E quanto a Epicuro, é de se observar que em
seus “escritos evita religiosamente qualquer
citação. :
Aristóteles é o príncipe dos dogmáticos e no
entanto por ele ficamos cientes de que muito
saber nos leva a duvidar mais ainda. Não raro
vemo-lo envolver-se, voluntariamente, em uma
obscuridade espessa e inextricável, a ponto de
não podermos discernir sua opinião. Trata-se
na realidade de um pirrônico dissimulado.
Ouça-se a palavra de Cicero, expondo a idéia
essencial dessa escola e a fazendo sua: “os que
querem saber o que pensamos de cada coisa
são por demais curiosos. . . Esse princípio, em
filosofia, de tudo discutir sem nada afirmar,
estabelecido por Sócrates, aceito por Arcesi-
lau, adotado por Carnéades, floresceu até os
nossos dias. .. Somos da escola que diz que o
falso por toda parte se mistura ao verdadeiro e
a isto se assemelha tanto, que é impossível
distingui-lo de um modo preciso”.
Por que, não somente Aristóteles, mas tam-
bém a maioria dos filósofos requintaram em
apresentar todas as questões obscuramente,
senão para ressaltar a que ponto são ociosas e
distrair a nossa curiosidade, dando-nos como
pitéu ossos vazios e sem carne para roer? Cli-
tômaco afirma nunca ter conseguido saber
qual a opinião de Camnéades pelos seus escri-
tos. É também por esse motivo que Epicuro
evitou a clareza nos seus e que os de Heráclito
lhe granjearam o apelido de “Tenebroso”. A
obscuridade é moeda que usam os sábios,
como os prestidigitadores que ocultam com
destrezas e peloticas a inanidade de sua arte,
pois com isso o público se acomoda de bom
grado: “é pela obscuridade de sua linguagem
que Heráclito conquistou a veneração dos
ignorantes. Os tolos, com efeito, só estimam e
admiram o que se lhes apresenta em termos
enigmáticos”?"2, Cícero censura a alguns de
seus amigos consagrarem à astronomia, ao
direito, à dialética e à geometria mais tempo
do que merecem tais ciências, o que os desvia
dos deveres da vida a um tempo mais provei-
tosos e sutis. Os filósofos cirenaicos despre-
zam também a física e a dialética. Zenão, no
início de seus escritos sobre a “República”
declara inúteis todos os ramos da educação
liberal. Crisipo diz, do que Platão e Aristóteles
escreveram sobre a lógica, que o fizeram ape-
nas como exercício e passatempo e não acre-
dita que se tenham aplicado a falar seriamente
de um assunto tão vazio. Plutarco observa a
mesma coisa a respeito da metafísica. Epicuro
acrescenta a retórica, a gramática, a poesia, as
matemáticas e as outras ciências em geral,
212 TLucrécio.
240 | MONTAIGNE
excetuada a física. Sócrates igualmente as des-
prezava todas, afora as que tratam dos costu-
“mes e da conduta na vida. O que quer que lhe
perguntassem, achava sempre meio de orientar
o interlocutor para a vida presente e passada,
que ele examinava e julgava, considerando
qualquer outro ensinamento subordinado a
este, e acessório: “gosto pouco das letras que
nunca tornaram virtuoso quem as pratica”21º.
Em sua maioria as ciências foram desde-
nhadas por esses grandes pensadores, os quais,
contudo, não julgaram fora de propósito nelas
exercitar o espírito, embora não pensassem em
tirar delas algum proveito sério.
Alguns vêem em Platão um dogmático, ou-
tros acham-no cético. Há quem o classifique
de certa maneira em certos casos, e de outra
em outros. O personagem principal de seus
diálogos, Sócrates, suscita sempre várias ques-
tões, provoca o debate mas nunca lhe põe fim
e nem conclui. Sua ciência, pelo que ele pró-
prio confessa, consiste unicamente em apresen-
tar objeções. Homero, seu precursor, foi o
ponto de partida de todas as seitas filosóficas
sem distinção, mostrando assim quão pouco
lhe importava a maneira de ver de cada um.
Dizem que Platão deu origem a dez escolas
diferentes; a meu ver, ao lado da sua, não há
doutrinas mais indecisas e menos categóricas.
Sócrates observava que as parteiras, adotando
o ofício de ajudar a procriar, renunciavam elas
próprias a engendrar; e o mesmo lhe ocorria.
Tendo os deuses feito dele um homem
sábio?! *, por amor à humanidade e ao pensa-
mento, desfizera-se da faculdade de engendrar,
contentando-se com assistir os que obedecem a
essa lei da natureza e com ajudá-los no parto,
auxiliando-os a tirar a criança, examinando-a,
batizando-a, criando-a, fortalecendo-a, cir-
cuncidando-a, pondo seus próprios meios à
disposição de outrem.
Em sua maioria, os filósofos desta terceira
categoria — e os antigos já o haviam realçado
quanto aos escritos de Anaxágoras, Demó-
crito, Parmênides, Xenófanes e outros —
investigam mais do que julgam, emprestam
voluntariamente a seu estilo a forma dubita-
tiva, mesmo quando o entremeiam de afirma-
ções. O mesmo se verifica em Sêneca e Plutar-
co, que falam -de uma só coisa, ora em um
sentido, ora em outro. Os que procuram conci-
213 Salústio.
214 Há aqui um trocadilho intraduzível:
“sage-femme” e “sage-homme”. “Sage-femme” é
parteira mas “sage-homme” não é parteiro e sim,
apenas, homem sábio, avisado, prudente. (N. do T.)
O trocadilho é inspirado no método socrático —
maiéutica — concebido à maneira de parto mental.
(N. do E.)
liar os jurisconsultos precisam, antes de.tudo,
pôr cada um de acordo consigo mesmo. À
preferência que dá Platão, de caso pensado, ao
diálogo, parece-me provir do fato de que, pelo
diálogo, pondo suas idéias na boca de várias
pessoas, pode mais comodamente expô-las em
toda a sua diversidade, com todas as sutilezas
que comportam.
Tomemos a nós mesmos como exemplo. As
decisões da justiça exprimem-se em uma lin-
guagem afirmativa e decisiva ao mais alto
grau. Em particular as que nossos tribunais
tornam públicas, são eminentemente de natu-
reza a alimentar no povo o respeito que deve a
essa magistratura em razão da capacidade dos
que a constituem. Ora, a beleza desses atos
não resulta tanto da decisão que contêm
(decisões, toma-as diariamente qualquer juiz)
quanto dos debates e da apreciação dos argu-
mentos contraditórios que a ciência do direito
permite se apresentem. Assim ocorre também
com as mais acaloradas críticas dos filósofos
às suas opiniões recíprocas, as mais diversas e
contraditórias, nas quais cada qual mais se
enreda, seja propositadamente a fim de de-
monstrar a que ponto o espírito humano vaci-
la, seja por ignorância quando pela sua suti-
leza a questão foge a seu entendimento. É o
que exprime esta frase encontradiça em seus
discursos: “em assunto tão escorregadio evite-
mos julgar”. Eurípides diz, por sua vez: “a
compreensão das obras de Deus, em seus
diversos aspectos, é causa de muitos transtor-
nos”. E é a mesma idéia que Empédocles,
como que tomado de um furor inspirado pelos
deuses e forçado a aceitar a verdade, reproduz .
amiúde em suas obras: “Não, não sentimos
nada, não vemos nada; tudo se nos esconde;
não há nada cuja existência possamos afir-
mar.” E eis o que se escreve no Livro da Sabe-
doria: “os pensamentos dos mortais são timi-
dos, sua previdência e sua imaginação
incertas”.
Não há como achar estranho que essa gente,
embora desesperando de atingir o objetivo,
não tenha renunciado ao prazer de visá-lo. O
estudo é em si coisa agradável. Tão agradável
que, entre os prazeres proibidos pelos estóicos,
figura o que provém dos exercícios do espírito.
Querem-no moderado, e saber demasiado é
para eles intemperança.
Demócrito, tendo comido figos que sabiam
a mel, pôs-se imediatamente a procurar, na
memória, de que provinha tão inesperada
doçura. A fim de verificá-lo, já se levantava
para ir examinar o lugar onde os frutos haviam
sido colhidos, quando sua criada, que perce-
bera o motivo da inquietação, lhe disse rindo
ENSAIOS — II
que não se preocupasse mais, pois fora ela que
os colocara em um recipiente em que havia
mel. Ele se irritou por lhe sonegarem a oportu-
nidade de pesquisar e de exercitar sua curiosi-
dade: “não é um prazer que me dás”, obser-
vou, “mas nem por isso deixarei de verificar
como isso ocorreu, tal qual tivesse resultado de
um efeito da natureza”. E naturalmente houve-
ra encontrado uma razão com aparência de
verdadeira, a fim de explicar algo que só exis-
tia em seu espírito.
Essa anedota acerca de um grande filósofo,
exemplifica bem a paixão pelo estudo, capaz
de nos induzir ao desespero por termos alcan-'
çado o conhecimento das coisas que procurá-
vamos conhecer. Plutarco cita também o
exemplo de alguém que se recusava a ser escla-
recido acerca de suas dúvidas, para não se pri-
var do prazer de procurar por si próprio.
Como aquele que não desejava curar-se da
febre, e da sede que ela lhe dava, a fim de não
perder o prazer de beber para estancá-la:
“mais vale aprender coisas inúteis do que nada
aprender”2' 8. Alguns alimentos não passam
de prazer, não são nutritivos nem saudáveis;
assim também o que nosso espírito obtém da
ciência, embora sempre agradável, nem sempre
é nutritivo e saudável.
Eis como a tal respeito se expressam esses
filósofos: “a contemplação da natureza ali
menta o nosso espírito; ela nos eleva e engran-
dece; faz que diante das coisas de ordem supe-
rior e celeste nos desprendamos do que é
terrestre e vil. A própria investigação da gran-
deza que ignoramos é agradável, mesmo se
não logramos senão maior respeito por ela e
temor 'em a julgar”.
A vã imagem dessa curiosidade doentia
evidencia-se ainda melhor neste exemplo muito
citado. Eudóxio aspirava a que, pelo menos
uma vez, lhe fosse dado ver o sol de perto, a
fim de se inteirar de sua estrutura, de sua gran-
deza e de sua beleza; pedia aos deuses que lhe
concedessem esse privilégio, ainda que devesse
morrer queimado. Oferecia a vida para adqui-
rir essa ciência de que seria privado no
momento mesmo em que a alcançasse; e por
esse saber efêmero renunciava a tudo o que já
sabia e podia ainda vir a saber.
Duvido que Epicuro, Platão e Pitágoras te-
nham acreditado seriamente em suas teorias
dos átomos, das idéias e dos números; eram
demasiado sábios e prudentes para crerem em
coisas tão pouco assentadas e tão discutíveis.
O que na realidade pode assegurar-se é que,
dada a obscuridade das coisas do mundo, cada
um desses grandes homens procurou encontrar
215 Sêneca.
241
uma imagem luminosa delas. Seus espíritos
acharam explicações que tinham pelo menos
uma certa verossimilhança e que, embora não
averiguadamente verdadeiras, podiam ser sus-
tentadas contra as idéias contrárias: “esses sis-
temas são ficções do gênio de cada filósofo e
não o resultado de suas descobertas”?! 8. Um
antigo, a quem censuravam que se jactasse de
ser filósofo quando não levava em conta a filo-
sofia em seus juízos, respondeu “que, nisso
precisamente, ela consistia”.
Quiseram os filósofos tudo examinar, tudo
comparar, € assim encontraram uma ocupação
suscetível de alimentar a curiosidade natural
que há em nós. Alguns princípios se estabele-
ceram como evidentes, em benefício e proveito
do sossego coletivo, como os das religiões; por
isso não aprofundaram demasiado as doutri-
nas geralmente aceitas, a fim de não engendrar
a rebeldia contra as leis e o acatamento dos
costumes. Platão em particular mostra-se
muito franco. Quando exprime suas idéias pró-
prias nada afirma. Quando escreve na quali-
dade de legislador, o seu estilo torna-se preciso
e autoritário, propugnando ousadamente as
idéias mais extraordinárias que considera útil
inculcar no povo e nas quais seria ridículo que
acreditasse, sabendo muito bem a que ponto
somos inclinados a aceitar as coisas mais
absurdas e inadmissíveis. Eis por que em suas
leis preocupa-se em recomendar que se recitem
em .público poesias cujos argumentos sejam
úteis, pois sendo fácil despertar no espírito hu-
mano fantasmas e fantasias, mais vale se lhes
ofereçam mentiras proveitosas do que inúteis e
“perniciosas. Assim se exprime abertamente em
sua “República”: “para ser útil aos homens é
necessário às vezes enganá-los”. Certas seitas,
como se pode verificar, apegaram-se sobretudo
à verdade; outras, à utilidade. Estas tiveram
mais êxito. A miséria de nossa condição faz
que aquilo que se nos apresenta como mais
verdadeiro nem sempre é o que nos fora mais
útil. Assim se observa com as seitas mais ousa-
das, as de Epicuro, Pirro, e da Academia após
as últimas modificações por que passou, as
quais se viram forçadas a dobrar-se ante as leis
civis.
Os filósofos também se ocuparam de outras
questões, que ventilaram em todos os sentidos,
cada qual a seu modo, bem ou mal. Como
empreenderam falar até das coisas mais recôn-
ditas, acharam-se amiúde impelidos a conjetu-
ras sem consistência, não raro extravagantes,
que eles próprios não consideravam de valor
ou tão-somente úteis ao exercício do estudo:
“dir-se-ia que escreveram menos por convic-
216 Sêneca.
242
ção do que para exercitar o espírito com a difi-
culdade do assunto”?! 7. Se não admitirmos
que assim tenha sido, como explicar então essa
tão grande variedade de opiniões, por vezes fri-
volas, constantemente modificadas, que emiti-
riam espíritos tão eminentes e admiráveis?
Haverá coisa mais vã do que tentar adivi-
nhar Deus por meio de analogias com o nosso
próprio ser? Do que O julgar, e ao mundo,
pelas nossas capacidades e as nossas leis? Do
que usar a expensas dEle a escassa inteli-
gência que Se dignou conceder-nos? E em não
podendo a nossa vista atingi-Lo na plenitude
de Sua glória, forçamo-Lo a descer e O asso-
ciamos à nossa corrupção e às nossas misé-
rias!
De todas as opiniões humanas formuladas
pelos antigos acerca da religião, parece-me
mais verossímil e judiciosa a que faz de Deus
uma força que não podemos compreender,
dando origem a todas as coisas e as conser-
vando, essencialmente boa, absolutamente per-
feita, recebendo e aceitando graciosamente as
homenagens que lhe prestam os homens, sob
qualquer forma, nome ou maneira: Todo-Po-
deroso Júpiter, pai e mãe do mundo dos
deuses e dos reis”218. Essas homenagens são
sempre bem vistas no céu. Todos os povos se.
beneficiaram com a prática religiosa, e os ho-
mens perversos e as ações ímpias receberam
sempre o castigo que mereceram. Os historia-
dores pagãos reconhecem dignidade, ordem,
Justiça (com que se beneficiaram e instruíram
os povos) nos milagres e oráculos de suas
divindades fabulosas. O Criador, em sua infi-
nita misericórdia, dignou-se por vezes fomen-
tar, mediante benefícios temporais, as boas
disposições que, com a ajuda da razão, Lhe
demonstravam através de falsos ídolos sob os
quais O representavam; e não somente falsos
mas também injuriosos. De todos os cultos que
São Paulo viu em.Atenas, o que se lhe afigurou
mais desculpável foi o que dedicavam a uma
“divindade escondida e desconhecida”.
De todos os filósofos, Pitágoras foi o que
teve mais vivo o sentimento da verdade, ao
considerar que essa causa primeira, esse ser-
princípio-de-tudo-o-que-ê, não se pode expri-
mir e submeter-se a qualquer regra ou defini-
ção; que é talvez o que a nossa imaginação, em
seu mais extremado esforço, concebe como
perfeição, cada qual ampliando a idéia segun-
do sua capacidade.
Numa quis orientar nesse mesmo sentido a
religião de seu povo, torná-lo devoto de uma
crença puramente espiritual, sem objetivo
217 Não se encontrou o autor da citação.
218 Valério Sorano.
MONTAIGNE
determinado, estranha a tudo o que é material.
Mas o projeto era impraticável, o espírito hu-
mano não podendo satisfazer-se com a vague-
za desse infinito abstrato. Ele precisa adaptá-
lo a algo preciso, a seu alcance. A majestade
divina consentiu em se deixar circunscrever de
certo modo dentro de limites naturais: seus
sacramentos sobrenaturais e celestiais mani-
festam-se em condições acessíveis a nós; nossa -
adoração exprime-se por meio de cerimônias €
palavras compreensíveis ao homem, porque é
o homem quem crê e reza. Deixo de lado todos
os demais argumentos a favor desta tese: a
simples vista do nosso crucifixo, a reprodução
desse suplício que desperta a piedade, os orna-
tos e a pompa do culto em nossas igrejas, as
vozes que tão exatamente traduzem nossa
devoção, a emoção de nossos sentidos, incu-
tem na alma das multidões uma paixão reli-
giosa real.
Se tivesse tido que escolher entre as divinda-
des que naqueles tempos de cegueira universal
a necessidade criou, parece-me que houvera
seguido os que adoravam o sol.
Luz de todos,
olho do mundo. Se Deus tem olhos,
os raios do sol são esses olhos radiosos
que a todos dão vida, crescimento e
proteção,
e contemplam no mundo os feitos dos
homens.
Esse belo e grande sol que faz as
estações
segundo entra ou sai de suas doze
casas;
que enche o universo com suas virtudes;
um só de seus olhares dissipa as nuvens.
Espírito, alma do mundo ardente e
flamejante,
percorrendo o inteiro céu em um só dia,
enorme e redondo, vagabundo e reto,
mantendo em sua dependência o mundo
todo,
sempre em repouso e sempre em ação.
Filho mais velho da natureza, e pai do
dia? 1º,
Além de sua grandeza e beleza é, dentre as
peças que entram na estrutura do mundo, a
que se encontra mais longe de nós e portanto a
que menos conhecemos. Por isso eram descul-
páveis os que admiravam e veneravam o sol.
Tales, o primeiro a estudar o assunto, acha-
va que Deus é um espírito que tirou da água
todas as coisas. Para Anaximandro os deuses
nascem e morrem em certas épocas e consti-
21º Ronsard.
ENSAIOS — II
tuem mundos cujo número é infinito. Anaxi-
menes pensa que Deus é ar, existe em quanti-
dade incomensurável e está sempre em
movimento. Anaxágoras foi o primeiro a afir-
mar que a maneira pela qual alguma coisa
existe e se conduz decorre. da força e da razão
de um espirito que não podemos conceber.
Alcméon classifica entre as divindades o sol, a
lua, os astros, e a alma. Pitágoras atribui a
qualidade divina a um espírito que existe natu-
ralmente em todas as coisas e do qual nascem
nossas almas. Parmênides vê Deus em um cir-
culo que envolve o céu e sustenta o mundo
pela intensidade de sua luz. Empédocles colo-
ca ao nível dos deuses os quatro elementos: o
ar, a água, O fogo e a terra de que são feitas
todas as coisas. Protágoras declara não poder
dizer se existem ou não, nem o que são. Demó-
crito define como deuses ora as próprias ima-
gens que os representam, ora os dons da natu-
reza que elas simbolizam, bem como nosso
saber e nossa inteligência. Platão tem a res-
peito diversas maneiras de ver. No “Timeu”, é
de opinião que não se pode dizer quem criou o
mundo. Nas “Leis”, que não adianta indagar o
que seja Deus. Em outros trechos de suas
obras diviniza o mundo, o céu, os astros, a
terra, as almas; reconhece ademais, como deu-
ses, tudo o que as antigas instituições admiti-
ram como divindades. Por intermédio de
Xenofonte, deparamos com semelhante hesita-
ção na doutrina de Sócrates: ora acha que não
se deve investigar a essência de Deus, ou diz
que o sol é Deus, ou que o é a alma; ora é
único, ora há mais de um. Segundo Espeusipo,
sobrinho de Platão, Deus é uma força animada
que governa todas as coisas. Aristóteles, em
dado momento, diviniza o espírito; em outro, o
“mundo; alhures, a esse mundo dá um senhor,
ou diviniza o calor do céu. Xenócrates enume-
ra oito deuses: os cinco planetas conhecidos
em seu tempo, um sexto constituído pelo con-
junto das estrelas fixas, sendo cada uma delas
fração da divindade; e mais o sole a lua. Hera-
clides Pôntico, hesitando entre várias opiniões,
chega a considerar Deus um ser desprovido de
sentimentos e passando de uma forma a outra.
Afinal faz deuses a terra e o céu. As idéias de
Teofrastes refletem idêntica indecisão: ora, a
seu ver, é o bom senso que dirige o mundo; ora
é o céu; ora são as estrelas. Estráton pensa que
a natureza tem o poder de engendrar, fazer
crescer, aniquilar, sem ter ela própria uma
forma definida nem a faculdade de sentir.
Zenão acha que o mundo resulta de uma lei
natural que ordena o bem, proíbe o mal e tem
poder de produzir movimento e vida; e com
isso derruba de seus pedestais os deuses que
estã habituado a ver: Júpiter, Juno, Vesta.
243
Para Diógenes, de Apolônia, é o ar o criador
de todas as coisas. Xenófanes representa Deus
sob a forma de uma bola vidente e inteligível,
mas não respirando e nada tendo em comum
com a natureza humana. Ariston é de parecer
que Deus escapa à nossa inteligência; ele O
representa desprovido de sentidos, não sabe se
tem poder criador e ignora tudo d'Ele. Clean-
tes vê n'Ele a razão, ou o próprio mundo, ou a
alma da natureza, ou, ainda, o calor suprema-
mente vivificante que tudo envolve. Perseu,
que aprendeu as lições de Zenão, diz que cha-
maram deuses aos homens que foram parti-
cularmente úteis à humanidade e através deles
às coisas inventadas ou descobertas. Crisipo
faz um amálgama confuso das opiniões prece-
dentes, e obtém assim um milhar de deuses de
todos os tipos, entre os quais os homens que se
imortalizaram. Diágoras e Teodoro os repre-
sentam resplendentes, translúcidos, permeáveis
ao ar, habitando entre os dois mundos do céu e
da terra, onde, inacessíveis, estão ao abrigo de
tudo. Teriam rostos como os nossos e também
membros de que, no entanto, não se serviriam:
“Quanto a mim, sempre pensei que existisse
uma raça de deuses. explico-me: uma raça
celeste, indiferente aos atos dos homens” 22º.
Depois disso, ide. confiar na filosofia!
Vangloriai-vos de terdes encontrado a fava no
bolo, descoberto a verdade nessa barafunda de
concepções contraditórias! A confusão das
idéias humanas fez que os múltiplos costumes
e crenças opostos aos meus, mais me ins-
truissem do que me contrariassem. Não me
envaidecem tanto quanto me humilham e hão
sido causa, ademais, de que tudo aquilo que
não vem expressamente de Deus, eu o consi-
dere como sem fundamento. As instituições
deste mundo tanto quanto as escolas estão em
. contradição entre si, daí podermos deduzir que
o acaso não é mais diverso e variável do que a
razão, nem mais cego e imponderável. As coi-
sas que mais ignoramos são as mais adequa-
das à divinização; por isso fazer de nós mes-
mos deuses, ultrapassa a fragilidade, por
grande que seja, de nossa inteligência. Neste
ponto, teria seguido de preferência os que ado-
ravam a serpente, o cão, o boi, pois a natureza
desses animais nos é menos conhecida do que
a nossa e por conseguinte é mais lógico que
pensemos o que quisermos dos animais e lhes
outorguemos faculdades extraordinárias.
Porém ter feito deuses de seres como nós, com
as imperfeições que conhecemos; ter-lhes atri-.
buído nossos desejos, cóleras e vinganças; tê-
los feito casar, procriar e constituir família;
amar, ter ciúmes, came e ossos, e idêntica
220 Enio.
244
organização física; sujeitá-los às febres, ao
prazer, à morte; dar-lhes sepultura como a nós
mesmos, “coisas indignas dos deuses e que
nada têm em comum com sua natureza”22?,
“dar as características desses deuses, sua
idade, os ornatos de suas vestes, sua genealo-
gia, enumerar seus casamentos, suas alianças;
ombreá-los com a tolice humana; torná-los
acessíveis às mesmas paixões, tristezas e cóle-
ras”222. é prova de incrível imaginação, da
mesma forma que haver divinizado, não
somente a fé, a virtude, a honra, a concórdia, a
liberdade, a vitória, a piedade, mas também a
volúpia, a fraude, a morte, a inveja, a velhice, a
miséria, o medo, as febres, o azar e outras
enfermidades de nossa existência frágil e
decrépita. “Para que introduzir em nossos tem-
plos a corrupção dos costumes, ó almas presas
à terra e vazias de pensamentos celestiais!”223
Os egípcios, com uma prudência cínica,
proibiam, sob pena de enforcamento, que
alguém dissesse que Serápis e Ísis tivessem
sido homens outrora, o que ninguém ignorava.
As imagens desses deuses representavam-nos
com um dedo nos lábios, o que, segundo
Varro, lembrava a seus sacerdotes essa miste-
riosa determinação que lhes prescrevia se
calassem acerca dessa origem mortal, como
medida necessária à veneração de que deviam
ser objeto. Se era tão vivo nos homens o desejo
de se igualarem a Deus, diz Cícero, melhor
houveram feito apropriando-se das qualidades
divinas e forçando-as a descer à terra do que
enviando aos céus sua corrupção e sua misé-
ria. Na realidade, impelidos sempre pela vaida-
de, fizeram ambas as coisas.
Não posso acreditar que os filósofos falem
seriamente, quando discutem a preeminência
dos deuses entre si, e se esforçam por realçar
suas alianças, suas funções, seu poder. Quando
Platão nos descreve pormenorizadamente o
vergel de Plutão, as vantagens e castigos cor-
pcrais que nos aguardam ainda após a ruína e
aniquilamento do corpo, bem como a relação
que existe entre o que nos reserva o outro
mundo e a nossa vida neste; “Lá no fundo de
um bosque de mirtos a que conduzem atalhos
perdidos, escondem-se as vítimas do amor; a
própria morte não os libertou de suas preocu-
pações”?2*:; quando Maomé promete aos seus
um paraíso coberto de tapetes, bordado de
ouro e pedras preciosas, povoado por cortesãs
da mais requintada beleza, com vinhos e acepi-
pes deliciosos, vejo logo que se divertem
ambos. Colocam-se ao. nível de nossa estupi-
221 Lucrécio.
222 Cicero.
223 Id.
224 Virpílio.
MONTAIGNE
dez para nos engabelar e nos seduzir com
idéias e esperanças adequadas a nossos apeti-
tes de pobres mortais que somos! Alguns,
entre nós cristãos, laboraram em erro 'seme-
lhante, prometendo, após a ressurreição, uma
nova vida terrestre e física, acompanhada de
todos os prazeres e comodidades deste mundo.
Podemos nós acreditar que Platão, cujas
concepções foram tão elevadas, que se aproxi-
mou da divindade a ponto de ser tachado de
divino, haja pensado que o homem, essa misér-
rima criatura, tivesse em si algo desse poder
que não compreendemos? E tenha imaginado,
-dado o pouco de que somos capazes e dada a
nossa fraqueza, que pudéssemos participar da
beatitude eterna ou ser punidos com castigos
infindáveis?
Cumpre responder-lhe com a razão huma-
na: se OS prazeres que nos prometes na outra
vida são os que gozamos nesta, nada têm eles
em comum com o infinito. Ainda que nossos
cinco sentidos recebessem plena satisfação,
que nossa alma experimentasse todo o conten-
tamento que pode desejar e esperar — e bem
sabemos o de que é capaz — tudo isso não
seria nada. Se alguma coisa sobrar de nós,
nada terá de divino. Se não passar do que
temos nas condições presentes, não valerá a
pena. Tudo o que nos é motivo de satisfação
antes da morte, é mortal como nós. Sé no
outro mundo, encontrando parentes, filhos,
amigos, isso nos puder comover e ser agradá-
vel, não teremos deixado de ser sensíveis às
satisfações terrestres de duração limitada. Não
podemos conceber dignamente a grandeza das
atas e divinas promessas que nos foram feitas,
a nós cristãos, se delas temos uma concepção
qualquer. Para as imaginarmos como são,
é-nos imprescindível imaginá-las inimaginá-
veis, inexperimentais, incompreensíveis e es-
sencialmente diferentes daquelas de que tive-
mos uma miserável experiência. O olho não
pode conceber a felicidade que Deus destina a
seus eleitos. Se, para nos tornarmos dignqs
dela corrigimos e transformamos nosso ser,
como supõe Platão, por meio de purificações
que imagina, a mudança operada deve ser tão
radical e total que, do ponto de vista físico,
cessaremos de ser nós mesmos: “Heitor era
bem Heitor, enquanto vivia e lutava; mas seu
cadáver arrastado pelos cavalos de Aquiles
não era mais Heitor”22 5, e será outra coisa,
que não nós, que receberá tais recompensas:
“o que muda, dissolve-se e portanto perece; na
realidade, desintegradas as partes, não há mais
corpo”22 8
Acreditamos, por exemplo, que, segundo a
225 Ovídio.
226 Tucrécio.
ENSAIOS — II
metempsicose de Pitágoras, o leão para o qual
passou a alma de César tenha as suas paixões
e seja ele próprio? Se isso ocorresse, teriam
razão os que, sustentando essa idéia contra as
doutrinas de Platão, a respeito, objetam que
poderia então ocorrer um filho cavalgar sua
mae transformada em égua — e outros absur-
dos semelhantes. Poderíamos admitir que, em-
bora a passagem se efetuasse de certos animais
a outros da mesma espécie, não fossem estes
diferentes daqueles? Das cinzas de uma fênix
nasce, dizem, um verme, o qual se transforma
em outra fênix. Quem dirá que esta não é dife-
rente da outra? Os bichos que fabricam a seda,
vemo-los morrerem e secarem e de seus corpos
nascer uma borboleta, a qual dá nascimento a
um verme que fora ridículo julgar ser o mesmo
que deu origem à borboleta. O que deixou de
ser uma vez, não é mais. “Ainda que o tempo
juntasse a matéria de nosso corpo depois de
desfeito e o reconstituísse tal qual é, e lhe
devolvesse a vida, já não seríamos nós, por
isso que houve interrupção no curso da
existência”22?. E quando, alhures, diz Platão
que a parte espiritual do homem é que deverá
gozar as recompensas da outra vida, a asser-
ção parece igualmente pouco plausível: “o
olho arrancado de sua órbita e separado do
corpo não pode mais ver um objeto”228. Com
efeito, não será mais então o homem, não sere-
mos mais nós, porquanto somos constituídos
de duas peças principais e essenciais cuja sepa-
ração determina a morte e a ruína de nosso
ser: “Desde que se interrompe a vida, nossos
sentidos perdem sua possibilidade de
ação”22º, Dizemos que o homem sofre quan-
do os vermes lhe roem os membros que pro-
viam à sua existência? “Isso não nos perturba .
porque somos um todo formado pela união da
alma e-do corpo”23º,
Mais ainda: em que hão de basear-se os deu-
ses para, com justiça, reconhecer e recom-
pensar no homem, depois da morte, os atos
bons e virtuosos, se eles próprios os prepara-
ram e os provocaram nele? E por que se ofen-
deriam com os atos viciosos e os puniriam se
eles próprios assim criaram esse homem quan-
do, em o querendo, poderiam impedi-lo de
pecar? Estas objeções, Epicuro não as oporia a
Platão, com aparência de razão humana, se já
não se tivesse posto a coberto declarando que:
é impossível dizer algo certo acerca da natu-
reza imortal, tomando como ponto de partida
a natureza mortal.
Em tudo a nossa razão se confunde, e mais
227 Lucrécio
228 Td.
229 Td.
230 Td.
245
ainda quando se mete a divisar as coisas divi-
nas. Quem mais do que nós, cristãos, pode me-
lhor convencer-se disso, embora lhe tenhamos
dado, para se conduzir, princípios certos e
infalíveis? Apesar de lhe iluminar os passos
com a tocha sagrada da verdade que prouve a
Deus comunicar-nos, não a vemos diaria-
mente, por pouco que se desvie da senda habi- .
tual, atastar-se do que determina a Igreja, sem
a qual ela perde a direção, e se entrava, giran-
do e flutuando ao léu nesse vasto mar pertur-
bado e instável das opiniões humanas? Desde
que abandone o caminho por todos seguidos,
vai-se dividindo e dissolvendo por mil atalhos
diversos.
O homem não pode ser senão o que é, e sua
imaginação só pode exercitar-se dentro dos
limites a seu alcance. E diz Plutarco: tem
maior presunção quem, não sendo senão
homem, fala e devaneia acerca de deuses e
semideuses do que quem, ignorando música,
Julga os que cantam; ou, ainda, quem nunca
tendo estado em campos de batalha, discute
armas e guerra, imaginando, porque possui
algumas noções do assunto, estar apto para
compreender os resultados de uma arte que
desconhece.
A meu ver a antiguidade pensou glorificar a
divindade, colocando-a ao nível do homem,
revestindo-a de faculdades humanas, atribuin-
do-lhe os nossos caprichos e provendo-a das
necessidades que comprovam nossa fraqueza.
Assim, ofereceram aos deuses manjares para
que comessem, bailados e farsas para que se
divertissem, vestimentas para que se cobris-
sem; casas para que morassem, e incenso e
música, e guirlandas, e, a fim de melhor
acomodá-los às nossas viciosas paixões, invo-
caram-lhes a justiça imolando vítimas huma-
nas, procurando fazer que se regozijassem com
a ruína e a dissipação das coisas que eles cria-
ram e lhes devem a existência. Assim, Tibério
Semprônio mandou queimar em homenagem a
Vulcano os ricos despojos de armas que toma-
ra ao inimigo; Paulo Emílio sacrificou as da
Macedônia a Marte e a Minerva; Alexandre, o
Grande, alcançando o mar Negro, jogou nas
aguas inúmeros vasos de ouro de grandes
dimensões como homenagem a Tétis, imo-
lando também em seus altares não somente
quantidade de animais mas também de ho-
mens, numa verdadeira carnificina, como é dos
costumes de muitos povos, inclusive do nosso.
Talvez não haja mesmo nenhum que tenha
ignorado nossa prática: “arrebata quatro jo-
vens guerreiros, filhos de Sulmone, e quatro
outros crescidos à margem do Ufens para os
imolar aos manes de Pales” 231.
231 Virgílio.
246
Os getas consideravam-se imortais e morrer
era, para eles, ir ao encontro de seu deus Zál-
moxis. De cinco em cinco anos despachavam-
lhe um dos seus, a fim de que se certificasse
das coisas necessárias à vida. Esse deputado
era sorteado e sua partida assim se efetuava:
depois de aqueles a quem cabia proceder à
cerimônia lhe comunicarem verbalmente a
resolução, três dentre eles mantinham as lan-
ças voltadas para o sorteado, enquanto os ou-
tros o jogavam de encontro a elas com violên-
cia. Se morresse imediatamente, era sinal de
que o deus estava favoravelmente disposto; se
escapasse, o mensageiro não servia. Despa-
chavam então outro, procedendo-se de igual
modo. Améstris, mãe?º? de Xerxes, já em
idade avançada, mandou enterrar vivos cator-
ze jovens das principais famílias persas a fim
de render graças a algum deus subterrâneo,
segundo os costumes do país. Hoje ainda, os
ídolos de Tenochtitlán constroem-se cimen-
tando com sangue de crianças os materiais que
entram em sua composição, e tais deuses não
aceitam sacrifícios que não seiam dessas cria-
turas sem mancha. Justiça sedenta de sangue
inocente! “Quantos crimes cometeu a supersti-
ção” 233. Os cartagineses imolavam seus pró-
prios filhos a Saturno. Os que não tinham
filhos, compravam-nos. E os pais eram obriga-
dos a assistir alegremente ao holocausto.
Estranha idéia a de querer obter as graças
dos deuses por meio do sofrimento, como os
lacedemônios que, para serem agradáveis a
Diana, martirizavam os jovens, açoitando-os
em honra da deusa, por vezes até a morte. Era
um sentimento bárbaro esse de querer agradar
ao arquiteto em lhe destruindo a obra, bem
como esse de, para poupar aos culpados o
merecido castigo, atingir os inocentes, como se
verificou no porto de Aulide com essa infeliz
Ifigênia, imolada a fim de resgatar com a
* morte as ofensas feitas aos deuses pelos exérci-
tos gregos: “casta e infortunada vitima que no
próprio momento de seu himeneu foi imolada
pela mão criminosa de seu pai”2º*. E os dois
Décios, pai e filho, de tão belas e generosas
almas, precipitaram-se no seio do inimigo para
conquistar os favores dos deuses em benefício
de Roma: “Que injustiça a dos deuses, em só
consentirem em ser favoráveis aos romanos à
custa do sangue de homens de tal têmpe-
ra!?23 8 Acrescentemos que não cabe ao crimi-
noso fazer-se açoitar, quanto e como lhe con-
venha; cumpre ao juiz ordená-lo, levando em
232 Fra mulher, e não mãe.
233 Lucrécio.
234 Td.
235 Cicero.
MONTAIGNE
conta no castigo somente a pena que prescre-
veu e não ponderando a que o culpado se
impôs voluntariamente. A justiça divina pres-
supõe nisso total dissentimento, não so ante
sua decisão como ante nossa desgraça. Ridi-
cula é a idéia que teve Polícrates, tirano de
Samos, que, para acabar com sua permanente
felicidade, e compensá-la, jogou ao mar a mais
preciosa de suas jóias, pensando com esse
transtorno livremente aceito satisfazer as vicis-
situdes do destino! E este, ridicularizando-o,
devolveu-lha no ventre de um peixe. Que utili-
dade podia ter, para os coribantes, rasgarem-se
as carnes e se esquartejarem? E, hoje em dia,
de que serve a certos maometanos mutilarem o
rosto, o pênis ou o estômago pensando render
homenagem ao seu profeta? A ofensa estã na
intenção e não no peito, nos olhos, nas partes
genitais, nos ombros ou na garganta: “tal a
perturbação de seu espírito que, fora de si, em
seu delírio, pensam apaziguar os deuses ultra-
passando todas as crueldades dos ho-
mens”23 6,
Cumpre resguardar o nosso físico, não ape-
nas por nós mesmos, mas por Deus e para os
outros homens. Não temos o direito de
comprometê-lo conscientemente, como, por
exemplo, nos matando sob qualquer pretexto.
Parece-me grande traição profanar e degradar
as funções do corpo, em si mesmas incons-
cientes e dependentes da alma, a fim de evitar
que esta as dirija com toda a solicitude que a
razão determina: “Com o que pensam que se
irritam os deuses, aqueles que os tentam assim
apaziguar?. .. Homens foram castrados para
atenderem ao prazer dos reis, mas nunca um
escravo se mutilou a si próprio em obediência
a seu dono”23?. Assim foi que os antigos
introduziram em sua religião várias práticas
condenáveis: “outrora a religião, as mais das
vezes, inspirava o crime e a impiedade”238,
Nada do que está em nós pode atribuir-se ou
assimilar-se, de qualquer maneira, à natureza
divina, sem a manchar ou lhe imprimir a
marca de nossa imperfeição. Como essa bele-
za, esse poder, essa bondade infinitc., pode-
riam, sem experimentar um prejuízo extremo,
sem diminuição de sua divina grandeza, acei-
tar uma semelhança qualquer com a coisa ab-
jeta que nós somos? “Deus fraco é mais forte
do que o homem no esplendor de sua força;
sua loucura é mais sábia do que nossa sabedo-
ria”239, Estilpon, o filósofo, a quem pergun-
taram se os deuses se regozijavam com nossas
238 Santo Agostinho.
237 Id. -
238 Lucrécio.
238 São Paulo.
ENSAIOS — II 247
homenagens e nossos sacrifícios, respondeu:
“Sois indiscretos; retiremo-nos alhures para
falar desse assunto.” No entanto estabele-
cemos limites a essa natureza divina, restringi-
mos-lhe o poder emprestando-lhe nossa manei-
ra de raciocinar (nossos devaneios, nossos
sonhos, como diz a filosofia; “o próprio louco
e o perverso têm sua razão, mas é uma razão
especial”); queremos submetê-la às concepções
de nosso espírito tão frivolo e tão frágil, ela
que criou a nós e o que sabemos. Porque nada
se faz de nada, Deus não teria podido criar o
mundo do nada! Ter-nos-ia Ele entregue as
chaves de Seu poder e Se teria comprometido a
não ultrapassar nossa ciência? Admitamos, ó
homem, que tenhas conseguido assenhorear-te
de alguns vestígios do que Ele fêz; imaginas
que Ele haja dado tudo o que pode dar, empre-
gado todas as formas possíveis, esgotado todas
as idéias? Só enxergas a ordem e a regra que
reinam no porão em que te alojas, se é que as
enxergas. Mas a jurisdição de Sua divindade
estende-se muito além, ao infinito, ao lado do
qual o espaço que abarcas nada representa: “o
céu, a terra e o mar juntos, nada são ao lado
da universalidade do grande Todo”? *º. A lei
que invocas diz respeito apenas à esfera em
que vives; não conheces a lei universal. Ocu-
pa-te com o que te concerne e não com Deus,
que não é teu confrade, nem teu concidadão,
nem teu companheiro. Se Ele Se comunicou
um pouco contigo, não foi para abaixar-Se até
a tua pequenez, nem para que Lhe controles o
poder; o corpo humano não pode voar, assim
essa comunicação não se estende ao que não
compreendes. O sol cumpre sem parar a sua
tarefa habitual; não se confundem os limites
do mar e da terra; a água é mole e não oferece
resistência; um muro são será, sem perfuração,
penetrado por um corpo sólido; o homem não
pode conservar a vida nas chamas; ele não
pode estar ao mesmo tempo presente no céu,
na terra e em mil lugares diversos; mas essas
leis, foi para ti somente que Deus as fez,
somente a ti elas obrigam. Ele próprio forne-
ceu aos cristãos a prova de que nenhuma o
detém quando Ele o quer. E em verdade, todo-
poderoso que é, por que teria renunciado a esse
privilégio? Em nada alcança a tua razão maior
verossimilhança nem fundamento mais sólido
do que quando te convences da pluralidade dos
mundos: “a terra, o sol, a lua, o mar e tudo o
que existe, não são únicos em seu gênero; são
em número infinito””2º*!. Os mais famosos
espiritos do passado assim pensaram e tam-
240 Tucrécio.
2471 Id.
bém alguns do presente. Levou-os a tal convic-
ção a razão humana, por isso que em nosso
universo nada se encontra isolado e único.
“Não hã na natureza um só ser que não tenha
seu semelhante, que nasça e cresça isola-
do”? 42.
Todas as espécies existem em número mais
ou menos variado, o que nos induz a crer que
não seja este mundo a única obra isolada de
Deus, nem que a matéria de que se serviu para
criá-lo se haja esgotado, “devemos portanto
concordar em que há alhures outros conjuntos
de matérias, análogos a este que o éter abra-
ça”2 *3 principalmente se essa obra traz em si
a vida, como é de se acreditar pelos seus movi-
mentos, o que Platão assegura e muitos dos
nossos o confirmam; ou não o ousam negar.
Não parece tampouco inverossímil a concep-
ção antiga de que o céu, as estrelas e as demais
partes do universo se constituam de um corpo
e de uma alma mortais, quanto aos elementos
que os compõem, mas imortais pela vontade
do Criador. Ora, se há vários mundos, como
pensavam Demócrito, Epicuro e quase todos
os filósofos, poderemos saber se os princípios e
regras que presidem ao nosso são os mesmos
nos outros? Talvez sejam diferentes seu aspec-
to e sua conformação. Epicuro admite-os
semelhantes mas também diversos. Neste
nosso mundo percebemos uma infinidade de
variedades por causa da distância que nos se-
para delas. No pedaço de terra recêm-des-
coberto por nossos pais não há trigo nem
vinho, nem nenhum dos nossos animais. Tudo
é diferente. E vede, no passado, em quantos
países não se cônheciam Baco e Ceres. A acre-
ditar-se em Plínio e Heródoto, existem, em cer-
tas regiões, homens que quase não se asseme-
lham a nós. Em outras participam, pela sua
conformação bastarda, do ser humano e do
animal. Haveria regiões onde os homens nas-
cem sem cabeça, com os olhos e a boca no
peito; outras onde cada indivíduo reúne em si
ambos os sexos; outras onde andam de quatro;
outras onde têm um só olho na testa € cuja ca-
beça se assemelha à do cão; outras onde a
parte inferior dos seres que vivem dentro da
água se parece com a de um peixe; outras onde
os homens têm a cabeça tão dura e a pele da
fronte tão resistente que o ferro não fere; ou-
tras onde eles não têm barba; outras onde o
fogo é desconhecido; e há ainda regiões onde o
esperma do indivíduo é preto; e, outras mais,
onde o homem se transforma naturalmente em
lobo ou em mula e volta a ser homem. Se tais
asserções são exatas e se, como diz Plutarco,
243 Td.
242 Td.
248 MONTAIGNE
em alguns lugares da Índia há homens sem
boca que se alimentam respirando certos per-
fumes, quantos erros se deparariam em nossas
descrições da espécie humana? Se não se trata
de zombaria, tais homens não devem provavel-
mente ser dotados de razão, nem capazes de
viver em sociedade. Em todo caso as regras de
nossa organização interior não lhes seriam em
sua maioria aplicáveis. Ademais, quantas coi-
sas conhecemos que se chocam com essas
belas regras que nós mesmos traçamos e atri-
buímos à natureza! E desejariamos submeter-
lhes o próprio Criador ! Quantas coisas se con-
sideram milagrosas e antinaturais, segundo a
origem e o grau de ignorância de quem as
julga! E em quantas outras descobrimos
propriedades maravilhosas acima de tudo o
que podemos esperar da natureza! Pois “agir
de acordo com a natureza” não é senão “agir
segundo nossa inteligência”, dentro dos limites
que ela pode alcançar. O que os ultrapassa,
achamo-lo monstruoso e contrário à normali-
dade. Dessa maneira, tudo seria monstruoso e
anormal para os mais instruídos e hábeis, pois
a eles principalmente deu a razão humana a
convicção de que ela própria carece de funda-
mentos, não apenas para garantir que a neve é
branca, quando Anaxágoras a diz preta, mas
ainda para afirmar se alguma coisa existe ou
se não existe nada; se há ciência ou se tudo é
ignorância, o que Metrodoro, de Quio, asseve-
rava não ser da alçada do homem julgar; e até
se vivemos, incapaz de nos tirar dessa dúvida
que não sem aparência de razão exprimia Euri-
pides: “A vida que vivemos é a vida, ou é, esta,
aquilo a que chamamos morte?” Efetivamente,
por que pretendemos ser, quando isso dura um
instante, um relâmpago numa noite eterna,
uma simples e curta interrupção em nossa con-
dição natural e perpétua, porquanto a morte
- ocupa tudo o que precede e segue esse instante
e atê boa parte dele? Outros afirmam que o
movimento não existe, que tudo é imóvel,
como o pretendem os discípulos de Melisso. Se
há um só mundo, dizem, nem o movimento de
rotação, nem o de translação, de que o imagi-
namos dotado, teriam qualquer utilidade,
como o prova Platão. Outros pensam que não
há geração nem corrupção na natureza. Na
opinião de Pitágoras só a dúvida existe; acerca
de tudo podemos discutir, inclusive acerca da
afirmação de que tudo é discutível. Nausífanes
diz que as coisas que parecem ser nem são nem
não são; que só a incerteza é certa; Parmêni-
des, que nada deve existir, à exceção de um Ser
único; Zenão, que nem sequer um Ser único
existe e que não há nada. Se houvesse um Ser
único, observa, estaria em outro e não em si
mesmo; se estivesse em outro, já seriam dois e
se estivesse em si mesmo seriam igualmente
dois: o continente e o conteúdo. A conclusão
de todos esses conceitos é que a natureza não
passa de uma sombra confusa e va.
Sempre se me afigurou que, da parte de um
cristão, dizer: “Deus pode morrer; Deus pode
desdizer-Se; Deus não pode fazer isto ou aqui-
lo”, é maneira de falar absolutamente indis-
creta e irreverente. Acho errado envolver
assim o poder divino em termos que emprega-
mos; e o que desse modo queremos exprimir
cumpriria expressá-lo mais respeitosa e religio-
samente.
Nossa linguagem tem seus defeitos e suas
insuficiências, como todas as coisas. Em sua
maioria, as desordens deste mundo têm sua
origem nas sutilezas dos gramáticos. Nossos
processos nascem somente de discussões en-
gendradas pela interpretação das leis; as guer-
ras, quase sempre, decorrem de nossa incapa-
cidade em exprimir claramente as convenções
e tratados concluídos pelos príncipes. Quantas
querelas, e querelas importantes, têm resultado
da dúvida na interpretação da sílaba
“Hoc”2 44. Tomemos uma frase cuja constru-
ção e clareza a lógica demonstra: “faz bom
tempo”; se dizeis a verdade, o tempo é bom.
Trata-se de uma forma precisa da linguagem.
No entanto pode induzir-nos em erro, pois se,
com efeito, prosseguindo em nossa demonstra-
ção, afirmardes “estou mentindo” e disserdes a
verdade, mentireis. Em .uma e outra frase, a
construção, a lógica, a força conclusiva são
idênticas e eis que estais em dificuldades, por-
quanto apresentam ambas deduções contrá-
rias. Isso põe os filósofos da escola de Pirro na
impossibilidade de empregar nossa maneira de
falar para exprimirem a dúvida que, em túdo,-
constitui sua regra. Precisariam de outra lin-
gua; a nossa, inteiramente formada de afirma-
ções, opõe-se à sua doutrina, de sorte que
quando dizem: “duvido” poderiamos objetar
que incorrem em contradição, pois afirmam
que sabem que duvidam. Assim, para evitar
semelhante objeção, tiveram de tomar de
empréstimo à medicina uma comparação sem
a qual não explicariam seu pensamento. Ao
dizerem “eu ignoro”, ou “eu duvido”, acres-
centam que ambas as proposições desapa-
recem com o resto da frase, assim como o rui-
barbo expele os humores e com estes a si
mesmo. Tal estado de espírito enuncia-se
interrogativamente de maneira mais segura,
dizendo-se “Que sei eu?” E é minha divisa. Ea
ácompanho de uma balança.
Vede como, nas atuais discussões acerça de
nossa religião, se prevalecem desse modo de
falar irreverente e que eu condeno. Se insistis
2++* Segundo Thibaudet, trata-se da controvérsia
entre católicos, luteranos e calvinistas acerca das
palavras: “Hoc est corpus meum.” (N. do T.)
ENSAIOS — II
Junto ao adversário, dirão sem hesitar que
“não estã no poder de Deus fazer com que Seu
corpo se encontre ao mesmo tempo no céu, na
terra e em outros lugares!” Do que tirou pro-
veito aquele autor antigo que tanto apreciava a
zombaria? * 8: “que consolo para o homem ver
que Deus não pode tudo: mesmo que quisesse
não poderia matar-Se, o que é sem dúvida
nosso maior privilégio; não pode fazer com
que os mortais sejam imortais nem que os
mortos não sejam mortos; nem tampouco que
quem haja vivido não tenha vivido; que quem
tenha sido homenageado não o tenhasido; Sua
intervenção no passado restringe-se ao esque-
cimento”. E continua demonstrando esse pa-
rentesco de Deus com os homens mediante
argumentos antes divertidos do que sérios:
“Não pode fazer com que dez mais dez não
sejam vinte.” Assim fala esse autor que um
cristão tem por dever não imitar. Mas o
homem em seu orgulho compraz-se nessa lin-
guagem, a fim de reduzir Deus à medida
humana: “Que amanhã o pai dos deuses cubra
o céu de nuvens ou faça brilhar o sol no ar
puro, não fará jamais que o que foi não tenha
sido nem destruirá o que a hora passada levou
em suas asas”? 4 8. Quando dizemos que a infi-
nidade dos séculos, passados e futuros, repre-
senta apenas um instante para Deus; que Sua
bondade, Sua sabedoria, Seu poder estão em,
Sua própria essência, fala a nossa boca, mas a
nossa inteligência não entende..
Em nossa presunção, queremos submeter a
divindade à nossa apreciação. Daí os deva-
neios, os erros espalhados pelo mundo, o qual
coloca e pesa em sua balança coisas a serem
pesadas com pesos de que não dispõe: “é
espantoso verificar ate onde vai a arrogância
humana após o mais insignificante êxito”? * 7.
Com que dureza de desprezo os estóicos cri-
ticam Epicuro por afirmar que só Deus é um
Ser verdadeiramente bom e feliz e que o sábio
só tem a aparência desses atributos! Com que
temeridade submetem Deus ao destino! Oxalá
não se encontre entre os cristãos alguém capaz
de fazer o mesmo! De seu lado, Tales, Platão,
Pitágoras escravizam-No à necessidade. Essa
pretensão de querer mostrar-nos o que é Deus
levou um de nossos grandes doutores a atri-
buir-Lhe um corpo, o que é causa de Lhe atri-
buirrhos igualmente os acontecimentos impor-
tantes de nossa vida. Quando estes nos
parecem de certa gravidade, imaginamos que
assim também os encare e lhes dê maior aten-
ção do que quando nos interessam menos: “os
deuses preocupam-se com as grandes coisas e
248 Plínio.
Z46 Horácio.
247 Plínio.
249
negligenciam as pequenas”? *8. Mas continuai
e vereis onde vos conduz tal raciocínio: “os
próprios reis não descem aos pormenores ínfi-
mos de sua administração ”? *º, como se a esse
rei custasse mais derrubar um império do que
uma folha de árvore, como se a providência se
exercesse diferentemente segundo determine a
sorte de uma batalha ou o salto de uma pulga.
Entretanto, ela governa todas as coisas da
mesma maneira com idêntica ordem; nosso
interesse não influi em nada, nem nossos movi-
mentos e sentimentos. “Deus, perfeito artesão
nas grandes coisas, não o é menos nas peque-
nas”2 8º Nosso orgulho volta-nos sempre para
essa assimilação que constitui uma blasfêmia.
Como nossas ocupações nos são pesado fardo,
Estráton liberta os deuses de quaisquer deve-
res, como o faz com seus sacerdotes. A seu ver
a natureza é que tudo produz e lhe assegura a
conservação; os diversos elementos do mundo
mantêm-se em virtude de seus próprios movi-
mentos e o homem não tem a temer o juízo di-
vino “porque um ser feliz e etemno não tem
sofrimentos nem os provoca”? *! Querendo a
natureza que haja uma relação constante entre
as coisas da mesma ordem, a um dado número
de mortais corresponde um dado número de
imortais, às coisas que destroem e matam
opõem-se as que conservam e vivificam. Como
as almas dos deuses, sem língua, olhos ou
ouvidos entendem-se entre si e julgam nossos
pensamentos, as almas dos homens, quando
liberadas pelo sonho ou algum encantamento e
desprendidas do corpo, adivinham, prognos-
ticam e vêem o que seriam incapazes de perce-
ber ligadas à matéria. Tornando-se loucos, diz
São Paulo, em se acreditando sábios, os ho-
mens transformam a glória de Deus, que é
incorruptível, na imagem do homem que não é
senão corrupção.
Observe-se o charlatanismo das deificações
da antiguidade: após a pompa de esplêndidas
exéquias, no momento em que o fogo, atin-
gindo o alto da pirâmide, se comunicava ao
leito sobre o qual jazia o defunto, soltavam
uma águia que simbolizava em seu vôo a alma
do morto subindo ao paraíso. Representando
essa cena, cunharam-se várias medalhas, em
particular uma de uma mulher chamada Faus-
tina, em que a águia se apresenta transpor-
tando sobre as asas as almas divinizadas. É
triste ver como nos esforçamos por nos enga-
nar a nós mesmos com nossas macaquices e
invenções: “temem o que eles próprios inventa-
ram”? 82, como a criança que se apavora dian-
248 Cícero.
249 Id.
25º Santo Agostinho.
281 Cícero.
252 Lucano.
250 MONTAIGNE
te da cara do camarada que ela própria pintou:
“que haverá mais infeliz do que o homem
escravizado pelas suas quimeras?”2 83
Há uma diferença grande entre honrar quem
nos criou e render homenagens ao que cria-
mos. Augusto teve maior número de templos
que Júpiter, os quais foram igualmente visita-
dos e reputados pelos seus milagres.Os feaces,
a fim de demonstrarem sua gratidão pelos
favores recebidos de Agesilau, foram dizer-lhe
que o haviam colocado entre os deuses: “se
vosso povo”, observou-lhes Agesilau, “tem o
poder de fazer deuses à vontade, fazei um deles
com um de vós a fim de que eu o veja. Depois,
quando tiver visto como ele é, saberei se vos
devo agradecer”. Como o homem é insensato !
Incapaz de forjar o mais microscópico animal,
faz deuses às dúzias! Ouçamos Trismegisto
elogiar a humana invenção: “Entre as coisas
admiráveis”, diz, “uma há que a todas so-
breexcede, que o homem tenha podido desco-
brir a natureza divina e imaginar em que
consiste.” Eis a respeito alguns dos argumen-
tos em voga nas escolas de filosofia: “às quais
é dado — e somente a elas — conhecer os
deuses e as forças celestiais, ou saber que é
impossível conhecê-los”? º *. “Se Deus existe, é
um ser animado; se é um ser animado, tem
sentidos; se tem sentidos, está sujeito à corrup-
ção. Se não tem corpo, não tem alma e então
nada pode: se tem um corpo é perecível.” Em
verdade trata-se de argumento peremptório,
resistente a qualquer objeção! Somos incapa-
zes de ter feito o mundo, há pois alguma natu-
reza superior que o fez. Seria tola arrogância
considerarmo-nos a criatura mais perfeita do
universo; há pois algo melhor: Deus. Quando
vedes uma rica e luxuosa residência, ainda que
não saibais a quem pertence, não dizeis que foi
construída pelos ratos; não devemos também
acreditar que esse divino edifício, o palácio
dos céus, é a residência de alguém maior do
que nós? Quem se encontra-no degrau superior
não é em verdade o mais digno? Por isso nos
achamos aqui embaixo. Nada, desprovido de
alma e razão, fora capaz de criar um ser provi-
do de razão e suscetível de dar vida; o mundo
produz-nos, logo tem alma e razão. Cada fra-
ção de nós mesmos é menor do que nós mes-
mos; somos uma fração do mundo, logo o
mundo é dotado de sabedoria e razão e em
grau superior ao nosso. É uma bela coisa ter
um bom governo; o mundo deste ponto de .
vista comprova pois a excelência do princípio
que preside a nossos destinos. Os astros não
nos prejudicam, a bondade se encontra por-
253 Plínio.
254 Tucano.
tanto entre as suas qualidades. Nós temos
necessidade de alimentos, os deuses estão no
mesmo caso: nutrem-se com os vapores da
atmosfera. Os bens deste mundo não são bens
aos olhos de Deus, aos nossos não devem ser
tampouco. Quem ofende alguém e quem é
ofendido por outrem mostram igualmente suas
imperfeições; não há pois como temer Deus.
Deus é bom naturalmente, o homem por sua
vontade, logo com maior mérito. A sabedoria
divina só se distingue da sabedoria humana
por ser eterna, mas a duração nada acrescenta
à sabedoria; estamos portanto em pé de igual-
dade. Temos a vida, a razão, a liberdade; apre-
ciamos a bondade, a caridade, a justiça; logo
essas qualidades pertencem a Deus. Em suma,
é o homem que admite ou rejeita a existência
de Deus, que imagina as condições de sua exis-
tência sobre as quais molda as suas próprias;
que padrão e que modelo! Amplia as quali-
dade humanas, dá-lhes elevação e grandeza
quanto queiras, enche-te de orgulho, pobre
homem, incha-te quanto puderes: “Não, ainda
que arrebentes. ..”2ºº9. “Os homens acredi-
tando pensar em Deus, de quem não têm idéia,
pensam em si mesmos; a si próprios e não a
Ele se comparam”? 58,
No que diz respeito à natureza, os efeitos só
em parte dependem das causas; no caso pre-
sente, a divindade não depende dela; está
demasiado alta, demasiado longe de nós,
demasiado superior ao que podemos imaginar,
para que nossas conclusões a atinjam e atuem
sobre ela. Não será por nós mesmos que conse-
guiremos esclarecer um tal problema, nosso
caminho é por demais rasteiro. Não estamos
mais perto do céu sobre o monte Cenis do que
se estivéssemos no fundo do mar; se quereis
compreendê-lo consultai vosso astrolábio.
Os filósofos pagãos chegam até a repre-
sentar Deus em contato com a mulher. Pauli-
na, esposa de Saturnino e senhora romana de
grande reputação, imaginando dormir com o
deus Serápis achou-se, em virtude da coni-
vência de um sacerdote, nos braços de certo
admirador. Varro, o mais espirituoso e sábio
dos autores latinos, escreveu em suas obras de
teologia que o servidor do templo de Hércules
Jogou com o deus, nos dados (uma das mãos
por ele e outra pela divindade) uma ceia e uma
cortesã. Se ganhasse, as oferendas dos fiéis:
pagariam a despesa, e se perdesse ele arcaria
com elas. Perdeu e pagou a mulher. Esta, que
se chamava Laurentina, encontrou-se nos bra-
ços do deus, o qual lhe disse que lhe pagaria o
que merecia quem primeiro ela avistasse no
255 Horácio.
256 Santo Agostinho.
ENSAIOS — II 251
dia seguinte. Quem ela encontrou foi Terêncio,
um jovem muito rico, que a recolheu e mais
tarde fez dela sua herdeira. Por sua vez, pen-
sando agradar ao deus, ela legou seus bens ao
povo romano, o que lhe valeu honras divinas.
Platão descendia dos deuses por dupla filiação,
ambas remontando a Netuno. Não bastou
isso: considerava-se certo em Atenas que Aris-
ton, marido da bela Perictione, querendo ter
relações com ela, não o conseguiu; e em sonho
ouviu de Apolo a advertência de a respeitar e
deixar intata até que desse à luz. E assim teria
vindo Platão ao mundo. Quantas histórias
semelhantes contam-nos as religiões antigas,
de pobres humanos enganados pelos deuses! E
quantos maridos se apresentam vítimas de
ultrajes análogos a fim de dar aos filhos uma
origem divina! Entre os maometanos a crença
popular admite o nascimento de crianças sem»
pai, concebidas em espírito, e às quais por
intervenção divina as virgens dão à luz. Apeli-
dam-nas “merlins”, palavra que tem em sua
língua esse sentido.
Observemos :que todos os seres se conside-
ram a si próprios como os mais dignos de
apreço: o leão, a águia, o delfim nada colocam
acima de sua espécie, e todos julgam as quali-
dades alheias pelas suas próprias. As qualida-
des que possuímos, podemos julgá-las mais ou
menos estimáveis, eis tudo. Fora desta possibi-
lidade, dado que não podemos imaginar o que.
não existe e não podemos atribuir à divindade,
não há como ir além. Daí estas conclusões dos
antigos: De todas as formas a mais bela é a do
homem; Deus deve portanto ter essa forma.
Ninguém pode ser feliz, sem ser virtuoso; nem
ser virtuoso sem ser dotado de razão; esta só
pode localizar-se em cérebro organizado como
o do homem, logo Deus deve ter um cérebro
semelhante ao nosso; “é hábito e preconceito
de nosso espírito o que faz que não possamos
pensar em Deus sem o representar sob forma
humana”2º?. A isso objetava prazenteira-
mente Xenófanes que se os animais criam deu-
ses, como é provável, devem éles também
concebê-los à sua feição, julgando-se, como
nos julgamos, as obras-primas da criação.
Pois, por que um pato não diria: tudo isso é
feito para mim: a terra serve-me para andar, O
sol para me iluminar, as estrelas para orientar
o meu destino; tiro partido dos ventos, e tam-
bém das águas; nada existe que os céus consi-
derem mais favoravelmente do que eu, sou o
favorito da natureza? Não trata de mim o
homem? É meu servidor: dá-me casa, semeia
para mim, e se me come não come igualmente
seu semelhante”? E não como eu os vermes que
257 Cicero.
o matam e o comem por sua vez? Um grou
tem o direito de dizer o mesmo, e mais ainda,
por que tem a liberdade de voar. “A natureza
amiga é a natureza que induz os seres a se
amarem a si mesmos”? 88,
E assim cremos que para nós se fez o desti-
no, que para nós o mundo existe, para nós bri-
lha o sol, ribomba o trovão. O Criador e as
criaturas, tudo se nos oferece. Somos o obje-
tivo de todas as coisas.
Anote-se o que em dois mil anos a filosofia
registrou acerca das coisas divinas. Somente
para o homem agiram e falaram os deuses, não
se lhes atribui nenhum outro ofício, nenhuma
outra missão. Ei-los participando de nossas
guerras: “os filhos da terra abalaram o augus-
to palácio do velho Saturno e caíram enfim
sob os golpes de Hércules”? 5º. Ei-los tomando
parte em nossas desavenças e correspondendo
assim ao que fizemos mais de uma vez, intro-
metendo-nos nas suas: “Netuno com seu temi-
vel tridente abala os muros de Tróia e revolve
“a fundo essa soberba cidade; por sua vez a
impiedosa Juno apodera-se das portas
Scées”? 8º. Os cáunios, desejosos de manter a
supremacia de seus deuses, pegam em armas
no dia que lhes é consagrado e vão batendo o
ar com suas espadas, expulsando assim os deu-
ses estrangeiros. O poder dos deuses é-lhes
outorgado de acordo com as nossas necessida-
des; há os que curam os cavalos, outros os
homens; uns curam a peste, outros a tinha, ou-
tros a tosse, outros a sarna, etc. .., “pois a
superstição introduz os deuses nas coisas mais
insignificantes”? 81. Um faz que as uvas cres-
çam, outros os alhos. Um protege a luxúria,
outro o comércio. Cada ofício tem seu deus;
cada divindade tem sua província: o Oriente
uma, o Ocidente outra. “Lá estão as armas de
Juno, lá seu carro”2 82. “Ó Santo Apolo, tu
que habitas o centro do mundo. ..”?2 83 A ci-
dade de Cécrope adora Palas; a ilha de Creta,
Diana; Lemnos, Vulcano; Esparta e Micena,
Juno; Pã é deus de Mênalo e Marte é venerado
no Lácio!?28* Uns possuem apenas uma
aldeia, uma família; outros vivem sós, outros
ainda em companhia, seja porque o queiram,
seja por obrigação. “O templo do neto une-se
ao do divino avó”? 88. Há deuses tão miserá-
veis e tão ínfimos (pois o seu número eleva-se a
trinta e seis mil) que é preciso juntar cinco ou
258 Id.
259 Horácio.
2680 Virgílio.
261 Tito Lívio.
262 Virgílio.
263 Tito Lívio.
264 Ovídio.
265 Id.
252
seis para que consigam produzir uma espiga de
trigo e cada qual toma o nome de sua função
na obra comum. Três para uma porta, encarre-
gados cada qual da bandeira, da dobradiça e
do caixilho.: Quatro para uma criança, atentos
as fraldas, ao que bebe, ao que come, ao seio
da ama. “Hã os autênticos e os que o não são,
e muitos que não se consideraram dignos das
honras do céu, concordamos em que habitem
as terras que lhes cedemos”2 8 8. Hã os que são
poetas, médicos e os que não têm profissão; al-
guns participam a um tempo da natureza hu-
mana e da natureza divina; uns intercedem por
nós, são nossos intermediários junto às divin-
dades; alguns têm direito a cultos de segunda
ordem, outros acumulam títulos e honrarias,
uns são bons e outros maus; hã-os velhos e
alquebrados e mesmo mortais. E Crisipo pen-
sava que no último cataclismo que provocaria
o fim do mundo todos morreriam com exceção
de Júpiter. Enfim, o homem forja mil relações,
por vezes divertidas, entre os deuses e ele.
Daão-lhes até berço idêntico ao seu: “Creta,
berço de Júpiter”2 87.
O grande pontífice Cévola, e Varro, grande
teólogo de sua época, assim o explicam: “é
necessário que muitas verdades sejam ignora-
das do povo e que este acredite em muitas
assertivas falsas”: — “como procura a verda-
de apenas para se libertar, podemos ter a certe-
za de que é de seu interesse ser enganado”? 88,
O olho do homem só apreende as coisas sob as
formas de que tem noção. Testemunha-o o
salto desse pobre Fáeton por ter querido, sim-
ples mortal, tomar as rédeas dos cavalos de
seu pai. Nosso espirito comove-se, perturba-se
e se expõe a queda semelhante quando sua
temeridade o induz a enfrentar análogas
impossibilidades. Perguntai à filosofia de que
se constitui o sol. Ela vos responderá que é for-
mado de ferro, pedra ou tal ou qual matéria
familiar. Perguntai a Zenão em que consiste a
natureza, e ele dirá: “é um fogo, espécie de
artesão com a faculdade de engendrar e agindo
segundo leis invariáveis”. Arquimedes, esse
mestre nessa ciência que se julga a primeira a
conhecer a verdade, afirmará: “O scl é um
deus de ferro em fusão.” Bela definição em ver-
dade, resultante dessas proclamadas conclu-
-sões irrefutáveis a que conduzem as demons-
trações da geometria, ciência cuja necessidade
e utilidade não são entretanto tão incontestá-
veis, porquanto Sócrates considerava que bas-
tava dela entender o suficiente para medir a
terra que compramos e vendemos, e Polieno,
286 Ovídio.
267 Id.
268 Santo Agostinho.
MONTAIGNE
doutor famoso, a desdenhou finalmente como
falsa e de aparência ilusória, desde que provou
os frutos do jardim de Epicuro. A propósito,
Sócrates, falando de Anaxágoras que a anti-
guidade considerava mais entendido do que
ninguém nas coisas do céu, diz que o cérebro
deste se alterou- como acontece com os que
perscrutam exageradamente as questões que
ultrapassam sua competência. Fazendo do sol
uma pedra em fusão, esquecia que uma pedra
não se toma luminosa e que se consome.
Considerando que sol e fogo são uma só coisa,
esquecia que o fogo não preteja os que o
contemplam, que o podemos fixar e que mata
plantas e ervas. Na opinião de Sócrates, e tam-
bém na minha, o julgamento mais sábio que se
possa ter acerca do céu, é não julgar. Platão,
referindo-se aos demônios, no “Timeu”, diz:
“tratar do assunto é empresa que sobreexcede
nossa capacidade; devemos a esse respeito
reportar-nos aos antigos que pretendem des-
cender dos deuses. Não é razoável recusar crer
no que nos dizem, eles que são filhos dos deu-
ses, ainda que não assentem em sólidos alicer-
ces suas afirmações, porquanto o que nos asse-
guram são tradições de família”.
Vejamos se conhecemos mais acerca das
coisas da natureza de que nos ocupamos.
Quanto às que confessamos não poder atingir
é ridículo forjar-lhes um corpo, e lhes dar for-
mas de nossa inteira invenção, como se veri-
fica no que concerne aos movimentos dos pla-.
netas. Nosso espírito não podendo determinar
nem conceber como se efetuam esses movi-
mentos, imaginamos pesadas molas de dados
modelos: “de ouro era o timão, de ouro tam-
bém as rodas, com raios de prata”? 8º, Dir-se-
ia que tivemos cocheiros, carpinteiros e pinto-
res que andaram pelos céus instalando
máquinas de movimentos diversos e engrena-
gens, e entrosando os corpos celestes de várias
cores em atenção ao seu uso! Como quer Pla-
tão e diz Varro “o mundo é um edifício imen-
so, cercado de cinco zonas, atravessado obli-
quamente por uma franja guarnecida de doze
radiosas constelações, a que têm acesso o
carro da lua e seus dois corcéis”. Sonhos tudo
isso, € fantasias! Por que não há de a natureza
abrir-nos um dia o seu seio para que vejamos a
nu o que produz e regula seus movimentos?
Quantos erros e abusos achariamos em'nossa
ciência raquítica! Duvido que observássemos
uma só dessas asserções justificada e não
adquirissemos a convicção de que o que mais
ignoramos é a nossa ignorância. Não terá sido
no próprio Platão que li esta frase divina: a
28º Ovídio.
ENSAIOS — II
natureza é um poema enigmático? Uma pintu-
ra velada e tenebrosa iluminada de engana- -
doras claridades que servem de pontos de
apoio a nossas hipóteses: “Todas essas coisas
se envolvem em espessas trevas, e não há espi-
rito bastante agudo para penetrar os céus ou as
profundezas da terra”2 7º. E é verdade: a filo-
sofia não passa de uma poesia feita com sofis-
mas. Pois de onde tiraram sua autoridade,
senão dos poetas, os que a ela se dedicaram na
antiguidade? Os primeiros filósofos foram
poetas e filosofaram como versificavam. Pla-
tão é poeta por vezes; Timon intitula-o ironica-
mente: “grande inventor de milagres”. Todas
as ciências que tratam de questões que
sobreexcedem a inteligência do homem ves-
tem-se de licenças poéticas. As mulheres usam
dentes de marfim quando perdem os dentes
naturais; modificam a tez com ingredientes
estranhos à pele; condicionam a grossura das
pernas com tecidos e feltros, e arredondam
suas formas com algodão; sabidamente se
embelezam com artifícios. Assim faz a ciência
(diz-se mesmo que a do direito admite ficções
que constituem o fundamento daquilo que a
Justiça estabelece como verdade); ela nos ofe-
rece, pedindo-nos que as suponhamos verda-
deiras, coisas que ela própria declara inventa-
das. Esses epiciclos, esses círculos excêntricos
e concêntricos de que se vale a astronomia
para explicar o movimento das estrelas, nãô os
propõe ela senão como o que de melhor pôde
encontrar. Do mesmo modo age a filosofia,
apresentando-nos, não o que é ou crê ser, mas
o que imagina como solução mais elegante e
adequada às aparências. Platão tratando das
condições de nosso corpo e do dos animais,
assim se exprime: “afirmaríamos que o que
dissemos é exato se um oráculo o houvesse
confirmado. Limitamo-nos a assegurar que foi
o que achamos mais verossímil para asseve-
rar”.
Não é apenas o céu que a filosofia provê de
cordas, máquinas: e engrenagens. Vejamos o
que diz de nós mesmos e de nossa estrutura.
Não há em todo o sistema planetário, e nos ou-
tros corpos celestes, maiores trepidações, as-
censões, recuos e êxtases do que inventaram os
filósofos para o nosso misérrimo corpo huma-
no. Nisso merece ele a denominação que lhe
deram de pequeno mundo, a tal ponto empre-
gam para o construir peças das mais variega-
das formas. Para explicar os movimentos que
observam no homem, suas diversas funções e
faculdades, em inúmeras partículas fragmen-
taram a alma! Localizaram-na em múltiplos
órgãos! Estabeleceram divisões sem conta —
270 Cicero.
253
e subdivisões — em nosso pobre ser, além
daquelas que são naturais e normalmente
perceptíveis, sobrecarregando-as de usos €
ocupações! Fazem dela uma espécie de repú-
blica imaginária. Deram-se a liberdade abso-
luta de desmontâ-lo, classificá-lo, remontá-lo,
apresentá-lo sob tal ou qual aspecto, segundo
sua fantasia, e não chegaram ainda a uma cer-
teza qualquer. Nem mesmo a simples hipóteses
em que não se deparem algo manco ou disso-
nante, por enorme que seja a máquina cons-
truíida e a despeito dos mil remendos inade-
quados e fantasistas que lhe aplicam. E não há
desculpa para isso. Quando os pintores pintam
o céu, a terra, os mares, as montanhas, as ilhas
remotas, toleramos que nos apresentem vagos
esboços. É isso admissível quanto ao que não
conhecemos. Mas se pintam do natural, ou se
o que copiam nos é familiar, exigimos deles
exata e perfeita reprodução das linhas e das
cores; em caso contrário não damos impor-
tância à obra.
Compraz-me a idéia da jovem de Mileto
que, vendo o filósofo Tales continuadamente
ocupado a contemplar a abóbada celeste, colo-
cou alguma coisa em seu caminho para que
tropeçasse, advertindo-o assim de que antes de
se divertir em pensar no que ocorre nas nuvens
devia preocupar-se com o que acontece a seus
pés. Com razão aconselhava-o a examinar-se,
ele próprio em vez do céu, pois, assim como
diz Demócrito (segundo Cicero): “investigamos
os céus e não olhamos para os nossos pés”.
Somos feitos de tal maneira, que o conheci-
mento do que se situa ao nosso alcance está na
realidade tão longe e confuso quanto os pró-
prios astros. Essa mesma censura que se ende-
reçava a Tales por não ver o que ocorria diante
de seus olhos, Sócrates no dizer de Platão a
dirigia a todos os que se interessavam pela filo-
sofia, pois todo filósofo ignora o que faz seu
vizinho e até o que ele próprio faz, não sabe o
que são ambos, se homens ou animais.
Os que hoje acham frágeis os argumentos de
Sebond, os que nada ignoram, govemnam o
mundo, tudo sabem: “o que manda no mar, o
que regula as estações; se os astros obedecem
a um movimento espontâneo ou a uma lei
estranha; por que a lua cresce e diminui regu-
larmente; enfim como a harmonia do universo
resulta da discórdia de seus elementos”? ?1,
terão algum dia prestado atenção, em seus
livros, às dificuldades que apresenta o conheci-
mento de nosso ser? Vemos que nossos dedos
se mexem, que nossos pés andam, que certas
partes de nosso corpo se movimentam sozi-
nhas, enquanto outras só o fazem quando o
271 Horácio.
254 MONTAIGNE
desejamos; que certas emoções nos levam a
corar, outras a empalidecer; que as idéias que
surgem em nós atuam ora sobre o baço ora
sobre o cérebro; algumas provocam o riso, ou-
tras as lágrimas; outras ainda nos imobilizam
de medo ou de espanto; por vezes pensar em
alguma coisa causa enjôo, ou nos excita
sexualmente; mas nunca ninguém soube como
essas impressões do espírito podem produzir
tamanho efeito em um corpo sólido, nem qual
a natureza das relações que estabelecem um
funcionamento harmônico dos nossos órgãos:
“todas essas coisas são impenetráveis à inteli-
gência humana e permanecem escondidas na
majestade da natureza”, escreve Plínio; e
Santo Agostinho diz por seu lado: “o laço pelo
qual o espírito adere ao corpo... é admirável
e não o pode compreender o homem. Essa
união é o próprio homem”. E embora não o
explicando, ninguém o põe em dúvida, porque
a opinião dos homens a respeito resulta do que
acreditavam os antigos, crenças a que damos
crédito como se se integrassem na religião e
nas leis. Aceitamos de bom grado o que comu-
mente é por todos admitido. Acolhemos essa
verdade com seu aparato de argumentos e pro-
vas, como algo sólido, inabalável, inexami-
nável. Cada qual fortalece e consolida a crença
aceita com seus próprios argumentos, com a
sua própria inteligência, instrumento dócil,
maleável e acomodatício. E, assim, enche-se o
mundo de mentiras e estultícias.
O que faz que duvidemos de poucas coisas,
está em que jamais pomos à prova”as impres-
sões comuns a todos; nunca as examinamos
em seus pontos fracos. Não indagamos se um
princípio é certo, e sim de que jeito foi formu-
lado. Não hã pois como estranhar se tenha
estendido às artes e às escolas essa tirania de
nossas crenças e esse constrangimento de
nossa liberdade. Aristóteles é o deus da ciência
escolástica; é sacrilégio discutir-lhe os concei-
tos, como o era em Esparta discutir os de
Licurgo. Consideramos sua doutrina funda-
mental, e no entanto talvez seja tão falsa quan-
to outras. Não sei por que não aceitaria igual-
mente as idéias de Platão, ou os átomos de
Epicuro, o cheio e o vazio de Leucipo e Demó-
crito, a água de Tales, a natureza com sua infi-
nidade de formas de Anaximandro, o ar de
Diógenes, os números e a simetria de Pitágo-
ras, o infinito de Parmênides, a unidade de
Museu, a àgua e o fogo de Apolodoro, as par-
tes similares de Anaxágoras, a repulsa e a afi-
nidade de Empédocles, o fogo de Heráclito, ou
qualquer outra teoria entre essas inumeráveis
teorias e afirmações que emite nossa bela inte-
ligência humana, com sua segurança e clarivi-
dência habituais. Como admitir a opinião de
Aristóteles no que concerne aos princípios que
se encontram na origem da natureza, e assen-
tam em três elementos principais: a matéria, a
forma e a carência? Haverá algo mais despro-
vido de sentido do que a idéia de que tudo vem
do nada? Que é carência, senão um elemento
negativo? E como fazer dele a origem e a
causa do que existe? Eis, no entanto, uma
assertiva que não se ousaria combater a não
ser como exercício de lógica. Se o discutem,
porém, não o fazem para esclarecer dúvidas e
sim para defender o chefe da escola contra
seus contraditores de outras seitas. Manter-lhe
a autoridade, eis o objetivo.
É facílimo construir à vontade sobre alicer-
ces preestabelecidos, pois segundo a lei e a
disposição dos princípios o resto do edifício
ergue-se sem incidir em contradição alguma.
Com esse processo nossa razão marcha com
segurança e nós discorremos sem necessidade
de investigações mais aprofundadas; de ante-
mão nossos mestres prepararam o terreno em
nosso espírito para a prova do que bem enten-
dem, como os geômetras que provam suas
hipóteses pré-admitidas. Com a anuência e a
aprovação que lhes outorgamos, conduzem-
nos para a direita ou para a esquerda segundo
seu capricho. Quem é acreditado naquilo que
pressupõe, é nosso senhor e deus; com tal fun-
damento amplo e cômodo, pode se quiser ele-
var-nos às nuvens. Na prática e na transmissão
do saber, aceitamos como moeda corrente esta
frase de Pitágoras: “todo especialista deve ser
acatado no que respeita à sua arte”. Assim o
dialético refere-se ao dramático quanto ao.
significado das palavras, o retórico toma de
empréstimo ao dialético seus argumentos e a
arte de os apresentar, o poeta emprega ritmo
do músico, o geômetra vale-se dos cálculos do
matemático, o metafísico utiliza as conjeturas
do físico, porque todas as ciências assentam
seus princípios em hipóteses, o que por todos
os lados amarra o raciocínio do homem. Se
tentamos derrubar essa barreira que constitui
um erro capital, objetam-nos logo com este
aforismo: “Não se discute com quem nega os
princípios.” Ora, não pode haver entre os ho-
mens senão os princípios que Deus lhes reve-
lou; fora dessa revelação o princípio, o meio e
o fim de todas as coisas não passam de sonho
e fumaça. Aos que, para combater, se apóiam
em hipóteses, cumpre opor como axioma as
teses contrárias aquelas acerca das quais se
discute. Todas as que o homem é capaz de
imaginar podem emitir-se; têm todas igual
autoridade, se entre elas a razão não estabelece
uma diferença. É preciso, pois, examiná-las e
compará-las; e antes de tudo as que se apresen-
tam como regras gerais e pesam mais. Querer
ENSAIOS — II 255
chegar a uma certeza absoluta é, até certo
ponto, prova de loucura e de extrema incerte-
za. Não há gente mais louca e menos filósofa
do que os filodoxos de Platão. Que o fogo seja
quente, a neve fria, e nada duro ou mole, não o
contradizemos, mas que no-lo provem !
A tais propósitos contam que os antigos
respondiam: quem duvida do calor, jogue-se
ao fogo; quem nega o frio da neve, coloque-a
sobre o peito. Essas respostas não eram dignas
de filósofos. Se nos tivessem deixado em nosso
estado natural, aceitando em tudo a aparência
das coisas, sem outras necessidades que não as
determinadas pelas condições de nossa existên-
cia, teriam razões para assim se exprimir, mas
foram eles mesmos que nos ensinaram a nos
erigirmos em juízes do mundo e nos enfiaram
na cabeça a pretensão de que “a razão tem o
direito de controle sobre tudo o que existe,
tanto sob a abóbada celeste como fora dela,
que tem o direito de tudo abarcar, porquanto
tudo sabe e tudo pode”. Semelhantes respostas
seriam aceitáveis entre os canibais, que têm a
felicidade de gozar uma vida longa, tranquila,
sossegada, sem aplicar os preceitos de Aristó-
teles, nem conhecer o nome da física. E seriam
mais eficazes do que quaisquer outras imagi-
nadas pela filosofia e sugeridas pela razão;
estariam também ao alcance dos animais,
como tudo o que decorre pura e simplesmente
da lei da natureza; mas eles não as aceitam.
Para serem consequentes com suas atitudes
habituais, não me podem dizer: “Isso é verda-
deiro, por queassim o vês e o sentes”; é neces-
sário que me demonstrem que o que eu creio
sentir eu o sinto efetivamente; e se o sinto efeti-
vamente, porque o sinto, e como, etc..., é
preciso que digam o nome, a origem, os funda-
mentos e a finalidade do calor e do frio, o que
faz com que este atue sobre o outro e inversa-
mente; sem o que não seriam filósofos, não
admitindo estes nada, nem nada aprovando
senão pela razão, pedra de toque (em verdade
cheia de erros e fraquezas) a que tudo
submetem.
Por que meios poderíamos melhor aquilatar
a razão, do que por ela mesma? Se não pode-
mos acreditar nela quando fala de si, não será
capaz de apreciar o que não está em si. Se
pode conhecer alguma coisa, deve ser pelo
menos o que é e onde se aloja, visto que está
em nosso espírito, de que faz parte ou é efeito.
Não se trata aqui da razão por excelência, a
única verdadeira e que tão mal batizamos; pois
essa reside no seio de Deus. Daí emana quan-
do apraz a Deus mostrar-nos alguns de seus
raios, como Palas saiu da cabeça de Júpiter a
fim de se mostrar visível ao mundo.
Vejamos portanto o que a razão humana
nos ensina acerca de si mesma e da alma, do
espirito. Não acerca da alma em geral que
todos os filósofos outorgam aos corpos celes-
tes e primeiros corpos participantes; nem acer-
ca do que Tales atribui às coisas inanimadas, e
às quais foi levado a atribuir uma alma obser-
vando o comportamento do imã; mas acerca
da que estã em nós e que devemos conhecer
melhor: “não se conhece a natureza da alma:
nasce ela com o corpo, ou, ao contrário, neste
se introduz no momento do nascimento?
Morre com ele, vai visitar abismos sombrios,
ou passa, por ordem de Deus, ao corpo de
animais”? 729
Crates e Dicearco afirmavam que a alma
não existia, e que os movimentos e atos corpo-
rais obedeciam a um movimento natural; Pla-
tão assegurava que era uma substância dotada
de movimento próprio; Tales, uma natureza
sem repouso; Asclepíades, o exercício dos sen-
tidos; Hesíodo e Anaximandro, uma subs-
tância composta de terra e água; Parmênides,
de terra e fogo; Empédocles, de sangue —
“vomitou sua alma de sangue”? 73; Possidô-
nio, Cleantes e Galeno, um calor, ou subs-
tância de compleição quente, “as almas têm a
força do fogo e uma origem celeste”? ? 4: Hipó-
crates, um espírito espalhado pelo corpo;
Varro, o ar penetrando pela boca, aquecendo
os pulmões, purificando o coração e se expan-
dindo pelos membros; Zenão, a quinta-es-
sência dos quatro elementos; Heraclides Pônti-
co, a luz; Xenócrates e os egípcios, um
coeficiente variável; os caldeus, uma proprie-
dade sem forma determinada: “um certo hábi-
to vital do corpo, a que os gregos chamam
harmonia”? 7 8: e não olvidemos a opinião de
Aristóteles para o qual a alma é o que faz
naturalmente mover-se o corpo. Denomina-a
enteléquia, mas não se estende a respeito de
sua origem, de sua essência, nem de sua natu-
reza e sim, apenas, de seus efeitos. Lactâncio,
Sêneca e os principais filósofos dogmáticos
confessam que é coisa para eles incompreen-
sivel. E agora, depois desta enumeração de
opiniões, “qual a verdadeira? Só um deus pode
saber”, diz Cícero. “Reconheço por expe-
riência própria”, diz São Bernardo, “a que
ponto Deus escapa a meu entendimento, pois
não posso sequer compreender as partes de
que se compõe o meu próprio ser.” Heráclito,
que admitia que tudo fosse almas e demônios,
nos seres, declarava entretanto não poder ir
bastante longe no conhecimento da alma e
272 Lucrécio.
273 Virgílio.
274 Id.
275 Lucrécio.
256 MONTAIGNE
compreendê-la, porquanto sua essência é impe-
netrável.
Onde se aloja? A resposta não provoca
menores divergências e discussões. Hipócrates
e Hierófilo colocam-na no cerebelo; Demó-
crito e Aristóteles, em todo o corpo, “como
quando dizem que a saúde está no corpo e
todavia não constitui um membro do corpo
são”? 7? 8, Epicuro, no estômago: “pois aí senti-
mos palpitar o medo, o terror, aí experimen-
tamos as doces sensações da alegria”? 77; os
estóicos, em volta e dentro do coração; Erasis-
trato, unida à membrana do crânio; Empédo-
cles, como Moisés, no sangue, o que levou este
último a proibir que comessem o dos animais,
porquanto lhes comeriam a alma; Galeno '
pensa que cada parte do corpo tem sua alma;
Estráton aloja-a entre as sobrancelhas. “A que
se assemelha a alma e onde reside? Eis o que
não convém procurar entender”, diz Cícero.
Cito suas próprias palavras, a fim de não alte-
rar a linguagem da eloquência, tanto mais
quanto pouco benefício se tira com frustrá-lo
de suas idéias que são raras, sem muita origi-
nalidade e assaz conhecidas. As razões que
nos dá Crisipo, e outros filósofos de sua esco-
la, para colocar a alma no coração merecem
menção. É, diz, porque quando queremos afir-
mar alguma coisa pomos a mão acima do estô-
mago, e quando pronunciamos a palavra
“ego” (eu, em grego) abaixamos o maxilar
inferior na mesma direção. A observação
denuncia certa falta de seriedade em tão gran-
de personagem. As outras considerações que
expressa são também de reduzido valor e
nenhuma prova que a alma se localize, para os
gregos, nessa parte do corpo. Daí concluir-se
que não há inteligência humana, por brilhante
que seja, que por vezes não cochile. Mais
ainda: eis os estóicos, pais da humana prudên-
cia. Não afirmam eles que a alma do homem
que se debate contra a morte, pena e se esgota
longamente para sair do corpo, como um rato
que não consegue escapar da ratoeira? Há
entre eles quem pense que o mundo foi feito
para prover de corpo os espíritos que em razão
de seus erros perderam a pureza recebida ao
serem criados, tendo sido a primeira criação
exclusivamente incorpórea. E, segundo sua
espiritualidade, se encaram tais corpos em
condições mais ou menos penosas ou fáceis.
Assim o espírito, que por causa da magnitude
de suas culpas se encarnou no sol, devia ter
uma quantidade absurda de pecados.
As consequências resultantes afinal de
nossa investigação comportam algo inespe-
rado. Ocorre-nos o que, no dizer de Plutarco,
278 Lucrécio.
277 Td.
se verifica quando nos reportamos às remotas
origens da história: descobrimos que os mapas
mostram as terras conhecidas confinando com
pantanais, florestas imensas, desertos e lugares
inabitáveis; assim também os que se ocupam
dessas altas indagações e querem ver mais
longe, são vítimas de sua curiosidade e sua
presunção, e se expõem aos mais grosseiros €
pueris devaneios. O fim e o começo dessa ciên-
cia participam igualmente da tolice. Vede Pla-
tão, elevando-se e pairando nas suas nebulosas
concepções poéticas; vede o jargão que põe na
boca dos deuses; em que pensava, quando defi-
niu o homem como um bipede sem penas, for-
necendo oportunidade a seus adversários de
motejá-lo prazenteiramente? Pois, arrancando
as penas de um capão, passeavam-no dizendo;
“eis um homem de Platão”.
E os epicuristas! Que simplicidade de sua
parte em andarem a proclamar que o mundo
provinha dos átomos, e a apresentar estes
como corpos ponderáveis e sujeitos a um
movimento natural perpendicular ! Essa hipó-
tese fez que seus adversários objetassem que
em semelhantes condições os ditos átomos não
poderiam juntar-se nem se agrupar, porquanto
sua queda obedecia a linhas verticais e retas,
sempre paralelas. Essa objeção forçou-os a
acrescentar à sua descrição a possibilidade,
para os átomos, de um movimento oblíquo,
fortuito, e a dotá-los de caudas curvas como
garras que lhes permitiam se agarrassem e se
amarrassem uns aos outros. O que não impe-
diu que seus contraditores os embaraçassem
ainda, indagando como, “se os átomos, por
efeito do acaso, produziram tantas coisas de
formas diversas, nunca ocorreu que cons-
truíssem uma casa ou fizessem um sapato? E,
ainda, por que não admitir que as letras gregas
espalhadas ao acaso, em número infinito, che-
gassem a formar o texto da “Iliada”?”
Tudo o que é capaz de razão, diz Zenão, é
melhor do que o que não o é; nada há melhor
do que o mundo, logo o mundo é capaz de
razão. Cota, empregando a mesma argumenta-
ção, faz o mundo matemático; e também músi-
co e tocador de órgão, aplicando-lhe este outro
raciocínio, igualmente de Zenão: “o todo é
mais do que a parte; somos capazes de sabedo-
ria e parte do mundo, logo o mundo é sábio”.
Encontram-se portanto nas críticas que os filó-
sofos dirigem uns aos outros, discutindo acer-
ca de suas divergências, inúmeros exemplos de
raciocínios semelhantes, não apenas falsos,
mas ineptos, indefensáveis e denunciadores da
ignorância e da temeridade de seus autores.
Quem, com competência, andasse a compul-
sar todas as asneiras que emanam da sabedo-
ria humana, assombraria os outros. Eu
ENSAIOS — II
mesmo, apresentando algumas, a título de
amostra, faço obra mais útil do que disser-
tando a respeito. Podemos julgar por elas em
“que estima devemos ter o homem, seu bom
senso e sua razão, desde que, mesmo nos
personagens que tão alto elevaram a inteli-
gência humana, se encontram defeitos tão visi-
veis e grosseiros.
Quanto a mim, prefiro crer que esses filóso-
fos só se ocuparam de ciência ocasionalmente,
como divertimento. Usaram a razão como
instrumento frivolo e vão, avançando toda
espécie de idéias estranhas, ora com seriedade,
ora com ironia. Esse mesmo Platão, que define
o homem como definiria uma galinha, diz, de-
pois de Sócrates, em outro trecho de sua obra,
que, em verdade, não sabe o que seja o homem,
“uma das peças do mundo mais dificeis de
conhecer”. Tais opiniões variáveis e instáveis
constituem uma confissão tácita, mas evidente,
de sua vontade de não sair da indecisão. Esfor-
çam-se os filósofos para que seu modo de ver
nem sempre apareça com nitidez; escondem-
no sob as folhagens que lhes oferecem a fábula
e a poesia, ou sob outra máscara qualquer,
pois nossa imperfeição faz que a carne crua.
nem sempre convenha a nosso estômago e se
deva deixá-la alterar-se, corromper-se. Assim
agem; obscurecem por vezes suas opiniões e
seus juízos, falsificam-nos para colocá-los ao
alcance de todos. Não querem pronunciar-se
francamente acerca da ignorância e da fragili-
dade da razão humana para não fazer medo às
crianças, mas as revelam suficientemente sob a
aparência de sua ciência confusa e contradi-
tória.
Quando eu: estava na Itália, aconselhei a
alguém que nãó sabia italiano que se ativesse,
se desejava ser compreendido sem pretender
empregar uma linguagem correta, às palavras
latinas, francesas, espanholas ou gasconhas
que, para lhe exprimir o pensamento, lhe vies-
sem aos lábios, acrescentando-lhes simples-
mente uma terminação italiana. Assim se
encontrariam por certo com algum dos idio-
mas do país, o toscano, o romano, O venezia-
no, O piemontês, ou o napolitano. Direi o
mesmo da filosofia. Tem tantas formas dife-
rentes e tanto falou, que abarcou todos os nos-
sos sonhos e devaneios. A fantasia humana
nada mais pode conceber que não se depare
nela: “nada se dirá, por mais absurdo, que não
tenha sido dito por algum filósofo”? 78. Isso
me proporciona maior liberdade ainda para
divagar publicamente, tanto mais quanto, em-
bora emanando de mim só, e sem que ninguém
mos tenha sugerido, meus propósitos terão
278 Cícero.
257
sempre alguma relação com outros já manti-
dos e não faltará quem diga um dia: eis de
onde os tirou.
Minhas idéias são o que as fez a natureza.
Para formá-las procurei não seguir nenhuma
regra; e no .entanto, por fracas que sejam,
quando as quis exprimir e publicar nas melho-
res condições possíveis, achei de meu dever
apoiá-las em raciocínios e exemplos, e maravi-
lhei-me com perceber a que ponto se amoldam
a inúmeros raciocínios filosóficos. A que dou-
trina se ligam? Só o soube depois de as expor
e julgar do resultado: pertenço a uma nova
espécie, sou um filósofo que se tornou filósofo
por acaso e sem premeditação.
Mas voltemos à alma. É provável que, colo-
cando a razão no cérebro, a cólera no coração,
a cobiça no figado, Platão tenha antes inter-
pretado os movimentos da alma do que indi-
cado uma divisão e uma distinção a exemplo
do corpo. A mais verossímil dessas opiniões
todas é a de que a alma é uma só; que tem, por
si, a faculdade de raciocinar, recordar, com-
preender, julgar, desejar, e que todas as demais
operações ela as exerce por intermédio das
diferentes partes do corpo, como o piloto diri-
ge seu navio segundo sua experiência, ora rete-
sando ou relaxando uma corda, ora erguendo
uma vela ou se servindo do remo. É igualmente
provável que a alma se aloje no cérebro; isso
decorre do fato de que os ferimentos e aciden-
tes que afetam esse órgão repercutem de ime-
diato nas faculdades da alma. É natural admi-
tir-se que do cérebro ela se expanda pelo
corpo, assim como o sol projeta sua luz e sua
fecundidade fora do céu e as derrama sobre o
mundo: “O sol, em seu curso, não se afasta ja-
mais do meio do céu e no entanto tudo ilumi-
na com seus raios”2?º. “A outra parte da
alma, espalhada pelo corpo, está submetida e
obedece as ordens superiores da inteligên-
cia”? 80
Houve quem afirmasse haver uma alma ori-
ginal, princípio de todas as outras, algo como
um grande corpo de que se extraem as almas
particulares e ao qual estas retornam para se
fundirem nesse meio continuamente reconsti-
tuído: “Deus circula através das terras e mares
e profundezas dos céus; outorga aos homens,
animais domésticos, feras, ao nascerem, o
sopro que os anima; a partir de então nenhum
pode perecer e todos devem prestar contas de
seu ser ao grande todo de que emanam”281.
Outros asseveraram que elas ali se juntavam
tão-somente; outros que eram produtos da
27º Horácio.
280 Tucrécio.
281 Virgílio.
258 MONTAIGNE
substância divina: outros, aque provêm dos
anjos e são constituídas pelo fogo e a água;
uns, que desde sempre existiram; outros, que
são criadas quando necessário; outros, que
vêm da lua e para lá voltam. Em geral os anti-
gos acreditavam que eram engendradas de pai
a filho, como tudo o que se encontra na nature-
za. Em apoio dessa hipótese invocavam a
semelhança dos pais com os filhos: “a virtude
de teu pai a ti se transmitiu com a vida... os
fortes engendram os fortes”2º2: e também que
os pais transmitem aos filhos, não somente
certos caracteres do corpo, como ainda algo de
seu temperamento, de seu espírito: “Por que o
leão transmite a ferocidade à sua raça? Por
que a malícia é hereditária nas raposas? O
medo, nos veados?... senão porque a alma
tem seu próprio germe e se desenvolve junto
com o corpo?” 283 Davam ainda como razão
basear-se a justiça divina, para punir os filhos,
nos erros dos pais; Os vícios destes, por contã-
gio, manchariam a alma daqueles, atuando os
desregramentos de uns sobre os outros.
Acrescentavam que se as almas tivessem
outra origem que não essa natural, se fossem
outra coisa fora do corpo com o qual se engen-
dram, recordariam sua condição primeira,
dadas as faculdades de discorrer, raciocinar €
lembrar de que são dotadas: “se a alma se insi-
nua no corpo quando do nascimento deste, por
que não nos lembramos do passado? Por que
não conservamos nenhum vestígio de nossos
atos anteriores 2 28 4
Admitir essa hipótese é supor que nossas
almas já possuem toda sua ciência quando
ainda em sua simplicidade e pureza naturais;
mas se assim é, estão livres de não se aprisio-
narem em um corpo, pois para que a reencar-
nação, se antes de entrar em seu novo corpo já
seriam como o serão ao sairem? E, fora preci-
so ainda que se lembrassem, durante a sua
nova vida, do que conheceram na existência
anterior, porquanto aprender não é, no dizer de
Platão, senão murmurar o que soubemos. Ora,
todos sabem, por experiência própria, que uma
tal assertiva é falsa. Em primeiro lugar porque,
precisamente, não nos lembramos do que
aprendemos e que, se a memória cumprisse sua
tarefa, nos sugeriria alguma coisa mais do que
o que sabemos de início. Em segundo lugar, a
ciência que a alma possuiria, seria a ciência
perfeita, de sorte que, graças à sua divina
inteligência, conheceria todas as coisas na sua
realidade. Ora, acontece que se num ponto ou
noutro lhe ensinam a mentira ou o vício, ela os
retém, não tendo nenhuma reminiscência a
282 Horácio.
283 Tucrécio.
28 4 Td.
|
opor-lhes porque a imagem e a concepção da
verdade nunca entraram nela.
Não se poderia dizer que sua prisão no
corpo abafa suas qualidades inatas, a ponto de
as extinguir; seria antes de tudo contrário a
essa outra crença que lhe empresta um poder
considerável e tão admirável ação sobre o
homem, nesta vida, que disso fizeram uma
divindade eterna desde sempre e para sempre:
“e se a mudança é tão grande que a alma não
guarde lembrança do que fez, seu estado, pare-
ce-me, difere bem pouco da morte”?8 8.
Por outro lado, no caso que nos interessa,
são os efeitos produzidos em nós, e não alhu-
res, pela ação da alma que se devem ponderar.
Todas as suas demais perfeições são supérfluas
e inúteis; pelo seu estado presente é que se deve
reconhecer sua imortalidade, não sendo ela
responsável senão pela vida do homem ao qual
se une. Seria injusto, depois de tirar-lhe os
meios de ação, e desarmà-la, julgá-la e conde-
ná-la a um castigo de duração exagerada, per-
pétua, pelo tempo que permanece fechada em
sua prisão, fraca e enferma, constantemente
sob o efeito do constrangimento que lhe impu-
seram. Determinar-lhe a sorte em vista de tão
curto tempo, por vezes uma hora ou duas, eno
máximo um século, um instante enfim compa-
rado com a eternidade, e por causa desse
momento dela dispor para sempre, seria esta-
belecer uma desproporção entre a causa e o
efeito, tão iníqua quanto lhe atribuir uma
recompensa eterna pelos méritos de tão curta
existência. Atentando para essa desproporção,
quer Platão que o que nos aguarda após a
morte tenha uma duração de cem anos, em
relação com a vida humana. Numerosos dou-
tores nossos estabeleceram igualmente limites
a tais provações.
Em suma, a crença geral era de que a alma
nasce e vive nas mesmas condições que o
homem. Era opinião de Epicuro e Demócrito,
e a mais facilmente aceita, que a alma nascé
com o corpo no momento adequado, suas for-
ças, juntamente com as forças físicas do indivi-
duo; que constatamos sua fraqueza durante a
infância e vemos seu vigor e sua maturidade se
ampliarem com o tempo, e seu enfraqueci-
mento sobrevir na velhice. E enfim sua decre-
pitude: “sentimos que nasce com o corpo, cres-
ce e envelhece com ele”288. Percebiam-na
capaz de diferentes paixões, e de agitações
penosas, causadoras de lassidão e sofrimento,
suscetível de alterações e mutações, de alegrias
e langores E de enfermidades como o pé ou o
estômago: “vemos que o espírito pode ser tra-
285 Tucrécio.
286 Jd.
ENSAIOS — II
tado pela medicina e curar-se como um corpo
enfermo”2º?. Viam-na igualmente perturbada
e excitada pelo vinho; agitada pela febre, ador-
mecida sob a ação de alguns medicamentos,
despertada por outros: “cumpre que a alma
seja corporal, pois é sensível às sensações do
corpo”288. Viam-se todas as suas faculdades
abaladas pela simples mordida de um cão
doente; e por grande que seja a resolução de
sua razão, sua inteligência, sua virtude, sua
energia, nada a isenta de semelhantes aciden-
tes. A saliva de um cãozinho mau sobre a mão
de Sócrates pode atingir-lhe a sabedoria e as
idéias, e as aniquilar sem deixar vestígios: “a
alma é perturbada, alterada, abalada e partida
pela ação desse veneno”28º, o qual não encon-
tra maior resistência em um filósofo do que em
uma criança de quatro anos, e fora capaz de
transmitir a raiva a toda a filosofia se esta se
personificasse em alguém. E assim Catão, que
triunfou da própria morte e da má sorte, não
houvera suportado a vista de um espelho ou da
água e se acabrunharia de pavor se pelo contã-
gio fosse atingido por essa doença a que cha-
mam hidrofobia: “o mal, em se expandindo
pelos membros, ataca a alma com violência,
como o vento subleva as ondas espumantes do
nar e:
Por certo a filosofia armou o homem contra
o sofrimento resultante de qualquer acidente e
proveu-o de paciência. E se o mal sobreexcede
suas forças, fornece-lhe o meio de escapar e se
tornar insensível. Mas são meios, esses, que só
estão ao alcance de uma alma forte, segura de
si, capaz de raciocínio e decisão; são inúteis no
caso de um filósofo cuja alma se aflija, se per-
turbe e se perca, como ocorre em diversas
circunstâncias, pur ocasião de uma paixão vio-
lenta por exemplo, de algum ferimento em cer-
tas partes de nosso ser, de exalações estoma-
cais provocadoras de vertigens ou tonturas:
“muitas vezes nas doenças do corpo a alma de-
lira e se expande em discursos sem nexo; ou-
tras vezes, uma pesada letargia mergulha-a em
um sono profundo e definitivo. Os olhos cerra-
ram-se, a cabeça pende”2º1.
Em meu entender, os filósofos não se detive-
ram muito neste ponto como não o fizeram
tampouco em outros de importância. Para nos
consolar de estarmos destinadôs a morrer têm
sempre nos lábios este dilema: “ou a alma é
mortal ou é imortal; se é mortal estará isenta
de sofrimento; se é imortal continuará pelo
caminho da perfeição”. Não encaram nunca o
287 Lucrécio.
288 Td.
289 Td,
290 Td.
291 Td.
259
outro caso: “que acontecerá se for sempre
piorando?” E deixam aos poetas o cuidado de
nos entreter acerca das penas futuras. Com
isso vão sustentando facilmente seus sistemas.
São omissões que não raro observei em seus
diálogos. Mas vejamos a primeira dessas
proposições: a alma é mortal.
A alma perde em certas circunstâncias o uso
da constância e da resolução que os estóicos
consideram seus soberanos bens. Cumpre à
nossa sabedoria dar-se então por vencida. A
esse propósito, a vaidade, inerente à razão
humana, levava a considerar não admissíveis a
mistura e a coexistência de duas condições
antagônicas, como a do mortal com a do imor-
tal: “é loucura unir o mortal ao imortal, imagi-
ná-los de acordo, em um todo harmônico. Que
haverá, com efeito, mais distinto, mais contrá-
rio do que essas duas substâncias, uma perecí-
vel, a outra indestrutível, que pretendeis reunir
para as expor juntas aos mais terríveis
desastres ?2”292 bata
Com maior convicção observavam que na
hora da morte acabam o corpo e a alma: “ela
sucumbe com ele sob o peso dos anos”2º3, do
que, segundo Zenão, temos uma idéia no sono,
que é uma debilitação e uma queda da alma
como a do corpo. Se em alguns a alma con-
serva sua força e seu vigor no declínio da vida,
isso se explica, dizem, pela diversidade das
doenças. Se, como se vê, certos homens con-
servam intato até o fim de seus dias algum de
seus sentidos, é porque o enfraquecimento não
se generaliza sempre: partes do organismo per-
manecem perfeitas: “assim como os pés podem
adoecer sem que a cabeça sofra”2º *.
Nosso julgamento encara a verdade como o
morcego contempla o esplendor do sol, diz
Aristóteles. Nada temos melhor do que essa
cegueira para penetrar tao esplendente luz;
pois a opinião contrária, que defende a imorta-
lidade da alma e que foi, segundo Cícero e os
livros, ventilada pela primeira vez por Fereci-
des, de Siro, contemporâneo de Tulo (e que ou-
tros atribuem a Tales, e outros, a outros), sem-
pre constitui objeto de reservas e de dúvidas.
Os mais intransigentes dogmáticos vêem-se
neste ponto forçados a colocar-se sob a prote-
ção da Academia. Ninguém sabe o que pensa-
va Aristóteles a respeito, nem em geral os filó-
sofos antigos, os quais não dão idéia muito
precisa do assunto: “promessa, evidentemente
agradável, de um bem cuja certeza não se
prova”2º 8, Ele dissimula seu pensamento sob
uma nuvem de palavras, cujo sentido é obscu-
292 Tucrécio.
293 Td.
294 Id.
295 Sêneca.
260
ro e pouco inteligível, deixando a seus partidá-
rios discutir seu juízo tanto quanto a própria
matéria.
Duas coisas militavam em favor dessa opi-
nião. Uma era que sem a imortalidade da alma
não haveria mais sobre que assentar as vas
esperanças de glória que são um estimulante
admirável neste mundo. Outra, que se tratava
de uma crença salutar, como diz Platão, pois
os vícios que escapam ao conhecimento da jus-
tiça humana, não se sonegam assim à justiça
divina, a qual os pune mesmo depois da morte
do culpado. O homem cuida muito de prolon-
gar sua existência. Tudo dispõe para tanto: a
conservação do corpo na sepultura; a de seu
nome na glória. Preocupado com o que pode-
ria ocorrer, fez tudo o que lhe veio à mente
para se reconstruir e consolidar sua presença
na terra. Não podendo a alma, em razão de
sua fraqueza, encontrar a calma, busca por
toda parte consolo, esperança, apoio. Prende-
se a circunstâncias estranhas a si mesma, e não
as abandona. Por insignificantes ou fantasistas
que sejam, nelas se aloja e repousa de preferên-
cia. E de espantar que os partidários mais
convencidos dessa idéia tão justa e clara da
imortalidade da alma tenham sido tão incapa-
zes de prová-la com o simples auxílio da razão
humana: “São sonhos de um homem que dese-
ja mas não acha”2º.8. Pode o homem deduzir,
portanto, que deve ao acaso a verdade que por
si mesmo descobre, pois mesmo nos momentos
em que a tem nas mãos carece de meios para
apreendê-la e conservâ-la. Tudo o que produ-
zem nossa razão sozinha e nossa inteligência,
tanto o verdadeiro como o falso, está sujeito à
incerteza e à discussão. É para nos punir de
nosso orgulho e fazer-nos sentir nossa miséria
e nossa impotência que Deus suscitou a confu-
são da torre de Babel. Tudo o que empreen-
demos sem que Sua graça nos ilumine não
passa de vaidade e loucura. À própria essência
da verdade, uniforme entretanto e constante,
nós a corrompemos e ela degenera em virtude
de nossa fraqueza, quando a sorte no-la ofere-
ce. Qualquer que seja o caminho seguido,
Deus o leva à confusão, cuja imagem viva
temos no castigo que infligiu a Nemrod,
aniquilando sua va tentativa de construir a
pirâmide: “confundirei a sabedoria dos sábios
e reprovarei a prudência dos prudentes”?º 7.
Que significa a diversidade das línguas que
falavam os operários e fez abortar a empresa,
senão o infinito e perpétuo conflito de opiniões
e raciocínios, inseparável da vã ciência huma-
na? O que de resto não deixa de ser útil, pois
296 Cícero.
297 São Pauio.
MONTAIGNE
quem nos deteria se possuíssemos um átomo
de ciência! É grande satisfação para mim ver
um santo assim se exprimir: “as trevas em que
se envolve a verdade, são um exercício para a
humildade e um freio para o orgulho”2º8. A
que grau de insolência e presunção atingem
nossa cegueira € nosso orgulho !
Prossigamos. Nada mais justo e razoável do
que recebermos só de Deus e por Sua graça
unicamente a possibilidade de conhecer a ver-
dade, pois é de Sua liberalidade que auferimos
o que a imortalidade nos oferece de feliz: a
beatitude eterna. Confessemos humildemente
que somente Deus no-la revelou, e a fé no-la
ensina. A natureza e a razão nada têm a ver
com isso. E quem, entregue às suas próprias
forças, empreenda sondar-se por dentro e por
fora, sem levar em conta a revelação divina, e
estude o homem sem o embelezar, nada verá,
em si, de certo, de provável, impelindo a outra
coisa que não à morte, como fim último.
Quanto mais damos, devemos e devolvemos a
Deus, tanto mais nos conduzimos como verda-
deiros cristãos. O que o filósofo estóico afirma
provir-lhe de um sentimento fortuito nascido
em seu espírito, melhor fora que lhe viesse de
Deus: “quando tratamos da imortalidade da
alma, procuramos principalmente apoio junto
aos homens que temem os deuses infernais ou
os veneram; eu me aproveito dessa crença
geralmente aceita”2ºº.
A fraqueza dos argumentos humanos a esse
respeito revela-se pelas circunstâncias fabulo-
sas que se acrescentaram a essa opinião a fim
de se determinar em que condições somos cha-
mados a gozar a imortalidade. Deixemos de
lado os estóicos “que dizem que nossas almas
vivem como corvos: muito, mas não eterna-
mente”390:e lhe dão uma vida mais ionga que
a do corpo, mas não ilimitada. A idéia mais
geralmente aceita, e que em muitos lugares
chegou até nossos dias, é a de Pitágoras, ao
que se diz. Não porque a invenção lhe caiba,
mas porque sua aprovação lhe deu grande peso
e crédito. Eis a idéia: “As almas, quando nos
deixam, passam de um corpo a outro; do corpo
de um leão ao de um cavalo; deste ao de um
rei; e andam assim de uma residência para
outra sem cessar.” Pitágoras dizia mesmo, a
propósito, lembrar-se de ter sido Etálido, mais
tarde Euforbo, Hermotimo em seguida, e enfim
Pirro, conservando na memória o que lhe ocor-
rera em cento e seis anos. Outros acrescen-
tavam que por vezes essas almas subiam ao
céu para tornar a descer mais tarde: “Ó meu
pai, será verdade que hã almas que voltam do
238 Santo Agostinho.
298 Sêneca.
300 Cícero.
ENSAIOS — II
céu à terra e revestem uma forma-corpórea”?
Quem inspira a esses infelizes tão grande dese-
Jo da vida?” 301
Orígenes considera que vão e vêm eterna-
mente, passando de uma condição boa a uma
condição má. Varro declara que, após uma
evolução de quatrocentos e quarenta anos, elas
tornam a unir-se a seu primeiro corpo. Crisipo
afirma que assim ocorre após um lapso de
tempo determinado, cuja duração é desconhe-
cida. Platão (que diz ter recebido de Pindaro e
dos poetas antigos essa crença), do fato de a
alma estar sujeita a inúmeras migrações, e de
não receber no outro mundo senão tristezas e
recompensas temporais, como na sua vida
aqui, conclui que ela adquire um conhecimento
particular das coisas do céu, dos infernos e da
terra, por onde passou € repassou e de que con-
servou reminiscências. E explica assim a evo-
lução: “se a alma viveu no bem, alcança o
astro que lhe está assinado; se viveu no mal,
passa para um corpo de mulher; se neste esta-
do não se corrige, passa para um animal de
costumes em relação com os seus vícios; e só
vê o fim de suas penas quando volta a seu esta-
do primitivo, depois de se haver desembara-
çado das qualidades grosseiras e estúpidas que
nela existiam em germe”. Não me furtarei ao
prazer de transcrever esta divertida objeção
que apresentavam os epicuristas a uma tal
transmigração das almas: “que aconteceria se
o número de mortes excedesse o número de
nascimentos?” “As almas desalojadas de sua
residência iriam atropelar-se para se acharem
em primeiro lugar diante dos novos invólu-
cros.” E mais: “em que empregariam o tempo
as que fossem obrigadas a aguardar vagas?
Por outro lado, se nascem mais animais do que
morrem, em que situação se achariam os que
não se provessem de almas? Alguns por certo
morreriam antes de nascer”. “E ridículo supor
que as almas já se encontram prontas e à espe-
ra no momento preciso da cópula dos animais
ou de seu nascimento e que, substâncias imor-
tais, se atropelem em torno de um corpo mor:
tal, disputando entre si o direito de ser a
primeira” 3º2. Outros filósofos se apoderam da
alma na hora da morte para insuflá-las nas ser-
pentes, nos vermes e em outros bichinhos que
se reproduzem quando o corpo entra em
decomposição e, até quando já se acha redu-
zido a cinzas; outros a dividem em duas par-
tes, uma mortal e outra imortal; outros ainda
admitem sua imortalidade, embora a julguem
incapaz de saber e conhecimento. E há os que
pensam, inclusive entre os cristãos, que as
301 Virgílio.
302 TLucrécio.
261
almas dos condenados se encarnam em demô-
nios. Por analogia, Plutarco imagina que as
almas que se salvam se transformam em deu-
ses. Há poucos assuntos acerca dos quais esse
autor se pronuncie com tanta precisão, pois,
em geral, se exprime de modo ambíguo: “é
necessário observar”, diz, “e crer efetivamente,
no que concerne às almas dos indivíduos vir-
tuosos, que, como é natural e conveniente à
justiça divina, essas almas transmigram para
os santos; as dos santos para os semideuses e
as dos semideuses, depois de depuradas e puri-
ficadas por sacrifícios expiatórios sem mais a
obrigação de pagar tributo ao sofrimento e à
morte, tornam-se, não por ordenação civil mas
por efeito da razão, deuses inteiros e perfeitos,
o que constitui, para elas, um fim glorioso e
feliz”. Quem quiser ver Plutarco, um dos
autores mais prudentes e sensatos, fazer-se
campeão dessa tese e contar milagres, poderá
reportar-se a seus escritos sobre a lua e o
demônio de Sócrates. Aí verá, de maneira evi-
dente, como os mistérios da filosofia apresen-
tam fantasias análogas às da poesia. A inteli-
gência humana perde-se ao querer tudo sondar
e controlar a fundo. É o que nos acontece.
Acabrunhados pelo trabalho executado duran-
te uma longa existência, voltamos à infância.
Tais são os belos ensinamentos, impregnados
de certeza, que a ciência humana nos fornece
acerca de nossa alma!
No que diz respeito à parte material de
nosso ser, não é menos temerária a ciência em
suas conjeturas. Escolhamos um ou dois exem-
plos apenas, pois em tudo colher nos perde-
riamos nesse oceano tão vasto e turvo dos
erros cometidos pelos médicos. Vejamos se,
pelo menos, reina harmonia acerca da maneira
pela qual os homens se reproduzem, pois quan-
to à sua criação inicial a coisa remonta tão
longe na antiguidade que não há como estra-
nhar não possa o espírito humano pronunciar-
se. O físico Arquelau (ou Archelau), de quem
Sócrates foi discípulo e favorito, segundo Aris-
tóxeno, pensava que os homens e os animais
eram engendrados por um barro leitoso produ-
zido pela ação do fogo interno da terra; Pitá-
goras pensa que o sêmen, de que provimos, é a
espuma do que há de melhor em nosso sangue;
Platão diz que se trata de um escorrimento da
coluna vertebral e dá como prova sentir-se
nesse ponto a fadiga da tarefa fecundadora;
Aleméon acha que é uma parte da substância
de que se constitui o cérebro, e o comprova
pelo enfraquecimento da vista nos que abusam
da cópula; Demócrito considera que seja uma
substância extraída de tudo o que entra na
composição do corpo; Epicuro, que essa subs-
tância se extrai da alma e do corpo; Aristóte-
262 MONTAIGNE
les, que é uma secreção proveniente do sangue
e a última a expandir-se pelos membros; ou-
tros vêem nessa secreção sangue cozido e justi-
ficam sua opinião com o fato de por vezes apa-
recerem gotas de sangue no pênis quando há
por demais esforço em suas funções, e é a
hipótese mais plausível, se algo pode ser plau-
sível nessa infinidade confusa de opiniões.
E quantas idéias diferentes acerca da manei-
ra por que atua esse sêmen! Aristóteles e
Demócrito acham que a mulher não segrega
esperma, mas tão-somente um suor resultante
do calor que desenvolve nela o prazer, suor
que não teria aliás nenhum papel na fecunda-
ção. Ao contrário, Galeno e seus discípulos
pensam que essa fecundação só se efetua quan-
do o que provém do homem se mistura ao que
vem da mulher.
Finalmente, qual o tempo da gestação?
Nesta questão os médicos, os filósofos, os
Jurisconsultos e os teólogos voltam-se para a
mulher. No que me concerne, posso apoiar os
que sustentam durar a gravidez onze meses.
Assim, em tais divergências assenta o
mundo ! Eis assuntos a cujo respeito qualquer
mulherzinha daria um palpite e no entanto são
objeto de contestações infindáveis!
Basta isso para mostrar que o homem sabe
tão pouco de seu corpo quanto de sua alma.
Submetemo-lo a seu próprio julgamento, para
ver onde o conduziria sua razão. Parece-me
que provamos suficientemente a que ponto
entende pouco de si mesmo. E quem não enten-
de de si, de que há de entender? “Como se
quem ignora a própria medida pudesse sequer
medir alguma coisa” 203. Na verdade, Protá-
goras mostrava-se fantasista ao escolher o
homem para medida de todas as coisas, o
homem que jamais conheceu sua própria medi-
da. Por outro lado sua dignidade não permite
que outorgue tal vantagem a outra criatura.
Como estã em contradição permanente consi-
go mesmo, e suas apreciações se destroem
mutuamente, propô-lo como medida não pode
passar de brincadeira, porquanto nos levaria
necessariamente a concluir pela incapacidade
do compasso e de quem o manuseia. Tales,
achando que o conhecimento do homem pelo
homem é muito difícil, mostra ser-lhe impos-
sível o conhecimento de qualquer outra coisa.
Dei-me ao trabalho de, contra meus hábitos,
estender-me a esse respeito por vossa'º *
causa, mas vós não deveis deixar de defender
as proposições de Sebond com a argumentação
habitual e que se encontram nas instruções que
cotidianamente recebeis. Isso exercitará vosso
303 Piínio.
304 Margarida de Valois.
|
espirito e vos parecerá um objeto interessante
de estudo. Quanto ao método de discussão que
venho empregando, cumpre só recorrer a ele
em última instância; é em caso de desespero
que largamos nossas próprias armas para usar
as do adversário; é golpe secreto que cabe uti-
lizar raramente e com discrição. Perder-se
para levar alguém à perdição é coisa temerá-
ria, não se deve querer morrer a fim de assegu-
rar uma vingança, como fez Gobrias: em luta
corpo a corpo com um nobre persa, ao ver
Dario acorrer de espada em punho, gritou-lhe
que desfechasse o golpe embora os matasse a
ambos. Vi considerarem iníquos duelos cujas
condições e armas empregadas levavam neces-
sariamente a um resultado fatal e à morte de
ambos os adversários. Os portugueses haviam
aprisionado vários turcos no mar das Índias,
estes ansiosos por se libertarem resolveram
incendiar os navios, destruindo com o mesmo
seus senhores e eles próprios, e o fizeram com
dois pregos esfregando-os um no outro até que
a faísca atingisse um barril de pólvora.
Alcançamos assim os limites da ciência.
Como a virtude, ela falha nesses pontos extre-
mos. Ficai no caminho habitual, não vos con-
vém tanta sutileza e finura. Lembrai-vos a pro-
pósito do provérbio: “quem sutiliza
demasiado, pulveriza-se”3º 8 Aconselho-vos
moderação € reserva nas opiniões que emitis, e
nos raciocínios tanto quanto nos costumes;
evitai a novidade e a originalidade; tudo o que
é extravagante, irrita-me. Vós que, pela autori-
dade de vossa condição social e, mais ainda,
pelas vantagens que vos outorgam vossas qua-
lidades pessoais, podeis mandar em quem vos
compraz, fora preferível que houvésseis con-
fiado a tarefa por mim cumprida a alguém que
fizesse da literatura sua ocupação normal. Ele
vos teria, muito melhor do que eu, informado e
documentado a respeito. Contudo já se me afi-
gura suficiente, para o vosso fim, o que se fez.
Epicuro dizia, das leis, que mesmo as piores
nos são tão necessárias que sem elas os ho-
mens se devorariam entre si. E Platão con-
firma que sem leis viveriamos como bichos.
Nosso espírito é um instrumento descontro-
lado, perigoso e temerário; é difícil usá-lo com
ordem e medida. Não vemos em nossa época,
os que são superiores aos outros, ou possuem
alguma vivacidade excepcional, desmanda-
rem-se em licenças nas suas opiniões e em seus
atos? Só por milagre se encontra alguém
moderado e sociável. É justo oporem-se ao
espírito humano as barreiras mais estreitas
possíveis; nos estudos a que ele se entrega,
como no resto, cumpre regular-lhe o passo. É
305 Petrarca.
ENSAIOS — II 263
preciso delimitar-lhe com arte o terreno da
caça. Freiam-no, amarram-no, com a religião,
as leis, os costumes, a ciência, os preceitos, os
castigos, € as recompensas passageiras e eter-
nas; escapa, assim mesmo, a todos os obstá-
culos pela facilidade que tem de se mover e ilu-
dir. É um corpo sem consistência que não
podemos segurar, reter; um corpo de múltiplas
formas mal definidas e que não apresenta por
onde se pegar.
Há por certo bem poucas almas, tão disci-
plinadas e fortes, e nobres, em cuja conduta
possamos confiar e que, entregues a seu pró-
prio juízo, sejam capazes de navegar com
prudência, sem temeridades, fora das idéias
comumente aceitas; é mais garantido tutelá-
las. É o espírito perigosa adaga, mesmo para
quem o possui, se dele não se utiliza com opor-
tunidade e prudência; não há animal que me-
lhor justifique a necessidade de tapa-olhos,
para que veja por onde caminha e não saia da
trilha que os usos e as leis traçaram. Por isso,
o que quer que se alegue, será sempre prefe-
rível seguir a estrada batida a lançar-se nessas
discussões que acarretam graves licenças. Se,
no entanto, algum desses novos doutores
empreendesse brilhar a expensas de vossa sal-
vação e da dele, para vos desfazerdes dessa
perigosa peste que hoje tudo contagia na
Corte, os argumentos que vos apresento pode-
rão servir de paliativo, impedindo que o vene-
no vos atinja, a VÓS € aos vossos.
A liberdade e a ousadia de que se valiam os
antigos nas obras do espírito fizeram que,
naturalmente, várias seitas se constituíssem na
filosofia e em todos os ramos da ciência huma-
na, cada qual se outorgando o direito de julgar
e escolher. Mas agora que todos seguem igual
caminho, “presos a certos dogmas de que não
podem livrar-se, todos são obrigados a defen-
der-lhes as consegiiências, ainda que os não
aprovem”3º 8: agora que as questões relativas
às artes*º7 são reguladas por ordenações, a
ponto de se submeterem as escolas todas a um
só orientador, e que tais instituições estão
sujeitas a determinada disciplina, não se olha
mais o que vale e pesa a moeda, mas tão-so-
mente se está em circulação. Não se discute se
é falsa ou não, mas apenas se a aceitam. E
assim ocorre com tudo. O ensino da medicina
não se discute mais do que o da geometria;
nem tampouco se discutem as mágicas dos
prestidigitadores, o comércio com as almas .
dos mortos, as práticas da astrologia, e até
essa ridícula procura da pedra filosofal; tudo
se admite hoje sem oposição. Basta-nos saber
306 Cícero.
307 Ao ensino, em particular da filosofia.
que Marte se localiza no triângulo formado
pelas linhas da mão, Vênus, no polegar e Mer-
cúrio, no mindinho: se a linha do destino se
prolonga até a protuberância do indicador, é
sinal de crueldade; se pára no pai-de-todos e a
linha da cabeça faz com a da vida um ângulo à
mesma altura, é sinal de morte violenta; se na
mulher essa linha da cabeça não cruza a linha
da vida, tem-se um indício de sua inclinação
para os prazeres da carne. Com uma tal ciên-
cia, tomo-vos como testemunha, um homem
não pode deixar de adquirir reputação e ser
favoravelmente recebido na sociedade. :
Dizia Teofrasto que o saber do homem guia-
do pelos sentidos podia até certo ponto discer-
nir as causas das coisas; mas que se remon-
tasse às causas primeiras e essenciais devia
parar, em virtude de sua fraqueza e das dificul-
dades com que depararia. É mais agradável a
opinião intermediária segundo a qual nosso
saber pode levar-nos ao conhecimento de cer-
tas coisas, mas nossa perspicácia tem limites
além dos quais é-lhe temerário aventurar-se. É
uma maneira de ver plausível e proposta por
gente sensata. Mas não é fácil assinar limites a
nosso espírito; ele é curioso e ávido, e consi-
dera não dever deter-se a cinquenta passos em
lugar de mil, porquanto a experiência lhe mos-
trou que se um se malogra outro vence; que o
que era desconhecido em dado século, conhe-
cido se tornou no século seguinte; que as artes
e as ciências não se moldam de uma só vez,
mas se constituem aos poucos e tomam forma
em sendo sem cessar manuseadas e polidas;
assim o filhote do urso se forma em sendo sem
cessar lambido pela ursa. Não deixo de sondar
e verificar o que minha capacidade não conse-
gue descobrir; e, em amassando essa matéria
nova, virando-a e aquecendo-a, dou a quem
vem depois certa facilidade em tirar dela parti-
do, fazendo-a mais flexível e manuseável:
“assim a cera do Himeto que amolece ao sol e,
amassada pelo polegar, toma mil formas e tor-
na-se mais manuseável pelo uso”3º8, O
mesmo fará o segundo para o terceiro, e disso
resulta que não devo desesperar de minha inca-
pacidade, a qual é somente minha.
O homem e capaz de tudo e de nada. Se con-
fessa, como Teofrasto, sua ignorância das cau-
sas primeiras e dos princípios, que renuncie à
ciência, pois, em lhe faltando a base, seu racio-
cínio ruirá por terra. Discutir e investigar não
têm outro objetivo senão os princípios; se não
os atinge, tudo redunda em incerteza: “uma
coisa não pôde ser mais compreendida do que
outra, porque a compreensão é uma só para
todas”3ºº. Se a alma tivesse conhecimento de
308 Ovídio.
309 Cicero.
264
alguma coisa, é provável que seria primeira-
mente dela mesma; se conhecesse algo exterior
a ela, seria antes de tudo seu corpo, seu estojo;
e, no entanto, até agora os deuses da medicina
ainda lhe discutem a anatomia: “se Vulcano
era contra Tróia, Tróia tinha a seu favor
Apolo”31º. Até quando deveremos esperar
que se ponham de acordo! Estamos mais pró-
ximos de nós que a brancura da neve ou o peso
da pedra; se o homem não se conhece a si
mesmo, como pode conhecer sua força e por
que se encontra na terra? É por acaso que
temos alguma noção da verdade, e como é
igualmente por acaso que o erro penetra nossa
alma, não somos capazes de distinguir o certo
do errado, nem escolher entre um e outro.
Eram os acadêmicos mais prudentes em seu
juízo acerca de nossa ignorância. Achavam
demasiado categórico dizer “que não é mais
provável ser a neve branca do que preta”, nem
que não tivéssemos mais certeza do movi-
mento de uma pedra que atiramos do que da
oitava esfera. Para obviar a essa dificuldade,
que não pode realmente alojar-se em nossa
imaginação, embora estabelecessem que éra-
mos absolutamente incapazes de saber o que
quer que seja, e que a verdade se enterra nos
mais profundos abismos, onde a vista humana
não penetra, reconheciam que algumas coisas
podem apresentar maior aparência de verdade
do que outras; por isso admitiam que houvesse
preferência, mas não solução. Os pirrônicos
eram mais ousados em sua opinião e ao
mesmo tempo pareciam mais próximos da ver-
dade; pois que significa essa propensão dos
acadêmicos a preferir uma proposição a outra,
senão que há aparência maior de verdade
numa mais do que na outra? Ora, se nosso
espírito é capaz de perceber a forma, os traços,
a estatura da verdade, pode vê-la inteira tanto
quanto pela metade, em embrião e imperfeita.
Essa aparência de verdade, que nos induz a
tomar antes pela direita do que pela esquerda,
ampliemo-la; essa onça de probabilidade que
já fez inclinar a balança, multipliquemo-la por
cem ou mil, e a balança desequilibrar-se-á
definitivamente e nossa escolha se fará porque
a verdade há de aparecer em seu todo.
Mas como podem admitir a verossimilhança
se ignoram o que seja a verdade? Como saber
se uma coisa se assemelha a outra cuja essên-
cia desconhecemos? Ou podemos emitir um
juízo preciso ou não o podemos absoluta-
mente. Se falta a base de nossas faculdades
intelectuais e suscetíveis de sentir, se elas não
assentam em nada, se flutuam ao sabor dos
ventos, nosso juízo não nos conduzirá a coisa
310 Ovídio.
MONTAIGNE
alguma, quaisquer que sejam o objeto e as
aparências. O mais certo e seguro seria que
nosso entendimento se mantivesse sereno e
inflexível: “entre as aparências verdadeiras ou
falsas, nada determina o assentimento da
alma”?11. Que as coisas não se alojam em nós
com sua forma e sua essência, impondo-se por
si mesmas e com sua autoridade, bem o sabe-
mos; pois se assim fosse tudo produziria em
todos a mesma impressão; o vinho teria o
mesmo gosto na boca de um doente e de um
homem são, quem tivesse os dedos adorme-
cidos pelo frio acharia o ferro que maneja tão
duro quanto quem não os tivesse. As coisas
exteriores a nós alojam-se pois em nós como
nos compraz recebê-las. Por outro lado, se o
que recebemos o aceitássemos sem o alterar;
se os meios de que dispõe a humanidade fos-
sem suficientes para apreendermos a verdade
sem recorrer a elementos estranhos; em sendo
esses meios conhecidos de todos, a verdade
transmitir-se-ia de mão em mão, de uns a
outros, e aconteceria que, em tão grande núme-
ro, uma coisa houvesse ao menos em que, por
consenso universal, todos acreditassem. Ora, O
fato de não haver proposição que não seja dis-
cutida e controvertida ou não o possa ser, mos-
tra muito bem que, abandonado a si mesmo,
nosso julgamento não apreende claramente o
que apreende, porquanto o meu julgamento
não consegue que o de meu vizinho o aceite, o
que prova nitidamente que o concebo por ou-
tros meios que não os decorrentes de uma
força de concepção de que a natureza nos hou-
vesse a todos dotado igualmente.
Deixemos de lado essa infinita confusão de
opiniões, encontradiça entre os próprios filóso-
fos, e essa perpétua e universal discussão acer-
ca do conhecimento que temos das coisas, pois
é evidente que os homens, e os mais sábios e
sinceros, e os mais capazes, não estão de acor-
do acerca de nada, nem mesmo em que o céu
se encontra acima de nossas cabeças, por-
quanto os que duvidam de tudo duvidam disto
também. E os que negam possamos com-
preender o que quer que seja, negam que
compreendamos estar o céu nessa posição. E
essas duas opiniões, consistindo uma em duvi-
dar e outra em negar, são as mais fortes. Além
dessa inumerável diversidade de opiniões, é
fácil verificar, pela confusão em que nos joga e
a incerteza que todos sentem, que nosso julga-
mento não tem fundamento sólido. Quantas
vezes julgamos diversamente as coisas? Quan-
tas vezes madamos de idéias? O que hoje ad-
mito e creio, admito e creio na medida do pos-
sível; todas as nossas faculdades, todos os
211 Cícero.
ENSAIOS — II
nossos órgãos se apossam dessa opinião e por
ela respondem quanto podem; não poderia
aceitar outra verdade nem a conservar com
maior convicção; a ela dei-me por, inteiro. Mas
não me aconteceu, e não uma vez porém cem
ou mil, e diariamente, ter aceito do mesmo
modo alguma coisa que posteriormente consi-
derei falsa? Que ao menos nos tornemos sensa-
tos a expensas nossas! Se tantas vezes fui trai-
do por meu julgamento, se essa pedra de toque
é em geral defeituosa, se a balança está mal
regulada, que garantia a mais posso ter desta
vez? Não será tolice deixar-me enganar por
semelhante guia? E no entanto, ainda que o
destino nos leve a mudar quinhentas vezes de
idéia, a última, a atual será a verdadeira, a
infalível. Por esta sacrificaremos nossos bens,
a honra, a vida, a salvação: “a última nos des-
gosta da primeira e a desacredita em nosso
espírito”312, O que quer que nos preguem, o
que quer que aprendamos, é sempre preciso
lembrar que o homem o dá e o homem o rece-
be; a mão de um mortal oferece e a mão de um
mortal aceita. Só as coisas que vêm do céu têm
direito de persuasão e a indispensável autori-
dade; só elas trazem a marca da verdade, mas
nossos olhos não as distinguem se não as obte-
mos por nossos próprios meios. Essa santa e
grande imagem não elegeria domicílio em tão
miserável barraca, se Deus por especial favor
não a houvesse preparado para isso, não a
houvesse. transformado e fortificado com Sua
graça. Nossa condição, tão sujeita a desfaleci-
mento, deveria inspirar-nos mais moderação e
discrição em nossas variações; deveríamos
lembrar que, quaisquer que sejam as impres-
soes de nossa inteligência, muitas vezes são
“coisas falsas e que as percebemos com esses
mesmos instrumentos que amiúde se enganam.
E não há como estranhar que se enganem, pois
as menores ocorrências os falseiam e eimbo-
tam. E certo que nossa compreensão, nosso
Julgamento e as faculdades de nossa alma so-
frem de conformidade com o corpo e suas con-
tínuas alterações. Não temos o espírito mais
atilado, a memória mais viva, O raciocínio
mais rápido, quando a saúde é boa? A alegria
não nos predispõe a aceitar as impressões de
maneira diferente da tristeza? Crede que os
versos de Catulo ou de Safo agradem a um
velho avarento e rabugento tanto quanto a um
Jovem vigoroso e entusiasta?
Cleômenes, filho de Anaxandridas, estava
doente. Seus amigos censuravam-lhe a disposi-
ção de espírito e as idéias novas, que não lhe
eram habituais. “Naturalmente”, respondeu-
lhes, “pois não estou como quando me sinto
312 TLucrécio.
265
bem; e, estando diferente, diferentes são mi-
nhas opiniões e idéias.”
A gente da chicana, no tribunal, diz comu-
mente, falando de um criminoso que se apre-
senta a um juiz bem-humorado: “que aproveite
a sorte”. certo que as sentenças são por
vezes mais severas e rigorosas € por vezes
menos duras, atendendo a circunstâncias ate-
nuantes. E não há dúvida de que o julgamento
de quem as proferê e sofre da gota, ou anda
ciumento, ou acaba de ser roubado, se ressente
da disposição de espírito do juiz. O Areópago,
venerável senado, julgava à noite de medo que
a presença das partes influenciasse a justiça. O
próprio estado da atmosfera e a serenidade do
céu fazem que varie o nosso julgamento, o que
constata este verso grego, citado por Cícero:
“o estado de espírito dos homens, de dor ou de
alegria, varia cada dia que Júpiter lhes dá”.
Não são apenas as febres, a bebida, os aciden-
tes graves que nos abalam o juízo; as coisas
mais insignificantes o perturbam; e não se deve
estranhar, embora não o percebamos, que, se a
febre continua nos enfraquece a alma, altera-a
também a febre intermitente, guardadas as
proporções; se a apoplexia apaga totalmente a
luz de nossa inteligência, um defluxo incontes-
tavelmente a transforma. Por conseguinte, mal
se depara uma hora na vida em que nosso
juízo é normal. A tal ponto está nosso corpo
sujeito a constantes mudanças, e é movido por
tantas molas, que na opinião dos médicos
muito dificilmente ocorre não haver nenhuma
em mau estado.
E, para cúmulo, a menos que esteja no apo-
geu e já sem cura, não é fácil descobrir essa
doença que oblitera nosso julgamento, tanto
mais quanto a razão, sempre tão falha e
manca, se acomoda à mentira como à verdade;
o que faz que seja dificil saber quando se des-
regula e quando podemos confiar nela. Dou
esse nome de razão a essa aparência de juízo
que cada um forja em si mesmo e que a res-
peito de um mesmo assunto pode levar a cem
apreciações diversas e contraditórias, instru-
mento feito de chumbo e cera, que se estica e
dobra e se ajeita a todas as circunstâncias, a
todos os compromissos, e que um pouco de
habilidade basta para levar a amoldar-se a
quaisquer moldes. Por melhor que seja sua
intenção, se não se examinar de perto, o que
pouca gente faz, um juiz pode ser solicitado
pela benevolência (para com um amigo ou
parente) tanto quanto pela idéia de vingança.
Sem ir tão longe, uma simples tendência instin-
tiva o impele a uma predileção, ao escolher,
sem razão, entre dois objetos idênticos; um
imperceptível impulso qualquer pode atuar
sobre seu julgamento e o predispor favorável
266
ou desfavoravelmente a dada causa, forçando
a balança a pender para um lado ou outro.
Eu que me analiso, a fundo, e tenho os olhos
sempre voltados para mim mesmo, como quem
não tem muito que fazer alhures, “que não me
preocupo em absoluto com saber que rei tudo
abalou algures ou com que se alarma Tirida-
tes”313 mal ouso dizer as falhas e fraquezas
que percebo em mim. Tenho o pé tão pouco
seguro, fraqueja tão facilmente, titubeia tão
sem motivo, e minha vista é tão desregulada,
que em jejum me sinto melhor do que depois
de comer; se estou satisfeito com minha saúde,
se faz bom tempo, eis-me um homem amável;
se um calo me dói, fico aborrecido, desagra-
dável, inabordável; um cavalo cujo andar não
varia parece-me ora duro ora suave; o mesmo
caminho parece-me curto por vezes e por vezes
longo; segundo a hora, a forma de um objeto
ser-me-á agradável ou não; quero e não quero
empreender alguma coisa e o que me apetece
agora, contrariame depois. Mil agitações
inoportunas e acidentais verificam-se em mim;
ou sou tomado de melancolia ou de cólera; em
outro momento é a tristeza que me envolve,
mas logo a seguir a alegria vence. Quando
pego um livro, certos trechos que considero
excelentes me impressionam e encantam; de
outras feitas folheio esse mesmo livro e procu-
ro em vão algo que me deleite, tudo se me afi-
gura informe. Nos meus próprios escritos nem
sempre redescubro o meu pensamento, não sei
mais o que desejei exprimir e não raro me
esforço por corrigilo, modificá-lo, pois o
significado primeiro, por certo mais interes-
sante, me escapa. Não faço senão ir e vir. Meu
Julgamento não segue uma linha reta, flutua ao
léu: “como um frágil barco surpreendido em
alto mar por um vento furioso”?'!*. Muitas
vezes, o que faço de bom grado como exercício
defendendo uma tese contrária à minha opi-
nião, absorvo-me a tal ponto na tarefa, que
não mais percebo as razões de minha verda-
deira idéia e a abandono. Empurro-me, por
assim dizer, para o lado de minhas tendências.
E deixo-me levar por elas.
Todos poderiam dizer o mesmo, se se estu-
dassem como eu. Os que falam em público
sabem muito bem que a emoção os induz a
acreditarem no que afirmam. Quando estamos
com raiva, aplicamo-nos melhor na defesa de
nossa idéia; encarnamo-la em nós, abraçamo-
la com veemência e a consideramos mais justa
do que quando estamos calmos e de sangue
frio. Expomos uma questão a um advogado;
sentimo-lo hesitante e sem convicção: é-lhe
313 Horácio.
31º Catulo.
MONTAIGNE
indiferente defender esta ou aquela causa. Se o
pagamos bem para se colocar do nosso lado,
começa a interessar-se. E se sua vontade se
aquece, eis que se aquecem ao mesmo tempo
sua razão e seu saber e a verdade aparente
deixa de lhe inspirar a menor dúvida. Persua-
de:se de que assim é, e o crê. Não sei mesmo se
o ardor que nasce do despeito e da obstinação
que experimentamos ante a opinião e a violên-
cia do magistrado, a excitação causada pela
ameaça do perigo, ou ainda o desejo de ganhar
prestígio, não terão levado certo personagem
(que poderia apontar) a subir à fogueira para
sustentar sua opinião, pela qual, em liberdade
e no meio de seus amigos, não se expusera a
queimar um dedo.
Os abalos e golpes que atingem nossa alma
por causa das paixões do corpo, atuam forte-
mente sobre ela. Maiores ainda são os que lhe
provêm de suas próprias paixões, as quais
tanto a instigam que quase poderíamos afirmar
que, sem elas, permaneceria inerte, como um
navio em pleno mar quando o vento o não
assiste. Quem, a exemplo dos peripatéticos,
defendesse essa tese, não nos traria prejuízos,
pois é sabido que em sua maioria as belas
ações da alma procedem de nossas paixões e
precisam de seu impulso. Não sustentamos que
a valentia se manifesta melhor sob a influência
da cólera? “Ajax foi sempre bravo, e mais
bravo ainda em seu furor”*! 5. Não é quando
nos zangamos que melhor perseguimos o mal-
feitor ou inimigo? E há quem pense que os
advogados provoquem a cólera dos juizes tão-
somente para obter ganho de causa.
O desejo imoderado das grandes coisas,
meta de Temistocles e de Demóstenes, foi o
que induziu os filósofos a trabalhar, viajar por
países longínquos, e é o que nos conduz à
honra, ao saber, à saúde, a tudo o que é útil. A
covardia da alma, que faz que suportemos o
tédio e o desprazer, dá à nossa consciência a
possibilidade de se arrepender, de se resignar
ante os flagelos que Deus nos envia para nos
punir e ante os que resultam de uma adminis-
tração corrupta. A compaixão predispõe à
clemência; a prudência de que nos valemos
para atender à nossa conservação e nos dirigir,
é despertada em nós pelo temor. E quantas
belas ações se devem à ambição! Quantas à
alta opinião que temos de nós mesmos! Em
suma, não há virtude mais ou menos elevada e
admirável sem alguma agitação desordenada
da alma. Não seria essa uma das razões pelas
quais os epicuristas isentaram Deus de quais-
quer cuidados com os nossos negócios huma-
nos? Tanto mais quanto os efeitos de sua bon-
315 Cícero.
ENSAIOS — II
dade não podem exercer-se sobre nós sem que
perturbem o repouso de nossa alma com a
movimentação de nossas paixões, as quais são
como picadas estimulantes que a incitam aos
atos virtuosos. Ou terão esses filósofos pensa-
do de outro modo e considerado as paixões
como tempestades que, uma vez desenca-
deadas, desviam orgulhosamente a alma de
sua quietude? “Assim como entendemos por
mar calmo a ausência do menor vento sobre
suas ondas, também consideramos que a alma
está serena quando nenhuma paixão a como-
ve?31 6.
Que diferenças de sentido e razão apresen-
tam nossas paixões em sua diversidade e quan-
tas idéias dessemelhantes disso resultam? Que
segurança nos oferece uma coisa tão instável,
tão imóvel, sobre a qual a confusão reina, que
só se movimenta por imposição alheia? Se
nosso julgamento depende até da enfermidade,
e das perturbações que experimentamos; se é
preciso que seja presa da loucura para receber
a impressão das coisas, como poderemos con-
fiar nele?
Parece-me demasiado temerário assegurar a
filosofia que os homens não produzem suas
maiores obras, as que mais os aproximam da
divindade, senão quando fora de si, e furiosos.
Assim nos aperfeiçoamos pela privação da
razão, ou seu embotamento! Os caminhos
naturais que levam ao gabinete dos deuses são
pois a loucura e o sono! Linda constatação ! E
pela desordem das paixões que nos tornamos
virtuosos, pelo seu aniquilamento na loucura
ou no sono que nos transformamos em profe-
tas e adivinhos! Nunca estive tão inclinado a
acreditá-lo. Cedendo à inspiração irresistível
da verdade santa, o espírito filosófico vê-se
forçado a reconhecer, contra o que sustentava,
que a trangiilidade, a calma, a saúde que se
esforça por dar à alma, não constituem para
ela seu melhor estado. Acordados, estamos
mais adormecidos do que se dormissemos;
nossa sabedoria é menos sábia do que a loucu-
ra; nossos sonhos valem mais do que nossos
raciocínios; o pior lugar que podemos ocupar
está em nós mesmos. Mas não pensa a filoso-
fia, por outro lado, que podemos imaginar que
a voz que torna o espírito, quando separado do
corpo, tão lúcido, grande, perfeito, enquanto
mergulha nas trevas quando encarnado, não é
a voz que parte do espírito do homem terreno
ignorante e privado de luz? Logo, como con-
fiar nela?
Como sou mole por temperamento, e pesa-
do, não tenho grande experiência dessas vio-
lentas agitações que se apoderam subitamente
316 Cicero.
267
de nossa alma, sem lhe dar a possibilidade de
se reconhecer. Mas essa paixão que dizem ser
provocada pela ociosidade e atinge os jovens,
embora se desenvolvendo lentamente, dá bem
a idéia, aos que procuraram opor-se a seu pro-
gresso, do alcance da mudança e alteração que
experimenta o julgamento. Esforcei-me outro-
ra por contê-la e combatê-la em mim, pois não
me comprazo nesse vício, e só cedo quando me
arrasta. Sentia essa paixão nascer e desenvol-
ver-se, desabrochar-se em mim e me possuir. O
efeito produzia-se à maneira da embriaguez: o
aspecto das coisas mudava; e via as dificul-
dades do empreendimento se acertarem e se
tornarem fáceis de vencer; minha razão e
minha consciência cederam. Em seguida, ex-
tinto o fogo, de imediato, com a rapidez do
relâmpago, minha alma revelava outros objeti-
vos, modificava-se, meu julgamento mudava;
as dificuldades em voltar atrás pareciam
aumentar e tornar-se invencíveis; as mesmas
coisas tinham outro gosto, e aspecto, diferentes
daqueles que sob a influência do desejo antes
apresentavam. Qual desses estados é mais
verdadeiro? Pirro declara não o saber.
Nunca estamos inteiramente isentos de
enfermidades. O fogo da febre alterna com o
frio dos tremores; dôs efeitos de uma ardente
paixão, caímos nos de outra excessivamente
fria. Quanto mais nos lançamos à frente tanto
mais recuamos a seguir: “assim o mar, em seu
duplo movimento, ora se precipita em direção
da costa, cobre o rochedo de espuma e se
expande ao longe pelas praias; ora recua carre-
gando os seixos que trouxera, e foge, deixando
a praia descoberta”3 17.
Conhecendo a instabilidade de meu julga-
mento, reagi e, excepcionalmente, cheguei a
uma certa continuidade de opinião, conser-
vando mais ou menos intatas as que a princi-
pio tivera. Pois, qualquer que seja a aparência
de verdade que pode ter a novidade, não mudo
de medo de perder na troca. Incapaz de esco-
lher por mim mesmo, confio na escolha de ou-
trem e atenho-me às condições em que Deus
me colocou, sem o que não poderia impedir-
me de variar amiúde. Assim é que, com a
graça de Deus, conservei inteiras, sem inquie-
tações nem casos de consciência, as antigas
crenças de nossa religião, a despeito de tantas
seitas e divisões observadas em nosso século.
As obras antigas, refiro-me às boas obras, sé-
rias e de conteúdo, atraem-me e influem gran-
demente em mim. A que tenho à mão é sempre
a que me interessa mais; acho que cada uma
por sua vez está com a verdade, mesmo quan-
do as teses são antagônicas. Essa facilidade
317 Virgílio.
268 | MONTAIGNE
que possuem os bons autores de tornar veros-
símil o que apresentam — e não há nada que
não se esforcem por pintar com cores susceti-
veis de ludibriar uma simplicidade igual à
minha — mostra de maneira evidente a fra-
queza de suas provas. O céu e as estrelas
foram durante três mil anos considerados em
movimento. Todos acreditaram, até que Clean-
tes de Samos ou, segundo Teofrasto, Nicetas
de Siracusa, se lembrou de sustentar que a
terra é que girava em torno de seu eixo,
seguindo o circulo oblíquo do zodíaco; e em
nosso tempo Copérnico demonstrou tão bem
esse princípio, que dele se vale em seus cálcu-
los astronômicos. Que concluir, senão que não
temos que nos preocupar com saber qual dos
sistemas é o verdadeiro? Quem sabe se daqui a
mil anos outro sistema não os destruirã a
ambos? “Assim, o tempo modifica o valor das
coisas; o objeto apreciado cai em descrédito,
enquanto o desprezado passa a ser apreciado;
desejam-no dia a dia mais, é admirado e ocupa
o primeiro lugar na opinião dos homens” 318,
Temos, portanto, quando se apresenta uma
nova doutrina, razões de sobra para desconfiar
e lembrar que antes prevalecia a doutrina
oposta. Assim como esta foi derrubada pela
recente, no futuro uma terceira substituirá
provavelmente a segunda. Antes que os princi-
pios de Aristóteles tenham tido crédito, outros
existiram que também davam satisfação à
razão humana. Que carta de recomendação
trazem os últimos? Que privilégio especial lhes
garante que as nossas invenções os preserva-
rão eternamente? Não estão mais a salvo de
serem rejeitados quanto os outros. Quando me.
atiram um argumento novo, ponho-me a pen-
sar que o que não pude resolver, outro resolve-
rá e que dar fé a todas as aparências de que
não nos podemos defender é grande simplici-
dade. Isso levaria o comum dos mortais — e
nós todos o somos — a ver sua fé girar de
todos os lados como um cata-vento, porquanto
a alma maleável e plástica receberia impres-
sões sucessivas, apagando sempre a última os
vestígios das precedentes. Quem se considera
sem argumentos diante das doutrinas novas,
deve responder, como é de uso, que vai consul-
tar seus conselheiros ou reportar-se aos mais
sábios dentre os que o educaram.
Hã quanto tempo existe a medicina? Afir-
ma-se, entretanto, que um inovador chamado
Paracelso modifica e destrói as regras antigas
e sustenta que até hoje só serviram para matar.
Creio que provará facilmente suas afirmações,
mas confiar-lhe minha vida para que ateste a
superioridade de seus métodos seria grande
318 Lucrécio.
estupidez. Não se deve confiar em todos, diz a
máxima, porque todos são capazes de dizer
qualquer coisa que lhes passe pela cabeça. Um
homem assim predisposto a inovar e reformar
dentro do terreno da física, dizia-me, não faz
muito, que os antigos se haviam enganado
acerca da natureza e dos efeitos dos ventos, o
que me provaria se o quisesse escutar. Depois
de ouvi-lo pacientemente desenvolver argu-
mentos muito plausíveis, indaguei: “Como
então os que navegavam aplicando os princi-
pios de Teofrasto conseguiam ir para o Oci-
dente quando os ventos sopravam em direção
do Oriente? Iam de lado ou recuando? — Efei-
tos do acaso, respondeu. O que é indiscutível é
que laboravam em erro. — Pois então, repli-
quei, prefiro os efeitos ao raciocínio.” Ora, são
coisas não raro antagônicas. Afirmaram-me
que em geometria (ciência que pretende ter
alcançado o mais alto grau de exatidão) há
demonstrações incontestáveis que contradizem
tudo o que a experiência declara verdadeiro.
Assim é que Jacques Peletier me dizia, em
casa, haver descoberto duas linhas que embora
se dirigissem uma na direção da outra, aproxi-
mando-se sem cessar, jamais se encontrariam,
nem mesmo no infinito, o que demonstrava.
Em tudo empregam os pirrônicos unicamente
seus argumentos e seu raciocínio para comba-
ter as aparências sob as quais se apresentam, e
é maravilhoso ver até onde a sutileza de nossa
razão obedece ao desejo de lutar contra a
evidência; eles demonstram que não nos mexe-
mos, não falamos, que o peso e o calor não
existem; e isso com um vigor de argumentação
que nos convence da veracidade das coisas
mais inverossimeis.
Ptolomeu, que foi personagem de realce,
determinara os limites de nosso mundo; os
filósofos antigos pensavam nada ignorar a esse
respeito acerca do que existia, salvo algumas
ilhas longínquas que podiam ter escapado às
suas investigações; e, há mil anos, fora agir
como os pirrônicos pôr em dúvida o que então
ensinava a cosmografia e as opiniões aceitas
por todos; referir-se à existência de antípodas
era heresia. E eis que neste século se descobre
um continente de enorme extensão, não uma
ilha, mas uma região quase igual em superfície
as que conhecíamos. Os geógrafos de nosso
tempo não deixam de afirmar que agora tudo é
conhecido: “pois nos comprazemos com o que
temos, o que nos parece superior ao resto”31º.
Pergunto então se, visto que Ptolomeu se enga-
nou outrora acerca do que constituía o ponto
de partida de seu raciocínio, não seria tolice
acreditar hoje resolutamente nas idéias de seus
319 TLucrécio.
ENSÁIOS — II
sucessores, e se não é provável que esse grande
corpo denominado o “mundo” seja bem dife-
rente do que julgamos?
Platão sustenta que sua fisionomia se modi-
fica de todas as maneiras: que o céu, as estre-
las, o sol mudam por vezes inteiramente o
movimento que os vemos realizar, tornando-se
o Oriente, Ocidente. Os sacerdotes do Egito
contaram a Heródoto que desde seu primeiro:
rei, onze mil e tantos anos atrás (e mostra-
vam-lhe efígies e estátuas deles, executadas no
tempo em que viviam) a órbita do sol variara
quatro vezes; que o mar e a terra se trans-
formam alternativa e reciprocamente; que a
criação do mundo é indeterminada, o que tam-
bém dizem Aristóteles e Cicero. E é também a
opinião de um dos nossos sábios, o qual,
apoiando-se no testemunho de Salomão e
Isaias, apresenta o mundo como tendo sempre
existido, sujeito à morte mas renascendo após
transformações; o que responde à objeção de
que Deus foi em certos momentos um criador
sem criaturas, que por vezes permaneceu no
“Ócio, deste saindo para retocar Sua obra e
“estando assim Ele próprio sujeito a mudanças.
Na mais famosa escola da Grécia o mundo
é considerado um deus, criado por outro deus
mais poderoso. Constitui-se de um corpo e de
uma alma; esta ocupa o centro de onde se
expande para a periferia em obediência às mes-
mas leis que regulam os acordes musicais; esse
mundo tem os apanágios da divindade, é feliz,
grande, sábio, eterno; nele se encontram outros
deuses: a terra, o mar, Os astros, Os quais se
mantêm em perpétua e harmônica agitação,
espécie de dança divina, ora se encontrando,
ora se afastando, escondendo-se e se exibindo,
mudando a ordem em que perambulam, ora
uns à frente dos outros, ora atrás. Heráclito
considerava o mundo um braseiro incandes-
cente, destinado a inflamar-se e consumir-se
um dia, para renascer novamente. A
Quanto aos homens, diz Apuleio, são mor-
tais como indivíduos e imortais como espécie.
Alexandre enviou à sua mãe a narrativa de um
sacerdote egípcio, tirada dos monumentos, que
testemunhava a antiguidade da nação, a qual
se perde no infinito, e relatava a origem autên-
tica e o desenvolvimento de outros países. Ci-
cero e Diodoro dizem que em seu tempo os
caldeus tinham documentos que remontavam a
quatrocentos e tantos mil anos. Aristóteles,
Plínio e outros, que Zoroastro vivera seis mil
anos antes de Platão. Este último afirma que
os habitantes de Saís possuem arquivos de oito
mil anos e que a construção de Atenas ocorreu
mil anos antes da de Saís. Epicuro acha que o
que observamos na terra existe igualmente e
em idênticas condições em muitos outros mun-
269
dos. E uma tal assertiva ele a houvera feito
com mais segurança ainda se lhe tivesse sido
dado conhecer o novo mundo das Índias
Ocidentais, tão semelhante ao nosso de hoje e
de outrora.
- Em verdade, considerando o que sabemos
de diversas práticas em curso nesta terra, fi-
quei muitas vezes maravilhado com ver que
em tempos e lugares remotos se encontrem, em
número tão grande, opiniões populares e cos-
“tumes e crenças selvagens tão semelhantes,
embora não pareçam ter origem no estado
atual de nossa inteligência. O espírito humano
realiza realmente grandes milagres, mas essa
correlação tem ainda algo mais estranho pela
similitude de certos nomes e de mil outras coi-
sas; pois neste mundo novo, vêem-se povos
que nunca ouviram falar de nós, e entre os
. quais se pratica a circuncisão. Alguns há cujo
governo cabe às mulheres, e entre eles obser-
vam-se o jejum e a quaresma, bem como a cas-
tidade. Descobriram-se outros que possuiam a
cruz como, simbolo; outros honram os mortos;
outros, ainda, usam a cruz de Santo André
como proteção contra as alucinações noturnas
e a colocam sobre os leitos das crianças para
que as proteja contra feitiços; em certa nação
no interior das terras, encontrou-se uma gran-
de cruz de madeira e que era adorada como
deus das chuvas. Observaram-se práticas peni-
tenciárias exatamente iguais às nossas, O uso
de mitras, o celibato: eclesiástico, a arte da
adivinhação pelo exame das vísceras dos ani-
mais sacrificados, a abstinência em matéria de
carnes, e peixes, o emprego pelos sacerdotes de
uma língua especial. Observou-se também a
existência da idéia de um primeiro deus expul-
so por seu irmão mais moço, bem como a que
os homens foram criados no gozo de todas as
comodidades imaginárias, de que depois se
viram privados em virtude do pecado; a de que
“foram expulsos do território que ocupavam,
tendo piorado as suas condições; a de que
outrora foram submergidos por uma inunda-
ção provocada pelas águas do céu e só algu-
mas famílias escaparam subindo ao alto das
montanhas e refugiando-se em cavernas com
animais de diversas espécies, tapando as entra-
das para se salvarem. Quando perceberam que
as chuvas tinham cessado, fizeram os cães sai-
rem, os quais voltaram limpos e molhados,
deduzindo eles que as águas não haviam bai-
xado ainda. Pouco depois soltaram outros que
voltaram enlameados; sairam então eles pró-
prios a fim de repovoar o mundo que encon-
traram cheio de serpentes unicamente.
Entre alguns povos existe a crença no juízo
final; por isso, sentiam-se profundamente ofen-
didos quando os espanhóis, escavando os
270 MONTAIGNE
cemitérios, a fim de arrecadar tesouros, disper-
savam os ossos dos túmulos, pois esses ossos,
espalhados ao acaso, dificilmente se juntariam
e se reconstituiriam.
O comércio aí se pratica por meio de trocas
e existem feiras e mercado com tal objetivo.
Anões e individuos disformes são empregados
no divertimento dos príncipes. A caça com fal-
cões ou pássaros análogos é praticada. Há
impostos abusivos. A arte da jardinagem deco-
rativa é conhecida. E conhecidas são as dan-
ças, as peloticas, a música instrumental, os
brasões, os jogos de bola, de dados e de azar, a
que se entregam apaixonadamente, a ponto de
jogarem a própria liberdade. A prática da
medicina compreende exclusivamente atos de
magia e encantamento. A escritura compõe-se
de hieróglifos. Encontra-se a crença em um
Deus que desceu à terra e viveu na castidade,
Jejuando e fazendo penitência, pregando a lei
natural e a observância do culto, e que desapa-
receu sem ser atingido pela morte que a todos
atinge. Acreditam em gigantes. Usam bebidas
suscetíveis de provocar a embriaguez e bebem
até o estado de inconsciência. Dispõem de
omatos religiosos com imagens de caveiras e
ossos, de àgua benta, de mantos e fazem asper-
soes. Mulheres e servidores disputam a honra
de morrer com o marido ou senhor. O primo-
gênito herda tudo o que possui o pai; os outros
nada percebem e devem obedecer. É costume
que os que se designam para o desempenho de
tais ou quais cargos mudem de nome. Asper-
gem as crianças recém-nascidas com um
pouco de cal, dizendo: vens do pó, ao pó volta-
rás. Praticam a arte dos augúrios.
Esses vagos simulacros de nossa religião, '
que se observam em certos exemplos, bem
demonstram sua dignidade e divindade. Não
somente penetrou as nações infiéis de nosso
hemisfério que a imitaram em parte, mas ainda
os bárbaros, como por inspiração sobrenatural
que a leva a espalhar-se pelo mundo inteiro.
Encontra-se até a noção de purgatório, mas
sob outra forma: o que entregamos ao fogo, aí
se entrega ao gelo e esses povos imaginam que
as almas são punidas e purificadas com o
sofrimento do frio. Isso me recorda outra
divergência nas idéias, assaz divertida: en-
quanto certas tribos apreciam a circuncisão
como os maometanos e judeus, outras, ao
contrário, com a ajuda de cordões fixados à
pele, esticam o prepúcio até que cubra a extre-
midade do pênis como se temessem o contato
do ar. Outra divergência se nota nos festejos e
homenagens aos reis. Em tais circunstâncias,
enfeitamo-nos com nossas vestimentas mais
nobres. Pois em alguns países, a fim de eviden-
ciarem a superioridade do soberano € sua pró-
pria submissão, seus súditos apresentam-se
vestidos de miseráveis trapos, e ao entrar no
palácio cobrem suas roupas com um manto
rasgado, ressaltando assim a personalidade do
senhor, resplendente entre os demais. Mas
continuemos.
Se a natureza encerra, como o faz com
todas as coisas, dentro de suas regras naturais,
as crenças, Os Juízos, as opiniões dos homens;
se suas evoluções são determinadas, se têm seu
momento, se nascem e morrem como os repo-
lhos; se o céu os agita e varre à vontade, que
autoridade segura e permanente lhes atribuire-
mos? A experiência prova-nos que a nossa
organização decorre do ar, do clima, do lugar
de nascimento; que não somente a nossa tez, a
nossa estatura, a nossa compleição, nossos
meios físicos disso dependem mas ainda as
faculdades de nossa alma; “o clima não contri-
bui apenas para o vigor do corpo, porém igual-
mente para o do espírito”, diz Vegécio, e por
isso escolheu a deusa que fundou Atenas um
clima em que os homens se tornam mais sá-
bios, como o ensinaram a Sólon os sacerdotes
egípcios: “o ar de Atenas é leve, o que dá aos
atenienses mais finura; o de Tebas é pesado,
por isso têm os seus habitantes mais vigoroso
o espírito”32º, Por conseguinte, assim como
os animais apresentam diferenças desde o
nascimento, os homens nascem mais ou menos
belicosos, justos, temperantes, dóceis; aqui
amam o vinho, alhures o roubo e a libertina-
gem; aqui propendem para a superstição; alhu-
res para a incredulidade; aqui apreciam a
liberdade, alhures a servidão; são sábios ou
artistas, grosseiros ou espirituosos, obedientes
ou rebeldes, bons ou maus segundo a in-
fluência do lugar onde vivem. Se os transplan-
tam, suas tendências modificam-se como ocor-
re com as árvores. Por esse motivo Ciro não
autorizou os persas a abandonarem seu país
duro e montanhoso a fim de emigrar para
outro suave e plano, dizendo que as terras
fecundas e faceis engendram homens sem ener-
gia, espíritos estéreis. Quando vemos sob algu-
ma influência celeste florescer uma determi-
nada arte, uma crença substituir-se a outra, tal
século produzir tais temperamentos e predis-
por a humanidade a tomar tal ou qual partido,
o espirito humano mostrar-se ora vigoroso, ora
estiolado, como se observa com as terras de
cultura, onde as prerrogativas de que nos jac-
tamos? Se um sábio pode ter desilusões, cem
homens e nações inteiras o podem também, e,
em verdade, a meu ver, o gênero humano intei-
ro se engana hã séculos acerca disto ou daqui-
lo. Que certeza podemos alimentar de que por
320 Cícero.
ENSAIOS — II 21
vezes cesse de se enganar e que no século atual
não esteja laborando em erro?
Entre outros testemunhos da fraqueza de
nosso espírito um não deve ser omitido:
mesmo quanto ao que deseja, o homem não
sabe escolher. Não é apenas quando estamos
de posse de alguma coisa que não sabemos o
que nos satisfaz; é também quando nossa
imaginação trabalha sozinha e que nos basta
desejar. Deixemo-la cortar e costurar à vonta-
de, não chegará sequer a designar o que ambi-
ciona: “sabe a razão o que deve temer ou dese-
Jar? Quando, jamais, concebeu algo de que
não se arrependesse mais tarde, mesmo se os
fatos atendem ao que esperava 2321 Isso fazia
Sócrates pedir somente aos deuses o que eles
sabiam ser-lhe útil. E a prece dos lacedemô-
nios, pública ou privada, visava simplesmente
obter o bom e o belo que bem entendessem os
deuses. “Pedimos uma esposa e queremos
filhos; mas só Deus sabe como devem ser esses
filhos e essa esposa”222. Nas suas súplicas,
diz o cristão a Deus: “seja feita a vossa vonta-
de”, e assim evita a desventura que os poetas
atribuem a Midas. Este pedira aos deuses que
tudo o que tocasse se transformasse em ouro.
Deus quis, e seu vinho virou ouro, e seu pão foi
de ouro, até as penas de seu leito e sua camisa,
e suas vestes, e ele se acabrunhou com a satis-
fação dada a seu desejo; pois o presente era
insuportável. Foi-lhe necessário suplicar nova-
mente a fim de que cessassem os efeitos de sua
solicitação atendida: “espantado com mal tão
inesperado, rico e indigente a um tempo, quise-
ra fugir às suas riquezas e se horrorizava com
o objeto de suas súplicas”* 23,
Eu mesmo, na mocidade, pedi ao destino,
entre outros favores, a Ordem de São Miguel;
era então a mais insigne condecoração da
nobreza francesa e muito raramente concedi-
da. Deu-ma o destino, mas em condições
divertidas; em vez de fazer com que me ele-
vasse para obtê-la, trouxe-a a mim e mesmo
mais baixo.
Cléobis e Biton, Trofônio e Agamedes,
tendo pedido, os primeiros a sua deusa e os ou-
tros a seu deus, uma recompensa digna de sua
devoção, receberam como presente a morte.
Eis como o que pensam as potências divinas
de nossa felicidade, difere muito do que imagi-
namos! Deus poderia outorgar-nos riqueza,
honrarias, vida e até saúde, e isso nos ser por
vezes prejudicial, pois o que nos agrada nem
sempre nos é salutar. Se em vez de nos curar,
envia-nos a morte ou uma agravação de nossos
321 Juvenal.
322 Id.
323 Ovídio.
males: “tua vara e teu bastão consolaram-
me”32+4 assim o faz porque é o que em sua
sabedoria lhe dita sua providência, a qual sabe
exatamente o que nos falta. E nós não o pode-.
mos saber. E o devemos ter em muito boa
conta, vindo de mão tão sábia e bondosa: “se
queres um bom conselho, deixa aos deuses o
cuidado do que te convém e te é útil; querem
mais ao homem do que este a si mesmo”325.
Pedir-lhes honrarias, cargos, é pedir-lhes que
nos joguem na batalha ou em uma partida de
dados ou em qualquer outra coisa cujo resul-
tado desconhecemos e seja duvidoso.
Não há assunto que provoque controvérsias
mais violentas entre os filósofos do que o sobe-
rano bem. Em que consiste? Varro afirma que
duzentas €e oitenta e oito seitas nasceram dessa
questão. “Ora, desde que não concordemos
acerca do soberano bem, nossas opiniões
“divergirão a respeito de toda a filosofia”? 28.
“Parece-me ver três convivas de gostos dife-
rentes; que lhes dar? Que não lhes dar? Privas
um do que ele aprecia e o que ofereces aos dois
outros lhes desagrada”* 27. Eis a resposta que
a natureza deveria dar a suas discussões. Uns
acham que nosso bem soberano está na virtu-
de; outros na volúpia; outros que ele consiste
em deixar que a natureza opere; outros o
encontram na ciência; outros na ausência de
sofrimento; outros em não se deixar levar pelas
aparências. A esta última maneira de ver,
liga-se aquela do tempo de Pitágoras: “nada
admirar. Numício, é quase o único meio de
assegurar a felicidade”*28, objetivo visado
pela seita de Pirro. Aristóteles qualifica de
magnitude nada admirar; e Arcesilau dizia que
o bem consiste em ter um julgamento reto e
inflexível, junto a tudo o que contribui para
assim o manter. E que o vício e o mal resultam
das concessões e aplicações que lhes determi-
namos. E verdade que, apresentando essas
proposições como isentas de dúvida, Arcesilau
fugia ao procedimento habitual dos pirrônicos.
Quando estes dizem que o soberano bem é a
ataraxia, isto é, a calma perfeita, a imobilidade
do julgamento, não o querem afirmar de
maneira absoluta. O mesmo estado de espírito
que os impele a evitar um precipício, preser-
var-se do frio da noite, leva-os a emitir essa
idéia e rechaçar outra; a afirmação carece para
eles de consequência.
Como eu desejaria que, enquanto vivo,
alguém, Justo Lípsio, por exemplo, o homem
324 Salmos, XXII, 5.
325 Juvenal.
326 Cícero.
327 Horácio.
328 Id.
272
mais sábio que possuímos, culto, judicioso,
primo-irmão, desse ponto de vista, de meu
Tournebus, tivesse vontade, saúde e lazeres
para coligir e classificar, por categorias, com
toda a sinceridade, as opiniões dos filósofos
antigos acerca de nosso ser e nossos costumes,
bem como as controvérsias de que foram obje-
to, o crédito de que gozaram. E também como
seus autores aplicaram tão memoráveis e edifi-
cantes preceitos em sua vida. Seria uma obra .
bela e útil!
A que confusão chegariamos se buscás-
semos em nós mesmos uma orientação para a
nossa conduta! O que a razão aconselha, e
com aparência de verdade, é que cada qual
observe as leis de seu país. É a opinião de Só-
crates, inspirada, diz ele, pela divindade. E que
quer esta dizer com isso, senão que nossó
dever se subordina ao acaso? Se o homem
conhecesse a justiça'e. o certo, se tivesse em
mira tipos reais, se os pudesse representar em
sua essência, não os faria consistir na obe-
diência a tais ou quais costumes; não seria na
fantasia dos persas ou indianos.que se con-
substanciariam. Nada mais do que as leis está
sujeito a variações contínuas. Desde que rrasci,
vi mudarem três ou quatro vezes as dos ingle-
ses, e não somente quanto à política interna,
que se admite não ser fixa, mas também com
referência ao ponto mais importante de todos:
a religião. Sinto-me envergonhado e despei-
tado, porquanto nossa religião já teve ligações
com esse país e em minha família ainda so-
bram vestígios de antigo parentesco com esse
povo. Em nossa província, aqui mesmo, vi atos
que constituíam crimes passíveis de pena de
morte tornarem-se legais. E atualmente, obe-
dientes a um partido, estamos expostos, segun-
do os azares da guerra, a nos tornarmos um
dia criminosos de lesa-humanidade e divinda-
de. Pois se o partido adverso triunfasse, as
idéias contrárias prevaleceriam e nossa justiça
passaria a ser injustiça. Não podia aquele deus
da antiguidade mais claramente mostrar a que
ponto o homem ignora o ser divino, e ensinar-
lhe que sua religião era produto da imagina-
ção, útil apenas à consolidação da sociedade,
quando declarava aos que o consultavam “que
o verdadeiro culto consiste em-que cada qual
obedeça aos usos e costumes locais”. Quanto
devemos ser gratos à bondade de nosso sobe-
rano Criador por nos haver esclarecido acerca
da tolice de nossa fé em tais cultos e por ter
feito que nossa crença assente hoje no alicerce
de Sua palavra sagrada!
Neste ponto capital a filosofia diz-nos que
sigamos as “leis de nosso pais”, isto é, esse
mar agitado das opiniões de um povo ou de
um príncipe que pintam a justiça com tão
MONTAIGNE
variegadas cores e a transformam segundo
suas paixões. Meu juízo não tem flexibilidade
bastante para aceitar tal solução. Em que con-
siste esse bem que amanhã já o não será e que
a simples travessia de um rio modifica? Que
verdade: será essa que é uma aquém e outra
além das montanhas? São divertidos os que, a
fim de outorgar maior autenticidade às leis,
dizem que as há imutáveis, perpétuas, a que
chamam leis naturais, as quais seriam inatas
no homem e em número de três, segundo uns, €
de quatro segundo outros; e outros afirmam
que existem mais, e outros menos, sinal revela-
dor de ser a dúvida permitida, aqui como alhu-
res. Infortunados! Pois não posso qualificar
senão como infortúnio o fato de, nesse número
infinito de leis, não haver ao menos uma por-
ventura que o consenso geral aceite como uni-
versal. São tão desgraçados, que dessas três ou
quatro leis escolhidas nenhuma só há que não
seja controvertida e negada, e não apenas por
um povo mas por muitos. Ora, a aceitação de
todos seria a única característica a invocar-se
como prova da existência de leis naturais, pois
o que a natureza nos tivesse realmente ordena-
do, nós o observariamos de comum acordo,
porque qualquer povo, qualquer homem
mesmo, se sentiria constrangido e violentado
por quem agisse em sentido contrário.
Protágoras e Ariston consideravam como
origem da justiça das leis a autoridade e a opi-
nião do legislador; fora dai, o bem e a honesti-
dade não são mais qualidades, mas vãs deno-
minações de coisas indiferentes. Trasímaco,
em Platão, julga não haver outro direito que
não o vantajoso para o superior. Nada mais
heterogêneo no mundo do que os costumes e as
leis. Tal coisa, que se recomenda alhures, é
aqui abominável. Como por exemplo na Lace-
demônia a esperteza do roubo. Os casamentos
entre parentes próximos são terminantemente
proibidos entre nós; entre outros povos são
recomendáveis: “dizem que há povos em que a
mãe se une ao filho, e o pai à filha, crescendo
o amor em virtude do parentesco”?2º. Matar
os filhos, matar o pai, emprestar as mulheres,
comerciar com objetos roubados, poder entre-
gar-se a toda espécie de prazeres, tudo em
suma, por absurdo que seja, ou pareça, é per-
mitido em alguma nação.
É possível que haja leis naturais como ocor-
re com certos animais, mas nós as perdemos,
porque nossa bela razão humana em tudo se
mete para dominar e comandar, perturbando e
confundindo a fisionomia-das coisas a seu
talante, segundo sua vaidade e sua incons-
tância: “nada sobra que seja nosso; o que
328 Ovídio.
ENSAIOS —I
chamo nosso é produto artificial?33º, As coi-
sas apresentam-se em condições e sob aspectos
diversos, o que constitui a primeira causa da
diversidade de opiniões. Um povo encara
determinada coisa por um de seus aspectos, o
qual fixa suas idéias, outro a vê de modo dife-
rente e por este se guia.
Nada me parece mais horrível à imaginação
do que um filho comer o pai. Os povos entre os
quais esse costume existia outrora encaravam-
no entretanto como prova de devoção e afei-
ção, pois visavam dar aos seus progenitores a
mais digna e honrosa sepultura, alojando por
assim dizer na medula dos próprios ossos o
que restava do corpo de seus pais, reavivando-
o, regenerando-o através da transmutação da
carne morta em carne viva pela digestão. É
fácil imaginar que crueldade pareceria, e que
abominação, a esses homens supersticiosos
enterrar os despojos dos parentes na terra,
onde iriam apodrecer e transformar-se em ali-
mento para os vermes.
Licurgo considerava que no furto, a vivaci-
dade, a ligeireza, a ousadia, a habilidade que
se empregam em surripiar alguma coisa ao
vizinho, são úteis à coletividade, porquanto
obrigam o indivíduo a cuidar do que é seu.
Achava que do ponto de vista da disciplina
militar (principal ciência e virtude essencial
que desejava inculcar em seu povo) havia
maior vantagem em desenvolver essas tendên-
cias para o ataque e a defesa do que o inconve-
niente resultante da desordem e injustiça de se
apropriar do bem alheio.
Dionísio, o Tirano, ofereceu a Platão uma
toga como a usavam na Pérsia, longa, bordada
de ouro € prata, e perfumada; Platão recusou-a
dizendo que tendo nascido homem não lhe
convinha vestir-se à moda das mulheres. Essa
mesma toga aceitou-a Aristipo, observando
que “nenhum adorno pode corromper quem
está resolvido a conservar a castidade”. Seus
amigos censuravam-no por não se haver se-
quer magoado com o fato de o tirano lhe ter
cuspido no rosto: “os pescadores”, respondeu-
lhes, “resignam-se, a fim de pegar um simples
lambari, a molhar-se dos pés à cabeça”. Dió-
genes limpava uns repolhos quando, ao ver
passar esse mesmo filósofo, gritou: “se para
viveres te contentasses com repolhos, não adu-
Jarias o tirano”. Ao que o outro retorquiu: “se
soubesses viver entre os homens, não limparias
repolhos”.
Eis como a razão dá às coisas as mais diver-
sas aparências: é uma marmita que se pega ora
por uma asa, ora por outra.“O terra que me
hospedas, pressagias a guerra; teus corcéis
330 Cicero.
273
estão armados para o combate e o combate
que nos fazem temer; no entanto, esses nobres
animais andavam outrora atrelados aos arados
e marchavam fraternalmente sob a canga.
Toda esperança dé paz ainda não está perdida,
Pois,
Censuravam a Sólon o fato de verter lágri-
mas impotentes e inúteis sobre o cadáver do
filho. “E justamente por isso que as verto, por
serem impotentes e inúteis.” A mulher de Só-
crates assim se desesperava: “que injustiça
cometem esses malvados juízes que o conde-
nam!? — “Preferirias”, replicou o filósofo,
“que isso fosse justo ? ?
Usamos furar o lóbulo das orelhas, o que os
gregos consideravam sinal de escravidão.
Escondemo-nos para possuir nossas mulheres;
os indianos possuem-nas em público. Os citas
imolavam os estrangeiros em seus templos;
alhures os templos são asilos. “Cada país
odeia as divindades dos países vizinhos, por-
que cada um considera seus deuses os únicos
verdadeiros. Daí o furor cego das multi-
does :
Ouvi falar de um juiz que, quando encon-
trava entre Bartole e Baldus??? algum conflito
árduo de resolver e algum assunto que apre-
sentasse dificuldades, escrevia à margem do
livro: “questão para o amigo”, o que signifi-
cava que a verdade era tão confusa e contro-
versa que em semelhante causa lhe seria fácil
favorecer qualquer das partes. Com algum
espírito e um pouco de ciência, pudera escrever
sua frase em tudo. Em todos os processos,
advogados e juízes de nosso tempo acham
meios para chegar.ao resultado que bem enten-
dem. Em ciência tão extensa, dependente de
opiniões que fazem lei, e nas quais o arbítrio
desempenha papel importante, uma extrema
confusão deve naturalmente verificar-se nas
sentenças. Por isso não há processo, por claro
que seja, a cujo respeito as opiniões não
variem. O que julga um tribunal é por outro
reformado. Acontece até que o mesmo tribu-
nal, julgando de novo, julgue diferentemente
da primeira vez. Esses fatos se observam
comumente, em virtude do abuso, tão prejudi-
cial à dignidade da autoridade e ao prestígio
da justiça, de não se conformarem com o jul-
gamento e de apelarem para todas as jurisdi-
ções a fim de se pronunciarem elas sobre a
mesma causa. :
Quanto à liberdade de que usam os filósofos
em se referindo ao vício e à virtude, é ponto a
cujo respeito não convém estender-se e que deu
331 Virgílio.
332 Juvenal.
333 Bartole e Baldus, jurisconsultos rivais do sécu-
lo XIV.
274
margem a opiniões que, em atenção aos espíri-
tos fracos, é melhor calar. Arcesilau dizia que
em matéria de impudicícia o mal independe do
culpado e da maneira por que é cometido:
“quanto aos prazeres obscenos, Epicuro pensa
que, se a natureza os solicita, não hã como
olhar a raça, a origem, ou a condição social, e
sim tão-somente a beleza, a idade, o aspec-
to”33*. “Os amores elevados não se proíbem
ao sábio”33 8. “Vejamos até que idade deve-
mos amar os jovens”3º 8. Estas duas últimas
proposições emanam dos estóicos e mostram,
como aliás a censura dirigida contra Platão
por Dicearco, a que ponto a filosofia mais
esclarecida tolerava exageradas licenças ao
que comumente se praticava.
A autoridade das leis provém de existirem e
terem passado para os costumes; é perigoso
fazê-las retornarem à sua origem. Como os
rios que se avolumam com o rolar das águas,
elas adquirem importância e consideração em
se aplicando. Remontai-lhe o curso até a nas-
cente e vereis um insignificante filete de água.
Investigai os motivos que no início deram
impulso a essa torrente de leis e costumes, hoje
considerável e cheio de dignidade, temor e
veneração. Vós os achareis tão frágeis, tão
pequenos, que não é estranho que esses filóso-
fos que tudo perscrutam, que tudo submetem
ao exame da razão, nada admitindo sem auto-
ridade, os julguem tão diferentemente do resto
do mundo. Tomam por modelo a imagem pri-
meira da natureza e não há como nos espan-
tarmos de que, na maioria de suas opiniões, se
desviem do caminho comum. Poucos, entre
eles, por exemplo, teriam aprovado as condi-
ções restritivas de nossos casamentos; que-
riam, em geral, que as mulheres fossem de
todos, sem obrigações para com ninguém e
recusavam-se a observar aquilo a que chama-
mos conveniências. Crisipo dizia que, mesmo
sem calças, um filósofo faria em público uma
dúzia de piruetas, por uma dúzia de azeitonas.
E nem tivera procurado convencer Clistenes de
não dar sua filha Agarista a Hipóclides que
vira “plantando uma bananeira” em cima da
mesa. Metrocles, um tanto indiscretamente,
dera um peido quando dissertava, cercado de
seus discípulos. Envergonhado, fechou-se em
casa, até que Crates, indo visitá-lo, juntou o
exemplo às consolações e raciocínios e o li-
vrou de seus escrúpulos, levando-o ainda a
aderir à seita dos estóicos, seita mais franca
que a dos peripatéticos, a qual era mais requin-
tada e que Metrocles seguira até então. Deno-
334 Cícero.
335 Td.
33 6 Sêneca.
MONTAIGNE |
minamos honestidade fazer às escondidas o
que não fazemos a descoberto. Esses filósofos
a isso chamavam tolice, e vício ao calar acerca
do que a natureza, os costumes e os desejos
proclamam. Se lhes parecia loucura celebrar
os mistérios de Vênus fora do santuário reser-
vado de seu templo, e expô-los às vistas de
todos, era porque tais jogos, sem cortinas, per-
dem seu sabor; e a vergonha é fardo por de-
mais pesado. Velá-los, e moderar-se na sua
prática, emprestam-lhes maior valor. Acha-
vam os filósofos que a volúpia se enobrecia de
não se prostituir nas ruas, de não se depreciar
aos olhos de todos, de não ser espezinhada, o
que ocorreria com a supressão dos locais espe-
ciais que lhe são reservados. Daí dizerem al-
guns que suprimir os bordéis públicos era não
somente expandir a impudicícia, mas ainda
incitar os vagabundos e os ociosos com o cha-
mariz das dificuldades: “Outrora marido de
Aufídia, eis-te, hoje, Corvino, seu amante, hoje
que ela é a mulher daquele que antes foi teu
rival. Ela te desagradava quando era tua, por
que te agrada agora depois que pertence a
outro? És tu impotente quando nada tens a
temer”337. Mil exemplos demonstram que
assim é, que as dificuldades excitam nossos
desejos: “Não houve, Ceciliano, quem quisesse
tua mulher gratuitamente, quando era livre;
agora que tu a vigias e guardas, os adoradores
são legião. És realmente um homem hábil 2338,
Perguntaram o que fazia a um filósofo
surpreendido no momento da cópula. “Planto
um homem”, respondeu friamente, tão pouco
envergonhado como se plantara alhos.
Um de nossos maiores autores religiosos
sustenta, em termos mui dignos e comedidos, e
de meu agrado, que a prática desse ato exige
tanto que nos escondamos e tenhamos pejo,
que não pode acreditar se realizasse na licença
dos cínicos. Pensa que se restringia então a
movimentos lascivos destinados a dar satisfa-
ção à impudência dessa escola. E que para
chegar ao fim, que a vergonha impede e inibe,
deviam procurar não ser vistos. Não se apro-
fundara por certo na devassidão deles.
Diógenes, masturbando-se em público, la-
mentava perante a turba de que não pudesse
" dar gozo ao ventre, em o roçando. A quem lhe
perguntava por que comia na rua e não busca-
va lugar mais apropriado, respondia: “é por-
que tenho fome na rua”. As mulheres filiadas a
essa seita entregavam-se aos filósofos em qual-
quer lugar, e à discrição. Hipárquia só foi
admitida na companhia de Crates sob a condi-
ção de seguir em tudo os usos e costumes da
337 Marcial.
338 Td.
ENSAIOS — II 275
seita. Davam a maior importância à virtude e
só se conduziam pela moral; entretanto, em
todos os seus atos obedeciam ao sábio que
escolhiam como chefe de escola e cuja opinião
era soberana e mais acatada do que as leis. E
não conheciam outros limites a seus prazeres
senão os da moderação e da liberdade alheia.
No fato de o vinho parecer amargo aos doen-
tes e agradável aos sãos; de o remo parecer
torto mergulhado na água e reto aos que o
vêem fora dela; de muitas coisas assim se mos-
trarem sob aparências antagônicas, Heráclito e
Protágoras apontavam a prova de que cada
qual traz em si a causa das aparências. Assim
o vinho encerra um princípio amargo, que o
torna amargo aos doentes, o remo um princi-
pio torto em relação com quem o vê na água,
etc. O que equivale a dizer que tudo está em
todas as coisas e por conseguinte nada em
nenhuma, pois não há nada onde há tudo.
Essa opinião recorda-me o que ocorre em
nós. Não há sentido real ou aparente, amargo
ou doce, reto ou sinuoso, que o espírito huma-
no não descubra nos escritos que examina de
perto. De quantas falsidades ou mentiras uma
frase clara, pura e perfeita quanto possível, é
ponto de partida! Qual a heresia que nela não
achou um testemunho suficiente para que se
exibisse e se sustentasse? Por isso os autores
de tais erros não querem nunca renunciar as
provas, tiradas da interpretação dada aos tex-
tos e que podem favorecê-los. Um alto perso-
nagem, desejando justificar a pesquisa a que se
entregava, da pedra filosofal, citava-me ulti-
mamente cinco ou seis trechos da Bíblia, nos
quais se baseara a princípio a fim de tranqui-
lizar a consciência (pois é eclesiástico). E, em
verdade, o que encontrara não era somente ori-
ginal, mas se aplicava muito bem à defesa
dessa bela ciência.
E dessa maneira que as fábulas dos adivi-
nhos ganham crédito. Não há adivinho, de al-
guma autoridade, que, em lhe folheando a obra
e examinando a fundo as palavras, não se faça
dizer o que se queira, como às sibilas. Há tan-
tas maneiras de interpretar, que é dificil, qual-
quer que seja o assunto, um espírito engenhoso
não descobrir o que lhe convenha. Por isso
mesmo o estilo equívoco e obscuro se usou
desde sempre, e frequentemente. Que um autor
consiga interessar a posteridade, o que pode
acontecer ou em razão de seu valor real ou da
predileção de que goze no momento o assunto
tratado; que por estupidez ou esperteza seja
seu estilo confuso e rebuscado; pode sossegar:
numerosos espiritos, agitando-o e peneirando-
o, tirarão dele inúmeras idéias, ou idênticas às
próprias, ou algo semelhantes, ou absoluta-
mente contrárias e, todas, o honrarão. Alcan-
çará assim o êxito por intermédio de seus
discípulos, como os professores se enriquecem
com o dinheiro do Landit*?º.
Foi o que valorizou muitas coisas sem valor
e pôs em evidência alguns escritos que se inter-
pretaram à vontade, de mil e uma maneiras.
Será admissível que Homero tenha dito tudo
o que lhe fizeram dizer? Que voluntariamente
se tenha prestado a tão numerosas e divérsas
interpretações, que os teólogos, os legisladores,
os guerreiros, os filósofos, e outros que se ocu-
pam das ciências, por diversos e opostos que
sejam seus temas, nele se apóiem, a ele se
refiram?
Para todos é ele o grande mestre em tudo,
ofícios, obras, ciências. É o conselheiro de
todos os empreendimentos. Quem atenta para
oráculos e predições, encontra o que quer. Um
amigo meu, mui sábio personagem, nele desco-
briu indicações realmente admiráveis em prol
de nossa religião. Tão maravilhosa é a coisa,
que ele não pode deixar de acreditar que foi
intencional da parte de Homero, o qual lhe é
de resto tão familiar quanto qualquer autor de
nosso século. Mas é possível que o que encon-
tra em Homero favorável a nosso culto, mui-
tos, na antiguidade, o encontraram favorável à
sua religião.
Vede como estudam e aprofundam Platão,
cada qual se vangloriando de o ter a seu lado e
o interpretando a seu modo. Passeiam-no por
todas as opiniões do século e obrigam-no a
tomar partido. Forçam-no mesmo à contradi-
ção segundo as idéias em voga. Fazem-no
reprovar os costumes aceitos em sua época, se
já não o são agora, € isso com tanto maior
autoridade e nitidez quanto mais autoritário e
direto o espírito do intérprete. Dos mesmos
fatos que haviam levado Heráclito a emitir
esta opinião: “todas as coisas têm em si as
aparências que apresentam”, Demócrito tirava
conclusões opostas: “as coisas nada têm do
que nelas encontramos”. E do fato de ser o mel
doce para uns e amargo para outros, deduzia
não ser ele nem doce nem amargo. Os pirrô-
nicos teriam dito não saberem se é doce ou
amargo, se não é doce nem amargo, ou se é
doce e amargo, pois chegam sempre à conclu-
são de que o ponto litigioso se presta a dúvi-
das. Os cirenaicos sustentavam que não perce-
bemos nenhuma sensação exterior, que só as
sensações internas nos são perceptíveis. Assim
a dor e a volúpia. Não admitiam o som ou a
cor, mas tão-somente as sensações que nos |
causam e de que provém o julgamento do
homem. Protágoras considerava que a verdade
339 Presentes que os alunos davam aos mestres por
ocasião da feira de Landit.
276
é para cada um o que lhe parece. Os epicu-
ristas localizavam o julgamento nos sentidos
pelos quais adquirimos o conhecimento das
coisas e sentimos as sensações que provocam.
Platão queria que esse julgamento, que nos
permite discernir a verdade, e a própria verda-
de, proviessem não dos sentidos e idéias
preconcebidos, mas do espírito e da reflexão.
Esta dissertação induziu-me a considerar os
sentidos como a grande causa e a prova, a um
tempo, de nossa ignorância. Tudo o que se
conhece, conhece-se pela faculdade de conhe-
cer do indivíduo. Isso é incontestável, porque
sendo o julgamento um ato de quem julga, é
natural que empregue, em julgar, seus melho-
res meios e sua vontade; que não seja forçado
a reportar-se a outrem, como ocorreria se o
conhecimento das coisas se impusesse pela sua
natureza própria. Ora, esse conhecimento che-
ga-nos pelos sentidos, que são nossos mestres:
“são as vias pelas quais a evidência penetra no
santuário do espírito humano”. Por eles se ini-
cia a ciência e com eles se afirma. Afinal,
seriamos ignorantes como uma pedra, se não
conhecêssemos a existência do som, do odor,
da luz, do sabor, da medida, do peso, da mole-
za, da dureza, do amargor, da cor, do tato, da
largura, da profundidade, o que constitui a
base e o princípio de toda ciência. Tanto assim
que, para alguns ciência é sensação. Quem
puder me levar a contradizer os sentidos ter-
me-á em suas mãos, pois são o começo e o fim
dos conhecimentos humanos: “vereis que a
noção do verdadeiro nos vem dos sentidos; seu
testemunho é irrefutável, pois que guia merece-
rá mais do que eles a nossa confiança?”* *º
Por menos que lhe atribuam, será sempre
necessário confessar que tudo o que sabemos
vem deles ou por seu intermédio. Diz Cícero
que Crisipo, tendo tentado diminuir a força e
as faculdades de seus sentidos, encontrou em si
mesmo tais argumentos contrários à sua tese, e
tão veementes, que não pôde atingir seu objeti-
vo. O que levou Carnéades a dizer, na polê-
mica que então mantinha contra ele, e na qual
se vangloriava de usar as próprias armas do
adversário: “Infeliz, tua força mesma te per-
deu!” Nada mais absurdo, a meu ver, nada
mais excessivo que afirmar que o fogo não
aquece, a luz não ilumina, o ferro não pesa,
nem é duro, coisas cujo conhecimento nos vem
dos sentidos; ou que nenhuma crença pode
comparar-se ao que se ensina.
Uma primeira observação farei a respeito
dos sentidos: a de que não me parece seja o
homem provido de todos os que existem na
natureza. Vejo animais que vivem muito bem
340 Tucrécio.
MONTAIGNE
|
sem enxergar nem ouvir; quem nos diz que a
nós não faltam também um, dois, três e até và-
rios sentidos? Pois se algum nos falta não hã
como percebê-lo. É privilégio dos sentidos
constituírem o limite máximo de nossa perspi-
cácia; nada, fora deles, nos pode ajudar a
descobri-los. Nem um sentido pode revelar
outro. “Pode o ouvido retificar a vista, ou O
tato, o ouvido? Pode o paladar suprir o tato? E
o olfato ou a vista corrigir os erros dos
demais ?”* *1 São em verdade os limites mais
recuados de nossas faculdades: “cada qual tem
seu poder, cada qual sua própria força”? *2. É
impossível fazer com que um homem natural-
mente cego deseje ver e lamente a ausência do
sentido de que carece. Portanto não devemos
vangloriar-nos da satisfação de nossa alma
com os que temos, pois ela não pode sentir sua
imperfeição, se a tem. É impossível, pelo racio-
cínio, a analogia ou a similitude, fazer que a
imaginação de um cego adquira a menor
noção do que venham a ser a luz, a cor, a vista.
Nada nele pode induzi-lo a uma idéia do senti-
do que lha falta. Quando um cego de nascença
afirma que desejaria ver, não o faz por
compreender o que exprime; di-lo, aponta efei-
tos e consequências, mas ignora, em verdade, o
que seja, não o concebe, nem muito nem
pouco.
Conheço um fidalgo de boa estirpe, cego de
nascença ou pelo menos cego desde quando
não sabia ainda o que fosse a vista. Tem tão
pouca consciência do que lhe falta que empre-
ga como nós locuções que servem para expri-
mir o que vemos, mas as aplica de maneira
muito particular, muito sua. Apresentaram-lhe
uma criança de que era padrinho. Tomando-a
nos braços, exclamou: “Meu Deus, que linda
criança! Bela de se ver! Como seu rosto
esplende de alegria!” Dirá como nós: “deste
cômodo tem-se uma bela vista; lindo sol!”
Mais ainda: como a caça, o tiro de arcabuz, o
Jogo da bola, são exercícios que praticamos,
ele os aprecia e no assunto se compraz apaixo-
nadamente, embora deles participe somente
pelo ouvido. Gritam-lhe, quando estão em ter-
reno plano sobre o qual pode andar à vontade:
“Olha a lebre!” E em seguida: “ei-la morta”. E
ele se mostra tão órgulhoso da coisa quanto os
outros. No jogo de bola, toma-a com a mão
esquerda e lança-a com a raqueta em qualquer
direção. Com o arcabuz atira ao acaso € acre-
dita quando lhe afirmam .que atirou alto de-
mais ou ao lado do alvo.
Como saber se o gênero humano não come-
te tolices análogas, em virtude de alguma
341 Td.
342 Id.
ENSAIOS — II
carência de sentido, cuja falta faz que em sua
maioria as coisas não se mostrem tal qual são?
Quem sabe se não provêm disso as dificul-
dades que sentimos em entender certas obras
da natureza? Quem sabe se certas coisas exe-
* cutadas pelos animais e que ultrapassam nos-
sas possibilidades não são resultantes de dadas
faculdades? Quem pode dizer se por isso não
têm uma vida mais plena e satisfatória do que
a nossa? À maçã excita a maior parte de nos-
sos sentidos: é vermelha, lisa, tem perfume, é
doce. Talvez tenha outras virtudes, como secar
e restringir, que nossos sentidos não percebem.
Não é provável que as propriedades a que cha-
mamos ocultas e que observamos em muitas
coisas, como no ímã a de atrair o ferro, devem
corresponder a faculdades de sentidos naturais
cuja incapacidade de perceber nos induz à
ignorância de sua essência? É provavelmente
em consequência de algum sentido específico
que os galos distinguem a hora, pela manhã e à
noite, e cantam. E que as galinhas temem o
gavião, antes de qualquer experiência e não
receiam nem o ganso nem o pavão de estatura
muito maior; e que os frangos sabem da hosti-
lidade do gato e não desconfiam do cão, tre-
mendo ante o miado harmonioso e não ante o
latido áspero; e as formigas, as abelhas e os
ratos escolhem sempre o melhor queijo sem
antes o provar; e o veado, o elefante, a PRuDEnRO
conhecem ervas que curam.
Não hã sentidos que não sejam de grande
importância; e os conhecimentos que devemos
a cada um deles são em número infinito. Se a
inteligência dos sons, da harmonia e da voz
viessem a faltar-nos, haveria incrível confusão
em todo o resto de nossa ciência, pois, além do
que se prende aos efeitos de cada sentido, tira-
mos inúmeros argumentos, consequências e
conclusões da comparação de um com outro.
Imagine um entendido o gênero humano
desprovido, desde sempre, do sentido da vista,
e pesquise a que ponto a confusão conduziria
tal lacuna. Quanta treva e cegueira em nossa
alma! Julgar-se-ã por aí quanto importa ao
conhecimento da verdade a privação de um ou
mais sentidos. Concebemos a verdade sob um
aspecto para o qual contribuem nossos cinco
sentidos. Talvez para que seja a verdadeira, e
que tenhamos a certeza de apreender integral-
mente, careçamos de oito ou dez.
As seitas filosóficas que contestam a ciência
humana sublinham, em particular, a incerteza
e a fraqueza de nossos sentidos, porquanto
todo conhecimento nos alcança por seu inter-
médio. Se falham em seus relatórios, se se cor-
rompem, ou alteram o que nos comunicam, se
a luz que por eles se introduz em nossa alma se
obscurece em caminho, não temos mais em
277
que confiar. Dessa extrema dificuldade surgiu
este aforismo: “Toda coisa encerra em si tudo
o que nela achamos; e nela não há nada do que
pensamos encontrar.” E mais este, dos epicu-
ristas: “O sol não é maior do que a nossa vista
o considera; as aparências, que nos impelem a
ver maior O corpo mais próximo e menor o
mais longínquo, são todas verdadeiras”; ou
como diz Lucrécio: “se contudo não convimos
em que nossos olhos nos iludem, não impute-
mos nossos erros ao espírito”. E, o que é mais
ousado: “nossos sentidos não se enganam,
estamos na sua dependência e é preciso buscar
alhures as razões suscetíveis de explicar as
diferenças e contradições que constatamos;
inventar mesmo uma mentira ou um devaneio
de nosso espírito, de preferência a acusar os
sentidos”? 43,
Timágoras jurava que por mais que piscasse
ou esfregasse o olho nunca via em dobro a luz
da vela e que essa ilusão provém de um erro da
imaginação e não de um defeito do órgão. De
todos os absurdos, o mais absurdo, para os
epicuristas, consistia em negar o poder e os
efeitos dos sentidos: “As indicações dos senti-
dos são sempre verdadeiras. Se a razão não
pode explicar por que o que vê quadrado, de
perto, vê comprido de longe, é melhor ainda,
sem solução verdadeira para esse duplo fenô-
meno, dar uma falsa, de preferência a deixar
escapar a evidência, a mentir à fé primeira e
destruir os fundamentos da credibilidade em
que assentam nossa conservação e nossa vida,
pois os interesses da razão não são aqui os úni-
cos em jogo. A própria vida só se conserva
com o apoio dos sentidos; é em vista de seu
testemurho que evitamos os precipícios e ou-
tras coisas nocivas”? **.
Este conselho desesperado e tão pouco filo-
sófico não significa senão que a ciência só
pode existir na medida em que lhe empres-
tamos a ajuda de uma razão desarrazoada,
maluca, obstinada; e que, para- satisfação da
vaidade do homem, mais vale ainda isso ou
servir-se de qualquer fantasia, do que confes-
sar a sua estupidez; o que não honra dema-
siado a humanidade.
O homem não pode impedir que os sentidos
não sejam os soberanos mestres dos conheci-
mentos que possui; mas estes não oferecem
certeza e sempre podem induzi-lo em erro. É
preciso insistir nesse ponto. Na falta do que
deveria dar-lhe força, ele o supre com a obsti-
nação, a temeridade, a impudência. Se os
epicuristas estão certos, isto é, “se a ciência
não existe visto que as aparências comuni-
343 TLucrécio.
344 Tucrécio.
278 MONTAIGNE
cadas pelos sentidos são falsas”, e se o que
dizem os estóicos é igualmente verdadeiro,
“que as aparências transmitidas pelos sentidos
são tão falsas que não podem criar nenhuma
ciência”, somos levados a concluir que não há
ciência.
Quanto ao erro €e à incerteza das operações
dos sentidos, não faltam exemplos à mão, tão
abundantes são essas falhas e ilusões. Em vir-
tude do eco no vale, o som da trombeta parece
vir de frente quando na realidade vem de trás.
“As montanhas que se erguem acima do mar
parecem-nos de longe uma só massa, embora
em verdade sejam distantes umas das outras.
As colinas e campos que margeamos, parecem
fugir em direção à popa do navio em que nave-
gamos. Se o cavalo pára no meio de um ria-
cho, parece que caminha obliquamente, cor-
renteza acima, como impelido por estranha
força”? * 8. Se manuseio uma bala de arcabuz
com os dedos entrelaçados, é preciso violen-
tar-me para admitir que não sejam duas.
Que os sentidos dominam muitas vezes a
razão e nos impõem sensações que ela sabe
serem falsas é coisa que se vê comumente.
Deixo de lado o tato, que tem funções mais
imediatas, vivas e substanciais e que, pela dor
que pode provocar, desmente as resoluções
estóicas e força a gritar quem está com cólicas,
embora proclame este o dogma de que a cóli-
ca, como qualquer outra doença ou dor, é indi-
ferente e não tem o poder de diminuir em nada
a felicidade que a virtude outorga ao sábio.
Mas não há coração, por mais efeminado que
seja, que o som de nossos tambores e trombe-
tas não entusiasme; nem o há tão duro que a
música não desperte e amoleça; nem alma tão
ríspida que não se sinta comovida na sombria
imensidade de nossas igrejas, com seus ornatos
e cerimônias; ou que, ouvindo os órgãos, não
se eleve misticamente; mesmo os que entram
nesses edifícios com desdém, impressionam-se
e experimentam uma espécie de temor supersti-
cioso que lhes abala a opinião. Quanto a mim,
não me considero bastante forte para permane-
cer insensível aos versos de Horácio ou Catu-
lo, recitados com inteligência por jovens e
belos lábios. A voz, dizia Zenão, é a flor da
beleza. : : 4
De uma feita quiseram persuadir-me de que
um homem que todos conhecemos, me impres-
sionara com seus versos somente por causa da
voz. Diziam que não eram tão bons como
pareciam e meus olhos julgariam diferente-
mente de meus ouvidos, tanto a dicção valo-
riza as obras. Não andou portanto errado Filó-
xeno quando, ao ouvir alguém ler de maneira
3as Td.
incorreta os seus escritos, se pôs a sapatear e a
espezinhar os tijolos? * $ do importuno, dizen-
do: “Quebro o que te pertence como quebras o
que é meu.” Por que razão as pessoas que
ordenam a própria morte viram a cabeça para
não ver o golpe? E os que, doentes, desejam e
pedem que os sangrem ou cauterizem não
podem suportar a vista dos preparativos do
cirurgião, se a vista não influi na dor? Não
provam esses exemplos o domínio dos sentidos
sobre a razão? Embora não ignoremos que a
cabeleira do pajem ou do lacaio é falsa, que o
rosado vem da Espanha, a palidez brilhante se
deve a produtos exóticos, nossa vista, contra
toda razão, compraz-se na contemplação do
objeto. “Somos seduzidos pelo adorno; o ouro
e a pedraria escondem os defeitos; a jovem
mesma é a menor parte do que nela nos apraz.
Não raro temos dificuldade em achar o que
amamos sob tantos ornatos; é sob essa égide
opulenta que o amor engana os olhos” 2 “7. E
que poder emprestam os poetas aos sentidos
quando nos mostram Narciso enamorado de
seu reflexo ! “Admira tudo o que é admirável.
Insensato ! Deseja-se a si próprio; é a si mesmo
que aprecia e aspira; queima-se com a paixão
que ele próprio acende”3+8, Por isso, mos-
tram-nos também Pigmaleão com o espírito
perturbado pela impressão que lhe causa a
vista de sua estátua de marfim, a que ama e da
qual se torna escravo como se ela fosse anima-
da: “cobre-a de beijos e imagina ser correspon-
dido; abraça-a freneticamente; pensa sentir
nos dedos o estremecimento da carne e receia,
ao calcá-la, deixar uma impressão lívida”.
Ponha-se um filósofo em uma gaiola de
arame fino e pendure-se no alto das torres de
Notre-Dame. Verá de maneira evidente que
não pode cair e apesar disso, a menos de estar
familiarizado com o ofício de pedreiro, não
evitará o medo, transido de pavor pela vista da
altura. Já nos é difícil sentirmo-nos à vontade
à beira dos terraços de nossos campanários,
mesmo quando de pedra; e certas pessoas não
o suportam sequer em pensamento. Jogue-se
entre as torres da catedral uma tábua suficien-
temente larga para passarmos; não haverá
sabedoria filosófica, por mais admirável que
seja, capaz de nos infundir a coragem de andar
em cima dela como o fariamos se a tábua
assentasse no chão. Não raro senti nas monta-
nhas dos Pireneus, e embora não me assuste
facilmente, que não podia suportar a vista des-
ses abismos imensos sem que me tremessem as
*+8 Também chamados “tijolos de argila”, em que escre-
viam os antigos antes do papiro.
347 Ovídio.
348 Id.
ENSAIOS — II
pernas e as coxas, apesar da distância bastante
em que me encontrava da beirada e de saber
que uma queda só fora possível se voluntaria-
mente me expusesse ao perigo. Observei tam-
bém que uma árvore ou um rochedo, ainda que
pequenos, servindo como ponto de repouso
para a vista, me tranquilizavam, como se, em
caso de queda, nos pudessem ser úteis. Mas os
precipícios sem obstáculos, não os podemos
olhar com segurança: somos tomados de verti-
gem, como diz Tito Lívio. E eis uma evidente
impostura dos olhos.
Foi o que levou esse belo filósofo a vazar os
próprios olhos?*º a fim de se isentar das
impressões desregradas que provocavam, im-
pedindo-o de filosofar livremente. Mas, desse
modo, também deveria ter tapado os ouvidos
com algodão, pois são, no dizer de Teofrasto,
Os nossos órgãos mais perigosos, suscetíveis,
pela violência das impressões, de confundir e
alterar nossas idéias. E deveria afinal privar-se
igualmente de todos os outros sentidos, isto é,
do próprio ser, da vida, pois todos exercem
influência em nossa razão: “Acontece não raro
que tal ou qual espetáculo, voz, canto impres-
sionam vivamente nosso espírito; muitas vezes
também a dor e o medo produzem os mesmos
efeitos” * 50,
Pretendem os médicos que certas pessoas se
agitam até à loucura sob a ação de certos sons.
Conheci quem não pudesse ouvir os cães roe-
rem um osso embaixo da mesa sem perder a
paciência. Poucas pessoas não são incomo-
dadas pelo ruído agudo e penetrante da lima
trabalhando o ferro. Assim também, o ruído
dos maxilares mastigando ou o falar anasalado
irritam até à cólera e ao ódio. E para que servi-
ria o tocador de flauta que acompanhava
Graco em Roma, atenuando ou ampliando a
voz do tribuno, se os sons não tivessem a
propriedade de comover e influir no espírito
dos ouvintes? Em verdade, não há como nos
vangloriarmos tanto de nossa faculdade de
Julgamento, se um simples sopro a atinge e
modifica!
Se os sentidos nos induzem em erro, enga-
nam-se também por seu turno. Nossa alma tem
por vezes seu revide. Mentem eles: uns aos
outros. O que vemos e ouvimos sob o domínio
da cólera, não nos aparece como é realmente:
“vêem-se então dois sóis e duas Tebas”, diz
34º Demócrito, ao que dizem.
350 Cicero.
219
Virgílio. O objeto de nossa afeição parece-nos
mais belo do que na realidade é: “muitas vezes
vemos a deformidade e a feiúra receberem
homenagens ”* 87. E mais feio é o objeto de
nossa animosidade. A um homem aborrecido e
aflito, a claridade do dia se afigura tenebrosa.
Nossos sentidos não somente se altéram mas
ainda se estupidificam totalmente, sob o efeito
das paixões. Quantas coisas olhamos sem ver
se nosso espírito se acha ocupado alhures!
“As coisas, mesmo as mais expostas à vista, se
nelas não aplicamos o espirito, são como per-
didas na noite dos tempos”3 82. Dir-se-ia que
a alma se esconde dentro de nós e se diverte
em abusar dos sentidos. Assim, o homem é,
por dentro e por fora, fraqueza e mentira.
Os que compararam nossa vida a um sonho
foram mais judiciosos talvez do que pensavam.
Em nossos sonhos nossa alma vive, age, exerce
todas as suas faculdades, tal qual quando está
acordada. Admitamos que o faça de um modo
menos eficiente e visível, a diferença ainda não
será tão grande quanto entre um dia de sole a
noite, mas apenas como entre esta e o crepús-
culo. Se ela dorme durante o nosso sono cochi-
la mais ou menos quando estamos acordados.
Em um e outro caso, permanecemos nas trevas
mais profundas. Durante o sono, não vemos
com nitidez, mas acordados não é tampouco
perfeita a claridade. O sono profundo apaga
por vezes os nossos sonhos; despertos, nunca o
estamos bastante para nos livrarmos de todos
os devaneios que são sonhos de gente acor-
dada e piores do que os verdadeiros. Rece-
bendo nossa razão e nossa alma as idéias e os
sentimentos que nascem em nós enquanto dor-
mimos, e prestando-se a eles, como o faz com
o que concebemos de dia, como duvidar de
que, em pensando e agindo, sonhamos? E estar
acordado seja uma forma particular do sono?
Se os sentidos são os juízes aos quais nos
devemos reportar em primeiro lugar, não são
apenas os nossos que devemos consultar.
Nesse ponto os dos animais têm os” mesmos
direitos que os nossos, senão maiores. Pois é
certo que alguns têm o ouvido mais sensível,
outros a vista, outros o olfato, outros o tato ou
o paladar. Demócrito dizia que as faculdades
pelas quais experimentamos as sensações são
mais perfeitas nos deuses e nos animais. Há
351 Lucrécio.
352 Td.
280
em verdade enorme diferença entre os efeitos
dos sentidos nestes últimos e em nós. Nossa
saliva, por exemplo, que limpa e seca as nossas
chagas, mata as serpentes. “Entre tais efeitos é
tão grande a diferença, que o que é alimento
para uns é veneno mortal para os outros.
Assim a serpente, em contato com a saliva
humana, definha e se devora a si própria”? 83.
Que qualidades daremos então à saliva, as
que concebemos ou as que a serpente concebe?
Quem nos dirá de sua essência?
Plínio afirma que há nas Índias certas lebres
marinhas que constituem um veneno para nós,
e reciprocamente. Basta que a toquemos para.
que pereçam. Qual desses efeitos devemos
classificar como veneno? Em quem acreditar?
No peixe ou no homem? O homem é envene-
nado por um certo ar que não ataca o boi; tal
outro que não nos prejudica, não o suporta
este. Qual dos dois é realmente pestilencial?
As pessoas que sofrem de icterícia tudo vêem
sob um aspecto amarelado. “Tudo parece
amarelo a quem tem icterícia”, diz Lucrécio.
Os que são atingidos pelo que os médicos
denominam hiposfagma, que consiste em um
derrame de sangue sob a pele? 54, vêem tudo
vermelho. Essas disposições que modificam o
que vemos, terão iguais efeitos nos animais?
"* Pois entre eles os há com olhos amarelados ou
vermelhos e é possível que não vejam as coisas
com as cores que vemos. Quem estará com a
verdade? E não se diga que a essência das coi-
sas só aos homens importa. Nada o prova. A
dureza, a brancura, a profundidade, o azedu-
me, interessam-lhes tanto quanto a nós mes-
mos. À natureza outorgou-lhes o uso, como a
nós. Quando calcamos o olho, vemos os obje-
tos mais compridos e largos; muitos animais
têm o olho assim feito; esse comprimento que
atribuímos aos corpos no caso em apreço tal-
vez seja o verdadeiro. Se comprimimos o olho,
apertando-o por baixo, vemos as coisas dupli-
cadas. “As lâmpadas têm dupla luz, os homens
duplo corpo e rosto”? $ 8, Se temos os ouvidos
tapados ou semi-obstruídos, percebemos dife-
rentemente os sons; os animais que possuem
orelhas peludas, ou apenas um pequeno orifi-
cio, não devem pois ouvir como ouvimos.
Vemos nos teatros e festas vidros de cor inter-
353 TLucrécio.
354 Na realidade, equimose no olho. (N. do T.)
355 TLucrécio.
MONTAIGNE
|
postos entre nós e as tochas e tudo o que existe
nesses lugares assim iluminados parece verde,
amarelo, ou violeta: “assim ocorre com esses
véus amarelos, vermelhos e cinzentos pendura-
des em nossos teatros e flutuando no ar. Seu
brilho móvel reflete-se nos espectadores e no
palco; os senadores, as mulheres, as estátuas
dos deuses, tudo se tinge à luz cambiante”3 5 8.
É provável que os olhos dos animais vejam as
coisas de acordo com sua cor.
Para julgar as operações de nossos sentidos
fora necessário portanto que estivéssemos de
acordo com os animais e também entre nós.
Ora esse acordo não existe. Disputamos sem-
pre acerca do que um ouve ou sente, e é dife-
rente do que o outro ouve ou sente; da mesma
forma estamos divididos a respeito da diversi-
dade das imagens que nossos sentidos nos
comunicam. Em condições normais, uma
criança ouve, vê e sente de maneira diversa de
um homem de trinta anos, e este diferente-
mente de um sexagenário. Em uns os sentidos
estão mais embotados, em outros mais agudos.
Percebemos as coisas segundo as nossas con-
dições ou o que elas nos parecem ser. E o que
nos parece é tão discutível, incerto, que temos
o direito de declarar que vemos a neve branca,
mas não o podemos assegurar. Com tão limi-
tada certeza no ponto de partida, toda ciência
reduz-se a nada. É precisaremos demonstrar
que nossos sentidos se contradizem? Uma pin-
tura que se diria em relevo à vista, parece
plana ao tato. O almíscar agrada ao olfato e
ofende o paladar. Há ervas e ungúentos que
convêm a certas partes do corpo e irritam
outras. O mel é bom de gosto e feio de se ver.
Esses anéis em forma de pena que se usam em
brasões — “penas sem fim” — e cuja largura
o olho não sabe discernir, porquanto parecem
engrossar de um lado e afinar de outro, mesmo
se as enrolamos no dedo, ao tato se afiguram
regulares em todas as suas partes. Houve
outrora quem, a fim de alcançar maior volú-
pia, se servisse de espelhos deformantes que
ampliam os objetos neles refletidos. Qual de
seus sentidos lhe dava maior satisfação? A
vista, exagerando-os, ou o tato, diminuindo-
os? São nossos sentidos que comunicam às
coisas essas diversas condições, e terão elas
uma só? O pão que comemos é unicamente
pão, e, no entanto, segundo o uso que dele
356 Id.
ENSAIOS — II 281
fazemos, torna-se osso, sangue, carne, pêlo,
unhas: “os alimentos, infiltrando-se pelo corpo
todo, perecem e mudam de natureza”? 87. O
suco que as raizes das árvores absorveram
transforma-se em tronco, folhas e frutos. O ar
é um só; entretanto a trombeta o traduz em mil
sons diversos. São, indago, os nossos sentidos
que mudam de maneira análoga as condições
diversas das coisas ou são estas assim? Diante
desta dúvida, como julgaremos sua verdadeira
natureza? Há mais: se em caso de doença,
devaneio ou sono, as coisas nos aparecem dife-
rentes do que quando estamos com saúde, em
plena posse de nós mesmos, é provável que em
nosso estado normal as vejamos de conformi-
dade com as nossas condições. Não as encara-
mos então de uma maneira igualmente particu-
lar? Por que o moderado não as veria sob um
aspecto específico, como ocorre a quem o não
é? Quem tem o estômago perturbado acha
insosso o vinho; o são acha-o saboroso; o
sedento, excelente. Acomodando-se as coisas
às nossas condições, como estas se transfor-
mam. Não conhecemos a verdade a seu respei-
to, pois sempre as temos alteradas ou falsifi-
cadas pelos sentidos. Quando o compasso, a
régua, o esquadro são falseados, todas as
medidas o são também, e os edifícios com tais
instrumentos construídos são forçosamente
defeituosos e pouco sólidos. Da mesma forma,
a insuficiência de nossos sentidos torna insufi-
ciente tudo o que produzem: “Se na constru-
ção de um edifício, a régua usada foi falseada,
se o esquadro desvia da perpendicular, se o
nível falha, ocorre necessariamente ser todo o
edifício viciado, fora de equilíbrio, sem graça,
nem boas proporções. Uma parte pode amea-
çar cair, e cair mesmo, por ter sido mal dirigi-
da. Assim, se não pudermos confiar inteira-
mente nos sentidos, todos os julgamentos serao
ilusórios”? 88. Mas a quem caberá julgar as
diferenças? Dizemos que quando se trata de
controvérsias religiosas seria necessário um
juiz neutro, isento de preconceito ou preferên-
cia, o que não se encontra entre os cristãos. O
mesmo fato repete-se aqui. Se o juíz é um
ancião, não pode imparcialmente julgar o que
sente a mocidade, estando ele próprio interes-
sado no debate. Se é um jovem, idêntico é o
caso; como idêntico o será se o juiz for doente,
357 Lucrécio.
358 Td.
ou são, se estiver acordado ou cochilando.
Fora preciso alguém que nunca tivesse estado
em nenhum desses casos para que se pronun-
-ciasse sem prevenção por uma ou outra das
diversas opiniões em presença. Ora, um juiz
desse tipo não existe.
Para aquilatar das aparências das coisas,
precisariamos de um instrumento aferidor;
para controlar esse instrumento necessita-
riamos de experiências e mais um instrumento
para comprovâ-las. E eis-nos em um impasse.
Se os sentidos não podem decidir serem imper-
feitos, é preciso que a razão decida. Mas
nenhuma razão se aceitaria sem que outra lhe
demonstrasse a validez; e eis-nos de volta ao
ponto de partida.
Nossa imaginação não se exerce direta-
mente sobre as coisas que estão fora de nós; é
levada a elas pelos sentidos; estes não se ocu-
pam do que lhes é estranho, mas somente do
que é objeto de suas impressões. E como a
imaginação e a aparência que concebemos das
coisas não vêm destas, mas sim dos nossos
sentidos, e estas sensações são variáveis, ocor-
re que quem julga pelas aparências julga por
outra coisa que não o próprio objeto.
Diremos que as impressões dos sentidos for-
necem à alma uma imagem fiel dos objetos.
Mas como podem a alma e os sentidos assegu-
rar-se da exatidão da semelhança? Não estão
eles próprios em relação com os objetos?
Quem não conhece Sócrates e lhe vê o retrato
não pode dizer se é parecido. E mesmo quem
quisesse julgar pelas aparências não o poderia
fazer por todas. Elas se neutralizam, em verda-
de, pelas contradições e diferenças que apre-
sentam, como no-lo mostra a experiência. Será
pois somente por algumas, a serem escolhidas,
que seu julgamento se exercerá. Mas, quando
houver escolhido uma, será necessário escolher
outra para verificar a primeira; uma terceira
em seguida para controlar a segunda e assim
por diante, indefinidamente. Em suma, nós
mesmos e os objetos não temos existência
constante. Nós, nosso julgamento, e todas as
coisas mortais, seguimos uma corrente que nos
leva sem cessar de volta ao ponto inicial. De
sorte que nada de certo se pode estabelecer
entre nós mesmos e o que se situa fora de nós,
estando tanto o juiz como o julgado em perpé-
tua transformação e movimento.
Nada conheceremos de nosso ser, porque
tudo o que participa da natureza humana está
sempre nascendo ou morrendo, em condições
que só dão de nós uma. aparência mal definida
e obscura; e se procuramos saber o que somos
na realidade, é como se quiséssemos segurar a
água; quanto mais apertamos o que é fluido,
282 MONTAIGNE |
tanto mais deixamos escapar o que pegamos.
Por isso, pelo fato de toda coisa estar sujeita à
transformação, a razão nada pode apreender
na sua busca do que realmente subsiste, pois
tudo, ou nasce para a existência e não está
inteiramente formado, ou começa a morrer
antes de nascer.
Platão dizia que os corpos nunca têm exis-
tência; nascem somente. Considerava que
Homero, fazendo do Oceano o pai dos deuses
e de Tétis a mãe, quisera mostrar que tudo estã
sujeito a vicissitudes, transformações e varia-
ções perpétuas, opinião essa de todos os filóso-
fos anteriores a Platão, com exceção de
Parmênides que negava o movimento dos cor-
pos, caro ao Mestre; Pitágoras achava que
toda matéria é móvel e sujeita a mudanças; os
estóicos, que o tempo presente não existe e
que, o que assim designamos, não passa do
ponto de junção do passado com o futuro.
Heráclito dizia que nunca um homem atraves-
sou duas vezes o mesmo rio; Epicarmo, que
quem pediu um dia dinheiro emprestado não se
torna devedor, e quem foi à noite convidado
para a refeição da manha seguinte, e se apre-
senta, chega sem ser convidado, porquanto
não são mais os mesmos, e sim outros; “que
toda substância perecível não se encontra duas
vezes no mesmo estado, porque, por mudanças
repentinas e inapreensíveis, ora se evapora, ora
se condensa; vem e vai; de sorte que o que co-
meça a nascer não se torna jamais um ser per-
feito. Pode-se mesmo dizer que seu nascimento
não termina e nem pára em um fim; desde sua
concepção, vai-se transformando e passando
de um estado a outro. O germe humano, por
exemplo, torna-se inicialmente, no ventre da
mãe, um fruto informe; em seguida uma crian-
ça nitidamente constituída; depois, ao ser pari-
do, uma criança de peito, que se transforma
em menino, € sucessivamente em adolescente,
homem, homem maduro e ancião decrêpito, de
maneira que a idade e a geração seguinte des-
fazem e estragam a geração que precede: “O
tempo muda a face do mundo; uma ordem de
coisas substitui outra, necessariamente. Nada
é estável, tudo se transforma e a natureza está
em continua metamorfose”? 5º.
“E nós, tolos que somos, tememos uma
forma particular da morte quando já conhece-
mos tantas outras; pois, como ressalta Herá-
clito, não somente a morte do fogo engendra o
ar e a do ar engendra a água, como o podemos
ver de maneira mais evidente pelo que se veri-
fica em nós, mas também a flor da idade morre
ao chegar a velhice, a infância ao surgir a
adolescência, etc. Hoje assinala a morte de
359 Tucrécio.
ontem, amanhã assinalará a de hoje. Nada é
imutável. Admitamos com efeito que sejamos e
permaneçamos o que somos; como se explica-
ria que nos alegremos ou nos entristeçamos
com a mesma coisa segundo o momento?
Como explicar que gostemos de coisas contrá-
rias, que as detestemos, e as louvemos? Se
demonstramos sentimentos diferentes diante de
uma mesma coisa, é porque nosso pensamento
se modifica, pois não é verossímil que sem
mudança em nós variem os sentimentos. O que
a mudança afeta já não é mais o mesmo. Ces-
sando de ser idêntico a si mesmo, cessa pura e
simplesmente de existir, torna-se outro. Por-
tanto, os sentidos mentem e se enganam acerca
da natureza das coisas, quando tomam a apa-
rência pela realidade, e não sabem o que seja
esta.
“Que há então que seja realmente tal qual o
vemos? Somente o que é eterno, isto é, o que
nunca teve começo e não terá fim; o que não
muda sob o efeito do tempo, pois o tempo é
móvel e surge como uma sombra arrastando
consigo a matéria fluida, instável, sempre em
transformação. Ao tempo se aplicam estas
palavras: “Antes ou depois”, foi ou será”, as
quais já mostram à evidência que não se trata
de uma coisa que é, porque seria tolice dizer
que é algo que ainda não é ou já não é mais. À
idéia que temos de tempo exprime-se nestas
palavras: “Presente, instante, agora”, as quais
parecem constituir-lhe a base. Mas que a razão
se detenha nela e de imediato o conjunto rui;
desde o primeiro instante a razão o destrói,
repartindo-o em passado e futuro e recusando-
se a aceitar qualquer outra divisão. O mesmo
se dá com a natureza que se mede; nada há
nela tampouco que permaneça, subsista. Tudo
o de que se compõe foi ou estã nascendo ou
morrendo. Eis por que seria pecado dizer que
só Deus é, foi e será, porque são termos que
implicam mudanças, transformações, vicissi-
tudes próprias ao que não dura e cuja exis-
tência não é contínua. Daí dever-se concluir
que “só Deus é, não segundo uma medida
qualquer do tempo, mas segundo a eternidade
imutável e fixa, que não é função do tempo e
não está sujeita a variações. Nada O precedeu,
nada se Lhe seguirá, e nada é mais novo e
recente; Ele é realmente, agora e sempre, o que
para Ele são a mesma coisa. Nada a não ser
Ele existe verdadeiramente, de que se possa
dizer “foi e será”, porquanto Ele não teve come-
ço e não terá fim.”
A essa conclusão tão religiosa de um pagão,
acrescentarei apenas para terminar tão longa e
aborrecida digressão sobre assunto em verdade
inesgotável, isto que disse outro filósofo pagão
e que apresenta afinidade com o que se trans-
ENSAIOS — II
creveu: “Vil e abjeta coisa o homem, se não se
eleva acima da humanidade!” Eis uma refle-
xão inspirada em bom sentimento e no desejo
de ser útil, e no entanto absurda. É com efeito
impossível e contrário à natureza, um punhado
maior do que o punho, uma braçada maior do
que o braço, um passo maior do que a perna.
Não pode tampouco ocorrer que o homem se
eleve acima de si mesmo e da humanidade,
283
porque só pode ver com seus olhos e apreender
com seus próprios meios. Elevar-se-á, se Deus
lhe quiser dar a mão. Elevar-se-ã sob a condi-
ção de abandonar seus meios de ação, de
renunciar a eles e de se deixar erguer e elevar-
se unicamente pelos meios que lhe vêm do céu.
É nossa fé cristã, e não a virtude estóica dos
filósofos, que pode operar essa divina e mila-
grosa metamorfose.
CapíTULO XIII
De como julgar a morte
Quando julgamos do ânimo que alguém
demonstra no momento da morte — o mais
importante por certo da vida humana — deve-
mos levar em conta que raramente pensamos
ter chegado a nossa hora. Poucas pessoas mor-
rem convencidas de que estejam nos últimos
instantes, e nada há a cujo respeito a esperança
nos iluda tanto. Não cessa de nos soprar aos
ouvidos: “outros estiveram bem pior, e não
morreram; a coisa não é tão desesperada como
pensam; ademais, Deus fez outros milagres”.
Disso se deduz que damos excessiva impor-
tância a nós mesmos; é como se tudo sofresse,
de algum modo, com o nosso desapareci-
mento, e se apiedasse de nós, pois nossa visão
perturbada faz-nos ver as coisas diferentes do
que realmente são. Parece-nos que elas se afas-
tam de nós, quando nossos olhos é que fraque-
Jam. Assim, para Os que viajam por mar, as
montanhas, os campos, as cidades, o céu e a
terra também se afiguram em movimento:
“saímos do porto; a terra e o mar parecem
afastar-se ”3 8º, Quem jamais viu a velhice não
louvar o passado, não criticar o presente,
imputando ao mundo e aos costumes de sua
época sua miséria e sua tristeza? “Sacudindo a
cabeça calva, o velho lavrador suspira; compa-
ra o presente ao passado, louva a felicidade de
seu pai e fala sem cessar da moral dos tempos
antigos”* 81,
Tudo vemos em relação a nós mesmos, daí
darmos à nossa morte grande importância,
pensarmos que não pode ocorrer facilmente e
sem solene consulta aos astros: “Quantos deu-
ses incomodados com a vida de um só
360 Virgílio.
361 Lucrécio.
homem !?3 82 E assim fazemos porque nos esti-
mamos demasiado: “pois tanta ciência se per-
deria e tão grande prejuízo não seria objeto de
particular atenção do destino? O desapareci-
mento de tão bela alma, e tão exemplar, não
valerá mais do que o da mais inútil? Esta vida
que tantas outras sustenta, pela qual tantos se
interessam, com tantas funções e cargos, deve-
rá ser deitada fora como qualquer outra insig-
nificante?” Nenhum de nós imagina suficiente-
mente que não passa de uma unidade. Daí
estas palavras que César dirigiu ao piloto de
seu barco e mais inchadas de vaidade que o
mar grosso: “Se o céu se recusa a conduzir-te
as costas da Itália, segue sob meus auspícios.
Se tens medo é porque ignoras quem conduzes;
com o meu apoio, enfrenta sem receio a
tempestade”3 83. Estas outras decorrem da
mesma idéia: “César julga enfim o perigo à al-
tura de sua coragem: terão os deuses necessi-
dade de tão grande esforço para me destruir?
Jogam o furor do mar contra a minha frágil
embarcação”3 8 *. Assim também a loucura de
um povo a exigir que durante um ano inteiro o
sol se enlute por causa de sua morte:
“participou igualmente da desgraça de Roma e
cobriu-se com um véu de luto”3 85. E mil ou-
tros exemplos poderiam invocar-se da ilusão
do mundo a pensar que.seus interesses pertur-
bem os céus: “a aliança entre nós e o céu não
é de tal ordem que os astros devam cxtinguir-
se com nossa morte”? 8 68,
362 Sêneca.
363 Tucano.
364 Td.
365 Virgílio.
386 Plínio.
284
Não estamos certos ao julgar a resolução e
o ânimo de alguém quando este não tem a cer-
teza de se achar em perigo de morte; embora
se ache. Em sua maioria, os homens assumem
suas atitudes e escolhem suas palavras a fim de
alcançar uma reputação de que ainda venham
a aproveitar-se em vida. Quantos vi morrer,
cuja atitude não pôde ser preparada e se deveu
tão-somente ao acaso! E entre os que, na anti-
guidade, se mataram, cumpre distinguir os que
tiveram morte imediata dos que a tiveram
lenta. Certo cruel imperador romano, falando
de suas vítimas, dizia que queria fazer com que
sentissem a morte; e acerca de uma delas, que
se suicidara, observava: “essa me escapou !”
Quisera que sofressem com a morte, através
dos tormentos que esta provoca. “Vimo-lo
vivo em um corpo mortificado, cuja agonia
prolongavam com requintes de crueldade
Em verdade não é assim tão difícil resolver
matar-se, quando a gente goza saúde e nada
tem a temer; é fácil mostrar-se valente antes do
momento fatal, a ponto que Heliogábalo, o
mais efeminado dos homens, projetara matar-
se, em meio à sua luxúria, em condições faus-
tosas. Para que essa morte não lhe desmentisse
a vida, mandara construir uma suntuosa torre,
encrustada, embaixo e na frente, de ouro e pe-
dras preciosas, a fim de se precipitar do alto
dela. E mandara confeccionar cordéis de metal
precioso e seda purpurina para se enforcar,
bem como uma espada de ouro para se tras-
passar, e guardava veneno em vasos de esme-
ralda e topázio para se envenenar, pois não
sabia que gênero de morte escolheria. São os
“corajosos por necessidade”, a quem se refere
Lucano.
A despeito de tantas precauções, é provável
que houvesse recuado na hora da decisão, tal o
luxo do aparato. Mas, mesmo entre os que,
mais resolutos, levaram a cabo sua resolução,
cumpre verificar se a morte se deu mediante
golpe que não permitisse sentir-lhe os efeitos
ou se quiseram que a vida abandonasse aos
poucos seu corpo e sua alma, o que lhes teria
dado tempo de se arrependerem ou provarem,
em perseverando, sua firmeza de ânimo e sua
obstinação na intenção primeira.
Durante as guerras civis de César, tendo
Lúcio Domício, aprisionado nos Abruzos, se
envenenado, arrependeu-se em seguida. Ocorre
também que alguém, decidido a morrer, não o
tenha conseguido de chofre e se ferisse nova-
mente duas e mais vezes, sem resultado, em
virtude da revolta da carne que impede o braço
de golpear profundamente.
Enquanto se instruía o processo de Plauto
367 Lucano.
»3 67
MONTAÍGNE
Silvano, Urgulânia, sua avó, passou-lhe um
punhal com o qual ele não conseguiu matar-se.
Mandou então que seus servidores lhe cortas-
sem as veias. Albucila, no tempo de Tibério,
querendo suicidar-se, golpeou-se com insufi-
ciente vigor, o que deu tempo a seus inimigos
de a socorrerem e a fazerem morrer a seu bel-
“prazer. Foi também o que aconteceu a Demós-
tenes, depois de sua derrota na Sicília. E, €.
Fimbria, falhando por falta de energia, pediu
ao criado que o acabasse. Ao contrário, Ostó-
rio, embora não podendo usar o braço, desde-
nhou a ajuda do lacaio, senão para manter o
punhal reto e firmemente; e jogou-se sobre a
arma traspassando a garganta.. Na verdade,
trata-se de uma coisa que se deve engolir sem
mastigar, a não ser que se tenha garganta de
ferro. Entretanto, Adriano mandou o médico
marcar com um círculo no peito o lugar que
devia ser golpeado por quem ele encarregasse
de o matar. Eis por que César, quando lhe
perguntaram qual o gênero de morte mais
desejável, respondeu: “a menos premeditada e
mais rápida”. E se César ousou dizê-lo, não é
covardia minha acreditá-lo. “Uma morte rápi-
da”, observa Plínio, “é a grande felicidade da
vida.” Aborrece entretanto a alguns reconhe-
cê-lo.
Ninguém pode assegurar que estava resol-
vido a morrer, se evita encarar a morte e não a
pode ver chegar de olhos abertos. Os condena-
dos que lhe correm ao encontro, a fim de
apressá-la, não o fazem por espírito de resolu-
ção, mas porque desejam abreviar o tempo em
que deverão contemplá-la. Morrer não os ate-
moriza, O que temem é a passagem da vida à
morte: “não quero morrer, mas é-me indife-
rente estar morto”3 88, A esse grau de resolu-
ção já verifiquei que posso chegar, como
quem, de olhos fechados, atira-se ao perigo ou
ao mar. k
A meu ver, nada é mais belo, na vida de Só-
crates, do que ter permanecido durante trinta
dias, depois de condenado, examinando sere-
namente a morte futura, sem emoção, sem
revelar nenhuma alteração de humor, agindo e
conversando, antes com calma do que. com
excitação sob o peso de um tal pensamento.
Pompônio Atico, a quem Cicero escreveu
cartas que nos ficaram dele, achando-se enfer-
mo, chamou Agripa, seu genro, e dois oú três
amigos, e lhes disse que, não conseguindo
curar-se e aumentando-lhe o sofrimento os
remédios que tomava para prolongar a vida,
estava resolvido a pór fim a ambos, vida e
sofrimento, e pedia a todos que o aprovassem
3 68 Cícero.
ENSAIOS — II
ou, pelo menos, que não tentassem impedi-lo
de levar a cabo a resolução. E tendo escolhido
a morte pela fome para alcançar seu objetivo,
sua abstinência, como por acaso, elimina a
doença. Em querendo morrer, recupera a
saúde. Seus médicos e amigos congratulam-se
então com ele pelo feliz resultado; mas se
enganam, pois não muda de decisão: “pois que
lhe cumpriria um dia dar esse passo”, diz,
“não queria, no ponto a que chegara, ter de
recomeçar de outra feita”. Com lazer sufi-
ciente meditara na morte, e não somente não
renunciava a ela mas se obstinava e, satisfeito
com o início, resolvia bravamente continuar.
Provar a morte e saboreá-la é muito mais do
que a não recear.
A história do filósofo Cleantes se parece
muito com a precedente. Estava com as gengi-
vas inchadas e gangrenadas. Aconselham-lhe
os médicos um jejum absoluto. Observando-o
durante dois dias, sente-se tão melhor que o
declaram curado e o autorizam a voltar à vida
normal. Mas ele, achando já certa doçura no
estado de fraqueza a que chegara, resolve não
recuar e, perseverando, acaba por morrer de
fome.
Um jovem romano, Túlio Marcelino, preo-
cupado com avançar a hora do destino, a fim
de se desfazer de uma doença que o fazia so-
frer mais do que queria suportar, mas que os
médicos prometiam curar, embora com algu-
ma demora, convocou seus amigos para deli-
berarem juntos. Uns, relata Sêneca, davam-lhe
o conselho que, por covardia, teriam eles pró-
prios seguido; outros, para o adularem, o que
acreditavam lhe fosse mais agradável. Um, afi-
nal, da escola dos estóicos, disse-lhe: “não te
aborreças, como se se tratasse de assunto
importante. Viver não é grande coisa; teus
lacaios e teus animais vivem; o que importa é
morrer honrosamente, sabiamente e com cora-
gem. Imagina só há quanto tempo fazes a
mesma coisa: comer, beber, dormir; dormir,
comer, beber; não saimos do círculo. Não
somente os acidentes penosos e dolorosos nos
incitam a sair da vida, mas também a sacie-
dade de viver”. Marcelino precisava de alguém
285
para o ajudar a cumprir seu desígnio, e não
para lhe dar conselhos. Acabava de encontrã-
lo. Os servidores receavam meter-se no caso;
nosso filósofo demonstrou-lhes que os criados
só se comprometem quando há dúvida quanto.
à vontade de morrer do senhor e que seria tão
má ação impedi-lo de se matar quanto o
matar, tanto mais que “salvar um homem con-
tra sua vontade é como matá-lo”? 8º, Avisou
em seguida Marcelino de- que, assim como se
distribuem os restos do banquete aos que o ser-
vem, era conveniente, ao fim da vida, deixar al-
guma coisa aos que, no curso de sua existên-
cia, lhe haviam prestado seu concurso.
Marcelino, tão liberal quanto corajoso, man-
dou repartir uma certa soma entre seus servi-
dores e os consolou da tristeza que manifesta-
vam. Para passar da vida à morte, não
recorreu nem ao ferro, nem à efusão de sangue,
pois estava decidido a retirar-se da vida e não
evadir-se. Não queria fugir da morte, mas sim
enfrentá-la. A fim de ter a possibilidade de
desafiá-la, renunciou a todo e qualquer alimen-
to, descansando no terceiro dia em um banho
morno; e, enfraquecendo sempre mais, morreu
lentamente, não sem experimentar, disse, uma
espécie de volúpia. Os que por fraqueza têm
uma síncope, afirmam também não sentir dor
nenhuma, mas antes certo bem-estar, como
quando adormecem e repousam.
Catão parece ter tido como destino ser em
tudo um modelo de virtude. Permitiu-lhe a
sorte que, estando com a mão machucada,
somente se ferisse ao golpear-se, o que lhe deu
a possibilidade de lutar com a: morte até a
agarrar. As circunstâncias que teriam podido
enfraquecer-lhe o ânimo, antes o fortaleceram.
Se me fosse dado representâ-lo na atitude que
considero mais honrosa, mostrá-lo-ia ensan-
gluentado e arrancando as entranhas, e não de
espada na mão como fizeram os escultores de
sua época. O segundo ato de sua morte revela
sem dúvida alguma coragem bem maior que o
primeiro.
3 8SHgrácio.
286
MONTAIGNE
CaPpíTULO XIV
Como O nosso espírito cria suas
próprias dificuldades
Discute- -se comumente que decisão tomaria
um espíritô indeciso entre duas coisas cuja
realização deseja exatamente com igual inten-
sidade. É indubitável que em tais condições
não se decidirá nunca, pois, se Se inclinasse
por uma, já seu gesto implicaria desigualdade
de valorização. Se, com idêntica necessidade
de beber e comer; fôssemos colocados entre
uma garrafa e um presunto, não teriamos
provavelmente outra solúção senão morrer de
fome.
Atentátido para a dificuldade dos que lhes
perguntavam que haviã em nossa alma que
determinasse a escolha entre coisas indiferen-
tes, e fazia que em um sacó de escudos pegás-
semos um e não outro, pois em sendo iguais
não se justificava a preferência, respondiam os
estóicos que isso se devia a um móvVimento
inconsciente, provocado em nós por um impul-
so estranho, acidental, fortuito.
- Poder-se-ia antes afirmar, parece- me, que
Hada se nos apresenta sem alguma diferença;
por pequena que seja, e, ou à vista, ou ao tato,
hã sempre algo que, embora não o perceba-
mos, nos tenta e atrai, e determina a nossa
escolha. Da mesma forma, se súpusermos, por
exemplo, um barbante igualmente resistente
em todo o seu comprimento, será impossível
parti-lo, pois em que ponto cederia? E não é de
se admitir que ceda em todos os pontos a um
tempo.
. Se a isso acrescentarmos esses teoremas da
geometria pelos quais se prova que o conteúdo
Em maior do que o continente, que o centro de
Uma circunferênciá é tão grande quanto a pró-
pria circunferência, que, duas linhas que se
aproximam sem cessar não chegam nunca a se
encontrar, e também os problemas da pedra
filosofal e da quadratura do círculo, questões
todas em que a razão se opõe à realidade,
depararemos possivelmente com algum argu-
mento em apoio dessa asserção tão ousada de
Plínio: “Nada é certo senão a.incerteza, nem
nada hã mais miserável e orgulhoso do que o
homem.”
CapíTULO XV
Não há árgumento ao qual não se possa
objetar com argumento contrário, dizem os
filósofos mais sensatos. Não faz muito, vinha-
me ao espírito esta bela sentença dê um perso-
nagem da antiguidade em apoio ao desprezo
que devemos ter à vida: nenhum bem nos pode
dar prazer; sênão aquele para cuja perdá este-
jamos preparados. “A tristeza dê ter perdido
algo e Ó receio de perdê-lo, são uma Só e
mesma Tôóisa”* 7º, Queria dizer com issó que o
370 Sêneca.
Nosso desejo cresce com a dificuldade
gozo da vida não pode oferecer-nos real atra-
tivo se a tememos perder.. Poder-se-ia entender
tâmbém que nos apegamos a esse bem e com
tânto maior desejo de conservá- -lo quanto sabe-
mos sua conservação poucó segura e receamos
perdê-lo. Pois sentimos; e isso é absolutamente
indiscutível, que assim comô ;o) fogo se aviva
com o frio, nossa vontade se afiá de encontro à
oposição: “Se Dânae não tivesse sido fechada
em uma torre de bronze, núnca houvera dado
m filho a Júpiter”3 71. Nada é é, por natureza,
RES
371 Ovídio.
ENSAIOS — II
tão contrário á nossos desejos como a sacie-
dade resultante da facilidade; e nada os excita
tanto quanto à raridade e o obstáculo: “em
tudo o prazer cresce na razão do perigo que
nos deveria afastar dele”? 72. “Rechaça-me,
Gala, o amor saciar-se-á logo se suas alegrias
não forem temperadas com algum tormen-
to”3 73,
Na Lacedemônia, Licurgo, a fim de manter
desperto o amor, ordenou que os cásados só o
praticassem às escondidas, e que ser encon-
trados dormindo juntos fosse tão vergonhoso
como se dormissem com outros. As dificul-
dades dos encontros, o perigo dás surpresas, a
vergonha do dia seguinte “e também o langor,
o silêncio, os suspiros vindos do fundo do
coração”* 7 *, eis o que põe pimenta ao molho.
Que prazeres 'reâlmente lascivos podem nascer
de conversações honestas e discretas sobre o
amor? À própria, volúpia busca excitantes na
dor; é bem mais doce quando queima & esfola.
à cortesã Flórá dizia nunca ter dormido com
Pompeu sem que o marcasse de mordidas.
“Apertam fortemente o objeto de seus desejos;
com dente cruel imprimem em seus lábios bei-
jos dolorosos; um secreto ferrão os excita con-
tra aquele mesmo que acende neles o furor dos
amplexos”* 78.
Assim ocorre com tudo. A dificuldade valo-
riza as coisas. Os habitantes dê Ancona cum-
prem suas prômessas em São Tiago de
Compostela; os da Galícia em Nossá Senhora
de Loreto; em Liége apreciam muito Os banhos
de Lucca e na Toscana os de Spa; não se vêem
os romanos frequentando a escola dê esgrima
em Roma; cheia de franceses. O grande Catão
(como nos ocorre também) cansou da mulher
quando súà € tornou a desejá-la ao casar-se ela
com outró. Devolvi ao haras um cavalo velho
que não resistia à atração das éguas, e que a
facilidade de se expandir à vontade com as
suas logo saciou. Porém com as demais, não se
retém de rinchar. Nosso apetite despreza o que
se acha à sua disposição; corre atrás do que
não tem: “desdenha o que está à mão e busca
o que não pode ter”? 78. Proibir-nos alguma
coisa é dar-nos vontade dela: “se não fiscali-
zares tua amante, ela deixará muito breve de
ser minha”277. A privação e a abundância
comportam os mesmos inconvenientes: quei-
xas-te do teu supérfluo e eu da carência do
necessário”? 78. O desejo e o gozo fazem-nos
372 Senêca.
373 Marcial.
374 Horácio.
375 Lucrécio.
376 Horácio.
377 Ovídio.
378 Terêncio.
287
sofrer igualmente. A seriedade de nossas
amantes? 7º aborrece-nos, mas em verdade à
facilidade com que porventura se entreguem
ainda aborrece mais. Pois o descontentamento
e a cólera que nascem do valor que empres-
tamos ao objeto desejado excitam o amor, ao
passo que a saciedade engendra o desgosto;
não passa entao o amor de uma paixão embo-
tada, estupidificada, farta, sonolenta; “se que-
res dominar muito tempo o teu amante, des-
preza Suas súplicas”28º, “Fingi-vos de
desdenhosó;, quem se vos negou ontem virá
oferecer-se hoje”3 ALE
Por que imaginou Popéia esconder sob úrna
máscara sua beleza senão para a valorizar aos
olhos de seus amantes? Por que cobrem as
“mulheres com véus que descem até os calca-
nhares os encantos que desejariam mostrar e
que todos gostariam de ver? Por que amon-
toam sobré as partes ambicionadas de seu
corpo tantas € tantas coisas? Para que servem
esses baluartes com que acabam de guarnécer
as ancas senão para ludibriar nosso apetite é
nos atrair embora nos afastando? “Ela corre a
esconder-se atrás do chorão, mas antes faz
com que a percebam 3 82, “Por vezes opõe seu
vestido a meus impacientes desejos”383, De
que serve essa arte que põe em jogo a fisipno-
mia pudibúnda da virgem, essa calculada frie-
za, essa “atitude severa, essa aparente igno-
rância das coisas que ela conhece melhor do
que nós, seus educadores, senão para aumentar
o desejo que temos de vencer, senão para esti-
mular nosso apetite com cerimônias e obstácu-
los? Não somente temos prazer como tiramos
alguma vaidade em triunfar da modéstia, da
castidade e da temperança; e quem 'desacon-
selha às mulheres tais artifícios, as êStá traindo
e com elas se atraiçoando. É preciso que acre-
ditemos que seu coração freme dé receio, que o
som de nossa voz ao murmurar-lhes palavras
de amor fere a pureza de seus ouvidos, que elas
se magoam e só cedem a nossas importunas
solicitações constrangidas e forçadas. A bele-
za, por fortê que seja, não basta sem tais velei-
dades de résistência. Vede na Itália, onde ela
mais se encontra e é mais atraente, como as
mulheres 'recorrem a meios artificiais e à arte
para se tornar agradáveis; pois de outro modo,
ainda que venais e públicas, os homens não as
procuram com entusiasmo. Ocorre com a bele-
za O mesmo que com a virtude: dois caminhos
37º No sentido antigo de namoradas, de senhoras
cortejadas e amadas, simplesmente.
380 Ovídio.
381 Propércio.
382 Virgílio.
383 Propércio.
288
conduzem a ela, um fácil, outro semeado de
obstáculos e nem sempre atingindo o seu obje-
tivo. É entretanto o último que mais aprecia-
mos, que achamos mais belo e digno.
Devemos agradecer à Divina Providência as
perturbações e borrascas que desabam sobre a
Santa Igreja, pois assim as almas piedosas des-
pertam do sono em que as mergulhara um
longo período de trangúilidade. E se compa-
rarmos as perdas resultantes do número de
desviados com as vantagens de nos havermos
retemperado na luta, não sei se o benefício não
sobreexcede o prejuízo.
Pensamos em tornar mais sólidos os laços
do casamento, evitando a possibilidade de
rompê-los; mas ocorreu que se relaxaram e
desfizeram na mesma proporção em que se
apertava o nó do constrangimento. Ao contrá-
rio, O que manteve os casamentos em honra
durante tanto tempo em Roma foi a facilidade
de dissolvê-los à vontade. Tanto mais se preo-
cupavam com guardar sua mulher, quanto
mais fácil era perdê-la. E embora o divórcio
estivesse ao alcance de todos, decorreram mais
de quinhentos anos sem que ninguém o reque-
resse: “o permitido não tem encantos; o proi-
bido excita o desejo ”*8 *. Isso me induz a citar
esta opinião de um autor antigo: os suplícios,
em vez de frearem os vícios, desenvolveram-
nos; não nos levam a bem fazer, o que é obra
da razão e da educação. Apenas cuidamos
com mais atenção de não sermos surpreen-
didos na prática do mal. “O mal, que imagina-
vam extirpado, vence e se expande” *º 8. Ignoro
se a asserção é exata, mas O que sei por expe-
riência é que nunca os suplícios modificaram a
moral de um povo. De outros meios é que
dependem a ordem e a normalidade dos
costumes.
Os historiadores gregos aludem aos argi-
peus (tribo vizinha da Cítia) que viviam dentro
da ordem, sem açoites nem castigos. Não
somente ninguém pensava em atacá-los como
ainda quem se refugiasse junto deles encon-
trava asilo, dadas a virtude e a santidade de
sua existência. Os povos vizinhos a eles recor-
riam nas suas pendências. Citam igualmente
uma nação onde as divisas dos campos e jar-
dins são assinaladas com um simples cordel de
algodão, o qual, apesar de sua fragilidade,
constitui barreira mais respeitada e efetiva do
que nossos fossos e cercas: “as fechaduras
atraem os ladrões; quem rouba com arromba-
mento não entra em casas abertas”38 8.
Talvez a facilidade de nela entrarem tenha
384 Gyídio.
385 Rutílio.
388 Sêneca.
MONTAIGNE
|
sido uma das causas que preservaram minha
residência das violências das guerras civis.
Defender sugere o ataque; a desconfiança pro-
voca a ofensa. Desinteressei a soldadesca de
minha casa, tirando-lhe qualquer probabili-
dade de glória, o que, em geral, a seus olhos,
justifica e desculpa todos os excessos. O que
exige coragem é sempre considerado honroso,
quando a justiça já não existe, por isso fiz com
que a invasão de minha casa parecesse um ato
de covardia e traição. Não se fecha ela para
ninguém que lhe bata à porta; como única me-
dida de precaução, há um porteiro, educado
nos usos do passado e destinado menos a
impedir a entrada do que a tornar mais decente
e agradável a recépção. Não tenho outra guar-
da e sentinela além dos astros. Um fidalgo erta
em querer resistir, se não se acha perfeitamente
organizado para tanto. O que é acessível por
um lado é acessível por todos; nossos pais não
pensaram nunca em construir praças fortes. Os
meios de dominar nossas casas, ainda que sem
exército, nem canhão, dia a dia se tornam mais
poderosos e fora de proporção com os meios
de defesa. É principalmente a idéia de invasão
que preocupa os espíritos e interessa todo
mundo; a idéia de defesa só preocupa os
ricos?8?. Minha casa apresentava resistência
suficiente para a época em que foi construída;
nada lhe acrescentei e recearia, em a fortifi-
cando, que a medida se voltasse contra mim
mesmo. Sem.contar que ao retornar à calma
seria forçado a demoli-la. Em semelhantes
baluartes é perigoso não se poder resistir, e
não se está seguro de o poder, pois, nas guerras
intestinas, o lacaio pode pertencer ao partido
contrário; e quando a religião é o pretexto da
luta, os próprios parentes se tornam suspeitos,
e justificadamente. O tesouro não pode manter
guarnições em todas as residências e nós não o
fariamos sem nos arruinar ou arruinar O povo,
o que comporta maiores inconvenientes ainda,
além de ser injusto. E se, sem defesa, for inva-
dido, não me sentirei pior. Se ao contrário me
defender, perderei mais: os próprios amigos
em vez de se apiedarem se divertirão com criti-
car minha negligência e ignorância nas coisas
de minha profissão. E o fato de se haverem
perdido tantas 'casas preparadas para a resis-
tência, enquanto a minha continua de pé,
induz-me a crer que se deva a destruição delas
às veleidades de resistência. Inspiraram a idéia
do assalto e justificaram o assaltante a seus
próprios olhos. Todo preparativo de defesa re-
387 Montaigne opõe aqui a guerra exterior às
comoções internas. Na invasão de um pais estran-
geiro ricos e pobres podem ganhar. Na defesa da
casa durante as guerras civis, só Os ricos correm pe-
rigo de saque. (N. do T.)
ENSAIOS — II 289
vela a disposição de lutar. Podem entrar em
minha residência se assim o quiser Deus; mas
não chamarei ninguém, aconteça o que aconte-
cer. É um lugar de retiro onde me repouso da
guerra; é um recanto que. procuro isolar das
tempestades reinantes, como faço com minha
alma. À guerra que nos desola, pode mudar de
forma e estender-se; podem outros partidos
organizar-se, eu não me mexo. Entre tantos
fidalgos que fortificaram suas mansões, fui O
único a fiar-se tão-somente em Deus para a
proteção da sua. Nunca escondi prataria, nem
dinheiro, nem tapetes, nada desejando salvar
pela metade, nem querendo temer em parte. Se
uma inteira confiança na Providência me
outorgar à proteção divina, esta há de conti-
nuar até o fim. E se não ma outorgar já terei
sido protegido durante bastante tempo, o que
merece ser notado, pois tal situação se vem
verificando há trinta anos.
!
CaríruLo XVI
Da glória |
Há em tudo o nome e a coisa. O nome é a
palavra que marca e significa a coisa: não faz
parte dela, a ela não se incorpora; é um acessó-
TIO que se acresce, por fora.
Deus, que é, em Si, plenitude e inteira perfei-
ção, não pode ampliar-se e crescer por dentro,
em essência, mas Seu nome se amplia e engran-
dece com os louvores e bênçãos que damos às
Suas obras manifestas. Esses louvores que não
O podem penetrar e se tornar parte integrante
dEle próprio, tanto mais, quanto nada se
acrescenta ao que Ele é, nós os atribuimos a
Seu nome, o qual, fora d'Ele mesmo, é o que de
mais perto O toca. A glória e a honra só a
Deus pertencem, portanto nada será mais
absurdo do que as reivindicarmos. Somos,
essencialmente, tão pobres, tão necessitados,
tão imperfeitos, que nossa preocupação cons-
tante deve ser a de trabalhar continuadamente,
para melhorarmos. Totalmente vazios, não é
de vento e de palavras que devemos encher-
nos; precisamos, para fortalecer-nos, de ali-
mentos mais substanciais e sólidos. Um
homem esfaimado seria um simples de espirito
se procurasse obter uma bela roupa em vez de
uma boa refeição; cumpre correr sempre ao
mais urgente: “Glória a Deus nas alturas e paz
aos homens na terra”, como dizemos em nos-
sas orações. Temos penúria de beleza, saúde,
sabedoria, virtude e outras qualidades essen-
ciais; cabe-nos alcançar essas coisas de pri-
meira necessidade, antes de obter o que nos
adorna exteriormente. Mas são questões essas
de que a teologia trata mais aprofundadamente
e com maior competência.
Crisipo e Diógenes foram os primeiros a
desprezar a glória, e com maior resolução. Di-
t
ziam que, entre todas as volúpias, não há mais
perigosa, nem de que mais se deva fugir do que
a aprovação alheia. Abundam efetivamente os
casos em que sua traição causou graves prejuí-
zos. Nada envenena tanto os príncipes quanto
a lisonja, e nada há que mais imponham os
maus aos que os rodeiam. Cumular as mulhe-
res de lisonjas, repetir-lhas sem cessar é o meio
mais comum de triunfar sobre a'sua castidade;
é o modo de sedução que empregam as sereias
para enganar Ulisses: “Vem, Ulisses, vem, tu
tão digno de louvores, tu de quem mais se
honra a Grécia”388. Tais filósofos afirmavam
que toda a glória do mundo não justifica que
um homem sensato levante um dedo para a
conquistar: “que é a glória, por grande que
seja, se não passa de glória?”*8ºº Digo con-
quistar a glória pela glória, pois não raro ela
acarreta vantagens que a podem tornar desejá-
vel. Ela nos oferece a boa vontade alheia, e faz
que estejamos menos expostos às injúrias e a
outras coisas semelhantes.
Era também um dos principais dogmas de
Epicuro este preceito de sua escola: “esconde
tua vida”, o qual proíbe que se embarace
alguém com cargos e gestões dos negócios pú-
blicos. E pressupõe assim que forçosamente
desprezemos a glória, a qual consiste na apro-
vação da coletividade às nossas ações mais
evidentes. Ordenar-nos que escondamos a
vida, que nos ocupemos de nós mesmos e não
queiramos se intrometam os outros no que
fazemos, é querer ainda menos que nos hon-
rem e glorifiquem. Por isso Epicuro aconselha
388 Homero.
389 Juvenal.
290
a Idomeneu a não orientar seus atos em aten-
ção à opinião comum, a menos que o seja
necessário a fim de evitar outros inconve-
nientes por vezes resultantes do desprezo que
os homens venham a demonstrar.
Essas recomendações são, a meu ver, perfei-
tamente certas e razoáveis; mas somos, não sei
como, dois seres em um só, o que faz que, em
uma mesma coisa, acreditemos e não acredite-
mos, não podendo desfazer-nos do que conde-
namos. Reportemo-nos, com efeito, às últimas
palavras de Epicuro, ao morrer. São grandes e
dignas de um filósofo como ele; revelam con-
tudo vestígios de sua preocupação com a repu-
tação ligada a seu nome e com essa disposição
de espírito que censurava em seus preceitos.
Eis a carta que ditou pouco antes de exalar o
derradeiro suspiro: “Epicuro a Hermaco,
salve! — Escrevi o que segue neste último dia
de minha vida, dia feliz embora sofra incrivel-
mente da bexiga e dos intestinos; mas meu
sofrimento é compensado pelo prazer que traz
à minha alma a recordação das idéias que ino-
vei e da defesa delas. Tu, toma sob tua prote-
ção os filhos de Metrodoro; conto, a esse res-
peito, com a afeição que desde a infância
tiveste por mim e pela filosofia.”
Eis a carta. O que me leva a pensar que esse
prazer, que diz sentir em sua alma por causa
das idéias inovadas, se liga à reputação que
esperava adquirir depois de morto, são os
dispositivos testamentários pelos quais deter-
mina que Aminômaco e Timócrates, seus her-
deiros, fornecessem anualmente, no mês de
Janeiro, para a comemoração de seu aniversá-
rio, a soma a ser fixada por Hermaco; bem
como a necessária às despesas com a recepção
de seus amigos filósofos, os quais se reuniriam
no vigésimo dia de cada lua para honrar sua
memória e a de Metrodoro.
Carnéades foi o chefe da seita de opinião
contrária. Afirma que a glória é desejável em
si, como natural é a afeição que dedicamos aos
filhos a nascerem depois de nossa morte, em-
bora não os devamos conhecer. Esta opinião
foi naturalmente a mais comumente seguida,
como ocorre com aquelas que correspondem
às nossas preferências. Aristóteles coloca a
glória em primeiro lugar entre os bens que nos
vêm de fora de nós mesmos, e considera igual-
mente critiçável buscá-la exageradamente ou
dela fugir. Creio que se possuíssemos o que Ci-
cero escreveu a propósito, veriamos opiniões
espantosas, pois ele foi obcecado por essa pai-
xão, a ponto de, se ousasse, cair no absurdo
em que outros cairam de considerar a própria
virtude válida tão-somente, e desejável, na me-
dida em que acarreta honrarias. “A virtude
escondida não difere muito da obscura ociosi-
MONTAIGNE
dade”2ºº. Uma tal maneira de pensar é tão
falsa, a meu ver, que não posso acreditar tenha
Jamais entrado na cabeça de um homem que
teve a honra de figurar entre os filósofos. Se
assim fosse, não se deveria praticar a virtude
senão em público; e não nos adiantaria manter
no bom caminho a nossa alma, verdadeira
sede da virtude, desde que seus movimentos
não chegassem ao conhecimento de outrem.
Bastaria então fazer o mal com suficiente habi-
lidade para que ficasse ignorado. “Se perce-
bes” diz Carnéades “que uma serpente se
esconde no lugar em que, sem o saber, vai sen-
tar-se alguém cuja morte te beneficia, comete-
rás uma má ação em não o avisar, principal-
mente se o que fazes só de ti é conhecido.” Se
não buscamos em nós mesmos a obrigação de
fazer o bem, se a impunidade é considerada
Justiça, quantas maldades não seríamos indu-
zidos a praticar diariamente!
Devolvendo fielmente a Plótio os valores
que este lhe confiara sem que ninguém o sou-
besse, e agindo como eu mesmo o fiz não raro,
Sexto Peduceu cumpriu menos uma ação
propriamente meritória do que deixou de mal
agir em não o fazendo. É útil lembrar, em nos-
sos tempos, que Cícero censurava a Sextílio
Rufo por ter aceito uma herança que sua cons-
ciência condenava, não porque fosse a coisa
contrária à lei, mas apesar de não a contrariar.
Não se mostra menos severo com relação a
Crasso e Hortênsio que, com sua autoridade e
influência, haviam sido incluídos em uma
herança, obtida por um estrangeiro mediante
testamento falso. Contentando-se ambos com
não ter participado da falsificação, não ha-
viam recusado os beneficios dela, pois legal-
mente se encontravam a coberto contra quais-
quer acusações ou testemunhos. “Deviam
lembrar-se de que havia o testemunho de Deus,
isto é, da própria consciência”391,
Seria a virtude coisa vã e frívola, se à glória
pedisse recompensa; não valeria a pena, nesse
caso, atribuir-lhe um lugar especial e estabe-
lecer uma distinção entre ela e a sorte, pois que
haveria de mais fortuito do que a reputação?
“A sorte estende seu domínio sobre todas as
coisas; eleva uns, abaixa outros, menos em
consequência do mérito do que segundo o pró-
prio capricho”3º2. Cabe à sorte fazer com que
nossas ações sejam vistas e conhecidas; a sorte
é que distribui a glória, ao sabor de sua fanta-
sia. Vi-a por vezes preceder o mérito e de ou-
tras feitas ultrapassá-lo. Quem primeiro teve a
380 Horácio.
391 Cicero.
382 Salústio.
ENSAIOS —IH
idéia de comparar a glória a uma sombra foi
mais feliz do que pensava: são duas coisas vÃs.
A sombra também nos precede por vezes e não
raro excede, de muito, o comprimento de nosso
corpo. Os que ensinam à nobreza a não buscar
a glória senão através da valentia, “como se
uma ação só se tornasse virtuosa com a
celebridade”*º3, que lhe inculcam, senão o
cuidado de nunca se expor sem ser vista? Que
lhe sugerem, senão que arranje testemunhas
capazes de contar suas proezas? Senão a evitar
de agir sem ser observada, embora não lhe fal-
tem oportunidades de bem fazer?
Quantas belas ações ocorrem em uma bata-
lha! Quem se preocupasse com atentar para os
gestos alheios, na confusão, nada produziria e
forneceria contra si mesmo os testemunhos
que colhesse acerca da conduta de seus
companheiros de armas: “Uma alma real-
mente grande coloca o bem, principal objetivo
de nossa natureza, nas ações virtuosas e não
na glória”3º 4.
A glória a que aspiro é a de ter vivido tran-
quilo, não como o entendem Metrodoro, Arce-
silau ou Aristipo e sim a meu modo. Em sendo
a filosofia incapaz de mostrar o caminho que
conduz ao repouso da alma e a todos convêm,
que cada qual por seu lado o procure.
A que devem César e Alexandre seu imenso
renome, senão à sorte? Em torno de quantos
homens estabeleceu ela o silêncio, no momento
em que principiavam a aparecer? Quantos,
cuja existência ignoramos, tiveram coragem
idêntica à desses heróis mas se viram desde o
início esmagados pelo azar? Não recordo ter
lido que, através dos numerosos e grandes
perigos que enfrentou, César tivesse sido feri-
do; no entanto milhares morreram em circuns-
tâncias muito menos perigosas. Por uma bela
ação de que se beneficia o autor, inúmeras ou-
tras passam despercebidas, porquanto nin-
guém houve para testemunhá-las. Nem sempre
nos achamos na brecha ou à frente do exército,
sob os olhos do general, como em um estrado.
Podemos ser surpreendidos entre a cerca e o
fosso. E, segundo as exigências do momento,
obrigados a destruir um galinheiro ou a desa-
lojar de uma barracão quatro pobres arcabu-
Zeiros. Ou ainda, destacados do resto da tropa,
ser forçados a agir isoladamente. E não custa
verificar que, em verdade, as ações que menos
nos colocam em evidência são ag que apresen-
tam maior perigo. E nas guerras de nossa
época perderam-se mais bravos guerreiros em
escaramuças de somenos, ou no assalto a algu-
ma choupana, do que nas batalhas memorá-
393 Id.
394 Cicero.
291
veis e suscetíveis de tornar famosos os seus
participantes.
Quem considera mal empregada a morte
que não traz celebridade, acaba obscurecendo
a vida e deixa fugir-lhe numerosas e justas
oportunidades de se aventurar. Ora, tudo o que
é justo comporta sempre ilustração suficiente,
o testemunho da consciência já constituindo
por si glória bastante: “nossa glória está no
testemunho de nossa consciência”3º 8. Quem
só é homem de bem sob a condição de que o
saibam, quem só quer fazer o bem para que
sua virtude alcance a celebridade, não presta
por certo grandes serviços. “Creio que o resto
do inverno Rolando fez coisas dignas de regis-
tro; mas permaneceram tão secretas até agora,
que não cabe culpa se não as conto, pois
Rolando sempre se mostrou mais disposto a
fazer do que a publicar e seus feitos só se
divulgaram quando tiveram testemunhas ”**º 8.
E preciso ir para a guerra por dever e não espe-
rar senão a recompensa que não falta nunca,
mesmo para as ações mais discretas, mesmo
para os pensamentos virtuosos, € que consiste
na satisfação de uma boa consciência. É preci-
so ser valente para si mesmo, e pela vantagem
de ter a coragem bem alojada e segura, e firme
contra os embates da sorte: “a virtude brilha
com luz sem mistura; ela ignora a recusa
vergonhosa, não se apropria das tochas consu-
lares, nem as abandona ao sabor de um povo
volúvel”39 7,
Não é para se exibir que nossa alma deve
desempenhar seu papel; é para nós e em nós,
onde ninguém a vê senão nós mesmos, onde
nos resguarda do temor à morte, da dor e da
vergonha, onde nos dã ânimo se perdemos
filhos, amigos e bens, e, quando necessário,
nos impele a enfrentar os azares da guerra:
“não em vista de alguma recompensa mas pela
satisfação da virtude”3º8, E esse um proveito
bem maior, bem mais digno de nossa ambição
que a honra e a glória, as quais não passam de
uma apreciação favorável a nosso respeito.
Para julgar o direito de propriedade de um
lote de terra, selecionamos em toda uma
nação, uma dúzia de homens; ao passo que
para julgar nossas intenções e ações, coisa
mais dificil, e importante, reportamo-nos à
opinião pública, à apreciação da massa igno-
rante, injusta e inconstante. Será razoável
entregar ao juízo dos Iguços a vida de um
sábio? Que haverá de mais insensato do que
estimar em conjunto o que se despreza parcela-
388 São Paulo.
RISE Ariosto.
37 Horácio.
des (OICEro:
292 MONTAIGNE
damente?ºº2” Quem procura agradar à multi-
dão não o consegue jamais; ela oferece apenas
um alvo mal definido e inatingível: “nada é
menos honroso do que o julgâmento da
massa *ºº”. Denétrio, referindo-se à voz do
povo, dizia, zombeteiro, que apreciava tão
pouco o ruído que vinha de cima quanto o que
lhe saía de baixo. Cicero é mais sarcástico
ainda: “digo que uma coisa, embora não o
seja, parece vergonhosa se louvada pela multi-
dão”. Nenhum talento, nenhuma sutileza con-
seguem dirigir nossos passos com um guia tão
errado e desregrado. Em meio a essa confusão
tumultuosa e sem consistência de ruídos, de
intrigas, de opiniões vulgares das multidões
que nos cercam, nenhum caminho se abre que
possamos trilhar. Não nos proponhamos, pois,
um objetivo tão flutuante e indeciso e marche-
mos com a razão. Que a aprovação pública
nos siga se quiser, e, como depende unica-
mente do acaso, não há motivo para esperar-
mos que tome este ou aquele rumo. Se eu não
seguisse o caminho reto, pela sua retidão,
ainda o seguiria por ter verificado, pela expe-
riência, que, afinal de contas, é o que de costu-
me nos torna mais felizes e nos é mais útil: “É
obra valiosa da Providência ter feito com que
as coisas honestas sejam igualmente as mais
úteis*01,”? Durante violenta tempestade um
nauta dos tempos antigos assim falava a Netu-
no: “Ó Deus, tu me salvarás se quiseres, tu me
condenarás se preferires, mas eu manterei reta,
assim mesmo, a barra do leme.” Tenho visto
muitas pessoas hábeis, espertas, ambíguas,
indubitavelmente mais prudentes do que eu
nos negócios deste mundo, perderem-se em
circunstâncias em que me salvei: “ri-me de ver
que a esperteza pode malograr-se *º2.”
Paulo Emílio, de partida para sua gloriosa
expedição na Macedônia recomendava acima
de tudo ao povo de Roma que não desse com a
língua nos dentes acerca de suas operações.
Quão nociva, com efeito, aos negócios impor-
tantes, é a licença com que os julgam, sem con-
tar que nem todos têm, em relação aos movi-
mentos populares, às injúrias e à oposição, a
firmeza de ânimo de Fábio, o qual preferiu ser
despojado de sua autoridade a prejudicar o que
lhe parecia certo, embora com isso granjeasse
reputação e popularidade.
Há não sei que doçura natural em sentir que
nos louvam. Mas damos demasiada impor-
tância a isso: “não odeio o aplauso, porque
tenho sensibilidade; mas nunca os “muito bem,
398 Cícero
400 Tito Lívio.
*01 Quintiliano.
“02 Ovídio.
bravo” me hão de parecer o objetivo que se
deva propor à virtude*º3”. Preocupo-me bem
menos com o que posso ser aos olhos de ou-
trem do que com o que sou a meus próprios
olhos; quero ser rico por mim mesmo e não
mediante empréstimos. Os estranhos não vêem
no que nos concerne serião as aparências exte-
riores, mas todos podem mostrar-se satisfeitos
por fora e ser devorados internamente pela
febre e o medo. Nosso coração não se vê, e sim
nossa atitude. É justo que condenemos a hipo-
crisia na guerra, pois nada é mais fácil a um
homem experiente do que se furtar ao perigo e
fingir de valente, com um coração de covarde.
Há tantos meios de evitar as oportunidades de
se expor seriamente, que é possível enganar mil
vezes os outros antes de se encontrar em situa-
ção de não poder evitar um risco; e ainda que
o risco se verifique, ocasionalmente, é possível,
uma vez ao menos, fazer das tripas coração e
embora com pavor na alma mostrar alguma
segurança. Quantos, se possuíssem o anel de
Giges, referido por Platão, que tornava invisi-
vel quem o trouxesse ao dedo, virado para a
palma da mão, quantos não o utilizariam a fim
de se esconder nos momentos em que mais
deveriam mostrar-se? E não se arrependeriam
de se achar, em vista de sua situação honrosa,
na obrigação de assumir atitude resoluta!
“Quem pode ser sensível à lisonja e temer a
calúnia, senão o desonesto ou o mentiro-
so *º*9” Eis por que todos os juízos que assen-
tam nas aparências exteriores são eminente-
mente incertos e duvidosos, e ninguém tem
mais fiel testemunha de si do que a própria
consciência. Quanto malandro temos por
companheiro de glória! E quem fica brava-
mente na trincheira fará mais e melhor do que
os cinquenta infantes que, por cinco soldos
diários, vão à frente, abrindo passagem e
cobrindo-lhe o corpo? “Quando a tumultuosa
Roma deprecia alguma coisa, tu não aprovas o
Julgamento nem tentas reequilibrar os pratos
da balança; não procures, portanto, o que és
fora de ti mesmo *º *?
Achamos que tornar um nome ilustre é colo-
cá-lo em bocas numerosas; esforçamo-nos por
que seja considerado e que o lustre adquirido
nos traga proveito — e é a melhor desculpa
que possamos dar de nossa conduta. Mas a
doença leva-nos tão longe que muitos tentam
fazer com que falem deles de qualquer manei-
ra. Trogo Pompeu e Tito Lívio diziam de
Heróstrato e de Mânlio Capitolino que prefe-
riam uma grande a uma boa reputação. O mal
é frequente. Preocupamo-nos mais com que
*03 Pérsio.
404 Horácio.
EA .
+05 Pêrsio.
ENSAIOS — II 293
falem de nós do que com o modo por que
falam. Basta-nos que o nosso nome ande de
boca em boca. Dir-se-ia que ser conhecido
consiste em outorgar a outrem o cuidado de
nossa vida e sua duração.
Quanto a mim, considero que sou somente
eu mesmo. Essa outra vida, feita com o que
meus amigos sabem de mim, a encará-la como
é, despojada de qualquer artifício, bem sei que
o que dela tiro e o gozo que me dá não passam
de vaidade produzida pela imaginação. Quan-
do morrer, sentirei ainda menos esse efeito;
perderei então, totalmente, o uso das Coisas
realmente úteis que por vezes devemos à vida.
Não poderei mais usufruir de minha reputação
nem ela poderá tocar-me, atingir-me. Não
posso, efetivamente, confiar em que ela se ligue
a meu nome, e antes de mais nada porque não
sou o único a usá-lo; sobre os dois que tenho,
um é comum a todos os membros de minha
família, e de outras. Uma destas existe em
Paris e Montpellier a que chamam Montaigne;
outra na Bretanha e Saintange, a qual se inti-
tula “de la Montaigne”. Essa interposição de
uma sílaba não basta para que nossos feitos e
gestos não se confundam a ponto de não poder
eu participar de sua glória e não poderem eles
ser respingados pela minha indignidade; e isso
embora os meus se tenham chamado outrora
Eyquem, sobrenome aplicável igualmente a
uma família conhecida na Inglaterra. Quanto a
meu outro nome, é prenome que pertence a
quem o queira usar e a honra que lhe couber
poderá caber também a um carregador. Por
outro lado, ainda que me tornasse um persona-
gem marcante, que significará a marca? Pode-
rã designar algo inexistente e dar-lhe brilho?
“Que a posteridade me aplauda, ser-me-á mais
leve a pedra que cobrir meus ossos? Meus
manes, meu túmulo, minhas cinzas afortuna-
das, se cobrirão com isso de violetas *º 892”
Mas desse assunto já tratei alhures.
Numa batalha em que dez mil homens são
mortos ou feridos, falar-se-á de uma quinzena
apenas. É preciso que a sorte nos gratifique
com um feito de armas realmente importante
para que se evidencie alguma ação particular,
perpetrada já não digo por um arcabuzeiro
mas por um capitão; pois, embora matar um
homem, dois ou dez, e enfrentar corajosamente
a morte sejam de fato alguma coisa para qual-
quer um de nós, que tudo jogamos na parada,
para o mundo nada têm de extraordinário.
Vêem-se tantas coisas semelhantes diaria-
mente, e são necessárias tantas para que se
obtenha um resultado sensível, que não pode-
mos esperar venham a chamar a atenção de
“08 Pérsio.
um modo especial: “São acidentes comuns,
ocorridos com muitos outros e que figuram
entre os inúmeros azares do destino *º 7,”
Entre os milhares de valentes soldados que
morreram em França, de armas nas mãos, não
há cem cuja memória nos tenha alcançado. A
recordação, não somente dos chefes mas igual-
mente dos próprios exércitos, extinguiu-se. Os
acontecimentos marcantes de mais de metade
do mundo, por não se haverem registrado, não
os conheceu ninguém fora do lugar onde ocor-
reram. Caíram no esquecimento. Se possuisse
os relatos das ocorrências ignoradas, acharia
neles, creio, exemplos de toda espécie mais
importantes do que nos fornecem os fatos
conhecidos. Temos a prova na história da Gré-
cia e de Roma, tão rica de feitos nobres e
raros. Embora com fartos testemunhos e tan-
tos escritores para Os registrar, bem poucos
chegaram até nós. “Com dificuldade, um vento
brando trouxe-nos a sua fama *ºº.” E dentro
de cem anos, talvez nem se lembrem de que em
nossa época houve guerras civis em França.
Os lacedemônios, ao entrar em guerra, ofere-
ciam sacrifícios as musas, a fim de que seus
feitos fossem bem e dignamente transmitidos à
posteridade, pois consideravam que é por
favor divino, raramente concedido, que as
belas ações encontram testemunhas que as sai-
bam contar e rememorar.
Suponhamos que todas as vezes que nos
expomos ao fogo dos arcabuzes, ou corremos
um risco, um escrivão se encontre no local
para registrá-lo. Que outros cem escrivães o
reproduzam, falar-se-á, ainda assim, da coisa
durante três dias, se tanto, e ninguém mais dela
se ocupará em seguida. Não possuímos a milé-
sima parte dos escritos antigos; a sorte é que
lhes dá uma vida mais ou menos longa; e os
que nos sobram podem ser os piores ou os
melhores. Cabe-nos duvidar, porquanto não
conhecemos os restantes. Não se faz história
com tão .pouco; é preciso ter conguistado
impérios e ganho cinquenta batalhas, como
César. Dez mil bons companheiros morreram
com ele, corajosamente, “sepultos na glória de
um momento *ºº”, Mesmo a memória daque-
les de que vimos pessoalmente a obra, não
dura mais do que dois ou três anos; esquecem-
se, depois, e são como se nunca houvessem
existido. Quem quer que atente para a glória
que alcançaram as pessoas e os feitos cuja
recordação se perpetua nos livros, há de con-
cluir que, guardadas as proporções, bem pou-
cos terão direito a igual destino. Quantos ho-
mens virtuosos conhecemos que, sobrevivendo
“07 Juvenal.
408 Virgílio.
409 Td.
294
à sua reputação, tiveram a desgraça de ver,
ainda em vida, apagarem-se a honra e a glória,
Justamente conquistadas em sua mocidade!
Nesse ponto, tão importante, propõem os sá-
bios um fim mais belo e justo: “a recompensa
a uma nobre ação está em a ter realizado; o
fruto do serviço prestado é o próprio
fruto*1º”. Será possivelmente muito com-
preensível que um pintor ou qualquer artista,
ou um retórico, ou um gramático, se esforce
para ganhar renome com sua obra; mas os
atos que nos inspira a virtude são demasiado
nobres em si para que busquemos uma recom-
pensa fora deles, principalmente na inanidade
dos juízos humanos.
Se, entretanto, essa idéia falsa contribui
para manter os homens no caminho do dever, €
os predispõe à virtude; se os príncipes são sen-
síveis ao fato de se honrar a memória de Traja-
no e se execrar a de Nero; se os comove ver o
nome deste grande malfeitor, outrora objeto de
terror, hoje maldito e insultado livremente por
qualquer estudante; deixemo-la desenvolver-se
à vontade e cuidemos dela com carinho.
Platão que atentava para tudo o que pudesse
impelir seus concidadãos à virtude, aconse-
lha-os, entre outras coisas, a não desprezarem
a consideração e a estima do povo, e diz que,
por uma espécie de inspiração divina, até os
maus sabem distinguir, em seus juízos, o mal
do bem. Esse filósofo e Sócrates, seu mestre,
entendem-se perfeitamente e não hesitam em
fazer intervirem as revelações divinas sempre
que a força humana se revela impotente, “a
exemplo dos poetas trágicos que recorrem aos
deuses quando não sabem encontrar um desen-
lace para sua peça“''?. Eis talvez por que
Timon, invectivando-o, o tachava de grande
fabricante de milagres.
Se os homens são incapazes de apreciar a
moeda verdadeira, usa-se a falsa. Todos os
legisladores assim o fizeram; não há legislação
em que não se depare com alguma mistura de
cerimônias fúteis ou de lendas fantasistas que
servem para manter o povo no caminho do
dever. É por isso que em sua maioria têm elas
origem na fábula e se enriquecem de mistérios
sobrenaturais, o que deu crédito a essas reli-
giões nascidas do erro e fez que pessoas sensa-
tas as aceitassem. É também por isso, para
levar mais seguramente os homens a acredi-
41º Sêneca.
411 Cicero.
MONTAIGNE
tarem neles, que Numa e Sertório os alimen-
tavam com tolices. E dizia um de sua ninfa
Egéria e outro de sua corça branca que lhes
comunicavam as opiniões dos deuses. Essa
mesma autoridade que Numa emprestava às
suas leis mediante intervenções divinas dava
Zoroastro às suas, servindo-se de Oromasdes;
e Trismegisto, através de Mercúrio, assim se
conduziu com os egípcios. Zámolxis valeu-se
de Vesta junto aos citas; Carondas, de Satur-
no, na Calcedônia; Minos, de Júpiter, em Cân-
dia; Licurgo, de Apolo, na Lacedemônia;
Draco e Sólon, de Minerva, em Atenas. Toda
legislação traz um deus à frente. Em todas tra-
ta-se de um falso deus; somente emana do ver-
dadeiro Deus a que Moisés deu ao povo da
Judéia à saída do Egito. A religião dos bedui-
nos, diz Joinville, declara, entre outras coisas,
que a alma de quem morre por seu príncipe
passa para um corpo mais feliz, mais belo,
mais forte do que o primeiro, o que.os induz a
se exporem de bom grado ao perigo:
“desafiavam o ferro, abraçavam a morte,
|
considerando covardia poupar uma vida que
devia renascer*'2”?. Eis uma crença salutar,
embora falsa. E cada nação possui certo núme-
ro de crenças semelhantes. Mas o assunto me-
rece comentário especial.
Uma palavra ainda. Não aconselho tam-
pouco às sérihoras denominarem honra o que
constitui seú dever, “assim como na linguagem
comum só se chama bem ao que parece glo-
rioso ao povo *13?. O dever é o fruto, a honra,
a casca, e as mulheres se prejudicam a si mes-
mas invocando tal desculpa quando se recu-
sam a entregar-se, pois sua intenção, seu dese-
Jo, sua vontade nada têm a ver com a honra, €
devem ser mais considerados, no caso, do que
o fato em si: “já sucumbiu aquela que recusa
porque não lhe é permitido sucumbir *'*2. A.
ofensa a Deus e à consciência é tão grande
quando resulta do desejo como quando pro-
vém do fato consumado. Ademais, são fatos
que ocorrem em lugares geralmente ocultos, e
ser-lhes-ia muito fácil escondê-los dos outros,
que outorgam a honra, se não praticassem a
castidade por si mesmã. Toda pessoa honrada
prefere perder a honra a agir contra a própria
consciência.
“12 Tucano.
413 Cícero.
414 Ovídio.
ENSAIOS — II 295
CapítTuLO XVII
Da presunção
Há outro tipo de glória que consiste em ter-
mos opinião demasiado boa de nós mesmos.
Essa afeição imprudente faz que nos represen-
temos aos nossos próprios olhos diferentes do
que somos. E atua como a paixão amorosa,
que empresta ao objeto de seu amor a beleza e
a graça, turvando e alterando a razão de quem
ama € fazendo da pessoa amada um ser muito
mais perfeito do que é.
Não quero, entretanto, passando de um
extremo a outro, que um homem se despreze
ou se estime menos do que vale. Nosso julga-
mento deve conservar sua retidão e é justo que
nisso, como em outras coisas, veja em que con-
siste a verdade. Se é César, que se considere
corajosamente o maior guerreiro do mundo.
Tudo é convenção; as convenções guiam-nos e
nos levam a menoscabar a realidade. Pendura-
mo-nos aos galhos e largamos o tronco, que é
essencial. Ensinamos as mulheres a corar ao
ouvirem o que em absoluto não receiam fazer;
não ousamos chamar a nosso sexo pelo nome
certo, mas não tememos empregá-lo na devas-
sidão.
Não querem as convenções que nos refira-
mos aos atos lícitos e naturais que entretanto
praticamos; a razão aconselha-nos a não
cometer os ilícitos e maus, mas ninguém a
ouve. Eu mesmo, neste momento, estou sendo
tolhido por essas regras que as convenções nos
impõem e que nos recomendam não falarmos
de nós mesmos, nem bem nem mal. Mas não
as observamos.
Aqueles que os fados, bons ou maus, esco-
lheram a fim de que vivessem em situações ele-
vadas, podem com seus atos públicos revelar o
que são; mas os que a sorte deixou mergu-
lhados na massa e de quem ninguém há de
falar se eles próprios não o fizerem, são descul-
páveis quando, a exemplo de Lucílio, ousam
falar de si aos que por eles se interessam:
“confiava seus segredos ao papel como a um
amigo fiel, e, feliz, ou infeliz, nunca teve outro
confidente; por isso toda a sua longa vida aí se
expõe, e aparece pintada como em um quadro
votivo*'5” O papel era depositário de seus
416 Horácio.
atos e pensamentos, nele se pintava como se
via. “Rútilo e Escauro em fazendo o mesmo
não tiveram menor crédito nem foram menos
apreciados“! 8,”
Lembro-me de que em minha infância
observavam em mim certos gestos que eviden-
ciavam alguma vaidade e uma absurda altivez.
A esse respeito, quero dizer desde já, que não é
raro termos qualidades e tendências próprias
que se enraízam em nós a ponto de não as
percebermos. O corpo retém por vezes alguns
vestígios delas, bem contra a nossa vontade.
Alexandre tinha o hábito de inclinar a cabe-
ça levemente para um lado, o que se coadu-
nava com seu tipo de beleza. Alcibíades falava
lenta e gravemente. Júlio César coçava a cabe-
ça com o dedo, indício de graves preocupa-
ções. Cícero, se não me engano, franzia o
nariz, sinal de temperamento zombeteiro. Há-
bitos semelhantes podem surgir em nós sem
que os percebamos. Não falo de outros, estu-
dados, como as saudações e reverências que
nos outorgam, por vezes erroneamente, a repu-
tação de humildade e cortesia. Ora, a humil-
dade eu só a admito quando se trata de glória.
Sou pródigo em saudações, principalmente no
verão, e nunca as recebo sem as devolver, ve-
nham de quem vierem, a menos que as pessoas
estejam a meu serviço. Desejaria que certos
príncipes de minhas relações se mostrassem
mais parcimoniosos e as distribuíssem somen-
te a quem as merecesse. Não sendo discretos,
desvalorizam-nas.
Entre as atitudes estranhas mencionemos a
arrogância do imperador Constâncio que em
público mantinha a cabeça ereta, não a viran-
do nem inclinando, nem mesmo para enxergar
quem o saudava, a seu lado. Mantinha-se imó-
vel, não acompanhando sequer o movimento
de seu carro, não ousando cuspir, nem se
assoar, nem enxugar o rosto diante dos outros.
Não sei se os gestos que observavam em
mim eram dessa natureza e se eu realmente
tinha tendência para a vaidade; é possível.
Não posso responder por meus defeitos físicos,
mas quanto aos movimentos da alma quero
confessar aqui o que sinto.
416 Tácito.
296
A presunção exerce-se de duas maneiras: em
nos superestimando e em subestimando os
outros. Quanto à primeira maneira, parece-me
que certas considerações devem ser pondera-
das. Sou vítima de um erro sentimental que me
desagrada e se me afigura iníquo e ainda mais
importuno. Tento corrigilo, mas não posso
libertar-me: subestimo o valor das coisas que
possuo e, ao contrário, superavalio as que não
me pertencem ou se acham fora de meu alcan-.
ce. Assim, o privilégio da autoridade impele
certos maridos a desprezarem suas mulheres, e
certos pais a desdenharem os filhos. Chamado
a escolher entre duas obras iguais, preteriria
sempre a minha, não porque meu julgamento,
preocupado com o desejo de progredir conti-
nuamente, não me dê satisfação, mas porque a
própria posse já diminui o valor do que possui-
mos e influi em nosso livre arbítrio. Aprecio
particularmente as constituições, os costumes
e as línguas da antiguidade e verifico que pela
sua nobreza o latim me seduz mais do que fora
natural e me impressiona como impressiona as
crianças e o povo. O nível de vida, a residên-
cia, o cavalo de meu vizinho parecem-me supe-
riores aos meus, embora importem em despe-
sas idênticas, somente porque não são meus.
Mais ainda, não tenho consciência do que
possa valer; admiro a segurança que todos exi-
bem e a confiança que têm em si, enquanto não
hã nada que eu imagine saber nem que eu
pense poder executar. Quando me proponho
fazer tal ou qual coisa, não tenho de antemão a
noção exata dos meios de que posso dispor
para obter êxito e somente percebo o que está
em minhas forças pelo resultado. Duvido de
mim como dos outros. Disso decorre que
quando faço um trabalho merecedor de louvo-
res, atribuo-o antes à sorte do que ao meu
talento, tanto mais quanto só o acaso me guia;
e o temor.
Tenho ainda isso de particular que habitual-
mente, entre as opinioes que a antiguidade
emitiu acerca do homem em geral, agradam-
me mais as que revelam maior desprezo por
nós, que nos aviltam e desdenham. A filosofia
nunca se me afigura mais certa do que quando
combate nossa presunção e nossa vaidade,
quando reconhece de boa fé sua ignorância e
sua fraqueza. Parece-me que a origem dos
maiores erros de nosso julgamento, tanto do
indivíduo como da massa, e o que os mantém
vivos, é a opinião demasiado favorável que o
homem tem de si. Esses sujeitos que cavalgam
a órbita de Mercúrio e vêem tão claramente o
que ocorre no céu, fazem-me dar de ombros.
Deparo, com efeito, neste meu estudo, que tem:
por objeto o homem, com uma tal variedade de
juízos, um tal labirinto de dificuldades, tanta
MONTAIGNE
incerteza e indecisão entre os que ensinam a
sabedoria, que se essa gente não consegue se-
“quer conhecer-se a si mesma, nem entender as
condições de sua existência, que tem continua-
damente sob os olhos, que nela reside, se essa
gente não sabe como se move o que ela própria
põe em movimento, nem como nos descrever
as molas que tem nas mãos, eu, por meu lado,
sinto-me pouco propenso a nela acreditar
- quando nos expõe as causas a que atribui o
fluxo e o refluxo do Nilo. A curiosidade de
tudo conhecer é um flagelo da humanidade,
rezam as Escrituras.
Voltando ao meu caso particular, parece-me
dificil que alguém se subestime tanto: Condu-
zo-me como todo mundo, salvo em relação a
mim mesmo. Tenho os piores defeitos, os mes-
mos que se encontram em todo mundo, mas os
reconheço, e só me vanglorio de saber o que
valho*!7. Se tenho alguma vaidade, é superfi-
cial e provém da traição de meu tempera-
mento. Não tendo raízes profundas, tal defeito
escapa a meu julgamento, e se me borrifa, não
chega a molhar-me. Pois, em verdade, as mi-
nhas obras, quaisquer que sejam, não me satis-
fazem nunca e não considero recompensa a
aprovação dos outros. Tenho o julgamento
delicado e dificil, especialmente quanto ao que
me concerne; sinto-me indeciso, irresoluto e
fraco; nada de mim satisfaz a razão. Sou bas-
tante perspicaz e vejo com justeza, mas, à
obra, minha vista se turva. E o que experi-
mento nitidamente na poesia; aprecio-a muito
e sei julgar as obras alheias, mas quando pro-
curo escrever poemas sou como uma criança, e
o que faço não o suporto: “tudo proíbe a
mediocridade aos poetas: os deuses, os ho-
mens, as colunas dos pórticos onde se afixam
os versos *!8?. Prouvera Deus se encontrasse
tal pensamento nos mostruários dos impresso-
res, a fim de vedar a entrada a bom número de
versificadores! “Porém, ninguém acredita
mais em si do que um mau poeta *!*º.”
Por que não somos como alguns povos?
Dionísio, o Antigo, apreciava sua poesia
acima de tudo. Por ocasião dos jogos olímpi-
cos, juntamente com carros que sobreexcediam
os outros em magnificência, as tendas e os
pavilhões luxuosamente decorados, enviou
poetas e músicos para que apresentassem seus
versos. Ao serem julgados, interessaram a
princípio, graças à dicção dos atores, mas
percebendo-lhes a mediocridade em seguida, o
povo os ridicularizou e, exasperando-se, assal-
417 Há uma contradição flagrante com o que afirma
no início do capítulo (N. do T.)
*18 Horácio.
“18 Marcial.
ENSAIOS — II
tou as tendas do tirano e as desmantelou. Seus
carros não tiveram melhor êxito na corrida de
que participaram; o navio que transportava o
seu séquito não pôde ancorar na Sicília e foi
espatifar-se de encontro às costas de Tarento.
E esse mesmo povo não duvidou um só ins-
tante de que não se tratasse de um efeito da có-
lera dos deuses irritados com o mau poema. E
os marinheiros salvos do naufrágio eram da
mesma opinião. O oráculo que predisse a
morte de Dionísio pareceu mesmo ratificar o
Julgamento. Dizia que teria chegado ao fim
quando vencesse os que valiam mais do que
ele. Quis o tirano aplicar o vaticínio na guerra
contra os cartagineses cujo poderio ultrapas-
sava o seu. Não explorava a fundo as vitórias
e continha seus exércitos para não cair no caso
previsto, mas na verdade não aprendera o sen-
tido recôndito do oráculo. O deus visara o
momento em que, pela intriga, venceria em
Atenas os poetas trágicos, mais talentosos,
obtendo contra toda justiça que uma sua peça
fosse representada. Logo após o sucesso, mor-
reu subitamente, em parte por causa da grande
alegria que experimentara.
Quando porventura acho em minha produ-
ção algo desculpável, não penso no seu valor
próprio; o que a meus olhos lhe dá crédito são
as coisas piores que vejo apreciarem. Invejo a
felicidade dos que se satisfazem com o que
produzem, pois é meio fácil que temos de
alcançar o prazer, visto que o tiramos de nós
mesmos, e os invejo principalmente quando
demonstram persistência e constância. Conhe-
ço um poeta ao qual, delicada ou brutalmente,
em público ou em particular, céus e terra
declaram que não entende do riscado. Nem
por isso renuncia ao que quer que seja, e sem-
pre recomeça e consulta e persiste, tanto mais
confiante em sua própria opinião quanto é o
único a pensar que julga com justeza.
- Falta muito para que minhas obras me satis-
façam, e quanto mais as retifico mais me abor-
recem: “quando as releio, envergonho-me de
as ter escrito, pois vejo nelas muitas coisas
que, mesmo a meus olhos indulgentes de autor,
são indignas de perdurar “2º”. Tenho sempre
uma idéia em mente, mas não a percebo com
nitidez. Sem cessar entrevejo, como em sonho,
uma forma melhor, mas não a posso apreender
nem realizar. Quanto à idéia mesma, não é
nunca de primeira ordem. Isso induz-me a con-
cluir que as produções desses espiritos tão
ricos e grandes de outrora ultrapassam, de
muito, o extremo limite de minha imaginação e
do que aspiro atingir. Seus escritos não somen-
te me cativam, mas ainda me maravilham;
s20 Ovídio.
297
aprecio-lhes a beleza, a qual talvez não me
apareça em sua plenitude mas tão-somente na
medida do que posso perceber. O que quer
que empreenda, invoco as Graças, a fim de,
como diz Plutarco de alguém, conciliar seus
favores, “pois tudo o que agrada, e encanta os
sentidos dos mortais, às Graças o devemos”;
mas nunca elas me atendem. Tudo em mim é
grosseiro; careço de gentileza e beleza; não sei
valorizar as coisas além de seu valor; minha
maneira de apresentá-las não põe em relevo a
matéria, por isso necessito tê-la consistente,
interessante e brilhante em si. Quando trato
certos assuntos mais vulgares com algum espi-
Tito, faço-o por inclinação natural, não me
comprazendo nessa sabedoria convencional,
impregnada de tristeza, que granjeia a simpa-
tia da sociedade. E por desejo de me divertir,
bem mais do que por convirem a meu estilo,
mais adequado aos temas severos, se é que
posso chamar estilo, a uma linguagem infor-
me, desobediente a todas as regras, verdadeiro
Jargão popular, unida a uma redação inominá-
vel, mal equilibrada, falta de clareza € incon-
clusiva, à moda de Amafínio e de Rabírio.
Não sei agradar, nem divertir, nem interessar:
a melhor história do mundo, dita por mim,
perde graça e encanto. Só sei falar quando me
sinto tomado pelo assunto, e careço inteira-
mente dessa facilidade que vejo em muitas pes-
soas de minhas relações, as quais prendem a
atenção de todos, divertem um príncipe sem o
cansar, com toda espécie de considerações.
Não lhes falta assunto porque têm a faculdade
de se apoderar de qualquer um e tratá-lo
segundo a disposição de espírito e o grau de
inteligência dos que os ouvem. ÁÃos príncipes
não apetecem as conversações sérias, nem a
mim contar lorotas. As razões que primeiro se
me apresentam à idéia, as mais acessíveis e em
geral as mais facilmente aceitas, não as sei
empregar. Sou um mau orador de improviso €
qualquer que seja o tema vou diretamente ao
fundo, e digo o que sei. Cicero reconhece que
nas questões filosóficas o mais difícil é a entra-
da em matéria. Talvez por isso mesmo passo
logo prudentemente à conclusão. Mas é preci-
so também saber afinar seu instrumento e
regular-lhe as cordas, a fim de que o som mais
agudo seja o menos comum. Há pelo menos
igual talento em dar realce a um assunto vazio
de sentido quanto em defender outro de peso.
Ora cumpre tratá-lo com leveza, ora ir a fundo
no tema. Bem sei que em sua maioria os ho-
mens se atêm ao menos complexo desses pro-
cessos, e encaram as coisas superficialmente.
Xenofonte ou Platão são por vezes seduzidos
por essa maneira simples € habitual de ventilar
as questões, condimentando-as entretanto
298
com esse encanto que lhes é peculiar.
Minha linguagem nada tem de fácil e fluida;
é antes áspera, livre, desregrada. Quero-a
assim, não por decisão e sim por tendência
natural, mas sinto quê às vezes não me con-
trolo suficientemente e que em me esforçando
por evitar o artifício e a afetação, caio no
excesso contrário: “procuro ser breve e torno-
me obscuro *21?. Platão diz que a sobriedade e
a prolixidade são qualidades que não intervêm
no mérito da linguagem. Por mais que tentasse
tornar a minhá igual, uniforme, bem ordenada,
não o conseguiria. Embora as frases curtas e
ritmadas de Salústio se acertem melhor à
maneira de me exprimir, acho o estilo de César
mais nobre e menos. passível de imitação; e
apesar de ser mais levado a aproximar-me do
de Sêneca, o fato não me impede de preferir o
de Plutarco. Nos atos e nas palavras obedeço à
minha nafureza, o que faz que talvez me saia
melhor falândo do que escrevendo. O movi-
mento e à ação dão vida às'palavras, principal-
mente nos que, como eu; têm o gesto brusco e
se entusiasmam. A atitude, a expressão, a voz,
a roupa, as circunstâncias podem valorizar o
que por si mesmo não tem grande valor, como
a loquacidade: Messala, em Tácito, queixa-se
das vestimentas demasiado estreitas que então
se usavam e do tipo das triburias que prejudi-
cavam os efeitos da eloquência. -
Meu francês é alferado pela pronúnciá e ou-
tros defeitos inerentes à minha região; nunca vi
alguém, do sul do Loire, cuja maneira de falar
não lhe revelasse francamente a origem e não
ferisse cs ouvidos puramente franceses. No
entanto, não sou muito sabido no dialeto peri-
gordino e não o emprego mais do que o ale-
mão, nem me preocupo muito com o saber.
Trata-se aliás de uma língua (como as demais
dessa região, do Poitou a Auvergne) sem gran-
de força expressiva. Mais abaixo, do lado das
montanhas, há no entanto um falar gascão que
acho particularmente belo, seco, sóbrio, ex-
pressivo, mais viril e marcial do que os outros
e tão nervoso e forte quanto o francês é gracio-
so, delicado e rico. No que concerne ao latim,
minha língua materna, por não o praticar perdi
a facilidade de o falar correntemente e mesmo
de o escrever, o que fazia outrora e me valera o
apelido de “mestre João *?2” |
A beleza é elemento de importância nas
relações sociais. É o meio mais eficiente de
aproximação, é não há homem, por mais gros-
seiro e sorumbático que seja, que não se sinta
influenciado pelo que ela tem de agradável. O
corpo é parte importante de nós, ocupa um
+21 Horácio.
+22 Mestre-escóla.
MONTAIGNE
|
lugar relevante; sua estrutura e seu funciona-
mento merecem portanto toda consideração.
Erram os que o querem encarar à parte, isolan-
do-o da alma, outro elemento primordial do
nosso ser. É necessário, antes, juntá-los se se
acham desunidos e apertar o nó que os prende
um a outro. Cumpre exigir da alma que não
tente afastar-se do corpo, desprezando-o,
abandonando-o (o que só se poderia fazer em
virtude de uma inspiração infeliz), mas que se
aproxime dele, que o' envolva, o acarinhe, o
assista, o controle, o aconselhe, o corrija e o
reponha no bom caminho quando se perde.
Que lhe sirva em suma de esposa, de forma a
não se verificarem divergências aparentes nos
atos de ambos e agirem de comum acordo. Os
cristãos têm a esse respeito orientação precio-
sa. Sabem que a justiça divina impõe essá ligá-
ção, essa vida em comum, a ponto de ter torna-
do o corpo suscetível de recompensas eternas,
pois Deus dã ao homem inteira liberdade de
ação e quer que participé totalmente, e segun-
do seus méritos, dos castigos e prêmios.
A seita dos peripatéticos, a mais compene-
trada das necessidades das coletividades, atri-
bui à sabedoria sozinha o cuidado de promio-
ver a associação benéfica dos dois elementos.
Essa escola demonstra com clareza o erro em
que laboraram as outras seitas ao não apreciar
devidamente essa ligação intima e encarar
separadamente cada uma das partes, declaran-
do-se umas favoráveis ao corpo e outras à
alma, perdendo de vista o objeto de seus
comentários, o homem, e o seu guia, que em
geral afirmam ser a natureza. A primeira dis-
tinção que se verificou entre os homens, a
consideração que inicialmente determinou a
preeminência de uns sobre outros, foi determi-
nada provavelmente pela vaântagern dá beleza:
“a repartição das terras fêz-se a princípio
proporcionalmente à beleza, ao vigor e à inteli-
gência de cada um; porque então a beleza e o
vigor eram as principais recomendações *?3”
Sou de estatura pouco abaixo da mediana; é
um defeito não somente nocivo à beleza mas
ainda incômodo para os que exercem coman-
dos e cargos, pois carecem assim da autori-
dade que ouforgam uma bela estatura e um f-
sico imponente. C. Mário não aceitava de bom
grado os soldados cuja altura não alcançasse
seis pés. O Cortesão*?* tem razão quando
recomenda para o fidalgo perfeito uma esta-
tura mediana e proscreve qualquer particula-
ridade que o distinga especialmente. Mas a
aceitar-se essa mediania, não o escolheria
como soldado se ele estivesse antes aquém do
que além dela. Os homens pequenos, diz Aris-
“23 Lucrécio.
424 TI Corteggiano, de Castiglione.
ENSAIOS — II
tóteles, são bonitos, mas não belos; pois assim
como a grandeza dos feitos revela uma grande
alma, a estatura e o porte associam-se à bele-
za. Os etiopes e os indianos, diz igualmente
esse autor, levavam em conta a beleza e a esta-
tura na escolha de seus reis e magistrados.
Estavam certos, porque um chefe com tais
qualidades, à frente de uma tropa, inspira res-
peito aos seus e temor aos inimigos. “À testa
marcha Turno de armas à mão, magnífico e
ultrapassando de uma cabeça os que o
cercam 24
Noósso divino e soberano rei que está nos
céus e cujos atos todos devem ser religiosa-
mente meditados, com atenção e respeito, não
desdenhou distinguir-se pela beleza física: “era
o mais belo dos filhos dos homens”. E Platão
deseja que aqueles que coloca à testa da Repú-
blica, unam a beleza à moderação e ao caráter.
É humilhante para o nosso amor-próprio ver
alguém -procurar-nos em meio à criadagem:
“onde estã o senhor?” Sobram-nos então, ape-
nas, os restos das saudações endereçadas ao
barbeiro e ao secretário. Tal desventura ocor-
reu com o pobre Filopêmen. Chegara antes
dos seus à casa em que o esperavam. Sua anfi-
trioa não o conhecia e ante seu aspecto biso-
nho pediu-lhe que fosse ajudar os servidores a
carregarem água e atiçarem o fogo para a
recepção de Filopêmen. Vendo-o nessa tarefa,
ao chegarem, perguntaram-lhe os fidalgos de
seu séquito o que fazia: “Pago a desgraça de
ser feio”, respondeu-lhes.
Os outros gêneros de beleza são do domínio
da mulher: o da estatura é o único peculiar ao
homem. Nem a fronte ampla e bem desenhada,
nem a limpidez e a doçura dos olhos, nem o
nariz bem feito, nem as orelhas e a boca peque-
nas, nem a bela barba castanho-escura, abun-
dante e regular, nem a cabeleira altiva, nem a
proporção perfeita da cabeça, nem o frescor da
tez, nem os traços agradáveis, nem o corpo
sem odores, nem os membros bem equili-
brados podem fazer de um homem pequeno
um belo homem. ;
Sou atarracado e forte, tenho o rosto cheio
sem ser balofo; meu humor flutua entre jovial e
melancólico, meu temperamento é algo sangui-
neo, “o que faz que tenha as pernas e o peito
peludos *2 8”, a saúde boa, robusta e raramen-
te, até idade bem avançada, a perturbou a
doença. Assim foi, pelo menos, até hoje, pois
agora já me aproximo da velhice, tendo ultra-
passado há muito os quarenta, e já não vou tão
bem: “pouco a pouco extinguem-se as forças,
esgota-se o vigor e a decrepitude cresce *?2 7” O
“25 Virgílio.
226 Marcial.
427 Lucrécio.
299
que serei doravante não será mais do que um
meio ser, não será mais eu mesmo: “os anos
arrancam-nos sem descontinuar algum peda-
ço 42 B>2
Fisicamente não tive nem destreza nem
talentos especiais, embora filho de um pai
muito vivo e de uma agilidade que conservou
até a mais avançada velhice. Não havia em seu
tempo homem que o igualasse nos exercícios
do corpo, como não encontrei muitos que não
me sobreexcedessem, salvo na corrida a pé na
qual, contudo, não fui além dos medíocres. Na
música, vocal ou instrumental, fui inepto e
nunca puderam ensinar-me coisa alguma. Na
dança, no jogo da bola, na luta, revelei-me
sempre fracalhão e vulgar. Era absolutamente
nulo em natação, na esgrima, na acrobacia e
no salto. Sou tão desajeitado: de mão que mal
posso reler o que escrevo, a ponto de preferir
escrever de novo a decifrar minhas garatujas.
Não leio muito melhor do que escrevo, e sinto
que canso quem me escuta. Sou todavia
suficientemente letrado. Incapaz de dobrar
com eficiência uma carta, não sei tampouco
apontar a pena*2º. Não sei trinchar à mesa,
nem arrear um cavalo, nem carregar um falcão
ao punho e lançá-lo sobre a presa, nem me
fazer entender dos cães, pássaros e cavalos.
Minhas qualidades físicas estão em suma
perfeitamente de acordo com as de minha
alma; não há em mim nenhuma vivacidade,
mas apenas um vigor geral bem caracterizado.
Resisto facilmente ao trabalho, sob a condição
de mo impor eu mesmo e em meu proveito: é
prazer que me causa o trabalho, faz-me esque-
cer a fadiga “20”.
Se não encontro prazer na tarefa, se outra
coisa que não minha simples e livre vontade
me obriga a trabalhar, já não valho mais nada.
Mesmo porque cheguei a um ponto em que,
salvo em benefício da saúde e da vida, nada
quero que me aborreça ou me constranja: “por
esse preço não desejaria toda a areia do Tejo
com o ouro que carreia para o oceano “31º.
Sem ocupação obrigatória, livre por natureza e
pela vida que escolhi, preferiria dar meu san-
gue a meu esforço. Minha alma ama a liber-
dade e a independência e está habituada a
conduzir-se a seu bel-prazer. Não tendo tido
até agora nem chefe, nem senhor, fiz o que quis
e do jeito que me apeteceu; isso amoleceu-me e
me tornou inútil aos outros, e somente a mim
mesmo útil.
*28 Horácio.
“29 Pena de pato, que se apontava para escrever.
(N. do T.)
“30 Horácio.
“31 Juvenal.
300 MONTAIGNE.
Não fui forçado a lutar contra esse tempera-
mento preguiçoso e tardo, pois achei-me desde
a infância em situação financeira de tal ordem
que não a pude mudar (situação que mil outros
de minhas relações teriam aproveitado para
conquistar glórias e honrarias, agitar-se e
aborrecer-se). Tal circunstância, unida a mi-
nhas tendências inatas, fez que nada buscasse
nem conquistasse: “o Aquilão em verdade não
incha as minhas velas, mas Austro não per-
turba a minha marcha serena; em força, talen-
to, beleza, virtude, berço e bens, figuro entre os
últimos da primeira classe e os primeiros da
última “32”. Não precisei senão contentar-me
com o que tinha, o que constitui entretanto
decisão com a qual não se depara comumente,
e menos ainda entre os ricos do que entre os
que nada possuem, porquanto a sede de rique-
zas, como as demais paixões, desenvolve-se na
medida em que se pratica, e a moderação é vir-
tude mais rara do que a paciência. Nunca me
dediquei a qualquer trabalho aborrecido e só
me ocupei com gerir meus próprios negócios,
ou, se tive outros, o que só aconteceu quando
pude impor a condição de tratá-los como bem
entendesse, deles fui encarregado por pessoas
que me conheciam, confiavam em mim e não
me atormentavam. Os indivíduos espertos
sabem tirar proveito até mesmo de um cavalo
asmático e turrão.
Minha infância foi orientada com doçura;
deram-me grande liberdade e pouparam-me
toda disciplina rigorosa. Atribuo a um tal regi-
me o meu temperamento sensível, incapaz de
enfrentar qualquer preocupação, a tal ponto
que me esforço por ignorar prejuízos e situa-
ções incômodas. E bem sei, pelas minhas des-
pesas, quanto me custa alimentar um desinte-
resse que faz com que “o supérfluo escape aos
olhos do dono e aproveite aos ladrões “3”.
Prefiro não saber exatamente o que possuo, o
que me permite ignorar ao certo o montante
dos prejuízos. Aos que vivem comigo, peço
que me enganem e salvem as aparências se não
me podem dar sua afeição. Sem força de von-
tade suficiente para suportar as contrariedades
a que somos sujeitos e não sendo forçado a
prestar uma atenção constante aos negócios,
alimento em mim, quanto posso, o sentimento
de tudo abandonar aos fados, tudo encarando
com pessimismo e resignado a sofrer o pior
com doçura e paciência. Somente em o conse-
guir é que me aplico; é o objetivo a que visa O
meu raciocínio. Se corro algum perigo, penso
menos em o evitar do que na desvalia do que
evito; e pergunto sempre que mal haveria
+32 Horácio.
433 Td.
nisso. Não podendo regular os aconteci-
mentos, regulo-me a mim mesmo. Submeto-me
a eles, porque não Os posso submeter a mim.
Não sei desviar o azar, nem como escapar-lhe
ou dominá-lo; nem tenho a prudência neces-
sária para dirigir e corrigir as coisas segundo
meus interesses, e mais incapaz ainda me acho
dessa paciência que exige atenção minuciosa e
exaustiva para assim agir. O que me parece
mais penoso, entre as coisas que me oprimem,
é ficar na expectativa; tomado de receio e espe-
rança a um tempo.
Resolver, mesmo a respeito dos atos menos
importantes, é-me desagradável; e meu espírito
sofre mais quando presa de agitação e dúvida,
e instado a ponderar, do que quando se resigna
e aceita a imposição do destino. As paixões ja-
mais perturbaram o meu sono mais do que o
faz a necessidade de uma resolução. Por isso,
evito igualmente os caminhos íngremes e
escorregadios e sigo as estradas batidas, por
barrentas e esburacadas que sejam, porque são
mais seguras e delas não se pode rolar. E prefi-
ro uma desgraça irremediável que provoque
imediato e violento sofrimento, mas na qual
não mais pensarei e que não procurarei reme-
diar — sem certeza de êxito — mediante mil
tormentos: “os males incertos são os que mais
pesam “3 4?,
Na hora dos acontecimentos conduzo-me
virilmente, depois de ter agido como uma
criança nas circunstâncias que os provocam.
O receio da queda dói-me mais que a própria
queda, custa mais a mecha do que o sebo. O
avarento vive pior do que o pobre por causa de
sua paixão; € o ciumento pior que o enganado;
e não raro há menor prejuízo em perder o
vinhedo do que lhe disputar a posse nos tribu-
nais. À marcha mais lenta é a mais eficiente e
a mais fácil de manter; não exige ajuda de
ninguém.
O exemplo seguinte, de um fidalgo que mui-
tos conheceram, apresenta certo caráter filosó-
fico: casou tarde, tendo vivido à tripa forra na
mocidade. Ademais, grande conversador e mui
zombeteiro. Lembrando-se de que os maridos
enganados lhe haviam servido de alvo para
comentários jocosos, desposou uma mulher
que fora buscar onde as tem, quem queira, por
dinheiro; e com ela estabeleceu certas conven-
ções. Assim é que se saudavam dizendo ele:
bom dia, puta! — ao que ela respondia: bom
dia, corno! E com essa combinação entretinha
abertamente os que o visitavam. Desse modo
antecipava-se às zombarias e fazia-se insen-
sível a quaisquer alusões.
Quanto à ambição, vizinha da presunção,
434 Sêneca.
ENSAIOS — II
ou antes filha, fora preciso para que eu alcan-
çasse uma alta posição que a sorte me viesse
buscar pela mão, pois esforçar-me por uma
esperança aleatória, submeter-me a toda espé-
cie de obrigações, como os que, no início de
sua carreira, desejam sobressair, não o saberei
fazer: “não pago esse preço pela esperan-
ça*3 8”, Apego-me ao que vejo e alcanço e não
me afasto muito do porto: “um de meus remos
afunda na água, o outro toca a areia da
praia*? 8”. Por outro lado, é difícil atingir uma
posição sem arriscar o que se tem, e sou de
opinião que, se basta para manter a condição
em que se nasce e foi educado, é loucura lar-
gá-lo na esperança de aumentá-lo. E descul-
pável que se aventure quem não teve a sorte de
um domicílio e a possibilidade de viver
trangiilamente; a necessidade leva sempre à
procura da fortuna: “cumpre ser ousado na
desgraça“? 7”. Desculpo mais o caçula que
arrisca a herança do que o mais velho a quem
cabe manter intata a honra da família e que só
pode tornar-se necessitado por culpa própria.
Eu, felizmente, graças aos conselhos de bons
amigos, encontrei o meio mais rápido e fácil de
me libertar de tais veleidades e sossegar
(“haverá coisa mais suave do que gozar a vitó-
ria sem ter combatido *3 87º). Pois percebi que
minhas forças não dão para grandes coisas e
recordo sempre as palavras do Chanceler Oli-
vier: “os franceses assemelham-se a macacos
que pulam de galho em galho até o topo das
árvores, só parando quando atingem o mais
alto, e aí, então, mostram o traseiro”. “É ver-
gonhoso pôr à cabeça um peso impossível de
carregar, para depois afrouxar e fugir ao
fardo *? 9?
As próprias qualidades, de que posso jactar-
me, são inúteis neste século: a simplicidade de
meus hábitos seria tachada de covardia e fra-
queza; minha fé e meus escrúpulos, de supers-
tição; minha franqueza e liberdade de atitude
seriam julgadas importunas e ousadas. Hã
males que vêm para bem: é vantajoso nascer
neste século de depravação, porque passamos
por virtuosos com bem pouco; quem não é, em
nossos dias, parricida ou sacrílego é homem de
bem: “hoje em dia, se teu amigo não nega que
lhe hajas confiado um dinheiro; se te devolve
teu velho saco com tua moeda intata, é um
prodígio de boa fé que deves inscrever no livro
dos toscanos, sacrificando uma ovelha aos
deuses? *º”?. Nunca houve para os príncipes
tempo e lugar mais propícios a excepcional
43 5
436
437
Terêncio.
Propércio.
Sêneca.
“38 Horácio.
*39 Propércio.
**0 Juvenal.
301
recompensa pela prática da bondade e da justi-
ça. O primeiro que se disponha a conquistar
crédito e poder trilhando esse caminho, ou me
engano muito ou suplantará todos os demais.
A força e a violência podem muito, mas nem
sempre podem tudo.. Os comerciantes, magis-
trados e artesãos de nossas aldeias rivalizam
com a nobreza quanto à valentia e à ciência
militar; sustentam honrosamente os combates,
tanto individual como coletivamente; batem-
se, defendem as cidades nas lutas atuais e um
principe entre eles não saberia como realçar-
se. Cumpre-lhe pois ilustrar-se por sua huma-
nidade, seu amor à verdade, sua lealdade e
moderação e, sobretudo, seu espirito .de justi-
ça. São qualidades raras hoje, ignoradas, bani-
das, e são as que pedem os povos que ele deve
governar, e são as que lhe granjeariam a afei-
ção das massas, porque delas tiram estas
maiores vantagens: “nada é tão popular quan-
to a bondade * *1”. Em relação ao meu século,
poderia achar-me grande e raro tanto quanto
me considero pequeno e vulgar se me comparo
aos homens de alguns séculos passados, em
que se viam indivíduos que, além de dotados
das qualidades comuns e importantes, eram
moderados na vingança, indulgentes com as
ofensas recebidas, fiéis à palavra empenhada,
hostis à duplicidade e à moral demasiado
inconsistente, intransigentes com a sua fé. Por
mim, preferiria ver ruírem as coisas públicas a
subordinar-lhes minha crença.
Quanto a essa nova virtude do artifício e da
dissimulação, tão apreciada nestas eras,
odeio-a supremamente. Entre todos os vícios,
não conheço nenhum que revele tanta covardia
e tanta baixeza. É característico da covardia e
do servilismo, e predispõe à perfídia, fanta-
siar-se e mascarar-se e não se mostrar como se
é. Acostumados que andam todos a exprimir
sentimentos falsos, não lhes constitui caso de,
consciência desmentirem as palavras pelos
atos. Um homem generoso não deve falar con-
tra seu pensamento, pois deseja que se possa
ler em sua alma. Tudo nela é bom ou humano,
ao menos. Aristóteles define pela magnanimi-
dade o fato de odiar e amar abertamente, de
Julgar e falar com franqueza e de não atentar
para a aprovação ou a crítica alheias em detri-
mento da verdade. Apolônio dizia que mentir
era peculiar ao escravo e falar a verdade
característica do homem livre. A verdade é
condição primeira, fundamental da virtude,
preciso amá-la por si mesma. Quem se atém
verdade por obrigação, por lhe ser ela útil,
não teme mentir quando isso não acarreta
consequências, não está suficientemente preso
a ela. Por temperamento fujo da mentira; o
op op
441 Cicero
302
simples pensamento da mentira é-me odioso;
sinto vergonha em mim mesmo e um pesado
remorso se por vezes me ocorre mentir, quan-
do surpreso e obrigado a responder sem refle-
tir. Não há como dizer sempre tudo; seria toli-
ce; mas o que se diz deve ser o que se pensa.
Não sei que vantagem podem esperar dissi-
mulando e agindo continuadamente ao contrá-
rio do que pensam, senão a de que os outros
acreditam como quando falam a verdade.
Dessa maneira podem enganar uma ou duas
vezes as pessoas, mas vangloriarem-se de dissi-
mular constantemente o pensamento e procla-
marem, como alguns dos nossos príncipes, que
“jogariam a camisa ao fogo se ela pudesse
vistumbrar-lhes as verdadeiras intenções”; o
que foi dito por Metelo Macedônio, um
homem da antiguidade; ou dizerem em público
que “quem não sabe dissimular não sabe rei-
nar”, é advetir que não dirão senão mentiras:
“quanto mais fino e hábil o homem, mais odio-
so e suspeito se torna ao perder sua reputação
de honestidade ”* “2, Seria ingenuidade levar a
sério quem, voluntariamente, se apresenta,
como Tibério, diferente por fora do que é por
dentro. Não sei como tais indivíduos podem
ter relações com outros, pois quem é desleal
com a verdade é igualmente desleal com a
mentira.
Aqueles que em nossa época consideram
dever precípuo do príncipe tratar unicamente
de seus negócios, os quais se sobreporiam a fé
e à consciência, podem aconselhar com apa-
rência de razão a que assim aja quem se
encontre em situação tal que lhe seja dado
consolidá-la em faltando uma só vez à palavra.
Mas as coisas não acontecem desse modo:
estamos sujeitos a repetir semelhantes barga-
nhas. Assinam-se tratados de paz mais de uma
vez na vida. À tentação do lucro incita a uma
primeira deslealdade, para a qual há sempre
uma oportunidade, como em todas as mãs
ações. Sacrilégios, assassínios, rebeliões, trai-
ções sempre decorrem da esperança de um
resultado favorável; mas a primeira vantagem
dá origem a numerosas desvantagens e rouba
ao príncipe, por causa do exemplo dado, todas
as suas relações e possibilidades de negociar.
Quando Solimão, da raça dos otomanos,
raça pouco escrupulosa quanto às promessas é
aos pactos, invadindo Otranto, no meu tempo
de infância, soube que Gratinare e os habitan-
tes de Castro tinham sido feitos prisioneiros
após a rendição da praça e a despeito do ato de
capitulação, mandou imediatamente libertá-
los, observando que ainda tinha grandes
442 Cícero.
MONTAIGNE
empreendimentos em vista e que essa desleal-
dade, apesar da possível vantagem momentã-
nea, o desmoralizaria e provocaria uma onda
de desconfiança capaz de lhe acarretar prejuí-
zos consideráveis.
Quanto a mim, prefiro ser indiscreto e
importuno a ser lisonjeador e dissimulado.
Confesso que pode haver alguma altivez e
obstinação na inteira liberdade e sinceridade
que mantenho para com todos sem distinção,
pois creio que me mostro mais independente
com as pessoas com as quais menos o deveria
ser. O receio de parecer demasiado respeitoso
leva-me a um excesso de altivez, não por cáll
culo, certamente, mãs em virtude de um impull
so natural. Empregando com os grandes a
mesma liberdade, a mesma linguagem e a
mesma desenvoltura que uso com os meus,
sinto que friso por vez a incivilidade e a indis-
crição; mas além de ser eu assim, não tenho o
espírito bastante rico, nem para esquivar-me à
uma pergunta imprevista mediante algum
circunlóguio, nem para mascarar a verdade. E
careço de memória suficiente para recordar O
que então tenha dito, bem como de segurança
para continuar. E é por fraqueza que me most
tro altivo. Daí resulta abandonar-me à minha
ingenuidade e dizer sempre o que penso, tanto
por temperamento como por decisão, con-
tando com a sorte quanto ao que possa ocor-
rer. Aristipo dizia que o principal fruto que
colhera na filosofia fora falar livremente e dé
coração aberto a quem quer que fosse. |
E a memória um maravilhoso instrumento;
sem ela o julgamento não poderia cumprir com
eficiência a sua tarefa. Pois dela careço total”
mente. E preciso que me digam as coisas
separadamente, ponto por ponto, porque não
está em meu poder sustentar uma conversação
acerca de vários assuntos ao mesmo tempo, e
não seria capaz de transmitir sequer um reca-
do sem o anotar por escrito. Quando devo pro-
nunciar um discurso sobre assunto importante
e exigente de fôlego, sou forçado à triste
contingência de aprendê-lo de cor, palavra por
palavra. De outro modo não teria forma e me
faltaria segurança pelo temor de uma falha de
memória. Mas esse meio não deixa de compor-
tar menor dificuldade: para aprender três ver-
sos, preciso de três horas e em uma obra por
mim mesmo composta, a liberdade e a possibi-
lidade de retocar, mudar uma palavra, provo-
cam modificações constantes no texto, o que
torna menos fácil, para mim, fixá-lo na memó-
ria. Ora, quanto mais desconfio da minha
memória, tanto mais ela se perturba; sua
eficiência depende de sua disposição: cumpre-
me solicitá-la sem pressa; se insisto, ela hesita,
ENSAIOS — II
e se começa a titubear, quaiito mais a cutuco
mais se embaraça; serve-me quando quer e não
quando eu quero.
O que digo da memória poderia igualmente
dizer de outras coisas; fujo de todo comando,
obrigação ou constrangimento; o que faço,
facil e naturalmente, não o sei fazer se mo
impõem. No físico, meus membros, que pos-
suem alguma liberdade de movimento e gozam
de certã independência de ação, recusam-me
por vezes obediência, quando em dadas cir-
cunstâncias a necessidade exige seus serviços.
Essa exigência imprevista é um ato de tirania
que lhes repugna; paralisado peló temor ou o
despeito, tornam-se incapazes de ação. De
uma feita achei-me algures onde era malvisto,
e considerado descortês não beber com quem
convida. Embora tivesse toda liberdade, quis
submeter-me aos costumes da região por causa
das senhoras presentes. Triste prazer! A pers-
pectiva de ser forçado a fazer o que não gosta-
va nem estava em meus hábitos, fez que minha
garganta sé contraísse, a ponto de eu não con-
seguir engolir uma só gota; e nem sequer pude
beber na refeição. Já me embebedara e desalte-
rara de antemão com os líquidos cuja absor-
ção me preocupava. Tais situações se obser-
vam principalmente em quem tem uma
imaginação viva e poderosa; é entretanto natu-
ral e não há quem não a tenha conhecido até
certo ponto. Ofereceram mercê a um archeiro
condenado à morte e particularmente hábil, se
desse uma prova evidente de seu talento. Recu-
sou tentá-lo, temeroso de que a tensão de espi-
rito lhe tirasse a segurança e que em vez de lhe
salvar a vida uma tal experiência o desmorali-
zasse. Indo e vindo pela calçada, a passeio, um
homem distraído dará quase sempre o mesmo
número de passos de igual comprimento; se se
puser a contá-los não o fará com a mesma
precisão.
Minha biblioteca, que é boa como biblioteca
de campo, ocupa uma das extremidades da
casa. Se tenho necessidade de fazer alguma
pesquisa ou escrever alguma coisa que me
ocorra, préciso comunicá-lo a outrem pois re-
ceio que me fuja a memória ao atravessar o
pátio. Se, falando, deixo-me desviar um pouco
do assunto, perco o fio do pensamento; por
isso quando discorro, mostro-me embaraçado,
seco, conciso. Sou obrigado a chamar meus
servidores pelo cargo ou a região de origem,
porque sinto enorme dificuldade em recordar
os nomes próprios; consigo quando muito lem-
brar que o nome tem três sílabas, que é áspero,
que começa ou termina por tal ou qual letra.
Se devesse viver muito tempo creio mesmo que
acabaria esquecendo o meu próprio nome,
303
coisa que já ocorreu a algumas pessoas. Mes-
sala Corvino ficou dois anos sem memória, O
que tairbém se verificou, ao que dizem, com
Jorge, de Trebizonda. Pensando em mim, fico
a imaginar como terão vivido, e se não me
seria a existência demasiado insuportável se eu
viesse a perder essa faculdade. Indago se, em a
perdendo totalmente, não ficariam paralisadas
todas as funções de minha alma: “sou como
um recipiente rachado, vazo pof todos os
lados* “3”. Ocorreu-me mais de uma vez
esquecer a palavra de passe que ei mesmo
dera três horas antes ao guarda, ou que alguém
me comunicara, e também não recordar, em
que pese a opinião de Cícero, onde escondera
minha bolsa; a preocupação de guardar algu-
ma coisa ajuda-me por vezes a perdê-la. “A
memória encerra, seguramente, não apenas a
filosofia mas ainda todas as artes e tudo o que
é imagem da vida“ * *”. É o receptáculo, o esto-
jo da ciência. A minha é tão defeituosa que
não há coino me espantar com saber tão
pouco. Conhêço em geral o nome das artes e
com que se relacionam; eis tudo. Folheio os
livros, não estudo; o que fica não sei mais de
onde vem, pois consiste unicamente no que
minha razão assimilou, nos argumentos e
idéias de que se compenetrou. Quanto ao
autor, ao trecho, as palavras exatas, esqueço-
as de imediato. E esse esquecimento é tão
total, que não esqueço menos minhas próprias
obras; a todo instante surpreendo-me nesse
caso, sem que o tenha percebido. Quem dese-
Jjasse saber a autoria dos versos que cito nesta
obra, colocar-me-ia em grande dificuldade.
Entretanto, não bati senão a portas conhecidas
e célebres, não me contentando com o valor
intrinseco do pensamento, mas cioso de que
proviesse de quem o tivesse rico e honroso e
cuja autoridade se juntasse à razão. Não é de
espantar portanto que o mesmo se verifique
com o meu livro, que minha memória falhe
neste ponto como nos outros: no que dou
como no que recebo.
Além do defeito de memória, outros contri-
buem para a minha ignorância. Tenho o espi-
rito lerdo e obtuso; a menor dificuldade extin-
gue-lhe a perspicácia a ponto de não saber
resolver a mais simples charada; turva-o a
mais insignificante sutileza. Só entendo as re-
gras gerais dos jogos de que participa o espíri-
to, como as damas, o xadrez ou as cartas.
Tenho a compreensão lenta e embrulhada, mas
o que chega a apreender ela o apreende bem e
profundamente enquanto o recorda. Tenho a
vista penetrante e sã. Mas, quando trabalho,
*43 Terêncio.
e" “Cicero:
304
cansa facilmente e se turva, o que faz que não
possa ler durante muito tempo e precise de
alguém que leia por mim. Daí essas perdas de
tempo acerca de cuja importância Plínio, o
Moço, poderá informar. o
Não existe alma, por mais pobre e grosseira
que seja, em quem não se desenvolva alguma
faculdade especial; nenhuma há que não se re-
vele de algum modo. E ocorre que almas cegas
e entorpecidas sob todos os demais aspectos se
mostrem vivas, claras, perfeitas em determi-
nados pontos. Que os mestres o expliquem. As
belas almas são as que tudo abarcam, que a
tudo se abrem; podem não ser instruídas, mas
são suscetíveis de se instruir. O que digo cons-
titui uma crítica à minha, a qual, por fraqueza
ou indiferença (indiferença pelo que se encon-
tra a nossos pés, nas nossas mãos e toca de
perto às coisas da vida, o que é entretanto con-
trário a meus princípios), chega a um grau de
inépcia e de ignorância de coisas tão sabidas,
que é vergonha desconhecê-las. Darei alguns
exemplos.
Nasci e fui criado no campo; tenho negócios
e bens por administrar desde que os que deles
usufruiram antes de mim me cederam seu
lugar. Ora, não sei calcular de jeito nenhum,
não conheço o valor da maioria das moedas,
não sei distinguir, a menos de diferença muito
evidente, um grão de outro, nem na planta nem
no celeiro; mal sei diferençar um repolho de
uma alface; ignoro o nome dos utensílios
domésticos mais vulgares e as mais elemen-
tares regras agrícolas ao alcance de uma crian-
ça; conheço ainda menos as artes mecânicas, o
comércio, as mercadorias, as diversas espécies
de frutos, vinhos, carnes; não sei tratar de um
cão ou de um cavalo, nem treinar um falcão
para a caça; e visto que devo confessar toda a
minha vergonhosa carência, não faz dois
meses verificaram que eu ignorava para que
servia O fermento na fabricação do pão, nem
como se preparava o vinho.
Alguém em Atenas calculou outrora a apti-
dão de um indivíduo para a matemática, ven-
do-o preparar engenhosamente uma carga de
lenha. Na verdade, no que me diz respeito o
contrário se deduziria, pois morreria de fome
ainda que me dessem todo o necessário para
cozinhar. Que me confesse um pouco mais e
verão quantas outras coisas me faltam. Pouco
importa. O que importa é que eu me mostre tal
qual sou; não me desculpo portanto por ousar
escrever acerca de coisas tão vulgares, tão
desinteressantes: a banalidade de meu assunto
a isso me obriga. Critiquem se quiserem a
idéia de fazê-lo, mas não o método seguido. É
certo ainda que não precisam advertir-me da
MONTAIGNE
|
|
insignificância do que digo; sei por mim
mesmo que não vale grande coisa e quanto é
absurda minha ambição. E já basta que meu
juízo não sê apoquente com estes ensaios.
“Sede críticos tão sutis quanto puderdes; tende
faro e um faro que Atlas não desejara; con-
fundi com vossas zombarias o próprio Latino,
ainda assim não conseguireis dizer dessas
bagatelas o que eu mesmo disse. Por que mas-
tigar o vácuo? É preciso carne para morder e
saciar-se. Aqui perdereis vosso tempo; expandi
alhures vosso veneno sobre os que se admiram
a si mesmos, pois, quanto a mim, já sei que
tudo isso não é nada * * 5.”
Não serei obrigado a não dizer tolices,
desde que as reconheça e não me engane; errar
com conhecimento de causa é o que me ocorre
comumente, e raramente o faço sem perceber
E não me censurem a inépcia, porquanto bem
sei que meu espírito é viciado.
Vi de uma feita apresentarem a Francisco I,
em Bar-le-Duc, um retrato que o Rei René fi-
zera de si mesmo. Por que não seria permitido
a alguém retratar-se com a pena do mesmo
modo que o Rei René fez com o lápis? Não
quero tampouco esquecer de tornar público
esse estigma incômodo da irresolução, defeito
nocivo para quem se ocupa com os negócios
do mundo. Não sei tomar partido nas questões
duvidosas: “nem sim, nem não, nada mais me
diz o coração ** *”. Discuto muito bem uma
opinião, mas não sou capaz de julgar. Nas coi-
sas humanas, para qualquer lado que nos incli-
nemos há aparências de verdade, o que levava
Crisipo a afirmar que só queria aprender com
Zenão e Cleantes, seus mestres, os princípios
de suas doutrinas; quanto às provas e aos
argumentos, ele próprio se encarregava de for-
necer. Eu também, volte-me para este ou aque-
le lado, sempre descubro motivos válidos para
concordar; por isso, atenho-me à dúvida reser-
vando-me a liberdade de escolher quando pre-
mido pelas circunstâncias; em verdade, em
chegando o momento, as mais das vezes entre-
go-me ao acaso. À mais leve impressão, a mais
insignificante particularidade decidem por
mim. “Quando o espirito mergulha na dúvida,
o menor impuiso faz pender o prato da
balança * 47.2.
A incerteza de meu julgamento mantém por
vezes os pratos da balança em tal equilíbrio
que, de bom grado, entregaria a decisão aos
dados; e observo, como testemunho compro-
batório da fraqueza humana, os exemplos da
história sagrada: “a sorte designou Ma-
“45 Marcial. .
446 Petrarca.
“47 Terêncio.
ENSAIOS — II
tias“ *8?”, A razão humana é uma espada de
dois gumes, perigosa de se manejar. Na pró-
pria mão de Sócrates apresenta mil e uma
soluções para o mesmo caso! Por isso sigo os
outros e deixo-me arrastar pela massa; não
tenho bastante confiança em minhas forças
para comandar e dirigir; e apraz-me encontrar
aberto o atalho pelo qual caminho. Se devo
correr o risco de uma escolha incerta, prefiro
seguir alguém mais seguro de sua opinião, à
qual me filio mais do que à minha, a meu ver
sempre assentada em base escorregadia.
Entretanto, não sou homem a que iludam
facilmente, tanto mais quanto distingo muito
bem o lado fraco das opiniões contrárias: “dar
constantemente seu assentimento pode acarre-
tar muitos erros e perigos“ *º”. Isso é princi-
palmente verdadeiro nos negócios políticos,
que apresentam um campo aberto às discus-
sões e incertezas: “a balança cujos pratos se
acham carregados de pesos iguais, não se abai-
xa nem levanta de nenhum lado * 80º.
Os princípios de Maquiavel são, por exem-
plo, bastante sérios a esse respeito, e no entan-
to têm sido facilmente refutados, e os que os
refutam apresentam razões igualmente refutá-
veis. Qualquer argumento encontra sempre
duas, três ou quatro réplicas, sem contar que
dão azo a inextricáveis debates, prolongados
ainda pela chicana a fim de que não se encerre
a discussão: “vence-nos o inimigo, vencemo-lo
por nosso turno 81?. As razões de ambas as
partes assentam unicamente na experiência, e
os acontecimentos humanos produzem-se sob
tantas formas que, em cada caso, infinitos são
os exemplos.
Diz um sábio personagem de nossa época
que quando os almanaques anunciam o calor,
é de se esperar igualmente o frio; que fará
tempo úmido quando o predisserem seco e que
se pode sempre prognosticar o contrário do
que declaram; e que se ele próprio tivesse de
apostar em uma ou outra das predições opos-
tas, pouco lhe importaria escolher, a menos
que se tratasse de coisas absurdas como o
prognóstico de excessivo calor no dia de Natal
ou de frio rigoroso no dia de São João. Assim
penso das discussões políticas: qualquer que
seja a tese, teremos a mesma probabilidade de
acertar que os nossos adversários, conquanto
não nos choquemos de encontro a princípios
elementares e evidentes. Entretanto, nos negó-
cios públicos, não há direção, por má que seja,
que, se continuamente seguida durante algum
tempo, não se deva preferir a mudanças pertur-
“48 Atos dos Apóstolos.
“49 Cícero.
480 Tibulo.
+51 Horácio.
305
badoras. Nossos costumes são por demais cor-
ruptos e tendem a piorar; entre nossas leis e
nossos usos, muitos há bárbaros e monstruo-
sos; entretanto, em razão da dificuldade em
melhorar o que existe e do perigo de destruição
atribuível a qualquer mudança, se pudesse cra-
var uma cunha que sustasse o movimento de
nossa roda do ponto em que se acha eu o faria
de bom grado: “não há ação, por vergonhosa e
infame que seja que não encontre pior *º2”. A
nossa maior desgraça está na instabilidade. As
nossas leis, como as nossas roupas, não têm
forma definitiva. É fácil acusar um governo de
imperfeição, coisa comum a tudo o que é mor-
tal; é fácil impelir o povo ao desprezo pelo que
apreciava antes; quem quer que o tenha tenta-
do alcançou-o. Mas substituir por algo melhor
o que se destruiu, muitos o experimentaram
sem resultado. Em minha conduta, dou pouca
importância à minha própria opinião; sigo
aquilo que assegura a ordem pública. Feliz o
povo que faz o que lhe ordenam melhor do que
quem ordena, e se entrega serenamente à
Providência. Quem discute e critica nunca
obedece sem segunda intenção, e totalmente.
Em suma, voltando a mim, só me estimo
quanto ao que nenhum homem acreditou ja-
mais que lhe faltasse; meu mérito reside em
uma coisa vulgar e comum a todos: o bom
senso. Acredito no meu bom senso. E quem
não acredita no seu? Pensar que carece de bom
senso, é doença que não existe em quem a
alega. Por mais forte e tenaz que seja, basta
um olhar de quem se imagina doente para que
se dissipe, como a neblina opaca se desfaz ao
sol; a esse respeito, condenar-se significa
absolver-se. Nunca houve carregador ou mu-
lherzinha que não pensasse ter a sua parte.
Convencemo-nos assaz facilmente da superio-
ridade alheia em matéria de coragem, força,
experiência, saúde, beleza, mas não de bom
senso. E o que dizem inspirado pelo simples
raciocínio, parece-nos que disséramos também
por pouco que tivéssemos pensado nisso.
Assim também, de bom grado aceitamos como
superiores às nossas as obras alheias, do ponto
de vista do saber, do estilo, etc.; mas no que
concerne às produções do bom senso, pensa
cada qual estar a seu alcance produzir iguais, e
só reconhece que as outras são melhores quan-
do é muito grande a distância entre elas e as
torna incomparáveis. Quem sadiamente apre-
ciasse a elevação do julgamento alheio, conse-
guiria elevar o seu próprio à mesma altura. Por
isso não devemos esperar dessas realizações
senão parcos elogios e nenhuma consideração;
são pouco apreciados. Para quem as escreve-
+52 Juvenal.
306
mos então? Os sábios que têm por profissão
Julgar os livros só dão valor ao que concorda
com sua doutrina; só admitem as obras de
espírito em que encontram arte e ciência; se
alguém se engana entre os dois Cipiões, por
certo já não pode dizer nada que preste. Quem,
ao ver desses cavalheiros, ignora Aristóteles,
ignora-se a si próprio. Por outro lado, as almas
comuns, que constituem a massa, não perce-
bem a graça de uma obra que trata com leveza
um assunto elevado. Ora, essas duas espécies
de gente dominam o mundo. Há uma terceira,
mais preparada para nos compreender, a qual
se compõe de espíritos ponderados e lúcidos,
mas é tão rara que não tem nome, nem situa-
ção; e é perder tempo, por assim dizer, esfor-
çar-se por lhe agradar.
Diz-se comumente que a partilha mais justa
que fez a natureza, de seus dons, foi a do bom
senso, pois não há quem não esteja satisfeito
com sua parte. Só veria além quem pudesse ver
mais do que lhe permite a vista. Penso que mi-
nhas opiniões são boas e justas; quem não
pensa assim? Uma das melhores provas que
tenho das minhas está na reduzida estima que
dedico a mim mesmo; se de fato não fossem
justas, não resistiriam à afeição que tenho por
mim, afeição singular de alguém que a devota
toda a si próprio e não a expande em torno de
sua pessoa. Esse sentimento que outros distri-
buem a numerosos amigos e conhecidos, tendo
em vista a glória e a grandeza, dedico-o a mim
mesmo para tranquilidade de meu espírito. O
que me escapa, por acaso, e atinge outrem,
independe de minha vontade, não me é ditado
pela razão: “viver bem e com saúde, eis toda a
minha filosofia * 837,
Minha opinião acha-se sempre disposta a
condenar minhas insuficiências. É verdade que
se trata de assunto em cuja análise me aplico
mais do que em outro. Em geral, os homens
voltam-se para fora; eu, volto-me para dentro
de mim mesmo, demoro-me na investigação e
nela me comprazo. Todos olham para a frente,
ao passo que eu olho para mim, observando-
me, analisando-me. Os outros, se pensam
seriamente, tocam para diante: “Ninguém
tenta descer em si mesmo * 8 *”: eu paro, e fico
a enredar-me no pensamento. Essa aptidão
para reconhecer em mim o que quer que seja
de verdadeiro, de real, e essa predisposição
para me tornar escravo de minhas crenças,
devo-as a mim mesmo, pois as idéias gerais
que possuo nasceram comigo, se é que posso
exprimir-me desta maneira. Expu-las simples-
453 Tucrécio.
454 Pércio.
MONTAIGNE
mente e despidas de artifícios, a princípio, sin-
ceras e ousadas, mas sob uma forma algo inde-
cisa; fortaleci-as, em seguida, e as formulei
apoiando-me na autoridade de outros e nos
exemplos tirados dos antigos com os quais
estou de acordo. Confirmaram-me na decisão
de mantê-las e tornaram-me mais caro e com-
pleto o gozo e a posse delas. À estima que ou-
tros procuram conquistar mediante um espírito
vivo e sutil, aspiro alcançá-la através de uma
mente bem regulada; em vez de uma ação bri-
lhante e notável, mas isolada, prefiro a ordem,
a ponderação, a serenidade de minhas opiniões
e meus costumes: “Se há alguma coisa honro-
sa é sem dúvida uma conduta uniforme e coe-
rente em todos os atos da vida, o que não se há
de encontrar em um homem que, abdicando
seu caráter, procure imitar os outros * 8 8”.
Eis portanto como, e em que medida, quan-
to à idéia demasiado elevada de nós mesmos,
posso dizer estar isento do vício da presunção.
Quanto à segunda maneira por que esta se
manifesta, a de fazer pouco caso dos outros, já
não poderia afirmar o mesmo com igual segu-
rança. Entretanto, ainda que me seja penoso,
estou disposto a tudo confessar. Talvez a
frequentação assídua das idéias que prevale-
ciam outrora, e que vieram dessas ricas almas
do passado, me desgoste dos outros e de mim
mesmo; talvez seja também certo que vivamos
em uma época de mediocridade; o fato é que
não conheço entre nós nada muito digno de
admiração. Na verdade, nãe conheço muitos
homens bastante intimamente para os julgar, €
quanto aos que, em virtude de minha posição,
frequento mais comumente, são em geral gente
pouco preocupada com o cultivo da alma e
que se propõe, como fim precípuo, a honra e,
como meio de conquistá-la, a valentia.
O que vejo de belo nos outros, louvo-o de
bom grado e o aprecio. You mesmo por vezes
além do que penso. Permito-me esse exagero e
nada mais, pois sou incapaz de inventar intei-
ramente alguma coisa inexistente. Apraz-me
apreciar o que em meus amigos é louvável e
atribuo-lhes com prazer mais valor do que pos-
suem, mas não lhes atribuo as qualidades que
não têm nem lhes defendo as imperfeições.
Mesmo em relação a meus inimigos assim ajo;
meus sentimentos são diferentes, porêm, meu
juízo não se altera com isso; não faço intervir
o dissentimento em questões em que não lhe
cabe interferir. Tenho tanto apreço à liberdade
de opinião que a ela não renuncio nem mesmo
sob o domínio de uma paixão. Mentindo,
injuriar-me-ia mais do que injuriaria os outros.
455 Cícero,
ENSAIOS — II
Esse louvável e generoso costume, reinante
outrora na Pérsia, de sempre falar honesta e
equitativamente dos inimigos mortos, e na me-
dida de suas virtudes, é digno de nota.
Conheço muitos homens com belas qualida-
des de diversas espécies: um tem espírito,
outro coração, outro habilidade, ou consciên-
cia, ou o dom da palavra; outros são grandes
sábios. Mas homens grandes em tudo, com
todas essas faculdades reunidas, ou uma delas
tão grande que nos imponha a comparação
com os homens da antiguidade, não tive a
sorte de encontrar um só. Dos que conheci a
fundo, o maior, quanto a seus dons naturais,
foi Étienne de la Boétie. Era uma natureza
realmente completa, superior em todos os pon-
tos de vista, uma alma de velha marca, que
chegaria a alcançar grandes resultados se a
sorte o houvesse permitido; pois a uma natu-
reza já por si mui rica, ele muito acrescentara
pelo estudo e pela ciência.
Não sei como acontece, e no entanto aconte-
ce, que se encontre tanta vaidade e tanta fra-
queza de julgamento entre as pessoas de
profissões exigentes de certa instrução e que se
dedicam ao estudo das letras, ou que ocupam
cargos dependentes do conhecimento dos li-
vros, quanto entre os demais indivíduos. Tal-
vez seja porque lhes pedimos mais, porque
delas esperamos mais, e não lhes desculpamos
os'Erros que desculpamos nas Qutras. Ou tal-
vez, porque a boa opinião que têm de seu saber
torna-as mais ousadas e as induz a falar sem se
observarem suficientemente, e faz que se
traiam a si mesmas e se percam. Assim, a inca-
pacidade de um artista revela-se mais nitida-
mente quando trabalha com um material de
preço do que com outro de nenhum valor. O
defeito em uma estátua de ouro choca mais do
que em uma de gesso. Efeito análogo provo-
cam em nós esses letrados quando pôem em
relevo, desajeitadamente, coisas boas em si,
revelando excelente memória em detrimento
do bom senso, apresentando de cambulhada à
nossa admiração Cícero, Galeno, Ulpiano,
São Jerônimo, e com suas citações intempes-
tivas ressaltando o seu ridículo.
Volto a comentar a inépcia da educação que
nos dão. Visa ela fazer de nós homens de ciên-
cia, e consegue-o. Não aprendemos a amar e
praticar a virtude e a prudência; ensinaram-
nos a passar de lado, juntamente com a etimo-
logia. Virtude é um substantivo que sabemos
declinar, mas cujo sentido ignoramos. Tam-
bém ignoramos o que seja a prudência, mas
conhecemos-lhe de cor a definição. Quando se
trata de nossos vizinhos, não nos contentamos
com saber-lhes a raça, o parentesco, as rela-
307
ções, procuramos ainda conversar com eles e
tê-los como amigos; ao passo que, com a virtu-
de, aprendemos muito bem as definições, divi-
sões e subdivisões, mas assim como aprende-
mos os títulos e nomes de uma árvore
genealógica, sem estabelecer entre ela e nós
relações de familiaridade e intimidade. Para
nosso aprendizado, dão-nos livros: não os que
expõem as opiniões mais sadias e verdadeiras €
sim OS que são escritos no grego mais puro €
no melhor latim, e que, mediante as mais belas
- Expressões, enchem o nosso espírito com as
idéias mais pueris da antiguidade.
Uma boa educação modifica o julgamento e
os costumes. Foi o que aconteceu com Póle-
mon, um jovem grego de vida desregrada.
Tendo ouvido por acaso uma aula de Xenócra-
tes, não somente se impressionou com a
eloquência e o saber do mestre, mas tirou dela
um fruto tangível e sólido: a mudança ime-
diata operada na existência que antes levava.
Quem jamais viu resultado semelhante no ensi-
no que recebemos? “Fareis o que fez outrora
Pólemon convertido? Deixareis a libré da
devassidão, os adornos, as almofadas, o luxo,
como dizem que fez esse jovem devasso que,
assistindo um dia, por acaso, à preleção do
austero Xenócrates, arrancou da fronte e dei-
tou fora a coroa de flores que ostentava à
maneira dos beberrões * 8 89”
A mais invejável condição do homem pare-
ce-me estar na simplicidade e na regularidade.
Os costumes, as aspirações dos camponeses
afiguram-se-me mais conformes aos princípios
da filosofia que os dos filósofos: “o vulgo é
mais sábio, porque só o é na medida em que o
precisa ser? 8 7?.
Os homens que coloco na primeira fila, a
julgar pelas aparências exteriores (pois de
outro modo fora necessário examiná-los mais
de perto) são, como homens de guerra, o
Duque de Guise, que morreu em Orléans, e o
falecido Marechal Strozzi; os Chanceleres Oli-
vier e "Hospital, como notáveis pela grande
inteligência e virtude superior à comum. À
poesia latina parece ter sido muito cultivada
em nossa época. Abundam os bons autores:
Daurat, de Bêze, Buchanan, Hospital, Mont-
Doré, Turnebus. A poesia francesã foi, a meu
ver, elevada ao apogeu; nos gêneros em que
extelem Ronsard e Du Bellay, ela não se afas-
ta muito da perfeição que atingiu na antigui-
dade. Turnebus sabia mais € melhor do que ne-
nhum homem deste século, é talvez mais longe
no passado. À vida do último Duque de Alba,
456 Horácio.
257 Lactâncio.
308
já falecido, e a do Condestável de Montmo-
rency foram nobres como se vêem raramente;
mas a bela e gloriosa morte deste último, sob
os olhos de Paris e de seu rei, à frente de um
exército virtuoso, em um golpe de mão que
dirigia em pessoa apesar de sua idade e do
grau de parentesco dos adversários, merece
lugar de realce entre os acontecimentos notá-
veis de nossa época. Assim também a bonda-
de, a gentileza, a consciência esclarecida do Sr.
de la Noue, que nunca se desmentiram nestes
tempos de abusos tão gritantes cometidos
pelos partidos em armas (verdadeira escola de
traição, de inumanidade e banditismo), entre
os quais não deixou jamais de se mostrar gran-
de homem de guerra e dos mais experientes.
Deleitei-me com publicar, em várias cir-
cunstâncias, as esperanças que depositei em
Maria de Gournay Le Jars, que é para mim
uma filha? $º e a quem muito amo, mais do
que paternalmente, e que, em meu retiro e soli-
dao, me agrada considerar como uma das
melhores partes de mim mesmo. E só ela me
interessa hoje no mundo. Se nos é dado julgar
pelo que pressagia a adolescência, essa alma
*58 Montaigne dizia “filha por afinidade”. (N. do
T.)
MONTAIGNE
será um dia capaz das mais belas coisas, entre
outras a de atingir, na amizade, uma perfeição
sem dúvida ainda não alcançada por pessoa de
seu sexo. À sinceridade e a firmeza de seu
caráter já se elevaram bem alto; sua afeição
por mim, que ultrapassa tudo o que eu poderia
ambicionar, é de tal ordem, que não tenho em
suma nada a desejar, senão vê-la menos
apreensiva ante a possibilidade de minha
morte, pois me conheceu quando eu já ia pelos
cinquenta e cinco. A apreciação que essa
mulher, jovem e solitária na sua província, fez
de meus primeiros ensaios, o entusiasmo notá-
vel com que se tomou de amizade por mim, o
desejo que alimentava há muito de travar rela-
ções comigo, unicamente em razão da estima
que eu lhe inspirara e bem antes de me conhe-
cer, são particularmente dignas de apreço.
As virtudes, outras que não a valentia, nao
estão em voga nos tempos de hoje; mas a
valentia generalizou-se a tal ponto, em conse-
quência de nossas guerras civis, que há almas
entre nós cuja resolução atinge a perfeição.
São em tão grande número que seria impos-
sível selecioná-las.
Eis tudo o que até agora conheci, de uma
grandeza superior à que se vê habitualmente.
CapítruLO XVIII
Do desmentido * *º
Dirão que tomar-se a si mesmo como assun-
to de uma obra é desculpável, mas somente
quando quem o faz é um indivíduo excepcional
e célebre, cuja reputação pode inspirar a
alguém o desejo de conhecê-lo. É certo, e eu o
reconheço, que para ver um homem que não se
distingue do comum um artesão não erguerá
sequer os olhos, quando para assistir à chega-
da de um grande personagem abandonará sua
oficina ou sua loja. Não assenta bem a nin-
guém dar-se a conhecer, senão àqueles que têm
com que provocar imitadores, e cuja vida e
opiniões se apresentem como modelares. César
e Xenofonte, pela grandeza de suas ações, ti-
nham material suficiente para edificar sobre
alicerces sólidos os relatos que nos legaram.
Pela mesma razao, somos levados a lamentar
ss Desmentir, contradizer e contradizer-se é tam-
bém mentir, portanto. À palavra, rica de sentidos
afins, não comporta uma tradução precisa, embora
pelo texto talvez se justificasse o emprego do vocã-
bulo “mentira”. (N. do T.)
que não tenham sido conservados os diários
dos altos feitos de Alexandre e os comentários
de Augusto, Catão, Sila, Bruto e outros.
Amam-se e estudam-se tais figuras, mesmo
quando são em cobre ou pedra.
Essa crítica é muito justa, mas não me
impressiona demasiado. “Leio só para os ami-
gos e somente a pedido, não em qualquer lugar
e para qualquer pessoa. Que outros leiam seus
escritos em pleno forum e até nos banhos * 8º”.
Não ergo aqui uma estátua para a praça de
uma cidade, nem para uma igreja: “meu intui-
to não é encher o livro de devaneios brilhantes;
a sós com meu leitor, converso sem preten-
são*8'”, Pois minha obra destina-se a ser
colocada em um canto de biblioteca e divertir
algum vizinho, parente ou amigo que sinta pra-
zer em me encontrar e em passar um momento
comigo. Outros falaram de si porque acharam
o assunto digno e fecundo; eu, ao contrário,
+80 Horácio.
461 Pérsio.
ENSAIOS — TI
considero-o tão estéril e pobre que não o
devem tachar de exibicionismo. Julgo os atos
alheios; os meus não valem o trabalho, em
razão de sua insignificância; não vejo em mim
um bem bastante para que o diga sem corar.
Com que satisfação ouviria alguém descrever-
me, falar de minhas atitudes, de minhas con-
versas habituais, dos incidentes da vida de
meus antepassados; com que atenção o escuta-
ria! Seria em verdade sinal de mau caráter não
se interessar pelos retratos autênticos de nos-
sos amigos e dos que nos antecederam; não
prestar atenção a forma de suas vestimentas e
de suas armas. Eu conservo a escrivaninha e o
sinete dos meus, seus livros de horas, certa es-
pada de um tipo especial e não me desfiz das
compridas varas que meu pai tinha sempre à
mão, à guisa de chibata: “a roupa de um pai e
seu anel são tanto mais caros aos filhos quanto
mais Os queriam estes * 82º. Se entretanto meus
descendentes tiverem outras idéias, estarei vin-
gado de antemão, pois não poderão interes-
sar-se menos por mim, então, do que eu por
eles agora. Só tenho contato com o público
porque me sirvo da tipografia * 83, mais rápida
e cômoda do que a escrita comum; em
compensação, talvez o papel que lhe forneço
impeça um dia que alguma porção de man-
teiga se deteriore no mercado: “dessa maneira
os atuns e as azeitonas não carecerão de invó-
lucros * * *”. “Fornecerei às sardinhas uma ves-
timenta em que estarão à vontade “ 8 8?
E mesmo que ninguém venha a ler-me, terei
perdido o meu tempo empregando os meus
lazeres em tão úteis e agradáveis pensamen-
tos? Fazendo o molde de meu próprio rosto,
mais de uma vez precisei enfeitar-me e ajus-
tar-me, de modo que o modelo se afirmou e
tomou forma sozinho. Pintando-me para ou-
trem, pintei a minha alma com cores mais níti-
das do que apresentava primitivamente. Fez-
me o meu livro, mais do que eu o fiz; e autor €
livro constituem um todo; é estudo de mim
mesmo e parte integrante de minha vida; não
sou diferente do que apresenta nem ele o é de
mim; não objetiva, como outras obras, um fim
outro que não a personalidade do autor. Terei
perdido meu tempo analisando-me com tama-
nho cuidado e continuidade? Os que por sim-
ples capricho, no decorrer de uma conversa-
ção, olham um instante para si mesmos não se
examinam nem tão exatamente nem tão a
fundo como quem fez de si o objeto de seu es-
tudo e assumiu para consigo mesmo o compro-
“62 Santo Agostinho.
“63 No texto “leur écriture”, a letra do povo, a
escrita impressa, no caso. “Ecriture” empregava-se
então em múltiplos sentidos, inclusive escrivaninha,
secretária. (N. do T.)
“84 Marcial.
465 Cícero.
309
misso de consignar, com sinceridade e sem
circunlóquios, tudo o que sente. Os mais deli-
ciosos prazeres não os saboreamos nós em nós
mesmos, evitando deixar vestígios e revelar-
nos aos olhos de outrem? Mais de uma vez
este trabalho constituiu uma distração contra
pensamentos aborrecidos, entre os quais se
devem classificar também os frívolos.
A natureza gratificou-nos generosamente
com a faculdade de nos iselarmos para refletir;
convida-nos não raro a fazê-lo para nos ensi-
nar que temos obrigações para com a socie-
dade e principalmente para com nós mesmos.
A fim de forçar nossa imaginação a pôr ordem
no próprio devaneio e conduzi-la na direção de
dados objetos, impedindo-a de se perder em
extravagâncias, nada melhor do que desen-
volver as idéias ocasionais. É o que faz que dê
atenção às minhas, pois impus a mim mesmo
consigná-las em meus escritos. Quantas vezes,
aborrecido por não ter podido criticar aberta-
mente tal ou qual ação, por civilidade ou
prudência, eu o fiz nestes ensaios com a espe-
rança de contribuir assim para a edificação de
alguém! Aliás esses golpes poéticos, “pan no
olho, pan no focinho, pan nas costas do
sagui* 88”. produzem mais efeito ainda no
papel do que na própria carne. Ademais, pres-
to mais atenção aos livros desde que procuro
neles o que possa mariscar para emprestar
algum brilho e relevo ao meu. Não estudei,
absolutamente, com o intuito de escrever uma
obra, mas trabalhei um pouco enquanto a
fazia, se é que se pode dizer “trabalhar” ape-
nas folheando ora um ora outro livro do come-
ço ao fim ou vice-versa, e não com o desejo de
ter uma opinião mas com a intenção de refor-
çar a sua própria. Mas em quem acredita-
remos, nestes tempos inglórios, quando se fala
de si mesmo, se ninguém, ou quase ninguém
merece crédito quando fala de outrem, caso em
que menor é o interesse em mentir? O primeiro
sintoma de corrupção dos costumes estã no
desamor à verdade. A sinceridade é, como
dizia Pindaro, o ponto de partida da grande
virtude, é a condição primeira que Platão
impõe ao governador de sua República. Entre
nós, hoje em dia, a verdade não é o que é, mas
o que consegue persuadir os outros. Assim
também chamamos moeda não somente à de
bom quilate, mas a qualquer uma que esteja
em circulação. É um vício que há muito censu-
raram a nosso país; Salviano Massiliense, que
vivia no tempo do Imperador Valentiniano,
dizia que “para os franceses mentir e perjurar
não são vícios, mas tão-somente maneiras de
falar”. Poder-se-ia dizer, sem exagero, que
agora é virtude. Crescemos com a dissimula-
ção, adaptamo-nos a ela comô faríamos a um
+86 Marot.
310 MONTAIGNE |
exercício honroso, porque ela se tornou uma
das qualidades mais apreciadas do século.
Muitas vezes refleti acerca da origem possi-
vel desse hábito, observado religiosamente, de
nos sentirmos mais gravemente ofendidos com
o fato de nos censurarem esse vício comum a
todos nós, do que nos criticarem qualquer
outro defeito. Por que será injúria tão grave
dizer que mentimos? Cheguei à conclusão de
que, se negamos naturalmente com mais pai-
xão os defeitos para os quais temos tendência,
deve ser porque em nos mostrando mais sensi-
veis à acusação é como se atenuássemos a
falha, ou, pelo menos, a condenássemos
aparentemente. Mas não seria também porque
esse defeito parece denunciar em nós a covar-
dia e a pusilanimidade? Haverá maior covar-
dia do que desmentir a própria palavra? Do
que mostrar-se alguém diferente do que sabe
ser? Mentir é um defeito feio, cuja baixeza
alguém na antiguidade ressaltava como um ato
de desprezo a Deus e uma prova do temor que
se tem dos homens. É impossível demonstrar-
lhe a indignidade e a vileza de maneira mais
precisa. Pois haverá coisa mais execrável do
que ser covarde com os homens e fingir de
corajoso perante Deus? Nossas relações reci-
procas estabelecem-se pela palavra; faltar à
palavra é pois trair a sociedade, porquanto é o
meio de comunicar nossos pensamentos e nos-
sas vontades e o único intérprete de nossa
alma. Se esse intermediário nos falta, desfaz-se
a associação, não mais nos reconhecemos uns
aos outros; se nos ilude, rompem-se nossas
relações, destroem-se os laços que nos pren-
dem. Certos povos das Indias Ocidentais,
cujos nomes não é necessário indicar porque já
não existem (porquanto nessa conquista reali-
zada de maneira tão extraordinária, tão espan-
tosa, a devastação foi de tal ordem que até os
nomes das localidades desapareceram total-
mente), ofereciam a seus deuses sangue huma-
no tirado exclusivamente da língua e das ore-
lhas, como expiação para o pecado da mentira,
falada ou ouvida. E aquele virtuoso persona-
gem grego, que já citamos, dizia que as crian-
ças se divertem com brinquedos e os homens
com palavras.
Deixo para outra oportunidade referir-me às
circunstâncias diversas em que costumamos
desmentir as leis que a respeito nos impõe a
honra, bem como as modificações que sofreu.
Até lá já saberei, possivelmente, em que época
se introduziu o hábito de pesar e medir, como
o fazemos hoje, as palavras que nos dizem,
pois é certo que esse costume não existia
outrora entre os gregos e romanos. E sempre
me pareceu estranho desmentirem-se eles, e se
injuriarem, sem que isso os levasse ao desfor-
ço. O que o dever deles exigia, então, devia ser
diferente. Atiram a César em pleno rosto epite-
tos como ladrão e bêbedo; uns e outros se inju-
riam desabridamente; os chefes dos exércitos
invectivam-se e aos insultos respondem com
insultos sem que se verifiquem quaisquer
consequências.
CAPÍTULO XIX
Da liberdade de consciência
É frequente vermos as boas intenções, quan-
do mal orientadas, provocarem os piores resul-
tados. Nesse conflito que leva a França à guer-
ra civil, o melhor partido, o mais justo, é sem
dúvida o que tem como objetivo a manutenção
da religião e do governo que existiam antes da
perturbação da ordem. No entanto, éntre os
homens de bem que o seguem (não falo dos
que vêem nisso unicamente a oportunidade de
realizar suas vinganças pessoais, ou um pre-
texto para satisfazer sua avareza, ou ainda
para conciliar a boa vontade dos príncipes, e
sim dos que são movidos pelo amor à religião
eo “desejo respeitável de manter em sua pátria
a paz e o estado de coisas existentes), entre
esses homens, digo, alguns há cuja paixão im-
pele .a ultrapassar os limites da razão e a tomar
resoluções injustas, violentas e mesmo temerá-
rias.
E certo que nos primeiros tempos, quando
nossa religião principiou a ser admitida pelas
leis, o zelo dos prosélitos incitou à destruição
de livros pagãos e a excessos que acarretaram
mais prejuízos do que os incêndios perpretados
pelos bárbaros. Tem-se em Cornélio Tácito um
exemplo típico, do, que afirmo, pois embora o
imperador, “seu parente, houvesse, mediante
decretos especiais, espalhado sua obra pelas
bibliotecas do mundo inteiro, nem um só
exemplar completo escapou à sanha dos que,
ENSAIOS — II 311
por causa de cinco ou seis trechos contrários a
nossas crenças, o destruíram.
Naquela época exaltaram-se também exces-
sivamente os imperadores favoráveis ao cris-
tianismo e condenaram-se de caso pensado
todos os atos dos que lhe eram hostis, como se
pode ver no que concerne ao Imperador Julia-
no, o Apóstata. Este príncipe foi, em verdade,
um grande homem, excepcional, profunda-
mente cioso dos princípios de sua filosofia
pelos quais orientava suas atitudes. E por certo
não há virtude de que não tenha dado exemplo.
Quanto à castidade, nunca deixou de observá-
la de maneira irrefutável, e conta-se dele um
caso semelhante aos atribuídos a Alexandre e
a Cipião: quando lhe trouxeram numerosas
belas escravas, não quis saber de nenhuma, e
no entanto estava então na flor da idade, pois
quando foi morto pelos partos tinha apenas
trinta e um anos. Quanto à justiça, cuidava de
ouvir pessoalmente as partes e, embora por
curiosidade indagasse da religião que professa-
vam, nunca a inimizade que dedicava à nossa
fez pender a balança contra os cristãos. Ele
próprio redigiu boas leis e reduziu considera-
velmente os impostos e taxas de seus predeces-
sores.
Dois historiadores foram testemunhas ocu-
lares de seus atos. Um deles, Amiano Marceli-
no, critica severamente em diversos trechos de
sua obra o edito daquele principe que proibia a
prática do ensino aos retóricos e gramáticos
cristãos. E Marcelino acrescenta que tal deter-
minação deveria ser estigmatizada. É provável,
portanto, que se alguma medida grave tivesse
sido tomada contra nós, não teria esquecido de
mencioná-la esse historiador tão afeiçoado a
nosso partido. Na realidade, ele foi duro mas
não cruel; e são os nossos que contam dele o
fato seguinte: passeando certa vez pelos arra-
baldes de Calcedônia, Maris, bispo da cidade,
ousou chamá-lo de “malvado traidor de Cris-
to”. Juliano contentou-se com responder:
“Vai-te, infeliz, chorar a perda de teus olhos.”
Ao que o bispo atalhou: “Rendo graças a
Jesus Cristo por me ter tirado a vista, o que me
permite não ver teu rosto impudente.” O impe-
rador nessa ocasião deu prova de uma paciên-
cia bem filosófica, ao que dizem os que rela-
tam o caso. O fato é que isso não se acomoda
às crueldades que alegam ter ele cometido con-
tra nós. Eutrópio, o segundo historiador, afir-
ma que ele foi inimigo do cristianismo, mas
não sanguinário.
Para voltar a seu sentimento de justiça,
nada se lhe pode censurar além de seu rigor, no
início de seu reinado, contra os que haviam
adotado o partido de Constâncio, seu prede-
cessor. Quanto à sobriedade, alimentava-se
como um soldado, e em plena paz vivia como
quem se prepara para a austeridade da guerra.
Era a tal ponto previdente, que dividia a noite
em três ou quatro partes: dormia um período e
empregava os outros em fiscalizar o exército e
estudar, pois entre as qualidades que o distin-
guiam dos outros sobressaía em todos os gêne-
ros literários. Dizem de Alexandre, o Grande,
que, receoso de ser dominado pelo sono e
impedido assim de meditar, mandava colocar
ao lado do leito uma bacia com água e com
uma das mãos, que deixava estendida para
fora, segurava uma pequena bola de cobre, de
modo que se o sono o vencesse, ao se descer-
rarem os dedos, caísse ela na água e o ruído o
despertasse. Juliano concentrava-se tanto no
que queria e tinha o espírito tão lúcido, por
causa de sua abstinência, que não precisava
recorrer a tal expediente.
No que concerne às qualidades militares, foi
admirável em tudo o que é da alçada de um
grande chefe; aliás passou quase toda a vida
guerreando, em particular contra nós, na
Gália, e contra os alemães e os francos na
Francônia. E não há memória de homem que
tenha corrido maiores riscos e se esforçado
mais, pessoalmente.
Sua morte assemelha-se até certo ponto à de
Epaminondas. Como este, foi ferido por um
dardo que tentou arrancar das carnes e o hou-
vera feito se não cortasse a mão na afiada ares-
ta. Nesse estado, contudo, não cessou de pedir
que o levassem de volta à batalha, a fim de ani-
mar os soldados, os quais, de resto, embora
sem sua presença, se bateram obstinadamente
pela vitória, tendo a noite separado os dois
exércitos. Devia à prática da filosofia seu sin-
gular desprezo pela vida e pelas coisas huma-
nas, e acreditava firmemente na imortalidade
da alma.
Foi por certo um desviado em matéria de
religião; apelidaram-no Apóstata por haver
abandonado o cristianismo. Acho mais prová-
vel que nunca tenha sido um verdadeiro crente.
Mas precisava dissimular seu pensamento para
obedecer às leis, o que fez até subir ao trono.
Era tão supersticioso que dele zombavam até
seus próprios partidários, observando que,
vitorioso dos partos, houvera multiplicado os
sacrifícios a ponto de acabar com todos os
bois da terra. Tinha absoluta confiança na
ciência dos adivinhos e acreditava em toda
espécie de prognósticos. Entre outras coisas
disse, ao morrer, ser grato aos deuses por o
não haverem abatido subitamente, de surpresa,
pois o tinham avisado com antecedência da
hora e do lugar; e também por não lhe terem
infligido uma morte mole ou covarde, como
sól reservarem aos ociosos e requintados, ou
312
uma morte lenta e dolorosa. Rendia-lhes gra-
ças por o terem julgado digno de morrer
honrosamente no desenrolar de uma vitória e
no fastígio da glória. Por duas vezes tivera
uma visão análoga à de Marco Bruto. Uma
primeira vez na Gália, pela qual fora advertido
de um perigo que o ameaçava; a segunda vez
na Pérsia, pouco antes de sua morte. Quanto
às palavras que lhe atribuem ao sentir-se feri-
do, “venceste, nazareno”, os relatos de meus
dois historiadores, que não esqueceram as
mais insignificantes minúcias desse fim, não as
omitiriam sem dúvida, como não omitiram os
milagres porventura ocorridos, por pouco que
houvessem acreditado nessas histórias.
Mas voltemos ao assunto. Segundo Amiano
Marcelino, o Imperador Juliano pensava desde
muito, em seu íntimo, restaurar o paganismo.
Mas seu exército era inteiramente formado por
cristãos, e ele só ousou revelar seu projeto
quando se achou bastante forte para tornar pú-
blica sua vontade. Mandou então reabrir os
templos dos deuses e teritou por todos os meios
restaurar a idolatria. Para consegui-lo, cha-
mou a palácio os prelados da Igreja Crista,
divididos como o povo em suas opiniões, e
convidou-os a aplacarem suas dissenções de
modo que todos pudessem, sem obstáculo nem
receio, praticar a religião como a entendessem.
MONTAIGNE
Esforçou-se grandemente por convencê-los, na
esperança de que uma tal liberdade aumen-
tasse o mundo de facções e cabalas, impedindo
o povo de se unir contra ele, imperador, com a
força que teria auferido de um entendimento
unânime. Verificara, pelas crueldades cometi-
das por alguns cristãos, que “não hã animal
mais. feroz no mundo e mais temível para o
homem do que o próprio homem”.
Essa tática do Imperador Juliano é digna de
nota, porquanto a fim de atiçar as agitações
provocadas pela discórdia, pôs em jogo esse
mesmo instrumento da liberdade de cons-
ciência de que se valem nossos reis para apazi-
guá-las. O que nos leva a dizer que, se, de um
lado, dar inteira liberdade de opinião aos parti-
dos redunda em semear e desenvolver dissen-
ções, auxiliar a ampliá-las destruindo quais-
quer barreiras e restrições das leis que as
coíbem, por outro lado, largar as rédeas e per-
mitir a todos os partidos que manifestem suas
opiniões é também enfraquecê-los pela facili-
dade e latitude que se lhes outorgam; é embo-
tar o dardo que os estimula e que a raridade, a
novidade e a dificuldade afiam. Para honra de
nossos reis, prefiro acreditar que não tendo
conseguido o que desejariam, fingiram desejar
o que podiam.
CAPÍTULO XX
Nada apreciamos inteiramente puro
A fraqueza de nossa condição faz que não
possamos apreciar as coisas em sua simplici-
dade e pureza naturais; tudo o que usufruímos
é alterado: assim os metais — e mesmo o ouro
— que cumpre misturar com outros de menor
valia para que sejam por nós utilizados. A vir-
tude despida de quaisquer artifícios, que Arís-
ton e Pirro, e com eles os estóicos, apontam
como fim da vida, não pode tampouco existir
sem mistura, como não o pode a volúpia, tal
qual a concebem a escola cirenaica e a de
Aristipo. Dos prazeres e bens que gozamos
não há um só ao qual não se amalgame algum
mal ou inconveniente; nenhum se isenta disso:
“da fonte dos prazeres, jorra uma espécie de
amargura que atormenta, mesmo em leito de
flores * 87º. A extrema volúpia que nos é dado
experimentar tem algo do gemido e da queixa.
* 87Lucrécio.
Dir-se-ia que morre de angústia. Mesmo quan-
do a representamos em suas sensações mais
deleitosas, acompanhamo-la de epítetos lem-
brando impressões doentias e dolorosas: lan-
guidez, moleza, fraqueza, desfalecimento, mor-
bidez que comprovam seu parentesco, e
estrutura semelhante. Um gozo profundo assu-
me antes um ar de severidade que de alegria; O
pleno e extremado contentamento. é calmo
mais do que jovial: “a felicidade que não se
modera, destrói-se por si**º. a satisfação
esgota-nos. É o que exprime um antigo versi-
culo grego, cujo sentido é: “vendem-nos os
deuses todos os bens que nos dão”, isto é, não
nos dão nenhum puro e perfeito e nós os adqui-
rimos com algum mal.
O trabalho e o prazer, que são de natureza
mui diversa, ligam-se, entretanto, por uma
“68 Sêneca.
ENSAIOS —II
qualquer correlação natural. Sócrates diz que
um deus, tendo tentado confundir as dores e os
prazeres em um todo, não o conseguiu e resol-
veu então uni-los pelas extremidades. Metro-
doro afirmava que havia na tristeza uma par-
cela de prazer; não sei se em seu pensamento
isso tinha uma significação específica, mas
imagino que quem vive na melancolia o faz
por determinação, presta-se a tanto e nisso se
compraz, sem falar da participação possível da
ambição. Em nossas próprias crises de sonho e
solidão, há algo doce e delicado que nos sorri e
lisonjeia; alguns temperamentos fartam-se com
isso: “há volúpia nas lágrimas * 8º”. Um certo
Átalo, em Sêneca, diz que a recordação dos
amigos perdidos provoca uma espécie de sen-
sação agradável à moda do amargor de um
vinho velho demais: “jovem escravo, tu que
serves o vinho velho de Falerno, dá-me um
mais amargo * ?º?, ou como o gosto das maçãs
ligeiramente ácidas.
O mesmo contraste aparece na natureza; OS
pintores admitem que os movimentos e pregas
do rosto de quem chora se assemelham aos de
quem ri. E, com efeito, contemplai um quadro
antes que o pintor tenha acabado de dizer se
quer que seu personagem chore ou ria: não
sabereis ao certo o que vai exprimir: O riso
confina com a lágrima: “não há mal sem
compensação * 71”.
Quando imagino o homem em pteno gozo
de tudo o que pode desejar de agradável
(admitamos que sinta de maneira contínua
prazer semelhante ao que lhe proporciona o
ato da fecundação no momento em que o pra-
zer atinge o apogeu), vejo-o desfalecer sob o
peso da satisfação que o oprime; parece-me
incapaz de suportar sem solução de continui-
dade essa volúpia pura que se apodera de todo
o seu ser. E, em verdade, quando a sente, foge
dela. Tem naturalmente pressa em se safar,
como se houvesse dado um passo em falso e
temesse um desmoronamento.
Se procedo sinceramente a um exame de
consciência, acho que todo impulso de bonda-
de em mim, mesmo o melhor, é viciado por
sentimentos que o diminuem; e creio que Pla-
tão, apesar da rigidez de sua virtude (e aprecio
tanto quanto qualquer outro a virtude elevada
a tão alto grau), se se analisava a fundo, como
sem dúvida devia fazê-lo, sentia que a natureza
humana reagia nele em sentido contrário: rea-
ção por certo atenuada e que ele era o único a
perceber. Em tudo e em toda parte o homem
não passa de um amálgama de peças desen-
469 Gvídio.
470 Catulo.
471 Sêneca.
313
gonçadas. As próprias leis da justiça não pode-
riam existir sem alguma injustiça, e, na expres-
são de Platão, quem pretende fazer que
desapareçam das leis todos os inconvenientes e
imperfeições empreende a tarefa de cortar a
cabeça da hidra: “as punições exemplares
comportam sempre algo iníquo, que atinge os
particulares mas aproveita à sociedade”, diz
Tácito. É igualmente certo que na sua aplica-
ção à vida e aos negócios públicos, um excesso
de pureza e perspicácia pode ser prejudicial;
lucidez em demasia e penetração conduzem a
exagerada sutileza e curiosidade; cumpre dimi-
nuir a atividade do espírito e torná-lo menos
afoito para que se adapte melhor à prática;
fazê-lo mais pesado e lento para colocá-lo ao
nível da vida terrena e tenebrosa. É por isso
“que os espíritos menos requintados são mais
eficientes na direção dos negócios; os mais ele-
vados, mais finos, afeitos às idéias filosóficas
não são capazes de bem gerir. Essa vivacidade
demasiado aguda do espírito, essa volubilidade
que para tudo atenta e com tudo se preocupa
perturbam as negociações e os entendimentos.
Os negócios humanos exigem tratamento mais
grosseiro e superficial; boa parte deve ser dei-
xada ao arbítrio da sorte. Não há necessidade
de examinar as questões a fundo e sutilmente;
perdemo-nos em querer considerar todos os
aspectos e formas que comportam: “vendo coi-
sas tão opostas, ficavam estupidificados * 72”.
Foi o que, segundo os autores da antigui-
dade, aconteceu a Simônides. Tendo-lhe o Rei
Híeron apresentado uma pergunta para cuja
resposta lhe dera vários dias de prazo, vieram-
lhe ao espírito tantas considerações diferentes,
todas tão penetrantes e sutis, que, indeciso
acerca da solução mais verdadeira, desistiu de
encontrar a boa. ;
Quem procura e pondera todas as circuns-
tâncias de uma questão, não a leva a cabo; um
espirito de mediana capacidade basta para
resolvê-la, e tudo pode realizar muito bem,
tanto as coisas grandes como as pequenas.
Atentai para os indivíduos que dirigem a con-
tento seus negócios: são os menos à altura de
nos dizer como o fazem. Ao passo que os
outros, que tratam da questão com brilho,
nada realizam de útil. Conheço um senhor mui
eloquente, que expõe à perfeição tudo o que
concerne à economia doméstica; em suas mãos
dissipou-se um patrimônio de cem mil libras
de renda. Sei de outro que perora, dá conselhos
admiráveis e melhor do que um perito na maté-
ria; ninguém no mundo tem mais espírito e
erudição, mas, quanto aos resultados, acham
seus servidores que não são tão brilhantes, e
isso sem que os atribuam à falta de sorte.
472 Tito Lívio.
314
MONTAIGNE
CapíTULO XXI
Da indolência
O Imperador Vespasianó, durante a enfer-
midade de que veio a morrer, não deixava de
se ocupar dos negócios do império; e, no seu
próprio leito, tratava as questões mais impor-
tantes. Tendo-lhe o médico censurado essa ati-
vidade por nociva à súa saúde, disse ele: “um
imperador precisa morrer em pé”. Eis, à meu
ver, um belo pensamento, e digno de um
príncipe.
Em idênticas circunstâncias, o Imperador
Adriano teve as mesmas palavras, as quais se
deveriam lembrar aos reis para compreender
que essa importante responsabilidade de dirigir
e comandar os homens não é uma situação em
que possam permanecer ociosos. E quê nada
pode desanimar mais — e justamente = o sú-
dito no seu afa de bem servir o soberaho, do
que saber que, enquanto corre riscos e se atare-
fa, seu senhor se entrega à indolência e cuida
de seu prazer sem se interessar pelô bem-estar
de seu povo.
Se alguém quisesse demonstrar sér preferível
que o príncipe outorgue a outrem, fia guerra, O
comando de seus exércitos, encontraria na his-
tória muitos exemplos de príncipes cuja pre-
sença no campo de batalha fora antes prejudi-
cial do que útil; mas nenhum soberano de
virtude e coragem teria permitido que lhe
aconselhassein tão vergonhosa abstenção. A
pretexto de conservar-lhe a cabeça, como uma
estátua de santo, para o bem de seus estados,
degradam-no e lhe sonegam precisamente o
que é de seu dever e que consiste principal-
mente na condução da guerra, dando-lhe de tal
modo um diploma de incapagidade. Conheço
um que preferiria ser vencido a dormir
enquanto vencem por ele“ 73, póis nem mesmo
suporta que algo importante se verifique em
sua ausência. Ê =
Selim I tinha muita razão; parece-me, quan-
do dizia que “as vitórias ganhas sem a pre-
sença do príncipe não são completas”. Teria
ainda acrescentado de bom grado que esse
príncipe deveria corar de vergonha de só parti-
cipar de tais vitórias com o nôme, e só coope-
rar para seu êxito com instruções e ordens. E
473 Provavelmente Henrique IV.
nem mesmo com isso, pois em semelhantes
ocasiões conselhos e determinações de que se
possam honrar só lhes cabê dar no momento
da ação. Não há piloto quê sé exercite em terra
firme. Os principes de raçã ôtomana, que mais
devem à sorte das armas, eram partidários fer-
renhos desse princípio. Bajázet II e seu filho
abandonaram-no, dedicando-se ao estudo das
ciências e a outras ocupaçõés sedentárias; e
seu império ressentiu-se de tal atitude. Seu
sucessor atual, Amurat III, que lhes segue o
exemplo, começa também a sofrer as conse-
quências dessa orientação. Não disse Eduardo
WI, da Inglaterra, acerca de nosso Carlos V:
“nunca hoúve rei que menos guerreasse e no
entanto me desse mais trabalho”? E era justo
que estranhasse, porquanto os sucessos decor-
riam mais do acaso do que da premeditação.
Procurem outros que não eu para apoiá-los,
os que incluem entre os conquistadores belico-
sos e magnânimos esses reis de Castela e Por-
tugal que, a mil e duzentas léguas de suas capi-
tas — onde vivem na indoólência — se
tornaram, graças a seus capitães, senhores das
Índias Ocidentais e Orientais, as quais não te-
riam por certo ousado investir pessoalmente.
O Imperador Juúlianó dizia mais: “um filó-
sofo êé um homem dé grande coração não deve-
riam precisar respirar”, isto é, não deveriam
dar às necessidades físicas senão o mínimo
imprescindível, pois a alma e o corpo tinham
que voltar-se exclusivamente para as coisas
grandes, belas e virtuosas. Envergonhava-se de
ser visto em público cuspindo ou suando
(sentimento que também experimentava a
juventude da Lacedemônia, e, segundo Xeno-
fonte, a da Pérsia), pois considerava que o
exercício, o trabalho continuado e a sobrie-
dade deviam conseguir absorver tais secreções.
A explicação de Sêneca para o fato de a juven-
tude da antiga Roma conservar-se sempre em
pé, merece ser apresentada aqui: “nada ensina-
vam aos filhos que devessem aprender senta-
dos”.
É justa ambição aspirar a uma morte útil e
digna de um homem de caráter; mas isso não
depende tanto de nossa resolução quanto da
ENSAIOS — II 315
sorte. Milhares de pessoas propõem- -se vencer
ou morrer combatendo e não conseguem nem
uma coisa nem outra; ferimentos e cativeiro
entravam-lhes a intenção e impóem-lhes a
vida; há doenças que paralisam nossa vontade
e nos tornam inconscientes; e os fados não
secundaram a vaidade que ditava às legiões
romanas o juramento de vencer ou morrer:
“voltarei vencedor do combate, ó Marco
Fábio; se faltar à minha resolução, que se
desencadeie contra mim a cólera de Júpiter,
Marte e outros deuses * 7 *”, Contam os ortu-
gueses que por ocasião da conquista das Índias
tiveram em certos lugares que lutar contra sol-
dados que se haviam comprometido a não en-
trar em nenhum acordo e a sair vitoriosos da
refrega ou morrer. E como marca distintiva de
sua resolução traziam a cabeça e a cara
raspadas. o
Parece que, embora se obstinem seriamente,
e se arrisquem, os golpes poupam os que se
expõem abertamente; daí o malogro de seus
desígnios. Houve quem, conquanto tudo fizes-
se para ser morto pelo inimigo, se viu cons-
trangido a matar-se no entusiasmo da luta a
fim de realizar honrosamente o intuito de ven-
cer ou morrer. Entre outros exemplos do que
afirmo, temos o de Filisto, comandante da
frota de Dionísio, o Jovem, na guerra contra
Siracusa. A batalha travada entre forças iguais
foi arduamente disputada. Iniciou-se favora-
velmente para ele, graças a seu valor, mas
tendo os de Siracusa cercado sua galera e não
a conseguindo ele libertar, apesar de belos fei-
tos guerreiros em que se arriscou pessoalmente
a fundo, matou-se, certo de não poder escapar,
sacrificando com suas próprias mãos uma vida
que inútil e corajosamente oferecera aos
inimigos.
Muley Moluch, Rei de Fez, que acabava de
vencer D. Sebastião, em uma batalha que se
tornou famosa pela mfrte de três monarcas e
teve como consegiiênci “a passagem da coroa
de Portugal aos reis de Castela, estava grave-
mente enfermo quando 'ôs portugueses invadi-
ram a mão armada O seu império. A partir
desse momento sua doença foi piorando e o
encaminharia para a morte que sentia avizi-
nhar-se. Nenhum homem entretanto revelou
maior bravura em tais circunstâncias. Fraco
demais para suportar a fadiga de uma entrada
solene em seu campo, o que segundo os costu-
mes desse povo exige grandes cerimônias e
acarreta considerável pompa, delegou ao
irmão a incumbência. Mas foi a única atribui-
ção de chefe que abdicou; todas as outras,
“74 Tito Lívio.
necessárias e úteis, por penosas que fossem, ele
as desempenhou com exatidão. Permanecia
deitado, mas sua coragem e sua energia conti-
nuaram de pé, . até o último suspiro. Podia
esgotar O inimigo que avançara imprudente-
mente até o interior do país, e custou-lhe
muito, na falta'de mais um pouco de vida e de
alguém a quem entregar o comando e.0 gover-
no, decidir-se a buscar uma vitória incerta e
sangrenta quando tinha à mão os meios de
alcançá-la sem grandes perdas e com seguran-
ça. Contudo, tirou maravilhoso partido de sua
enfermidade prolongada para desgastar o
“adversário, atraí-lo para longe da frota e dos
fortes das costas africanas, e isso até o último
dia de sua vida, empregado, deliberadamente,
na batalha decisiva. Dispondo seus exércitos
em círculo, investiu por todos os lados contra
os portugueses; estes viram-se, assim cercados,
em grandes dificuldades durante o combate,
que foi rude e encarniçado, dado o valor do
Jovem rei, e impossibilitados de fugir após a
derrota. Encontrando toda saída fechada, for-
çados a um recuo que os jogava contra os pró-
prios companheiros, “amontoados pela carnifi-
cina e a fuga?” 5”, deram ao vencedor uma
vitória total e extremamente sangrenta. Agoni-
zante, Muley Moluch fazia-se transportar por
toda parte onde sua presença podia ser útil;
circulando entre as fileiras, encorajava seus
capitães e soldados. Tendo em dado momento
suas tropas cedido terreno em certo ponto, nin-
.guém o pôde impedir de montar a cavalo e lan-
çar-se de espada em punho na refrega, en-
quanto o tentavam sustar, uns pelas rédeas,
outros pelas vestes e pelos estribos. Esse esfor-
ço acabou esgotando o pouco de vida que lhe
restava; tornaram a deitá-lo e ele só voltou a si
um instante, num sobressalto, para recomen-
dar que não espalhassem a notícia de sua
morte, a fim de que não desesperassem os seus,
o que era sem dúvida a ordem mais importante
que lhe cabia dar. E expirou levando o dedo
aos lábios, sinal habitual de silêncio. Quem,
mais do que ele, terá morrido em pé?
A atitude mais corajosa diante da morte, e a
mais natural, está em a esperar, não somente
sem espanto como também sem preocupação;
estã em continuar a viver, até que ela se apode-
re de nós, sem nada mudarmos em nossa
maneira de viver, como fez Catão, o qual se
distraia em estudar e dormir, embora já hou-
vesse decidido pôr fim à vida, e tivesse a idéia
presente em seu espírito e em seu coração, e os
meios de executá-la ao alcance da mão.
475 Id.
316 MONTAIGNE |
CapíTULO XXII
Dos correios
Não fui dos menos resistentes em correr a
posta?” 8, exercício adequado aos indivíduos
de minha estatura, pequenos e atarracados.
Mas desisti, porque, com o tempo, fatiga
demasiado.
Estive lendo há pouco que o Rei Ciro, a fim
de receber mais rapidamente notícias das
diversas regiões de seu império, aliás muito
extenso, mandou medir a distância que um ca-
valo pode percorrer sem parar e determinou
que se organizassem, a igual distância uns dos
outros e de acordo com o percurso observado,
postos de muda com cavalos prontos para
“serem usados pelos mensageiros. Dizem que a
velocidade assim conseguida alcançou a dos
grous.
César relata que L. Vibulo Rufo, desejoso
de entregar rapidamente certa mensagem a
Pompeu, galopou dia e noite mudando de ca-
valo em caminho para chegar mais depressa.
O próprio César, informa Suetônio, fazia cem
milhas por dia em um carro de aluguel, e era
intrépido viajor, pois quando algum rio lhe
cortava a estrada, atravessava-o a nado sem se
desviar sequer da direção visada para procurar
uma ponte ou um vau. Tibério, a fim de visitar
seu irmão Druso, que estava enfermo na Ale-
manha, percorreu duzentas léguas em vinte e
quatro horas; viajava com três carcos. Durante
a guerra dos romanos contra o Rei Antíoco,
Semprônio Graco, escreve Tito Lívio, “foi em
478 O exercício consistia em percorrer determi-
nada distância a galope, oito quilômetros mais ou
menos. (N. do T.)
três dias de Anfissa a Pela revesando de cavalo
e marchando com incrível rapidez”. Tendo em
vista a região, parece que deve ter utilizado,
em sua viagem, postos de mudas permanentes
e não improvisados.
Para comunicar-se com os seus, Cecina
imaginou um meio mais rápido: levava consi-
go andorinhas e, quando queria enviar noti-
cias, soltava-as depois de as ter pintado com as
cores convencionadas de acordo' com o que
desejava transmitir.
Em Roma, os chefes de família que iam ao
teatro, levavam pombos aos quais amarravam
cartas e que soltavam quando precisavam en-
viar algum recado aos de casa; e os pombos
eram adestrados a trazerem a resposta. D.
Bruto, sitiado em Módena, empregou esse pro-
cesso, e outros o fizeram em outras circunstân-
cias.
No Peru, o correio era feito por homens que
o carregavam aos ombros; mostravam tal agi-
lidade que a mudança dos transportadores se
fazia sem que precisassem parar nem reduzir a
marcha.
Ouvi dizer que os valáquios, empregados no
correio a serviço do Sultão, são extremamente
velozes, tanto mais quanto têm o direito de
mandar apear o primeiro cavaleiro que encon-
trem, dando-lhe seu cavalo exausto em troca
do cavalo fresco. Para resguardar-se do cansa-
ço, cingem a cintura fortemente com uma
larga faixa de tecido, como o fazem outros
também. Experimentei-o eu próprio, mas não
senti nenhum alívio.
CapíTuLO XXIII
Dos meios e dos fins
Existe na organização da natureza uma
maravilhosa correlação e uma similitude que
não resultam do acaso nem podem provir da
vontade de muitos. As doeriças, as condições
diversas de nosso corpo, vêem-se também nos
Estados e governos. Como os indivíduos, os
reinos e repúblicas nascem, crescem, e defi-
nham ao ser atingidos pela idade. Estamos
sujeitos a superabundâncias de humores inú-
teis e nocivos; temem-nos os médicos, mesmo
ENSAIOS — II 319
quando esses humores fazem parte dos que se Algumas pessoas de nosso tempo racioci-
consideram benéficos, pois afirmam que, nada nam de igual modo; desejariam que nossos
sendo estável em nós, cumpre sustar e enfra- sentimentos exacerbados encontrassem um
quecer artificialmente essa saúde em demasia derivativo em alguma guerra contra qualquer
que nos empresta excesso de vivacidade e dos nossos vizinhos, receosos de que os humo-
vigor, porquanto a natureza, não funcionando res nocivos que ora nos perturbam se propa-
normalmente ao atingir determinado grau que guem e que, sem a solução de os expandir
não lhe é dado superar, pode recuar de modo | alhures, venham a provocar a ruína completa
suscetível de causar graves desordens. E por de-nosso país. Devemos convir em que uma
isso que prescrevem purgantes e sangrias aos guerra exterior é menos nefasta do que uma
atletas. Quanto aos humores nocivos, é em seu guerra civil, mas não creio que Deus seja favo-
excesso que se acham as causas das doenças. rável a tão iníqua empresa como essa de pro-
Semelhantes superfluidades deparam-se nos curar briga com vizinhos e insultá-los por
Estados enfermos e nesses casos se lhes admi- comodismo: “6 poderosa Nêmesis, faze que
nistram também purgantes de diversos tipos. não deseje nada a ponto de o tentar obter em
Assim é que se expulsam famílias inteiras para detrimento de seu legítimo dono * 78”,
aliviar o país, famílias que se deslocam então e . Entretanto a fraqueza de nossa condição
vão instalar-se alhures. Nossos antigos fran- —impele-nos não raro a empregar meios conde-
cos, vindos do fundo da Alemanha, apodera- náveis para alcançar um resultado conve-
ram-se da Gália expulsando os outros habitan- niente. Licurgo, o mais virtuoso e perfeito dos
tes; assim também ocorreu com o imenso legisladores, a fim de incitar à temperança o
caudal de povos que desceram da Itália sob a seu povo, imaginou o meio mui contrário à
condução de Breno e outros; assim igualmente, Justiça de obrigar os ilotas, seus escravos, a se
os godos e os vândalos, e os povos que ocu- embebedarem para que, vendo-os incons-
pam atualmente a Grécia abandonaram seu cientes de seus atos e sentimentos sob o efeito
país natal para se estabelecer mais à vontade do vinho, os espartanos aborrecessem esse
alhures. E talvez não existam no mundo mais vício. Mais errados andavam ainda os que
do que dois ou três recantos que não hajam — fautorizavam fossem todos os criminosos con-
experimentado os efeitos dessas migrações. — denados à morte, dissecados em vida pelos mé-
Desse modo criavam os romanos suas colô- — dicos a fim de que estes pudessem aprender no
nias. Quando a população de suas cidades ser vivo o funcionamento de nossos órgãos
aumentava demasiado, aliviavam-na excluindo | internos e assim alcançar maior segurança na
os elementos menos necessários, os quais eram — prática de sua arte, pois, a transgredir as leis
transportados para as terras conquistadas a da humanidade, mais desculpável se me afigu-
fim de colonizá-las e cultivá-las. Por vezes, ra fazê-lo em benefício da alma que do corpo,
também, sustentaram guerras com certos ini- | como procediam os romanos, os quais, que-
migos, não apenas para manter o povo vigilan- rendo inspirar ao povo a valentia e o desprezo
te, de medo que a ociosidade, mãe da corrup- pela morte, ofereciam-lhe os furiosos espetã-
ção, acarretasse situações piores ainda culos de combates de gladiadores massacran-
(“sofremos os males inerentes a um longo —do-se na sua presença: “pois qual seria então o
período de paz; mais terrível do que as armas, objetivo desses combates impiedosos de gla-
dominou-nos o luxo 47 7”), mas ainda para san- — diadores, desses massacres de Jovens, dessa
grar a República, calmar as aspirações exage- volúpia sangrenta* 789? E esse costume durou
radamente fogosas da juventude, podando: e até a época de Teodósio: “atentai, príncipe,
arejando a ramagem da árvore que se desen- para essa glória que vos é reservada, a única
volvera com excessivo vigor. Foi para isso que | com que possais enriquecer a herança paterna.
lutaram outrora contra os cartagineses. Que o sangue humano não seja mais derra-
No tratado de Bretigny, Eduardo III, da | mado nos circos para o prazer do povo! Que a
Inglaterra, não quis incluir o Ducado de Breta- | arena se contente com o sangue dos animais e
nha na paz assinada com o nosso rei, a fim de que nossos olhos não mais se maculem à vista
ter para onde enviar a massa de ingleses que dos jogos homicidas * 29º, o
antes utilizara nas guerras continentais e impe- Devia constituir, mesmo, formidável exem-
dir que voltassem à pátria. Foi também razão plo, e de grande influência na educação do
da mesma ordem que decidiu nosso Rei Filipe POvo,0 espetáculo diário de duzentos e até mil
dar seu filho João em expedição além- homens armados a lutarem uns contra os
Ra a : outros, esquartejando-se em verdade com tal
mar; levava assim, com ele, para fora do reino,
toda essa juventude apaixonada que engajara. 478 Catulo.
479 Prudêncio.
“77 Juvenal. aso Td,
318
coragem e resolução que nunca os viram dei-
xar escapar uma queixa, virar as costas ou
fazer um movimento qualquer suscetível de
sugerir algum temor ante o golpe do adversá-
rio; ofereciam o pescoço à espada e ao punhal.
A muitos aconteceu indagarem do povo, já
cobertos de ferimentos e quase agonizantes, se
estava satisfeito com a maneira por que ha-
viam cumprido seu dever. Não era necessário
apenas que combatessem e que o combate ter-
minasse fatalmente com a morte, era preciso
ainda que o fizessem corajosamente; e os vaia-
va o povo, e os amaldiçoava, quando via que
hesitavam em receber o golpe fatal. As pró-
prias jovens os incentivavam: “a modesta vir-
gem ergue-se a cada golpe; todas as vezes que
o vencedor degola o adversário, mostra-se
encantada e extasiada; e se o vencido pede
mercê baixa o polegar e o condena*?"?. Os
primeiros romanos empregavam os criminosos
aB1 Td.
MONTAIGNE |
nesses jogos sangrentos, que visavam à educa-
ção do povo; mais tarde valeram-se de escra-
vos contra os quais nada se alegava e até ho-
mens livres que se vendiam para participar do
massacre; viram-se mesmo senadores, cavalei-.
ros romanos e mulheres na arena: “vendem
agora O seu sangue, por uma soma determi-
nada, e vão morrer na arena; em plena paz
cada qual escolhe um inimigo e vai combatê-lo
diante do povo *º2. Participando da emoção
desses novos jogos, um sexo inâábil ao duro
manejo do ferro, desce ousadamente à arena
sob os aplausos da multidão e combate como
os gladiadores*83”. Isso se me afiguraria
estranho e incrível se não estivêssemos habi-
tuados a ver diariamente em nossas guerras
tantos estrangeiros empenharem o sangue e a
vida a serviço de querelas de nenhum interesse
para eles.
+82 Manílio.
483 Estácio.
CapíTULO XXIV
Da grandeza romana
Quero dizer apenas uma palavra a propósito
deste assunto inesgotável, a fim de mostrar o
simplismo dos que colocam em pé de igual-
dade a grandeza romana e as miíseras grande-
zas de nossa época.
No livro sete das Epistolas Familiares, de
Cicero (este epíteto “familiares” podem os
gramáticos suprimi-lo se quiserem, pois em
verdade não se justifica, e substituí-lo pela
expressão “a seus familiares”, apoiando-se em
Suetônio, o qual em sua vida de César afirma
existir um volume de cartas com tal título);
nessas epístolas, pois, encontra-se uma diri-
gida a César na Gália e na qual Cícero repro-
duz este trecho da que ele próprio recebera e
que respondia: “quanto a Marco Flávio, que
me recomendaste, farei dele o rei da Gália. Se
queres que favoreça algum outro amigo teu,
manda-o a mim”. Não era absurdo nessa
época que um simples cidadão, como era
César então, dispusesse de reinos; já havia ele
despojado o Rei Dejótaro do seu e o entregara
a um tal Mitridates, fidalgo de Pérgamo. Os
que lhe escreveram a biografia mencionam ou-
tros reinos vendidos por ele, e Suetônio diz que
de uma só vez arrancou três milhões e seiscen-
tos mil escudos ao Rei Ptolomeu, o qual esteve
a ponto de vender sua coroa: “tanto pela Gali-
cia, tanto pela Líbia “8 *?.
Marco Antônio observava que a grandeza
do povo romano se manifestava menos pelo
que tomava do que pelo que dava. Na realida-
de, um século antes de Antônio, apossara-se de
um reino, entre outros, mediante um ato de
autoridade como não conheço igual na histó-
ria, suscetível de dar mais alta idéia do seu
poderio. Antíoco era senhor do Egito inteiro e
procedia à conquista de Chipre e de tudo o que
pertencera a esse império. Ia de vitória em
vitória quando L. Pompílio se apresentou em
nome do Senado e começou por lhe recusar a
mão antes que lesse as cartas que trazia. Ten-
do-as lido, disse-lhe o rei que ia deliberar; mas
Pompílio pôs-se a traçar um círculo em torno
dele com um bastão, observando: “antes de
saíres deste círculo, dá-me a resposta que devo
levar ao Senado”. Antíoco, amedrontado com
a autoridade de semelhante ordem, refletiu um
*8* Cláudio.
ENSAIOS — II
instante e respondeu: “farei o que manda o
Senado”. Pompílio saudou-o então como
amigo do povo romano. O rei, embora vitorio-
so, renunciava, ante três linhas do Senado, à
conquista de um país grande como o Egito:
Justifica-se portanto que* comunicasse pouco
depois por seus embaixadores ter acolhido a
injunção com o respeito que devotava aos deu-
ses imortais.
Todos os reinos que Augusto adquiriu por
direito de conquista, devolveu-os aos vencidos
-ou Os doou a estrangeiros. A esse respeito, Tá-
cito, referindo-se ao rei da Inglaterra, Cogidu-
319
no, faz-nos compreender de maneira maravi-
lhosa esse infinito poderio dos romanos.
Tinham por hábito deixar os soberanos venci-
dos na posse de seus reinos, sob a proteção de
Roma, “de modo a terem os próprios reis
como instrumentos de servidão”. E é provável
que Solimão, ao abandonar generosamente a
posse da Hungria e de outros estados, tenha
sido movido por essa mesma razão e não a que
alegava habitualmente: que estava cansado de
tantos reinos e desse poder que devia a seu
próprio valor e ao de seus antepassados.
CAPÍTULO XXV
Da inconveniência de fingir de doente
Hã um bom epigrama de Marcial entre os
de toda espécie, bons e maus, que nos apresen-
ta. Conta a história de Célio, o qual para evi-
tar de cortejar certos altos personagens de
Roma, assistindo ao seu despertar e os acom-
panhando, fingiu estar atacado de gota. E a
fim de tornar mais verossímil a desculpa, man-
dava friccionar as pernas e as mantinha bem
cobertas, imitando a atitude e o andar do
reumático. A sorte acabou dando-lhe a satisfa-
ção de ficar realmente doente: “vede como é
útil fingir de enfermo! Célio não mais precisa
alegar que sofre de gota”.
Li em Ápio, creio, história semelhante de
um indivíduo que, para fugir aos editos dos
triúnviros e não ser reconhecido, andava dis-
farçado de caolho. Quando obteve um pouco
mais de liberdade e quis arrancar o emplastro
que usara, verificou ter realmente perdido a
vista. É possível que esse órgão se haja atrofia-
do, após tanto tempo sem função, passando a
inteira força de visão para o outro olho. Senti-
mos, efetivamente, que, se fechamos um olho,
o outro como que aumenta e incha. É possível
portanto que no gotoso de Marcial a falta de
exercício, as ataduras e os medicamentos te-
nham desenvolvido alguma tendência para a
gota.
Lendo em Froissart que alguns jovens fidal-
gos ingleses haviam feito a promessa de vendar
o olho esquerdo até que realizassem um feito
heróico em França, pus-me muitas vezes a
pensar quanto me fora agradável saber que
lhes tivesse ocorrido desventura igual às que
relatei, e que se houvessem achado realmente
caolhos diante de suas bem-amadas, razão ini-
cial da promessa.
Justifica-se que as mães admoestem os fi-
lhos quando fingem de enfermos, cegos, man-
cos, vesgos, etc. Além do fato de o corpo em
formação poder adquirir um mau hábito, há a
observar que os fados parecem comprazer-se
em levár a sério tais brincadeiras. E sei de vá-
rias pessoas que adoeceram em se esforçando
por parecer doentes. Sempre tive por hábito, a
pé ou a cavalo, usar bengala (ou bastão); era
uma questão de elegância e apoiava-me nessa
bengala, dando-me ares de gra-fino. Disse-
ram-me que desse modo o azar poderia fazer
um dia que o requinte se tornasse necessidade.
Seria em verdade o primeiro da família a sofrer
de gota!
Mas alonguemos esse capítulo com uma
referência à cegueira. Conta Plínio de alguém
que sonhou que era cego e acordou cego sem
jamais ter estado doente. O poder da imagina-
ção, como já o observei antes, pode influir
nisso, e Plínio parece dessa opinião. A meu ver
porém, foram os movimentos internos do
corpo causadores da cegueira — e os médicos
os explicarão se quiserem — que provocaram
o sonho. Acrescentemos, a propósito, a histó-
ria que nos conta Sêneca em uma de suas car-
tas. “Sabes”, diz a Lucílio, “que Hasparté, a
louca de minha mulher, me coube por herança;
houvera preferido que tal não ocorresse, pois
não aprecio monstros, tanto mais quanto para
rir de um louco não preciso ir muito longe,
320
posso rir de mim mesmo. Mas essa louca per-
deu repentinamente a vista. O que te conto
agora é espantoso, mas verdadeiro: ignora que
ficou cega e atormenta a pessoa encarregada
de tratá-la a fim de que a leve para fora, por-
que, diz, minha casa é demasiado escura. O
que nela se presta ao riso, é, acredita, o que
ocorre com todos nós; ninguém percebe que é
avarento ou invejoso. Só que os cegos pedem
um guia, ao passo que nós afundamos sozi-
nhos no erro. Não sou ambicioso — dizemos
— mas em Roma não se poderia viver de
outro modo; não me apraz o luxo, mas a cida-
de exige grande despesa; não é culpa minha se
MONTAIGNE
me zango, se não levo uma vida regrada; é
culpa da mocidade. Não procuremos nossos
males fora de nós; estão em nós, arraigados em
nossas entranhas; mas exatamente porque não
nos sentimos doentes, com maiores dificul-
dades nos curamos. Se não nos dispusermos
desde cedo a cuidar de nossas doenças, quando
acabaremos de pensar as nossas chagas, de
tratar de nossos males? E, no entanto, temos à
mão esse tão suave remédio da filosofia; dos
outros medicamentos só sentimos os efeitos
benéficos depois da cura; aquele é agradável e
eficiente a um tempo.” Eis o que diz Sêneca.
Isso arrastou-me longe do assunto, mas ganha-
mos na troca.
CapíTuLO XXVI
Dos polegares
Conta Tácito que entre certos reis bárbaros
os mais sagrados compromissos se assumem
Juntando as mãos direitas e entrelaçando os
polegares. Quando, pela pressão, o sangue
alcança a extremidade dos dedos, espetam-nos
e chupam-nos reciprocamente.
Dizem os médicos que os polegares são os
dedos essenciais das mãos e que a palavra de
que derivam significa em latim “forte, podero-
so”. Em grego o sentido do vocábulo por que
são designados é o de “outra mão”. E parece
que por vezes os latinos o empregaram no sen-
tido de mão inteira: “para erguer-se não preci-
sa de doces palavras nem ser incitada pelo
polegar *º 8”. Em Roma, os polegares voltados
para cima era sinal de aprovação: “teus parti-
dários te aplaudem levantando os polega-
res *8 8”, Ao contrário, o polegar voltado para
baixo era sinal de desfavor: “quando o povo
+85 Marcial. A citação é obscura, e não encon-
tramos comentário a respeito. (N. do T.)
+88 Horácio.
baixa o polegar é preciso, para lhe agradar,
que o gladiador seja morto ** 7”.
Os romanos excluíam dc exército quem
ferisse o polegar, considerando que não teria
força bastante para empunhar armas. Augusto
confiscou os bens de um cavaleiro romano que
decepara o polegar de seus filhos na primeira
infância, a fim de isentá-los do serviço militar.
Antes dele, o Senado, por ocasião das guerras
sociais, condenara Caio Vatieno à prisão per-
pétua e à confiscação dos bens, por haver
voluntariamente cortado o polegar da mão
esquerda com o objetivo de se esquivar à
guerra. ,
Alguém, cujo nome esqueço, tendo ganho
uma vitória naval, mandou decepar o polegar
de todos os prisioneiros para tirar-lhes a possi-
bilidade de lutarem e manejarem o remo. Os
atenienses fizeram o mesmo com os habitantes
de Egina para despojá-los da superioridade nas
artes marítimas.
Na Lacedemônia os professores puniam os
alunos mordendo-lhes o polegar.
487 Juvenal.
ENSAIOS — II 321
-CapíTULO XXVII
A covardia é mãe da crueldade
x
Ouvi dizer muitas vezes que a covardia é mais, nossa vingança é assim bem mais com-
mãe da crueldade e observei por experiência pleta, pois seu objetivo é sobretudo provocar o
como uma falsa e perversa coragem, impreg- ressentimento do inimigo; por isso mesmo não
nada de maus sentimentos e de inumanidade, atacamos um bicho ou uma pedra que nos
se une a certa fraqueza de alma bem feminina. ferem, incapazes que são de compreender um
Vi gente cruel ter a lágrima fácil a propósito de revide. Ora, matar um homem é pó-lo a salvo
coisas insignificantes. de nossas ofensas. Daí a observação de Bias a
Alexandre, tirano de Feres, não podia assis- um individuo mau: “sei que mais cedo ou mais
tir, no teatro, à representação de tragédias, de tarde pagarás, mas receio não o ver”; e tinha
medo que seus súditos o vissem enternecer-se pena dos habitantes de Orcômeno por se verifi-
com as desgraças de Hécuba'ou Andrômaca, car tarde demais a punição do traidor Licisco,
ele que impiedosamente mandava todos os pois já não havia então nenhum sobrevivente
dias torturar tanta gente com, requintes de interessado em assistir ao castigo. Lamentável
crueldade. Não será por pusilanimidade que é a vingança quando privada dos meios de
esses indivíduos passam assim de'um extremo fazer sofrer a vítima e alegrar o vingador. “Há
a outro? À valentia, que se exerçe somente de arrepender-se”, dizemos, mas uma bala de
contra o que lhe resiste, “só se compraz em pistola na cabeça fará que se arrependa? Ao
imolar um touro quando este se defende +88”, contrário, como que nos desafia, caindo; nem
susta o golpe se vê o inimigo à sua mercê; mas mesmo nos censura o gesto, o que está longe
a pusilanimidade, não tendo figurado neste pri- do arrependimento. Prestamos-lhe em suma o
meiro ato e querendo participar da festa, entra melhor serviço, o de uma morte rápida e indo-
em cena no segundo, o do massacre e do san- Jor. Temos de nos esconder, fugir à justiça,
gue. As carnificinas que se seguem às vitó- enquanto ele descansa. Matá-lo impede apenas
rias são obra em geral das massas incons- que nos ofenda de novo no futuro, mas não nos
cientes e dos que se ocupam das bagagens; do vinga da ofensa recebida; há nisso mais temor
que faz que presenciemos tantas e incríveis que bravura, mais previdência que vontade de
crueldades nas guerras Ce que participa o povo) castigar. É evidente que assim renunciamos ao
é o fato de a canalha, acostumada ao assassí- fim real da vingança e prejudicamos nossa
nio, se tornar cruel pelo hábito de chafurdar no | reputação; demonstramos tão-somente o re-
sangue e esquartejar cadáveres a seus pés, não ceio de que, vivo, renove o insulto. Não é con-
tendo outra concepção de valentia: “o lobo, o tra ele que agimos, é em nosso benefício.
urso, OS animais menos nobres encarniçam- se
contra os agonizantes *ºº?, assim os cães pol- nãonos seria de nenhuma utilidade. Nesse país
trões rasgam com os dentes, em casa, as peles os hômens de guerra e os artesãos resolvem
dos animais selvagens que não ousariam ata- suas divergências a golpes de espada. O rei
car em pleno campo. Por que em nossa época não rechsa a ninguém o direito de se bater;
as disputas sempre acarretam a morte? Por assiste mesmo aos duelos quando ocorrem
que começamos pelo fim, quando nossos pais entre pessoas de certa condição social, ofere-
dosavam suas vinganças? Já de início só fala- cendo uma corrente de ouro ao vencedor. Mas
mos em matar. Que significa isso se não quem quer que ambicione a corrente pode
medo? ; f medir-se com 6 dono, de modo que este, por
Ninguém ignora que há mais bravura em — ter vencido de uma feita, vê aumentar o núme-
vencer O inimigo do que em o exterminar; mais o de seus contendores.
em forçar a ceder do que em o matar. Ade- Se imaginássemos ser sempre superiores ao
488 Cláudio. inimigo em coragem e poder maltratá-lo à von-
48º Ovídio. tade, lamentariamos imenso que nos escapasse
o reino de Narsinga, essa maneira de agir
322
como o faz morrendo. Queremos vencer, mas
antes com a certeza do êxito do que de um
modo honroso; buscamos o resultado e não a
glória.
Asínio Pólio cometeu erro semelhante,
pouco desculpável em um homem de honra.
Escrevera uma diatribe contra Planco e aguar-
dava a morte deste para a publicar. Em vez de
correr o risco do ressentimento que ia provo-
car, era como se desafiasse um cego com ges-
tos indecorosos ou um surdo com palavras
ofensivas, ou ainda como se violentasse uma
pessoa desfalecida. Daí lhe dizerem que “cabia
aos gnomos lutar contra os mortos”. Quem
aguarda a morte de um autor para criticar-lhe
a obra demonstra que é fraco e vil. Comuni-
caram a Aristóteles que alguém falara mal
dele: “Que faça mais ainda, respondeu, que me
açoite conquanto eu não esteja presente.”
Nossos pais contentavam-se com responder
à injúria com um desmentido, e a um desmen-
tido com pancadas, e assim por diante; eram
bastante valentes para não temer o adversário
vivo; nós, trememos de pavor enquanto o
vemos em pé. Nossa conduta atual leva-nos a
buscar a morte de quem ofendemos da mesma
forma que buscamos a de quem nos ofende.
Igualmente, por covardia, introduzimos o há-
bito de nos fazer acompanhar de dois, três e
até quatro companheiros. Outrora tais encon-
tros eram duelos, hoje são verdadeiras bata-
lhas. Quem primeiro inventou esse método,
receava ficar entregue a si mesmo: “todos
desconfiavam de si? e, em verdade, diante do
perigo a companhia reconforta e encoraja.
Outrora, só se recorria a terceiros como teste-
munhas de que não haveria atos de desleal-
dade, mas pouco a pouco tornou-se comum
participarem do duelo as testemunhas, pois
quem é convidado não pode decentemente per-
manecer simples espectador, de medo que o ta-
A
MONTAIGNE
|
!
vantagens são obtidas em combate, lícitas se
fazem. A disparidade e a desigualdade somen-
te antes do duelo são objeto de ponderação;
quanto ao resto, há que confiar na. sorte; se
somos três contra três, ou se dois compa-
nheiros morrem e os três adversários se unem
contra o último, não há como protestar, do
mesmo modo que na guerra não cabe protesto
contra quem auxilia o companheiro atacando
o adversário com o qual se degladia.
Quando grupos se enfrentam como ocorreu
quando o Duque de Orléans desafiou o rei da
Inglaterra propondo-lhe que lutassem cem
contra cem; ou como fizeram os argianos em
número de trezentos contra trezentos lacede-
mônios; ou ainda os três Horácios contra os
três Curiácios, considera-se o conjunto do
grupo como um só homem, e onde quer que
ajam coletivamente, imprevisíveis são as pro-
babilidades, imputando-se ao acaso, em gran-
de parte, o resultado.
Tenho exemplos domésticos de semelhantes
casos. Meu irmão, Sr. de Matecoulon, foi con-
vidado em Roma a servir de segundo a um
fidalgo que não conhecia e fora desafiado por
outro. E aconteceu-lhe ter que se defrontar
com alguém que era seu vizinho e que ele
conhecia melhor. Quisera que se condenassem
tais leis de honra que tão amiúde vão de
encontro à razão! Depois de liquidar seu
adversário, teve meu irmão que correr em
auxílio: do companheiro, o que não podia dei-
xar de fazer, pois como ficaria impassível
enquanto o combate continuava indeciso? De
que houvera servido sua colaboração? A cor-
tesiá que cumpre demonstrar ao adversário em
má situação, não há como levar em conta
quando se é o segundo de outra pessoa, pois
fora injusto então abandoná-la. E meu irmão
* só se livrou da prisão na Itália graças a uma
imediata e calorosa intervenção de nosso
chem de covarde ou insensível. Além do que” monarca. Estranho povo, o nosso! Não nos
há de iníquo e desonesto em pedir auxílio para
defender a própria honra, e apoiar-se na força
e na desteridade de outrem, acho desvantajoso
para um homem de bem, e seguro de si » Jigar
sua sorte à de outros. Já corre cada qual fiscos
suficientes por si mesmo, sem que Sa
correr por outros; e já tem o
para assegurar sua própria coragem! na defesa
de sua vida sem arriscar coisa de'tão grande
valor em benefício de terceiros. /Pois, efetiva-
mente, a menos de se haver convencionado
regra diversa, no caso de se eliminar um segun-
do, achamo-nos com dois àdversários pela
frente. É evidente que se trata de um abuso,
como o serã atacar com espada perfeita a
quem só tenha um pedaço da sua, ou alguém
intato Jjogar-se contra um ferido; mas se tais
contentamos com a reputação que se espalha,
pelo mundo, de nossos vícios e loucuras, .
vamos
Coloquem- se três franceses no Deserto da
Líbia, não passará um mês sem que se ponham
a brigar. Dir-se-ia que essas viagens longin-
quas fazem parte de um plano concebido para
dar aos estrangeiros o espetáculo de nossas
tragédias e um pretexto para que zombem de
nós. Vamos aprender a esgrima na Itália e a
pomos em prática com perigo de vida antes de
saber lidar com uma espada, quando deve-
riamos primeiramente conhecer a teoria:
“Miíseras primícias de uma coragem juvenil,
funesto aprendizado de uma guerra iiminen-
fe
380 Virgílio.
ainda com rová-la no estrangeiro.
x
ENSAIOS — II
Bem sei que se trata de uma arte muito útil
em seu objetivo. Tito Lívio conta-nos qué na
Espanha, em um duelo entre dois príncipes, O
mais velho, com sua habilidade e técnica, ven-
ceu facilmente o mais jovem, muito mais vigo-
roso. É uma arte que, como observei, amplia a
valentia de alguns, mas não se poderá taxá-la
de coragem, porquanto decorre da destreza e
não é uma qualidade em si. À honra no com-
bate consiste em apelar para o caráter e não
para a habilidade. Por isso um de meus ami-
gos, muito forte na esgrima, escolhia, quando
tinha que defender a honra, as armas que não
lhe dessem vantagem, pois não queria que atri-
buíssem sua vitória à sua superioridade mais
do que ao seu valor real. Na minha infância a
nobreza considerava degradante a reputação
de perito em tal arte. Esta só se exercia, aliás,
às escondidas, como ofício de duvidosa lealda-
de, mal adequado à coragem verdadeira e
natural: “Não querem esquivar, nem bloquear,
nem recuar; a destreza não conta; não há fin-
tas, golpes retos ou oblíquos; sua cólera não
tolera a arte. Escutai o choque terrível das
espadas, ferro contra ferro; não recuam um só
passo, seus pés permanecem imóveis e suas
mãos não param nunca: golpes de ponta cer-
tos, e de lâmina em cheio 41.”
Os exercícios de arcabuzes e de arco, os tor-
neios, as justas e as batalhas simuladas consti-
tufam o passatempo de-nossos pais; o da esgri-
ma é tanto menos nobre quanto visa apenas a
um objetivo individual e ensina a matarmo-nos
em desobediência às leis e à justiça. Por isso,
de todos os pontos de vista é desastroso. Mais
digno e melhor seria praticar os exercícios
suscetíveis de assegurar a execução da lei e
salvaguardar a nossa indepeiidência e a nossa
glória.
O Cônsul Públio Rútilo foi o primeiro a
ensinar o soldado a manejar suas armas com
habilidade e ciência; juntou assim a arte à
coragem, hão em vista de dissenções pessoais
mas com o fim de defender o povo romano.
Era pois uma esgrima popular e civil. Além do
exemplo de César, recomendando aos seus que
ferissem principalmente no rosto os soldados
de Pompeu, numerosos outros chefes introdu=
ziram, segundo as necessidades do momento,
modificações nas formas das armas e no modo
de empregá-las na defesa e no ataque.
Filopêmen proibiu a luta, exercício em que
era excelente, porque o necessário treinamento
era incompatível com Os princípios da disci-
plina militar, pelos quais, a seu ver, deviam ser
formados os homens de honra e nos quais
491 Tasso.
323
cumpria que empregassem o seu tempo. Pare-
ce-me também que essa desteridade que se pro-
cura dar ao corpo, na nova escola, essas fintas,
paradas e respostas, em lugar de úteis, são
préjudiciais na guerra. Verifiquei mesmo que
naô se achava conveniente que um jovem desa-
fiadô para um duelo de espada e punhal se
apresefitasse em costume de guerra, como
inconveniente seria que se propusesse bater-se
de capa é espada. E de se notar que Lachez,
em Platão, referindo-se ao ensino da esgrima
tal qual o praticamos, diz nunca ter visto essa
escola produzir um grande homem de guerra, e
que o eram menos ainda os mestres, o que
nossa experiência confirma. Aliás não há
nenhuma relação entre talentos de ordem tão
diversa. Na educação que Platão prevê para os
jovens de sua República, proíbe os exercícios
de pugilismo, introduzidos por Amico e Epeu,
bem como os de luta, que recomendavam
Anteu e Cércion, pois achava que não torna-
vam a juventude apta para o combate. Eis-me,
porém, longe de meu assunto.
O Imperador Maurício, advertido por so-
nhos e prognósticos que um certo Focas, sol-
dado desconhecido, deveria assassiná-lo, inda-
gou de seu genro Filipe quem era esse
individuo. Tendo-lhe respondido Filipe, entre
outras coisas, que se tratava de um pusilânime
e um covarde, deduziu o imperador que devia
ter inclinação para o crime e a crueldade.
O que toma os tiranos tão sanguinários é a
preocupação com a própria segurança. A
covardia que trazem no coração não lhes suge-
re outras medidas de salvaguarda senão exter-
minar os que os podem ofender, mulheres
inclusive, incapazes de um arranhão: “tudo
abate porque tudo teme“º2”?. As primeiras
crueldades cometem-se espontaneamente;
delas nasce o temor de umia justa vingança, o
que provoca toda uma teoria de novas cruelda-
“des: Filipe, rei da Macedônia, que tantas difi-
culdades teve com Roma, sentindo-se inquieto
com as numerosas mortes que ordenara e não
podendo dominar o medo que lhe inspiravam
todas as famílias por ele ofendidas em diversas
épocas, resolveu apoderar-se dos filhos de
todos os que mandara matar a fim de assegu-
rar sua própria tranquilidade, desfazendo-se
deles uns após outros.
Os bons assuntos agitam-se em qualquer
lugar. Eu, que mais me preocupo com o alcan-
ce e o interesse de meus comentários do que
com a ordem é a lógica da apresentação, não
hesito em incluir aqui uma bela história, pois,
quando valem realmente a pena, arrasto-as até
pelos cabelos.
*82 Cláudio. j
324
Entre as vitimas de Filipe, figurava um tai
Heródico, príncipe da Tessália; posteriormente
mandara ele executar os dois genros de Heró-
dico, os quais deixaram viúvas Teoxena e
Arco, cada qual com uma criança. Teoxena,
embora muito solicitada, não quis tornar a
casar-se. Arco desposou Pório, muito conside-
tado entre os ênios e do qual teve numerosos
filhos, todos pequenos ainda quando veio a
falecer. Teoxena, instigada pelo amor maternal
que dedicava aos sobrinhos, casou com Pório,
a fim de melhor cuidar das crianças. Foi quan-
do se publicou o edito do rei determinando que
lhe fossem entregues os filhos dos que conde-
nara. Teoxena, mãe corajosa, desconfiando da
crueldade de Filipe, e temerosa das violências
de seus apaniguados, ousou declarar que mata-
ria OS jovens com suas próprias mãos se força-
da a perdê-los. Pório, apavorado com seme-
lhantes palavras, prometeu-lhe raptá-los e
levá-los para Atenas onde os deixaria com pes-
soas de sua confiança. Aproveitando a oportu-
nidade da festa anual que se celebrava em
honra de Enéias, assim procedeu. Assistiu
durante o dia às cerimônias, tomou parte no
banquete público, e, à noite, embarcou em um
navio que já se achava: pronto para zarpar.
Mas os ventos eram desfavoráveis. E, achan-
do-se ainda no dia seguinte à vista das costas,
deram-lhe caça os guardas do porto. Estavam
sendo quase alcançados e Pório estimulava os
marinheiros a se apressarem quando Teoxena,
excitada pelo seu amor e seu desejo de vingan-
ça, preparou armas e veneno, entregando-os
aos jovens e dizendo: “Vamos, meus filhos, a
morte é agora o único meio de defender vossa
liberdade; os deuses nos julgarão em sua santa
Justiça; nestas espadas e nestas taças cheias
estã a vossa liberdade; tende coragem. Tu,
filho, que és o mais velho, toma esta lâmina
para morreres de morte nobre.” Acossados de
um lado por tão intrépida conselheira e do
outro pelos inimigos, precipitaram-se eles
sobre as armas a seu alcance e semimortos
foram jogados ao mar. Teoxena, orgulhosa por
ter gloriosamente assegurado a liberdade dos
filhos, abraçou então o marido e disse:
“Sigamos o mesmo caminho, amigo, escolha-
mos a mesma sepultura”. E estreitamente uni-
dos mergulharam nas águas, voltando o barco
ao porto sem os seus senhores.
Os tiranos esforçavam-se por prolongar a
morte que infligiam, com o duplo objetivo de
matar o adversário e fazer-lhe sentir os efeitos
de sua cólera. Queriam que os inimigos não
perecessem rapidamente e lhes permitissem
saborear a vingança. Era-lhes dificil consegui-
lo, pois as torturas excessivas não duram
muito. Se duravam, não lhes pareciam sufi-
MONTAIGNE
|
]
!
cientemente dolorosas. Dai os engenhosos
suplícios da antiguidade, alguns dos quais
ainda conservamos.
Tudo o que ultrapassa a morte pura e sim-
ples se me afigura cruel. Nossa justiça não
pode esperar que se amedronte ante a morte
pelo fogo ou a tortura, e deixe de cometer cri-
mes, quem os comete apesar da ameça da
forca e da decapitação. Ademais, suspeito que
estejamos instigando ao desespero aqueles a
quem infligimos tais suplícios, pois em que es-
tado de alma pode achar-se um homem que
permanece vinte e quatro horas sobre uma
roda, membros partidos, ou pregado a uma
cruz como outrora? Conta José que, durante
as guerras dos romanos na Judéia, deparou em
certo lugar com três judeus crucificados; eram
seus amigos € conseguiu que os agraciassem
ao fim de três dias. Dois morreram.
Calcôndilo, que deixou memórias dignas de
fé acerca dos acontecimentos de seu tempo,
conta que o Imperador Maomé aplicava não
raro esse horrível suplício de cortar os homens
em dois com um só golpe de cimitarra dado no
meio do corpo, acima das ancas, o que fazia
que morressem, por assim dizer, de duas mor-
tes concomitantes. Viam-se os dois pedaços
ainda com vida agitarem-se durante muito
tempo sob a ação da dor. Não creio entretanto
que esse suplício devesse provocar grandes
sofrimentos. Nem sempre os mais horríveis
são os mais dolorosos e acho muito mais atroz
o que, segundo outros historiadores, tiveram
de suportar alguns senhores que o mesmo
Maomé mandou esfolar vivos, ordenando, com
requintes de crueldade, que a operação fosse
conduzida de modo a prolongar-se por quinze
dias.
Creso mandou prender um fidalgo, favorito
de seu irmão Pantaleão, e conduzir a uma ofi-
cina de pisoeiro onde foi raspado e escardu-
çado até morrer. Jorge Sechel, chefe desses
camponeses da Polônia que a pretexto de reali-
zar uma cruzada tantos estragos praticaram,
foi vencido em um combate pelo vcivoda de
Transilvânia. Durante três dias permaneceu
nu, amarrado a um cavalete é exposto aos tor-
neios que inventavam os espectadores. En-
quanto isso, vários outros prisioneiros eram
submetidos a rigoroso jejum. Depois do que, e
estando ele ainda vivo, deram de beber seu
sangue a seu irmão querido, para o qual não
cessava Sechel de implorar graça, assúmindo
toda a responsabilidade dos sucessos. Em
seguida, ofereceram sua came a vinte de seus
chefes prediletos, os quais lha arrancaram a
dentadas. Finalmente, em morrendo, coze-
ram-lhe as entranhas e os restos e distribuíram
aos seus companheiros.
ENSAIOS — II 325
CapítuLO XXVIII
Cada coisa a seu tempo
Os que comparam Catão, o Censor, a
Catãc, o Jovem, comparam duas grarides natu-
rezas e em parte semelhantes. O primeiro reve-
lou a sua em feitos de armas e atividades de
interesse público. Mas a virtude do outro foi
mais pura e seria uma blasfêmia considerar
qualquer outra igual. Quem ousaria, com efei-
to, isentar o censor do pecado de inveja e
ambição quando atacou a honra de Cipião, o
qual pela bondade e demais virtudes lhe era
muito superior, bem como aos outros de seu
tempo?
O que dizem do censor, que na' extrema
velhice resolveu aprender o grego com entu-
siasmo, a fim de satisfazer um desejo antigo,
não o considero digno de elogios. A isso cha-
mamos voltar à infância, pois cada coisa tem
seu tempo, as boas e as más. Pode mesmo
ocorrer que uma prece seja dita em momento
inoportuno como aconteceu com Flamínio, o
qual, na hora da batalha, se afastou para orar
a Deus: “o próprio sábio estabeleceu limites à
sua virtude *º3?.
Vendo Eudemônidas que o velho Xenó-
crates corria à sua aula, disse: “como poderá
esse homem saber se aprende ou não?” Filopê-
men, ouvindo elogiarem o Rei Ptolomeu por se
exercitar diariamente no manejo das armas,
observou: “não há como louvar um rei dessa
idade por se entregar a exercícios que não
saberá pôr em prática oportunamente”. O
homem jovem, dizem os sábios, deve prepa-
rar-se, o velho gozar o fruto do preparo. E
nossa maior fraqueza está em que nossos dese-
jos se renovam sem cessar e sem cessar reco-
meçamos a vida.
Nossos estudos e desejos deveriam por
vezes aperceber-se da velhice; já temos o pé no
túmulo e nossos apetites e aspirações mal aca-
bam de nascer: “as vésperas de morrer mandas
talhar o mârmore, construir casas, quando
deverias pensar no cemitério *º *?. O mais re-
moto dos meus projetos não exije mais de um
“93 Juvenal.
“84 Horácio.
ano para a sua execução. Penso somente em
meu fim, e desfaço-me de toda nova esperança,
bem como evito novos empreendimentos. Dou
um adeus definitivo aos lugares que deixo e
diariamente alieno algo do que possuo: “há
muito não perco nem ganho... não me res-
tam provisões mais do que as necessárias para
o caminho que tenho a seguir *º 82. “Vivi; cum-
pri a tarefa que o destino me determinou *º 8.”
Enfim, a velhice dá-me o alívio de entorpe-
cer em mim desejos e preocupações que en-
chem a vida, referentes aos negócios, às rique-
zas e glórias, ao saber, à saúde e a mim
mesmo. Há quem aprende a falar no momento
em que deveria aprender a calar para sempre.
Pode-se prolongar indefinidamente o periodo
de estudos, mas não o da escolaridade. Nada
mais ridículo do que um velho soletrando:
“para condições diferentes, coisas diversas;
cada idade tem suas necessidades pró-
prias tt
Se queremos estudar, estudemos algo ade-
quado à nossa condição, a fim de responder
“como aquele a quem perguntavam por que
estudava se já estava decrépito: “para partir
melhor e com mais sossego”.
Assim fez Catão, o Jovem, às vesperas de
morrer, entregando-se à leitura de Platão acer-
ca da imortalidade da alma. Não porque não
tivesse previsto o necessário para a viagem.
Resolução, segurança, conhecimentos, pos-
suía-os mais do que Platão pusera em seus
livros; seu saber e sua coragem eram a esse
respeito superiores ao que propugna a filoso-
fia. Não escolheu essa obra, portanto, em vista
da morte; como alguém cuja resolução, por
importante que seja, não interrompe sequer o
sono; e não modificava seus estudos como não
mudava sua maneira habitual de viver. À noite
em que lhe negaram o cargo de pretor, pas-
sou-a a jogar; a de sua morte empregou-a na
leitura; perder o cargo e perder a vida tinham
para ele a mesma importância.
495 Sêneca.
496 Virgílio.
497 Pseudo-Galo.
326
MONTAIGNE
CAPÍTULO XXIX
Da virtude
Mostra-me a experiência que vai grande
diferença entre as súbitas determinações da
alma e sua conduta habitual. Bem vejo que
nada nos é vedado, nem mesmo ultrapassar a
própria divindade, disse alguém; há maior mé-
rito, por exemplo, em ser impassível por força
de vontade do que por tendência natural.
Conseguimos mesmo, embora ocasionalmente,
Juntar à fraqueza humana a resolução e a segu-
rança divinas. Na vida desses heróis do passa-
do, observam-se às vezes ações prodigiosas,
que parecem exceder de muito as nossas for-
ças; mas trata-se em verdade de feitos passa-
geiros, e não podemos conceber que suas
almas se tivessem impregnado de idéias tão
elevadas a ponto de se lhes tornarem inerentes.
Acontece-nos, a nós mesmos, miseráveis abor-
tos humanos, ter por vezes a alma despertada
por palavras e exemplos e transportada bem
acima de seu clima normal. É, porém, uma
espécie de paixão que a impele e agita, e a pro-
jeta fora de si. Passado o tufão, vemo-la que,
sem sequer o perceber, se acalma e relaxa,
senão até o fim, ao menos até voltar ao estado
anterior. E bastará então um incidente qual-
quer, um copo quebrado, por exemplo, para
que nos comovamos como um homem comum.
Salvo a ordem, a moderação e a constância,
tudo estã ao alcance do homem, mesmo o
menos capaz. Por isso dizem os sábios que
para julgar honestamente um homem é essen-
cial examiná-lo em seus atos cotidianos.
Pirro, que erigiu a ignorância em ciência,
tentou, como todos os filósofos realmente dig-
nos desse nome, adaptar sua vida à sua doutri-
na. Considerando seu julgamento, em razão de
sua fraqueza, incapaz de tomar partido, queria
que se mantivesse sempre em suspenso, hesi-
tando e encarando todas as coisas com indife-
rença. Por isso, dizem, tudo fazia de igual
modo e com a mesma fisionomia. Se princi-
piava a contar algo ia até o fim ainda que o
interlocutor se despedisse; se andava, não mu-
dava de direção, qualquer que fosse, e era pre-
cisa a intervenção de seus amigos para que
não rolasse por precipícios ou se chocasse con-
tra obstáculos. Temer ou evitar alguma coisa
grá, com efeito, contrário a seus princípios, os
quais não reconheciam em nossos sentidos
capacidade de escolha e de decisão. Ocorreu-
lhe diversas vezes suportar incisões e cauteri-
zações sem sequer piscar. Ora, uma coisa é
fazer que a alma aceite tais idéias e outra pô-
las em prática, o que não é contudo impossi-
vel. Mas praticá-las com tal constância que ve-
nham a integrar-se em nossa natureza, de que
tanto se afastam, não é de crer se verifique. Eis
por que, sendo visto a disputar com a irmã,
diante da objeção de que assim saia fora de
sua linha de conduta, exclamou: “Será preciso
que essa mulherzinha seja também chamada a
dar seu testemunho acerca de minha doutri-
na?” De outra feita, sendo visto a defender-se
contra um cão, observou: “é muito dificil
despojarmo-nos por completo da natureza
humana; é pelos atos que primeiramente nos
defendemos contra o que nos ameaça; a razão
e a fatalidade só em seguida intervêm”.
Há cerca de sete ou oito anos, um aldeão,
que ainda vive, cansado das cenas de ciúme
que lhe fazia a mulher, foi acolhido ao voltar
do trabalho pela saraivada habitual de recrimi-
nações. Louco de raiva, com a foice que trazia
à mão, decepou as partes do corpo que tanto
agitavam sua mulher e jogou-lhas à cara. Con-
ta-se também que um fidalgo amoroso e bem-
apessoado, tendo com sua perseverança sedu-
zido uma linda menina, se viu na hora da
posse inteiramente inibido. No seu desespero,
de volta a casa, cortou-o pênis e enviou à san-
grenta vítima à sua bela, como reparação pela
ofensa que lhe fizera. “Sentira-se desonrado,
pois seu membro mal erguera a cabeça
senil*º8” Que diriamos de feito tão altivo se
praticado refletidamente e por motivo de
ordem religiosa como fazem os sacerdotes de
Cibele? |
Há tempos, em Bergerac, a seis léguas de
minha residência, subindo o Dordogne, uma
mulher que fora batida pelo marido na véspe-
ra, resolveu fugir à sua brutalidade sacrifi-
cando a vida. Ao levantar-se, encontrando
tomo de costume suas vizinhas, disse-lhes
algumas palavras de recomendação e tomando
a mão da irmã menor dirigiu-se à ponte. Aí
disse-lhe adeus, como a brincar, e sem de-
498 Tibulo.
ENSAIOS — II
monstrar o menor nervosismo precipitou-se no
rio, desaparecendo. O que o fato revela de
especial está em que amadurecera o projeto
durante uma noite inteira. K
Muito mais fazem as mulheres indianas. E
costume, nas Índias, terem os homens várias
mulheres e a preferida matar-se por ocasião da
morte do marido; todavia, esforçam-se todas
por alcançar tal privilégio; e os cuidados e
carinhos que têm para com o marido visam
principalmente a conquistar-lhe a preferência a
fim de acompanhá-lo na morte: “logo que a
tocha mortifera põe fogo no último leito do
defunto, as esposas, desgrenhadas, disputam
entre si a honra de morrer com ele, pois sobre-
viver é humilhante para elas. A vencedora lan-
ça-se às chamas e com os lábios ardentes beija,
agonizante, os restos do esposo **ºº?.
Conta-nos alguém ter visto, ainda em nos-
sos dias, praticarem esse costume no Oriente.
E não somente as mulheres acompanham o
homem na morte, mas também as escravas que
O tiveram por amante. Assim procedem: morto
o marido, pode a viúva (mas raramente o faz)
pedir dois ou três meses de prazo para pôr em
ordem seus negócios. No dia marcado, chega a
cavalo e vestida como para um casamento,
rosto alegre e trazendo à mão esquerda um
espelho e à direita uma flecha, para, como diz,
“dormir com seu marido”. Acompanhada de
seus parentes, amigos, e verdadeira e jovial
multidão, passeia um pouco € se encaminha
em seguida para o lugar reservado a esse gêne-
ro de espetáculos. É uma praça bastante
ampla: no centro um fosso cheio de lenha e ao
lado um estrado de quatro ou cinco degraus.
Servem-lhe ali magnífica refeição; depois da
qual põe-se ela a dançar e a cantar. E, quando
julga chegado o momento, manda acenderem a
fogueira. Isto feito, desce e, pegando. pela mão
-==0- parente- mais-próximo do marido, vai com ele
até o rio vizinho, onde se despoja de suas vesti-
mentas que distribui, bem como as jóias, a
seus amigos. Nua, lava-se então dos pecados.
Ao sair da água envolve-se em uma peça de te-
cido amarelo de quatorze braças de compri-
mento, e, tomando novamente a mão do paren-
te, retorna ao estrado de onde fala à multidão
para lhe recomendar os filhos, se os tem. Em
geral, entre a fogueira e o estrado estendem
uma cortina, a fim de esconder aos olhos da vi-
tima o fogo abrasador. Muitas recusam-na
para provar suáã coragem. Depois que ela diz o
que tem a dizer, uma mulher apresenta-lhe um
vaso de óleo com o qual ela unta a cabeça e o
corpo; ao terminar joga ao fogo as sobras e
precipita-se ao mesmo tempo na fogueira,
“98 propércio.
327
vivamente atiçada, então, pelo povo, para que
não se prolonguem os sofrimentos da esposa.
E a alegria de antes transforma-se em tristeza e
luto. Se se trata de pessoas menos importantes,
o corpo do morto é levado para o lugar onde
deve ser enterrado; aí o colocam sentado, e a
mulher, de joelhos à sua frente, abraça-o forte-
mente, assim se mantendo enquanto erguem
um muro em volta de ambos. Quando esse
muro alcança os ombros da mulher, um de
seus parentes pega-a por trás pelos cabelos, e
torce-lhe o pescoço. E logo que exala o último
suspiro acabam de edificar o muro e fechar o
túmulo.
Nesse mesmo país, os filósofos da seita dos
gimnossofistas procediam de igual modo, em-
bora não fossem obrigados nem decorresse sua
resolução de alguma exaltação ocasional.
Faziam-no porque essa era sua regra de con-
duta. Quando atingiam certa idade e se viam
ameaçados de alguma doença, mandavam er-
guer uma fogueira acima da qual colocavam
um leito suntuosamente adornado. Em segui-
da, após alegres festejos com os amigos e
conhecidos, deitavam-se no leito com tamanha
resolução que não mexiam sequer os pés ou as
mãos. Assim morreu um deles, Calanus, diante
do exército de Alexandre. Esses filósofos
consideravam que não poderia ser santo ou
bem-aventurado quem assim não morresse,
entregando a Deus a alma purificada pelo
fogo, depois do aniquilamento do que tinha de
mortal e terreno. O que há de prodigioso nesse
ato é que durante toda a vida constituía o obje-
to de uma constante meditação.
Entre as questões que nos dividem figura a
da fatalidade, segundo a qual para subordinar
as coisas futuras e nossa própria vontade a
certa necessidade inelutável, ressuscita-se este
velho argumento: “Se Deus tudo previu, como
o previu sem dúvida, o que acontece tem de
acontecer.” Ao que respondem os nossos dou-
tores: “Constatar que uma coisa acontece,
como o fazemos e Deus o faz igualmente (pois,
presente em toda parte, antes vê do que prevê),
nao significa obrigar essa coisa a acontecer;
se vemos é porque as coisas são; mas não são
porque as vemos; o acontecimento faz que o
constatemos, e não é a constatação que provo-
ca o acontecimento: o que vemos ocorrer em
verdade ocorre, mas poderia ocorrer de outro
modo.
“E Deus que tem a presciência das causas
que produzêm os acontecimentos, tem igual-
mente a das causas ditas fortuitas, bem como a
presciência das que dependem de nossa vonta-
de em virtude do livre arbítrio que nos outor-
gou; sabe que faltamos ao nosso dever porque
queremos faltar.”
328
Vi muitas pessoas encorajarem seus partidá-
rios recorrendo ao dogma seguinte: “se nossa
hora deve chegar, nem os arcabuzes do inimi-
go, nem nossa temeridade, nem nossa covar-
dia, poderão adiantá-la ou retardá-la”. Fácil
de dizer, mas indagai quem o segue. Se uma fé
viva e forte provoca ações impregnadas de
idênticas qualidades, essa nossa fé que não
cessamos de proclamar neste século, deve ser
incrivelmente fraca, a julgar pelos resultados, a
menos que ela os despreze a ponto de evitá-los.
A esse respeito, lemos em Joinville, testemu-
nha digna de crédito, que os beduinos, que se
misturavam aos sarracenos quando o Rei São
Luís andou pela Terra Santa, acreditavam tão
firmemente que os dias de cada um são deter-
minados e contados, para todo o sempre sem
que seja possível escapar ao destino, que iam
para a guerra completamente nus, simples-
mente com uma cimitarra e um pedaço de
pano branco à cintura. Sua maior injúria,
quando se zangam, é “maldito sejas, como
maldito é quem se arma de medo de morrer”.
Eis uma prova de fé bem maior do que as nos-
sas: À que outrora deram dois monges de Flo-
rença é da mesma ordem: como tinham opi-
niões contrárias a respeito de dado ponto da
ciência, combinaram entregar a solução à
Providência e entrar ambos numa fogueira
acesa na praça pública. Já tudo se achava pre-
parado e iam passar à prova quando se verifi-
cou um incidente que a interrompeu.
Um jovem senhor turco se assinalara por
um feito de armas perpetrado diante dos exér-
citos de Amurat e Hunyadi e que os levara a se
engalfinharem. Tendo-lhe perguntado Amurat
a que devia, tão jovem e inexperiente, o vigor €
a coragem que demonstrara, respondeu que
sua valentia ele a aprendera com um professor
excepcional: uma lebre. “De uma feita, caçan-
do, vi uma lebre em seu covil. Embora tivesse
comigo dois excelentes cães, como se apresen-
tasse de um ângulo muito favorável, preferi,
para não perdê-la, atirar com meu arco. Arre-
messei então uma primeira flecha, e logo
outra, e assim fiz das quarenta que tinha em
minha aljava, não somente sem a atingir mas
sem sequer a despertar. Lancei os cães. Não
cónseguiram tampouco pegá-la. Compreendi
então que estava sob a proteção do destino,
que nem as flechas, nem as espadas acertam
quando a fatalidade não quer e que não pode-
mos nem avançar nem retardar sua decisão.” —
Esta história deve também servir para nos
mostrar a que ponto somos sensíveis às mais
diversas impressões. Certo personagem consi-
derável, tanto pela idade como pelo nome, as
honrarias e as opiniões, vangloriava-se de ter
sido levado a modificar sua fé em virtude de
MONTAIGNE |
um fato, na minha opinião relacionado apenas
indiretamente com o assunto e tão extrava-
gante quanto o do nosso jovem turco. Fato,
aliás, suscetível, a meu ver, de levar a conclu-
são contrária. Ele, entretanto, qualificava-o de
milagre, e eu também, mas em outro sentido.
Acham os historiadores turcos que a persua-
são em que estão os seus de uma duração
predeterminada da vida auxilia-os de maneira
sensivel na atitude diante do perigo. Conheço
um grande príncipe que tira partido dessa
crença, ou por ter realmente fé ou por invocá-
la apenas para explicar modestamente sua
temeridade. Oxalá os fados não se cansem de
protegê-lo.
Não creio que haja exemplo mais compro-
batório de resolução firme do que o desses dois
homens que atentaram contra a vida do Prin-
cipe de Orange. E mais admirável ainda quan-
to ao segundo, o que teve êxito, que: revelou
tamanha decisão, embora a coisa tivesse dado
mau resultado com o primeiro, o qual, entre-
tanto, tomara todas as precauções possíveis.
Tratava-se efetivamente de agir com as mes-
mas armas, após um precedente desastroso.
Contra um homem prevenido, de grande força
fisica, protegido por amigos dedicados, e que
se encontrava em sua casa entre os seus guar-
das, em uma cidade de sua confiança. Por
certo, para perpetrar o assassínio foi neces-
sário mão firme, além de uma coragem inspi-
rada em violenta paixão. O punhal é mais se-
guro do que a pistola, mas exige braço mais
vigoroso e vivacidade, e comporta maiores ris-
cos. Estou convencido de que esse segundo
assassino não ignorava que corria a uma
morte certa, pois somente um espírito fraco
poderia alimentar quaisquer esperanças, e a
-maneira por que se houve bem mostra que não
carecia de inteligência e coragem. As razões de
“tal segurançassão- complexas; nossa -imagina-...
“ção fazendo dela, e de nós, o que bem entende.
O atentado cometido perto de Orléans não
se assemelha ao precedente. O êxito é imputá-
vel ao acaso mais do que à resolução. O golpe
não fora mortal se não o quisesse o destino.
Atirar de longe, a cavalo, contra alguém igual-
mente montado e movimentando-se com a
montaria, mais demonstra a preocupação de
fugir do que a de acertar no alvo. O que acon-
teceu em seguida comprovou-o. O assassino
ficou tão perturbado com a idéia de ter aten-
tado contra tão alto personagem, que perdeu a
cabeça. Para fugir, bastava-lhe atravessar o rio
e juntar-se a seus amigos. Ja fiz mais de uma
vez coisa análoga para fugir a perigos menores
e julgo que o risco não é grande, por mais
largo que seja o caudal, desde que o cavalo
possa entrar facilmente na água e que do outro
ENSAIOS — II 329
lado exista um ponto onde abordar. Quando
comunicaram ao assassino do Príncipe de
Orange o terrível castigo que o aguardava,
disse apenas: “esperava-o € hei de mostrar-vos
que saberei suportá-lo”.
Os assassinos, tribo da Fenícia, gozam entre
os maometanos a reputação de ser devotos e
castos. Consideram que o caminho mais curto
para o paraíso consiste em matar alguém de
outra religião. Atacam não raro sozinhos, ou a
dois, e vestidos sumariamente, inimigos pode-
rosos. Sabem que perderão a vida e não
tomam precaução de espécie alguma. Assim
foi assassinado (daí o nome da tribo) em sua
cidade, durante as Guerras Santas, Raymond,
conde de Trípoli. E também Conrado de Mont-
ferrat. Os assassinos mostravam-se orgulhosos
de ter realizado tão bela obra.
CAPÍTULO XXX
A propósito de uma criança monstruosa
Restrinjo-me ao simples enunciado de um
fato, deixando aos médicos o comentário: vi
ontem um menino que dois homens e uma
mulher, os quais diziam ser seu pai, seu tio e
sua tia, pretendiam exibir para ganhar alguns
soldos. Esse menino que tinha exatamente qua-
torze meses, apresentava aspecto normal.
Sustentava-se sobre os pés, andava e balbu-
ciava como qualquer criança da mesma idade;
seus gritos, entretanto, pareciam revelar algo
particular e, até então, nada pudera tomar em
matériã de alimento, a não ser o leite da ama.
O que lhe punham na boca (fizeram-no diante
de mim), mastigava um pouco e rejeitava,
recusando-se a engolir. Entre a teta e o umbigo
ligava-se a outra criança, sem cabeça, com o
orifício intestinal tapado mas inteiro quanto ao
rêsto. Esse aborto tinha um braço mais curto
do que o outro, o qual se havia quebrado ao .
nascer. Os corpos pareciam defrontar-se e era
como se uma criança pequena houvesse queri-
do grudar-se a outra maior. A junção mesma
não ultrapassava quatro dedos de largura mais
ou menos e erguendo o corpo menor via-se O
umbigo do maior, bem como a linha de sutura.
Quanto ao aborto, não se lhe via o umbigo,
mas sim o resto do ventre, e as partes livres,
braços, nádegas e pernas, que pendiam balou-
çantes junto ao corpo do maior, alcançando a
metade das pernas. Acrescentava a ama que
esses dois seres urinavam cada qual por seu
lado; que os membros de ambos se alimen-
tavam igualmente bem e eram muito vivos,
embora os do aborto se mostrassem mais frá-
geis. Esse duplo corpo e esses múltiplos mem-
bros ligados a uma só cabeça, poderiam muito
bem constituir um bom prognóstico para o
nosso rei, pressagiando a coexistência de và-
rios partidos sob as suas leis. Mas é melhor
deixá-lo de lado, pois os acontecimentos
podem desmenti-lo. E mais seguro prognos-
ticar os fatos consumados “mediante interpre-
tações que os enquadrem nas conjeturas”,
como diz Cícero e também Epimênides, de
quem afirmavam que adivinhava “para trás”.
Acabo de ver um pastor do Medoc, de trinta
anos mais ou menos, que não mostra vestígios
das partes genitais. Apresenta no lugar delas
três orifícios pelos quais urina constantemente.
Tem barba, sente desejo e procura as carícias
das mulheres. ; Ê A
Os que denominamos monstros não o são
perante Deus, pois só Deus distingue e aprecia,
na imensidade de Suas obras, as formas infini-
tas que imaginou. É provável que tal ou qual
que nos espanta se prenda a outra do mesmo
gênero, desconhecida do homem e que no
entanto d'Ele provenha. Tudo o que emana de
Sua infinita sabedoria é belo e decorre de leis
gerais; mas, as relações dessas coisas entre si e
sua ordenação escapam-nos. “O homem não
se admira com o que vê amiúde, ainda que lhe
ignore a origem; mas se ocorre o que nunca
viu, considera-o um prodígio *ºº.”
Dizemos daquilo que se afasta do que
vemos habitualmente que é contrário à nature-
za; tudo, entretanto, obedece às suas leis. A
razão universal e natural deve pois expulsar de
nós a surpresa que a novidade provoca.
ad
500 Cícero.
330
MONTAIGNE
CaPíTULO XXXI
Da cólera
Plutarco é sempre admirável; principal-
mente quando aprecia as ações humanas.
Assim as excelentes coisas que diz no paralelo
que estabelece entre Licurgo e Numa, acerca
da simplicidade de espírito com que abando-
namos os filhos à orientação exclusiva dos
pais. Em sua maioria, nossas instituições
admitem, como diz Aristóteles, que cada qual,
à maneira dos ciclopes, governe mulher e fi-
lhos ao sabor de sua imaginação mais ou
menos louca. Somente as constituições da
Lacedemônia e de Creta oferecem leis para a
educação da criança. Quem não percebe que
em uma nação tudo depende da educação
moral e física? E no entanto ela continua sem
nenhum critério, à mercê dos parentes, por lou-
cos que sejam, e maus.
Quantas vezes, na rua, tive ímpetos de vin-
gar, a meu modo, os meninos que via esfola-
dos, esbofeteados, machucados por um pai em
furor. Atentai para esses brutos, faces esfo-
gueadas, olhos cintilantes de raiva (e segundo
Heródoto as doenças que nos desfiguram são
as mais perigosas), vociferando contra seres
que mal iargaram a chupeta: “incendeia-os a
cólera e os empurra como rochedo abrupto
que, perdendo seu ponto de apoio, rola monta-
nha abaixo *º1?. Das palavras passam aos ges-
tos, e eis os pobres pequenos feridos, estropia-
dos, sem que a justiça se incomode, como se
não se tratasse de criaturas da nossa comuni-
dade: “agradece-te a pátria, por lhe teres dado
um novo cidadão, desde que o tornes idôneo e
útil, ou lavrando a terra, ou nas artes da paz
ou nos serviços da guerra 892”.
Não hã paixão que mais perturbe a eqli-
dade dos juízos do que a cólera. Ninguém hesi-
taria em condenar à morte um juiz que sob o
império desse sentimento punisse um crimino-
so; porque então nossos pais e nossos profes-
sores terão o direito, quando irritados, de açoi-
tar uma criança ou lhe infligir qualquer
castigo? Já não é corrigir, é vingar-se. O casti-
go deve ser uma espécie de remédio para a
501 Juvenal.
502 Id.
criança; admitiriamos que um médico se enfu-
recesse e agredisse o doente?
Nós mesmos, a bem dizer, não deveriamos
jamais levantar a mão contra nossos servido-
res sob o impulso da cólera. Adiemos a presta-
ção de contas até que nosso pulso serene;: a
coisa hã de parecer-nos diferente quando nos
acalmarmos. De outro modo a paixão é que
comanda; ela é que fala e não nós, e sób a sua
influência as faltas se ampliam, como ocorre
com as formas vistas através da neblina. Quem
tem fome, quer carne; mas quem castiga não
deve ter fome ou sede, tanto mais quanto o
castigo é mais eficiente se aplicado com medi-
da. Condenada por um homem enfurecido, a
vitima imagina ter sido injustamente punida.
Alega em sua defesa a exacerbação do amo,
seu rosto esfogueado, seus palavrões, a inquie-
tação em que se encontrava. “Seu rosto incha
de ódio, suas veias pretejam, seus olhos deitam
raios mais ardentes que os dos olhos de
Górgone * 03,”
Relata Suetônio que Lúcio Saturnino *º*,
condenado por César, apelou para o povo e
obteve ganho de causa em virtude, principal-
mente, da animosidade e da dureza com que
César o julgara.
Dizer e fazer são coisas diferentes e é preci-
so considerar separadamente sermão e predi-
cante. E não deixaram de tirar partido dos vi-
cios do clero os que tentaram nestes tempos
atentar contra a verdade da Igreja. Mas esta se
apóia em outros testemunhos. Semelhante
orientação é errônea e tudo perturba; um
homem de bons costumes pode ter opiniões
discutíveis e um mau indivíduo pregar a verda-
de, o que até um incréu pode fazer. É sem dúvi-
da mais bela a harmonia entre fazer e dizer, e
não pretendo negar que nesse caso mais autori-
dade tenham os atos, e mais eficiência.
Eudâmidas ouvindo um filósofo discorrer
acerca da guerra, dizia: “belas palavras, mas
quem as profere não deve ser crido, seus ouvi-
dos não estão familiarizados com o som das
trombetas”. Cleômenes, ouvindo um retórico
503 Ovídio.
504 Em outras edições Montaigne fala de Caio
Rabírio. (N. do T.)
ENSAIOS — II
falar da valentia, pôs-se a rir ruidosamente, e
como o outro se formalizasse, observou:
“rir-me-ia também se falasse uma andorinha,
ao passo que uma águia eu escutaria com aten-
ção”. Parece-me que os escritos dos antigos
nos mostram à saciedade que quem pensa o
que diz impressiona mais o leitor ou o ouvinte
do que quem não está convencido de suas
palavras. Vede Cícero referir-se ao amor à
liberdade, e vede Bruto: os escritos deste últi-
mo provam que era homem capaz de pagá-la
com a vida. Que Cícero, pai da eloqgiuência,
fale do desprezo pela morte e que Sêneca trate
do mesmo assunto; aquele é mole e sentimos
que se pronuncia acerca de uma coisa de que
não está convencido, e não nos fortalece; já o
outro anima e inflama. Nunca leio um autor
que trate da virtude e dos atos que inspira sem
procurar saber como se conduziu ele próprio.
Vendo os éforos, em Esparta, certo indivíduo
de costumes desregrados propor ao povo uma
coisa útil, mandaram-no calar e pediram a um
homem de bem que se apropriasse da idéiae a
apresentasse.
As obras de Plutarco mostram bem o que
ele foi, e creio conhecê-lo a fundo. Entretanto,
gostaria que tivéssemos alguns documentos
sobre sua vida e se me afastei do assunto foi
para mencionar um trecho de Áulio Gélio, o
qual nos dá uma idéia dos hábitos de Plutarco
e me reconduz ao meu tema. Um dos escravos
de Plutarco, homem mau e viciado, mas que
ouvindo suas aulas, retivera, embora superfi-
cialmente, algumas noções de filosofia, fora
despojado de suas roupas para ser açoitado
por causa de alguma falta cometida. A princi-
pio, enguanto o açoitavam, resmungou que
“não tinham razão, que nada fizera”; em
seguida, pôs-se a gritar e a injuriar seu amo
censurando-lhe por “não agir como um filó-
sofo que se jactava de ser, que muitas vezes o
ouvira dizer quão nociva era a cólera, que
escrevera mesmo um livro sobre o assunto, e
que, mandando açoitá-lo, a ele escravo, sob o
impulso da irritação, desmentia completa-
mente tais lições”. Ao que Plutarco, muito
calmo, respondeu friamente: “Como podes jul-
gar se neste momento me acho enfurecido?
Minha fisionomia, minhas palavras, minha cor
dão-te alguma prova? Não penso ter o olhar
esgazeado, nem o rosto perturbado. Tampouco
vocifero. Estarei vermelho? Vem-me a espuma
aos lábios? Escapam-me palavras de que
possa arrepender-me? Tremo porventura? Pois
são esses os verdadeiros sinais da cólera.” E
voltando-se para o que manejava o açoite:
“Continua tua tarefa enquanto discuto com
esse indivíduo.”
331
Arquitas de Tarento, voltando de uma guer-
ra em que exercera as funções de capitão-ge-
neral, encontrou sua casa descuidada e suas
terras incuitas. Mandando chamar o feitor, dis-
se-lhe: “Eu te esfolaria com prazer se não esti-
vesse zangado”. Platão assim agiu também:
fortemente irritado com um de seus escravos,
encarregou Espeusipo de castigá-lo, descul-
pando-se de não o fazer pessoalmente, porque
estava com raiva. E o lacedemônio Carilo
assim apostrofou um hilota que se mostrava
insolente: “Por Deus que te mataria, se não
estivesse com ódio !”
A cólera é paixão que em si mesma se com-
praz e a si mesma aplaude. Quantas vezes,
tendo agido sob o impulso de um erro nós nos
irritamos contra a verdade e a inocência
comprovadas? A propósito, eis um exemplo
admirável tirado da antiguidade: Pisão, que
sempre se mostrara mui virtuoso, enraivecido
contra um soldado que partira em companhia
de outro em busca de provisões e voltara sozi-
nho sem nada poder dizer do companheiro,
convenceu-se de que este fora assassinado e
incontinenti condenou à morte o que voltara.
Estava este ao pé da forca quando chegou o
outro, que se perdera. Todo o exército o recebe
com aclamações e depois de se abraçarem são
ambos levados à presença de Pisão, na certeza
de que se alegraria com o acontecimento. Foi
entretanto o contrário que ocorreu. Despeitado
e ainda encolerizado, inspira-lhe a paixão um
raciocínio sutil. E em lugar de um inocente, vê
no caso três culpados que condena à mesma
pena de morte: um porque já fora condenado,
outro porque se perdera e se tornara culpado
da primeira condenação e o carrasco por ter
desobedecido às suas ordens.
Quem já se houve com mulheres obstinadas
sabe da raiva que as invade se opomos à sua
irritação o silêncio e a indiferença. Célio, o
orador, era por temperamento extremamente
colérico; alguém de gênio sereno e conciliante
que com ele ceava vinha aprovando tudo o que
ouvia a fim de não dar pretexto a discussões.
Célio, impaciente por não poder abandonar-se
a seu espírito de contradição, exclamou: “Por
amor de Deus, dize qualquer coisa que eu
possa discutir?. Assim são as mulheres. Irri-
tam-se apenas para ter uma oportunidade de
irritar os outros, imitando nisso as leis do
amor. Falando Fócion em público, interrom-
peu-o alguém com violentas injúrias; Fócion
calou-se deixando que o interlocutor expan-
disse sua cólera. Em seguida voltou ao seu dis-
curso sem aludir sequer ao incidente. Um tal
desdém é a réplica mais causticante que se
possa dar em semelhante circunstância. Digo
332
amiúde do homem mais colérico de França (a
cólera é sempre um defeito, mais desculpável
entretanto em um militar, pois em certos casos
não a pode evitar) que não conheço quem
tenha mais mérito em se dominar *º 5. Eia o
agita com tanta fúria e violência que ele preci-
sa cruel esforço para se moderar. “Assim,
quando ruidosamente o fogo aquece o vaso de
cobre: a água ferve, enfurece-se contra os flan-
cos que a mantêm presa, transborda espuman-
te, não mais contém sua força e seu vapor
sombrio escapa e se ergue no ar *º 8”. Quanto a
mim, não sei de paixão que mais me custe dis-
simular e não me agradaria pagar tão alto
preço pela sabedoria. E, no caso não me inte-
ressa tanto o que se faz quanto o que se deixa
de fazer. Alguém se jactava junto a mim da do-
çura e compostura em verdade notáveis de
seus hábitos. Respondi-lhe que, mostrar-se
sempre igual para com todos em quaisquer
circunstâncias, era meritório, principalmente
em quem, como ele, tinha altas funções e
muito se expunha à crítica alheia; mas o que
importa particularmente é preocupar-se com o
que ocorre dentro de nós. E não me parecia
que cuidasse de seus interesses esgotando-se
interiormente, como eu temia que ele o fizesse,
para conservar sempre uma serenidade exte-
rior.
Nós nos impregnamos de nossa própria có-.
lera, dissimulando-a. Fazemos mais ou menos
o que Diógenes dizia a Demóstenes, o qual,
receoso de ser visto na taverna, escondia-se
dentro dela: “Quanto mais recuas, mais pene-
tras.” Aconselharia antes a dar por vezes
injustamente um bofetão no criado de prefe-
rência a torturar-se para parecer sereno. Prefi-
ro dar liberdade às minhas paixões a abafá-las
em meu detrimento. Em lhes permitindo que se
expandam perdem elas sua força e é melhor
que atuem exteriormente do que contra nós:
“as doenças visíveis da alma são as mais
benignas; as mais perigosas são as que se
escondem sob a aparência da saúde 8º 7”.
Aos que tenham motivos para irritar se
aconselho que se controlem e não esbanjem
sua cólera, pois isto lhe atenua os efeitos. As
gritarias constantes convertem-se em hábito;
não mais se lhes dá atenção. As cenas que
fazemos com um criado ladrão, não as sente
ele quando são a repetição das que lhe fizemos
cem vezes por não ter lavado direito um copo
ou guardado uma cadeira. Aconselho-os tam-
805 Não se sabe se Montaigne alude a determinada
pessoa ou se fala em tese. A frase é obscura. (N. do
T.)
506 Virgílio.
507 Sêneca.
MONTAIGNE |
bém a verificarem se sua repreensão se dirige
realmente ao culpado, pois as mais das vezes
já gritam antes dele se apresentar e continuam,
horas a fio, depois de se ir: “o insensato que
não se domina enfurece-se contra si
mesmo *9 8,
Se gritam contra a própria sombra, desabam
raios onde não se encontra quem deva recebê-
los nem ninguém que possa aproveitar a lição;
e os estrondos apenas ensurdecem os inocen-
tes. Há também que censurar os que esbrave-
jam no vácuo. Cumpre reservar tais gestos
para as ocasiões oportunas: “Muge furioso o
touro contra seu rival; colérico pisoteia o solo,
volta-se contra o vento e dá chifradas nas
árvores º99?,
Quando me irrito sou violento, mas a cólera
dura pouco e grito o menos possível. Entrego-
me por certo à violência, porém não fico fora
de mim a ponto de proferir palavras injuriosas,
e é com perfeito conhecimento de causa que
assesto minhas invectivas, procurando acertar
no ponto em que mais firam. Meus criados so-
frem menos aliás nos casos graves do que nos
insignificantes. Estes me surpreendem e quer a
infelicidade que se caímos em um precipício
pouco importam as causas, vamos rolando até
o fundo, e sempre mais depressa. Nos casos
graves, quando todos esperam uma cólera
proporcional e justa, apraz-me desiludi-los,
pois sabendo até onde pode levar uma desme-
dida irritação, ponho-me de atalaia e me domi-
no; mas se sou tomado de surpresa, a cólera
apodera-se de mim e arrasta-me mais longe do
que fora normal. Com as pessoas que têm o
dirsito de discutir comigo, entro em acordo:
“Quando virdes que começo a irritar-me, dei-
xai-me prosseguir, certo ou errado, até o fim;
eu farei o mesmo.” A tempestade nasce com
efeito unicamente das cóleras que se entrecho-
cam; não têm uma origem comum, decorrem
por vezes uma da outra; deixemo-las seguirem
seu curso e teremos a paz. Essa determinação,
boa sem dúvida, é de difícil aplicação. As
vezes acontece-me em questões de ordem
doméstica fingir que estou zangado. Na medi-
da em que a idade me torna mais sensível às'
contrariedades, esforço-me por não ceder a
esse sentimento, e- zangar-me tanto menos
quanto maior disposição tenha para o fazer. E
isso, embora, em minha juventude, tenha sido
dos que menos sabiam moderar-se.
Uma palavra ainda, antes de terminar este
capítulo. Aristóteles diz que a cólera é por
vezes utilizada como arma pela virtude e a
“508 Claudiano.
509 Virgílio.
ENSAIOS — II 333
valentia, o que me parece certo. Entretanto, os
que divergem de opinião neste ponto objetam,
com espírito, que se trataria então de uma
arma muito especial, pois manejamos as ou-
tras armas € por essa somos manejados; não a
guia a nossa mão, ela é que nos conduz.
CAPÍTULO XXXII
Defesa de Sêneca e Plutarco
Minha intimidade com esses filósofos, a
ajuda que me proporcionaram em minha velhi-
ce e também este meu livro escrito quase uni-
camente com o que deles tirei, constituem
como que a obrigação, para mim, de lhes
defender o nome.
Vejamos primeiramente Sêneca. Entre os:
inúmeros opúsculos que a religião reformada
distribui em defesã de sua causa, alguns dos
quais lamentamos, pelo estilo, não tenham vi-
sado melhor fim, deparei com um cujo autor,
para melhor demonstrar certa analogia entre
Carlos IX e Nero, e entre o falecido Cardeal
de Lorena e Sêneca, compara os destinos que
guindaram estes últimos a conselheiros de seus
príncipes, bem como suas condutas e seus
erros. À meu ver, há nisso honra excessiva
para o cardeal, pois embora seja dos que mais
estimam seu espírito, seu devotamento ao rei e
à religião, e embora quisesse a sorte fazê-lo
nascer em um século tão necessitado de um
dignitário da Igreja de tão alta nobreza e tão
capaz de desempenhar o seu papel, vejo-me
forçado a observar, a bem da verdade que não
considero sua capacidade comparável à de
Sêneca, nem sua virtude tão grande e resoluta
quanto a deste.
O opúsculo a que aludo apresenta uma
exposição assaz injuriosa do que foi Sêneca;
tira suas diatribes de Dion, historiador cujo
testemunho me inspira pouca confiança. Antes
de mais nada, Dion é versátil nos seus julga-
mentos, pois ora considera Sêneca homem mui
sábio e inimigo dos vícios de Nero, ora o pinta
como alguém de natural avarento, propenso à
usura, à ambição, à covardia, ao prazer, dizen-
do-se filósofo e desmentindo suas palavras
com seus atos. Em segundo lugar, os escritos
de Sêneca revelam tão viva virtude, neles ele se
defende tão bem contra as acusações de que foi
objeto, em particular as referentes a sua rique-
za e a seus gastos, que não posso acreditar em
nenhum testemunho contrário. Ademais, é
mais normal acreditar-se, a esse respeito, nos
historiadores romanos do que nos gregos e nos
estrangeiros. Ora, Tácito e os outros falam
muito - honrosamente de sua vida e de sua
morte e o representam como um personagem
de grande virtude, que desempenhou seu papel
de maneira perfeita. Ao julgamento de Dion,
censurarei apenas uma coisa, mas caracteris-
tica: esse historiador tem tão falha percepção
dos negócios romanos, que ousa tomar o parti-
do de César contra Pompeu, e o de Antônio
contra Cícero.
Passemos a Plutarco. Jean Bodin, um dos
bons autores de nossa época, mais avisado e
informado do que a turba de escrevinhadores
do século, merece, a meu ver, ser ponderado e
discutido. Acho-o um tanto ou quanto temerá-
rio no trecho de sua obra intitulada “Método
para facilitar o estudo da história” e no qual
acusa Plutarco não somente de ignorância (o
que não o discutirei porque não me sinto com-
petente nesse ponto), mas ainda de haver regis-
trado fatos incríveis e do domínio da fábula. Se
houvesse dito “fatos erroneamente relatados”,
não houvera muito que opor à acusação, pois
o que não vimos há que tirar de outrem, em
confiança. Por outro lado, reconheço que Plu-
tarco nos dá por vezes versões diferentes do
mesmo fato, como no caso do julgamento de
Aníbal acerca dos três maiores capitães, o qual
não é idêntico, na vida de Flamínio, ao que se
lê na de Pirro. Mas afirmar que aceitou como
verdadeiros fatos incríveis e impossíveis, é
acusar de erro de julgamento o mais judicioso
historiador do mundo.
Eis um exemplo citado por Bodin: “assim o
caso de um menino da Lacedemônia, o qual
para que não percebam seu roubo, deixa que a
raposa escondida por baixo de sua roupa lhe
roa o ventre”. Acho antes de tudo que o exem-
plo é mal escolhido, porquanto é mais difícil
estabelecer limites as faculdades da alma de
que às forças físicas, que podemos avaliar me-
lhor fixando-lhes um grau superlativo intrans-
ponível; por isso se me coubesse escolher, pro-
curaria exemplo de outra ordem, de fato menos
s€
crível, como o que diz respeito a Pirro, “o
334
qual, embora ferido, assentou tão formidável
golpe de espada em um de seus inimigos, intei-
ramente armado, que lhe partiu o corpo em
duas partes”. No exemplo dado por Bodin
nada encontro de milagroso e não admito a
desculpa invocada para defender Plutarco, o
qual teria acrescentado: “ao que dizem”, para
que não acreditássemos de maneira absoluta,
como se fora do que se nos impõe pela antigui-
dade e o respeito às tradições religiosas, não
desejasse: que déssemos fé às coisas incríveis
em si. Estas palavras “ao que dizem”, não se
encontram no texto com esse fim; pois, logo
em seguida, e ainda a propósito da coragem
das crianças na Lacedemônia, cita-nos fatos
mais incríveis ainda, como por exemplo o que,
antes dele, Cicero já relatara dizendo que o
testemunhara “in loco”. Nessa época, escreve
Plutarco, havia crianças que, nas provas a que
se sujeitavam diante do altar de Diana, supor-
tavam o açoite até jorrar o sangue de seus cor-
pos, não somente sem gritar mas ainda sem
gemer; e houve mesmo algumas que o suporta-
ram até a morte.
Plutarco conta-nos também, após cem ou-
tros que o verificaram, este fato análogo ocor-
rido em Esparta: tendo uma brasa caído den-
tro da manga de um menino que aspergia
incenso, deixou ele que ela lhe queimasse o
braço, a ponto de se sentir o cheiro da carne
chamuscada. Era costume desse povo zelar
acima de tudo pela sua reputáção e nada lhe
parecia máis vergonhoso do que ser surpreen-
dido roubando, o que explica a tenacidade e
resolução do menino que se deixou roer pela
raposa. Estou tão convencido da grandeza de
alma de tais homens, que o fato contado por
Plutarco, longe de se me afigurar incrível,
como quer Bodin, nada me parece oferecer de
raro ou estranho. A história de Esparta está
cheia de exemplos mais rudes ainda e que não
se verificam nas das demais nações. Caberia
então julgá-la fabulosa de princípio a fim.
Amiano Marcelino conta, a propósito de
roubo, que em seu tempo não haviam ainda
descoberto tortura capaz de obrigar os egip-
cios a confessarem esse delito que lhes era
habitual.
Um camponês espanhol, torturado para que
denunciasse os cúmplices do assassínio do
Pretor Lúcio Pisão, berrava durante o suplício
advertindo seus amigos “que não se preocu-
passem e assistissem tranquilamente ao espetã-
culo, pois não haveria dor capaz de lhe arran-
car quaisquer indiscrições”. No primeiro dia
nada mais conseguiram dele. No dia seguinte,
ao ser transportado novamente para o suplício,
desvencilhou-se dos guardas e precipitou-se
com a cabeça contra um muro, matando-se.
MONTAIGNE
Epicaris esgotara a crueldade dos carrascos
de Nero; suportara, durante o dia inteiro, toda
espécie de torturas, sem nada revelar da conju-
ra de que participara. Levada novamente ao
suplício no dia seguinte, membros partidos,
amarrou um cordão do vestido a um braço da
cadeira de modo a formar um laço; e passando
a cabeça por ele largou o corpo, enforcando-
se. Assim morrendo corajosamente, depois de
ter suportado com paciência invencível os tor-
mentos da véspera, como que desafiava e
escarnecia o tirano e animava os que se dispu-
sessem a imitá-la nas conspirações.
Se indagássemos de-nossos soldados o que
viram como testemunhas e atores em nossas
guerras civis, inúmeros feitos de coragem,
resistência e tenacidade, nos seriam contados,
fatos ocorridos com essa multidão amolecida
entretanto, mais efeminada do que a classe
mais baixa do Egito, e que seriam comparáveis
aos que nos oferece a história de Esparta. Sei
de camponeses que deixaram que lhes quei-
massem a planta dos pés, lhes esmagassem as
pontas dos dedos sob o cão da pistola, ou lhes
amarrassem a fronte com uma corda até lhes
saltarem os olhos da cara, sem sequer falar de
seu resgate. Vi um deixado por morto em um
fosso; estava inteiramente nu, o pescoço incha-
do e ferido pela corda com a qual o haviam
amarrado ao rabo de um cavalo; o corpo san-
grava com cem golpes de punhal, dados não
para o matar e sim para o amedrontar. Tudo
suportara .até desfalecer, resolvido, como .me
disse, antes a sofrer mil mortes do que a falar.
Era, no entanto, um dos mais ricos agricul-
tores da região. E quantos não temos visto que
se deixaram torturar e assar por opiniões
alheias, que nem sequer conheciam bem! Vi
centenas de mulheres (dizem que as da Gasco-
nha são particularmente cabeçudas) capazes
de suportar o ferro em brasa sem desmentir ou
renegar uma idéia qualquer desposada em
momento de raiva. Exasperam-se, antes, sob os
golpes; e quem inventou a história daquela
cujo marido a ameaçava e lhe batia por não
parar de chamar-lhe “piolhento” e que, jogada
à àgua, ainda fazia com os dedos o gesto de
esmagar um piolho, imaginou em verdade um
conto muito característico dessa obstinação de
que a mulher nos dá diariamente provas; e a
obstinação é irmã da tenacidade e da resolu-
ção. !
Como disse anteriormente, cumpre não jul-
gar o que é e o que não é segundo a nossa con-
cepção de verossimilhança. É grande erro (e
não o digo por causa de Bodin) em que caem
muitos e muitos homens, não querer acreditar
que outros possam saber ou desejar o que não
se sabe nem se ambiciona. Dir-se-ia que cada
ENSAIOS — II
qual é um modelo, por excelência, da natureza
humana, de acordo com o qual os demais
devem conduzir-se; e que tudo o que não se
adapta a esse modelo é falso ou errado. Se
apresentam a alguém algo que outro fez ou
imaginou, para o julgar, toma-se a si próprio
como referência; o que nele se verifica é que
deve servir de regra. Que perigosa e insupor-
tável tolice! Quanto a mim, considero certos
homens, principalmente da antiguidade, bem
superiores; e embora me reconheça incapaz de
-seguir-lhes as pegadas, ainda que de longe, não
os perco de vista. Percebo as molas que os er-
guem acima do vulgo, conquanto não as
encontre em mim. Assim me conduzo igual-
mente em relação aos espíritos inferiores que
não me espantam e cujas idéias não me recuso
de caso pensado a considerar. Compreendo
muito bem como os primeiros se houveram
para emergir, e admiro-lhes a grandeza; acho
belos seus impulsos e os aplaudo; se minhas
forças não me permitem imitá-los, minha
inteligência, ao menos, os aprecia.
O outro exemplo que nos dá Bodin em apoio
de sua asserção de que Plutarco avança fatos
incríveis, do domínio da fábula, é o de Agesi-
lau ter sido condenado a uma multa pelos éfo-
ros por ter conquistado o coração €e a boa von-
tade de seus concidadãos, os quais já não
juravam senão por ele. Não vejo o erro que se
lhe possa criticar neste ponto. Antes de mais
nada, Plutarco devia conhecer melhor os fatos
do que nós; ademais não era inédito na Grécia
exilarem-se homens tão-somente por serem
335
romanos de nossa familiaridade. Não me pare-
ce que Demóstenes possa ombrear na glória
com um cônsul ou pretor da grande República,
mas quem observa com imparcialidade o que
são realmente tais homens, o que quis fazer
Plutarco, que compara seus costumes, seus
caracteres, suas capacidades, mais do que o
seu destino, pensará, contra Bodin, que Cícero
e Catão, o Velho, estão longe de igualar aque-
les que lhes são comparados. Nosso crítico
fora mais feliz se desse como exemplo o para-
lelo entre Catão, o Jovem, e Fócion. Teria divi-
sado uma desigualdade mais acentuada a favor
dos romanos. Quanto a Marcelo, Sila, Pom-
peu, OS êxitos que obtiveram na guerra são sem
dúvida mais importantes que os dos gregos que
Plutarco lhes opõe. Mas as mais belas e virtuo-
sas ações, na guerra como alhures, nem sem-
pre são as mais famosas. Deparo amiúde com
capitães cujos nomes se eclipsaram ante o
esplendor de outros que não os valiam. Assim
Labieno, Ventídio, Telesino, etc. A esse respei-
to, se devesse reclamar a favor dos gregos
poderia dizer que Camilo está. longe de ser
comparável a Temístocles, os Gracos a Ágis €
Cleômenes, Numa a Licurgo. Mas é loucura
tentar julgar em conjunto tantos casos especi-
ficos e suscetíveis de se encararem separada-
mente.
Quando Plutarco compara esses persona-
gens ilustres, não quer demonstrar que são
iguais. E ninguém melhor do que ele é capaz
de ressaltar, com precisão e imparcialidade, as
diferenças. Se compara as vitórias e proezas
demasiado quendos (es Ucp sa no campo de batalha, o poder dos
ex
Comprovam-no o ostracismo e o petalismo.
Esse mesmo “Método para facilitar o estudo
da história” comporta outra acusação cho-
cante contra Plutarco. Este historiador que, em
seus paralelos, tão bem comparou os romanos
aos romanos € os gregos entre si, não o teria
feito com igual imparcialidade ao paragonar
gregos com romanos. “Por exemplo” diz
Bodin “nos paralelos entre Demóstenes e Cice-
ro, Catão e Aristides, Sila e Lisandro, Marcelo
e Pelópidas, Pompeu e Agesilau, favorecia os
gregos com comparações inadequadas.” Isso é
atacar Plutarco no que tem de melhor e de
mais admirável. Pois nessas comparações (que
constituem a parte mais apreciável de sua obra
e à qual, a meu ver, mais particularmente se
dedicou) a fidelidade e a sinceridade dos juízos
igualam sua profundidade e valor: é um filó-
sofo que nos ensina a virtude.
Vejamos se é possível absolvê-lo quanto à
falsidade e à prevaricação. Penso que o que
provocou apreciação tão desfavorável está na
grande e brilhante auréola que orna os nomes
Erti Ene seus triunfos com os de
Agesilau, acrescentar ““rão.creio que O próprio
Xenofonte ousasse compara-lôs; ra nada
se saiba acerca do que lhe apeteceu E
Agesilau”?. Quando estabelece um paralelo
entre Lisandro. e Sila, diz: “não existe ponto de
comparação, nem quanto ao número de vitó-
rias, nem aos riscos que correram nos comba-
tes travados, pois Lisandro só ganhou duas
batalhas, etc.? Plutarco em nada diminuiu os
romanos ao compará-los com os gregos; não
os depreciou, apesar-da disparidade existente,
porque não os julgou em bloco, nem revelou
qualquer preferência. Compara, uns após
outros, certos episódios, certas particulari-
dades de suas vidas respectivas e os julga em
separado. Por isso, para argúi-lo de parciali-
dade fora preciso analisar o julgamento em
cada caso particular ou provar que errou em
paragonar tal grego com tal romano, porque
muitos outros, com maior número de pontos
comuns, mereceriam de preferência a compa-
ração.
336 MONTAIGNE
CAPÍTULO XXXIII
História de Espurina
“
Não pensa a filosofia ter mal empregado | sível às tentações, começava a rebelar-se a des-
seus meios de ação, quando consegue tornar a peito dos princípios e regras que adotara,
razão senhora da alma e dar-lhe autoridade mandou queimar os órgãos solicitados!
suficiente para que contenha os apetites. Os Quando as paixões se assenhoreiam exclusi-
que não acham entre estes nenhum mais vio- vamente da alma, como a ambição, a avareza
lento que o do sexo, observam que o amor in- e outras, criam bem maiores dificuldades
vade a alma e o corpo, possui o homem por ainda para a razão, a qual nenhuma ajuda
inteiro, abala-lhe a saúde a ponto, por vezes, pode esperar senão de si mesma. Por outro
de exigir a intervenção de um médico para lado, jamais se acalmam, ou se saciam, antes
obter satisfação. Mas pode-se dizer que, com a se avivam e se ampliam, com as satisfações
participação do corpo, o enfraquece, por- alcançadas.
quanto se sujeita à saciedade e é suscetível de O exemplo de Júlio César bastaria para nos
se acalmar com o remédio material. mostrar quanto diferem tais apetites, pois
Alguns, desejosos de libertar sua alma des- nunca homem algum foi mais dado aos praze-
ses continuos alarmas, recorrem a amputação res do amor. Prova-o o cuidado minucioso que
dos órgãos que se excitam e se impressionam. tinha com sua pessoa, a ponto de apelar para
Outros, atenuam-lhes o ardor e a força com os meios mais lascivos em voga na época:
aplicações frequentes de coisas frias como, por depilava o corpo e usava perfumes especiais
exemplo, uma mistura de gelo com vinagre. extremamente raros. Segundo Suetônio, pos-
Não tinham outro objetivo os cilícios de nos- suía um belo físico, de tez alva, grande esta-
sos antepassados; eram confeccionados com urae boas proporções; tinha o rosto cheio, os
pêlo de cavalo, sob forma de camisas ou cin- olhos escuros e vivos. Em muitos pontos, as
tas. Contava-me um príncipe, não faz muito, estátuas dele encontradiças em Roma afas-
que em sua inocidade, certo dia de festa na umesé desse retrato. Além "de suas mulheres
Corte de Erancisco I, e estando todos Vestidos jegítimas, que trocou quatro vezes, e sem con-
. . se. ER tá ed a
a rigor, concebera a.idérafantasista de vestir o tar as relações amorosas que teve, na mocida-
cilício de í, que ainda conservava. Mas de, com Nicomedes, rei da Bitínia, possuiu vir-
não foi capaz de usá-lo até o fim da noite e gem a Cleópatra, rainha do Egito, da qual.teve
icou doente durante muito tempo. Acreditava o pequeno Cesário. E amou igualmente Êunoe,
não houvesse ardor, por grande.que fosse, que” * rainha da Mauritânia; Postúmia, mulher de
um tal instrumento não domasse. Não penso Sérvio Sulpício; Lólia, esposa de Gabínio; Ter-
entretanto que tenha sido então vítima de um tula, mulher de Crasso é até Mútia, esposa do
apetite muito agudo, pois a experiência mostra | grande Pompeu, o que levou o marido a repu-
que a emoção persiste não raro, por miseráveis diá-la, segundo os historiadores. Plutarco
e grosseiras que sejam as roupas; e o cilício declara ignorar o fato, mas os Cúrios, pai e
mem sempre transforma em pobres diabos os filho, censuraram a Pompeu, mais tarde, ao
) 510 A
que o usam **º. E em casar-se com a filha de César, o fato de se tor-
Xenócrates empregou processo mais energi- nar genro de um homem que lhe seduzira a es-
co. Seus discípulos, a fim de provar sua conti- posa e que ele próprio qualificava de Egisto.
nência, introduziram em seu leito a bela e fa- Além das que enumerei, César teve ainda
mosa cortesã Laís. Esta aí se deitou como amante a Servília, irmã de Catão e mãe
inteiramente nua, na sua beleza atraente. Sen- de Marco Bruto, e todos acreditavam que a
tindo o filósofo que seu corpo, atê então insen- grande afeição que por este demonstrava vies-
se de ter Bruto nascido em uma época em que
s1o Há um trocadilho intraduzível no texto: fora possível a César pensar que se tratasse de
“Haire”, cilício, e “pauvre hére” pobre-diabo. (N. seu filho. Tenho, portanto, razão em julgá-lo
do T.) com tendência para esse gênero de desregra-
ENSAIOS — II 337
mento. No entanto, quando a ambição, que tos para contrabalançar o efeito produzido
nele era grande, se opunha ao amor, não hesi- pela magnificência do estilo de Cícero na sua
tava em afastar este. - apologia de Catão. Nem houve espírito mais
A propósito, vem-me à memória o caso de vigilante do que o seu, mais dado ao trabalho e
Maomé, que tomou Constantinopla e pôs fim à realçado ainda por qualidades incontestáveis e
dominação grega. Não conheço ninguém em raramente encontráveis em tão alto grau de
quem tais paixões se equilibrassem melhor. naturalidade. Era notavelmente sóbrio e tão
Era tão grande no amor como na guerra; mas pouco difícil em matéria de alimentação, que,
sempre que, em sua vida, se verificou um cho- | certa vez, como diz Ópio, comeu um molho
que entre o amor e a guerra, o entusiasmo pela feito com óleo para remédio em vez de azeite
guerra levou a melhor. E assim ocorreu até | comum, a fim de não confundir o anfitrião; de
que, avançado em anos e incapaz de suportar outra feita mandou açoitar seu padeiro porque
as fadigas dos campos de batalha, a paixão lhe servira um pão diferente do que servira aos
pela mulher voltou a dominá-lo e teve-o sob outros. Catão dizia a seu respeito que era o
seu império enquanto o permitiu a natureza. primeiro homem sóbrio a arruinar seu país.
O que se conta do Rei Ladislau, de Nápoles, Esse mesmo Catão tratou-o um dia de
é exemplo do contrário. Era bom capitão, “bêbedo”, mas em circunstâncias especiais.
corajoso e ambicioso, mas sua ambição tinha Estavam ambos no Senado; falava-se na cons-
principalmente por objeto a satisfação de seus piração de Catilina à qual pensavam se filiasse
apetites voluptuosos e a posse de alguma bele- César, quando, de fora, lhe entregaram um
za rara. Sua morte foi igual à sua vida. bilhete. Catão, imaginando que se tratasse de
Mediante manobra bem conduzida, cercara algum aviso dos conjurados, desafiou-o a que
tão bem a cidade de Florença que os habitan- lho entregasse, o que fez César para evitar
tes tiveram de negociar. Ele propôs retirar-se e maiores suspeitas. Aconteceu que era um
abandonar assim o fruto da vitória, sob a con- bilhete de amor de Servília, irmã de Catão.
dição de lhe entregarem uma jovem que se dis- Este o leu e devolveu, dizendo: “ei-lo, bêbe-
tinguia pela sua maravilhosa beleza. Tiveram do!” A meu ver essa apóstrofe implicava em
que concordar e, a fim de preservar a cidade sinal de desprezo e não em abuso ao vício- de
da destruição, aceitar a injúria tão-somente beber. Verificou-se o que nos ocorre muitas
prejudicial a interesses particulares. Essa mu- | vezes quando, invectivando os que nos irritam,
lher era filha de um médico famoso na época; nos valemos das primeiras injúrias que nos
o qual, ante tão penosa necessidade, tomou | vêm à boca embora não se apliquem às pes-
enérgica resolução. Enquanto adornavam A soas em apreço. E isso, no caso, se explica
filha, cobrindo-a de rendas e Jóias para torná- | tanto melhor quanto o vício da bebida vai de
la mais agradável ainda a tão estranho amante, par, não raro, com aquele em que era surpreen-
o pai juntando-se aos outros, fazia-lhe presente dido, pois Vênus e Baco andam juntos de bom
de um lenço maravilhoso, exalando delicioso grado. Comigo dá-se o contrário, e Vênus
perfume, para que o usasse para enxugar as mostra-se bem mais esperta quando a sobrie-
partes genitais nos seus primeiros contatos, o dade a acompanha. »
que não esquecem de fazer as mulheres. O
lenço-cra-envener Bd elara para Os exemplos de sua clemência para com os
“a s E? a . E
toda a sua ciência. Em contato com a € anderam são numerosos; refiro-me aos
excitada e quente, entraria pelos poros dilata- atos verificadosS-fersi do período das guerras
dos. Com efeito, penetrou-os o veneno tão Civis, pois entao sua generosidade;scomacele
rapidamente que o sangue dos amantes gelou próprio dá a entender em seus escritos, visava
de imediato, expirando ambos abraçados. conquistar Os inimigos e induzi-los a não teme-
Volto a César. Seus prazeres não lhe rouba- Tem vitórias de César. Se destes atos não pode-
ram jamais um minuto à ambição. Esta domi- | mos dizer que bastariam para provar a doçura
nou nele sobre todas as demais paixões e exer- “de um temperamento, nem por isso compro-
“ceu sobre sua alma tão completa autoridade vam menos a maravilhosa confiança que tinha
que o levou onde quis. Em verdade, quando em si e a sua grande coragem. Ocorreu-lhe
penso na superioridade desse homem e nos muitas vezes devolver aos inimigos, após a
seus maravilhosos dotes, sinto-me despeitado. vitória, exércitos inteiros, sem sequer exigir
Seus conhecimentos eram de tal ordem que que jurassem não se voltar contra ele. Fez vá-
não há, por assim dizer, ciência acerca da qual rias vezes prisioneiros certos capitães de Pom-
não tenha escrito; como orador, no entender de peu e sempre os libertou. Como Pompeu consi-
muitos, superava Cícero, e creio que ele tam- derasse ' inimigos todos os que não o
bém assim pensava, pois seus dicursos conhe- acompanhavam, César declarou amigos os que
cidos pelo título de “anticatãos”, foram escri- se mantivessem neutros e não pegassem em
338 MONTAIGNE |
armas contra ele. Aos próprios capitães que o houvessem ajudado a alcançar as honras
abandonavam para aderir ao adversário, en- supremas ele os teria ajudado e sustentado
viava as armas de presente, com seus cavalose | como aos melhores entre os homens de bem.
bagagem. Deixava às cidades capturadas a Ela o embriagou de tão grande vaidade que ele
liberdade de escolher o partido que quisessem, ousou jactar-se diante de seus concidadãos de
confiando apenas, para contê-las, na lem- “haver reduzido essa grande República roma-
brança de sua doçura e clemência. No dia da na a um simples nome, sem forma nem corpo”
batalha de Farsália ordenou que não ergues- e chegou a dizer que a partir de então “as res-
sem a mão contra os cidadãos romanos. Eis, postas que desse seriam leis”. Teve a audácia
na minha opinião, procedimento bem perigoso de receber sentado o Senado; permitiu que o
e não é de espantar que em nossas guerras adorassem e lhe rendessem culto divino. Em
civis os que como ele se voltam contra a antiga suma, esse único vício perverteu a natureza
ordem de coisas, não o imitem. São maneiras mais rica que se viu, e fez que sua memória se
excepcionais que só a sorte de César e seu tornasse odiosa à gente honesta, porquanto
extraordinário gênio poderiam adotar. Quando procurou a glória na escravização do país e na
penso na grandeza incomparável dessa alma, subversão do governo mais florescente e pode-
desculpo a vitória por lhe ter sido sempre fiel roso que o mundo jamais verá.
mesmo em benefício de tão iníqua e injusta Pode-se, ao contrário do que se depara em
causa. a am: César, encontrar mais de um exemplo de gran-
Temos vários exemplos de sua clemência, des personagens esquecidos da condução de
que se verificaram no tempo em que teve o seus negócios em consegiiência de seu apego
poder e constituem excelente testemunho de ao prazer amoroso, como foi o caso de Marco
sua natureza, pois, senhor então de todas as Antônio. Mas quando a ambição e o amor se
coisas, não precisava mais fingir. Caio Mênio chocam com igual violência, não tenho dúvida
escrevera contra ele panfletos ferozes aos quais em apontar o vencedor na ambição.
ele respondera com veemência. Isso não o do co TO Sea A ee are
impediu de ajudá-lo a obter o consulado. Caio É E Eca
muito refrear os nossos apetites, apoiando-nos
Calvo que lhe assestara vários epigramas inju- sá PR Ê
na razão, ou pela violência obrigar os nossos
riosos, tendo solicitado de um amigo que o O SA : E
órgãos à serenidade. Mas nos açoitarmos em
reconciliasse com César, este condescendeu : : a
em lhe escrever em primeiro lugar. E nosso benefício de outrem; abafar a doce Da
; nos causa ser agradáveis aos outros e por
bom Catulo, que tanto o insultara sob o pseu- d licitados: odi Ee
dônimo de Mamurra! César convidou-o para todos solicitados; odiar nossa beleza porque
jantar no mesmo dia em que se desculpou. NOS dão tal satisfação, é coisa de que só encon-
Avisado de que certas pessoas falavam mal (rei um exemplo: o de Espurina, jovem toscano
dele, limitou-se a declarar em público que o — que semelhava um diamante engastado no
sabia. Se não odiava seus inimigos, temia-os Ouro € enfeitando um colar ou coroa, ou um
ainda menos. Descobertos alguns conciliá- marfim enquadrado de buxo ou terebinto para
bulos e conjuras, contentou-se com os tornar que melhor ressalte sua brancura º?'!?. Era de
públicos, não perseguindo os culpados. tão rara beleza que os olhos mais castos não o
Vejamos: um exemplo das atenções que podiam contemplar sem se ofuscar Não-con-
tinha para com os amigos. AGRALE Som nao Condado! em extinguir a
com ele viajaya e se centiraTdisposto, cedeuo febre que provocava, enfureceu-se contra si
—= —ânitoo-ABMIBO existente e dormiu ao ar livre. mesmo e contra os ricos presentes recebidos da
Quanto à sua justiça, pode-se julgá-la pelo fato natureza, como se tivesse o direito de lhes cen-
seguinte: embora nenhuma queixa tivesse sido surar as faltas alheias, e mediante incisões e
apresentada, mandou executar um escravo que golpes por ele próprio dados destruiu com
muito apreciava, por ter dormido com a mu- cicatrizes a harmonia do rosto.
lher de um cidadão romano. Nenhum homem Admiro esses atos mas não os aprovo. Tais
se conduziu com maior moderação na vitóriae excessos não se acomodam a meus princípios.
maior resolução na desgraça. A intenção foi boa e proveio de alma honesta,
Pois todas essas belas qualidades foram mas a meu ver o gesto foi impensado, pois a
prejudicadas pela desmedida ambição que em feiúra assim alcançada podia provocar outros
verdade dirigiu sua vida. De um homem liberal | sentimentos pecaminosos, como o despeito e o
fez um ladrão do dinheiro público a fim de ódio, a inveja de tão rara virtude ou a calúnia
poder desmandar-se em prodigalidades. Ela que apontasse a causa da ocorrência em desa-
levou-o a pronunciar estas horríveis palavras, busada ambição. Haverá alguma coisa que
tão contrárias a todo princípio-moral!: os ho-
mens piores do mundo, os mais viciados, seo 5?! Virgílio.
ENSAIOS — II 339
não sirva de pretexto ao vício? Fora mais judi-
cioso se, com tais dons outorgados por Deus,
se tornasse um modelo de virtude, um exemplo
para a posteridade.
Os que fogem aos deveres sociais, a essas
obrigações de toda sorte, não raro espinhosas,
que pesam sobre o homem de certa posição,
evitam, a meu ver, muitos aborrecimentos, por
grandes que sejam os inconvenientes que tal
atitude pode acarretar. É, em suma, morrer
para escapar de viver como se deve. Podem ter
outros méritos, mas o de enfrentar as dificul-
dades não lhes cabe. Nem o de suportar com
firmeza os embates do mundo, respondendo
satisfatoriamente e lealmente ao que deles exi-
gem sua condição e o cargo que ocupam. É tal-
vez mais fácil abster-se de maneira absoluta de
quaisquer contatos com o sexo feminino do
que se conduzir sempre de modo perfeito com
sua mulher. E é mais raro perder-se alguém em
estado de pobreza do que no seio de uma abun-
dância que cumpre dispensar com sabedoria.
O uso comandado pela razão é mais penoso do
que a abstinência. A moderação é mais árdua
do que o sofrimento. Há mil maneiras de viver
a moda de Cipião, o Jovem; e uma só a exem-
plo de Diógenes. Mas se esta supera em ino-
cência a vida comum, sobreexcedem-na em
utilidade e energia as que atingem a perfeição e
a realização.
CapíTULO XXXIV
Observações acerca dos meios que Júlio César
punha em prática na guerra
Dizem, de vários grandes guerreiros, que
tiveram preferência acentuada por certos auto-
res. Alexandre, o Grande, apreciava Homero;
Cipião, o Africano, gostava em particular de
Xenofonte; Marco Bruto, de Políbio; Carlos
V, de Commines; em nossa época Machiavelli
é apreciado alhures; mas o falecido Marechal
Strozzi que tinha predileção por César fizera
sem dúvida a melhor escolha. Os comentários
de César deveriam realmente constituir o bre-
viário de todos os homens de guerra, pois ele
próprio é o modelo soberano da arte militar. E
Deus sabe com que graça e beleza adornou
ainda essa matéria já tão rica em si. Seu estilo
é tão puro e delicado, tão perfeito que, a meu
ver, nenhum hã que se lhe compare. . Quero
registrar aqui alguns feitos verificados durante
as guerras por ele empreendidas e que me vêm
a memória.
Seu exército estava algo receoso com os
boatos que corriam acerca da superioridade
numérica das forças do Rei Juba. Em vez de
combater a idéia, esforçando-se por diminuir
os meios do inimigo aos olhos de seus solda-
dos, reuniu-os e agiu de modo inteiramente
diverso, dizendo-lhes que não se preocupassem
mais com a importância das forças adversá-
rias, porquanto já se informara com precisão a
respeito: Enumerou-as então, exagerando-as
considêrávelmente. Seguiu nesse ponto o con-
selho de Ciro, em Xenofonte, pois o erro, se o
inimigo se revela mais fraco do que se espera,
não acarreta consequências sérias, ao passo
que o contrário é grave.
Acostumara seus homens a obedecer, sem
procurarem controlar ou discutir as ordens do
chefe, as quais só lhes eram comunicadas no
momento da execução; e se porventura perce-
biam algo comprazia-se em desiludi-los, modi-
ficando na hora os seus projetos. Muitas vezes
com tal fim, depois de determinar a etapa,
prosseguia na marcha, principalmente quando
o tempo era chuvoso.
Tendo-lhe os suíços, no início da guerra na
“Gália; solicitado permissão para atravessar
um território sob jurisdição romana, e estando
ele decidido a opor-se pela força a essa preten-
são, recebeu muito bem os mensageiros e
adiou a resposta por alguns dias, a fim de reu-
nir suas tropas. Esses pobres homens ignora-
vam a que ponto ele sabia aproveitar o tempo,
pois costumava repetir que o talento essencial
de um chefe consistia em tirar partido com
eficiência das oportunidades. A que desen-
volveu em seus feitos é realmente incrível,
inimaginável.
Não demonstrava grande escrúpulo em ilu-
dir o inimigo sob a proteção de um tratado e
não exigia de seus soldados outra virtude que
não a da valentia, nem punia outros vícios, que
não os da rêbeldia ou indisciplina. Amiúde,
após a vitória, dava-lhes toda liberdade,
340
dispensando-os por algum tempo do serviço
militar. Acrescente-se que, embora perfumados
e requintados, não deixavam de se lançar
impetuosamente à luta. Em verdade, gostava
de vê-los com armas de alto preço e lhes forne-
cia equipamento bordado de ouro e prata, a
fim de que, para os conservar e defender, se
mostrassem mais enérgicos. Tratava-os de
“companheiros”, como nós, o que foi abolido
por Augusto, o qual considerava que César o
fizera em vista das exigências do momento,
para agradar os que em suma Oo acompa-
nhavam voluntariamente. (“Na travessia do
Reno, César era general; .aqui ele é meu
companheiro. O crime nivela os cúmpli-
cesº'2)”) Mas esse tratamento não convinha
mais à dignidade de um imperador ou de um
general. E voltou a chamá-los “soldados”.
A tal cortesia, juntava César grande severi-
dade quando precisava punir. Tendo-se revol-
tado a nona Legião perto de Placência, deter-
minou César a sua dissolução e a degradou
como ignominiosa, embora Pompeu ainda se
encontrasse em armas, só a reconstituindo
após reiteradas súplicas. Serenava os ânimos
com sua autoridade e temeridade mais do que
com espírito de conciliação.
Quando se refere à travessia do Reno, para
entrar na Germânia, diz que achando indigno
do povo romano obrigar o exército a utilizar
barcaças, mandou construir uma ponte a fim
de que o atravessasse a pé. Foi então que cons-
truiu essa ponte admirável a cujo respeito nos
fornece tantos pormenores; pois em tudo o que
fez, agrada-lhe sobremaneira informar-nos
acerca da força criadora de sua imaginação
em obras desse gênero.
Verifiquei também que dava grande impor-
tância às exortações que dirigia aos soldados
no momento do combate, porquanto todas as
vezes que explica ter sido surpreendido ou pre-
cisado apressar-se, afirma que não pôde sequer
arengar suas tropas. Antes da grande batalha
que travou com os habitantes de Tournai,
escreve: “César, depois de ter dado as últimas
ordens, correu a um ponto qualquer a fim de
exortar seus homens. Encontrando a décima
Legião, pôde apenas dizer-lhe que se lembrasse
de sua habitual valentia, que não se atemori-
zasse e resistisse resolutamente aos esforços do
inimigo; mas já este chegara ao alcance dos
dardos, e César deu o sinal do ataque e correu
para outro lado, continuando a animar os sol-
dados. Encontrou-os em plena refrega.” Assim
é que fala disso nesse trecho de sua obra. E é
evidente que seu talento de orador lhe prestou
512 Juvenal.
MONTAIGNE
bons serviços em diferentes circunstâncias.
Mesmo em sua época essa eloquência militar
era tão apreciada que muitos registraram seus
discursos, Os quais assim se reuniram em volu-.
mes e lhe sobreviveram. Sua linguagem pos-
suía uma elegância particular, uma tal origina-
lidade que as pessoas de sua intimidade, como
Augusto, ao ouvir repetir o que recolhiam,
reconheciam sem dificuldade as frases e
mesmo as palavras que não eram dele.
Da primeira vez que saiu de Roma nó
“desempenho de uma função pública alcançou
o Ródano em oito dias; viajava com um ou
dois secretários em seu carro, os quais escre-
viam sem cessar o que lhes ditava. Um servi-
dor seguia atrás, com as armas.
Mesmo atravessando simplesmente o país,
mal se poderia fazê-lo com a rapidez com que
o fez quando, abandonando a Gália e seguindo
a retirada de Pompeu para Bríndisi, em dezoi-
to dias dominou a Itália. Voltando então de
Bríndisi a Roma, seguiu até os confins da
Espanha onde o aguardavam dificuldades na
guerra contra Afrânio e Petreio. Sitiou então
Marselha que resistiu bastante e correu à
Macedônia, batendo o exército romano em
Farsália. Em perseguição a Pompeu alcança o
Egito, que submete. Passa à Síria, combate
Fárnaces, volta à Africa e desmantela os exér-
citos de Cipião e Juba. Retornando à Itália,
dirige-se novamente à Espanha onde vence os
filhos de Pompeu: “mais rápido do que o
relâmpago, mais resoluto do que o tigre ao
qual arrancam os filhotes$'3?”. “Como um
enorme rochedo que, solapado pelas chamas e
arrastado pelos ventos, se precipita do alto da
montanha até ao vale, saltando no declive in-
greme com estrondo e levando de-arrastão ár-
vores, rebanhos e pastores *1 4,”
Falando do cerco de Avarico, diz que tinha
por hábito acompanhar dia e noite o trabalho
dos operários. Em todas as empresas de algu-
ma importância, procedia ele próprio a reco-
nhecimentos prévios; e nunca deixou que seu
exército passasse por caminhos que não hou-
vesse antes: observado pessoalmente. E, a acre-
ditarmos em Suetônio, quando da invasão da
Britânia foi o primeiro a medir a profundi-
dade da água no local de desembarque. -
Afirmava sempre que preferia uma vitória
negociada a uma vitória pela força. Na guerra
contra Afrânio e Petreio, ofereceu-lhe a sorte
uma oportunidade que se lhe afigurou favorá-
vel; afastou-a na esperança de que, pacien-
tando um pouco e correndo menor risco,
conseguiria melhor resultado. Nessa mesma
813 Tucano.
814 Virgílio.
ENSAIOS — MW
guerra fez uma coisa esp ntosa: obrigou o
exército inteiro a atravessar um rio a nado,
sem necessidade: “para voar ao combate, o
soldado toma o caminho que não ousara se-
guir na fuga. Molhado, cobre-se com as pró-
prias armas e aquece, correndo, os membros
entorpecidos pelo frio º1 5º
Acho César um pouco mais prudente e
circunspecto do que Alexandre. Este parece
andar sempre à procura do perigo, corre-lhe ao
encontro como uma impetuosa torrente que
tudo leva de roldão: “Assim o Áufido que
banha o reino de Dauno na Apúlia no tempo
das chuvas, semelhante a um touro fogoso,
rola suas águas torrenciais, ameaçando as sea-
ras com o flagelo das devastações ve E ver
dade que Alexandre já estava em plena ativi-
dade na flor da idade, enquanto César, já
maduro, apenas começava. Além disso, Ale-
xandre era de temperamento mais sanguíneo,
colérico e ardoroso, e que o vinho sobreexci-
tava, vício de que sempre se absteve César.
Entretanto, sempre que se fez necessário,
César mais do que ninguém soube expor-se.
Em mais de uma circunstância em que se
empregou pessoalmente a fundo, pode-se vis-
lumbrar nele a idéia de morrer para fugir à ver-
gonha da derrota. Na grande batalha travada
perto de Tournai, vendo sua vanguarda fraque-
jar, precipitou-se violentamente contra o inimi-
go sem sequer empunhar o escudo; e isso lhe
aconteceu várias vezes. Vindo a saber que
parte de suas tropas se achava cercada, atra-
vessou disfarçado as linhas inimigas a fim de
reconfortar os seus com sua presença. Tendo
desembarcado em Dirráquio com reduzidas
forças e vendo que o resto do exército, sob o
comando de Antônio, se atrasava, resolveu ir
buscá-lo, sob terrível tempestade, para passar
despercebido, pois o inimigo dominava as
águas e os portos da margem oposta; e reatra-
vessou o braço de mar que acabara de cruzar.
Entre as expedições por ele realizadas, múi-
tas há que, pelos riscos corridos, ultrapassam
qualquer aplicação judiciosa da arte militar.
Assim empreendeu a conquista do Egito com
efetivos muito pequenos e com estes mais tarde
foi atacar as forças de Cipião e Juba, dez vezes
superiores em número. Tais homens têm uma
confiança como que sobrenatural em sua sorte,
“e eis por que, referindo-se a esses empreendi-
mentos ousados, dizia que convinha executãa-
los sem indagar se deviam ou não ser tentados.
Depois da batalha de Farsália, como hou-
vesse embarcado antes seu exército, atravessou
o Helesponto sem escolta. Cruzando em alto
815 Tucano.
818 Horácio.
341
mar com L. Cássio à frente de dez barcos de
guerra, não somente teve a coragem de aguar-
dá-lo, mas ainda foi ao seu encontro intiman-
do-o a render-se, e o conseguindo.
Quando empreendeu o cerco de Alésia,
defendida por quarenta mil homens, toda a
Gália ergueu-se contra ele com um exército de
nove mil cavaleiros e duzentos e quarenta mil
infantes. Era temeridade e sinal de uma con-
fiança vizinha da loucura não desistir então do
cerco e ousar enfrentar as mais formidáveis
investidas. No entanto, enfrentou-as e depois
de vencer os de fora, obteve a capitulação dos
assediados. O mesmo ocorreu com Luculo em
Tigranocerta, na sua guerra contra Tigranes,
mas em condições diferentes, dada a moleza
do inimigo.
A propósito do cerco de Alésia, há que
observar dois fatos notáveis. Em primeiro
lugar o de terem os gauleses, após discussão da
tática a seguir, desmembrado de seu exército
boa parte das tropas, com medo de possível
confusão. Parece na verdade estranho que
pudessem temer a superioridade numérica,
mas é razoável que se procure fazer com que
os efetivos de um exército não sobreexcedam
certos limites, em razão da dificuldade em o
abastecer e impor rigorosa disciplina. Em todo
caso é fácil verificar que esses exércitos de efe-
tivos monstruosos nunca dão bons resultados.
No dizer de Ciro, não é o número de homens e
sim o número de combatentes em boas condi-
ções de combater que assegura a vantagem na
batalha. O resto somente perturba. Foi esse o
motivo principal que levou Bajazé a iniciar a
luta contra Tamerlão, embora a tanto se opu-
sessem seus capitães; esperava que a confusão
se introduzisse na imensa multidão que consti-
tuía o exército inimigo. Scanderberg, perito na
matéria, costumava dizer que dez a doze mil
soldados de confiança deviam bastar a um
- general capaz para resolver honrosamente
qualquer situação.
O segundo ponto está em que, contraria-
mente ao que sucede em geral na guerra e
manda a razão, Vercingetórige, comandante-
chefe das Gálias em revolta, tomou a decisão
de se enterrar em Alésia. Quem domina um
país não deve nunca imobilizar-se assim, a
menos de se achar forçado a isso por se tratar
de seu último reduto. Deve conservar sua liber-
dade de movimentos, a fim de ter a possibili-
dade de atender às solicitações de sua adminis-
tração. Com a idade, César tornou-se menos
resoluto e mais prudente, como nos diz Ópio
que vivia na sua intimidade, pois pensava que
não devia comprometer tão grande renome
com uma possível derrota. É o que exprimem
os italianos quando desejam censurar a um
342
jovem essa dusadia peculiar à idade: ao teme-
rário chamam então “bisognoso di onore”;
sequioso dé glória. Quem não a tem ainda;
procura alcançá-la a qualquer preço, enquanto
mais avisado se mostra quem já a conquistou.
Essa mudança observável em César podia pro-
vir de uma visão equilibrada, bem como de
certa fartura, porquanto também de honrarias
se saciam os homens.
César não pensava comôó os escrupulosos
romanos antigos, Os quais ão queriam dever
suas vitórias senão à própria Coragem. Contu-
do, mostrava-se mais consciencióso do que nós
em nosso tempo e não considerava que para
chegar à vitória fosse lícito lançar mão de
todos os meios. Na guerra contra Ariovisto es-
tava em negociações quando se verificou um
atrito entre os dois exércitos, provocado pelos
cavaleiros gauleses. Disso resultou uma situa-
ção muito vantajosa para César; não quis ele
entretanto aproveitá-la para que não se lhe
censurasse a má fé.
Em combate véstia um costume de cores
berrantes que o tornavam reconhecível de
longe. Quando o inimigo se avizinhava, mos-
trava-se muito mais severo e exigente de disci-
plina com seus soldados.
Outrora, quando desejavam acentuar a inca-
pacidade de alguém, diziam os gregos que
“não sabia nem ler nem nadar”. César achava
também que saber nadar era muito útil na
guerra. Quando queria ir depressa atravessava
em geral a nado os rios que encontrava em seu
caminho, e, como Alexandre, gostava de viajar
a pé. No Egito, obrigado de uma feita a preci-
pitar-se dentro de uma canoa para escapar do
inimigo, tânta gente fez o mesmo que houve
perigo de naufrágio e ele preferiu jogar-se ao
mar e nadar até a frota que se encontrava a
duzentos passos, o que fez segurando suas tá-
buas de escrever na mão esquerda e nos dentes
a sua cota, a fim de que o inimigo não se apo-
derasse dela como troféu. E isso em já não
sendo jovem.
Em nenhum chefe militar tiveram os solda-
dos tão grande confiança. No início de suas
guerras civis, seus centuriões propuseram-lhe
contribuir cada um com um soldado a mais e
seu infantes servi-lo gratuitamente; os mais
abastados auxiliavam os mais necessitados.
Com o falecido Marechal de Châtillon*"”?
tive a oportunidade de observar coisa seme-
lhante: os franceses de seu exército arcavam
com o soldo dos estrangeiros arregimentados.
Não se encontrariam exemplos iguais entre os
817 Mais conhecido por Almirante de Coligny.
MONTAIGNE |
à
que continuam a obedecer à ordem estabele-
cida, porque a paixão pode mais que a razão.
No entanto aconteceu em Roma, durante a
guerra contra Aníbal, que os guerreiros fize-
ram o sacrifício de seu soldo e no campo de
Marcelo tachavam de mercenários os que sé
recusavam a fazê-lo.
Tendo César fracassado em Dirráquio, seus
soldados apresentaram-se espontaneamente
para serem punidos, considerando-se culpados.
E, no entanto, uma só coorte, ela própria dizi-
mada, sustentara durante mais de quatro horas
os ataques de quatro legiões de Pompeu. Nas
trincheiras que defendia, encontraram-se cento
e trinta mil flechas. Um soldado, que defendia
uma dãs extremidades, aí se manteve sem arre-
dar pé, com um olho vazado, o ombro & uma
coxa feridos e o escudo marcado, ou amassado
em duzentos e trinta lugares. Muitos de seus
soldados aprisionados preferiram a morte a
passar para o partido contrário. Grânio Petrô-
nio fora feito prisioneiro na África por Cipião,
o qual, depois de mandar executar todos os
demais, ofereceu-lhe mercê. Assim agia porque
Petrônio era homem de elevada condição so-
cial e pretor. Mas este não aceitou e respondeu
que os soldados de César tinham por hábito
dar e não receber mercê. E com tais palavras
suicidou-se. E o número desses exemplos de
fidelidade é infinito.
A conduta dos defensores de Salona, cidade
que apoiava César contra Pompeu, é digna de
menção. Marco Otávio dirigia o cerco; os
sitiados estavam reduzidos à mais extrema
penúria. Para suprir a falta de combatentes em
sua maioria mortos ou feridos, deu-se liber-
dade aos escravos. Para manobrar as máqui-
nas de guerra cortaram os cabelos de todas as
mulheres e com eles fizeram cordas. A tudo
isso, juntava-se a carência de víveres. E, contu-
do, estavam resolvidos à não sé render. Sua
resistência já prolongara excessivamente o
assédio e Otávio mostrava-se negligente. Sua
vigilância afrouxara quando os sitiados, en-
viando as mulheres para os baluartes a fim de
que não parecessem abandonados, tentaram
uma surtida e com tanta bravura a executaram
que forçaram a primeira linha dos sitiantes, e a
segunda e a todas enfim; obrigando-os a aban-
donarem as trincheiras, perseguem-nos então
impelindo-os a reembarcarem. O próprio Otá-
vio teve de fugir até Dirráquio onde se encon-
trava Pompeu. Não me vem à memória ne-
nhum outro exemplo de sitiados que levassem
de roldão os sitiantes e se tornassem senhores
do campo de batalha, nem de outra surtida que
acarretasse uma vitória tão nítida, tão com-
pleta quanto se resultasse de batalha campal.
ENSAIOS — II
343
CAPÍTULO XXXV
Três boas mulheres
As mulheres verdadeiramente boas não exis-
tem às dúzias, como todos sabem. Em particu-
lar, quando as encaramos do ponto de vista
dos deveres matrimoniais, pois é o casamento
um contrato tão espinhoso que dificilmente
uma mulher mostra força de vontade suficiente
para observá-lo. Um bom casamento reconhe-
ce-se pela doçura, pela lealdade e vantagens
que se verificam na união. Em nosso tempo as
mulheres guardam comumente para depois de
morto as gentilezas e afeição que devem ao
marido: timbram então em ostentar seus gran-
des sentimentos, manifestação sem dúvida tar-
dia e inaproveitável. E com isso como que pro-
vam não os amar senão porque morreram. A
uma vida cheia de tormentos, sucede uma
morte toda de amor e gentilezas. Assim como
os pais disfarçam sua afeição pelos filhos, elas
escondem a sua pelo marido atendendo às
exigências das regras do decoro. Esse mistério
não me agrada. Que se descabelem e lamen-
tem, bastar-me-á indagar da camareira: “como
viviam na intimidade?” Tenho sempre presente
à memória esta sarcástica observação de Táci-
to: “os que menos sentem são os que mais cho-
ram”. Seus resmungos são odiosos aos vivos €
inúteis aos mortos. De bom grado aceita-
riamos que se rissem depois, conquanto hou-
vessem sorrido durante a nossa vida. E não é
de ressuscitarmos de despeito, ver aquelas que
nos cuspiram no rosto, em vida, virem beijar-
nos os pés, junto ao caixão? Se há alguma
decência em chorar o marido, cabe às que lhe
souberam sorrir. Mas que se riam agora as que
gemeram antes, que se mostrem como são real-
mente. Por isso não nos iludamos com os
olhos úmidos e a voz chorosa; atentemos para
o rosto cheio sob o véu, a tez, o jeito; aí se
encontra a sinceridade. Poucas há em tais
circunstâncias, cuja saúde não melhore grada-
tivamente e tal indício não mente. A atitude
circunstancial visa antes o futuro que o passa-
do; tem por fim antes comprar que pagar. Em
minha infância, uma senhora honesta e bela,
viúva de um príncipe, e que ainda vive, usava
não sei que adorno que não se vê nas viúvas. À
quem lho censurava, respondia: “é porque não
viso novas conquistas e não pretendo casar-me
de novo”.
Para não sair de meus hábitos escolhi aqui
três exemplos de mulheres que choraram tam-
bém seus maridos mortos, mas cujas atitudes
pouco vulgares implicam em uma revelação de
sua vida. Plínio, o Jovem, tinha um vizinho,
nas suas propriedades, gravemente ulcerado
nas partes que a decência manda esconder.
Vendo-o definhar, pediu-lhe a mulher que a
deixasse examiná-lo, pois lhe diria, mais fran-
camente do que outrem, que esperanças podia
ainda alimentar. Ele consentiu. Depois de
observá-lo atentamente, ela considerou que a
cuta era impossível e aconselhou-o a que se
matasse, porquanto iria agonizar lentamente,
dolorosamente, durante muito tempo ainda.
Achando-o algo hesitante em aceitar solução
tão radical, disse-lhe: “não penses, meu amigo,
que as dores de que padeces não me doem
tanto quanto a ti, e que, para escapar a elas,
não queira tomar o mesmo remédio que te
recomendo. Acompanhar-te-ei na cura como
na doença. Nada temas, portanto, e pensa no
prazer que experimentaremos nesta passagem
da vida para a morte, com a qual nos liberta-
remos de nossos tormentos; será uma viagem
feliz que faremos juntos”. Isso dito e tendo ani-
mado o marido, decidiu que se precipitariam
ao mar do alto de uma janela de sua residên-
cia, e para demonstrar-lhe até o fim a leal e
ardente afeição que lhe dedicava, quis que ele
morresse em seus braços, mas de medo que lhe
faltassem forças para tanto e se relaxasse o
abraço supremo na queda, mandou que a
amarrassem a ele pela cintura, abandonando
assim a vida em proveito da serenidade espiri-
tual do marido.
Essa mulher era de origem humilde e entre
as pessoas dessa condição social, tais gestos de
requintada beleza não são tão raros: “é para a
gente pobre que a justiça, fugindo de nossas
regiões, dirige seus passos 818”,
Os dois outros casos são de mulheres nobres
818 Virgílio.
344
e ricas, entre as quais não abundam exemplos
de virtude. !
Árria, mulher do Cônsul Cecina Peto, era
mãe de uma outra Árria, esposa de Tráseas
Peto, cuja virtude alcançou grande fama no
tempo de Nero, e por esse genro tornou-se avó
de Fânia. Estas explicações são necessárias
porquanto a similitude de nomes e condições
sociais tem provocado confusões. Tendo sido
aprisionado Cecina Peto, após a derrota de
Escriboniano, cujo partido abraçara contra o
Imperador Cláudio, Árria, sua mulher, pediu
aos que o conduziam que a deixassem embar-
car com ele, pois seria menos incômoda e
custaria menos do que a criadagem que deve-
riam contratar para o serviço do marido. E
comprometeu-se a tratar sozinha do quarto
dele, da comida e do resto. Recusaram. Árria
alugou então um barco de pescador e assim o
acompanhou desde a Esclavônia. Estavam em
Roma, quando um dia, na presença do impera-
dor, Júnia, viúva de Escriboniano, invocando o
comum infortúnio, interpelou-a familiarmente.
Árria atalhou com violência: “queres que te
fale, que te ouça, tu em cujos braços Escribo-
niano foi morto e que vives ainda!” Tais
palavras, e outros indícios, levaram, a pensar
que, não podendo suportar a desgraça do mari-
do, ela projetasse atentar contra a própria
vida. Tráseas, seu genro, suplicou-lhe então
que renunciasse à sua intenção, dizendo-lhe:
“se eu estivesse no caso de Cecina, gostarias
que minha mulher fizesse o mesmo?— “Se
gostaria? Por certo gostaria, se ela tivesse vivi-
do contigo na mesma harmonia em que eu vivi
com meu marido.” Essas respostas faziam que
dobrassem a vigilância e a seguissem de perto.
Um dia, em que ela acabava de dizer aos que a
vigiavam: “Podeis tornar minha morte mais
dolorosa, mas, impedi-la, não”, jJogou-se com
todas as forças de sua cadeira e foi dar com a
cabeça na parede, caindo desfalecida e grave-
mente ferida: “Bem vos dizia” afirmou ao vol-
tar a si “que se me impedirdes de recorrer a um
meio fácil, outro mais difícil encontrarei para
morrer.” E eis como acabou essa mulher tão
admiravelmente corajosa: Peto, seu marido,
não tendo ele próprio a coragem necessária
para decidir-se pela morte a que a crueldade
do imperador o impelia, Árria, a fim de cate-
quizá-lo e levá-lo à resolução imperiosa,
tomou do punhal que ele trazia à cinta e,
exibindo-o, exclamou à maneira de exortação
final: “Faze assim, Peto”, e no mesmo instante
afundou a arma no seio. Em seguida, arran-
cou-a da ferida e exalou o último suspiro
pronunciando estas generosas palavras que se
tornaram imortais: “Paeto, non dolet” (Peto,
não dói). Quando a casta Árria apresentou ao
MONTAIGNE |
marido a lâmina que arrancara do seio, disse:
“Acredita-me, Peto, este golpe não me doeu, o
que me dói é o que te vais dar por tua vez *'º.”
As palavras que ela realmente pronunciou são
bem mais expressivas e sublimes do que a
paráfrase do poeta. Não a preocupavam em
verdade a sua morte e a do marido, que dese-
java e arquitetara, o que a inquietava era o
temor que ele pudesse ter. Peto matou-se com
o mesmo punhal, mas a meu ver é vergonhoso
que tivesse tido necessidade de um tal exem-
plo.
Pompéia Paulina, jovem e mui nobre dama
romana, casara com Sêneca então já em idade
avançada. Nero, o “belo” discípulo desse filó-
sofo, enviara-lhe ordem de se matar, o que
assim se fazia: quando o imperador condenava
um personagem importante, ordenava-lhe por
intermédio de um oficial que escolhesse o gê-
nero de morte e se matasse dentro de um prazo
determinado, de acordo com o grau de ressen-
timento, dando-lhe tempo para tratar de seus
negócios ou ao contrário impedindo-o de fazê-
lo. Se a vítima não concordava em obedecer, o
oficial autorizava os carrascos que o acompa-
nhavam a abrirem-lhe as veias dos pulsos e das
pernas ou o forçava a engolir algum veneno.
Mas os homens de honra não se expunham a
tais medidas e recorriam a seus próprios cirur-
giões. Sêneca acolheu o mensageiro calma-
mente. Pediu papel para escrever seu testa-
mento, o que lhe foi recusado. Voltando-se
então para seus amigos, disse-lhes: “visto que
não vos posso nada deixar em sinal de grati-
dão pelo que vos devo, entrego-vos pelo menos
o que tenho de mais belo, a imagem de minha
vida que' vos suplico guardardes em vossa
memória, a fim de conquistardes a honra de
ser verdadeiros e sinceros amigos”. Ao mesmo
tempo procurava aplacar-lhes o sofrimento
com palavras de reconforto: “onde estão”
indagava “os belos preceitos filosóficos acu-
mulados durante tantos anos para assegurar-
nos contra os acidentes da sorte? Ignoráveis
“porventura a crueldade de Nero? Que podía--
mos esperar mais de quem matou a mãe e o
irmão, senão que matasse igualmente seu
preceptor?” Depois destas palavras que se
endereçavam a todos, voltou-se para a esposa
e abraçou-a estreitamente. Como ela se sen-
tisse desfalecer, pediu-lhe ele que suportasse
com mais resignação a desgraça, afirmando-
lhe que chegara a hora de provar com atos e
não com dissertações a verdade de seus estu-
dos, os quais determinavam que se acolhesse a
519 Marcial.
ENSAIOS — II
morte não somente sem revolta mas ainda com
alegria: “não a desonres pois com tuas lágri-
mas, amiga, para que não imaginem que amas
mais a ti mesma do que a minha reputação.
Acalma tua dor, consola-te com o que sabes de
mim e de meus atos; con“inua a praticar até o
fim as honestas tarefas a que te dedicaste”. Ao
que Paulina, voltando a si respondeu: “não,
Sêneca, não vos recuso minha companhia
nesta situação; não quero ver-vos pensar que
os virtuosos exemplos de vossa vida não me te-
nham ensinado a bem morrer. E como poderia
demonstrá-lo melhor, senão morrendo convos-
co? Crede-me, portanto, direi adeus à vida ao
mesmo tempo que vós”. Sêneca, atentando
para a bela e generosa vontade de sua mulher,
vontade que o libertava da apreensão de dei-
xá-la entregue aos seus inimigos, replicou:
“Aconselhava-te o que melhor convinha à tua
felicidade; preferes a honra de morrer; em ver-
dade não te posso negá-la. Demonstramos um
e outro idêntica resolução, mas a tua é mais
bela e gloriosa.” Cortaram-lhes então, a
ambos, as veias dos pulsos. Mas, Sêneca, por
causa da idade e das privações que se impunha
tinha a circulação mais lenta; determinou por
isso que lhe cortassem também as veias da
coxa. E para que seus sofrimentos não pertur-
bassem-sua mulher, bem como a fim de poupar
a si mesmo o espetáculo do desfalecimento
dela, disse-lhe amorosamente adeus e pediu
que o transportassem para outro aposento.
Entretanto, como as incisões não bastassem
para matá-lo, ordenou a seu médico Estácio
Aneo, que lhe preparasse um veneno, e o
tomou sem resultado, porquanto em virtude da
extrema fraqueza em que se achava e do frio
que já lhe paralisava os membros, não lhe so-.
freu os efeitos. Colocaram-no, em conse-
quência, em uma banheira de água bem quen-
te. Sentindo então aproximar-se o fim, quis
aproveitar seus últimos momentos emitindo os
mais belos comentários acerca de seu estado, e
seus secretários os registraram enquanto lhe
puderam ouvir a voz. Tais palavras foram
rememoradas muito tempo ainda após sua
morte, e é lamentável que não tenham chegado
até nós. :
Ao perceber que ia enfim falecer, tomou um
pouco de àgua ensangientada e soltando-a
sobre os cabelos, disse: “dedico esta ablução a
Júpiter”. Nero, a par de tudo o que ocorria,
minuto por minuto, e receoso de que a morte
de Paulina, que era uma senhora romana de
alta linhagem e contra quem, de resto, não ali-
mentava nenhuma inimizade, se tornasse moti-
vo de revolta contra ele, mandou apressada-
mente que a socorressem. Foi o que fizeram,
sem que ela o percebesse, pois já se achava
345
semimorta. Paulina continuou portanto a
viver, contrariamente à sua resolução, e sua
vida decorreu honradamente como fora de se
prever, dada tão grande virtude. Mas seu rosto
permaneceu lívido, atestando quão perto esti-
vera da morte.
Eis minhas três histórias, todas verdadeiras,
e tão trágicas e interessantes quanto as que
inventamos para distrair o público. E espanta-
me que os que se dedicam a isso, não as co-
lham na realidade em vez de as inventar. Pois
assim teriam menos trabalho e tirariam delas
maior proveito. Quem com elas quisesse escre-
ver uma obra, teria apenas que as ligar umas
as outras, como com a solda se unem dois
fragmentos de metais diferentes. Poderia assim
juntar ocorrências de toda sorie, dispondo-as
de acordo com as exigências da obra, mais ou
menos como fez Ovídio com suas
“Metamorfoses”.
No caso de Sêneca e Paulina, é de se notar
que se ela se propôs, por amor ao marido,
abandonar voluntariamente a vida, também
por amor a ela, ele outrora renunciara a mor-
rer. Na minha opinião, não há equivalência
entre tais propósitos, mas dadas as idéias
estóicas de Sêneca creio que, prolongando a
vida por causa dela, ele imaginava ter feito
tanto quanto se por ela morresse.
Em uma de suas cartas a Lucilio, conta-lhe
Sêneca da febre que teve em Roma. Tomando
seu carro dirigiu-se imediatamente para sua
casa de campo, apesar da oposição da mulher.
Mas ele atalhou que a febre tinha uma causa
local e seguiu. Eis o que diz: “deixou-me ir,
demorando-se em recomendações acerca de
minha saúde; ora, sabendo que ela só vive para
mim, tratando-me é dela que trato. Devo à
velhice ter adquirido, em certas coisas, maior
firmeza e resolução; mas isso de nada me serve
quando penso que, velho, cumpre poupar-me
por causa de uma jovem mulher. Não conse-
guindo torná-lã mais corajosa no amor que me
dedica, sou forçado a encarar de outra maneira
o que dedico a mim mesmo. É preciso fazer
algumas concessões às afeições honestas,
ainda que as circunstâncias nos incitem a agir
de modo inverso. É preciso então que nos ape-
guemos à vida, apesar do sofrimento que senti-
mos com tal resolução; cumpre-nos segurar
com os dentes a alma pronta para fugir, pois,
para a gente de bem, viver é uma obrigação
que lhes é imposta. Não é um prazer mas um
dever. Quem não estima bastante sua mulher
ou seu amigo para continuar a viver, quem se
obstina em morrer, é demasiado fraco de cará-
ter e carece de energia. É necessário que a
alma o aceite, quando os nossos o desejam. É
preciso por vezes atender aos amigos, e, ainda
346 MONTAIGNE
que nos convenha morrer, devemos, por eles,
sustar a decisão. É prova de generosidade e
coragem aceitar a existência em benefício de
outrem, como o demonstraram ilustres perso-
nagens. Damos provas de bondade muito par-
ticular ao concordar com a velhice (cuja maior
vantagem está na precariedade de sua duração,
a qual nos dutoriza a dispor da vida com mais
coragem e' “desdém) quando sentimos que à
carga que“assim aceitamos é doce, agradável e
útil aos com quem nos afeiçoamos. Haverá
melhor recompensa para esse sacrifício do que
nos sabermos queridos de nossa mulher,
ponto de por ela nos tornarmos mais queridos
de nós mesmos? Assim é que Paulina me
impôs a carga de seus temores e dos meus.
Não me foi mais permitido considerar apenas
quanto a morte correspondia a meus desejos;
tive de encarar também a aflição que lhe cau-
saria e aceitei a obrigação de viver. Consentir
em viver é por vezes um ato de magnanimida-
de”. Eis o que escreve, excelente em si e na sua
aplicação.
CapíTULO KKXVI
Dos homens preeminentes
Se me pedissem para fazer uma seleção
entre os homens que admiro, possivelmente
daria preferência a três, colocando-os acima
dos demais. Um é Homero, mas não porque
Aristóteles ou Varro tenham sido menos sã-
bios, nem porque Virgílio não lhe seja compa-
rável em sua arte. Quanto a este ponto,
Julguem-nos os que conhecem a ambos. Co-
nhecendo somente um º2º, parece-me que não
possam as próprias musas ultrapassar o poeta
latino: “canta com sua douta lira versos seme-
lhantes aos que o próprio Apolo modula na
sua *21?. Todavia, embora assim julgando, não
devo esquecer que Virgílio muito deve a
Homero, que o teve por guia e mestre e que de
um trecho da Ilíada tirou e desenvolveu sua di-
vina Enéida. Mas não calculo assim, levo em
conta as particularidades diversas que fazem
de Homeró um poeta admirável e como que
acima dos humanos. E em verdade estranho
que, tendo criado e imposto ao mundo tantas
divindades, não tenha sido ele próprio guin-
dado ao nível dos deuses. Era cego e indigente,
e viveu em uma época em que as ciências não
estavam ainda codificadas nem suas observa”
ções comprovadas. Conheceu-as entretanto
tão bem, que quem depois se abalançou a
organizar a administração de um país, a fazer
guerras, a escrever sobre religião, filosofia,
artes a ele se referiu como a uma autoridade
segura, valendo-se de seus livros como de uma
biblioteca imponente: “diz-nos melhor do que
Crisipo e Crantor em que consiste o homem, o
82º Montaigne lia os gregos em tradução latina.
821 Propércio.
que cumpre fazer ou evitar 922º. Ele é, como
diz Ovídio “a fonte inesgotável em que os poe-
tas vão embriagar-se com as águas sagradas de
Permesse?. Ou ainda: “entre os companheiros
das musas, Homero é reis23”. E outro:
“abundante manancial dos versos da posteri-
dade, rio imenso dividido em mil riachos,
herança de um só que a todos beneficia 82 *?.
É contrário à natureza das coisas, ter ele
produzido a melhor das obras criadas pelo
espírito humano, pois em geral tudo é imper-
feito em sua origem e só se fortalece e amplia
na medida em que se desenvolve. Com ele
entretanto a poesia e as ciências surgem já per-
feitas. Por isso mesmo podemos considerá-lo o
primeiro e o último poeta, porque, segundo o
belo testemunho da antiguidade, não imitou
ninguém nem ninguém o pôde imitar. Suas
expressões, no dizer de Aristóteles, são as mais
admiráveis na pintura do movimento e da
ação, e suas palavras todas significativas.
Alexandre, o Grande, tendo deparado com
um cofre riquíssimo nos despojos de Dario,
ordenou que o guardassem para Homero, afir-
mando ser este seu conselheiro, e o mais fiel,
quanto à arte militar. “Por essa mesma razão,
por ser muito bom mestre em questões ligadas
à arte militar, é o poeta dos lacedemônios”,
dizia Cleômenes, filho de Anaxandridas. Plu-
tarco, igualmente, elogia-o de modo particular
e bem pessoal: “o único autor no mundo que
não tenha nunca aborrecido seus leitores, aos
s24 Manílio.
822 Horácio.
523 Lucrécio.
ENSAIOS — II
quais se mostra sempre sob um aspecto novo”
Alcibíades, amante das excentricidades, tendo
pedido um exemplar de IHomero a alguém que
se jactava de ser profissional das letras, apli-
cou-lhe uma bofetada porque o não possuia,
pois julgava o fato tão condenável quanto o de
um sacerdote não ter seu bréviário.
Xenófanes queixava-se de uma feita a Hie-
ron, tirano de Siracusa, de'sér tão pobre que,
não podia sustentar dois escravos: “Como”
respondeu Híieron “Homero que era muito
mais pobre sustenta dez mil, apesar de morto.”
E que grande homenagem rendia Platão a
Panécio chamando-o de “Homero dos filóso-
fos”! Que outra glória pode comparar-se à
sua? Nada se encontra mais comumente do
que seu nome e suas obras nos discursos dos
homens. Nada se conhece mais do que Tróia,
Helena e suas guerras que talvez não hajam
existido sequer. Nossos filhos ainda usam
nomes que ele inventou há três mil anos. Quem
ignora Heitor e Aquiles? E não são apenas
algumas raças que fazem remontar sua origem
aos personagens que criou: a maioria das
nações reivindica igual honra. Maomé JJ,
imperador dos turcos, escrevia a Pio II:
“estranho que os italianos se aliem contra
mim, não descendemos nós ambos dos troia-
nos? E não temos o mesmo interesse em vingar
a morte de Heitor? No entanto sustentáis os
gregos contra os de meu sangue”. Não vos pa-
rece cheia de nobreza essa obra da imaginação
que cria um palco no teatro do universo, em
que desempenham há séculos os' mesmos
papéis todos os povos e monarcas? Sete cida-
des disputam a honra de o ter visto nascer:
Esmirna, Rodes, Cólofon, Salamina, Quio,
Argos e Atenas.
O segundo desses homens superiores é Ale-
xandre, o Grande. Considerem-se com efeito a
idade em que iniciou suas conquistas; os redu-
zidos meios de que dispunha para levar a cabo
tão gloriosa empresa; a autoridade que impôs,
“ainda adolescente, aos capitães que o seguiam,
e eram os maiores da época; os êxitos extraor-
dinários que a sorte lhe proporcionou e entre
os quais alguns houve por assim dizer temerá-
rios: “abatia tudo o que se opunha à sua ambi-
ção e comprazia-se em abrir caminho através
das ruinas 25”, Que coisa grandiosa ter
percorrido, com trinta e três anos, todo o
mundo conhecido em seu tempo, e alcançado
em uma metade de vida: normal o máximo a
que aspira um homem! E pode-se imaginar o
que aconteceria se sua existência se houvesse
prolongado, seu valor e sua boa sorte cres-
cendo na mesma proporção! Já é-muito ter.
525 Tucano.
347
feito de seus soldados os fundadores de tantas
casas reais, e deixado, ao morrer, o mundo a
quatro de seus capitães, os quais durante tanto
tempo ainda conservaram seus tronos. Quan-
tas virtudes tinha, de primeira ordem! Justiça,
temperança, generosidade, fidelidade à palavra
dada, amor aós seus, humanidade com os ven-
cidos. Seus costumes parecem, em verdade,
não ter sido manchados por nenhum vício, e
alguns de seus atos foram extraordinários,
raramente vistos. Mas é impossível conduzir
massas tão grandes sem jamais se afastar das
regras da justiça, e as pessoas que, como ele,
têm a incumbência de distribuí-la, precisam: ser
julgadas de um modo geral, segundo a idéia
mestra que preside seus atos. Contudo, a
destruição de Tebas, os assassínios de Menan-
dro e do médico de Heféstion, e o massacre de
tantos prisioneiros persas, € daqueles indianos
que se comprometera a poupar,'e dos cossea-
nos que foram exterminados com os próprios
filhos de peito, constituem atos impulsivos
indesculpáveis. Quanto à morte de Clito, a
reparação ultrapassou o erro, o que revela,
com outros gestos, o fundo natural de bondade:
de seu caráter. E foi com tanto espírito quanta
verdade que dele se disse, “provirem suas qua-
lidades da natureza e seus vícios de seus êxi-
tos”. Apreciava demasiadamente a lisonja e
era um tanto exageradamente sensível à críti-
ca. O que fez na Índia, abandonando armas e
arreios para assinalar sua passagem, pode atri-
buir-se à idade e aos seus êxitos espantosos.
Considerem-se também suas qualidades milita-
res tão numerosas: a diligência, a previdência,
a magnanimidade, a resolução, o respeito à .
disciplina, a paciência, a sagacidade, a sorte
que fariam dele o maior guerreiro, ainda que
Aníbal com sua autoridade não o houvesse
proclamado; considerem-se sua beleza excep-
cional, suas qualidades físicas, seu porte impo-
nente, que impunham respeito, embora seu
rosto fosse jovem e corado: “semelhante ao
astro brilhante da manhã, astro que Vênus pre-
fere a todos os demais do firmamento, quando
saindo do oceano se ergue majestoso e dissipa
as brumas da noite 528”: e ainda seu saber e
sua capacidade que tudo abarcavam; a dura-
ção e a grandeza de sua glória pura, sem man-
cha, que a inveja não atingiu; considere-se que
muito tempo depois de sua morte ainda se pen-
sava supersticiosamente que suas medalhas
davam sorte; que mais reis e príncipes escreve-
ram seus feitos que historiadores os de outro
qualquer; qué os maometanos, que desprezam
todas as lendas, aceitam e respeitam a sua;
tudo isso, em conjunto, mostra que tenho
526 Virgilio.
348
razão em preferilo ao próprio César, único
que pudera fazer-me hesitar na escolha, pois
não há negar que a personalidade deste teve
maior participação nos seus feitos, ao passo
que Alexandre os deve mais aos fados. Iguais
em tudo, talvez ganhe César sob certos aspec-
tos. Foram dois incêndios, duas torrentes que
devastaram o mundo em lugares diversos.
“Como fogos acesos em diferentes pontos de
um bosque cheio de gravetos e folhas secas
crepitantes, ou cemo torrentes impetuosas
rolando com estrondo e espuma do alto da
montanha, em direção ao mar, após tudo haver
devastado pelo caminho *2 7)
Mas, ainda que a ambição de César tenha
sido mais moderada, causou tanta infelicidade
a seu país e ao mundo que, bem pesados
ambos, não posso deixar de manifestar-me a
favor de Alexandre.
O terceiro £, a meu ver, o melhor de todos, é
Epaminondas. Não goza, nem de longe, a fama
de muitos outros, mas isso não me parece
essencial. E em matéria de coragem e resolu-
ção, não essas que a ambição excita, mas as
que a sabedoria e a razão inspiram, tinha-as
tanto quanto possível. E deu provas dessas vir-
tudes, como Alexandre ou César. Embora seus
feitos guerreiros não tenham sido nem tão
numerosos nem tão importantes, deixam de se
evidenciar, dadas as circunstâncias, igual-
mente sérias, testemunhando as dificuldades
que lhe coube vencer, grande ousadia e talento
militar. Os gregos honraram-no com o titulo
de “maior dos gregos” e ser o maior na Grécia
correspondia a ser o maior no mundo. Quanto
à sua inteligência, temos idéia dela por este jul-
gamento de um contemporâneo: “Nunca nin-
guém soube tanto e falou tão pouco”, pois per-
tencia à seita de Pitágoras. Sempre que falou
ninguém disse melhor; era excelente orador e
tinha o dom de persuadir. No que concerne aos
costumes e à consciência, ultrapassou de
muito todos os que participaram da gestão dos
negócios públicos, pois nesse ponto essencial,
que dá a medida real de nosso valor, ele
contrabalança os demais, e não fica abaixo
nem mesmo de Sócrates. Nele a pureza era a
qualidade precípua, soberana, constante, in-
corruptível, diante da qual a de Alexandre se
afigura inferior, indecisa, variável, frouxa.
Julgou a antiguidade que, analisando um a
um os grandes capitães, encontraria em cada
um deles a qualidade específica que o tornara
ilustre. Em Epaminondas virtude e capacidade
se igualam; em nenhuma circunstância de sua
s27 Id.
MONTAIGNE |
existência deixa algo a desejar; tanto na vida
pública como na vida privada, na paz como na
guerra; e não conheço nenhum destino huma-
no que eu mais honre e aprecie, qualquer que
seja o aspecto por que o encare.
Considero, é certo, demasiado escrupulosa
sua obstinação em permanecer pobre, e seus
melhores amigos também o consideravam.
Esse sentimento, tão elevado e digno de admi-
ração, é o único ponto que, pelo exagero, se
presta à crítica. E não gostaria de imitá-lo
nisso.
Cipião Emiliano, se tivesse tido um fim tão
glorioso quanto o dele, e conhecimento tão
aprofundado das ciências, seria o único digno
de comparação com Epaminondas. Quanto
lamento que o paralelo estabelecido por Plu-
tarco entre essas vidas, exatamente as mais no-
bres entre as que escreveu, do maior dos gre-
gos e do maior dos romanos, se tenha perdido.
Que magnífico tema, e que esplêndido artífice !
Se buscarmos, porém, um homem que não
seja um santo, mas tão-só alguém de costumes
honestos e grandeza moderada, o de vida mais
bela a meu ver, e mais rica em aspectos notá-
veis, é Alcibiades.
Para comprovar a excelência de Epaminon-
das, indicarei aqui mais algumas de suas
maneiras de ver. A maior satisfação de sua
vida consistiu, segundo diz ele próprio, no pra-
zer que tiveram seus progenitores quando de
sua vitória em Leuctras. Orgulha-se mais do
contentamento dos pais que do seu próprio que
fora muito justificável, em feito tão glorioso!
“Não julgava lícito, ainda que com o objetivo
de libertar seu país, mandar matar alguém sem
previamente julgá-lo.” Eis por que mostrou tão
pouco interesse em se juntar a seu amigo Peló-
pidas na conjuração urdida para a libertação
de Tebas. Considerava também que, numa
batalha, se devia evitar de encontrar algum
amigo entre os adversários, para não ser força-
do a poupar-lhe a vida. Sua humanidade para
com os próprios inimigos tornou-o suspeito
aos beócios, quando, tendo, por milagre, obri-
gado os lacedemônios a franquearem os desfi-
ladeiros próximos de Corinto, se contentou
com passar, sem os perseguir até a extermina-
ção. Por isso foi destituido do cargo de
capitão-general, revogação que-o honra gran-
demente dada a razão invocada, e em verdade
os que a haviam decretado viram-se constran-
gidos a reconduzi-lo ao cargo, reconhecendo
que dele dependiam sua salvação e sua glória,
pois a vitória acompanhava-lhe os passos. E
assim como nascera com ele, com ele se extin-
guiu a prosperidade de sua pátria.
ENSAIOS — II 349
CapíTuLO XXX VII
Da semelhança dos filhos com os pais
Só ponho a mão no feixe de peças diversas
deste livro, quando não tenho nada mais a
fazer; e nunca fora de casa. Daí, ter-se ele
completado através de repetidas soluções de
continuidade, pois as circunstâncias me têm
obrigado a ausências consecutivas, não raro de
meses. Aliás, nunca substituo novas idéias
pelas primeiras: pode ocorrer-me que mude
uma palavra, a fim de variar minha expressão,
mas não que modifique os próprios pensamen-
tos. Quero mostrar a evolução destes, quero
que os acompanhem desde a origem, e lamento
não ter começado antes de maneira a poder
segui-los em seus desenvolvimentos sucessivos.
Um lacaio a quem costumava ditá-los, pensou
pregar-me uma boa peça roubando-me alguns
fragmentos que escolheu a dedo. Consolo-me
com saber que nisso não ganhará mais do que
eu perdi.
Desde que iniciei este livro, fiz-me mais
velho de sete ou oito anos, o que não se verifi-
cou sem novas aquisições. Assim é que me
deram os anos algumas cólicas nefríticas, que
a companhia da idade nunca deixa de produzir
frutos dessa ordem. Entre os diversos presentes
que os anos têm por hábito oferecer-nos, gosta-
ria que me houvessem reservado outro mais de
minha conveniência: não podiam dar-me ne-
nhum que eu detestasse mais, e isso desde a
infância; era precisamente o que eu mais
temia.
Muitas vezes, pensei com meus botões que
já ia demasiado longe no caminho da vida; que
em tão longa jornada não me podia deixar de
ocorrer algum desagradável encontro. Senti-o
e protestava contra, dizendo para mim mesmo
que chegara a hora de partir; que é preciso
interromper a existência, cortando-a no vivo e
na parte ainda sã, como fazem os cirurgiões;
que quem não devolve, em tempo certo, a vida
que lhe é emprestada pela natureza, paga a dí-
vida com juros de usura. Entretanto, ainda an-
dava tão longe de estar preparado para a parti-
da, que começo a adaptar-me a tão
desagradável situação, apesar de já vir esta
durando há cerca de dezoito meses. Ajeitei-me
a essas dores que se tomaram companheiras
inseparáveis e nelas deparo com motivos de
consolação e esperanças; os homens andam
tão sordidamente afeiçoados à sua miserável
vida que tudo aceitam conquanto a conservem.
Escutai o que diz Mecenas: “que não possa
mais servir-me das mãos, nem dos pés, que
seja um aleijado e tenha perdido os dentes,
pouco importa! Tudo irá bem, conquanto
viva?,
Tamerlão, a fim de disfarçar com tola
humanidade a crueldade com que matava a
quantos leprosos encontrava, dizia que era
para libertá-ios de uma vida demasiado dolo-
rosa. Como se houvesse leproso que o não pre-
ferisse ser três vezes mais do que morrer !
Muito doente, Antiístenes, o cínico, exclama-
va: “quem me livrará de meus males?” Dióge-
nes que Oo viera visitar apresentou-lhe uma
faca, observando: “isto, e de imediato se quise-
res”. “Não peço que me arranquem a vida”
respondeu o filósofo “mas tão-somente os
males.” Os .sofrimentos que só afetam a alma
atuam menos sobre mim do que sobre a maio-
ria dos homens, em parte porque certas coisas
que o mundo considera horríveis, e procura
evitar com o sacrifício da própria vida, me são
inteiramente indiferentes; e em parte porque,
por temperamento, sou insensível aos aciden-
tes que não acarretam dor, o que se me afigura
um privilégio. Quanto aos sofrimentos físicos,
a que não podemos obviar, sou, ao contrário,
extremamente sensível. Mas, outrora, encaran-
do-os com esse olhar amedrontado, e que o
longo período de saúde que Deus me propor-
cionou tornara mais timido ainda, concebi-os
tão temíveis e intoleráveis que em verdade foi
então maior o receio do que o mal ocorrido
depois; o que me confirma na idéia de que as
faculdades da alma, como .as empregamos,
antes provocam em nós perturbações do que
nos prestam serviços.
Sou atualmente presa da pior das doenças, a
mais repentina, a mais dolorosa, a mais mor-
tal, diante da qual os médicos se confessam
impotentes. Já sofri três ataques, longos e
penosos; e no entanto, ou muito me engano ou
ainda sobram nesse estado razões para supor-
tá-la, conquanto não se tema a morte e não se
preste atenção as ameaças, conclusões e adver-
350
tências dos médicos. A dor em si não tem tal
acuidade que provoque desespero e furor em
um homem calmo. Essas cólicas comportam
ao menos a vantagem de me familiarizar enfim
com a idéia da morte, pois quanto mais me
atormentam e importunam menos me sinto
preso à vida. Hão de desfazer o nó que ainda
me amarra, e Deus queira que em se fazendo
mais violentas ainda não venham a rejeitar-me
no extremo oposto, igualmente condenável, de
aspirar à morte ! “Não temas nem desejes o úl-
timo dia º28º. Há que recear ambas as paixões,
mas o remédio é mais acessível para uma do
que para outra.
Aliás, sempre considerei puro exibicionismo
o preceito que ordena tão rigorosa e positiva-
mente que se mostre alguém desdenhoso e
calmo ante o sofrimento físico. Por que a filo-
sofia, que só leva em conta o que é real e suas
consequências, se compraz nessas exteriori-
dades? Que deixe isso aos tolos e aos retóricos
que tão grande importância emprestam aos
nossos gestos. Que nos acorde o direito à
covardia verbal — desde que não provenha do
caráter — e a classifique entre os suspiros, e
palpitações, soluços e lágrimas que a natureza
não nos permite evitar. E desde que não atin-
jam o ânimo, e não fraqueje a nossa mente,
pouco importam as caretas e os trejeitos. É
para nós mesmos e não para os outros que nos
educa a filosofia; para que sejamos e não para
que pareçamos ser. Que restrinja sua ação ao
nosso julgamento; que aos esforços das cólicas
oponha a nossa alma fortalecida e lúcida, dis-
posta a combater o sofrimento e a resistir-lhe;
pode essa alma comover-se ante a perspectiva
da luta, mas não deve abater-se, nem ceder. É
preciso que continue capaz de prosseguir na
faina habitual. Em circunstâncias tão difíceis,
fora cruel exigir de nós atitudes antinaturais €
se a alma se mantém em bom estado de saúde
pouco importa a nossa fisionomia. Se o corpo
encontra alívio em se lamentar, que se lamen-
te; se lhe apraz agitar-se que o faça à vontade;
se imagina (como dizem alguns médicos do
reconforto que às mulheres no momento de
parir lhes trazem os berros) tirar algum bem
dos gritos e vociferações, que grite e vocifere.
Aceitemos tais manifestações, embora sem as
procurar. Não somente Epicuro perdoa ao
sábio que grite em seus tormentos, como o
aconselha: “Assim fazem os lutadores; gol-
peando o adversário, agitando o cesto, soltam
rugidos; pois sob o efeito da voz todo o corpo
se retesa e o golpe é assestado com maior
vigor º2ºº Já nos dá o mal bastante trabalho
528 Marcial.
529 Cícero.
MONTAIGNE
sem que nos embaracemos com regras supér-
fluas.
O que digo, dirige-se aos que em geral pro-
testam com violência contra essa doença, pois
eu, até hoje, consegui manter certa discrição,
contentando-me com gemer. E não porque me
esforce por conservar uma aparência de cora-
gem (dou pouca importância a tais méritos e
não hesito em fazer concessões à dor); mas tal-
vez minhas dores não sejam tão insuportáveis
ou talvez tenha eu maior capacidade de resis-
tência. Queixo-me e me aborreço com as pon-
tadas, mas há “quem grite, gema, e berre
lamentavelmente 3º? Eu não chego a tal
desespero. Analiso-me durante esses ataques e
sempre verifiquei que continuo capaz de falar,
pensar, responder como de costume, não, con-
tudo, de maneira fluente, pois a dor perturba
por vezes a atenção. Quando os que me assis-
tem procuram poupar-me, calando, eu mesmo
me ponho a discorrer sobre assuntos em nada
relacionados com a doença. Em suma, tudo
posso fazer, conquanto não seja coisa prolon-
gada. Como gostaria de ter a sorte daquele
indivíduo, a que se refere Cícero, que sonhava
dormir com uma cortesã e se achou assim livre
do cálculo que lhe obstruía o canal da uretra.
Outros são os efeitos de meus males! Nos
intervalos das dores excessivas que provocam
os cálculos, volto de imediato ao estado nor-
mal, tanto mais quanto não me atingem a
alma, o que devo certamente ao cuidado com
que raciocino e me sugestiono a propósito da
enfermidade: “agora nenhuma dor, nenhum
perigo poderiam surpreender-me; tudo previ,
estou preparado para o que der e vier*3'2. E,
no entanto, a prova é rude para um aprendiz; a
transição foi rápida e dura, pois passei repenti-
namente de uma existência serena e feliz a um
estado dos mais dolorosos que se possam ima-
ginar. Além de ser essa doença perigosa em si,
teve ela comigo um início mais difícil e agudo
do que em geral e os ataques repetem-se tão
amiudadamente que minha saúde se me afigu-
ra definitivamente abalada. Todavia consegui
até agora manter-me em tal estado de espírito
que, se não se alterar, ainda terei uma exis-
tência bem melhor que a de mil outros que não
têm febre nem outra doença senão a ane eles
próprios imaginam.
Há uma espécie de humildade que deco
da presunção. Consiste em reconhecermos
nossa ignorância em certas coisas e confes-
sarmos que há nas obras da natureza qualida-
des e condições cujas causas escapam ao
nosso entendimento. Com essa honesta e cons-
530 Átio.
531 Virgílio.
ENSAIOS — II 351
cienciosa declaração, esperamos que nos acre-
ditem quando falamos do que afirmamos
entender. Mas para que estabelecer diferenças
entre os milagres e as coisas incompreensíveis
que não nos dizem respeito? Parece-me que
entre as que temos habitualmente diante dos
olhos, algumas há estranhamente inexplicá-
veis, mais ainda do que os milagres. Prodi-
gioso é com efeito o que o sêmen prolífico
engendra e traz a marca não somente da cons-
tituição física de nossos pais, mas ainda de
seus pensamentos e tendências. Onde se aloja,
nesse germe, esse número infinito de formas
embrionárias? Como se ordenam tais formas
para que, através de um processo que não obe-
dece a nenhuma regra, um neto se assemelhe
ao avô, um sobrinho ao tio? Na família de Lé-
pido, em Roma, três indivíduos nasceram com
mancha idêntica no mesmo olho, e isso não se
transmitiu de pai a filho mas com intervalos de
gerações. Em Tebas houve uma linhagem que
se caracterizou pela marca em forma de lança
que todos traziam na nádega desde o nasci-
mento, a ponto de não se considerarem legíti-
mos os descendentes que não a revelavam.
Aristóteles afirma que em certa tribo em que
as mulheres eram comuns a todos, os pais
reconheciam os filhos pela semelhança com
eles. É de crer que deva a meu pai essa predis-
posição para os cálculos, pois ele morreu de
um cálculo muito grande na bexiga e só soube
de sua doença aos sessenta e sete anos. Até
então nada sentira que o alertasse, nem nos
rins, nem do lado, nem alhures; vivera em per-
feito estado de saúde e sua enfermidade durou
sete anos, durante os quais passou muito mal.
Eu nasci vinte e cinco anos antes que a doença
se declarasse, em uma época em que sua saúde
era excelente; fui o terceiro filho. Onde, duran-
te esse tempo, se alojou a enfermidade? E.
como, em estando meu pai tão longe ainda de
seus padecimentos, essa frágil emanação dele,
que me deu origem, pôde ser por ele impreg-
nada a ponto de transmitir-me sua deficiência
quarenta e cinco anos mais tarde? E como se
explica que, entre tantos irmãos e irmãs da
mesma mãe, somente eu tenha sido atingido
pela doença? Quem me explicar a causa pode
estar certo de que aceitarei também as explica-
ções que porventura me venha a dar acerca de
outros milagres, conquanto não se valha de al-
guma teoria mais fantástica ainda do que o
próprio fato, o que se verifica não raro.
Desculpem-me os médicos a minha liber-
dade de linguagem, mas esse mesmo germe,
produto da fatalidade, comunicou-me igual-
mente o ódio as suas doutrinas. A minha anti-
patia pela sua arte é hereditária. Meu pai viveu
setenta e quatro anos; meu avô sessenta e
nove; meu bisavô quase oitenta, todos sem que
nunca tomassem qualquer medicamento e a
tudo que não fosse de uso comum conside-
ravam droga. A medicina tem origem em
observações e experiências; do mesmo modo
formei minha maneira de ver. Essa longevi-
dade não revela também uma experiência e das
mais belas? Não creio que todos os médicos
reunidos pudessem observar em seus registros
três casos semelhantes, de homens nascidos,
educados e falecidos no mesmo lar e que lhes
devessem sua longa vida. Terão por certo de
confessar que, se não tenho razão, tenho, pelo
menos, O acaso a meu favor; ora o acaso é um
mestre bem mais admirável que a razão. Que
não tirem vantagem de meu estado presente e
não me ameacem; aterrado como ando, não
seria leal. Na realidade, esses exemplos fami-
liares, embora pouco numerosos e restritos,
dão-me alguma vantagem; mas as coisas
humanas não duram tanto, pois dezoito anos
faltam, apenas, para que minha experiência
alcance dois séculos, tendo nascido meu bisa-
vô no ano de 1402. Não seria portanto de
espantar que desta feita tomasse outro rumo.
Que não me censurem os males que nesta hora
me ferem; já vivi quarenta e sete anos com
excelente saúde, parece-me suficiente. E se
minha vida findasse agora, ainda seria das
mais longas.
Meus antepassados, por tendência inata e
não raciocinada, apreciavam mediocremente a
medicina; a simples vista de drogas era odiosa
a meu pai. O Sr. de Gaviac, meu tio paterno e
homem de igreja, sempre foi doentio; nem por
isso viveu menos de sessenta e sete anos.
Tendo sido atacado de violenta e ininterrupta
febre, resolveram os médicos declarar-lhe que
se não confiasse nos cuidados deles, estaria
-infalivelmente perdido (chamam cuidados ao
que em geral impede a cura). O bom homem,
amedrontado com tão ameaçadoras palavras,
respondeu-lhes: “pois então sou um homem
morto”, mas Deus não tardou em desmentir o
sombrio prognóstico. Eram quatro irmãos;
somente o mais moço, Sr. de Bussaguet, recor-
reu aos médicos e creio que o fez por causa de
suas relações com gente de outras profissões,
porquanto ele próprio era conselheiro no
Parlamento. Triste idéia a sua, pois embora
parecesse o mais robusto dos quatro, morreu
muito antes; só um, Sr. de Saint-Michel, o pre-
cedeu no túmulo.
É possível que me venha deles esta. tendên-
cia contra a medicina. Mas se não houvesse
senão isso, teria tentado dominá-la, pois toda
idéia preconcebida é destituída de razão e por-
tanto má. É doença que cumpre combater. Tal-
Jaz
vez minha opinião provenha de uma predispo-
sição, mas que a razão posteriormente
confirmou, e fortaleceu, pois não acho justo
condenar-se a medicina pelo que tem de
desagradável e entendo que a saúde deve ser
conservada mesmo à custa das mais penosas
práticas. Porque, se de acordo com Epicuro, as
grandes volúpias que redundam em maiores
dores devem ser evitadas, as dores que acarre-
tam volúpias excessivas não devem tampouco
ser ambicionadas. É por certo a saúde coisa
mui preciosa, a única merecedora de todas as
nossas atenções e cuidados e de que a ela se
sacrifiquem não somente todos os bens mas a
própria vida,. porquanto na sua ausência a
existência se nos torna pesada e porque sem
ela o prazer, a sabedoria, a ciência, e até a vir-
tude se turvam e se esvaem. Aos argumentos
mais sólidos que nos pudesse apresentar a filo-
sofia, a fim de nos provar o contrário, bastaria
opor a impossibilidade em que se teria encon-
trado Platão, durante um ataque de epilepsia
ou apoplexia, de arrancar qualquer auxílio das
ricas faculdades de sua alma. Nenhum cami-
nho que conduzisse à saúde se me afiguraria
rude ou difícil, mas tenho motivos, pelo menos
aparentes, para desconfiar profundamente das
asserções dos médicos. Não afirmo que a
medicina não possua alguns dados sérios; nem
. que entre todos os produtos da natureza ne-
nhum exista capaz de ajudar a conservarmos a
saúde. Sei que cértas plantas provocam a
transpiração, e outras a eliminam; sei por
experiência que a raiz-forte produz gases, e
que as folhas do sene são purgativas. Muitas
outras coisas me são familiares através de
observações, como por exemplo que a carne do
carneiro é nutritiva e o vinho reconfortante. Já
dizia Sólon que a comida é um remédio como
qualquer outro, o remédio contra a doença da
fome. Não sou hostil ao aproveitamento dos
produtos naturais e não duvido da eficiência
dos recursos da natureza, nem da possibilidade
de os utilizarmos. Bem vejo como os pássaros
e Os peixes têm razão de confiarem nela, des-
confio das invenções de nosso espirito, de
nossa ciência, de nossa arte que não sabemos
conter dentro de prudentes limites e pelas
quais nós abandonamos a natureza e suas leis.
Assim como enfeitamos com o nome de jus-
tiça um amontoado de leis, não raro aplicadas
de maneira inepta e iníqua (e quem as critica
não pensa em condenar a nobre virtude mas
tão-somente o abuso de colarem um respei-
tável rótulo em tão lamentável sistema) assim,
também, dão o nome de medicina, que honro e
respeito, bem como admiro o que se propõe, a
coisas que não honro nem estimo.
MONTAIGNE |
Antes de tudo, ensinou-me a experiência a
temer os médicos, pois não há quem adoeça
mais depressa e mais lentamente se cure do
que os que se entregam nas mãos dos médicos.
Até a saúde se altera com as dietas que eles
inventam. Não se contentam os médicos com
tratar das doenças, vigiam igualmente a saúde,
a fim de que em nenhum momento lhes escape
a vítima. Pois não vislumbram em uma saúde
florescente o indício de enfermidades futuras?
Estive várias vezes doente, e minhas doenças
foram iguais às de todos, não me fizeram so-
frer mais nem se prolongaram anormalmente,
embora não consultasse os-médicos, auferindo
com isso a vantagem de não as envenenar com
o amargor de mil receitas. Quando me sinto
bem, ajo a meu bel-prazer, sem me impor qual-
quer regra e levando em conta apenas os meus
hábitos e a minha satisfação. Em viagem qual-
quer lugar convém a meu repouso, pois não
preciso de regime especial quando adoeço, não
me preocupando com a presença de médico ou
boticário, o que atormenta a muitos mais do
que a própria enfermidade. Aliás, serão os mé-
dicos, eles mesmos, com sua saúde e média de
vida, exemplos comprobatórios da eficácia de
sua ciência?
Não há povo que não tenha permanecido
durante séculos sem médicos. E esses séculos,
os primeiros, foram sempre os mais felizes.
Ainda hoje a décima parte dos habitantes do
mundo não conhece a medicina. Numerosas
nações, onde vivem melhor do que aqui e mais
tempo, nunca viram médicos. E entre nós o
povo miúdo passa muito bem sem eles. Os
romanos ficaram seiscentos anos sem médicos
e, depois de experimentá-los, expulsaram-nos
por instigação de Catão, o Censor, o qual
demonstrava como vivera oitenta e cinco anos,
bem como sua mulher, não sem apelar para a
medicina, mas sem recorrer aos médicos, pois
essa denominação de medicina pode aplicar-se
a tudo o que contribui para a conservação da
saúde. E tratava da família, ao que diz Plutar-
co, obrigando-a a comer muitas lebres. Já os
árcades, no dizer de Plínio, curavam todas as
doenças com leite de vaca, e os líbios, segundo
Heródoto, gozam em geral excelente ;saúde
graças ao hábito de cauterizar as veias do pes-
coço e das fontes de seus filhos quando che-
gam aos quatro anos, impedindo-os assim,
para o resto da vida, de contraírem defluxos.
Na região em que nasci, os camponeses usam
somente vinho bem forte misturado com aça-
frão e outras especiarias.
E, em verdade, para que servem todas essas
receitas confusas senão para esvaziar o ventre,
o que podem fazer mil plantas encontradiças
ENSAIOS — II
em nossas terras? Ademais não acredito muito
na utilidade de tal prática, pois é possível que a
natureza exija que fiquem os excrementos
durante algum tempo na barriga, assim como a
permanência da borra é necessária à conserva-
ção do vinho. Vemos por vezes homens perfei-
tamente sãos que, sob o efeito de algum aci-
dente, vomitam e evacuam quantidade de
excrementos, sem que a isso fossem solicitados
antes do choque e sem utilidade aparente,
antes com inconvenientes e posterior agrava-
ção de seu estado de saúde.
Aprendi outrora com Platão que a pior das
três espécies de perturbações que podemos
provocar em nós é a ocasionada pelos purgan-
tes, aos quais, a menos de ser louco, ninguém
deve recorrer senão em úitimo extremo. Pertur-
bamos e excitamos o mal com o que lhe opo-
mos. Fora necessário que nosso gênero de
vida, sozinho, o amolecesse, atenuasse, € O
extinguisse enfim. A luta violenta que a droga
trava com o mal, é-nos sempre prejudicial,
porquanto ocorre em nós e a droga não favo-
rece a nossa saúde, e só a aceitamos quando
enfermos. Deixemos que a natureza aja: assim
como assegura a conservação das pulgas e das
fuinhas, assegura a dos homens, quando estes
pacientemente concordam em ser por ela
governados. Por mais que gritemos
“depressa!” não conseguiremos tornar mais
rápida a sua marcha. Ficaremos roucos e nada
mais. Nosso temor, nosso desespero longe de a
incitar a auxiliar-nos afastam-na de nós. Tanto
quanto o curso da saúde, cumpre-lhe assegurar
o da doença e não há de favorecer um mais do
que o outro, pois sz assim procedesse não
haveria ordem, e sim desordem. Sigamo-la, por
Deus! Ela dirige os que a seguem e arrasta os
que a não acompanham, com toda a sua medi-
cina. Pedir uma receita de purgante para o cê-
rebro, será mais útil do que para o estômago !
Perguntaram a um lacedemônio como vive-
ra tanto tempo com saúde: “porque não conhe-
ço drogas”, respondeu. O Imperador Adriano,
ao morrer, repetia sem cessar que o excesso de
médicos o matara. Um mau lutador fizera-se
médico: “coragem” disse-lhe Diógenes “tens
razão; vais agora poder derrubar todos os que
te derrubaram outrora”. Como observa Nico-
cles “têm eles a sorte de o sol iluminar-lhes os
êxitos e a terra esconder-lhes os erros”.
Ademais são peritos na arte de tirar partido
dos acontecimentos, quaisquer que sejam. Se,
por acaso, a natureza (ou qualquer outra
causa) atua favoravelmente, atribuem a cura à
sua ciência; cabe-lhes o mérito de todas as
melhoras observadas, e vangloriam-se, em
suma, junto aos que os solicitam, daquilo que
Soo
nos curou, a mim e a mil outros, sem sua
ajuda. Quanto aos acidentes que lhes ocorrem,
ou os negam completamente, ou os imputam
ao doente, invocando as razões mais fúteis e
ridículas: um descobriu o braço; outro ouviu o
ruído de um carro: “o barulho dos carros api-
nhados nas ruas estreitas º32”: entreabriu a
Janela; deitou-se de lado; idéias tristes passa-
ram-lhe pela mente. Uma palavra, um sonho,
um mau-olhado são desculpas suficientes. Ou,
quando lhes convém melhor, utilizam a agra-
vação em prol de seus interesses, procedendo
da maneira seguinte que não falha: quando a
doença piora em consequência do remédio,
afirmam que, sem este, fora bem mais grave; se
o medicamento provoca ligeira febre em quem
se achava resfriado, dizem que sem ele a febre
seria mais violenta. Pouco lhes importa o
êxito, pois o prejuízo acarreta-lhes também
lucros. Têm razão em exigir de suas vítimas
uma confiança otimista, pois é preciso mesmo
que a tenham estas, e total, para que aceitem
tudo o que os médicos imaginam, por absurdo
que seja. Platão dizia, com sabedoria, que os
médicos podem mentir descaradamente, por
isso que nossa salvação depende da frivolidade
e da falsidade da segurança que nos dão.
Esopo, autor de talento excepcional, e cuja
graça poucos são capazes de entender, diver-
te-se e nos diverte em descrever a autoridade
com que dominam os pobres de espírito enfra-
quecidos pela doença e o medo. Conta-nos de
um paciente que responde às perguntas de seu
médico acerca do efeito dos remédios reco-
mendados: “Transpirei muito”. “Excelente.”
Mais tarde, não tendo visto a vítima durante
algum tempo indaga como passara desde o pri-
meiro dia: “Senti muito frio, e violentos tremo-
res.” “Muito bom.” Uma terceira vez, inqui-
rindo ainda do estado do mesmo doente, ouve
a seguinte resposta: “Sinto-me inchar, como se
estivesse com hidropisia.” “Perfeito.” E quan-
do o criado do enfermo chega, após essa últi-
ma visita, para saber da saúde do amo, este lhe
diz: “Vou bem, meu amigo, tão bem em verda-
de, que acho que estou morrendo.”
Houve no Egito uma lei muito justa que
isentava o médico de qualquer responsabi-
lidade durante os três primeiros dias de trata-
mento. Nesse lapso de tempo assumia o
paciente todos os riscos, mas depois dos três
dias o médico tornava-se responsável pela vida
do enfermo e o tratamento corria por sua
conta. Se Esculápio, o mestre de todos eles, foi
fulminado por ter reanimado Hipólito, por que
seus continuadores, que matam tanta gente,
832 Juvenal.
354
deveriam gozar de imunidades? “Júpiter, in-
dignado com o fato de um mortal ter sido reti-
rado da noite infernal e trazido novamente à
luz do dia, fulminou o filho de Apolo, inventor
dessa arto audaciosa, e o precipitou no
Estige 233.”
Certo médico jactava-se perante Nícocles,
da autoridade considerável que sua arte havia
alcançado: “Sem dúvida” observou Nícocles
“podes matar impunemente.”
Se eu fosse médico apelaria mais para O
mistério e a providência. Na verdade começa-
ram bem, mas não prosseguiram nesse cami-
nho. Foi um bom ponto de partida buscar a
origem dessa ciência nos deuses e demônios,
valendo-se de uma língua e de uma escrita
esotéricas, muito embora a filosofia considere
errado dar conselhos ininteligiveis a quem
deles precisa tirar proveito: “como se, para
recomendar a um doente comer caracol, lhe
ordenasse o médico que pegasse uma criatura
da terra, que ande pela grama e carregue sua
casa às costas *3 *?. E é inteligente de sua parte
exigir do paciente, como fazem as artes basea-
das no sobrenatural e na fantasia, uma fé sufi-
ciente para auxiliar a ação do médico, e o efei-
to do remédio. O que os leva a declarar que
mais vale o profissional em quem confiamos,
embora ignorante, do que o mais brilhante
desconhecido. A própria escolha de suas dro-
gas tem algo misterioso e sagrado: pé esquerdo
de tartaruga, urina de lagarto, excremento de
elefante, figado de fuinha, sangue de asa direita
de pombo branco! E para os que como nós so-
frem de cólicas nefriíticas (não abusam bas-
tante de nossas misérias?) excremento pulveri-
zado de rato e outras prescrições absurdas,
mais do domínio da feitiçaria do que da ciên-
cia. E deixo de lado outras singularidades: nú-
mero impar de pílulas, dias certos para tomá-
las, horas determinadas para colher as plantas
que entram nas receitas, e finalmente a atitude
rebarbativa e refletida que assumem e de que
zomba Plínio. Com tão belo início, não deve-
riam ter esquecido de acrescentar que suas reu-
niões e consultas seriam secretas e de caráter
religioso. Nenhum profano seria admitido nes-
sas assembléias, como o não era no culto de
Esculápio. Porquanto, se qualquer pessoa
puder ser testemunha de suas indecisões, da
fraqueza de seus argumentos em defesa do que
imaginam adivinhar e discutem acrimoniosa-
mente, cheios de ódio e de inveja, precisará ser
cega para que neles confie. Quem jamais viu
um médico confirmar simplesmente a receita
de um confrade, sem nada acrescentar ou cor-
833 Virgílio.
834 Cícero.
MONTAIGNE
'
tar? Revelam assim a inanidade de sua arte e
mostram que mais os preocupam a própria
fama e os lucros do que os doentes. E sábio foi
certo médico da antiguidade que lhes recomen-
dava não se metessem uns com os doentes dos
outros, pois, em nada conseguindo de útil, o
erro de um só não prejudica o bom nome da
corporação, ao passo que a glória do êxito a
todos aproveita. Aliás, quando se reúnem vá-
rios médicos em torno de um mesmo caso,
desmoralizam a profissão com dissensões e
brigas, tanto mais quanto em geral os resulta-
dos não são brilhantes. Deveriam evitar de tor-
nar público esse desentendimento que as pes-
soas cultas sabem ter sempre existido entre os
mestres de sua ciência, mas que o povo ignora.
Vejamos alguns exemplos dessas divergên-
cias no passado remoto. Hierófilo atribui aos
humores a origem de nossas doenças; Erasis-
trato, ao sangue das artérias; Asclepíades, à
superabundância ou à escassez das energias fi-
sicas; Díocles, a um desequilíbrio na propor-
ção dos elementos que compõem nosso corpo,
bem como à qualidade do ar que respiramos;
Estráton, a um excesso, a uma dificuldade de
assimilação e a uma corrupção dos alimentos;
Hipócrates, aos espíritos. Um de seus ami-
gos *3 8, que os médicos conhecem melhor do
que eu, diz a propósito que “a ciência mais
importante para nós, aquela à qual incumbe a
conservação de nossa saúde, é infelizmente a
mais incerta, a mais confusa, a mais agitada
pelas continuas mudanças de doutrina”. Não
há grande mal em errarmos na medida da dis-
tância do sol, bem como em qualquer cálculo
astronômico, mas no caso da medicina é nosso
ser que estã em jogo e não me parece prudente
nos abandonarmos ao sabor dos ventos.
Antes da guerra do Peloponeso não se fala-
va dessa ciência: Hipócrates deu-lhe crédito.
“Todas as regras que estabeleceu, foram poste-
riormente modificadas por Crisipo. Erasis-
trato, neto de Aristóteles, destruiu tudo o que
Crisipo construíra. Depois deles vieram os
empíricos que aplicaram a essa arte métodos
inteiramente diversos. Mais tarde Hierófilo
defendeu outra orientação contra a qual se er-
gueu Asclepíades, o qual impôs por seu turno
seu modo de ver. As opiniões de Temisson e
em seguida as de Musa firmaram-se então,
após as quais surgiram as de Vectio Valens,
célebre pelas suas relações com Messalina. No
tempo de Nero, Téssalo dominou: aboliu e
condenou tudo o que precedera. Sua doutrina
foi derrubada por Crinas, de Marselha, o qual
voltou a subordinar a medicina às tábuas
astronômicas e à influência dos astros; as
835 Plínio.
ENSAIOS —II 355
horas das refeições, à posição de Mercúrio e às
fases da lua. Sua autoridade logo foi suplan-
tada pela de Carino, também de Marselha, o
qual combateu não somente os métodos da
medicina antiga, mas também o uso de banhos
quentes que, com os séculos, se tornara um há-
bito. Mandava ele se mergulhassem as pessoas
na água fria mesmo no inverno.
Até a época de Plínio, nenhum romano se
dedicara à medicina. Era exercida pelos
estrangeiros e os gregos, como entre nós, fran-
ceses, pelos que massacram o latim, pois,
como diz um grande médico, não acreditamos
na medicina que compreendemos nem no
remédio que vamos buscar na natureza. Se
existem médicos nas. regiões de onde nos vêm a
salsaparrilha e o guáiaco, devem recomendar o
repolho e a salsa, em virtude da preferência
que sempre damos ao que é estranho, raro e
caro, não ousando ninguém desprezar o que se
vai colher tão longe à custa de mil perigos.
Entre essas transformações da medicina an-
tiga e a da nossa época, houve outras em nú-
mero infinito, as mais das vezes radicais e
universais, como as introduzidas por Paracel-
so, Fioravante e Argentário, os quais não
somente modificam por completo o receituá-
rio, mas ainda as próprias regras da arte e até
as condições de seu exercício, qualificando
como ignorantes e charlatães todos os seus
antecessores. Imaginai, depois disso tudo,
onde vai parar o doente!
Se, ao menos, quando se enganam, não nos
prejudicassem, teriamos uma vaga possibili-
dade de cura sem correr grave risco. Diz-nos
Esopo de um indivíduo que comprara um
escravo mouro que, imaginando provir a cor
de sua pele dos maus-tratos infligidos pelo an-
tigo dono, obrigou-o a seguir um tratamento
de banhos e tisanas, o que não lhe modificou a
cor, mas lhe alterou profundamente a saúde,
antes excelente.
Quartos médicos não vemos, atribuindo-se
uns aos outros a culpa pela morte de suas víti-
mas? Recordo-me de uma doença muito peri-
gosa, não raro mortal, que se observou há tem-
pos nas cidades de minha região, atingindo
principalmente as classes pobres. Passada a
epidemia, depois de ter feito número conside-
rável de vítimas, publicou certo médico uma
obra em que criticava o uso da sangria no
combate ao-mal e confessava ter sido esse tra-
tamento a causa principal dos casos fatais.
Há mais, porém. Os que escrevem, entre os
médicos, afirmam não haver remédio sem efei-
tos nocivos; ora, se mesmo os que são eficien-
tes nos prejudicam de um modo ou de outro,
que diremos dos que absorvemos fora de
propósito? Ademais, creio que, para os que
não suportam o gosto dos remédios, constitui
perigoso esforço ter de tomá-los à força, pois
isso exaure o doente que tanto precisa de
repouso. Por outro lado, considerando as cau-
sas tão fúteis que os médicos apontam para as
nossas enfermidades, é de se deduzir que o
mais insignificante erro na dosagem, ou na
aplicação do remédio, pode ocasionar graves
danos. E se o erro de um médico é perigoso,
eis-nos em bem má situação, pois é muito difi-
cil que não o repita amiúde. Precisa ele de
demasiado número de exames e de informa-
ções circunstanciadas para opinar judiciosa-
mente: cabe-lhe conhecer o temperamento do
doente, sua temperatura, seus humores, suas
predisposições, suas ocupações e até o que
pensa e sonha; cumpre-lhe saber das condições
ambientes, da natureza do lugar, do ar, do
clima, da posição dos astros e suas influências;
é necessário que não ignore as causas da doen-
ça e seu caráter, seus efeitos, os dias críticos;
precisa conhecer o peso da droga que ministra,
sua ação, o país de onde vem, seu aspecto, a
data em que foi preparada, a fim de calcular a
quantidade a ser receitada. Tudo calculado e
entrosado harmonicamente. Por pouco que se
engane, que entre tantos elementos diferentes
um só venha a falhar, eis-nos perdidos. Ora, só
Deus sabe das dificuldades que há em conhe-
cer tantas particularidades! Como, por exem-
plo, determinar o caráter preciso da doença, se
ela se apresenta sob tão variadas formas?
Quantos debates e dúvidas provoca a análise
da urina? Sem tais dificuldades não andariam
a discutir permanentemente acerca do diagnós-
tico e não teriam desculpas para o erro que
cometem não raro de confundir alhos com
bugalhos. Cada vez que os consultei, por ínfi-
ma que fosse a dificuldade, nunca encontrei
três da mesma opinião.
Naturalmente minhas observações ba-
seiam-se principalmente na minha experiência
pessoal. Ultimamente, em Paris, um fidalgo
submeteu-se a uma operação por determinação
dos médicos; não encontraram em sua bexiga
mais cálculos do que em minha mão. Aqui
também, certo bispo de minhas relações fora
insistentemente aconselhado a submeter-se a
idêntica operação. Eu mesmo, convencido
pelos médicos dessa necessidade, interviera
para decidi-lo. Tendo morrido, ao ser autop-
siado verificaram que só sofria dos rins. Os
médicos no caso dessa doença são menos
“desculpáveis ainda, porquanto ela é por assim
dizer, palpável. A meu ver a ciência cirúrgica
oferece maior segurança, porque com ela se vê
e sente o que se faz. Depende menos de conje-
356
turas e intuições. Os médicos não podem usar
espéculo para examinar o cérebro, os pulmões,
o figado, tampouco lhes podemos dar crédito
quando lhes cabe atentar para ' sensações
contrárias observáveis simultaneamente em
vários órgãos, intimamente ligados como
quando sentimos calor no figado e frio no estô-
mago. Procuram então convencer-nos de que
um remédio alcança a bexiga e outro os rins,
sem que atuem, em caminho, sobre outros ór-
gãos;e insistem em que durante tão longo per-
curso conservam sua eficiência até chegar ao
ponto certo em que devem entrar em ação suas
qualidades ocultas. Tal remédio seca o cére-
bro, tal outro umedece o estômago, mas não é
de espantar que, misturados, se separem por si
sós e vá cada qual desempenhar seu papel?
Pois eu receio — e muito — que se percam e
se enganem. E não poderá acontecer que se
alterem em contato um com o outro? Final-
mente a execução da receita cabe ainda a uma
terceira pessoa, em quem precisamos confiar e
à qual deixamos entregue o cuidado de nossa
vida!
Para nossas roupas temos quem só confec-
cione gibões, e quem só faça calças; somos
tanto mais bem servidos assim quando cada
qual se ocupa apenas de sua tarefa e seu talen-
to se exerce dentro de limites estreitos. Não
seria tão perito o alfaiate que tudo fizesse sozi-
nho. Quanto à alimentação, é vantagem dos
ricos terem vários servidores. Um prepara a
sopa, outro as carnes; um só cezinheiro não
consegue dar, à comida toda, igual sabor. Por
isso mesmo não admitiam os egípcios que o
médico fosse universal º3 8º: devia especiali-
zar-se em algum ramo de sua arte. Cada doen-
ça, cada parte do corpo tinha seu especialista €
assim era, provavelmente, mais bem tratada e
segundo suas necessidades. Não vêem os médi-
cos de hoje que quem a tudo atende não atende
a nada e que, ocupar-se de todas as solicita-
ções desse pequeno mundo do corpo humano,
ultrapassa suas possibilidades. Temerosos de
que sustando a disenteria provocassem a febre,
mataram eles um amigo meu que valia mais do
que todos eles juntos. À realidade da doença
só podem opor o peso de suas conjeturas, a fim
de não curar o cérebro em detrimento do estô-
mago, com suas drogas discordantes e desor-
denadas estragam o estômago, e perturbam o
cérebro. No que concerne à razão de ser de
seus juízos, é essa arte mais fraca e contradi-
tória do que as outras. Ora dizem que as subs-
tâncias excitantes convêm a quem tem cólicas,.
porque abrem € dilatam os condutos internos, '
836 Diríamos, hoje, não especializado ou de clínica
geral. (N. do T.)
4
MONTAIGNE
carreiam a matéria viscosa que engendra os
cálculos e precipitam o que principia a acumu-
lar-se e a endurecer nos rins; ora afirmam que
essas mesmas substâncias são perigosas, por-
que, abrindo e dilatando os condutos, encami-
nham para os rins essa matéria que se trans-
forma em cálculos, obstruindo aqueles órgãos
já propensos a se obstruírem. E acrescentam
que, se porventura um cálculo maior do que o
canal que lhe cabe atravessar neste se introduz,
levado pelas ditas substâncias, pode ocorrer a
morte dolorosíssima do paciente.
Seus conselhos acerca do regime que deve-
mos seguir não me parecem muito mais lógi-
cos é coerentes. Ora dizem que é preciso urinar
frequentemente porque a experiência demons-
tra que se deixamos a urina estagnar na bexiga
ela se decanta e os excrementos que nela se
encontram formam uma espécie de borra pro-
pícia à constituição dos cálculos; ora afirmam
que não devemos urinar repetidamente, pois,
em virtude de seu peso, os excrementos só
serão expelidos se o jato for muito forte, por-
quanto uma torrente impetuosa limpa o leito
das águas muito melhor do que um regato
lerdo e sereno. Também dizem por vezes que é
conveniente ter contatos amiudados com as
mulheres porque isso abre os condutos e faz
circular a areia; e por vezes que é prejudicial
porque esquenta os rins e os enfraquece. Ora
insistem na ação benfazeja dos banhos quen-
tes, porque amolecem e tornam mais flexíveis
os órgãos em que se alojam os cálculos; ora os
consideram nocivos porque o calor ajuda a
cozer e petrificar as matérias que forma os cál-
culos. Aos que fazem estações de águas dizem
que precisam comer pouco a noite a fim de que
a água a ser ingerida pela manhã atue melhor
em virtude de estar o estômago vazio; mas
também afirmam o contrário. Ou então obser-
vam que é necessário comer pouco ao meio-
dia, a fim de não perturbar a ação da água to-
mada pela manhã e não sobrecarregar o
estômago após a tarefa cumprida; ou que o
principal esforço digestivo deve ser deixado
para a noite, porque de dia o corpo e o espírito
estão permanentemente agitados.
Eis como raciocinam os médicos, com loro-
tas, a expensas nossas. Não há opinião sua que
não possa ser imediatamente contraditada com
argumento de igual peso, senão maior. Não se
censure portanto quem, diante de tantas
contradições, se deixa conduzir pelos seus ins-
tintos, e pela sorte que preside aos nossos
destinos.
Tive a oportunidade, em minhas viagens, de
» visitar quase todas as estações de águas do
mundo cristão e há alguns anos as venho
frequentando porque julgo que os banhos são
ENSAIOS — II
salutares e que muitas afecções provêm do fato
qe termos perdido o hábito de lavar diaria-
mente o corpo, como se fazia em quase todas
as nações do passado e ainda se continua a
fazer em algumas.. Não posso compreender
que haja alguma vantagem em conservar os
poros obstruídos pela sujeira. Quanto a beber
essas águas, fizeram os fados que isso não me
contrariasse o paladar; por outro lado é coisa
natural e tão simples que, se não é útil, tam-
pouco será perigosa, o que se deduz aliás do
número considerável de pessoas de toda espé-
cie de temperamento que as tomam. E se não
pude ainda constatar, nem por mim nem pelo
que sei dos outros, nenhum desses efeitos mila-
grosos que se proclamam e nos quais muitos
acreditam (pois nos enganamos facilmente
com o que desejamos), não vi tampouco nin-
guém cujo estado houvesse piorado com o uso
de tais águas. Posso afirmar, sem exagero, que
despertam o apetite, facilitam a digestão e pro-
vocam um certo bem-estar, a menos que as
busquemos já em muito mau estado, o que não
aconselho. Se não podem reconstituir um fisi-
co arruinado, podem pelo menos auxiliar quem
o tenha ligeiramente combalido e evitar males
maiores. Quem as procura sem se sentir com
ânimo suficiente para usufruir o prazer da
sociedade que aí encontre, dos passeios e
excursões a que convide a beleza do lugar,
perde indubitavelmente o melhor e o mais efi-
ciente dos seus efeitos. Por isso tenho sempre
escolhido as localidades mais agradáveis pelos
seus sítios, e ao mesmo tempo as mais cômo-
das do ponto de vista da hospedagem e da
sociedade. Em França, a estação de Bagnêre;
nos confins da Alemanha, a de Baden; na Tos-
cana, a de Lucca, e em particular as águas
“della Villa” de que me vali várias vezes.
Cada lugar tem suas idéias acerca do modo
de aproveitar as águas. Quanto aos efeitos,
são, ao que me parece, os mesmos em toda
parte. Na Alemanha não se bebem as águas;
usam-nas em banhos e passam quase todo o
tempo patinhando na água; na Itália bebem-
nas nove dias e banham-se durante trinta, pelo
menos. Em certas estações, obrigam-nos a pas-
sear para melhor as digerir; em outras, for-
çam-nos a permanecer deitados e aquecem-nos
o estômago e os pés para manter um calor con-
tínuo durante a digestão. Os alemães em geral
aplicam-nos ventosas dentro da água. Os italia-
nos usam duchas durante um mês, uma hora
pela manha e outra ao cair da noite, na cabeça,
no estômago ou outra qualquer parte do corpo,
segundo as necessidades. Variam assim.os cos-
tumes de acordo com a região, e a bem dizer
não há a menor semelhança entre o que se faz
em dado país, e o que se observa em outro. Eis
357
como essa parte da medicina, a única que acei-
tei em particular, embora menos artificial que
as demais, participa contudo da confusão e da
incerteza que se deparam nessa arte.
Os poetas tratam com mais ênfase e graça
todos os assuntos, este como os demais, segun-
do se vê destes epigramas: “Ontem, Álcon
tocou. a estátua de Júpiter e, embora seja ela de
mármore, pôde o deus constatar o poder do
médico: retiram-no hoje do templo e vão enter-
rá-lo, conquanto seja deus, e de pedra** 7.”
“Andrágoras banhou-se ontem conosco e em
seguida ceou alegremente; hoje encontraram-
no morto. Queres saber, Faustino, a causa de
tão inesperada ocorrência? Viu em sonho o
médico Hermocrata 8º 8.”
A propósito, aqui vão mais histórias. O
Barão de Caupêne en Chalosse e eu temos
iguais direitos à renda de uma propriedade
chamada Lahontan, muito extensa e situada
no sopé da montanha. Os habitantes como, ao
que dizem, os do vale de Angrogne, levavam
uma existência à parte, com costumes, usos e
vestimentas particulares; eram governados e
administrados segundo instituições e tradições
observadas desde sempre, de pai a filho. Essa
pequena região vivera sempre em tão felizes
condições que nenhum juiz da vizinhança se
apercebera de sua existência, nenhum advo-
gado aí trabalhara, ninguém jamais fora cha-
mado a dirimir contendas, nunca se vira
alguém do lugar entregar-se à mendicância;
evitavam os contatos com a gente de fora para
que não se alterasse a pureza das instituições.
Isso durou, como eles próprios dizem, até que
um deles, atormentado pela ambição, lem-
brou-se de fazer do filho um personagem.
Tendo este aprendido a escrever numa cidade
vizinha, veio a tornar-se tabelião da aldeia.
Logo começou o moço a desprezar os antigos
- costumes e a encher a cabeça dos compa-
nheiros com as grandezas das regiões vizinhas.
Ao primeiro que teve uma cabra descornada
aconselhou que desse queixa aos juízes reais a
fim de obter uma indenização; e assim fez com
outros até tudo: desmantelar. Logo após esse
germe de corrupção, dizem, outro surgiu de
consequências bem mais graves. Resolveu
certo médico casar com uma jovem do lugar e
para aí mudar sua residência. Esse médico
começou por lhes ensinar os nomes das febres,
dos resfriados e dos abscessos; suprimiu de-
pois o alho que lhes servia de remédio para
todos os males, por graves que fossem, e indu-
ziu-os a tomarem, para qualquer tosse ou
defluxo, elixires exóticos, especulando não
837 Ausônio.
538 Marcial.
358
somente com a saúde como com a morte.
Juram eles que foi a partir de então que princi-
piaram a perceber que o sereno dá dor de cabe-
ça, que se pode ficar doente em bebendo quan-
do faz calor, que os ventos do outono são mais
pestilentos que os da primavera, e que, esma-
gados sob ó peso de doenças, até aquele
momento ignoradas, verificaram uma diminui-
ção geral de seu vigor físico bem como da
duração de sua vida.
Eis a segunda história.
Antes de ter sido atacado de gravela, ouvin-
do algumas pessoas de comprovado bom senso
se referirem ao sangue de bode como a um
remédio maravilhoso caído dos céus e susce-
tivel de prolongar a vida humana, eu, que sem-
pre pensei que poderia ser vítima de todos os
males, tive a idéia, ainda cheio de saúde, de
preparar o bálsamo milagroso. Determinei
pois que criassem um bode de acordo com as
informações que obtivera. O regime deve ini-
ciar-se nos meses mais quentes do ano €e cons-
tituir-se de ervas purgativas e vinho branco em
lugar de água. Por acaso estava eu em casa, no
dia em que o deviam matar. Vieram dizer-me
que o cozinheiro percebera nas tripas do ani-
mal, pelo tato, a presença de duas ou três bolas
em meio aos alimentos digeridos. Por curiosi-
dade mandei trazerem as entranhas e fiz que as
abrissem. Eram três corpos volumosos, leves
como esponjas, aparentemente ocos, mas
duros por fora e de cores mortiças. Um, pare-
cia bem redondo e era do tamânho de uma
bola pequena; os dois outros, menores, não se
mostravam perfeitamente redondos ainda.
Tendo pedido informações junto às pessoas
habituadas à tais tarefas, soube que se tratava
de um caso raro; eram, provavelmente, cálcu-
los da mesma família que os nossos. A acredi-
tar-se na coisa, bem va será a esperança dos
doentes que imaginam curar-se com o sangue
de um animal atacado de igual enfermidade,
pois não se sabe se é contagiosa e, dizer que
não se transmite pelo sangue, não se me afigu-
ra certo. Em todo caso é de se admitir que
nada se engendre em um corpo sem a coopera-
ção de todas as suas partes, solidárias entre si;
em verdade algumas mais ativas do que outras,
nas todas participantes. E é provável que as
do bode, todas elas, tivessem alguma predispo-
sição para a gravela. Acrescento que não dese-
java fazer a experiência por temor de chegar
ao que mais tarde cheguei, mas a executava
assim como as mulheres que fazem provisão
de remédios e mezinhas para socorrer os ou-
tros e os aplicam a mil doenças diferentes, sem
que entretanto os usem elas próprias, muito
embora dêem por vezes bons resultados.
Como quer que seja respeito os médicos,
MONTAIGNE |
não porque o determine o Eclesiastes 3º (pois
a esse preceito oponho outro em que o Rei Asa
é censurado por ter recorrido a um médico),
mas como indivíduos, pois muitos há honrados
e dignos de nosso apreço. Não os ataco e sim a
sua arte; não Os recrimino por tirarem proveito
de nossa tolice, porque todos agem de igual
maneira e não faltam profissões mais ou
menos honrosas que só subsistem e prosperam
abusando do público. Chamo-os quando estou
doente; peço-lhes que se ocupem de mim e pa-
go-os como qualquer pessoa. Permito-lhes que
me recomendem resguardo, quando assim o
desejo; autorizo-os a mandarem fazer minha
sopa com alho-porro ou alface e prescrever-me
vinho branco ou clarete, coisas pelas quais não
tenho preferência nem repugnância acentua-
das. Nenhuma outra concessão, porém, pois
tudo o que empregam sabe a amargor. Por que
ordenava Licurgo que os espartanos tomassem
vinho quando doentes, senão por não o supor-
tarem habitualmente? Pela mesma razão certo
fidalgo de minha vizinhança o adota contra a
febre, porquanto o detesta em seu estado nor-
mal. E quantos médicos não se vêem, compar-
tihando minhas idéias, vivendo como bem
entendem, de maneira absolutamente contrária
à que pregam aos outros? Que significa isso,
senão abusar de nossa simplicidade? Pois, afi-
nal, sua vida e sua saúde não lhes são menos
preciosas do que as nossas e por certo acomo-
dariam seus atos às suas doutrinas se não reco-
nhecessem eles próprios que são nocivas.
O medo da dor e da morte, o desejo exacer-
bado de cura é que nos cegam. É simplesmente
a covardia que torna tão complacente a nossa
fé. Em geral não se iludem os doentes, mas
toleram e deixam estar; ouço-os queixarem-se
como eu, mas acabam dizendo: “que fazer,
então?” como se a impaciência resolvesse a
questão melhor do que a paciência. Entre os
que aceitam tão miserável sujeição, haverá um
só que não esteja igualmente disposto a subme-
ter-se a quaisquer imposturas de quem tenha a
impudência de lhes garantir que hão de sarar?
Os btabilônios expunham os doentes na
praça pública; o médico era o povo; quem pas-
sava indagava por cortesia e humanidade do
estado da vítima e dava, segundo sua experiên-
cia, um conselho mais ou menos salutar. Não
agimos diferentemente. Não há palpite que não
levemos em conta, nem amuleto que não nos
impressione; e se eu tivesse de acreditar em al-
guma coisa ainda preferiria isso, pois, ao
menos, não nos causa prejuízo.
Homero e Platão diziam dos egípcios, que
eram todos médicos; não se poderia dizer o
839 Honora medicum propter necessitatem.
ENSAIOS — II 359
mesmo de todos os povos? Não há, com efeito,
ninguém que não se vanglorie de possuir algu-
ma receita e não se aventure a experimentá-la
no vizinho, desde que este se preste à experiên-
cia. Ouvi alguém, como eu atacado de gravela,
anunciar em certa roda o aparecimento de uma
pílula nova em cuja composição entravam
dezenas e dezenas de ingredientes. A informa-
ção provocou grandes emoções e esperanças;
que rochedo resistiria a tão considerável
concentração de meios? Soube depois, pelos
que a tomaram, que nem uma só parcela de
cálculo se comoveu.
Não quero terminar sem me referir ainda ao
que os médicos nos apontam como garantia da
eficiência de suas drogas: a experiência. Dois
terços pelo, menos das virtudes dos remédios
provêm da quinta-essência das ervas medici-
nais cujas propriedades recônditas somente o
uso revela; ora, a quinta-essência de uma coisa
não é senão a qualidade principal que lhe é
peculiar e que escapa à nossa razão, a qual
não lhe pode descobrir a causa. Entre as pro-
vas de eficiência, dizem eles, algumas lhes
foram reveladas por demônios! Quando o ale-
gam, contento-me em verdade com ouvi-los,
pois não discuto milagres. Outras, aventam-
nas por analogia, ou as inferem de alguma
qualidade ocasionalmente verificada. Assim, a
lã de nossas roupas teria propriedades secati-
vas e serviria para curar as bicheiras das
mulas; e a raiz-forte seria purgativa. Galeno
conta de um leproso que se teria curado beben-
do vinho de um recipiente em que se escondera
uma víbora. Tais fatos tornam plausível o efei-
to da droga, como plausíveis são as experiên-
cias resultantes da observação dos hábitos de
certos animais. Quanto às outras experiências,
a que foram levados pelo acaso ou pela sorte,
não me parecem dignas de fé. Imaginemos o
homem contemplando o número infinito de
coisas, plantas, animais, metais que o cercam;
por onde iniciará suas experiências? Suponha-
mos que o faça pelo chifre do veado; só um
capricho poderá explicar a escolha; e não
menos inexplicável será a segunda operação.
Tem a sua frente tantas enfermidades, e tão
variadas são as circunstâncias em que elas
ocorrem, que não poderá jamais determinar o
ponto em que deverá sustar as provas e con-
cluir. Ser-lhe-ia necessário decidir previamente
que entre os milhares de coisas que precisa
pesquisar figura em primeiro lugar o chifre de
veado; que entre as inúmeras doenças deve
aplicá-lo à epilepsia; entre os diferentes tempe-
ramentos, ao melancólico; entre as estações,
escolher o inverno; entre os diversos povos,
preferir o francês; entre pessoas de todas as
idades, lembrar os velhos; entre os momentos
assinalados pelo movimento dos astros, apon-
tar a conjunção Vênus-Saturno como a mais
propícia; e enfim, entre as partes do corpo,
determinar o dedo como a mais favorável. Não
tendo por guia em tudo isso, nem argumentos,
nem conjeturas, nem inspiração divina, e fian-
do-se tão-somente na sorte, fora preciso que
uma coincidência realmente admirável, perfei-
ta, interviesse em seu auxílio! Mas admitamos
a cura; fora ainda imprescindível provar que o
mal não estava chegando naturalmente ao fim;
que não pode ser atribuído a uma outra causa,
a alguma coisa diferente que a vítima tenha co-
mido ou bebido; ou que não se deve às orações
de alguma avó ou tia. E ainda que o fato se
provasse, cumpriria saber quantas vezes se
repetiu. E se houve essa longa série de expe-
riências e verificações necessárias a uma
conclusão. E a quem cabe tirá-la? Entre mil
indivíduos entregues a tais experiências, três
talvez as terão registrado, e será um desses,
porventura, quem haja chegado a essa conclu-
são? Estariamos mais esclarecidos, se os juí-
zos e raciocínios de todos nos fossem conheci-
dos; mas admitir-se que três testemunhos de
três doutores bastem para estabelecer as leis da
saúde humana, não seria razoável. Para que
tivessem real autoridade, fora preciso que os
houvéssemos escolhido como mandatários.
A Madame de Duras
Senhora, quando hã tempos viestes visitar-
me, vós me encontrastes ocupado em escrever
as linhas precedentes. É possível que estas
inépcias vos caiam um dia nas mãos: quero
que, nesse caso, não ignoreis quanto me senti-
rei honrado com vossa atenção. Reconhecereis
as mesmas idéias e a mesma maneira de expri-
mi-las que conhecestes. Mesmo que me fosse
possível empregar linguagem diversa da minha
linguagem habitual, e forma mais elegante, não
o-fizera porque não desejo que estas linhas vos
recordem um indivíduo diferente. Estas obser-
vações, e consequentes considerações, vôs as
ouvistes e aceitastes, senhora, graças à vossa
cortesia, melhor do que merecem; por isso
quero, sem entretanto as modificar, consigná-
las em uma obra que me sobreviva alguns anos
ou dias e na qual vós as encontrareis quando
desejardes, sem que vos seja necessário conser-
vá-las na memória. São de resto bem insignifi-
cantes. Aspiro apenas a que continueis a hon-
rar-me com vossa amizade em virtude dessas:
mesmas qualidades que houvestes por bem
descobrir em mim e que ma outorgaram.
Não tenho em absoluto a pretensão de ser
mais estimado morto do que vivo. O amor que
tinha Tibério à fama e o levaria a preocupar-se
360
mais com o renome póstumo do que com se
mostrar agradável aos seus contemporâneos
parece-me ridículo, embora encontradiço. Se
fosse desses a quem o mundo deve render
homenagens, contentar-me-ia com metade
delas conquanto pagas adiantadamente. Gos-
taria de louvores imediatos que me envol-
vessem em uma atmosfera antes densa que
extensa ou de longa duração. E que se esvaís-
sem por completo ao fim de minha vida, quan-
do seus sons suaves não me penetrassem mais
os ouvidos.
Seria tolice, neste momento em que minhas
relações com os homens ameaçam romper-se,
mostrar-me a eles sob um aspecto mais favorá-
vel do que aquele que me conheceram. Consi-
dero inexistentes os bens que não pude usufruir
em vida. Quero ser como sou em quaisquer
circunstâncias e não apenas no papel. Empre-
guei toda a minha arte e meu engenho em
melhorar. Não estudei com o objetivo de
aprender a escrever e sim de me conhecer.
Todos os .meus esforços visaram a vida e
pouco me incomodei com criar uma obra lite-
rária. Ambicionei ser um homem capaz tendo
em vista as vantagens essenciais no presente e
não com o intuito de acumular conhecimentos
para deixar a meus herdeiros. Os méritos
devem manisfestar-se nos costumes, nas con-
versações habituais, no amor, nas disputas, no
jogo, na cama, à mesa, na conduta dos negó-
cios e na direção da casa; que ponham em
ordem primeiramente as suas coisas, aqueles
que, vestidos de trapos, escrevem belos livros.
Perguntai a um espartano se prefere ser um
bom retórico a ser bom soldado, mas não o
indagueis de mim, que preferiria ser bom cozi-
nheiro se não tivesse um a meu serviço. Não
me agradaria, senhora, adquirir com meus
escritos a reputação de talentoso, em permane-
cendo um tolo sem valor humano. Ainda prefe-
riria ser tolo igualmente nos escritos e na vida
a empregar tão mal o meu possível talento. Por
isso não está em meu pensamento auferir algu-
ma honra de meus livros. Já me darei por satis-
feito se não perder demasiado na aventura,
pois esse retrato morto e mudo de mim mesmo
não me favorece excessivamente. Não me mos-
tra na melhor fase de minha existência e sim já
decadente, sem o vigor primeiro, sem alegria e
em vias de me tornar rançoso. Chego ao fundo
do vaso e acho-me prestes a tocar a borra.
Ademais, senhora, não ousara imiscuir-me
nos mistérios dessa Medicina que goza de bom
crédito de vossa parte e de tantas outras pes-
soas, se não fora incitado pelos próprios médi-
cos. Creio que entre os antigos só dois, Plínio
e Celso, escreveram a respeito. Se os lerdes
algum dia, vereis que falam com muito mais
MONTAIGNE |
violência do que eu. Eu belisco apenas, eles
esfolam. Plínio zormba do subterfúgio dos mé-
dicos que, já sem outro expediente a seu alcan-
ce, enviam as vítimas que atormentaram com
drogas inúteis, em peregrinações à cata de
milagres ou a estações de águas (não vos irri-
teis, senhora, não se refere as águas deste lado
do Garona, que vós protegeis e pertencem aos
Grammont). Têm eles outra solução: para nos
afastar, e assim obviar as nossas censuras,
mandam-nos alhures à procura de melhor
clima.
Permiti-me agora que retome o fio de meus
comentários e volte ao assunto que abandonei
para conversar convosco.
Foi Péricles, creio, que respondeu a quem
lhe perguntava como estava passando: “Julgai
por isto” e mostrava seus amuletos. Queria
dizer, com o gesto, que ia tão mal que chegava
a apelar para tais inutilidades. Não quero afir-
mar que não me ocorra jamais fazer igual con-
cessão à crença ridícula e entregar a vida aos
médicos. É possível que tenha essa fraqueza,
pois não me cabe prever o futuro, mas então,
se alguém me vier indagar da saúde, respon-
derei como Péricles, exibindo a mão untada de
uma qualquer pomada: “Julgai por isto”. Será
sem dúvida sinal de doença grave. Se a impa-
ciência e o medo me houverem dominado a
ponto de me perturbar o juízo, poderão afir-
mar que estarei com a alma presa de forte
febre.
Dei-me ao trabalho de ventilar este assunto
de que tão pouco entendo, a fim de fortalecer
minha repulsa natural e hereditária às drogas e
à Medicina, e para que essa hostilidade assu-
misse uma forma mais razoável e lógica, de
modo que quem me veja tão rebelde às exorta-
ções e às ameaças com que me acenam quando
estou doente, não atribua minha atitude à sim-
ples obstinação, ou à vaidade. Em verdade,
não seria muito inteligente procurar jactar-me
de uma maneira de ser que tenho em comum
com meu jardineiro e meu moço de estrebaria.
Não estarei assim tão ávido de originalidade
que procure trocar o bem precioso da saúde,
de tão grande alcance e satisfação, com uma
gloriola sem consequência. E ainda que se tra-
tasse da glória dos quatro filhos de Aimon,
seria para quem pensa como eu, pagá-la caro
demais com três ataques de cólicas. Não, a
saúde antes de tudo!
Os que apreciam a medicina de nossa época,
podem ter suas razões, boas, indiscutíveis; não
odeio as idéias contrárias às minhas; nem se-
quer me aborrecem as divergências porventura
existentes entre minha maneira de ver e a dos
outros, nem me tornam elas incompatível com
ENSAIOS — II 361
a sociedade de homens de outro sentir e opi- suscetíveis de transformações do que nos cor-
nião, pois acho que só muito raramente con-. pos. Nunca houve no mundo duas opiniões
cordam as idéias e os temperamentos. A varie- | idênticas, como não há dois pêlos nem dois
dade é, efetivamente, normal na natureza, e grãos de cereal. A qualidade mais universal e
observa-se mais ainda nos espiritos mais comum éa diversidade.
..
a
R)
CAPÍTULO I
Do útil e do honesto
Todos estão sujeitos a dizer tolices; o mal
está em as enunciar com pretensão: “Este
homem vai provavelmente expor-nos, com ên-
fase, algumas enormidades!.” Este segundo
ponto não me diz respeito, porque não dou
maior atenção às bobagens que me escapam.
Felizmente para elas, pois as negaria imediata-
mente se devessem prejudicar-me, ainda que
mui ligeiramente. Nada compro ou vendo por
preço mais alto do que vale. Escrevo como
falo ao primeiro indivíduo que encontro,
contentando-me com dizer a.verdade.
Quem não há de detestar a perfidia, se o
próprio Tibério recusou recorrer a ela em um
momento em que lhe podia ser utilíssima?
Mandaram comunicar-lhe, da Alemanha, que,
se o quisesse, o desembaraçariam de Armínio
pelo veneno. Era o mais poderoso inimigo dos
romanos, desbaratara as tropas comandadas
por Varro e se opunha sozinho à expansão do
domínio de Roma naqueles territórios. Tibério
respondeu que seu povo tinha por costume vin-
gar-se abertamente de seus inimigos, de armas
na mão e não à traição e de tocaia; trocava
“assim o útil pelo que acreditava ser honesto.
Ora, direis, Tibério foi um'temerário. Bem o
creio, mas fatos semelhantes não são raros nas
pessoas de sua condição, e o reconhecimento
da virtude na boca de quem a odeia tem sua
importância, principalmente quando a verdade
é que a impõe. E se quem a reconhece não a
pratica ele próprio, com ela procura ao menos
enfeitar-se.
Como quer que encaremos este nosso
mundo, vemo-lo cheio de imperfeições; nada é
inútil entretanto na natureza, nem mesmo as
inutilidades. Nada existe que não tenha sua
aplicação. Nosso ser é um aglomerado de qua-
lidades que são ao mesmo tempo defeitos. A
ambição, o ciúme, a inveja, a superstição, o
desespero estão em nós e tão naturalmente alo-
Jados que até nos próprios animais se encon-
tram. Mesmo a crueldade, esse vício antinatu-
ral, habita em nós, pois paralelamente à
compaixão experimentamos uma volúpia agri-
doce, e doentia, ao espetáculo do sofrimento
* Terêncio.
alheio. Sentem-na as próprias crianças: “É
doce, durante a tempestade, contemplar os na-
vios que lutam contra o furor das ondas?.”
Quem extirpasse o germe dos maus senti-
mentos do coração do homem destruiria nele
as: condições essenciais à vida. Da mesma
forma, em todas as administrações existem
cargos necessários que são abjetos, detestáveis.
Os vícios aí têm sua função, e servem para sol-
dar os diversos elementos da sociedade, como
o veneno se utiliza na conservação de nossa
saúde. Se são desculpáveis, porque o interesse
comum os exige, deixemos que os pratiquem
os cidadãos mais enérgicos, cuja vontade de
salvar o país leva ao sacrifício da honra e da
consciência, como levava outrora heróis a
sacrificarem a vida. Nós, mais fracos, fique-
mos com os papêis mais fáceis e menos arris-
cados. O interesse público exige que se traia e
mate; abdiquemos em benefício de individuos
mais obedientes e acomodatícios.
Vi por vezes, entristecido, juízes provoca-
rem a confissão de criminosos mediante pro-
messas de perdão, empregando para conven-
cê-los toda espécie de malandreagens. Teria
preferido que a justiça usasse outros meios que
não esses igualmente propugnados por Platão.
Uma tal justiça segue caminho errado e preju-
dica-se mais com tais ardis do que com a cri-
tica de seus censores.
Respondi há tempos, a alguém, que teria
grandes escrúpulos em trair os interesses do
principe para servir um cidadão, mas que não
os teria menores em trair os de um cidadão em
benefício do príncipe. Não somente detesto
enganar, repugna-me também que os outros se
enganem a meu respeito. Não quero, portanto,
dar-lhes oportunidade cu razão para que se
iludam. Por isso, nas negociações de que fui
encarregado junto a certos príncipes, acerca
das divisões, de matizes tão diversos, que hoje
nos atormentam, tive sempre o cuidado de evi-
tar que se enganassem a meu respeito e me
tomassem pelo que não sou. As pessoas da
profissão? descobrem-se o menos que podem;
4
2 Lucrécio.
* Os diplomatas.
366
apresentam-se fingindo-se neutros e com idéias
tão próximas quanto possível das de seus inter-
locutores. Eu não escondo minhas opiniões,
por duras que sejam, e mostro-me como sou:
um intermediário ingênuo € inexperiente, antes
disposto a fracassar do que a enganar. No
entanto fui até agora tão feliz nesse papel,
dependente sem dúvida e em grande parte da
sorte, que poucos homens intermediários terão
sido tão bem acolhidos e acatados. Tenho um
modo franco de tratar com as pessoas, o que
faz que desde os primeiros momentos lhes con-
quiste a confiança. À franqueza e a verdade
são ainda, apesar dos tempos, muito recomen-
dáveis. Além disso, ninguém suspeita dos que
negociam sem interesse pessoal, nem se forma-
liza com a liberdade de palavras de quem pode
responder, como Hipérides, aos atenienses que
se queixavam de sua franqueza: “Não deveis
dar importância à minha liberdade de lingua-
gem; cabe-vos verificar apenas se a uso em
proveito próprio.” Meu falar franco poupou-
me a suspeita de dissimulação; primeiramente
porque me exprimo com energia, não hesi-
tando nunca acerca do que me cumpre dizer,
por severo e duro que seja (longe de meus
interlocutores não me houvera conduzido
diferentemente); em segundo lugar por causa
da ingenuidade e da indiferença aparentes que
revelo. No que faço, vejo apenas o que me
cabe fazer, e nao medito de antemão sobre as
consequências e resultados que me possam
atingir. Meus atos visam a determinado objeti-
vo: acerte ou não, terei feito o possível.
Não tenho sentimento de ódio nem de pro-
funda afeição pelos grandes; minha vontade
não é influenciada nem pelo mau tratamento
que me reservem nem pelas obrigações pes-
soais porventura contraídas. Dedico a nossos
reis a fidelidade que lhes devo como cidadão;
não os procuro nem deles fujo por interesse
pessoal. Quanto à causa que a maioria apóia e
me parece justa, aplaudo-a com moderação *.
Ela não me apaixona. Não lhe hipoteco toda a
minha razão e a minha alma. A cólera e o ódio
nada têm a ver com a justiça; são paixões a
que somente podem entregar-se aqueles que
não sabem obedecer serenamente à razão e ao
dever, porque “só quem não domina sua razão
se abandona aos impulsos desordenados da
alma *?. Todas as intenções legítimas e justas
são por si mesmas aceitáveis e moderadas, sem
o que se tornariam subversivas e ilegítimas.
Por isso ando por toda parte de cabeça ergui-
da, rosto e coração abertos. E, em verdade —
não temo confessá-lo —, em caso de necessi-
4 O catolicismo em luta contra o protestantismo.
5 Cícero.
MONTAIGNE
dade acenderei de bom grado, como a velhinha
do ditado, uma vela a São Miguel e outra ao
dragão *. E seguirei o partido do direito até a
fogueira exclusive. Que Montaigne” se arruíne
com a ruína do país, se necessário; mas, se não
for preciso, muito agradecerei ao destino por
salvá-lo; e, enquanto meu dever mo permite,
vou procurando poupá-lo. Não se salvou
Ático, que se ligara ao partido da justiça, e
fora derrotado, graças à sua moderação, nesse
cataclismo que se abateu sobre o mundo e pro-
vocou tantas ruínas? Semelhante atitude, po-
dem-na assumir mais facilmente os que, como
ele, não ocupam cargos públicos. Sou aliás de
opinião que em tempestades como essas con-
vém não alimentar ambições e não se compro-
meter pessoalmente.
Não acho certo nem honesto, entretanto,
quando as agitações subvertem o país e o divi-
dem, permanecer-se hesitante entre os parti-
dos, sem manifestar preferência ou simpatia
nem por um nem por outro: “Não significa
isso seguir um caminho intermediário, signi-
fica não seguir nenhum; significa aguardar os
acontecimentos para aderir a quem se benefi-
cie com a vitórias.” Isso pode ser aceitável
quando se trata dos negócios alheios: Gélon,
tirano de Siracusa, indeciso acerca do partido
a tomar na guerra entre os bárbaros e os gre-
gos mantinha em Delfos uma embaixada cheia
de presentes, incumbida de observar de que
lado penderia o prato da balança para, no
momento oportuno, conciliar as boas graças
do vencedor. Em relação às coisas do próprio
país, fora ato de felonia agir dessa maneira. E
indiscutível tomar partido, deliberadamente;
entretanto, não se declarar quando não se tem
cargo nem comando, parece-me então mais
desculpável (embora não seja meu caso) do
que nas guerras contra os estrangeiros, nas
quais as nossas leis permitem que não partici-
pemos. Contudo, mesmo os que se compro-
metem ativamente nas lutas intestinas podem
fazê-lo com moderação, de modo que a bor-
rasca não os atinja. Não foi o que ocorreu com
o Bispo de Orléans, Sr. de Morvilliers? Entre
os que trabalham com ardor pelo triunfo de
sua causa, conheço muitos, de gênio e costu-
mes tão ponderados, que espero ver sobrevive-
rem, quaisquer que sejam os resultados. Só aos
reis cabe lutar com os reis, e acho ridículo
esses individuos que se metem no que não é de
sua alçada. Não é querelar-se pessoalmente
com um príncipe, marchar contra ele corajosa
8 Uma vela a Deus e outra ao diabo. Montaigne
diz São Miguel, nós nos referimos em geral a São
Jorge. (N. do T.)
? O castelo de Montaigne.
8 Tito Lívio.
ENSAIOS— II 367
e abertamente, se assim o exigem a honra e o
dever; em tal caso, mesmo que não nos apre-
cie, ele nos estima; e quando o fazemos em de-
fesa das leis e da ordem, mesmo os que a per-
turbam por motivos particulares desculpam
quem as defende; e respeitam-no.
Mas não devemos denominar “dever”, como
o fazemos diariamente, esse encarniçamento e
essa rudez que engendram as paixões e os inte-
resses, nem devemos considerar corajosa uma
conduta prenhe de traições e crueldades. Os
que o fazem, chamam zelo a seus apetites de
violência; não é a causa que os guia, mas sim
o interesse; atiçam a guerra pela guerra e não
porque seja justa.
Nada impede que inimigos leais se condu-
zam de maneira sensata. Tratemos todos com
igual moderação, senão com idêntica afeição
— pois esta pode realmente variar — e não
nos dediquemos a ninguém a ponto de lhe dar
o direito de tudo exigir de nós. E contentemo-
nos também com a boa vontade discreta de
uns e de outros; procuremos navegar nessas
águas turvas sem, entretanto, nelas querer
pescar.
Quanto a se oferecer com paixão a uns e a
outros, é coisa mais impudente ainda do que
inconsciente. Pois não pode quem nos acolhe,
ainda que não o demonstre, confiar inteira-
mente em nós. Sabe muito bem que assim
como traimos alguém para aderir a ele, tam-
bém o trairemos oportunamente. Há de consi-
derar-nos detestáveis, embora utilize nossa
deslealdade em benefício próprio. As pessoas
de duas caras são úteis pelo que trazem, mas é
preciso estar de atalaia para que levem o
menos possível.
Nada digo a um o que não possa dizer a
outro, mudando tão-somente de tom; só lhes
comunico as coisas indiferentes ou conhecidas,
ou que são úteis a ambos. Nada me leva a
mentir. Se algo me é confiado em segredo, não
calo-o religiosamente, mas só aceito que me
digam o minimo necessário. Os segredos dos
príncipes são incômodos para quem não quer
servir-se deles. Por isso, em geral, ofereço-lhes
o seguinte: que me confiem pouca coisa mas
que se fiem em tudo o que lhes traga. Sempre
vim a saber mais do que desejara. Uma lingua-
gem franca incita os outros a procederem de
igual modo. É como o vinho e o amor.
A meu ver, Filípides respondeu com sabedo-
ria ao Rei Lisimaco que lhe perguntara o que
queria saber da situação: “o que quiseres, con-
quanto não sejam segredos teus”. Há quem se
revolte quando lhe escondem o fundo da ques-
tão que lhe cumpre tratar, ou quando não lhe
revelam algum sentido especial; eu, ao contrá-
rio, gosto de que me comuniquem exatamente
o necessário ao desempenho da missão, pois
receio que, em sabendo mais, seja forçado a
controlar-me. Se devo contribuir para enganar
alguém, que minha consciência, ao menos, não
se perturbe. Não quero que me considerem tão
absolutamente leal que me obriguem a partici-
par de uma traição. É desculpável que não
façamos pelos outros aquilo que não estamos
dispostos a fazer por nós mesmos. Há prínci-
pes que não aceitam homens assim e despre-
zam os servidores que estabelecem limites à
obediência. A esses, digo-lhes desde logo até
que ponto lhes posso servir, pois entendo não
ser escravo senão da razão, e ainda assim mal
o consigo. Quanto a eles, erram em exigir tal
submissão de um homem independente, im-
pondo-lhe obrigações como fariam a um escra-
vo, ou a alguém cuja fortuna à deles se ligasse
de maneira absoluta.
Pouparam-me as leis graves dificuldades:
indicaram-me o partido que me cumpria
tomar, apontaram-me o meu chefe; quaisquer
outras razões, por elevadas que sejam, cedem
lugar àquelas e se tornam caducas; eis por que,
ainda que meus sentimentos me impelissem
para o partido contrário, a ele não me filiaria
imediatamente. Nossa vontade e nossos dese-
jos só a eles mesmos obedecem, mas nossos
atos devem atentar para as leis que regulam e
resguardam a ordem pública.
Minha maneira de agir é algo diferente da
habitual e não teria possibilidade de grandes
êxitos nem de durar muito; a própria inocência
não poderia, em nossa época, dispensar a dissi-
mulação, nem negociar sem mentir. Daí não
serem os cargos públicos do meu agrado; e ao
que a esse respeito exige de mim a minha
profissão, atendo do modo menos oficial possi-
vel. Quando jovem, enfiaram-me na vida pú-
blica até as orelhas; meu destino era fazer car-
reira, mas desde cedo me desvencilhei dos
encargos. Posteriormente evitei, mais de uma
vez, meter-me novamente nisso; só de raro em
raro aceitei alguma missão, sem de resto a
desejar. Sempre fugi à ambição, mas, embora
não o fizesse como os remadores que avançam
de costas para a meta, tive a meu alcance vá-
rias oportunidades, e, se consegui evitar maio-
res compromissos, devo-o antes à sorte do que
à resolução, pois há na vida pública caminhos
que me agradariam bastante e diante de uma
boa situação na sociedade talvez não desse
mais ouvidos à voz da razão. Os que, contra o
que afirmo, vão dizendo que essa franqueza,
essa simplicidade e essa ingenuidade que apre-
gôo não passam, no fundo, de artifício e esper-
teza; que se trata mais de prudência que de
bondade, mais de habilidade que de tendência
natural, mais de bom senso que de sorte, muito
368
me honram. Emprestam-me mais astúcia do
que me caberia reivindicar; e daria ganho de
causa a quem me seguisse e vigiasse caso não
verificasse que não há regra capaz de regular
gestos e atitudes tão naturais, vem de manter
uma independência e inflexibilidade tão cons-
tantes por caminhos tão diversos. E se não
conviesse em que todo o seu engenho e cuida-
do não o conseguiriam tampouco. O caminho
da verdade é um só, e simples; o que nosso
interesse pessoal e os negócios alheios nos
obrigam a seguir é tortuoso, desigual, aciden-
tado. Vi muitas vezes quem se utilizasse artifi-
cialmente dessas qualidades, nunca porém
com grande êxito. E sempre me lembrei, em
tais circunstâncias, do asno de Esopo, que que-
rendo rivalizar com o cão pôs alegremente as
patas sobre os ombros do'dono. Mas, ao passo
que o cão era recompensado com carinhos,
recebeu o asno boas bastonadas: “O que me-
lhor vai a cada um é o que lhe é naturalº.”
Mas seria desconhecer a realidade não dar à
malandragem o mérito que lhe cabe; sei que
não raro presta serviços e é necessária em mais
de uma ocasião. Há defeitos lícitos como há
boas ações ilícitas.
A justiça em si, em seu estado natural, é uni-
versal e tem regras diferentes e mais elevadas
do que essa justiça especial, nacional e condi-
cionada às necessidades dos governos: “Não
temos modelo sólido e positivo do verdadeiro
direito e da justiça perfeita; temos apenas uma
imagem dela, uma sombra! º.?
O sábio Dandamis, ouvindo o relato das
vidas de Sócrates, Pitágoras e Diógenes julga-
va-os grandes homens, mas demasiado escra-
vos das leis que a verdadeira justiça não pode
aceitar e apoiar, senão abdicando a rigidez de
seus princípios essenciais, pois não somente as
leis permitem atos condenáveis como também
nos incitam a cometê-los: “Há crimes autori-
zados pelos editos do senado e por plebisci-
tos!!.? Quanto a mim, emprego a linguagem
comum, distinguindo as coisas úteis das hones-
tas, e qualificando como desonestos e indecen-
tes certos atos:naturais, não apenas úteis mas
necessários.
Voltemos à traição.
Dois pretendentes disputavam o reino da
Trácia. Proibiu-os o imperador de o reivindi-
carem pelas armas. Um deles então, fingindo
desejar um acordo amigável, convidou seu
adversário para uma festa, e o mandou prender
e matar. Ordenava a justiça que os romanos
punissem o malfeitor. Mas era difícil recorrer
9 Cicero.
1º Td.
11 Sêneca.
MONTAIGNE |
às vias legais e resolveram conseguir, pela trai-
ção, o que legitimamente não se fizera sem
correr o risco de uma guerra. E o que não
puderam realizar honestamente, obtiveram-no
pela manha, através de um tal Pompônio
Flaco, o qual, com promessas e lisonjas, atraiu
o pretendente assassino, e, em lugar de honras
e favores, remeteu-o preso para Roma. Um
traidor é por outro traído, o que não é comum,
entretanto, porque são os traidores em geral
muito desconfiados e dificilmente se sur-
preendem com subterfúgios que estão habitua-
dos a empregar. Comprova-o a fatal expe-
riência que acabamos de ter! 2.
Esse papel de Pompônio Flaco, desempe-
nhe-o quem quiser, e muitos o hão de querer.
Minha palavra e a confiança que possa inspi-
rar pertencem, como tudo o que há em mim, à
minha comunidade; não admito que duvidem
disso, mas assim como responderia a quem me
mandassse tomar a direção do palácio da justi-
ça: “não entendo do riscado”; assim: como
diria a quem determinasse que assumisse a
chefia dos sapadores: “fui feito para exercer
cargo mais elevado”; a quem quisesse, em
vista de uma tarefa de certa importância,
empregar-me em mentir e trair, ainda que sem
assassinar ou envenenar, observaria imediata-
mente: “prefiro as galeras”. Há sempre possi-
bilidade, com efeito, para um homem de honra,
de falar como os lacedemônios a Antípater
(que acabara de vencê-los): “Podereis impor-
nos as penas que quiserdes, tarefas que nos
esmaguem e prejudiquem, mas perdereis vosso
tempo exigindo de nós coisas vergonhosas e
desonestas.” Devemos jurar a nós mesmos o
que os reis do Egito exigiam de seus juizes: que
não se desviariam nunca do que lhes ordenasse
a consciência, ainda que recebessem instruções
do próprio soberano. À tais tarefas prende-se
um estigma evidente; quem no-las impõe já
nos julga de antemão. Impondo-nos o encargo,
impõe-nos um castigo. E nossos próprios inte-
resses sofrerão com isso na medida em que
lucrarão os da coletividade. Quanto maior
eficiência demonstrarmos em nossa ação,
maior prejuizo pessoal tiraremos dela, não
sendo de espantar que ainda nos arruíne quem
nos haja atribuído a tarefa; é o julgarão justo,
por certo.
Se casos há em que se possa desculpar a
traição, dirão respeito sem dúvida à que se
emprega em punir um traidor. Vemos muitas
vezes a perfídia punida por aqueles a quem ela
beneficiara. Todos conhecem a sentença de
'2 Não se sabe exatamente a que alude Montaigne.
Provavelmente aos fatos ocorridos na noite de São
Bartolomeu. (N. do T.)
ENSAIOS — HI
Fabrício contra o médico de Pirro. Ocorre
também que quem a ordena castigue ele pró-
prio o executante, como que lhe denegando
crédito e poder, e profligando tão passiva e
covarde obediência. Jarolpec, duque da Rús-
sia, obtivera de um fidalgo húngaro que traísse
Boleslau, rei da Polônia, adormecendo-o ou
dando aos russos os meios de lhe causar gra-
ves prejuízos. O traidor agiu com habilidade,
conseguindo granjear a amizade do rei e
tornando-se seu conselheiro e confidente. Gra-
ças à confiança assim alcançada, aproveitou-
se oportunamente da ausência de seu senhor
para entregar ao inimigo a rica cidade de Vasi-
lícia, a qual foi inteiramente saqueada e incen-
diada, tendo tido morte violenta seus habitan-
tes de ambos os sexos e de qualquer idade, bem
como numerosos fidalgos das vizinhanças, que
o húngaro reunira para o fim visado. Jarolpec,
depois de se vingar e aplacar uma justa cólera
(Boleslau fizera o mesmo com ele), já sem pai-
xão e encarando o feito com serenidade, sentiu
- tamanho remorso e vergonha que mandou
vazar os olhos, cortar a língua e as partes geni-
tais do traidor.
Antígono persuadira os argiraspides a lhe
entregarem Eumenes, seu chefe. Mal acabou
de executá-lo, arvorou-se em agente da justiça
divina a fim de punir tão detestável velhaco:
escreveu ao governador da província intiman-
do-o a prender os que haviam cometido a trai-
ção e a exterminá-los de qualquer maneira. E
nenhum deles em verdade jamais reviu a
Macedônia. Julgava-os, assim, tanto mais
merecedores de castigo quanto melhor o ha-
viam servido.
O escravo que revelou o esconderijo de. P.
Sulpício, seu amo, foi libertado por Sila de
acordo com a promessa feita, mas este, a fim
de dar uma satisfação à opinião pública, man-
dou que, embora livre, o jogassem do alto da
Rocha Tarpéia.
Clóvis, um de nossos reis, em lugar das
armas de ouro que prometera aos traidores de
Canacre, mandou enforcâ-los. Fizeram-no,
pendurando-lhes ao pescoço uma bolsa com a
recompensa do crime. Assim, embora cum-
prindo fielmente sua promessa, dava satisfação
à opinião soberana do povo.
Maomé, desejoso de se desfazer do irmão,
que aspirava igualmente ao trono, empregou
um de seus oficiais, o qual afogou a vítima,
obrigando-a a ingurgitar enorme quantidade
de água. Cometido o crime, Maomé entregou o
assassino à mãe do morto (eram irmãos
somente por parte de pai). Esta, em sua presen-
ça, abriu o peito do criminoso, arrancando-lhe
.O coração que jogou, ainda palpitante, aos
cães. É reconfortante, mesmo para os que só
369
alimentam maus sentimentos, poder ligar à
ação abominável, cujo fruto colheram, um
traço de bondade e justiça a fim de aliviar a
consciência do peso de sua cumplicidade;
tanio mais quanto, sentindo nos executantes
uma censura possível, procuram abafá-la e
apagar com a morte a prova de sua própria
participação. Supondo ainda que se recom-
pense o traidor, quem o faz não deixa de o jul-
gar execrável e maldito, e mais miserável do
que o julgaria o próprio traído, pois sabe
perfeitamente o que vale tal indivíduo, e, se o
emprega, encara-o como esses pobres homens
de que se vale a justiça nas penas capitais e
que são tão úteis quão desprezíveis. Além do
que têm de vil, essas missões nos desonram. A
filha de Sejano que, segundo a legislação
romana, não podia ser executada por ser ainda
virgem, foi deflorada antes pelo carrasco; aten-
dia-se desse modo à letra da lei. A profissão
que esse homem exercia exigiu dele, em seme-
lhante circunstância, que emporcalhasse a
alma.
Amurat 1, no intuito de agravar a pena
imposta a seus súditos que tinham. sustentado
a rebelião de seu filho e se haviam tornado
cúmplices da tentativa de parricídio, ordenou
que os mais próximos parentes dos condena-
dos auxiliassem pessoalmente a execução.
Alguns, o que acho muito digno, preferiram
ser considerados cúmplices de um delito come-
tido por outrem a se tornarem culpados da vi-
leza de justiçar os próprios filhos. Em algumas
choupanas tomadas de assalto em nossas guer-
tas civis, tive a oportunidade de ver indivíduos
que, para salvar a pele, concordavam em
enforcar os companheiros; seu destino pare-
ceu-me bem mais lamentável que o dos
enforcados.
Dizem que Witold, principe da Lituânia,
decretou que todos os condenados à morte se
matassem a si próprios, pois não achava justo
obrigar um inocente a cometer semelhante
crime.
O príncipe que por uma circunstância qual-
quer ou acidente inopinado se vê forçado a fal-
tar à sua palavra ou a desprezar o seu dever,
deve encarar tal necessidade como uma prova
imposta por Deus. Não se trata então de um
defeito; sua razão vê-se constrangida a ceder
diante de outra mais poderosa; mas trata-se de
uma desgraça. A alguém que indagava como
remediar a isso, respondi: “É impossível, se
realmente o príncipe se encontra nessa situa-
ção” (“que não procure pretextos para ser
perjuro?º*); precisa fazê-lo, mas se o faz sem
que isso lhe custe, é sinal de que tem a cons-
ciência carcomida. Se surgisse alguém, tão
13 Cicero.
370
escrupuloso que nenhuma necessidade lhe
parecesse justificar o emprego de tão violento
remédio, eu o admiraria ainda mais, pois não é
possível perder um reino de maneira mais
desculpável e honrosa. Não podemos tudo, por
isso é preciso não raro entregar aos céus O
governo de nosso barco, porque a última possi-
bilidade de salvação está na proteção divina.
Haverá necessidade que mais justifique o apelo
de um príncipe? Haverá coisa mais impossível
para ele do que aquilo que só pode realizar a
expensas de sua honra? Esta deve ser-lhe mais
cara do que a própria vida e a vida de seu
povo. Portanto, se cruzar os braços e invocar a
bondade divina, sem dúvida se verá atendido,
em sendo sua causa justa. Mas tal exemplo é
por certo perigoso porque faz exceção às re-
gras naturais. É normal, pois, que ceda quando
preciso, mas que se modere então. Nenhum
interesse particular mas tão-somente o inte-
resse público deve levar-nos a violentar assim
nossa consciência; assim mesmo quando per-
feitamente definido. As lágrimas de Timoleão
por ter morto o tirano, seu irmão, justifica-
ram-no perante o povo; feria-lhe a consciência
ter de atender ao interesse coletivo a expensas
de sua honra e retidão. O próprio Senado, que
assim recuperava a liberdade, não ousou
pronunciar-se acerca de um gesto de tão gran-
de importância. Os siracusanos chegaram a
propósito para solicitar a proteção dos corin-
tios e o envio de um chefe capaz de devolver à
cidade seu antigo esplendor, purgando a Sicília
da opressão de vários tiranetes. O Senado
mandou-lhes Timoleão e propôós-lhe o seguinte
trato: se se saísse bem da empresa, a sentença
ser-lhe-ia favorável, levando-se em conta ape-
nas a libertação do país; se não tivesse êxito,
julgá-lo-iam como assassino do irmão. Tão
singular decisão explica-se pela gravidade do
ato e o perigo de semelhante precedente.
Razão tiveram os coríntios de não confiar de
imediato em seu próprio julgamento, e de
aguardar novos motivos para justificar a sen»
tença final. A conduta de Timoleão mostrou
bem depressa o que se devia pensar dele, pois
foi muito digna sob todos os aspectos. A felici-
dade com que se houve parecia ter-lhe sido
outorgada pelos deuses favoráveis à sua
absolvição.
O fim visado por Timoleão desculpa-lhe o
ato na medida em que pode ser desculpado.
Mas o benefício que auferiu o tesouro, e foi a
razão de agir do Senado na circunstância que
vou relatar, não bastaria para absolvê-lo da
injustiça que cometeu em outra história menos
limpa. Certas cidades haviam resgatado sua
liberdade, e isso fora ratificado pelo Senado.
Com a morte de Sila, porém, revogou-se a
MONTAIGNE
|
decisão, ficando elas novamente sujeitas a
contribuições e taxas e não lhes sendo devol-
vida a soma despendida com o resgate. Às
guerras civis produzem com freglência exem-
plos como esses. Castigamos os cidadãos por
terem acreditado em nós quando éramos dife-
rentes do que agora somos; o magistrado obri-
gado a mudar de orientação aplica a pena a
quem nada tem com isso; o professor açoita o
aluno por ter sido dócil demais, e o guia mal-
trata o cego. Linda imagem da justiça!
Hã regras falsas e muito elásticas na filoso-
fia. O exemplo seguinte que nos propõem,
como um caso em que o interêsse particular
prima sobre a palavra empenhada, não me pa-
rece com suficiente autoridade, dadas as
circunstâncias a que se prende. Suponhamos
que bandidos se apoderem de nós e nos devol-
vam a liberdade depois de nos obrigar a jurar
que lhes pagaremos determinada importância.
Deve-se sustentar que, uma vez libertado, um
homem de bem se ache dispensado de cumprir
sua promessa? Não. O que o temor me fez
aceitar, devo continuar a aceitá-lo quando
nada mais tiver a temer. E, ainda que esse
temor me houvesse constrangido a dizer o que
minha vontade não desejava, devo cumprir a
palavra empenhada. Quando me ocorreu,
ocasionalmente, ir além de meu pensamento,
sempre tive o maior escrúpulo em não me des-
mentir. De outro modo, a pouco e pouco,
acabaríamos por abolir quaisquer direitos de
terceiros, baseados em promessas e juramen-
tos; “como se a violência pudesse influir na
decisão de um homem de caráter! *”?. Só no
caso de havermos prometido algo injusto e
mau em si, é que o interesse particular pode ser
invocado como desculpa, pois os direitos da
virtude precisam sobrepor-se a quaisquer ou-
tros.
Coloquei Epaminondas entre os homens
mais eminentes; não volto atrás, pois ergueu
muito alto o que considerava seu dever pes-
soal. Jamais matou um vencido; nunca, ainda
que fosse para libertar seu país, houvera elimi-
nado um tirano ou seus cúmplices sem ser
pelos meios legais; e julgava perverso quem
não poupasse o amigo porventura militando
nas fileiras inimigas. Rica era sua alma, pois
nas mais violentas e rudes ações humanas; per-
manecia bom e generoso; e isso nas condições
mais delicadas previstas pela filosofia. Essa
coragem tão grande, essa tenacidade e resis-
tência à dor, à morte, à pobreza, foi por arte ou
temperamento que as alcançou, agregando-
lhes a doçura e a bondade? Coberto de sangue,
obstinado sob os golpes, enfrenta e vence uma
14 Cícero.
ENSAIOS — HI
nação que ninguém vencera; e em plena bata-
lha evita ferir o amigo! Senhor tão indiscutível
da guerra que a forçava a inclinar-se ante sua
bondade, é isso em meio aos maiores horrores,
na excitação dos combates, e do estrondo das
armas! É milagroso introduzir em ações dessa
ordem uma imagem da justiça e somente pelo
rigor de seus princípios pôde Epaminondas
associá-las à doçura e à prática dos bons cos-
tumes, da tolerância e da mais pura inocência.
Enquanto uns afirmam que “os tratados nada
mais valem quando se pega em armas”, e ou-
tros ainda que o “ruído das armas os impede
de ouvir a voz das leis”, Epaminondas ouve
atê a da simples cortesia. Aprendera a sacrifi-
car às musas a caminho do combate, a fim de
atenuar pela doçura e alegria que elas inspiram
a fúria e os rigores do guerreiro. Aprendamos,
pois, com tão nobre modelo, a pensar que,
mesmo contra O inimigo, nem tudo é permitido
e que o interesse geral não deve tudo reivin-
dicar em detrimento do interesse particular:
“O direito privado não deve ser olvidado em
meio às dissensões públicas! 8.” “Não há força
que nos possa levar a infringir os direitos da
amizade! 8.” Há coisas que um homem de bem
não faz nem em defesa do rei, nem em defesa
da ordem e da lei, “pois a pátria não destrói
todos os deveres, e a ela própria convém ter
cidadãos que honrem seus pais! 7”. Parece-me
oportuno apregoá-lo em nosso tempo.
Não nos agradam os princípios exclusi-
vistas; não ê necessário que encouracemos
nossas almas como fazemos com nosso corpo;
e que nossas penas molhem na tinta e não no
15 Tito Lívio.
18 Ovídio.
17 Cícero.
371
sangue. Se a maior virtude consiste em despre-
zar a amizade e as nossas obrigações em faltar
à palavra e ignorar os laços de parentesco em
benefício do bem comum e em obediência à lei,
há de justificar-lhe a ausência o fato de não a
ter assim considerado o grande Epaminondas.
Abomino a violência daquela alma em deli-
rio que clamava: “Enquanto a espada estiver
desembainhada expulsai a piedade de vossos
corações; que a própria presença de vossos
pais nas fileiras inimigas não vos atemorize:
golpeai as cabeças veneráveis! 8,” Soneguemos
aos perversos, aos sanguinários e traidores,
esse pretexto para se entregarem a seus instin-
tos; desprezemos essa justiça excessiva e aten-
temos para exemplos mais humanos. A esse
respeito a época e o exemplo podem muito.
Na guerra contra Cina, um soldado de Pom-
peu matou, sem querer, o irmão que combatia
nas fileiras inimigas. E suicidou-se em seguida,
de vergonha e desespero. Entretanto anos
depois, em outra guerra civil, um soldado que
matara O irmão pediu uma recompensa a seus
chefes.
-
É um erro julgar a beleza e a grandeza de
uma ação pela sua utilidade e imaginar que
devemos fazer e considerar honesto tudo o que
é útil: “Nem todas as coisas convêm igual-
mente a todos"º.? Vejamos a mais necessária e
útil ao gênero humano: o casamento. Não
acham os santos mais honesto evitá-lo, repro-
vando assim o mais respeitável dever dos
homens? Pela mesma razão mandamos para o
haras, como reprodutores, os animais que
menos apreciamos.
18 Lucano.
1º Propércio.
CAPÍTULO II
Do arrependimento
Outros autores têm como objetivo a educa-
ção do homem; eu o descrevo. E o que assim
apresento é bem mal conformado. Se o tivesse
de refazer, faria-o sem dúvida bem diferente.
Acontece que já está feito. Os traços deste seu
retrato são fiéis, embora variem e se diversifi-
quem. O mundo é movimento; tudo nele muda
continuadamente; a terra, as montanhas do
Cáucaso, as pirâmides do Egito, tudo participa
do movimento geral e do seu próprio; e a
imobilidade mesma não passa de um movi-
mento menos acentuado. Não posso fixar o ob-
jeto que quero representar: move-se e titubeia
como sob o efeito de uma embriaguez natural.
Pinto-o como aparece em dado instante,
apreendo-o em suas transformações sucessi-
vas, não de sete em sete anos, como diz o povo
que mudam as coisas, mas dia por dia, minuto
por minuto. É pois no momento mesmo em
que o contemplo que devo terminar a descri-
ção; um instante mais tarde não somente pode-
ria encontrar-me diante de uma fisionomia
372
mudada, como também minhas próprias idéias
possivelmente já não seriam as mesmas.
Observo e anoto os diversos acidentes que
ocorrem dentro de mim e as concepções mais
ou menos fugidias que minha imaginação
engendra, as quais são por vezes contraditórias
ou porque tenha mudado eu, ou porque o obje-
to da observação apareça dentro de um quadro
e de uma luz diferentes. Daí acontecer-me, não
raro, cair em contradição, embora, como diz
Dêmades, não deixe de ser autêntico. Se minha
alma pudesse fixar-se, eu não seria hesitante;
falaria claramente, como um homem seguro de
si. Mas ela não pára e se agita sempre à procu-
ra do caminho certo.
Apresento uma vida das mais vulgares, que
nada tem de especial. A vida intima do homem
do povo é de resto um assunto filosófico e
moral tão interessante quanto a do indivíduo
mais brilhante; deparamos em qualquer
homem com o Homem. Tratam os escritores
em geral de assuntos estranhos à sua persona-
lidade; fugindo à regra — e é a primeira vez
que isso se verifica — falo de mim mesmo, de
Michel de Montaigne, e não do gramático,
poeta ou jurisconsulto, mas do homem. Se o
mundo se queixar de que só fale de mim, eu me
queixarei de que ele não pense somente em si.
Mas será razoável, vivendo apenas por mim,
pretender iniciar o público no conhecimento de
mim mesmo? Será razoável igualmente apre-
sentar-lhe, sem esses artifícios que ele tanto
aprecia, simples efeitos de uma natureza bem
pouco original? Escrever um livro assim não
será querer levantar um muro sem pedras ou
empreender uma qualquer tarefa sem o impres-
cindível talento? E a arte que ordena as fanta-
sias da música; as minhas, devo-as ao acaso.
Tenho contudo a meu favor conhecer a fundo
o meu assunto, e melhor do que ninguém, pois
ninguém penetrou melhor o seu objetivo nem
atentou mais seriamente para as suas decor-
rências. Para levar a cabo um tal trabalho, não
preciso senão de sinceridade; e essa qualidade
é pura e total nesta obra. Digo a verdade, não
tão cruamente quanto desejara, mas na medida
de minhas forças e estas, nesse sentido, vão
aumentando com a idade, porque observei que
às pessoas mais velhas se concede maior liber-
dade de linguagem. Não há perigo de que o
artesão e sua obra se contradigam, nem por-
tanto que me objetem: “como pode ter sido
escrito por tão pobre espírito uma obra tão
erudita?” Quando a companhia de alguém é
vulgar e sua obra valiosa, deduz-se que não é
de sua autoria. Um sábio não é sábio em tudo,
mas o homem capaz o é, inclusive na sua igno-
rância. Eu e meu livro estamos bem aparelha-
dos. Em outros casos, pode-se apreciar a obra
MONTAIGNE |
e não gostar do autor; no meu caso, não.
Quem julgar uma coisa sem levar em conta a
outra, há de prejudicar-se a si próprio mais do
que a mim, e quem julgar com conhecimento
de causa há de achar-se satisfeito, ao que espe-
ro. Já me sentirei muito feliz se obtiver a apro-
vação pública da gente de bom-senso, a qual
admitirá sem dúvida que eu fora capaz de tirar
proveito da ciência, se tivesse maiores conheci-
mentos; e que é lamentável a fragilidade de
minha memória.
Expliquemos aqui o que repito constante-
mente: só de raro em raro me arrependo, e
minha consciência contenta-se com seu pró-
prio testemunho, não o de uma consciência de
anjo ou de animal, mais o de uma consciência
humana. A isso acrescentarei o que também
repito sempre: que não se trata aqui de simples
palavrório e sim de um ato de humildade com-
pleta e absoluta: “o que digo provém de
alguém que não sabe e procura; e como con-
clusão atenho-me simplesmente às idéias co-
muns e€ legítimas. Não ensino, conto”.
Não hã vício real que não nos ofenda e não
dê azo a um julgamento sadio. Os inconve-
nientes do vício são, em verdade, tão visíveis
que talvez tenham razão os que afirmam resul-
tar ele da estupidez e da ignorância sendo difi-
cil imaginar que se possa conhecê-lo sem o
detestar. A maldade ressorve a maior parte de
seu próprio veneno e se envenena a si mesma.
O vício acarreta o remorso, o qual está para a
alma como a úlcera para a carne, pois faz que
se coce alguém e se fira, sem assar. A razão
apaga todas as tristezas, todas as dores, ao
passo que alimenta as que provêm do remorso,
o qual é tanto mais agudo quanto nasce dentro
de nós, assim como o frio e o calor da febre
nos são mais penosos do que os que nos vêm
de fora. Chamo vício (segundo o grau, entre-
tanto), não somente ao que a natureza e a
razão condenam, mas ainda ao que, certo ou
erroneamente, o homem assim o qualificou
quando as leis e os costumes o ratificaram.
Tudo o que é bom satisfaz uma natureza de
escol; fazer o bem traz sempre uma satisfação
interior reconfortante e inspira essa generosa
altivez que acompanha a consciência limpa.
Uma alma que se mostra corajosa no vício,
ainda que segura de si, não alcança jamais a
satisfação. Não é pequeno o contentamento
que sentimos em saber que não estamos conta-
giados por um século tão contaminado. Re-
conforta dizer: “quem mergulhasse no fundo.
de minha alma não me acharia culpado, até o
presente, de ter afligido alguém, ou o arruina-
do, nem tampouco de haver atentado publica-
mente contra as leis, ou contribuído para fazer
que prevalecessem novidades, ou participado
ENSAIOS — II
das perturbações da ordem, ou faitado à pala-
vra dada. E, embora a licença da época o haja
permitido e ensinado, não pus a mão nem nos
bens nem na bolsa de nenhum francês. Vivi da
minha, tanto na paz como na guerra, e nunca
empreguei ninguém sem lhe pagar o trabalho”.
Tais testemunhos de boa consciência agradam;
e essa satisfação intima, única recompensa que
nunca falha, é de grande importância.
Buscar na aprovação alheia recompensa
para as ações alheias, é escolher base dema-
stada incerta e mal definida, principalmente
em uma época tão corrupta e ignorante como a
nossa, em que a estima que nos dedica a massa
ê injuriosa e na qual não sabemos em quem
confiar para julgar o mérito das coisas. Deus
me preserve de ser um homem de bem como
esses que eu vejo diariamente assim qualifica-
dos! “Os vícios de outrora tornaram-se os cos-
tumes de hoje?º.? Alguns amigos empreen-
deram por vezes corrigir-me e criticar-me, cu
espontaneamente ou a pedido meu, porque é
um serviço, esse, que só a amizade verdadeira
pode prestar. Acolhendo, embora, essas críti-
cas com cortesia e gratidão, posso garantir que
encontrei tão pouca verdade em seus reparos
quanto em seus louvores; e, em os ouvindo,
por certo me houvyera prejudicado mais do que
beneficiado. Nós, que não vivemos uma exis-
tência pública, temos necessidade de um juiz
interior que julgue nossos atos e nos anime ou
castigue. Para julgar os meus, tenho leis e tri-
bunal próprios, a que recorro. Acontece-me
modificar meus atos de acordo com o julga-
mento alheio, mas só atendo na realidade a
meu próprio juízo. Só nós mesmos sabemos se
somos covardes e cruéis, ou leais e religiosos;
não nos vêem os outros, tão-somente nos adi-
vinham de acordo com conjeturas duvidosas.
Não é a nossa natureza real que percebem, e
sim a aparência que, mediante artifícios,
conseguimos exibir. Atentemos portanto uni-
camente para a nossa própria opinião: “Usa:
vosso julgamento... o que pesa é a cons-
ciência que temos do vício e da virtude. O
resto nada significa? 1.”
Dizem que o arrependimento acompanha de
perto o erro; isso não me parece dizer respeito
ao que se elege domicílio em nós. Podemos
condenar e arrenegar os vícios acidentais a que
nos impeliram as paixões; mas os que pelo há-
bito ou resolução se incrustaram em nós não
estão sujeitos a arrependimento. Este não
passa então de uma falha da vontade, de uma
revolta ocasional de nosso espírito. Pois até da
virtude passada alguém se arrependeu: “Ah,
20 Sêneca.
21 Cicero.
373
por que não tive outrora a experiência de hoje !
por que meu rosto não conservou o buço da
juventude?? Pº
Deliciosa é a vida de quem obedece à regra,
mesmo na intimidade. Todos podem fazer-se
comediantes e representar o pape! de um per-
sonagem honesto. Mas dentro de nós, onde
somos senhores, onde tudo permanece secreto,
é difícil não nos afastarmos da regra. E ser
ponderado em assunto que não suporta a inter-
ferência alheia, é aproximar-se da perfeição.
Nesse espírito foi que Bias esboçou o pano-
rama de uma família modelo, em que “o chefe
é por dentro, graças à sua virtude, o que é por
fora por medo da lei e da opinião pública”
merece ser referida a observação de Lúcio
Druso respondendo aos operários que lhe pro-
punharn abrigar sua residência contra a curio-
sidade dos vizinhos mediante três mil escudos:
“dar-lhes-ei seis mil se conseguirem que todos
vejam o que nela ocorre”. Agesilau tinha um
hábito que depunha a seu favor: quando em
viagem, alojava-se nos templos, a fim de que o
povo se mantivesse a par de seus gestos e fei-
tos. Há quem passe aos olhos do mundo por
ter realizado milagres, sem que a mulher ou o
criado o tenham percebido. Poucos homens
suscitaram a admiração de seus lacaios; nin-
guém ê profeta em sua casa, nem mesmo em
seu país, dizem as lições da História. Assim
ocorre com as coisas sem importância, e por
insignificante que seja o que acontece comigo,
o mesmo se verifica com os grandes. Na minha
provincia de Gasconha acham estranho que
me imprimam. E quanto mais longe habitam
os que ouvem falar em mim, mais me apre-
ciam. Na Guyenne devo pagar meus impresso-
res23, alhures eles é que me pagam. Por esse
motivo muitos que em vida ficam ignorados
esperam granjear reputação depois de mortos.
Prefiro ter menos êxito póstumo, e não me
interesso pelo mundo senão na imedida em que
tiro algum proveito. Aliás considero que esta-
mos quites. Há quem, acompanhado pomposa-
mente até a sua casa por um povo entusias-
mado, de volta de alguma cerimônia pública,
só encontre, ao despir a toga, mesquinharias €
tormentos. E cai de tanto mais alto quanto
mais bela a festa. E mesmo que os atos humil-
des da vida privada se ordenassem admiravel-
mente, fora preciso um juízo penetrante e
particularmente lúcido para constatá-lo, pois a
ordem é uma virtude sem brilho e que não
atrai a atenção. Tomar de assalto uma trin-
cheira, desempenhar uma missão, governar um
povo, são ações de realce; admoestar, rir, ven-
22 Horácio.
23 Editores.
374 MONTAIGNE
der, comprar, amar, odiar, conversar com os
seus e consigo mesmo, docemente, razoavel-
mente, sem relaxar nem se contradizer, são
coisas mais raras, mais difíceis e rienos notàá-
veis. Os que vivem afastados da sociedade têm
deveres tão complexos e árduos quanto os
outros; e os simples cidadãos, diz Aristóteles,
praticam a virtude em condições mais dificeis
e elevadas do que os que desempenham fun-
ções públicas. É mais pelo desejo de glória do
que por convicção e consciência que buscamos
as situações de relevo. O meio mais eficiente
de conquistar a glória deveria ser o de realizar
o que por ela realizamos tão-somente por
injunção da consciência. A própria coragem
de Alexandre parece-me, no teatro em que se
praticava, bastante inferior à que desenvolveu
Sócrates no meio elevado e obscuro em que
viveu. Imagino facilmente Sócrates no lugar de
Alexandre, mas não vejo este no lugar daquele.
Perguntai a Alexandre o que sabe fazer. Dirá:
subjugar o mundo. Indagai o mesmo de Sócra-
tes e responderá: viver a vida humana de acor-
do com as condições estabelecidas pela nature-
za. Ciência bem mais vasta, mais pesada e
mais digna.
O mérito da alma não consiste em se elevar
mais alto e sim em se conduzir ordenada-
mente. Sua grandeza não se manifesta na gran-
deza, mas na mediocridade. Os que perscru-
tam o que há em nós e nos julgam pelo que
observam não atentam para as luzes dos atos
de nossa vida pública; vêem filetes de água
emergindo, gotejantes, de um fundo espesso e
lamacento. Os que nos julgam pelas aparên-
cias brilhantes que percebem de fora deduzem
que por dentro somos iguais; não podem esta-
belecer uma ligação entre as faculdades co-
muns, semelhantes às deles e que também exis-
tem em nós, e as que os espantam e se acham
tão longe do que procuram ver. Por esse moti-
vo atribuímos formas estranhas aos demônios.
Quem, em virtude do que diz a invenção popu-
lar, não imagina Tamerlão de sobrancelhas
arqueadas, narinas largas, feições apavorantes
e desmedida estatura? E se eu houvesse conhe-
cido Erasmo outrora, teria sem dúvida tomado
por máximas e aforismos tudo o que dissesse a
seus criados. Imaginamos mais facilmente um
operário na privada ou com sua mulher, do
que um venerável magistrado. Parece-nos que
uma pessoa tão altamente situada não desce de
seu trono para viver.
As almas viciosas são por vezes instadas à
prática do bem; da mesma forma, as virtuosas
são ocasionalmente solicitadas pelo mal. Não
as devemos julgar, portanto, senão em seu es-
tado normal, ou pelo menos quando mais perto
se encontrem desse estado.
|
As tendências naturais desenvolvem-se e se
fortalecem pela educação, mas não se modifi-
cam. Tenho visto milhares de indivíduos volta-
rem-se para a virtude ou o vício, apesar de
uma educação que os deveria impelir para o
lado oposto. “Assim os animais selvagens,
desacostumados da vida nas selvas e aparente-
mente domesticados, despojam-se de sua
agressividade e se submetem ao homem; mas,
se por acaso um pouco de sangue lhes toca a
boca, desperta-se-lhes a cólera, queima-se-lhes
a goela, e se impacientam por saciar-se. E em
seu furor mal se contêm ante o domador pálido
de medo? *.” Não se arrancam as raízes das
tendências originais; dissimulam-se tão-so-
mente. Assim a língua latina é para mim como
a minha língua materna; compreendo-a melhor
do que o francês. Mas há quarenta anos não a
utilizo nem para falar nem para escrever.
Entretanto, quando me vi tomado de forte
emoção, o que me aconteceu. duas ou três
vezes na vida, uma destas vendo meu pai cair
inanimado em meus braços, minhas primeiras
palavras foram em latim. Valendo-se das
circunstâncias, a natureza, hã muito reprimi-
da, ressurgia. E casos como esse, contam-se
inúmeros.
Os que tentam corrigir os costumes de nossa
época, com idéias em voga, só corrigem a apa-
rência viciada das coisas, mas não o fundo
delas, o qual talvez se agrave ainda. E acho a
agravação possível, porque é fácil aceitar
alguém as reformas exteriores e arbitrárias,
menos custosas e de vantagens mais tangíveis
que as interiores, satisfazendo assim os vícios
essenciais sem maiores riscos.
Vejamos um pouco em volta de nós. Não há
quem, em se analisando, não descubra em si
uma tendência dominante em luta contra a
educação e contra as demais paixões contrá-
rias. Quanto a mim, não sinto, por assim dizer,
tais emoções; antes me encontro sempre bem
firme em meu equilíbrio, como os corpos pesa-
dos e maciços. Se não estou na inteira posse de
mim mesmo, acho-me no ponto de me domi-
nar. Meus desregramentos nunca são excessi-
vos nem singulares, e a recuperação é sempre
vigorosa e sincera.
O que verdadeiramente nos condena, e afeta
a maneira de ser de todos, é que o próprio
arrependimento se acha corrompido pelas más
intenções. Temos apenas confusamente o|dese-
jo de nos corrigir, iludimos a penitência e nos
conduzimos então pior ainda do que no peca-
do. Ou porque o vício lhes seja natural, ou por-
que a ele se habituaram, muitos não lhe perce-
bem mais o horror. Outros, como eu, acham-
24 Lucano.
ENSAIOS — HI
no detestável mas, pondo na balança o prazer
que dele auferem, suportam-no mediante algu-
ma transação que não deixa de ser condenável
e covarde. Entretanto, o prazer que se tira de
um vício pode ser de tal ordem que desculpe o
pecado (como dizemos da utilidade); e isso
não somente quando se trata de prazeres que
usufruímos depois do pecado, como os que
decorre do furto, mas igualmente dos que
gozamos no próprio momento em que ocorre a
falta, como acontece quando possuímos uma
mulher, levados por uma tentação que dizem
ser irresistível. Estava há dias em Armagnac,
na propriedade de um de meus parentes.
Conheci um camponês, por apelido “o la-
drão”. Contou-me sua vida. Filho de pais que
se entregavam à mendicidade e convencido de
que, ganhando honestamente a existência, não
conseguiria jamais pór-se ao abrigo da misé-
ria, lembrou-se de se tornar gatuno, ofício que
praticou durante toda a sua mocidade com
inteira segurança, em virtude de sua força físi-
ca. Com efeito, costumava empregar-se nas
colheitas e vindimas dos camponeses. Mas tra-
balhava longe e em terras tão extensas, que
não podiam imaginar fosse um só homem
capaz de transportar tão grandes quantidades
de trigo ou de uva em uma só noite. Demais,
tinha o cuidado de repartir os prejuízos entre
muitos, de modo que não parecessem excessi-
vos para cada um. Hoje, graças a seus furtos,
esse homem está velho e rico para um indiví-
duo de sua condição social. A fim de conciliar
a indulgência divina, diz que diariamente inde-
niza com boas ações os sucessores dos que
saqueou. E que se não conseguir ressarci-los
totalmente (o que não pode fazer em um dia)
encarregará seus herdeiros de levarem a cabo a
tarefa, pois é o único capaz de informá-los
acerca do prejuízo de cada uma das vítimas.
Verdadeira ou não a história, quem a contou
encara o furto como desonesto e o detesta;
menos entretanto do que a indigência. Arre-
pende-se de um modo geral de ter recorrido a
esse expediente, mas, dadas as vantagens
usufruídas e a reparação atual, não se arre-
pende no caso em apreço. Não é esse, por
certo, o caso de hábitos que fazem com que o
vício se encare em nós e nos oblitere a razão.
Não é tampouco o de uma borrasca que, aba-
lando violentamente a nossa alma, a perturbe e
cegue, jogando o nosso julgamento, e todo o
nosso ser, nas garras do vício.
Em geral dou-me por inteiro ao que faço;
nenhum movimento se sonega à minha razão
nem se executa, senão por consenso de todas
as partes de meu ser, sem choques nem dissen-
sões intestinas. Mérito ou culpa cabem por
completo ao meu julgamento, e se erra é defini-
375
tivo o erro, pois nunca mudou desde que nasci:
suas forças continuam idênticas e, quanto às
questões de ordem geral, as minhas opiniões
atuais são as mesmas que concebi na infância.
Há pecados impetuosos, súbitos; deixemo-
los de lado. Mas há outros tantas vezes repeti-
dos e acerca dos quais consultamos sem cessar
a nossa consciência, pecados inerentes à nossa
profissão, ao cargo que desempenhamos, que
não posso imaginar se perpetuem em nós
senão com o apoio da nossa vontade e conhe-
cimento da nossa consciência. Por isso não
acredito na sinceridade do arrependimefito em
tais casos. Não compreendo a seita de Pitágo-
ras quando diz que “os homens renovam a
alma ao se aproximarem das imagens dos deu-
ses para lhes recolher os oráculos”. A menos
que isso signifique que o homem toma então de
empréstimo uma alma nova e estranha, por-
quanto a sua oferece bem poucos sinais da
purificação e limpeza, imprescindíveis a quem
queira aproximar-se dos deuses.
Fazemos o contrário do que propugnam os
estóicos, os quais nos ordenam de corrigir as
imperfeições e os vícios que reconhecemos em
nós, porém sem perturbarmos a serenidade de
nossa alma. Procuramos fazer crer que nos
arrependemos, que o remorso nos devora, mas
não damos demonstração de que nos tenhamos
corrigido ou interrompido o progresso do
vício. Só há cura quando nos desembaraçamos
do mal: um arrependimento sincero colocado
em um dos pratos da balança pesaria por certo
mais do que o pecado posto no outro. À devo-
ção é a qualidade que mais facilmente se simu-
la, quando se acordam a ela os costumes e a
vida; pois se sua essência é abstrusa e oculta,
sua aparência é pomposa e enganadora.
Pessoalmente posso desejar, de uma manei-
ra geral, ser diferente do que sou; posso conde-
nar-me e pedir a Deus que me modifique de
todo em-todo e desculpe minha fraqueza natu-
ral; mas a isso não chamo arrependimento,
como não o chamo ao desprazer de não ser
nem anjo nem Catão. Meus atos condicio-
nam-se ao que sou; não posso fazer mais nem
melhor, e o arrependimento não se aplica às
coisas que estão acima de nossas forças. No
caso, poderia quando muito lamentar a minha
condição. Imagino que existem naturezas infi-
nitamente mais elevadas do que a minha e
mais perfeitas; isso não faz que possa aperfei-
çoar a minha, como o fato de imaginar um
braço mais forte não torna mais forte o meu.
Se imaginar e desejar agir mais nobremente
tivesse como resultado arrepender-nos do que
já fizemos, teriamos de nos arrepender das
ações mais inocentes, pois uma natureza me-
lhor do que a nossa as houvera executado com
376
«
maior perfeição e dignidade, e gostariamos de
ter agido da mesma forma. Quando reflito,
agora que cheguei à velhice, na maneira por
que me conduzi na mocidade, acho que quase
sempre o fiz com sensatez e retidão; na medida
do possível opus ao mal toda a resistência de
que era capaz. Não me estou vangloriando, e
em circunstâncias idênticas seria novamente, e
sempre, como fui. Não é uma mancha que há
em mim, é minha cor natural. Não admito
arrependimentos superficiais, mitigados ou
tão-somente cerimoniosos; para que haja arre-
pendimento, a meu ver, é preciso que nada lhe
escape, que atinja as entranhas e que magoe
até onde penetra o olhar de Deus.
No que concerne aos meus negócios, tenho
perdido os melhores por não saber conduzi-
los. No entanto soube sempre ver com justeza,
mas escolho a solução mais cômoda. Voltando
os olhos para o passado, verifico que, desse
modo, sempre procedi com acerto e penso que
não me conduziria de outra maneira hoje, nem
daqui a mil anos. Não, por certo, em relação
ao presente, mas tendo em vista o momento em
que me coube decidir, pois o valor de uma
decisão não pode ser senão ocasional, dadas as
modificações constantes a que estão sujeitas as
coisas e as circunstâncias ém que acontecem.
Em minha existência cometi alguns erros
importantes, não por não ter visto com clarivi-
dência, mas por falta de sorte. Há, em todo
negócio que tratamos, pontos obscuros, impos-
stveis de se distinguirem nitidamente, em parti-
cular os que dizem respeito à natureza huma-
na; há qualidades e defeitos que não aparecem,
nem se revelam, por vezes desconhecidos do
próprio portador e que só despertam quando
surge a oportunidade. Se minha prudência não
os penetrou, nem os previu, não posso incul-
pá-la: agiu dentro dos limites do que lhe cabia
fazer. Se os acontecimentos me traem, se favo-
recem a solução afastada, tanto pior. Não há
remédio. Mas não me censuro nem me respon-
sabilizo; acuso a sorte. E isso não é tampouco
arrependimento.
Fócion dera aos atenienses um conselho que
não foi seguido. Tendo sido favorável o resul-
tado das negociações, embora contra a sua
opinião, alguém lhe disse: “Então, Fócion,
estãs contente com a marcha dos acontecimen-
tos?” “Estou contente, respondeu ele, de ver
que tudo deu certo, mas não me arrependo do
conselho que dei.” Quando meus amigos
pedem um conselho, dou-o com inteira liber-
dade e precisão, sem me preocupar, em sendo
a coisa duvidosa, que se verifique o contrário
de minha previsão e venham a censurar-me
mais tarde. Essa eventualidade não justificaria
MONTAIGNE
a s |
a censura e não deve induzir-me a não. prestar
o serviço solicitado.
Não responsabilizo ninguém pelos meus
erros ou azares, pois não costumo recorrer aos
outros senão por cortesia ou quando tenho
necessidade de ser informado acerca dos fatos,
por não os conhecer suficientemente. Mas nas
coisas que dependem somente do julgamento,
as razões alheias podem servir para confirmar
minha decisão; nunca me fazem voltar atrás.
Escuto-as com interesse e atenção; só ouço,
porém, em verdade as minhas. Estas pouco
pesam, aliás, na resolução, mas as dos outros
anda menos. Fio-me no acaso, como os outros
o fazem em relação a mim, pois se não sigo
conselhos, só raramente mos pedem e não os
seguem tampouco. E não sei de negócio pú-
blico ou particular que minha opinião tenha
modificado ou acertado. Mesmo aqueles que
as circunstâncias levaram a consultar-me,
antes se conduziram segundo opiniões de ou-
tras pessoas; e como aspiro acima de tudo ao
sossego, mais do que a demonstrar minha
clarividência, prefiro que assim seja. Deixan-
do-me de lado, atendem a meu desejo, em
suma, que é o de guardar para mim mesmo o
fruto de minhas reflexões. Sinto prazer em não
ser forçado a interessar-me pelos negócios
alheios e em não assumir nenhuma responsabi-
lidade. E o que passou não me inspira saudade,
qualquer que seja a ocorrência e como quer
tenha ocorrido. A idéia de que assim devia de
fato ocorrer liberta-me de quaisquer preocupa-
ções. Eis a cóisa engrenada na cadeia universal
das causas de que, segundo os estóicos; depen-
dem os acontecimentos futuros, os quais nem
pela imaginação nem pela vontade podemos
modificar ainda que de leve. Se assim não
fosse, estaria a ordem das coisas, passadas €
por se verificarem, inteiramente subvertida.
Detesto esse arrependimento acidental que
surge com a idade. Não sou da opinião desse .
autor antigo que era grato aos anos por o
haverem livrado da volúpia. Eu nunca aceita-
rei de bom grado a impotência, por útil que me
possa ser. “Nunca será a Providência tão hos-
til à sua obra que se deva colocar a fraqueza
na categoria das coisas excelentes? 8.” Nossos
apetites se atenuam na velhice; profunda sacie-
dade apodera-se de nós logo depois de satisfei-
tos; mas com isso nada tem a ver a consciên-
cia. O esgotamento e a prostração inspiram-
nos uma virtude que não passa de cansaço e.
catarro. Não devemos comover-nos demasiado
com essas alterações naturais. A mocidade e o
prazer não me impediram outrora de reconhe-
cer o vício sob a máscara da volúpia; a falta de
25 Quintiliano.
ENSAIOS — III
apetite, de que os anos são causa, não faz que
desconheça a volúpia sob a máscara do vício.
Embora já não me interesse pela coisa, julgo-a
como se me interessasse. Encarando atenta-
mente minha razão, acho que não mudou
desde a idade em que somos mais propensos
aos prazeres, a não ser que se tenha algo enfra-
quecido com a velhice. E não creio que a volá-
pia que ela hoje me proíbe em benefício da
saúde física, os proibisse igualmente em pro-
veito da saúde espiritual. Por isso não a valo-
rizo exageradamente. Minhas tentações tão
alquebradas andam e mortificadas, que não
preciso opor-me a elas. Basta-me um sinal
para afastá-las do meu caminho. Diante de
minha antiga concupiscência, creio que resisti-
ria hoje bem mais dificilmente, pois não creio
que julgue melhor agora do que antes, nem
mais sadiamente. Se há convalescença, há de
provir apenas do enfraquecimento geral; e bem
triste é o remédio que cura pela doença! Não
deveriamos dever esse serviço à infelicidade e
sim a um julgamento mais avisado e sadio.
Nada conseguem de mim com ofensas e
sevícias, senão irritar-me. Tais processos são
bons para os que só agem sob ameaça do chi-
cote. Minha razão atua com maior liberdade
quando as coisas vão bem; mais se preocupa
com as contrariedades do que com os prazeres.
Julgo melhor com saúde e vejo então as coisas
por um lado mais prático. Fiz o que pude para
corrigir-me enquanto me foi dado aproveitar a
vida, e me sentiria envergonhado se julgassem
minha conduta não pela existência que levei e
sim pelo estado em que me encontro às véspe-
ras de deixar de ser, e viessem a estimar-se
somente agora em que não há grande mérito
em evitar o vício. ,
A meu ver, a felicidade do homem consiste
em bem viver; e não, como dizia Antístenes,
em morrer bem. Não creio que deva grudar,
agora, um rabo de filósofo a um corpo de
homem já gasto, nem quero que o tempo que
ainda me resta a vegetar seja um desmentido à
parte mais longa e bela de minha vida. Quero
apresentar-me, e que me vejam, de um modo
uniforme. Se tivesse de voltar a viver, viveria
como vivi; não lamento o passado e não temo
o futuro e, se não me engano, meus pensa-
mentos sempre se acordaram com meus atos.
Sou muito grato ao destino por ter feito com
que meu estado físico sempre tenha atendido
as exigências . ge minha idade: vi a planta, a
flor, o fruto e Por felicidade vejo agora o fim, e
digo “por felicilade”, porque essa é a ordem
natural. Suporto com paciência os males que
me afligem porque chegam na hora certa,
tornando-me agradável a lembrança da longa
felicidade que usufruí no passado. Minha sabe-
doria foi sensivelmente a mesma nas diversas
377
épocas de minha vida, embora talvez tenha
sido outrora mais resoluta, graciosa, viva, ale-
gre, naturai e hoje se revele mais dificil e enfa-
dada. Renuncio pois a essas modificações oca-
sionais e dolorosas que somos levados a
buscar no fim da vida. Que Deus nos assista,
pois é preciso que nossa consciência se corrija
por si mesma, graças ao fortalecimento da
razão, e não porque nossos apetites se debili-
tem. Não é porque nossa vista fraqueja e se
turva que a volúpia se atenua realmente.
Deve-se amar a temperança por si mesma e
em atenção a Deus que a prescreveu; assim
também devemos amar a castidade. A absti-
nência a que nos obrigam os incômodos da
velhice, cólicas e catarros, não é castidade nem
temperança. Por outro lado não cabe vanglo-
riar-nos de desprezar a volúpia e resistir-lhe, se
a ignoramos, se lhe desprezamos as graças, a
força e a beleza. Conhecendo tudo isso, posso
falar. Parece-me que na velhice nossas almas
estão sujeitas a doenças e imperfeições mais
importunas do que na mocidade; eu já o dizia
quando jovem, mas objetavam-me então que
não tinha barba na cara e portanto carecia de
experiência; digo-o ainda hoje, com a autori-
dade de meus cabelos grisalhos.
Nessa altura da existência chamamos sabe-
doria aos nossos humores doentios e ao enfado
que se apodera de nós. Na realidade não
renunciamos aos vícios; mudamos tão-so-
mente, e para pior. Além de um orgulho tolo e
caduco, de um palavrório aborrecido, de um
humor suscetível e insociável, de muita supers-
tição, de uma ridícula necessidade de riquezas
inúteis, faz a velhice que se desenvolvam em
nós a inveja, a injustiça e a maldade; põe-nos
ela mais rugas no cérebro do que no rosto e
não se vêem muitos espiritos que, ao envelhe-
cer, não rescendam a mofo e ranço. Todas as
partes do homem crescem e decrescem juntas.
Considerando a sabedoria de Sócrates e certas
particularidades de sua condenação, sou leva-
do a crer que a tanto, e até certo ponto, se haja
prestado espontaneamente, por temer, já com
setenta anos, que se embotassem as ricas facul-
dades de seu espírito e se turvasse sua habitual
lucidez. Quantas metamorfoses vejo a velhice
operar diariamente em gente de minhas rela-
ções! uma doença terrível que se infiltra
naturalmente em nós, sem que o percebamos.
É preciso ter-se preparado cuidadosamente e
tomado grandes precauções para evitar a deca-
dência com que nos castiga ou, ao menos, para
atrasar-lhe a marcha. Sinto que, apesar de toda
a minha resistência, ela ganha terreno, palmo a
palmo. Luto na medida de minhas forças, mas
sem saber até onde poderei chegar. O que quer
que aconteça, entretanto, quero que saibam de
que altura cai.
378 MONTAIGNE
CAPÍTULO III
Da companhia dos homens, das mulheres e dos livros
Não nos devemos colocar sob a depen-
dência exclusiva de nosso humor e tempera-
mento, pois nossa superioridade consiste em
saber aplicar a inteligência de diversos modos.
Prender-se a uma só ocupação, é ser mas não é
viver e os espiritos mais bem dotados são os
mais versáteis e receptivos. Comprova-o
Catão, o Velho: “Tinha o espírito tão flexível e
tão igualmente apto para tudo que, qualquer
coisa que fizesse, dir-se-ia ter nascido para
aquilo? 8.” Se me coubesse modelar-me, não
gostaria de fazê-lo no sentido de possuir a
fundo uma só coisa, por brilhante que pudesse
mostrar-me. A vida é movimento desigual,
irregular, de múltiplas formas. E ser escravo, e
não senhor de si, entregar-se às próprias
tendências a ponto de não poder escapar-lhes
nem contrariâ-las. Reconheço-o agora, porque
não consigo fugir facilmente às injunções de
meu espírito, o qual de nada sabe ocupar-sé
sem se entregar por inteiro. Por insignificante
que seja o assunto, ele o amplia e valoriza até
se prender completamente ao mesmo. A ocio-
sidade pesa-me e perturba-me a saúde. Quase
todos os espiritos precisam de assuntos estra-
nhos para exercitar, o meu antes se acalma e
sossega com a matéria alheia (“E o trabalho
que nos livra dos vícios da ociosidade? 77),
pois sua tarefa principal, e mais árdua, con-
siste em se estudar a si mesmo. Logo aos pri-
meiros pensamentos, agita-sé, e as molas de
seu vigor atuam em todos os sentidos. Mos-
tra-se ora violento, ora ponderado e gentil;
aquieta-se afinal, modera-se e se fortalece.
Tem em si com que manter em exercício suas
faculdades; deu-lhe a natureza, como aos
outros, suficiente material para suas indaga-
ções e pesquisas.
Para quem sabe auscultar-se e tirar partido
de suas observações, meditar é ocupação das
mais importantes; prefiro formar meu espírito
a mobiliá-lo. Segundo o temperamento, entre-
ter-se consigo mesmo pode constituir ocupa-
ção de maior ou de menor alcance. Os maiores
espírito, para os quais “viver é pensar”, como
26 Tito Lívio.
27 Sêneca.
diz Cícero, a isso dedicaram a maior parte de
seu tempo. Por esse motivo a natureza deu-nos
o privilégio de podê-lo fazer amiúde e longa-
mente. É a ocupação dos deuses, afirma Aris-
tóteles, e dela nascem sua beatitude e a nossa.
A leitura servé-me principalmente de pre-
texto a Meditações; faz que meu julgamento
trabalhe e não minha memória. Pouco me inte-
ressam as Conversações, sé fiao versam assun-
to sério e suscetível de levar à reflexão. Entre-
tanto, devo confessar que por sua beleza e
requinte um ássunto pode reter-me bem mais
do que outro grave e sério. Quanto ao resto,
mal presto atenção ao que dizem e ocorre-me
cochilar ou, nas conversações convencionais
em que se trata de coisas frivolas e insignifi-
cantes, responder como se acordasse de um
sonho e dizer tolices ridículas que uma criança
não diria; ou observar um silêncio descortês
além de estúpido. Tenho uma maneira de pen-
sar que me isola dos outros, e, por outro lado,
sou de uma ignorância pueril acerca do que
todo mundo sabe. Esses defeitos valeram-me
uma reputação de bobo, que se assenta em
cinco ou seis fatos reais.
Um tal temperamento torna difícil a escolha
de minhas relações. Preciso selecioná-las cui-
dadosamente, pois não sou nada feito para as
questões da vida cotidiana. Vivemos e trata-
mos com o povo; se a conversação deste nos
importuna, se desdenhamos os espíritos vulga-
res fe são, não raro, tão sensatos quanto os
mais requintados), como toda sabedoria é inú-
til desde que não se acomode à ignorância dos
outros, não devemos tentar resolver nem os
nossos próprios problemas nem os alheios,
porquanto é com essa gente vulgar que se tra-
tam os negócios públicos e particulares.
As atitudes de espírito são tanto mais belas
quanto mais naturais; as melhores atividades
exigem menor esforço. E como a sabedoria
presta serviço aqueles cujos desejos se subordi-
nam à possibilidade de realização! Não há
ciência mais útil: “de acordo com as nossas
forças”, eis o estribilho de Sócrates. Palavras
profundas! É preciso orientar nossos desejos
para as coisas mais fáceis e mantê-los dentro
de tais limites. Não será tolice minha não me
ENSAIOS— HI 379
ligar com as pessoas que o destino colocou
perto de mim e me são indispensáveis, e buscar
companhia de uma ou outra fora de meu
ambiente normal? Não proviria isso do desejo
irrealizável de algo perdido que não pude reen-
contrar? Minha tolerância, hostil a rancores e
rigorismos, pôde facilmente preservar-me da
inveja e inimizade alheias; nunca houve nin-
guém que mais pudesse, já não digo inspirar
amizade, mas não dar azo a quaisquer ódios.
Por outro lado, a minha reserva natural alie-
nou-me a simpatia de alguns que a devem ter
interpretado mal.
Sou capaz de angariar e conservar excelen-
tes amizades, excepcionais mesmo, tanto mais
quanto, quando me convêm, a tal ponto me
esforço e dedico que raramente deixo de ser
correspondido. Sou pouco atraído pelas ami-
zades banais, pois além de não estar em meu
temperamento entregar-me senão por inteiro, a
sorte fez que desde a juventude me tornasse
muito exigente a esse respeito, graças a uma
amizade perfeita, e me firmou na idéia de que,
como diz um autor antigo, a amizade não se
acomoda a numerosa companhia. Demais,
repito, custa-me dedicar-me pela metade, ob-
servando essa prudência desconfiada e degra-
dante recomendáveis nas relações de amizades
frouxas e inseguras, prudência aliás necessária
nestes tempos em que corre riscos graves quem
fala com franqueza.
Por isso estou convencido de que quem de-
seja como eu gozar as comodidades da vida —
as essenciais, naturalmente — deve evitar,
como se evita a peste, esses pequenos e espi-
nhosos obstáculos. Admiraria um espírito
constituído de vários andares e que, desmon-
tável a vontade, se adaptasse a tudo o que o
acaso lhe apresentasse; que pudesse conversar
com o vizinho acerca de construções, caça,
demandas e com seu carpinteiro ou jardineiro.
Invejo os que sabem nivelar-se, pela conversa-
ção, aos mais humildes personagens de seu sé-
quito. Não sou da opinião de Platão, o qual
recomendava guardar-se a necessária distância
com os servidores, sem jamais descer à amabi-
lidade e menos ainda à familiaridade. Além da
razão acima apontada, considero inumano e
injusto prevalecer-se alguém, a esse ponto, do
privilégio da fortuna. Os costumes que exigem
menor desigualdade entre amos e lacaios pare-
cem-me majs equitativos. Há pessoas que se
esforçam por manter artificialmente o espírito
nas regiões etéreas; eu quero o meu humilde-
“mente instalado junto ao solo. Só o culpo de
uma coisa: preocupar-se com tudo: “Vós me
contais o que fizeram os descendentes de Éaco,
e os combates travados junto às muralhas de
Ílios; mas não me dizeis quanto custa o vinho
de Quio, qual o escravo que deve preparar meu
banho, nem em que casa e quando poderei
resguardar-me do vento frio dos Abruzos? 8.”
Assim como na guerra o entusiasmo dos
lacedemônios necessitava, para não se trans-
formar em fúria, ser atenuado pelo som gra-
cioso das flautas, quando em idênticas circun-
tâncias outros povos precisam de instrumentos
ruidosos e de vociferações, assim, ao contrário
do que geralmente se acredita, o espírito da
grande maioria é mais exigente de chumbo que
de asas, de calma e repouso que de ardor e agi-
tação. Mas considero, acima de tudo, que é
suma tolice fazer-se de entendido com quem
nada entende, e mostrar-se rebuscado na lin-
guagem. É preciso colocar-se a gente à altura
das pessoas com as quais se fala e por vezes
mesmo fingir de ignorante. No trato cotidiano
deixem-se de lado a força e a sutileza; basta a
lógica; e que se seja chão se necessário.
Os sábios revelam não raro o defeito de exi-
bir seus conhecimentos doutorais e andar a
espalhar seus livros por toda a parte. À tal
ponto encheram com estes as alcovas das
damas da sociedade, que se elas não lhes
apreenderam a essência adotaram-lhes a
forma. Por um sim € por um não, com ou sem
propósito, empregam essa nova e douta manei-
ra de falar: “Temor, cólera, alegria, tristeza,
tudo, inclusive seus segredos amorosos, expri-
mem nesse estilo. E doutamente que exta-
siam?2º9?. Citam Platão e Santo Tomás em
assuntos a cujo respeito a opinião de qualquer
um fora igualmente válida. Creiam-me, as bem
educadas, que andariam mais acertadamente
se se contentassem com valorizar seus pró-
prios encantos, os quais vão escondendo sob a
roupagem de belezas estranhas a elas. É
simplicidade de espírito abafar a própria luz.
para brilhar com luz de empréstimo. Como
que se enterram e se sepultam nos artifícios a
que recorrem. “São apenas arrebiques e perfu-
mes?º.”? Sem dúvida não se conhecem suficien-
temente, pois o mundo nada comporta mais
belo e ao contrário do que ocorre, a elas cabe-
ria dar brilho ao artifício. A que aspiram? A
ser amadas e admiradas; não sabem mais que
fazer para atingir tal objetivo e no entanto bas-
taria que atentassem um pouco para suas qua-
lidades naturais. Quando as vejo preocupa-
rem-se com a retórica, o direito, a lógica e
outras drogas semelhantes, vas e inúteis,
ponho-me a pensar que quem as aconselha o
faz sem dúvida para dominá-las. Como expli-
cá-lo de outro modo? Que se contentem com
28 Horácio.
zº Juvenal.
30 Sêneca.
380
se exprimir pelo olhar gracioso, a alegria, a
severidade, a ternura; que saibam temperar um
“não” com rudez ou esperança; que se satisfa-
çam com entender sem intérpretes as lisonjas
de seus admiradores. Uma tal ciência já basta
para que conduzam pelo nariz os professores e
seus discípulos.
Se apesar de tudo não se conformarem com
nos ceder quaisquer vantagens e quiserem bus-
car distração igualmente nos livros, escolham
a poesia que é passatempo apropriado a suas
necessidades, pois trata-se de uma arte sutil e
espirituosa em que tudo se apresenta fanta-
siado, em que domina a intenção de agradar e
impressionar, como no que elas próprias
fazem. A História também pode fornecer-lhes
temas interessantes. Quanto à Filosofia, pode-
rão aprender com ela a maneira de julgar
nosso humor e nosso temperamento, de se
defender contra as nossas traições, de dominar
seus próprios desejos, de preservar sua liberda-
de, de prolongar os prazeres da vida, de supor-
tar humanamente a inconstância do amante, a
grosseria do marido, a tristeza da idade e coi-
sas que tais. Eis tudo o que lhes concederia em
matéria de estudo.
Hã naturezas particularmente voltadas para
si mesmas; eu sou essencialmente comunica-
tivo e exuberante; sou um indivíduo inteira-
mente e visivelmente voltado para fora, nasci-
do para a sociedade e a amizade. Prego a
solidão, mas esta consiste para mim em poder
estar mais à vontade na companhia de minhas
afeições e meus pensamentos; não procuro res-
tringir o espaço em que me mantenho e sim
diminuir meus apetites e preocupações, afas-
tando de mim os negócios alheios, fugindo às
servidões e aos deveres sociais que aborreço
mortalmente. Não é bem o comércio dos ho-
mens que me pesa; é a multiplicidade dos
problemas.
Para dizer a verdade, a solidão, quando cau-
sada por um isolamento efetivo, tende a dila-
tar-me as idéias e a fazer que se voltem um
pouco mais para os fatos exteriores. Quando
só, é principalmente acerca dos negócios do
Estado e do mundo que medito.
No Louvre e em numerosa companhia, reco-
lho-me em mim mesmo. A multidão impele-me
a fechar-me em mim mesmo e nas conversa-
ções que então mantenho com meus botões os
assuntos são bem menos agradáveis e pessoais
do que quando me encontro em lugares em que
se observam o respeito e o silêncio. Não são
nossas loucuras que me fazem rir, são o que
consideram sabedoria. Não sou hostil por
temperamento à agitação da corte. Aí vivi
parte de minha existência e sou capaz de
desempenhar meu papel na alta sociedade;
MONTAIGNE
conquanto isso ocorra ocasionalmente e eu me
ache bem disposto. Mas a indiferença a que
aludi leva-me naturalmente à solidão.
Em minha província, junto de minha fami-
lia, que é numerosa, e em minha casa, muito
frequentada, recebo bastante gente; mas rara-
mente aparecem as pessoas com as quais gosto
de conversar. Aí estabeleci, para mim como
para os outros, uma liberdade que não se
encontra alhures. Toda etiqueta foi abolida;
não se vai ao encontro dos que chegam, nem se
acompanham os que partem, nem se observam
as demais regras protocolares tediosas e incô-
modas. Em casa, cada um se conduz como
bem entende, se isola, ou se entretém com
quem quer. Posso permanecer calado, so-
nhando ou meditando sem que ninguém se
ofenda.
Procuro a companhia dos homens honestos
e avisados; e esses me afastam com repug-
nância dos outros. São em verdade raros, e O
que busco neles é um momento de intimidade,
recursos para uma troca de idéias, um meio de
exercitar o espírito. Não viso nenhum outro
benefício ou vantagem. Quando converso com
eles, qualquer assunto me agrada e interessa
por mais sério ou frívolo que seja. É sempre
oportuno e sempre se impregna de bom-senso,
de experiência, de bondade e franqueza, de ale-
gria e ternura. Não é somente a propósito de
Jurisprudência e política que nosso espírito re-
vela sua beleza e sua força, é também em rela-
ção às coisas familiares. E avalio o valor de
meus companheiros até pelo seu silêncio, seu
sorriso, e os entendo melhor à mesa do que em
reuniões cerimoniosas. Não afirmava Hipó-
maco que reconhecia os bons lutadores pela
maneira de andarem na rua? Não afastemos de
nós a erudição quando porventura surge no
decorrer da conversação, mas sob a condição
de que não assuma uma forma doutoral, impe-
rativa e inoportuna, de que seja modesta e
acessória. Não procuremos senão distrair-nos;
nas horas destinadas à instrução e ao doutrina-
mento saibamos onde ir buscá-la. Enquanto
isso, que desça a nós, se quiser ser admitida em
nossa companhia, porquanto embora útil e
desejável podemos muito bem dispensá-la em
nossos encontros. Um indivíduo bem educado
e afeito à freqientação da sociedade sabe tor-
nar-se agradável; a arte consiste apenas em
controlar e realçar os produtos do espírito.
É também de meu agrado a sociedade das
mulheres belas e honestas, “pois também
temos olhos conhecedores*!”. Se o espírito
não encontra nessa freqlentação o mesmo pra-
zer que aufere da amizade, a satisfação dos
31 Cicero.
ENSAIOS — HI 381
sentidos (que é grande) como que o compensa,
embora não inteiramente a meu ver. Mas tra-
ta-se de um comércio que deve praticar com
cuidado quem, como eu, tem apetites sexuais
muito vivos. As experiências de minha juven-
tude escaldaram-me, pois sofri todos os tor-
mentos que os poetas “afirmam se agregarem
ao gozo desregrado. É verdade que a lição
valeu: “Quem se salvou do desastre da frota
grega em Cafareu, afasta-se sempre das águas
traiçoeiras da Eubéia??.” É loucura concen-
trar todos os seus pensamentos em uma afei-
ção apaixonada. Por outro lado, entregar-se a
isso sem amor, como comediantes desempe-
nhar sem escrúpulo o papel que todos desem-
penham nessa idade, é por certo velar pela pró-
pria segurança mas de um modo covarde,
como se, de medo do perigo, abandonássemos
a honra ou renunciássemos a um prazer. E os
que assim agem, nada podem esperar susce-
tivel de satisfazer uma bela alma. É preciso,
para que o prazer seja real, desejar com per-
feito conhecimento de causa. Acrescentarei a
propósito que nunca nossas palavras deixaram
de persuadir as rnulheres, pois não há nenhu-
ma, por feia que seja, que não se julgue com
algum mérito, ou por causa da idade, ou dos
cabelos ou de seus ademanes. Na realidade,
feias totalmente não existem, nem tampouco
totalmente formosas. As jovens brâmanes,
quando carecem de outros encantos, são con-
vocadas por pregão a exibirem publicamente
suas partes genitais a fim de que se verifique
se, ao menos por isso, merecem um marido.
Mas a atitude dos homens de nossa época faz,
como o demonstram os fatos, que as mulheres
se unam para nos escapar ou, imitando-nos,
representem igualmente e se prestem à comé-
dia das relações intimas sem paixão nem ter-
nura. “Incapazes de dedicação, insensíveis à
dedicação dos outros?*”, imaginam, segundo
os princípios de Lísias, em Platão, que podem
entregar-se com tanto maior vantagem quanto
menor o amor. Ocorre então, como no teatro,
ter o público maior prazer do que os atores.
Ao que me concerne, não conheço Vênus sem
Cupido, como não concebo a maternidade sem
a progenitura. São coisas que decorrem uma
da outra. Ademais a trapaça volta-se contra o
trapaceiro; e se não lhe custa muito, tampouco
lhe rende bastante. Os que fizeram uma deusa
de Vênus, levaram principalmente em apreço a
sua beleza imaterial e espiritual; ora, o prazer
que buscam os trapaceiros é unicamente
sexual. Não é o que o homem deveria ambicio-
nar, nem mesmo o do animal. Não o querem
os bichos tão material e grosseiro, pois sua
32 Ovídio.
33 Tácito.
imaginação se excita não raro antes de seus ór-
gãos. Qualquer que seja o sexo, vemo-los pro-
cederem a uma escolha, terem preferências, e
sua união resulta por vezes de longa amizade e
frequentação. E mesmo os que a velhice torna
incapazes, ainda vibram amorosamente. Ve-
mo-los cheios de desejos antes do ato, e vemo-
los comprazer-se na lembrança do mesmo
muito depois. Alguns, envaidecidos,entoam
cantos de triunfo e caem em seguida extenua-
dos e satisfeitos. Quem só deseja livrar-se de
uma necessidade natural, não se preocupa com
a colaboração nem se dá tanto trabalho. Não é
prato, esse, para quem morre de fome.
Como não desejo parecer melhor do que
sou, direi aqui algumas palavras dos erros da
minha juventude. Nunca me afeiçoei às mulhe-
res que se pagam, não somente porque as des-
prezava como também por medo dos riscos
que corre a saúde (o que não me impediu de
ser duas vezes atingido, embora sem maiores
consequências). Quis valorizar esse prazer
pelo desejo, a dificuldade e também a satisfa-
ção da vaidade. Amava à maneira de Tibério,
o qual! buscava em suas amantes a modéstia e
a nobreza tanto quanto os atrativos femininos.
Ou à maneira de Flora, a qual só se dava a
ditadores, cônsules, censores e punha seu
amor-próprio em só ter amantes de alto cotur-
no. É certo que as pérolas e os bordados
emprestam sabor à coisa, bem como os títulos
e o trem de vida.
Por outro lado, preocupava-me muito com o
espírito, conquanto o físico não deixasse por
demais a desejar, mas, para ser franco, se algo
devesse faltar teria preferido que fosse o espíri-
to. Este tem seu lugar alhures. No amor, em
que a vista e o tato predominam, ainda se con-
segue alguma coisa sem o espírito e nada sem
os encantos físicos. A beleza, eis a verdadeira
arma das mulheres, sua grande vantagem;
é-lhes em verdade tão peculiar, que a do
.homem, embora a desejemos algo diferente, só
se realça quando, pueril e imberbe, se confunde
com a delas. Dizem que os jovens, que por sua
beleza entram a serviço do sultão, são despedi-
dos quando atingem a idade de vinte e dois
anos.
A inteligência,..o bom senso, a amizade são
qualidades mais comuns aos homens; por isso
eles governam o mundo.
Ambos esses comércios, o dos homens pelas
conversações livres e familiares, e o das mulhe-
res pelo amor, são aleatórios, e dependem de
outrem. Um tem o inconveniente de só ocorrer
raramente, o outro de se tornar impossível com
a idade. Por isso, não bastariam às exigências
da vida. O comércio dos livros é mais seguro.
Não se equipara aos outros, mas tem a vanta-
382
gem de estar sempre ao nosso alcance. Desde
sempre me assistiu e em todas as circunstân-
cias; consola-me na velhice e na solidão, torna
suave uma ociosidade que poderia ser aborre-
cida” e livra-me das pessoas cuja presença me
contraria;' amortece enfim os latejos da dor
quando não é demasiado aguda e é mais forte
do“que qualquer paliativo. Para afastar uma
idéia. importuna, nada como recorrer aos
livros; 'apossam-se de mim e fazem-me esque-
cê-la. Nunca se ressentem com o fato de só os
procurármos na falta de prazeres mais reais,
mais'vivos e naturais que outorga a companhia
dos homens e das mulheres; e sempre mostram
a mesma fisionomia. Não há mérito em andar
a pé quando se traz o cavalo'pela'rédea, dizem.
E nosso Jacques, rei de Nápoles, é de Sicília,
belo, jovem, gozando saúde, que, em viagem,
se fazia transportar numa padiola, com roupa
e boné de pano ordinário, mas seguido em
grande pompa por liteiras, cavalos de monta-
ria, fidalgos e oficiais, exibia uma austeridade
fácil de suportar e bem pouco meritória. Não
hã como nos apiedarmos do doente que tem a
cura a seu alcance.
É na aplicação dessa máxima, muito justa,
que está o fruto que colho nos livros. Não os
uso muito mais do que os que não os têm;
gozo deles, como o avarento goza seu tesouro,
simplesmente com saber que posso usá-los
quando queira. Esse direito de posse basta a
meu espírito. Nunca viajo sem livros, na paz
como na guerra. Entretanto, passam dias e
meses sem que os abra. Fá-lo-ei daqui a pouco,
digo, ou amanhã, ou quando me aprouver; e o
tempo passa sem que me pese. Não posso dizer
quanto me descansa o pensamento tê-los à
mão; nem quanto me têm sido úteis na vida.
Constituem a melhor provisão que pude obter
para essa viagem que é a vida e tenho real-
mente pena das pessoas inteligentes que não os
possuem. E por saber que esse passatempo não
me pode faltar, aceito com prazer qualquer
outro.
Em casa, passo muito tempo na biblioteca,
de onde,de um golpe de vista, observo tudo o
que ocorre em minha propriedade. Da entrada
descortino o jardim, o galinheiro, o pátio e a
maior parte dos cômodos. Ora folheio um
livro, ora outro, sem ordem, ao acaso. Ora
sonho, ora tomo notas ou dito, passeando, os
devaneios que aqui se registram. Essa biblio-
teca situa-se no terceiro andar de uma torre.
No primeiro está a capela e no segundo há um
quarto com suas dependências, quarto onde
durmo não raro quando quero ficar só. Em
cima, vasto guarda-roupa. Outrora era esse
local inteiramente inútil; agora aí passo boa
parte das horas e dos dias, mas nunca as noi-
MONTAIGNE o q
tes. Há, ao lado da biblioteca, um bom gabi-
nete com lareira, e se não temesse tanto os
aborrecimentos e a despesa, poderia com faci-
lidade construir junto à torre uma galeria de
cem pés de comprimento por doze de largura,
pois já existem os alicerces que se ergueram
aliás com outro objetivo. Qualquer retiro exige
um espaço para passear; meus pensamentos
cochilam quando sento; meu espírito não anda
sozinho, parece-me que o movimento é que o
excita e força a trabalhar. E todos os que
estudam? * sem recorrer aos livros, sentem a
mesma coisa.
O cômodo, a não ser na parte que se encon-
tram a mesa e a cadeira, tem uma forma circu-
lar, o que me permite ver todos os livros dis-
postos em cinco filas de prateleiras. Comporta
três janelas pelas quais posso gozar uma vista
bela e extensa. O espaço livre tem dezesseis
passos de diâmetro. No inverno aí passo
menos tempo, porque minha casa, como se
deduz pelo nome? 5, se situa numa colina, e de
todos os cômodos é esse o mais exposto ao
vento, sendo também afastado dos outros e de
difícil acesso, o que de resto me agrada, não
somente pelo exercício a que me obriga mas
também porgue me põe a salvo de visitas
importunas. É meu covil; procuro fazer desse
recanto um domínio pessoal, e subtraí-lo à
comunidade conjugal e filial. Alhures minha
autoridade, embora indiscutível, é mais nomi-
nal do que real e mais vaga do que direta. Bem
triste se me afigura, em verdade, a situação de
quem não tem onde se isolar em sua própria
casa, onde se esconder para meditar. A ambi-
ção exige de seus escravos grandes sacrifícios
ao exibi-los sem cessar como uma estátua em
praça pública: “Uma grande situação é uma
grande servidão? 8.” Não podem isolar-se nem
mesmo em sua privada. Nada me parece mais
penoso do que essa regra, observada em certas
comunidades religosas, de andarem sempre
reunidos, testemunhando em conjunto os atos
de cada um. Acho mais suportável estar sem-
pre só do que não o poder estar nunca.
Se alguém me disser que é aviltar as musas
apelar para elas unicamente para se distrair,
ignora o muito que valem como passatempo e
prazer; chego a ponto de quase afirmar que ou-
tros tão deliciosos não podem existir. Vivo ao
sabor do momento e acrescentarei respeitosa-
mente que só para mim. Não tenho outras
ambições. Quando moço, estudei para brilhar,
mais tarde para alcançar a sabedoria e, agora,
faço-o para distrair-me, sem pensar em tirar
34 Os que meditam, os que refletem. (N. do T.)
38 “Montaigne” = montanha, colina. (N. do T.)
38 Sêneca. à
ENSAIOS — III 383
proveito. Por vaidade gastei muito com livros,
não somente para prover minhãs nécessidades
mas ainda para ver aumentar o iúmero de
volumes e ampliar-se a minha biblioteca. Há
muito que isso não me acontece mais.
São os livros, de muitos pontos de vista,
extremamente agradáveis para quem os sabe
escolher. Mas não há prazer sem contrapartida
e o que eles proporcionam não é tampouco
puro. Têm seus inconvenientes e alguns sérios.
O espírito exercita-se com eles, mas o corpo,
que não devemos esquecer, fica inativo, o que
acarreta tristeza 'e abatimento. E não há coisa
mais prejudicial é a ser mais evitada no decli-
nio da vida: -'*
Mencionei minhas três ocupações predile-
tas, indepenidentemente das que a sociedade ea
vida cívica me impõem.
CarpíTULO IV
Da diversão
s
Fui outrora chamado a consolar uma senho-
ra que andava realmente aflita, pois em geral
as pessoas desse sexo não se afligem natural-
mente; nelas tudo é artifício e representação.
“Uma mulher tem lágrimas em reserva, que
correm quando preciso* 7.” Tentar sustar-lhes
as lágrimas é tempo perdido; aí é que sua tris-
teza se expande mais fortemente. Exaspera-se
o mal ao ser combatido. Vemos comumente,
quando dizem alguma coisa mesmo sem gran-
de importância, que se formalizam e se irritam
se as contraditamos. Por isso se o fazemos
quando as devemos consolar, não estamos
agindo como bons médicos, aos quais cabe
conversar com seus pacientes de maneira agra-
dável e leve. Nenhum doutor feio e carrancudo
jamais conseguiu resultado apreciável. De ini-
cio devemos portanto compreender-lhes as
queixas e aprová-las até certo ponto. Com isso
ganhamos crédito para ir adiante e então,
mediante palavras mais resolutas e adequadas
à circunstância, sugerir a cura. No caso em
apreço, desejoso de brilhar perante a assis-
tência que não tirava os olhos de mim, ataquei
9 mal de frente. Não demorei em verificar que
errara e não conseguiria persuadi- “la. Meus
argumentos são em geral incisivos demais e
não suficientemente insinuantes; ou ajo brus-
camente ou sem energia. Por isso, após algu-
mas tentativas, não procurei mais curá-la com
razões impressionantes e lógicas, já porque
não mais as encontrava, já porque pensei em
outra solução. Não busquei tampouco empre-
gar os meios que a filosofia põe a nosso alcan-
ce, como: “o que se deplora não é um mal”, na
opinião de Cleantes, ou “a queixa não é justa
nem injusta”, como diz Crísipo. Também não
37 Juvenal.
segui o conselho de Epicuro que consiste em
desviar o pensamentô das coisas tristes para
outras que o distraiam, o que entretanto não é
contra-indicado. Deixando de lado os diver-
sos processos que Cícero recomenda, desviei
aos poucos à conversação para assuntos
afins e (na medida"êm que sua confiança em
mim se ampliava) para outros sem relação
com sua desgraça; e assim a afastei, sem que o
percebesse, de seus pensamentos melancólicos
e a conduzi a uma certa atmosfera de sereni-
dade. Em outras palavras, criei uma diversão.
Os que, depois de mim, se esforçaram por con-
solar essa senhora não lograram maior êxito
porque o mal não fora cortado pela raiz.
Ocasionalmente ventilei em meu livro algu-
mas diversões de tipo mais geral. As militares,
por exemplo, de que se valeu Péricles na guer-
ra do Peloponeso, e que outros empregaram
para afastar de sua pátria as forças inimigas.
O Sr. de Himbercourt salvou-se, e aos seus,
com engenhoso artifício na cidade de Liêge,
onde o Duque de Borgonha que a sitiava o fi-
zera entrar para estabelecer as condições da
rendição. Reunido durante a noite, para pôr
em execução as medidas assentadas, começou
o povo a sublevar-se contra as negociações,
resolvendo massacrar os negociadores. Ao
saber do sucedido, Himbercourt enviou ao
encontro da multidão dois habitantes da cida-
de com condições menos rigorosas, forjadas
por ele na hora. Os dois mensageiros sustaram
o impeto dos atacantes, conduzindo-os ao con-
selho da cidade para novas deliberações. Estas
foram rápidas e um segundo tumulto se verifi-
cou tão violento quanto o primeiro. Himber-
court despachou outros quatro mensageiros
com propostas mais satisfatórias e substan-
ciais, graças às quais foi o povo novamente le-
384 MONTAIGNE |
vado a deliberar. Mediante sucessivas proposi-
ções amorteceu o ardor dos revoltados,
diluindo-lhes a fúria em vãs deliberações e che-
gando assim ao fim da noite, o que visava
acima de tudo.
Relatemos outro feito da mesma ordem.
Atalanta, jovem de exceisa beleza, era muito
solicitada por numerosos pretendentes. Para
livrar-se dos importunos, estipulou que aceita-
ria por esposo quem a vencesse nas corridas,
devendo perder a vida quem não o conse-
guisse. Houve quem julgasse valer a pena cor-
rer tal risco, dada a recompensa, e pagasse
com a vida a ousadia. Hipômenes, que devia
realizar a prova por último, dirigiu-se à deusa
do amor e pediu-lhe proteção. Ouvindo-lhe a
súplica, ela lhe entregou três maçãs de ouro,
ensinando-o a usá-las. Iniciada a corrida,
Hipômenes, ao perceber que a bem-amada ia
alcançá-lo, deixou cair uma das maçãs como
por acaso. Atalanta, interessada pela beleza do
fruto, volta-se para pegá-lo. “Surpreendida,
encantada com a beleza da maçã, a virgem
diminuiu a marcha a fim de pegar o fruto de
ouro que rola a seus pés? *.” Hipômenes repete
o gesto com as outras maçãs no momento
oportuno e com essa diversão ganha a corrida.
Quando os médicos não podem extinguir o
catarro desviam-no para órgãos sobre os quais
sua ação é menos perigosa. É igualmente essa
receita a mais indicada nas doenças da alma.
“É útil por vezes desviar o espírito para outros
prazeres, cuidados e tarefas. Convém que
mude de lugar frequentemente, como fazemos
com os doentes, pois de outro modo não recu-
pera a saúde'º.” Raramente triunfamos do
mal que atacamos de frente; não os dimi-
nuímos nem extinguimos, mas é possível
desviá-los e transformá-los.
Sócrates oferece-nos, acerca da maneira de
encarar os acidentes da vida, uma lição bem
mais elevada, mas de tão difícil aplicação que
só os espíritos eminentes podem aproveitá-la.
É o único a esperar a morte sem que se lhe al-
tere o espírito; familiariza-se com a idéia e
com ela brinca. Não busca consolo fora dela; a
morte parece-lhe um acidente natural, ante o
qual permanece indiferente. Os discípulos de
Hegésias, estimulados pelos argumentos que o
mestre lhes apresenta, deixam-se morrer de
fome; e tornam-se tão numerosos, que o Rei
Ptolomeu proíbe que se ministrem tais ensina-
mentos capazes de levar ao suicídio. Essa
gente não considerava a morte em si; não a jul-
gava; nela não detinha o pensamento; sonhava
com uma metamorfose de seu ser e ansiava por
apressá-la.
38 Ovídio.
38 Cicero.
' Esses infelizes que vemos no patíbulo
demonstrando exaltada devoção, ouvidos aten-
tos aos conselhos e exortações, olhos e mãos
erguidos para o céu, a proferirem, em voz alta
e com profunda emoção, suas orações, fazem
coisa por certo louvável do ponto de vista da
religião, mas não dão provas de firmeza de
ânimo. Fogem à luta, evitam olhar a morte de
frente, como as crianças que precisamos dis-
trair quando as queremos lancetar. Alguns vi
que, ao deparar com os preparativos da execu-
ção, se mostravam apavorados e voltavam
violentamente o pensamento para outra coisa.
A quem precisa atravessar um precipício não
se aconselha a que feche os olhos ou os desvie
do abismo.
Por ordem de Nero, Súbrio Flávio devia ser
decapitado por Níger, igualmente oficial do
exército romano. Levado ao local da execução,
onde Niger mandara abrir a fossa para sepul-
tar a vítima, viu Flávio que fora malfeita e,
voltando-se para os soldados, observou que o
trabalho realizado não revelava disciplina. Em
seguida, dirigindo-se a Niger que o exortava a
manter bem firme a cabeça, disse: possas tu
golpear com idêntica firmeza. E tinha razão,
pois Níger, cujo braço tremia, teve de fazê-lo
mais de uma vez. Esse Flávio parece haver
encarado a morte sem emoção e no entanto
com o pensamento resolutamente fixado nela.
Quem morre em combate, de armas nas
mãos, não pensa na morte, não a pressente. A,
luta empolga-o. Certa pessoa de minhas rela-
ções e de uma coragem incontestável, baten-
do-se em duelo escorregou e foi crivado de
punhaladas. Os assistentes, acreditando-o per-
dido, gritavam-lhe que recomendasse a alma a
Deus. Mas, como me disse mais tarde, embora
as vozes lhe chegassem aos ouvidos, não as
ouvia, pois só pensava em se safar daquela
situação e vingar-se. E o duelo terminou com a
morte do outro.
Quem levou a L. Silano o decreto que o con-
denava à morte prestou-lhe bom serviço, pois,
ouvindo Silano responder que já esperava a
notícia mas não imaginava que devesse ser
executado por bandidos, precipitou-se contra o
condenado para forçá-lo a retratar-se. Sjlano,
embora desarmado, defendeu-se com socos e
pontapés e foi morto durante a disputa. Graças
à cólera que se apoderara dele, escapou à
opressão dolorosa que lhe houvera causado a
espera de uma morte lenta.
Pensamos sempre em outra coisa. Sustenta-
nos a esperança de uma vida melhor, ou o fu-
turo feliz dos filhos, a glória que poderá agre-
gar-se a nosso nome, ou a idéia de nos
libertarmos dos males terrenos, ou ainda a da
vingança que aguarda os autores de nossa
ENSAIOS — II
morte. “Se há deuses justos, espero que encon-
tres um suplício à tua altura, e que ao morrer
invoques o nome de Dido; eu o saberei, o eco
há de chegar à residência dos manes*º.”
Coroado de flores, Xenofonte sacrificava
aos deuses quando lhe vieram anunciar a
morte de seu filho Grilo na batalha de Manti-
néia. Às primeiras palavras, arrancou a coroa
e jogou-a ao chão, mas quando soube com que
valentia se portara O guerreiro, ergueu-a nova-
mente e tornou a botá-la à cabeça. O próprio
Epicuro consola-se do fim próximo, pensando
na utilidade das suas obras que espera lhe
sobrevivam eternamente. “Todas as penas são
suportáveis, desde que brilhem e nos ilus-
trem *'”. Idênticas fadigas, idênticos ferimen-
tos não têm o mesmo peso para o general e o
soldado, afirma Xenofonte. E Epaminondas
resigna-se melhor à morte quando sabe que ob-
teve a vitória. “E o que o consola, o que suavi-
za sua grande dor*?”. Inúmeras outras cir-
cunstâncias nos distraem e nos desviam da
atenção que dariamos à coisa em si. Por isso
as razões da filosofia não penetram, senão
superficialmente, o assunto. O grande Zenão,
chefe dessa escola estóica que domina as de-
mais pela elevação de sua doutrina, dizia da
morte: “nenhum mal é honroso; a morte é hon-
rosa; logo não é um mal”. Contra a embria-
guez assim se exprimia: “ninguém confia seu
segredo ao bêbedo; todos o confiam ao sábio.
Este não será pois um bêbedo”. Não fogem ao
assunto tais palavras? Compraz-me ver esses
espiritos de elite não poderem desvencilhar-se
de nossos erros; por perfeitos que sejam, não
são senão homens, e destes têm as fraquezas.
A vingança é uma doce paixão, natural ao
homem, e poderosa. Bem o percebo, embora
não tenha experiência. Ultimamente, para
afastar dela um jovem príncipe, não invoquei o
preceito cristão de estender a face a quem nos
ofende; nem lhe mostrei as consequências tr á-
gicas que a poesia atribuiu à vingança; pus-me
simplesmente a louvar-lhe a beleza dos senti-
mentos contrários: a honra, a popularidade, a
afeição que granjearia revelando-se bom e cle-
mente. Desviei-o do seu intuito despertando-
lhe a ambição. Assim se deve proceder.
Se, no amor, a afeição pode levar-nos além
do justo e certo, cumpre combater. uma tal
disposição de espírito mediante alguma diver-
são. Experimentei-o não raro com êxito. É pre-
ciso atenuar-lhe a violência diversificando os
desejos, e se algum vem a dominar os demais,
para que não nos absorva e tiranize, cumpre
*0º Virgílio.
“1 Cícero.
e21d.
385
-amortecê-io não lhe dando toda a nossa aten-
ção e multiplicando as distrações: “Quando
estiverdes atormentado por exagerado desejo,
deveis satisfazê-lo com o primeiro objeto que
se apresente * *.” Mas que se atente em tempo
útil, pois se se apossar de nós teremos perdido
a possibilidade de recuperar a liberdade, “se
aos primeiros ferimentos não juntarmos ou-
tros, se as novas afeições não apagarem as
antigas **?.
Em virtude de meu temperamento impres-
sionável, sofri outrora um golpe violento; fora
por ele esmagado, se houvesse confiado tão-so-
mente em minhas forças. Uma diversão enér-
gica era indispensável: apaixonei-me por cál-
culo e ao mesmo tempo para dedicar-me a um
estudo desse sentimento. A idade ajudava-me
de resto e o amor aliviou o mal que a amizade
causara. Assim ocorre com tudo. Quando uma
idéia penosa me invade, mudo o curso de meu
pensamento em vez de tentar suplantá-la.
Substituo-lhe uma idéia contrária se possível
ou, pelo menos, diferente. Essa mudança ali-
via-me sempre e acaba por dissipar a idéia
incômoda. Se não posso combatê-la, fujo dela
e negaceio; mudo de lugar, de ocupação, de
companhia, acumulo divertimentos, procuro
temas de meditação até que me perca e me
abandone.
A natureza age do mesmo modo e tira pro-
veito de nossa versatilidade. Assim atua o
tempo, que se nos oferece como remédio sobe-
rano às nossas paixões. Alimentando sempre
mais nossa imaginação com toda espécie de
negócios e interesses, desagrega e altera a
impressão primeira, por forte que seja. O sábio
que perde um amigo não pensa menos nele
vinte. e cinco anos depois, porquanto, segundo
Epicuro, a impressão permanece sempre a
mesma e não considerava ele que viesse a ate-
nuar-se por ter sido prevista ou submetida à
ação do tempo. Mas tantos outros pensa-
mentos se agregam aos primeiros que estes se
embotam afinal.
Para desviar a opinião pública, Aicebiades
mandou cortar a cauda e as orelhas de seu cão
e o soltou nas ruas da cidade, pois assim a
multidão, encontrando nesse fato um motivo
para comentários, não se ocuparia de seus ou-
tros feitos e gestos. Conheci mulheres que, a
fim de despistar a opinião pública e deso-
rientar as más linguas, escondiam suas verda-
deiras afeições simulando outras. E soube de
uma que, nesse jogo, se viu enredada acabando
por romper os laços antigos e entregar-se de
verdade ao amor que simulava. Com esse
“3 Pérsio e Lucrécio.
44 TLucrécio.
386 MONTAIGNE |
exemplo compreendi quão tolos são os que
consentem em tais trapaças, pois é preciso que
o beneficiado publicamente seja muito pouco
hábil para não trocar de lugar com o outro. É
o que vulgarmente se chama preparar a cama
para o sono alheio.
Pouca coisa basta para distrair-nos, porque
pouca coisa nos retém. Não encaramos os
sucessos em si, O que nos impressiona são as
circunstâncias em que se verificam, pormeno-
res por vezes superficiais; por frívola que seja,
a forma domina o fundo, “como esses leves
invólucros de que se despojam as cigarras no
verão **?”. O que lembra a Plutarco a morte da
filha são as peraltices dela em criança. A
recordação de um adeus, de um gestó gracioso,
de uma recomendação aflige-nos. A toga de
César exibida nas ruas de Roma perturba a ci-
dade toda bem mais do que a sua morte. O
próprio som das palavras mais vulgares nos
comove: “meu pobre mestre”, “meu grande
amigo”, “meu querido pai”, “minha boa
filha”! Quando ouço essas banalidades e as
examino de perto, vejo que não passam de
palavras, e são ruídos sem sentido real que me
ferem a sensibilidade. Lembram-me as excla-
mações dos. predicadores; as quais mais
impressionam o auditório pelo tom do que
pelo conteúdo. Ou o lamento dos animais que
matam para comermos. Em tudo isso não
penetramos a essência profunda e verdadeira
do assunto. “A dor excita-se sozinha, e se
exacerba”, diz Lucrécio. Eis os fundamentos
de nossas tristezas.
A obstinação com que os cáiculos se detêm
não raro em minha uretra provocou muitas
vezes retenções prolongadas de urina. Durante
três ou quatro dias corri assim risco de morte,
a ponto que fora absurdo pensar em evitá-la,
como fora loucura não desejá-la, tão cruéis são
as dores que então sentimos. Esse bom impera-
dor que mandava amarrar a extremidade do
pênis dos criminosos para que morressem por
não poder urinar, na realidade era doutor em
torturas. Nesse estado pude analisar quantas
causas fúteis minha imaginação descobria
para justificar o desejo de não morrer. Coisas
insignificantes sugeriam dificuldades a meu
espirito, e frívolos eram os pensamentos que
me ocorriam em tão grave momento. Um cão,
um cavalo, um livro, um copo, tudo em verda-
de se tornava motivo de preocupação. Outros
pensarão em sua bolsa, na ciência, nos cargos
ambicionados, o que não se me afigura mais
tolo. Vejo com indiferença a morte, quando a
encaro como fenômeno universal e meta fatal
da vida. Enfrento-a assim, çomo um todo; mas
45 Lucrécio.
diante de seus pormenores não me mostro tão
resoluto. As lágrimas de um lacaio, um aperto
de mão, um reconforto banal me enternecem e
enfraquecem. É o mesmo sentimento que nos
perturba à leitura das histórias fabulosas em
que as lamentações de Dido e Ariana, descri-
tas por Virgílio e Catulo, apaixonam mesmo
os que nelas não acreditam. Não sentir emo-
ções é a característica das almas frias e secas.
Dizem que foi o caso de Pólemon, mas tam-
bém afirmam que um cão lhe arrancou metade
da barriga da perna sem que ele sequer empali-
decesse. Nenhuma sabedoria pôde jamais con-
ceber por que étão viva e completa a tristeza
que a imaginação provoca em nós, quando
nem de longe o consegue a realidade, embora
com a participação dos olhos e ouvidos que
não são impressionados por acidentes imagi-
nários. |
É sem dúvida por essa razão que as artes
apelam para nossa fraqueza e nossa tolice
naturais. O orador, dizem nas escolas de retó-
rica, deve, nessa farsa do discurso, comover
pela voz e a emoção simulada. Deixar-se-à ilu-
dir pela paixão descrita e acabará sentindo real
tristeza e acabrunhamento que comunicará aos
juízes da comédia, os quais se interessam
ainda menos pelo assunto. Assim também
ocorre com estas pessoas que alugamos para
que assistam às cerimônias funerárias e lhes
emprestam maior relevo: vendem suas lágri-
mas a quem as quer comprar, mas, embora
regulando sua emoção de acordo com a impor-
tância paga, compenetram-se de seu papel e se
entregam a manifestações de verdadeira triste-
za. Tendo ido com alguns amigos acompanhar
até Soissons o corpo do Sr. de Gaumont, que
morrera no cerco de La Fére*8, observei que por
toda parte as pessoas que encontrávamos cho-
ravam € se lamentavam à simples vista do cor-
tejo fúnebre, sem que sequer conhecessem o
nome do defunto. E conta Quintiliano ter
frequentado comediantes tão compenetrados
de seu papel que ainda choravam devolta à
sua casa. E que lhe aconteceu também ter-se
comovido tanto com os sentimentos que pro-
curara inculcar aós outros, que os experimen-
tara realmente, a ponto de se surpreender em
lágrimas e com o rosto pálido de aeuem
acabrunhado pela dor.
Em uma aldeia de nossas montanhas: as
mulheres têm o costume de, ao mesmo: tempo,
louvar as qualidades do marido desaparecido,
chorando-lhe a morte, e proclamar seus defei-
tos, como se quisessem tirar alguma compen-
*8 Importante reduto militar na confluência do rio
Serre com o Oise. (N. do E.)
ENSAIOS — HI
sação pessoal e estabelecer uma diversão para
a sua desgraça. Nesse ponto, agem mais
honestamente do que nós: que, quando sabe-
mos da morte de um simples conhecido,
atribuímos-lhe desde logo todas as qualidades
e nos esforçamos por cumulá-lo de elogios
imerecidos, pintando-o, depois de morto, bem
diferente do que fora em vida. Como se a dor
fosse uma fonte de informações inéditas e
como se as lágrimas, lavando a nossa inteli-
gência, a esclarecessem acerca do defunto.
Quanto a mim, renuncio desde já aos testemu-
nhos favoráveis que queiram dar de minha pes-
soa, não porque me considere indigno deles,
mas porque estarei morto.
Se perguntássemos a alguém: “que interesse
tendes em participar deste cerco?”, responde-
ria: “dar um exemplo de obediência ao nosso
príncipe. . Não ambiciono proveito algum;
quanto à glória, bem sei quão pequena é a
parte que pode auferir um simples particular
como eu. Não tenho ódio nem paixão”. Vede-o
porém no dia seguinte em seu posto, no
momento do assalto: transformou-se, agita-se,
ruge de cólera. Esse furor que antes não mani-
festava, esse Ódio que tem no coração,.são o
reflexo brilhante do aço, devem-se ao fogo, ao
ruído dos canhões e dos tambores. “Causas
bem fúteis”, direis. Mas como? Então acredi-
tais que seja imprescindível uma causa? Pois
ela não é necessária para que se agite a nossa
alma. Um simples devaneio, sem razão de ser,
a governa e perturba. Que eu me ponha a cons-
truir castelos de cartas, minha imaginação
387
logo arquiteta vantagens e prazeres que ale-
gram e entusiasmam a alma. Mas quantas
vezes também esses mesmos sonhos fazem que
a cólera e a tristeza nos invadam e nos alterem
o corpo e o espirito! Nossas fantasias impri-
mem em nossos rostos risos e rictos, provocam
gestos, trejeitos e gritos ou lamentos. Parece
até que, em nossa solidão, temos visões de
disputas e demônios, e de perseguições interio-
res. Interroguemo-nos acerca das causas de
semelhantes abusões; haverá na natureza algo,
fora do homem, sobre o que atue o que não
existe?
Cambises, tendo sonhado que seu irmão se
tornara rei da Pérsia, mandou matá-lo. No
entanto amava esse irmão e sempre confiara
nele. Aristodemo, rei dos messenianos, suici-
dou-se por pensar que o uivo de seu cão era
um mau presságio. O Rei Midas fez o mesmo,
em conseguência de um sonho desagradável
que o contrariara e perturbara.
Abandonar a vida por causa de um sonho é
dar-lhe o valor que tem realmente. Vede entre-
tanto como nossa alma se jacta de triunfar das
misérias do corpo, de sua fraqueza. Pode falar,
em verdade: “Ó desgraçada argila modelada
por Prometeu! Pouca prudência mostrou na
-confecção de sua obra: só viu o corpo em sua
arte, não se preocupou com o espírito. E, no
entanto, pelo espírito é que deveria ter começa-
do 4
“7 Propércio.
CaPpíTULO V
A propósito de Virgílio
Nossas reflexões úteis tornam-se mais em-
baraçantes e dificeis na medida em que se
fazem mais sérias e profundas. O vício, a
morte, a doença, são assuntos graves sobre os
quais não podemos meditar muito tempo sem
cansar. Devemos instruir a alma acerca dos
meios de resistir ao mal e das regras de bem
viver é seguir O carrinho da fé, despertando-a e
exercitando-a amiúde nesse estudo. Mas, ante
uma alma comum, isso se há de executar com
brandura e moderação, porquanto uma tensão
contínua a enlouqueceria. Em minha juventude
tinha necessidade de. muito raciocínio e de
advertências para seguir o caminho do dever,
pois a saúde e o bem-estar não se prestam
muito, ao que dizem, aos argumentos sérios e
sensatos. Hoje a situação é diferente; as misé-
rias da velhice advertem-me o bastante, tor-
nam-me avisado e sereno. Da alegria excessiva
passei à austeridade, o que é bem aborrecido;
eis por que me entrego hoje, de quando em
quando, a um certo desregramento, deixando o
espírito divertir-se com fantasias de outra
idade e que o repousam entretanto. Já estou
por demais tranquilo, pesado, maduro; os anos
Ooferecem-me diariamente lições de calma e
temperança. Meu corpo evita quaisquer licen-
ças e as receia mesmo; e é ele que induz meu
388
espírito à prudência e o governa autoritaria-
mente. Não passo uma hora que seja, acor-
dado ou dormindo, sem que me entretenha
acerca da morte, da paciência e da penitência.
Hoje, defendo-me contra a temperança como
outrora me defendia contra a volúpia, pois ela
me domina a tai ponto que me sinto apoucado.
Ora, quero permanecer senhor de mim mesmo
em quaisquer circunstâncias; a sabedoria tam-
bém tem seus excessos e tanto quanto a loucu-
ra precisa ser moderada. Por isso, receoso de
que, com seus excessos, venha a prudência a
ressequir-me, a esgotar-me e a perturbar o meu
equilíbrio, nos momentos em que o sofrimento
não me persegue, “de medo que minha alma se
prenda demasiado às suas dores **”, desvio os
olhos do céu borrascoso e nublado que, graças
a Deus, encaro sem pavor mas não sem esfor-
ço. E eis-me comprazendo-me na lembrança
das loucuras da mocidade, “o espírito, saudoso
do que perdeu, volta-se inteiramente para o
passado *º”. Que a criança olhe para a frente e
o ancião para trás. Não será esse o significado
da dupla face de Juno? Nesses momentos, os
anos poderão arrastar-me se quiserem, mas de
costas para o futuro. Enquanto meus olhos
reconhecerem a bela estação que não mais
existe para mim, eu a contemplarei de quando
em quando. Ainda que fuja de meu sangue e
de minhas veias, não querc que se apague a
imagem em minha memória: “Gozar o passa-
do é viver duas vezes a própria vida *º”,
Platão recomenda acs velhos que assistam
aos exercícios, às danças e aos folguedos da
juventude e que recordem as graças e as vanta-
gens dos verdes anos, a fim de que gozem atra-
vés dos outros a flexibilidade e a beleza física
perdidas. E sugere que se premie o jovem que
melhor tenha distraído o maior número de
anciãos, tornando-lhes mais agradáveis algu-
mas horas.
Outrora eu anotava como excepcionais os
dias pesados e sombrios, hoje tais dias são co-
muns € os belos e serenos fizeram-se raros. Já
considero um favor dos céus os momentos em
que não sinto nenhuma dor. Posso fazer-me
cócegas, não consige mais arrancar um riso
deste pobre corpo. Só me alegro em pensa-
mento ou sonho, mitigando com tais trapaças
as tristezas da velhicé. Gostaria porém de
outro remédio! Mas é em vão que a arte luta
contra a natureza. ;
E, no fundo, bem simplista o que fazemos
«8 Ovídio.
4º Petrônio.
5º Marcial.
MONTAIGNE |
todos: prolongamos os incômodos humanos,
antecipamo-nos a eles, privando-nos dos praze-
res que ainda nos restam. Prefiro ser velho
durante menos tempo a sê-lo antecipadamente;
por isso aproveito os menores prazeres que
encontro. Conheço de oitiva certas volúpias
grandes, fortes e gloriosas *?, mas não as quero
assim faustosas, porém doces, imediatas, fã-
ceis. As outras dependem da opinião alheia e
esta não me preocupa suficientemente para que
as deseje: “Afastar-se da natureza para seguir
o povo, é escolher um guia pouco seguro 52”.
Minha filosofia atém-se aos atos e ao presente;
não se subordina à fantasia. Bem quisera ainda
Jogar pião! “Aos aplausos da multidão prefiro
os da minha consciência 83.” A volúpia não é
ambiciosa; considera-se bastante rica em si e
não aspira à glória; prefere ficar na sombra.
Deveriam açoitar o jovem que tirasse seu pra-
zer da degustação dos vinhos e das viandas;
foi o que eu menos soube apreciar na mocida-
de. Só agora o aprendo. É uma vergonha, mas
que fazer? Envergonham-me ainda mais os
motivos que a tanto me impelem. Cabe-nos so-
nhar e discorrer; que a juventude pense na gló-
ria e nas realizações. Ela parte à conquista do
mundo; nós estamos de volta: “A ela as armas,
os cavalos, os dardos, a maça, a bola, a nata-
ção, a corrida; a nós, velhos, os dados e outros
Jogos **.” As próprias leis relegam-nos ao lar.
Para compensar as tristes condições em que
me precipitaram os anos, não posso senão
recorrer aos jogos e folguedos, como faz a
infância à qual vamos regredindo; a sabedoria
e a loucura muito teriam que se esforçar para
que, revezando-se, pudessem sustentar-me e
auxiliar-me no calamitoso estado a que leva a
velhice: “Mistura à sabedoria um grão de
loucura * 8,”
Evito as mais leves picadas; as que outrora
não me houveram arranhado, hoje me traspas-
sam. Sofrer torna-se-me um hábito. “Para um
corpo débil, o menor sofrimento é insuportá-
vel 8,2 “O espírito doente por nada se interes-
saº 7.” Sempre fui muito sensível à dor; hoje eu
o sou muito mais ainda e mais acessível a ela,
“O menor choque parte o que já se acha racha-
do. 58º Minha razão condena em verdade tais
57 Montaigne alude à ambição e ao amcr-próprio.
(N. do T.)
S2 Sêneca.
Ênio.
i
!
1
i
53
| 54 Cícero.
55 Horácio.
86 Cícero.
57 Ovídio.
58 Td.
ENSAIOS — HI .
recriminações e procura fortalecer-me contra
os golpes da natureza, mas ela não pode impe-
dir-me de os sentir. Iria de bom grado buscar
no fim do mundo um bom ano de verdadeira
tranguúilidade e alegria, eu que só tenho como
objetivo viver de bom humor. Sou muitas
vezes de uma serenidade tristonha e estúpida,
que me adormece e me dá dor de cabeça; não
me basta. Se há por aí, em França ou alhures,
alguém que aprecie a boa companhia, em via-
gem ou no lar, que se adapte a meu humor e a
quem eu me ajeite, que me comunique logo:
levar-lhe-ei os “Ensaios” em came e osso.
Por isso que o espírito tem o privilégio de
fugir à velhice, aconselho-o quanto posso a
fazê-lo; que mesmo nessa idade floresça e
frutifique, como o agárico em árvore morta.
Mas receio ter de me haver com um traidor;
está tão intimamente ligado ao corpo, que se
desvencilha continuamente de mim para se-
gui-lo e participar de sua decadência. Chamo-
o de lado então, e o adulo. Em vão. Por mais
que me esforce por afastá-lo dessa ligação
demasiado íntima, apresentando-lhe Sêneca e
Catulo, as mulheres e as damas da corte, quan-
do seu companheiro tem uma cólica ele a sente
também; sua própria atividade específica
como que se retesa. Nenhuma vida vem dele se
o corpo não vive igualmente.
Erraram os nossos mestres quando atri-
buíram as causas dos impulsos por vezes
extraordinários de nosso espírito a uma inspi-
ração divina, ao amor, a uma exaltação guer-
reira, à poesia, ao vinho, deixando de lado a
saúde, essa saúde ardorosa, cheia de vigor,
despreocupada que o verdor dos anos e o sos-
sego me outorgavam outrora. Esse fogo de
artifício faz não somente brilhar naturalmente
o espírito, como também lhe inspira entu-
siasmos e extravagâncias. Não há pois como
estranhar que o estado contrário o enfraqueça,
o imobilize e turve: “o espírito perde seu vigor
em um corpo definhante $º.”? E quer ele ainda
que eu lhe seja grato por demonstrar maior
resistência que o da maioria dos homens! Por-
tanto, enquanto temos uma trégua, afastemos
os males e os sofrimentos de nossas relações:
“Que a velhice sorria enquanto pode 8º.” “E
útil atenuar pela jovialidade os negros prazeres
da vidaº?!.” Apraz-me uma sabedoria jovial e
sociável e aborrece-me uma austeridade exces-
siva. Toda fisionomia rebarbativa parece-me
suspeita, “bem como a tristeza arrogante de
um rosto carrancudo — pois entre a multidão
8º Pseudo Galo.
68º Horácio. E
87 Sidônio Apolinário.
389
de pessoas severas esconde-se mais de um
devasso 2.” Penso que Platão tem razão de
dizer que os humores influem grandemente na
beleza ou perversidade da alma. Sócrates tinha
uma fisionomia que não variava nunca, serena
e sorridente; não era como a do velho Crasso,
o qual se mostrava sempre descontente e nin-
guém jamais o viu sorrir. A virtude é natural-
mente jovial.
Estou certo de que entre os que se escanda-
lzam com a licença de meus escritos muito
poucos poderiam vangloriar-se de não se
escandalizar com seus próprios pensamentos.
Escrevo em verdade ao gosto deles, mas ofen-
do-lhes os olhos. É de bom-tom criticar os
escritos de Platão e aludir apenas de leve às
relações que teria tido com Fédon, Dion, Este-
la, Arqueanassa. “Não vos envergonheis de
dizer em voz alta o que não vos envergonhais
de aprovar baixinho.” Detesto os espíritos
mal-humorados e melancólicos que esquecem
os prazeres da vida e só pensam nas desgraças,
como as moscas que não podem sustentar-se
sobre a superfície lisa e polida, mas se agarram
a tudo o que é áspero e rugoso e assim descan-
sam; Ou como as saanguessugas que só chu-
pam o sangue viciado.
Aliás, impus-me a obrigação de ousar dizer
tudo o que ouso fazer, e lamento até que todo
pensamento não seja passível de exterioriza-
ção. O pior dos meus atos, a pior das situações
em que me encontre não me parecem tão feios
que não possam ser confessados, pois mais
feio e covarde é não ousar dizê-lo. Todos se
mostram discretos na confissão, mas na verda-
de- deveriam tê-lo sido na ação: a ousadia no
erro é em parte compensada pela ousadia na
confissão. Quem se obrigasse a tudo dizer,
obrigar-se-ia a nada fazer que não pudesse ser
dito. Deus queira que essa minha licença
excessiva decida os outros a se expandirem um
pouco mais, levando menos em conta essas
virtudes timoratas nascidas de nossas imperfei-
ções, e que o sacrifício de minha modéstia os
induza a um justo eguiábrio. É preciso discer-
nir seu vício e bem analisá-io para o contar; os
que o escondem dos outrcs, escondem-no a si
mesmos as mais das vezes; não o consideram
suficientemente dissimulado quando o vêem.
Disfarçam-no mesmo perante a própria cons-
ciência. “Por que ninguém confessa seus ví-
cios? Porque continuamos escravos deles. É
preciso estar acordado para contar um
sonho 83.” Os males do corpo evidenciam-se
62 Marcial.
83 Sêneca.
390 -
melhor em se tornando graves: constatamos
que áquilo que julgávamos ser catarro ou luxa-
ção é na realidade gota. Os males da alma, ao
contrário, tornam-se menos visíveis com a
agravação; o mais doente é quem menos os
sente. Eis por que é preciso não raro examiná-
los de perto, arrancando-os sem dó do fundo
do coração. Assim como a simples divulgação
constitui um prêmio para as boas ações, con-
fessar as mãs já se revela uma compensação. E
não há horror que justifique a recusa em con-
fessar um erro. Sofro quando preciso dissimu-
lar, por isso evito tornar-me confidente dos
segredos alheios, pois não teria a coragem de
negar que os conheço; sou capaz de calar, mas
negar o que sei só o faria mediante exagerado
esforço e constrangimento. Só guardamos bem
um segredo quando nosso temperamento nos
ajuda; nunca por obrigação. Quando estamos
a serviço do príncipe não basta porém ser dis-
creto; é necessário'mentir. Se me coubesse res-
ponder a quem perguntou a Tales de Mileto se
devia jurar que não cometera um adultério que
em verdade cometera, diria que não se tornasse
perjuro porque a mentira é ainda pior do que o
adultério. Tales, ao contrário, aconselhou-o a
negar, pois assim evitava um mal maior, solu-
ção que, na realidade, não consistia em esco-
lher entre dois males mas em acrescentar um
mal a outro. Digamos, a propósito, que um
homem de bem sente-se reconfortado quando,
para pagar um erro, tem a oportunidade de
enfrentar uma situação arriscada; mas se se vê
obrigado a escolher entre dois atos indignos,
passa sem dúvida por uma terrível prova. Foi
o que aconteceu com Orígenes. Ante a alterna-
tiva de sacrificar aos ídolos ou ser entregue aos
apetites carnais de um horrível etíope, resig-
nou-se à primeira das condições, assim pecan-
do gravemente ao que dizem. Convenhamos,
entretanto, em que certas mulheres de nosso
tempo, coerentes com suas idéias falsas acerca
da religião, prefeririam por certo sobrecarregar
a consciência com dez homens a ouvir uma
missa; e não teriam experimentado a mesma
repugnância. Será sem dúvida indiscreto tor-
nar públicos os próprios erros, mas não há pe-
rigo que se tomem como exemplos, pois, como
dizia Aríston, os ventos que os homens mais
receiam são os que os descobrem º *. Devemos
Jogar fora esse pobre farrapo que disfarça os
nossos costumes; mandam ao bordel a cons-
ciência e assumem atitudes impolutas. E até os
traidores e assassinos assim se conduzem,
defendendo as aparências e com isso se
6* Os que os surpreendem. (N. do T.)
MONTAIGNE |
contentando. Mas não cabe à injustiça quei-
xar-se da incivilidade, nem à malícia da indis-
crição. É pena que os perversos não sejam
igualmente imbecis e que a decência lhes tem-
pere os vícios. Semelhantes revestimentos só se
deveriam aplicar a paredes internas bem cons-
truídas, merecedoras de conservação.
Apoiando, a esse respeito, os huguenotes
que nos censuram o caráter sigiloso de nossa
confissão, confesso-me publicamente com toda
convicção e sinceridade. Santo Agostinho,
Orígenes e Hipócrates tornaram públicos os
seus erros de opinião; eu divulgo também os de
meus costumes. Tenho o maior desejo de me
mostrar como sou, ainda que isso me custe, ou
melhor, não desejo nada, porém sentiria gran-
de desprazer em ser considerado diferente do
que sou pelos que vierem a saber da minha
existência. Que pode ganhar em se mostrar
diferente da realidade quem aspira às honras e
a glória? Louvai um corcunda pelo seu belo
porte; há de acreditar-se injuriado; se sois um
covarde e proclamam vossa coragem, será de
vós que falam? Tomam-vos por outro, e acre-
ditar no louvor é fazer como aquele que se
orgulhava das saudações que recebia porque o
tomavam, a ele pobre comparsa, pelo chefe do
bando.
Ao passar o Rei Arquelau por uma rua,
alguém lhe jogou um balde de água à cabeça.
Incitavam-no a punir o desastrado, mas ele
respondeu: “Não foi em mim que ele o jogou,
foi na pessoa que acreditou que eu fosse.” Só-
crates, a alguém que lhe dizia que falavam mal
dele, observou: “absolutamente, não há em
mim nada do que afirmam”. Quanto a mim,
não seria em absoluto grato a quem me lou-
vasse por ser um bom pilóto ou extremamente
modesto e casto; como não ficaria ressentido
com quem me achasse traidor, ladrão ou bêbe-
do. Quem não se conhece pode empaturrar-se
com elogios imerecidos; eu não, porque me
vejo, me analiso e sei muito bem o que sou;
agrada-me que me louvem menos, mas com
conhecimento de causa; poderiam julgar-me
um sábio em condições de sabedoria que con-
sidero idiotas. Lamento que as senhoras da
sociedade encarem meus “Ensaios” como obra
de salão e espero que este capítulo venham a
ler no toucador, às escondidas. Confesso aliás
que aprecio sua companhia a sós; em público
ela carece de sabor e deixa de ser um privilé-
gio. Em nossos adeuses exageramos em geral o
amor às coisas que abandonamos, às vésperas
de partir; são estes os meus últimos abraços.
Voltemos ao nosso tema. Que fez aos ho-
mens o ato sexual, natural, necessário e justo,
ENSAIOS — II
para que não ousemos referir-nos a ele sem
corar, a ponto de o excluir das conversações
mais sérias e honestas? Dizemos francamente
matar, roubar, trair e essa outra palavra mal
ousamos pronunciá-la. Será porque nela pen-
samos demasiado? É de se observar, em verda-
de, que as palavras que menos pronunciamos
são as que melhor conhecemos; essa, quais-
quer que sejam a idade e os costumes, ninguém
a ignora, como não ignora o pão. Imprimiu-se
em nós sem que fosse preciso ouvi-la ou vê-la
escrita; e o sexo que mais pratica a ação é O
que mais discreto se mostra. O que há de notá-
vel é que cercamos o ato de silêncio e deste
não O tiramos nem mesmo para acusá-lo e
condená-lo; e só o criticamos com periífrases e
metáforas. Mas que insigne benefício se confe-
re a esse criminoso, em estimando os juízes
que não há como aludir sequer ao crime! Gra-
ças à severidade da pena, continua livre. Não
ocorre com ele o que se verifica com os livros
proibidos, os quais, justamente por isso, tanto
se lêem? No que me concerne, subscrevo as
palavras de Aristóteles: “ato impudico, que
embeleza a juventude e provoca os anátemas
da velhice”. Na escola antiga que prefiro à
moderna porque tem maiores virtudes e meno-
res vícios, recitavam-se estes versos de Plutar-
co:
“Quem evita Vênus e dela foge sem
cessar
peca tanto como os qué a seguem
demasiado.”
E diz Lucrécio: “O” deusa, só tu governas a
natureza; sem ti ninguém vê a luz do dia, e não
hã alegria nem prazer.”
Não sei quem possa ter intrigado Palas e as
Musas com Vênus e afastando-as do Amor,
pois não sei de divindades que melhor devam
entender-se. Quem sonegasse às Musas a inspi-
ração amorosa, roubar-lhes-ia seu mais belo
tema, e o mais nobre; quem fizesse com que o
Amor perdesse a colaboração da poesia, tê-lo-
ia enfraquecido, privando-o de sua melhor
arma. Seria tachar de ingratidão e ignorância
esse deus essencialmente sociável e benevo-
lente e essas deusas protetoras da humanidade
e da justiça. Como não faz tanto tempo assim
que renunciei a figurar entre seus adoradores,
conservo a lembrança precisa de seu poder e
de seu valor: “Sinto ainda as queimaduras de
uma antiga chama *5.” A febre deixa, ao se
extinguir, vestígios de agitação e calor:
“Considerar-me-ei feliz se nos anos de inverno
65 Virgílio.
391
esse resto de calor não me ábandonar **.? E,
por mais esgotado e lerdo que me encontre,
ainda experimento uns poucos efeitos dos entu-
siasmos idos: “Assim, o mar Egeu, batido
pelos ventos não se acalma repentinamente
após a tempestade; agita-se ainda durante
muito tempo * 7.” Mas na medida em que posso
assegurá-lo, o poder e o valor desse deus apre-
sentam-se mais vivos e animados na poesia do
que na realidade: “O verso do poeta tem dedos
acariciadores *8.”, porque a poesia encerra,
efetivamente, algo mais amoroso do que o pró-
prio amor. Vênus nua, viva e palpitante não é
tão bela como no-la pinta Virgílio: “Fala, e
como ele hesita, a deusa envolve-o docemente
em seus belos braços mais brancos do que a
neve, e aquece-o num amplexo. Com esse con-
tato, Vulcano sente renascer seu ardor habi-
tual; um calor, que conhece muito bem, inva-
de-o até a medula dos ossos. Assim brilha o
relâmpago nas nuvens fendidas pelo raio e ser-
penteia qual fita de fogo... Vulcano atende
enfim às solicitações amorosas de sua esposa
e, nela encarnado, abandona-se às delícias de
um sono reparador.”
É de se notar nessa cisação o fato de Virgílio
descrever-nos como esposa uma Vênus dema-
siado apaixonada. Nesse contrato de casamen-
to, que atende aos ditames da sabedoria, os
apetites são menos violentos e os prazeres
mais moderados. O amor aborrece toda união
contratada sem sua intervenção exclusiva e só
participa discretamente dos embates que de-
correm de outros interesses, como é o caso nos
do casamento, porquanto este se prende natu-
ral e justamente a considerações de família, de
situação e dinheiro. Ninguém se casa só por
seu prazer e vontade; casamo-nos também,
senão mais, por causa da família e da posteri-
dade, pois as condições em que se realiza o
casamento (e seus resultados) interessam à
raça bem mais do que a nós mesmos. Eis por
que penso deva ser negociado, antes por inter-
mediários do que pelos futuros cônjuges. Não
vos parece isso contrário às inclinações amo-
rosas? Daí .constituir um como que incesto
entregar-se alguém às violências e extrava-
gâncias da paixão (como já expliquei anterior-
mente) no decurso das relações veneráveis e
sagradas entre marido e mulher, e que visam à
procriação. É preciso, diz Aristóteles, aproxi-
mar-se de sua esposa com decência e calma, a
fim de que carícias por demais lascivas não
66 Jean Sebond.
87 Tasso.
88 Juvenal.
392
despertem nela um prazer excessivo capaz de
desviâá-la do caminho certo. O que ele pro-
pugna em nome da consciência, recomendam-
no os médicos em benefício da saúde: “Um
prazer demasiado fogoso, demasiado volup-
tuoso, demasiado renovado, altera o sêmen e
prejudica a concepção”; dizem ainda que rela-
ções dessa ordem, para que sejam fecundas,
devem espaçar-se consideravelmente: “a fim
de que a mulher, apreendendo avidamente a
oferta de Vênus, a encerre profundamente em
sua matriz 8º.” Não conheço matrimônios
menos afortunados do que os que se baseiam
na beleza e no desejo. Para uma tal união há
necessidade de alicerces mais sólidos, mais
resistentes, e muita circunspecção. Entusiasmo
e afa de nada valem.
Os que, a fim de honrar o matrimônio, lhe
agregam o amor, fazem como os que conside-
ram ser a nobreza indispensável à virtude. Tais
coisas têm algum parentesco, mas também
muita dessemelhança. Não há como confundi-
las, o que só pode prejudicar a ambas. A
nobreza é uma bela qualidade, mas é qualidade
por outrem outorgada e pode caber a um
homem sem caráter ou viciado; por isso é bem
menos apreciada do que a virtude. E ainda que
fosse virtude, seria uma virtude artificial e
tão-somente exterior, decorrente do momento e
do destino, variável na forma segundo os pai-
ses, viva e mortal; sem nascedouro, como o
Nilo; genealógica e comum; consecutiva e
semelhante; com obrigações e deveres bem frá-
geis. A ciência, a força, a bondade, a beleza, a
riqueza, e todas as outras qualidades comuni-
cam-se e podem ser úteis, enquanto a nobreza
só benificia a quem a possui.
Pediram a um de nossos reis que escolhesse
entre dois candidatos a certo cargo, um dos
quais era fidalgo. Ordenou ele que se nomeasse
o mais capaz, sem se levar em conta a nobreza.
Assim mostrava com precisão o lugar que esta
deve ocupar. Um jovem desconhecido, filho de
um homem de valor que acabava de falecer,
pediu a Antígono que lhe desse o cargo do pai.
O rei porém respondeu: “Nestes cargos, meu
amigo, pondero unicamente os feitos de meus
soldados; não a sua nobreza.” Em compensa-
ção, em Espart , por ignorantes que fossem, os
filhos sucediam aos pais nos ofícios de trombe-
teiros, menestréis e cozinheiros. No reino de
Calcutá os nobres constituem uma espécie
acima das outras. Não podem casar nem exer-
cer qualquer profissão que não a das armas.
Os homens podem ter concubinas à vontade e
89 Virgílio.
MONTAIGNE
as mulheres os amantes que bem entendam,
sem que jamais se manifeste algum ciúme; mas
é crime capital e imperdoável fazê-lo fora de
sua própria casta. Consideram-se maculados
pelo simples contato com alguém que não seja
de igual condição e chegam a matar quem
deles se a proxime demasiado, o que faz com
que os indivíduos das classes malditas sejam
obrigados a gritar sua presença nas esquinas,
como os gondoleiros em Veneza; e os nobres
os intimam então a se afastarem. Assim evitam
estes a morte e os da casta privilegiada a má-
cula indelével. Nada pode fazer, nesse país,
com que o plebeu se torne nobre: nem os servi-
ços prestados, nem o tempo, nem a virtude ou
a riqueza. Além desse costume, outros há
igualmente discriminatórios, como o que proí-
be o casamento entre pessoas de profissões
diferentes; assim uma filha de sapateiro não
pode desposar um carpinteiro. Os pais prepa-
ram seus filhos para exercerem a própria pro-
fissão com exclusão de qualquer outra, o que
mantém as diferenças sociais e impede quais-
quer mudanças.
Um bom casamento, se é que existe, recusa-
se ao amor; deve antes visar a uma boa amiza-
de. Deve ser uma agradável associação de
duas vidas, cheia de constância, confiança, ser-
. viços recíprocos e obrigaçoes comuns. Nenhu-
ma mulher que tenha provado a qualidade de
esposa, “unida pelo matrimônio ao homem
eleito”, como diz Catulo, desejaria ser a aman-
te de seu marido; a afeição que usufrui como
esposa é bem mais honrosa e segura. Se um
homem se alvoroça alhures e se entusiasma,
perguntem-lhe a quem desejaria que ocorresse
aiguma desventura vergonhosa, à sua mulher
ou à sua amante? Que infortúnio o preocu-
paria mais? Quem desejaria ver mais feliz?
Responderá sem dúvida que se ocuparia antes
da esposa ?º.
Em razão mesmo da raridade dos bons
casamentos, pode-se avaliar quão preciosa ê
uma união acertada. Não há coisa mais impor-
tante em nossa sociedade. É uma instituição
que não podemos dispensar e no entanto vive-
mos a aviltá-la. E assim acontece o que se veri-
fica com os pássaros na gaiola; os que estão
fora querem entrar e os que se acham presos
aspiram à liberdade. Sócrates, a quem inda-
gava se valia mais a pena casar ou não, res-
pondia: “o que quer que façais, haveis de
7º Todo o trecho é algo confuso, não se perce-
bendo bem se Montaigne procura simplesmente
mostrar que mesmo no prazer fora do casamento o
marido não esquece a esposa. (N. do T.;
ENSAIOS — III 393
arrepender-vos”. É uma associação a cujo res-
peito devemos citar Cecílio e Plauto: “O
homem é para o homem um deus ou um lobo.”
É preciso que numerosas qualidades se coniu-
guem para criâ-la. Em nossos tempos, a gente
simples dá-se bem com o casamento porque os
prazeres, a curiosidade e a ociosidade não a
dominam; ao contrário, os temperamentos
desregrados como o meu, rebeldes a quaisquer
ligações e obrigações, não se adaptam muito
bem ao matrimônio: “é-me bem mais suave
viver sem essas cadeias 71.”
Por inciinação natural, teria preferido fugir
a desposar a sabedoria em pessoa, mas Os usos
e costumes nos amarram € condicionam. Meus
atos, em sua maioria, decorreram sempre dos
exemplos que tive à minha frente muito mais
que de minhas preferências. Ao do casamento,
em particular, não me dobrei voluntariamente;
fui impelido a ele por circunstâncias estranhas
ao ato em si, pois, versátil como é o homem,
não há coisa por incômoda que seja, ou feia,
ou desagradável e de se evitar, que não possa
aceitar em dados casos. Fui levado ao casa-
mento bem menos preparado então, e contra-
riado, do que o seria hoje após o haver conhe-
cido de perto. E por mais livre e desregrado
que me considerem, observei severamente as
leis do matrimônio bem melhor do que prome-
tera e esperava fazê-lo. Não cabe mostrar-nos
recalcitrantes quando concordamos em nos
amarrar. Devemos procurar não nos compro-
meter imprudentemente, mas se aceitamos a
obrigação cumpre-nos observar as leis co-
muns, ou, pelo menos, esforçar-nos por obser-
vá-las. Os que se prestam à realização desse
ato com ódio e desprezo, agem de modo injus-
to e poderão experimentar graves desditas. E
as mulheres que seguem o ditado “serve teu
marido como um senhor e desconfia dele como
de um traidor”, o que equivale a dizer
“observa uma atitude de respeito hostil?, cor-
rem igualmente o risco de se haver em grandes
dificuldades. Não tenho suficiente energia para
tomar por caminho tão espinhoso, nem che-
guei ainda a essa perfeição de habilidade e
sutileza de espírito que consegue confundir
razão com injustiça e ridicularizar a ordem e a
lei que não servem os apetites. Não é por
detestar a superstição que me precipitarei de
olhos fechados na irreligião. Mesmo que nem
sempre se cumpra o dever, cabe respeitá-lo €
amá-lo, e é uma traição contrair matrimônio
sem atender às obrigações conjugais.
Vamos adiante. Virgilio descreve-nos uma
71 Pseudo Galo.
união matrimonial em que reina harmonia sem
que entretanto se observe muita lealdade. Terá
querido dizer que não é impossível ceder às
solicitações do amor, embora cumprindo as
obrigações decorrentes do casamento? Que
assim se pode faltar ao dever sem fugir inteira-
mente a ele? Há criados que roubam seus
amos sem que estes os detestem por isso. À
beleza, a oportunidade, o destino (pois o desti-
no influi muito) fazem que a esposa possa afei-
çoar-se a um estranho, sem, entretanto, se
entregar tão completamente que não subsista
algum laço para amarrá-la ao marido: “Há
uma fatalidade pesando sobre esses órgãos que
nossas roupas escondem, pois, se os astros não
te protegerem, de nada te servirão as mais
belas aparências de virilidade? 2.” Eis duas coi-
sas distintas, que agem de modo diverso e não
se devem confundir: uma mulher pode entre-
gar-se a um indivíduo que não aceitaria de
modo algum como marido, e não digo por
causa da situação dele na sociedade, mas por
ele mesmo. Poucos desposaram suas amantes
sem que se arrependessem, o que se observa
até entre os deuses, pois dizem que Júpiter não
foi feliz com sua esposa, a qual conhecera
carnalmente antes do matrimônio. É o que se
chama “aliviar-se num vasilhame e enfiá-lo em
seguida na cabeça”. Tenho visto, e em meios
muito honrados, casamentos porem fim a amo-
res escandalosos, pois amor e casamento pren-
dem-se a considerações bem diferentes. Somos
impelidos ao mesmo tempo a duas coisas
diversas e antagônicas. Isócrates dizia que
Atenas era uma cidade sedutora à maneira
dessas mulheres que se frequentam pelo amor;
todos gostam de passear com elas e distrair-se
durante alguns momentos, mas ninguém pensa
em desposá-las, isto é, em guardá-las e com
elas viver a existência toda. E há maridos que
odeiam suas mulheres tão-somente porque eles
mesmos as enganam. Mas não deveriamos
querê-las menos por causa de nossos erros; o
remorso e a compaixão deveriam, ao contrá-
rio, no-las tornar mais queridas.
Os objetivos visados são diversos, explicava
Isócrates, embora não incompatíveis. O casa-
mento tem a seu favor a utilidade, a legitimi-
dade, a honorabilidade, a duração; oferece-nos
um prazer moderado mas generalizado. O
amor visa unicamente ao prazer e é por certo
mais excitante, mais vivo, penetrante; é um
prazer que a dificuldade atiça e que exige um
pouco de pimenta. Sem flechas nem ardores
deixa de ser amor. A liberalidade das mulheres
72 Juvenal.
394
é, no casamento, por demais profusa, o que
embora a afeição e o desejo. Para obviar a esse
inconveniente, Licurgo e Platão criavam, com
suas leis, numerosos obstáculos ao matrimô-
nio.
Têm razão as mulheres quando se recusam
a acatar as regras de conduta estabelecidas
pela sociedade, tanto mais quanto foram feitas
pelos homens que as não ouviram a respeito.
Pela própria força das coisas, ocorrem cons-
tantemente, entre elas e nós, pequenas e mali-
ciosas dissensões e, mesmo nos momentos em
que por comum acordo nos unimos mais inti-
mamente, há conflitos e discussões. Na opi-
nião de Isócrates não levamos suficientemente
em consideração o fato conhecido de ser a mu-
lher infinitamente mais sensível aos efeitos do
amor. Esse sacerdote, que se transformou em
mulher e voltou a ser homem, e assim
“conheceu os prazeres dos dois sexos 7º”, afir-
ma-o igualmente. Temos também a esse res-
peito as declarações, feitas em séculos diferen-
tes, por um imperador e uma imperatriz dos
romanos, mestres na matéria. Ele deflorou em
uma só noite dez escravas virgens, mas ela se
entregou vinte e cinco vezes no mesmo lapso
de tempo, mudando de parceiro de acordo com
a-necessidade e a fantasia: “Até que esgotada,
mas não saciada, teve de parar, ardendo ainda
de volúpia 7 *.”
Houve na Catalunha um processo célebre
em que a mulher se queixava da frequência
com que seu marido a solicitava. Não me pare-
ce que a queixa se baseasse no incômodo expe-
rimentado (fora um milagre e só acredito em
milagres em matéria de religião), e sim no de-
sejo de contestar a autoridade do esposo sobre
a esposa, fúgindo (ainda que ocasionalmente)
ao ato fundamental do casamento, pois a mali-
cia e o espirito de contradição das mulheres
são capazes de calcar aos pés, até no matrimô-
nio, as doçuras e os prazeres que devemos a
Vênus. À queixa respondeu o marido, dotado
em verdade de um temperamento excepcional-
mente brutal, que mesmo nos dias de jejum
não podia deixar de possuí-la dez vezes. O pro-
cesso terminou com singular sentença da rai-
nha de Aragão, pronunciada após madura
deliberação do conselho e tendo em vista esta-
belecer uma regra e assentar as idéias acerca
da moderação a ser observada nas relações
entre esposos legítimos. Determinava a rainha,
como limite mínimo necessário a tais embates,
que não ultrapassassem seis por dia. Dita sen-
tença, concluía a rainha, restringia e sacrifi-
73 Ovídio. Alusão a Tirésias.
7º Juvenal.
MONTAIGNE
cava as solicitações de seu sexo “a fim de esta-
belecer uma regra de fácil aplicação e por
conseguinte permanente e imutável”. Ao que
exclamam os doutos: a que ponto atingem o
apetite e a concupiscência femininos se sua
moderação e virtude se devem pagar por tal
preço! Diversas seriam as necessidades dos
homens, porquanto Sólon, chefe da escola
favorável à regulamentação de todos os atos
da vida, considera que o marido deve ter rela-
ções com sua mulher somente três vezes por
mês, a fim de se achar sempre à altura de seu
dever. E, no entanto, embora conhecendo esses
dados e outros, e sabendo que as exigências
femininas são maiores do-que as nossas, inven-
tamos obrigá-las (a elas unicamente) à conti-
nência, sob a ameaça de castigos severos e até
da pena de morte.
Não hã paixão mais imperiosa do que essa a
que queremos que elas resistam, e não apenas
na medida em que cumpre resistir a outros
pecados, mas como se se tratasse do mais
abominável e execrável dos vícios, de um
crime mais grave que o ateísmo ou o parrici-
dio. Enquanto isso, nós, homens, podemos
fazê-lo à vontade sem que o considerem uma
falta e sem incorrer em censura. Os que, entre
nós, tentaram dominar-se, confessam as difi-
culdades que lhes coube vencer, ou antes a
impossibilidade com que depararam, muito
embora adotassem regime especial para domar
e acalmar as revoltas da carne. E queremos
que elas sejam castas e ao mesmo tempo
saudáveis, bem dispostas, vigorosas! Isto é,
quentes e frias igualmente ! O matrimônio que,
a nosso ver, as deve impedir de se inflamarem,
traz-lhes, no estado atual de nossos costumes,
bem pequeno alívio. Se o marido ainda está na
idade dos entusiasmos, vangloria-se de gastã-
los alhures: “Cuidado, Basso, ou irei aos tribu-
nais; esse Órgão já não é mais teu, visto que
mo vendeste e o paguei bem caro”? 8.” E não foi
sem razão que a mulher do filósofo Pólemon o
processou por andar espalhando em terreno
estéril o sêmen que devera reservar para terras
adequadas à fecundação. Quanto às mulheres
que desposam homens gastos, acham-se, em-
bora casadas, em situação mais triste do que
as virgens e as viúvas. Consideramo-las sufi-
cientemente aquinhoadas desde que tenham
um homem a seu lado. Assim se disse de-Cló-
dia Laeta que fora deflorada por Calígula,
quando na realidade ele não a possuíra. Esque-
cemos que a presença do macho, bem mais do
que sua ausência, desperta a necessidade que
elas têm de carícias e companhia. E foi sem
75 Marcial.
ENSAIOS — II 395
dúvida para tornar mais meritória sua casti-
dade que Boleslau, rei da Polônia, e Kinje, sua
mulher, fizeram a promessa, no dia de seu
casamento, de, embora dormindo juntos, não
ter relações sexuais. E a cumpriram.
Desde a infância nós as educamos para o
amor. Graça, adornos, linguagem, tudo o que
lhes ensinamos tem como objetivo o amor.
Não lhes sugerem outra coisa suas governan-
tas, ainda que no intuito, por vezes, de afastá-
las de tal preocupação. Minha única filha está
na idade em que a lei permite que se casem
aquelas cujos sentidos se mostram mais exi-
gentes. Seu desenvolvimento, que tem sido
lento, entretanto, e seu temperamento linfático,
contra o qual não reage a mãe, fazem que
somente agora principie a desembaraçar-se da
ingenuidade infantil. Lia perto de mim, hã
dias, um livro em que se encontrava a palavra
fouteau, que designa por vezes uma árvore
assaz conhecida. A governanta obrigou-a a
pular o trecho escabroso em virtude do duplo
sentido do vocábulo” 8. Deixei-a fazer para
não lhe perturbar a maneira de educar, desau-
torando-a com minha intervenção, mas deve-
mos convir em que o método não parece reco-
mendável e que cumpre mudar a orientação
dada atualmente à educação das mulheres.
Talvez me engane, mas creio que a própria
convivência com meus lacaios não houvera
induzido mais a imaginação de minha filha a
descobrir o uso e o sentido secreto da palavra
incriminada: “A virgem núbil compraz-se em
aprender danças lascivas até a exaustão física;
ela sonha desde a infância com amores
impudicos 7 7.” Quando as mulheres abrandam
um pouco sua atitude cerimoniosa e concor-
dam em falar com toda a liberdade, percebe-
mos que não passamos de crianças ignorantes
a seu lado. Escutai-as referirem-se a nossas
assiduidades e ao que lhes sussurramos aos
ouvidos; vereis que nada lhes ensinamos que já
não saibam. Será por que, como pensa Platão,
em sua vida anterior foram homens e devas-
sos? Achei-me de uma feita em certo lugar de
onde poderia ouvi-las sem ser visto. Gostaria
de reproduzir o diálogo! Nossa Senhora, pen-
sei, como perdemos nosso tempo estudando as
frases de Amadis ou as histórias de Boccaccio
e do Aretino! Não há palavras, ato ou malícia
que não conheçam, e melhor ! Têm isso no san-
gue! “Vênus, ela própria as inspira”*.” Bas-
tam-lhes esses bons professores que são a natu-
75 “Fouteau” = faia, mas também, no francês
antigo, o órgão sexual feminino. (N. do T.)
77 Horácio.
reza, a juventude, a saúde. Não precisam
aprender porque elas próprias engendram em
si tudo o que concerne ao amor. “Nem a
pomba, nem qualquer pássaro lascivo, solicita
mais amorosamente o seu macho do que a mu-
lher que se entrega à sua paixão 7º.” Seo ardor
natural de seus desejos não fosse freado pelo
receio e as idéias de honra que lhes são incul-
cadas, seríamos todos ridículos. Todo o movi-
mento do mundo tem essa conjunção dos sexos
como objetivo; ela se encontra em toda parte;
é o centro para o qual tudo converge. Ainda
subsistem as ordenações da velha e sábia
Roma' acerca do amor; Sócrates pontifica
sobre a: educação das cortesãs: “Não raro
esses livros que se vêem sobre as almofadas de
seda de nossas beldades são obras dos estói-
cos*º.” Zenão em suas leis chega a mencionar
os frêmitos do defloramento. E qual o assunto
do livro do filósofo Estráton, intitulado “A
Obra da Carne”, e dos de Teofrasto que se
denominavam “O Amoroso” e “O Amor”, e o
de Aristipo: “Delícias do Passado”? Que sig-
nificam as longas e vivas descrições que faz
Platão das práticas amorosas de sua época? E
a obra de Demétrio de Falero, intitulada “Dos
Amantes”; e “Clínias ou o Amante à Força”,
de Heráclides; e “As Núpcias ou a Arte de Ter
Filhos”, de Antístenes; e “Do Senhor e do
Amante”, do mesmo autor; e “Os Folguedos
Amorosos”, de Ariston; e “O Amor” e “A
Arte de Amar” de Cleantes; e os diálogos de
Esfero; a fábula impudica de Júpiter e Juno, de
Crisipo, e as lascivas cartas que o mesmo
escreveu? E deixo de lado as obras dos filóso-
fos epicuristas, que eram favoráveis à volúpia
e a propugnavam. Cinquenta divindades presi-
diam outrora ao ato do amor, e houve um
povo entre o qual, a fim de entorpecer a concu-
piscência dos fiéis, ofereciam-se-lhes raparigas
e rapazes para O gozo prévio: porque a inconti-
nência é necessária à observação da conti-
nênctia e o incêndio se apaga com o fogo. Em
quase todo o mundo foi essa parte de nosso
corpo venerada; em certos países chegavam a
cortar-lhe um pedaço para oferecê-lo à divin-
dade ou lhe devotavam o sêmen. Em outras
regiões, os jovens perfuravam o pênis e intro-
duziam entre a pele e a came bastonetes de
madeira, Os maiores e mais grossos que po-
diam suportar e que se queimavam em holo-
causto aos deuses; e os que estremeciam com a
dor cruel eram considerados pouco vigorosos e
insuficientemente castos. Alhures a designação
78 Virgilio.
79 Catulo.
8º Horácio.
396
do chefe e o respeito que lhe dedicavam liga-
vam-se às dimensões de seu órgão genital, cuja
efigie se exibia com grande pompa nas cerimô-
nias em honra de certas divindades. No Egito,
nas bacanais, as senhoras traziam ao pescoço
uma imagem em madeira do sexo masculino,
ricamente incrustada, de acordo, quanto ao
tamanho e ao peso, com a resistência de cada
una; ademais, exibia-o orgulhosamente a pró-
pria estátua do deus. Mas, recentemente,
deram as mulheres a forma de um membro
viril a seus véus, a fim de prociamar o prazer
que dele auferiam e, quando viúvas, rejeitavam
o véu para trás, sob o penteado, eliminando a
imagem sugerida. Em Roma, as mais virtuosas
matronas faziam questão de oferecer flores a
Priapo e, por ocasião das cerimônias nupciais,
obrigavam a noiva, quando virgem, a sentar-se
nas partes menos honestas da estátua.
EE sei se em nossa época ainda se verifi-
cam práticas dessa ordem. Mas que significa-
ção podia ter esse ridículo apetrecho protube-
rante dos calções de nossos pais, que os
guardas suíços ainda usam? Com que fim exi-
bimos assim, exagerando-os, os nossos órgãos
genitais? Sou levado a crer que a moda tenha
sido inventada em tempos melhores do que os
nossos, em épocas de boa-fé e honestidade em
que: cada qual aparecia em público como era
realmente, o que ocorre ainda hoje entre povos
de costumes simples. Assim se julga a virili-
dade do homem, como pelo braço ou o pé se
conhecem outras qualidades. Houve, em
minha juventude, um sujeito bem intencionado
que mandou castrar as belas e antigas estátuas
para que não nos ferissem a vista, conside-
rando, com o não menos pudico Ênio, que
“exibir a nudez em público é causa de devassi-
dão”. Deveria ter-se lembrado de que, para ter
eficiência, tal medida precisava ser seguida da
castração dos cavalos, asnos e outros animais,
pois só assim se baniria tudo o que porventura
pudesse evocar a masculinidade*!. “Sobre a
terra os homens, os animais domesticos e sel-
vagens; nas águas os peixes; no ar Os pássaros
multicores; tudo atende ao apelo do amor*??2.”
Os deuses, diz Platão, prouveram-nos de um
órgão que não conhece a obediência e que nos
tiraniza; que, como um animal furioso, quer
tudo submeter à violência de seus apetites.
Têm as mulheres igualmente o seu, o qual, à
81 Como na celebração dos mistérios da boa
deusa, acrescenta o texto, sem entretanto precisar de
que culto se trata. (N. do T.)
82 Virgílio.
MONTAIGNE
maneira de um bicho glutão, delira se lhe recu-
sam o alimento.que reclama e não-se conforma
em esperar por ele. Comunica então, ao corpo
em que se encerra, a cólera de que se vê toma-
do é perturba-lhe as funções tôódas, até que,
tendo obtido c fruto desejado, se sinta profusa-
mente regado e satisfeito.
Esse mesmo legislador que ordenou tal ato
de vandalismo, devia ter pensado que abrir os
olhos das mulheres para a realidade da vida
seria medida bem mais decente e eficaz do que
lhes deixar o espírito entregue a si mesmo e
mais ou menos ansioso por adivinhá-la. O de-
sejo e a esperança fazem que a essa realidade
elas substituam imagens inteiramente extrava-
. gantes. E conheço alguém que se perdeu exi-
bindo a sua realidade em lugar impróprio.
Que prejuízo moral causam esses desenhos
obscenos que as crianças traçam nos muros e
nas portas dos edifícios públicos! Induzem a
mulher a um cruel desprezo por nós quando
constatam a desproporção da imagem com o
objeto. E talvez tenha Platão atentado para
isso quando, a exempio do que se praticava em
outras repúblicas de instituições modelares,
determinou que nos ginásios homens e mulhe-
res de todas as idades se apresentassem nus.
As indianas, que vêem continuamente os ho-
mens desvestidos, têm pelo menos a vantagem
de não se iludirem pelos olhos. Nesse grande
reino de Pegu, não têm elas próprias para se
cobrir senão um pedaço de pano aberto na
frente e tão estreito que por mais esforços que
façam a cada passo se descobrem por inteiro.
Embora se diga, desse costume, que tem por
objetivo atrair os homens e distinguir os sexos
em um pais onde todos usufruem a liberdade
de satisfazer seus instintos, pode muito bem
ocorrer que o resultado seja contrário do que
se espera, pois a fome total é mais difícil de
suportar do que em parte saciada, ainda que
somente pelo olhar. Por isso dizia Lívia que
para uma mulher honrada um homem nu nao
passava de uma imagem. As lacedemônias,
mais puras como mulheres feitas do que as
nossas virgens, contemplavam diariamente a
nudez dos jovens ginastas. Elas próprias não
cuidavam de esconder as coxas ao andar,
convencidas, como diz Platão, de que sua vir-
tude as protegia suficientemente sem que fos-
sem necessárias saias de roda. Em compensa-
ção, os que, segundo Santo Agostinho,
atribuíam um poder prodigioso à tentação pro-
vocada pela nudez, indagavam, dubitativos, se
no juízo final as mulheres conservariam seu
sexo ou se se tornariam homens a fim de não
ENSAIOS— II
nos induzir ao pecado quando gozássemos a
eterna beatitude.
Em resumo, provocam-nas e excitam-nas
por todos os meios; sem cessar as incitam às
fantasias e depois culpam-lhes o sexo. Diga-
mos a verdade: não há entre nós quem não re-
ceie mais a vergonha provinda das faltas de
sua mulher do que a decorrente dos seus pró-
prios erros; não há quem não se preocups mais
com a consciência de sua esposa (maravilhosa
caridade!) do que com a sua própria, não há
quem não prefira ser ladrão e sacrílego a ter
uma mulher impura, nem quem não ache me-
lhor que ela seja assassina e herética a ser
incontinente. Iníqua avaliação do vício!
Somos, elas e nós, capazes de mil corrupções
mais prejudiciais e contrárias às leis naturais
do que a luxúria, mas avaliamos a gravidade
do vício segundo o nosso interesse. Daí a rela-
tividade de nosso julgamento.
O rigor de nossas leis fez da falta da mulher
um crime muito mais grave do que é na reali-
dade, e de consequências fora de proporção
com a coisa em si. E andariam elas mais acer-
tadamente ganhando a vida como advogadas
ou conquistando glórias na guerra, do que se
preocupando com tão dificil defesa em meio ao
ócio e a solicitações de toda espécie. Pois não
há negociante, ou procurador, ou soldado, que
abandone suas ocupações profissionais para
correr a uma tal defesa; e não alcançam o
mesmo grau de sacrifício o trabalho e as priva-
ções do mais miserável sapateiro ou lixeiro.
“Todos os tesouros de Aquemenes, todas as
riquezas da Arábia e da Frígia não pagariam
um só fio de cabelo de Licínia, nesses docés
momentos em que, virando o rosto, ela entrega
a boca a teus beijos, ou, caprichosamente, re-
cusa o que lhe desejas roubar e que esponta-
neamente te oferece em seguida**.”
Não sei se os feitos de César e Alexandre
ultrapassam em dificuldades aquilo que uma
mulher jovem e bela, educada a nosso modo,
em uma sociedade em que brilhe, e tendo sob.
os olhos tantos exemplos contrários, em meio
a mil proposições e solicitações, precisa fazer
para se manter casta. Nada me parece tão espi-
nhoso nem exige, a meu ver, maior cuidado do
que isso que não faz. Acho mais cófnodo car-
regar uma armadura durante a vida toda do
que uma virgindade. E é porque o voto de cas-
tidade é o mais penoso ae todos que é tambem
o mais nobre: “A força do diabo está nos
rins”, diz São Jerônimo. .
83 Horácio.
397
Sem dúvida atribuímos às mulheres o mais
árduo dos deveres, o mais exigente de esforços
e resolução. Eis por cérto um estímulo assaz
poderoso para que se obstinem em se manter
honestas e calquem aos pés a nossa pretensa
superioridade. Por pouco que se preocupem
com não infringir sua norma de conduta, não
somente hão de granjear maior estima como
também mais decidido amor. Um cavalheiro
não desiste de sua corte por lhe negarem o que
deseja, se a recusa assenta na temperança e
não na antipatia; lamenta-se e ameaça talvez,
mas não ama menos. E mente se afirma o
contrário. Nada nos seduz mais do que uma
mulher que sé mantém honesta sem deixar de
ser carinhosa e amável. É covardia e estupidez
insistir junto a uma mulher que demonstra
hostilidade e desprezo, mas é de uma alma
nobre e generosa não romper relações com
quem opõe 20 desejo uma virtude resoluta e
mesclada de gratidão. Uma mulher pode, até
certo ponto, e sem desobedecer às regras da
honestidade, mostrar que se compraz com as
atenções de seu admirador e-não o desdenha. E
a lei que determina que nos detestem porque as
adoramos é cruel e absurda. Por que não ouvi-
riam nossos cumprimentos se não transgridem
o que a compostura lhes dita? Haverá nelas
algum sentido que desperte ao som de nossas
palavras? Uma rainha de nosso tempo dizia
com muito espírito que “recusar-se a ouvir
galanteios é prova de fraqueza, denunciadora
de certa propensão para o pecado”, e que
“uma senhora que não se expôs à tentação não
pode vangloriar-se de sua castidade”. A honra
não se encerra dentro de tão estreitos limites;
pode estender-se e gozar alguma liberdade sem
se tornar passível de culpa; para além de seu
domínio há uma zona neutra em que somos
livres, em que o que ocorre não comporta
consequências graves. Quem logra encurralar
a virtude em seu último reduto para vencê-la,
nécio será se não se considerar um privile-
giado, pois a importância do êxito mede-se
pela dificuldade encontrada. Quereis saber a
impressão que causais em uma mulher com
vossos galanteios e assiduidades? Julgai-o pelo
seu caráter. Há quem muito mais dê, em não
dando tanto quanto outras; um favor vale o
preço em que o avalia quem o outorga; o resto
são circunstâncias fortuitas que nada lhe
acrescentam e como que não existem. O pouco
que concede esta pode custar-lhe mais do que
o que a outra dá. E se alguma coisa se valoriza
pela raridade, temos nessa um exemplo típico.
Não atenteis por isso para quanto obtiverdes e
398 -. MONTAIGNE
sim para o número dos que o puderam ou
poderão obter. O valor de uma moeda depende
do lugar em que é cunhada e da sua marca.
Ainda que o despeito e a indiscrição indu-
zam alguns à calúnia, sempre a verdade e a
virtude acabam triunfando. Sei de mulheres
cuja reputação por muito tempo foi posta em
dúvida e que recuperaram o respeito: de todos
tão-somente pela sua constância, sem esforços
nem sacrifícios. Os maliciosos acabam por se
arrepender e se desmentir. Hã também mulhe-
res de quem se duvidava em solteiras e hoje,
depois de casadas, se encontram entre as mais
estimadas. Alguém dizia a Platão: “Todos
falam mal de você.” “Deixai-os falar, respon-
dia, pois viverei de maneira a forçá-los a
mudar de opinião.”
Além do temor a Deus e de uma glória tão
raramente conquistada, a corrupção do século
deve incitá-las a não sucumbir. Se estivessse
em seu lugar, a tudo me prestaria de prefe-
rência a confiar em gente tão perigosa. Outro-
ra, O prazer de contar suas aventuras (prazer
quase tão grande quanto o real) só se outor-
gava a quem tinha um grande e fiel amigo.
Hoje, nas festas como à mesa, passam o tempo
a vangloriar-se e a revelár segredos de alcova.
Isso parece-me abjeto e vil e só pessoas ingra-
tas e levianas podem assim permitir que cha-
furdem nos seus sentimentos mais íntimos e
delicados. Nossa exasperação iníqua contra as
fraquezas femininas provém dessa terrível
doença que tanto aflige a alma: o ciúme. “Que
é que impede de tirar luz da luz? Diminui ela
com issoº*2” O ciúme e sua irmã a inveja
parecem-me as. mais estúpidas enfermidades
morais. Desta última, que dizem ser uma pai-
xão tenaz e poderosa, não posso falar porque
não a conheço, graças a Deus. Quanto ao
ciúme, conheço-o pelo menos de vista. Os pró-
prios animais estão sujeitos a essa doença.
Uma das cabras de Crátis, tendo se apaixo-
nado por ele, o bode, durante a noite, esmagou
a cabeça do pastor a chifradas. A exemplo de
certos povos bárbaros, exageramos essa febre.
Os mais ponderados e sábios sentiram-na,
como é natural, mas sem delírios: “O sangue
de um adúltero ferido por um marido jamais
tingiu as águas do Estige?*.” Luculo, César,
Pompeu, Antônio, Catão e outros de incons-
testável bravura foram maridos enganados e o
souberam, sem que por isso provocassem
tumultos. Somente Lépido, naqueles tempos,
se revelou bastante tolo para se atormentar a
ponto de morrer: “Infeliz ! Se o azar fizer com
que te surpreendam, serás arrastado pelos pês
8+* Ovídio.
8s João Segundo.
e empalado com nabos e cenouras* 8.” Quando
Vulcano deparou com sua mulher em compa-
nhia de outro, contentou-se com os expor
ambos ao sarcasmo dos demais deuses, “o que
levou um deles, dos menos austeros, a observar
que de bom grado consentiria em ser assim
castigado? 7”. Nem por isso deixa Vulcano de
acariciar sua companheira, mas queixa-se de
que ela desconfie então de seu afeto: “Por que,
ó deusa, não confias em mimº8º7” E quando
ela pede alguma coisa para Enéias, um dos
bastardos: “é uma mãe que pede armas para
seu filho”, ele a concede generosamente, expri-
mindo-se assim: “Armas para um herói?º.” O
ato é entretanto tão magnânimo que só pode
admitir-se da parte de um deus: “e não há
como estabelecer um termo de comparação
entre um homem e um deus*º”. Quanto à con-
fusão dos filhos — coisa que preocupa os mais
sérios legisladores — não afeta ela as mulhe-
res e no entanto nelas é que o ciúme é mais
forte. “Muitas e muitas vezes ao ciúme de Juno
não faltaram motivos, dadas as infidelidades
de seu maridoº*?. E quando esse sentimento se
apodera dessas almas frágeis e incapazes de
resistência, é de ver-se com que crueldade as
atormenta e tiraniza. Introduz-se nelas sob a
forma de amizade mas, aí instalado, as mes-
mas causas, que antes invocavam a benevo-
lência, tormam-se alvo de ódio mortal. É o
ciúme, entre as doenças do espírito, a que mais
facilmente se alimenta e a que com maior difi-
culdade se cura: saúde, virtude, mérito, reputa-
ção, tudo é pretexto para que se exprimam o
despeito e a cólera: “Não há ódios mais impla-
cáveis que os do amorº2” Essa febre deturpa e
corrompe tudo o que há de bom e belo nas
mulheres. Tudo o que faz uma mulher ciumen-
ta, por honesta e diligente que seja, comporta
algo azedo e desagradável; é presa de uma agi-
tação colérica que indispõe os outros contra
ela e produz efeito contrário ao esperado.
Veja-se o caso de um tal Otávio, em Roma.
Dormira com Pôncia Postúmia. Apaixonado
desde então, instava com ela sem cessar para
que casasse com ele. Não conseguindo conven-
cê-la, seu extremado amor levou-o a agir como
um inimigo cruel: matou-a. Os sintomas dessa
doença insrente ao amor são do mesmo tipo:
cóleras intestinas, surda agitação, conjuras
incessantes: “ninguém sabe até onde pode i Ir o
88 Catulo. Alusão ao castigo que os atenienses
infligiam aos adúlteros surpreendidos em flagrante.
87 Ovídio.
88 Virgílio.
8º Td.
8º Catulo.
91 Td.
82 Propércio.
ENSAIOS — HI 399
ódio de uma mulher”, diz Virgílio, é um ódio
tanto mais exasperado quanto precisa semprê
invocar o benefício da vítima.
A castidade é um dever muito complexo.
Será, por exemplo, a vontade que desejamos
dominar? Mas a vontade é nas mulheres coisa
demasiado elástica, versátil e viva. Um sonho
basta por vezes e eis a vontade anulada. Não
estã em suas forças defenderem-se sozinhas
contra a concupiscência e o desejo, nem
mesmo com o auxílio da castidade, a qual por
ser também feminina está sujeita a idênticas
solicitações. Se somente a vontade importa,
aonde iremos parar? Imaginai um homem sem
olhos nem língua, incapaz portanto de ver €
falar, mas dotado do privilégio de se achar na
hora certa no leito de uma mulher disposta a
acolhê-lo: que tremendo êxito teria! As mulhe-
res citas vazavam os olhos de seus escravos e
prisioneiros de guerra para melhor se servirem
deles sem ser reconhecidas.
A grande vantagem está na oportunidade. A
quem me perguntasse o que mais contribui
para o êxito no amor, responderia: em pri-
meiro lugar a oportunidade, em segundo a
oportunidade e sempre a oportunidade. Desta
tudo depende. Ocorreu-me, mais de uma vez,
perder uma boa oportunidade; mas também
me aconteceu carecer de ousadia. Deus perdoe
quem zombe de mim. Neste século é preciso
mais temeridade do que tenho, essa temeridade
que os jovens atribuem ao entusiasmo da
idade, mas que, se a olharmos de perto, não
passa, na realidade, de desprezo pela virtude
das mulheres que assediam. Não ofendê-las é
para mim verdadeira superstição, e leva-me a
respeitar o que amo. Demais, independen-
temente do fato de que em tais circunstâncias a
falta de respeito amesquinha a preferência con-
cedida, gosto de mostrar-me, nesse caso, um
tanto pueril e timido. Além disso padeço um
pouco dessa tola vergonha a que alude Plu-
tarco e que amiúde me prejudicou na vida. É
um defeito que não se ajusta em geral a meu
temperamento, mas não somos feitos de senti-
mentos e idéias em permanente contradição?
Tanto me aborrece receber uma recusa como
dá-la; e de tal modo desagrada-me desagradar
aos outros, que, se o dever me obriga a tentar
convencer alguém de alguma coisa, faço-o
contra a vontade, constrangido. Nos negócios
desse gênero em que me ache diretamente inte-
ressado, embora Homero diga que no indi-
gente a vergonha é uma virtude ridícula, encar-
rego outra pessoa de fazê-lo, assim como evito
qualquer missão dessa espécie, mesmo porque
minha timidez é de tal ordem, a esse respeito,
que me aconteceu por vezes querer recusar e
no entanto aceitar.
Voltemos ao assunto. É loucura procurar
frear na mulher um desejo tão natural e exigen-
te. E quando as ouço dizer que sua imaginação
continua virgem e que nada sentem ou querem,
rio-me delas, pois exageram então, por demais.
Se se trata de uma velha decrépita e desden-
tada ou de uma jovem tuberculosa, pode-se
ainda acreditar que digam a verdade, embora
não seja provável, mas, na boca das que respi-
ram e vivem realmente, uma tal linguagem não
me parece certa. Quem prova demais, torna-se
suspeito; as justificações excessivas são acusa-
tórias. Assim é que um fidalgo meu vizinho,
que de impotência, “insensível às mais lascivas
carícias, nunca dera o menor sinal de virilida-
deº3”. três ou quatro dias após a cerimônia
matrimonial, andou a espalhar por toda parte
que por vinte vezes se entregara ao amor.
Dessa afirmação absurda se valeram posterior-
mente para desmascará-lo e anular o casamen-
to.
A continência e a virtude só existem na me-
dida em que se resiste à tentação. Por isso a
única coisa que as mulheres deveriam dizer em
tais casos é que não querem ceder; os próprios
santos assim se exprimem. Refiro-me as
mulheres que, conscientes do que afirmam, se
vangloriam de sua frieza e insensibilidade e
querem que as levemos a sério; e não estou
pensando naquelas que, assim falando, des-
mentem suas palavras, com gestos e olhares,
usando uma linguagem muito sua que exige
interpretação inteligente e naturalmente signi-
fica o contrário. Agradam-me imenso a inge-
nuidade e a pureza, mas é preciso que tais qua-
lidades conservem a autenticidade original,
sem o que se tornam ineptas ou impudicas.
Esses disfarces que tais mulheres adotam, só
aos tolos iludem. Mentir é-lhes ponto de honra
e uma maneira de conduzir-nos à verdade por
uma porta falsa.
Se não podemos frear-lhes a imaginação,
que poderemos querer então? Combater os
efeitos? Mas muitos escapam ao conhecimento
alheio e nem por isso as corrompem menos:
“Faz-se muito o que se faz sem testemu-
nharº *” e o que mais se teme nem sempre é o
que se deve temer. Esses seus pecados que
ignoramos são os piores: “Aborreço menos a
mulher viciada quando não dissimula o
vício? 5.” Pode-se perder o pudor sem impudi-
cicia e até sem o saber: e conta Santo Agosti-
nho que “uma parteira verificando com a mão
se certa moça era virgem, ou por maldade ou
por acidente, deflorou-a”. Não falta quem
tenha perdido a virgindade ao procurar enten-
83 Catulo.
“4 Marcial.
95 Td.
400
dê-la, nem quem dela se haja desfeito brincan-
do. Não podemos circunscrever com exatidão
o que lhes proibimos, nem formular nossas
exigências senão de maneira vaga e geral. Por
vezes, mesmo, é ridícula nossa concepção de
sua castidade. Entre os exemplos mais singula-
res que disso posso dar, citarei o de Fátua, mu-
lher de Fauno, a qual a partir do dia de suas
núpcias nunca mais mostrou o rosto a homem
algum, e o da mulher de Héron que não se
impressionava com o cheiro nauseabundo que
exalava o nariz do marido, certa de que o fenô-
meno era inerente ao sexo masculino. Para que
nos sentíssemos satisfeitos fora necessário que
elas se tornassem insensíveis e invisíveis.
Convenhamos portanto em que o pecado
está na intenção. Houve, mesmo, maridos que
foram enganados sem que os ofendessem suas
mulheres mas antes revelassem, em o fazendo,
sua grande virtude. Assim uma delas, mais
atenta à honra que a vida, se prostituiu com o
inimigo a fim de salvar o esposo, por este
fazendo o que não houvera feito por ela pró-
pria. Não há como citar exemplos aqui, pois
são feitos demasiado elevados para que se
enquadrem no assunto. Reservemo-los para
mais nobre tema. Mas descendo a exemplos
mais vulgares, vemos diariamente em tomo de
nós mulheres que se entregam unicamente no
intuito de ser úteis a seus maridos, por vezes
até por ordem e intermédio dos próprios espo-
sos. Na antiguidade Fâáulio, de Argos, ofereceu
sua mulher ao Rei Filipe, por simples ambi-
ção. E, por cortesia, um certo Galba, que ofe-
recera um banquete a Mecenas e percebera que
o convidado fazia a corte à sua mulher, fin-
giu-se de exausto e acabrunhado pelo sono
para auxiliá-lo em suas intenções amorosas. O
que, de resto, revelou sem maiores dificulda-
des, portanto, tendo um dos servidores apro-
veitado a ocasião para tentar roubar um vaso
da mesa, exclamou: “pois não vês, é malandro,
que estou dormindo somente para Mecenas?”
Há mulheres de vida airada mais resolutas do
que outras de aparência honesta. Há quem se
queixe de ter feito voto de castidade antes de
saber o que isso significava, como há quem
lamente ter-se dedicado à libertinagem em
idênticas condições, já por injunções de pais
devassos, já para safar-se da miséria, que a
necessidade é rude conselheira. Nas Índias
Orientais, onde a castidade é particularmente
apreciada, admite-se que uma mulher casada
se entregue a quem lhe ofereça um elefante, o
que, dado o valor do presente, constitui uma
honra. O filósofo Fédon, que era de boa famí-
lia, resolveu prostituir-se para viver, depois da
invasão de sua pátria, e assim fez enquanto
durou sua beleza. Sólon foi o primeiro, na Gré-
cia, a conceder legalmente às mulheres a liber-
MONTAIGNE
dade de prover às necessidades da existência
pela prostituição, costume esse que, segundo
Heródoto, já fora introduzido, antes, nas insti-
tuições de vários outros povos.
E, finalmente, que benefício auferimos de
tão tormentosa preocupação? Suponhamcs
que o ciúme se justifique: conduzirá a algum
resultado o nosso tormento? Haverá quem
imagine possuir um meio eficaz de governar
sua mulher? “Prendam-na e coloquem guardas
à porta da prisão; quem os vigiará? Ela é astu-
ta e por eles é que começa” 8.” Que meios tere-
mos para a controlar, nestes tempos de gente
tão sabida?
A curiosidade é sempre um defeito, mas, no
caso, parece-me perniciosa; é loucura preten-
der informar-se acerca de um mal que nenhum
remédio cura, antes agrava, e cujas conse-
quências se ampliam com a publicidade que o
ciúme lhe dá. E não adianta vingar-se, porque
a vingança não apaga a falta e recai afinal nos
filhos. Torturaremo-nos e morreremos de des-
gosto antes de elucidar uma coisa tão dificil de
provar. Triste tem sido o resultado dos que
buscam inteirar-se da verdade! E se quem nos
adverte do mal não nos oferece ao mesmo
tempo o remédio, está nos injuriando e merece
mais uma punhalada do que se nos desmen-
tisse em público. Demais, quem tenta vingar-se
não é menos ridicularizado do que quem igno-
ra o fato. A mancha da infidelidade é indelé-
vel; e, mais do que a falta, proclama-a o casti-
go. E não me parece muito inteligente arrancar
da sombra as nossas desgraças a fim de alar-
deá-las tragicamente, tanto mais quanto são
infortúnios tão-somente na medida em que os
conhecemos. Boa mulher e bom casamento
não se dizem dos que o são realmente e sim
daqueles a cujo respeito calamos. É preciso
que nos esforcemos por evitar que saibam de
nossos males, por isso os romanos, ao voltar
de suas viagens, enviavam à frente um mensa-
geiro a fim de não surpreender suas mulheres.
É também por isso que em certos povos os
sacerdotes abrem caminho ao marido, o qual
assim não precisa indagar se casou de fato
com uma virgem ou com uma jovem já
maculada.
Mas, dirão, e os comentários? Conheço cem
bons sujeitos que são enganados e de quem
ninguém fala, cujos casos não provocam
escândalo. Tem-se pena de um homem de bem
a quem tal acontece, mas nem por isso é menos
respeitado. Trata-se de fazermos com que; gra-
ças a nossas virtudes, a desgraça passe desper-
cebida e que as pessoas honestas nos olhem
com simpatia e desprezem os que agem mal. E,
finalmente, quem está isento de semelhante
98 Juvenal.
ENSAIOS — IH
desventura? “Nem mesmo o general que
comandou tantas legiões e que, em tudo, é
superior a um pobre diabo como tuº?.”?
Dizem-no de tanta gente honrada que bem
podes imaginar 'que não serás poupado. As
próprias mulheres se mostrarão indiferentes, e,
por outro lado, de que mais zombam hoje
senão de um casal que se entende bem e vive
sossegado? Todos nós já chamamos alguém de
- cornudo; não nos devemos pois espantar com
o revide. Compensações e represálias estão na
ordem natural das coisas. E a frequência do
acidente por certo tempera-lhe o amargor.
Acresce ainda que essa desgraça ê incomuni-
cável. “O destino recusa-se a ouvir nossas
lamentações*8.” Com efeito, em que amigo
poderemos confiar sem que ria de nós ou sem
que se valha da informação em benefício pró-
prio? Os sábios guardam segredo, tanto a res-
peito dos infortúnios matrimoniais como de
seus prazeres. E, nesse caso, consideram inde-
cente comunicar a outrem o que sabemos e
sentimos, o que não deixa de aborrecer quem,
como eu, é de natural expansivo.
Seria tempo perdido argumentar de igual
modo com as mulheres, a fim de evitar que se
mostrem ciumentas, pois são tão desconfiadas,
frívolas e curiosas que não podemos esperar
curá-las pela razão. Não raro elas se corrigem,
mas voltam à saúde em condições muito mais
desastrosas do que as da própria doença, e
ocorre então o que se verifica nas feitiçarias: O
mal passa a outro. Quando a febre as abando-
na, apossa-se em geral dos maridos. Todavia
não sei de algo que nos atormente mais do que
o seu ciúme; é o mais perigoso estado de espí-
rito em que podem encontrar-se, como a cabe-
ça é nelas a parte do corpo que menos vale. Pí-
taco dizia que todos têm a sua enfermidade; a
sua era a cabeça da mulher e, sem ela, conside-
rar-se-ia inteiramente feliz. Se tão pesado
inconveniente perturbou a vida de um homem
como ele, de tanto valor e sabedoria, que será
de nós, pobres mortais! Andou bem o Senado
de Marselha ao deferir o requerimento em que
certo indivíduo pedia permissão para matar-se,
a fim de obviar a uma existência que a esposa
tornava infernal, pois o mal é daqueles que só
findam com o doente. Ambas as soluções
possíveis, fuga e resignação, são igualmente
difíceis. E bom psicólogo fci quem disse que,
para um casamento. feliz, é necessário unir um
homem surdo a uma mulher cega.
Cuidemos igualmente de não lhes impor
obrigações tão extensas e rigorosas que aca-
bem por provocar resultados contrários aos
almejados, tornando-se um estímulo para os
97 Lucrécio.
98 Catulo.
401
que as perseguem e um pretexto para que pe-
quem mais facilmente. Quanto à primeira
hipótese, aumentando o valor da mulher
aumentamos também o desejo de quem a
pensa conquistar. A própria Vênus, para valo-
rizar sua mercadoria, terá inspirado o rigor
das leis, sabendo que o mais vulgar dos amores
se faz desejável através da idéia de sua dificul-
dade. Em última instância, como dizia o hós-
pede de Flamínio, tudo é carne de porco e só
os molhos a diversificam. Cupido é um deus
rebelde, sente prazer em lutar contra a devoção
e a Justiça; alegra-se com opor seu poderio aos
outros e quer que tudo se dobre ao seu capri-
cho: “Sem cessar busca uma oportunidade
para novos excessos*? º.”
Quanto ao segundo ponto, seríamos nós tão
enganados se o receássemos menos? Isso está
no temperamento da mulher; mas a proibição
a incita ainda mais a fazê-lo: “Quereis? Elas
não querem. Não mais o desejais? Elas dese-
jam'ºº “Repugna-lhes o que é permiti-
do!º1.? Comprova-o o caso de Messalina, mu-
lher de Cláudio. A princípio engana o marido
às escondidas, como é normal, mas, perceben-
do-lhe a estupidez, fá-lo em seguida aberta-
mente e distribui seus favores de modo a que o
saiba e sofra. Não se incomodando o estúpido
imperador, e tornando-se insípidos os prazeres
tão facilmente alcançados, os quais como que
se legitimavam assim, vai além. Mulher de um
imperador são e vivo, em Roma, palco do
mundo, em pleno dia, durante uma cerimônia
pública, casa com seu amante Sílio, um dia em
que Cláudio se encontra ausente. Dir-se-ia que
procurava tornar-se novamente casta diante da
indiferença do marido, ou que tomava outro
capaz de excitá-la com seus ciúmes. Mas aí
surge seu primeiro e último percalço: Cláudio
reage alvoroçado, e as cóleras subitamente
despertadas são as mais violentas; inflaman-
do-se de repente, apela para as mais cruéis vin-
ganças. À carga acumulada estoura: soltam-se
as rédeas da ira'º2”, O imperador manda
executá-la, bém como muitos dos seus compar-
sas, inclusive alguns que o haviam sido a
contragosto, porquanto ela os forçara a pos-
suírem-na mediante suplícios e açoites.
O que Virgílio diz das relações matrimo-
niais de Vênus com Vulcano, Lucrécio o disse-
ra mais lindamente da união ilícita da deusa.
com Marte: “Não raro o deus da guerra, o
temível Marte, embriagado de amor, perde seu
orgulho e se aniquila em teus braços... Avi-
damente inclinado sobre teu seio, seus olhos
contemplam enamorados o teu divino corpo. E
9º Ovídio.
100 Tácito.
101 Lucano.
102 Virgilio.
402 MONTAIGNE
entao o momento, ó deusa, de o abraçares e te
queixares docemente! 03,”
Pensando em certas palavras desses poetas,
como “rejicit, pascit, pudet, inhians, molli,
fovet, medullas, labefacts, pendet, percurrit”
nessa nobre “circunfusa”, mãe da gentil
“infusa”, sinto certo desprezo por essas locu-
ções e alusões tão pouco expressivas que se
usam agora. Os antigos não queriam um estilo
mais ou menos sutil e incisivo e sim uma lin-
guagem rica, plena, naturalmente vigorosa.
Tudo o que dizem é epigrama, e não vem este
apenas na cauda, mas também na cabeça, no
estômago e nos pés!'º *; nada é artificial ou for-
çado, tudo se desenvolve dentro de uma unida-
de, “todo o discurso é másculo e sem floreios
inúteis!º 5”. Não é uma eloguência efeminada
em que nada choca; é nervosa, sólida, antes
satisfaz e entusiasma do que agrada e encanta
os espíritos mais fortes. Quando vejo essa
maneira ousada, tão viva e profunda de se
exprimir, não considero o que escrevem “bem
escrito”, mas sim “bem pensado”. A força da
imaginação realça e valoriza as palavras, “
coração brota a elogiência!º 8. Hoje chama-
mos critério ao palavrório e conceitos às belas
frases. O que pintavam os antigos não decorria
da habilidade e sim da impressão sincera que
sentiam. Galo fala com simplicidade porque
assim o concebe; Horácio não se contenta com
uma expressão superficial porque vê mais
clara e profundamente. Por isso seu espírito
esquadrinha o armazém das palavras para des-
cobrir as que melhor lhe vistam o pensamento;
é-lhe necessário mais do que aquilo que aí se
encontra comumente, como sua concepção
ultrapassa igualmente as concepções vulgares.
Plutarco diz que aprendeu a lingua latina pelas
coisas que lhe eram descritas; aqui também: o
sentido ilumina e realça as palavras, fazendo-
as não de vento mas de carne e ossos; signifi-
cam mais do que dizem, e até os imbecis perce-
bem um pouco do que se trata. Na Itália eu
dizia o que queria nas conversações triviais,
mas quando visaram mais alto não ousava
confiar em uma língua que não dominava, pois
nesses casos quero poder contribuir com algu-
ma coisa pessoal. Os homens cultos enrique-
cem a lingua pelo modo por que a empregam,
e não propriamente inovando-a, mas revigo-
rando-a e a tornando mais útil, variada, elásti-
ca. Não introduzem palavras novas, mas dão
maior riqueza às existentes, emprestam-lhes
outros sentidos e objetivos, e outorgam-lhes
103 Lucrécio.
104 No texto “tudo é epigrama”, isto é, tudo é
incisivo, penetrante, bem observado e mordaz.
(N. do T.)
105 Sêneca.
198 Quintiliano.
movimentos singulares, tudo com prudência e
engenho. Que o dom é raro, bem o vemos pelos
escritores franceses contemporâneos; são bas-
tante audaciosos e altivos para não seguir
caminhos batidos, mas faltam-lhes imaginação
e modéstia. Só revelam afetação, amor à singu-
laridade e aos adornos artificiais e absurdos
que, em vez de dignificar o tema, o aviltam.
Ávidos de novidade, pouco se lhes dá a eficá-
cia; e, no afã de empregar uma palavra rara,
abondonam a vulgar, frequentemente mais pre-
cisa e expressiva.
Nossa língua parece-me bastante rica, mas
algo grosseira. Talvez o jargão de nossas guer-
ras e caçadas devesse ser aproveitado nela,
pois seria filão de bom rendimento, sem dúvi-
da. A exemplo das plantas, as formas da lín-
gua corrigem-se e se fortalecem com a trans-
plantação. A nossa é assaz abundante mas
pouco flexível e vigorosa. Não exprime em
geral com felicidade as idéias fortes. Se as que-
remos exprimir, sentimos que o instrumento
falha e vacila e temos que apelar para o latim
ou o grego. Em algumas das palavras que citei,
"recebemos menos bem a força expressiva por-
que o emprego demasiado frequente que delas
se fez como que as vulgarizou e embotou.
Como em nossa língua atual, há nesse trecho
expressões excelentes e metáforas cuja beleza e
colorido se embaçaram e atenuaram em virtu-
de de sua antiguidade e do uso repetido, mas
isso não as torna insossas aos paladares
requintados nem diminui a glória desses auto-
res antigos, que foram provavelmente os pri-
meiros a dar a essas palavras um brilho
específico.
A ciência trata as coisas do mundo de um
modo demasiado artificial, antinatural e pre-
tensioso. Meu pajem ama e conhece a lingua-
gem do amor, mas dai-lhe a ler Leão Hebreu e
Ficin ! Falam dele, de seus pensamentos e suas
ações e no entanto ele não os entende. Eu tam-
pouco consigo reconhecer em Aristóteles a
maioria das impressões que sinto habitual;
mente; vestiram-nas com outras roupas de uso.
na escola. Sem dúvida terão sua razão para
assim agir; entretanto, se eu fosse do ofício,
esforçar-me-ia por tornar natural a arte, como
eles se esforçam por artificializar a natureza.
Quanto a Bembo e Eqúicola, não os comenta-
rei. |
Quando escrevo, não recorro nem aos livros
nem à lembrança que deles tenha, de medo que
influam na minha maneira de escrever, sem
contar que os bons autores me desesperam e
desanimam. Sou como aquele pintor, que,
tendo representado uns galos de um modo
pouco feliz, proibia a seus ajudantes de traze-
rem galos de verdade ao atelier, a fim de evi-
tar qualquer comparação. Eu teria antes neces-
ENSAIOS— III | 403
sidade, para brilhar um pouco, de fazer como
Antigênidas, esse músico que, quando devia
tocar, se arranjava para que antes ou depois
fossem ouvidos alguns maus cantores. É me
mais difícil esquecer Plutarco. Esse autor é tão
universal e completo que em todas as ocasiões,
por extraordinário que seja o assunto, ele se
intromete no trabalho alheio, oferecendo gene-
roso auxílio, sugerindo as mais variadas e
belas soluções. Por isso mesmo lamento vê-lo
tão exposto ao saque dos que o conhecem. Eu
mesmo, cada vez que o encontro, não posso
deixar de surrupiar-lhe alguma coisa.
Resolvi igualmente escrever esta obra em
minha província selvagem, onde ninguém me
pode ajudar ou corrigir, onde só frequento pes-
soas que não entendem sequer o latim de seu
padre-nosso e menos ainda o francês. Escrito -
alhures, fora talvez melhor mas não tão meu, €
seu objetivo principal, bem como seu mérito,
está em ser a minha imagem exata. Corrijo por
vezes alguns erros acidentais (estes não faltam,
porque escrevo ao correr da pena), mas seria
desleal tocar nas imperfeições inerentes à
minha pessoa. Quando me dizem (ou eu
mesmo me digo): “Estás abusando das ima-
gens — eis um gascoismo — essa locução é
escabrosa (não elimino nenhuma das que em
França se ouvem nas ruas, pois os que preten-
dem opor a gramática ao costume são ridícu-
los) — esse trecho revela ignorância — esse
outro é paradoxal — isso é por demais jocoso
— estás a brincar constantemente e podem
acreditar que falas a sério”, respondo: é verda-
de, mas só corrijo os enganos, jamais os defei-
tos de minha personalidade. Pois não é assim
mesmo que falo habitualmente? Não me mos-
tro tal qual sou? Está certo então. Cheguei ao
que queria, pois todos me reconhecem em meu
livro e a este em mim.
Como os macacos, tenho forte tendência
para a imitação. Quando eu fazia versos (só os
fiz em latim), revelavam de modo evidente o
último poeta lido. Assim estes ensaios. Os pri-
meiros capítulos sabem a uma região diferente.
Em Paris eu não me exprimo exatamente como
em Montaigne. Se olho atentamente para
alguém, algo dessa pessoa se imprime em mim;
aposso-me do que analiso: uma atitude incon-
veniente, uma careta desagradável, uma forma
ridícula de linguagem, defeitos principalmente;
e quanto mais esses sestros me impressionam,
mais tempo os conservo. É preciso um esforço
para que os abandone. Se blasfemo é por imi-
tação e não por temperamento, e esse arre-
medo se me afigura tão infeliz quanto aquele
dos enormes e vigorosos símios que Alexandre
encontrou nas Índias e não houvera dominado
sem a mania imitativa que os caracteriza.
Como isso os levava a fazer o que viam, deram
os caçadores de calçar-se diante dos monos
com muitos cordões bem apertados, enrolar o
corpo com laços de nós corredios, untar os
olhos com cola. Desse modo os pobre animais,
imitando-os, amarravam-se e eram garrotea-
dos. Quanto à capacidade de reproduzir
engenhosamente os gestos e o sotaque alheios,
não a tenho em absoluto. Quando blasfemo
por distração e sem imitar ninguém, não vou
além de “Por Deus !”, o que não é muito grave.
Dizem que Sócrates exclamava: “pela vida de
um cão !?” e que Zenão dizia: “Capperi!” como
os italianos de agora, e Pitágoras: “pela água e
pelo ar!” Sou tão receptivo às impressões
superficiais, que se durante três, dias andei a
dizer “Alteza” e “Majestade” uma semana
mais tarde ainda me surpreendo a empregar
esses termos em lugar de “Monsenhor” e
“Excelência”. E o que digo por troça um dia,
eu o repito a sério a seguir. Por isso, quando
escrevo, procuro evitar os assuntos mais bati-
dos, de medo de os tratar a expensas de
outrem. Qualquer tema me serve, uma simples
mosca pode ser o pretexto. E Deus queira que
o que estou ventilando agora não provenha de
fonte estranha. Pouco importa o começo, vou
encadeando as idéias umas nas outras. Desa-
grada-me contudo que as mais profundas refle-
xões, as mais ousadas e as que mais aprecio,
surjam ao acaso do devaneio, quando menos
as espero e quando não as posso registrar. É
em geral quando estou a cavalo, à mesa ou na
cama que me ocorrem, principalmente a cava-
lo. Quando falo, quero que silenciem em torno
de mim e prestem atenção ao que digo; se me
interrompem, calo-me. Em viagem o próprio
caminho provoca interrupções na conversa-
ção; por outro lado, as mais das vezes viajo em
companhia de pessoas com as quais não posso
ter uma conversa séria. Conseguintemente,
falo com meus - botões. Em semelhantes cir-
cunstâncias acontece-me como quando sonho,
procuro fazer com que a memória retenha os
pensamentos, mas no dia seguinte já não sei
sequer se eram tristes, alegres ou estranhos.
Em vão me esforço por conservá-los na lem-
brança; quanto mais busco mais esqueço. E
das idéias que me vêm à mente, apenas guardo
uma vaga recordação, exatamente o suficiente
para que me canse e atormente.
Deixando os livros de lado e encarando as
coisas com simplicidade, unicamente do ponto
de vista material, acho que o amor não passa
de uma vontade de possuir o fruto de nossos
desejos, e que Vênus não é senão o prazer de
aliviar certos órgãos, satisfação que outras
partes do córpo também exigem. Sede e prazer
que só se tornam vícios quando carecemos de
moderação. Para Sócrates, o amor é a necessi-
dade de procriar por intermédio da beleza.
404
Considerando atentamente os muvimentos ri-
dículos, a agitação febril e as divagações a que
se entregam, nesse ato de loucura, pessoas de
todas as categorias, inclusive as mais sábias,
como Zenão e Crátipo, analisando as emoções
que suscita, de furor e crueldade, no próprio
instante das mais doces sensações, e a prostra-
ção, grave e severa que sucede a tais demons-
trações; vendo que as delícias e secreções se
localizam no mesmo órgão e que o êxtase
supremo nos arranca lamentos como a dor,
creio que Platão está com a razão quando afir-
ma que o homem foi criado pelos deuses para
servir-lnes de brinquedo. Cruel folguedo! E
penso que foi por zombaria que a natureza nos
outorgou essa faculdade, a mais desregrada e a
mais comum; quis com isso colocar no mesmo
nível os loucos e os sábios, homens e animais.
Quando me represento o mais contemplativo
dos homens, e o mais prudente, nesse estado,
considero que me vanglorio sem razão de ser
prudente e contemplativo. Os pés do pavão
abatem-lhe o orgulho.
“Que é que impede de dizer a verdade
brincando'º79” Quem não admite que se
possa exprimir um pensamento sério jovial-
mente, faz como aquele que hesita em adorar a
imagem de um santo se não estiver vestido dos
pés à cabeça. Na realidade comemos e bebe-
mos como os animais, o que não entrava as
funções de nosso espírito e por isso, em rela-
ção a tais atos, nós lhes somos superiores; mas
no ato sexual qualquer pensamento diverso
deixa de existir e sua tirania faz que toda a teo-
logia e toda a filosofia de Platão não passem
de toiices. Em todas as demais circunstâncias
podemos conservar certa decência e sálva-
guardar o pudor; nesse ato não nos é dado se-
quer imaginar uma conduta que não seja vicio-
sa e ridícula. Tentai encontrar um modo sábio
e discreto de proceder: não o achareis. Álexan-
dre dizia que pelo sexo e o sono é que consta-
tava que pertencia ao gênero humano. O sono
abafa e interrompe as faculdades do espírito;
esse ato as absorve e dissipa. É sem dúvida um
sinal de nossa vaidade e deformidade, como
também um comprovante do pecado original.
Por um lado a natureza nos impele à união
sexual, ligando ao desejo a nossa mais nobre,
útil e agradável função; por outro, induz-nos a
desrespeitá-la, a tachá-la de desonesta, a nos
envergonhar dela e a propugnar a abstinência.
Seremos tão estúpidos assim para qualificar de
brutal o ato ao qual devemos a vida? Os povos
e religiões coincidem em certas coisas: oferen-
das, sacrifícios, luminárias, incensos, jejuns,
condenação do ato sexual. Neste ponto todos
estão de acordo. sem falar do costume muito
10? Horácio.
MONTAIGNE
espalhado da circuncisão, que é como que um
castigo. E talvez tenhamos mesmo razão em
condenar o ato que engendra coisa tão estú-
pida quanto o homem, e em tachar de indecen-
tes as partes que dele participam. Os essênios,
de que fala Plínio, viveram vários séculos sem
conhecer uma ama ou uma fralda, e os estran-
geiros iam aumentar-lhes o número, atraídos
pela regra estabelecida pelos autóctones, a
qual determinava que não tivessem relações
sexuais com as mulheres ainda que disso resul-
tasse seu extermínio ou o fim do gênero huma-
no. E dizem que Zenão só possuiu uma mulher
na vida unicamente, e fê-le assim mesmo por
cortesia, para não pensarem que odiasse o belo
sexo. Todos evitam ver nascer o homem e cor-
rem para vê-lo morrer. Para destruí-lo, procu-
ram um campo espaçoso, em plena luz; para
construí-lo, ocultam-se ao abrigo das sombras.
É como que um dever esconder-se para fazê-lo
e envergonhar-se de tê-lo feito; é uma glória, a
que se agregam várias virtudes, desfazê-lo.
Uma coisa ofende a moral; a outra constitui
um mérito. Não diz Ariston que, segundo um
ditado de sua terra, matar alguém é beneficiá-
lo? Os atenienses, a fim de purificar a ilha de
Delos e conciliar a benevolência de Apolo,
proibiram os partos e as inumações, assim
aparelhando um ato a outro: “Consideramos
que: existimos em. conseguência' de um erro
cometido! 08.
Certos povos cobrem a parte inferior do
rosto para comer. Conheço uma senhora, e das
mais distintas, que compartilha essas idéias:
considera que a mastigação diminui considera-
velmente a graça e a beleza da mulher e quan-
do janta em público come o menos possível.
Conheço igualmente um homem que não
suporta o espetáculo de alguém comendo, nem
sofre que o vejam comer, e evita mais a pre-
sença de outrem quando se enche do que quan-
do se esvazia. No império turco há muitos ho-
mens que, a fim de conseguir maiores méritos,
não se mostram quando comem, o que só
fazem uma vez por semana; golpeiam o pró-
prio rosto, ferem os membros e não falam com
ninguém. São fanáticos que pensam honrar a
natureza alterando-a; jactam-se de se despre-
zar e imaginam tornar-se melhores em se
fazendo piores! Que animal monstruoso é o
homem! Inspira horror a si mesmo, pesam-
lhe os prazeres e busca sem cessar o mal! Mui-
tos procuram sua existência “desertando em
voluntário exílio o seu doce lar!º9?”. Ocultam-
na aos olhos alheios e evitam a saúde e a ale-
gria como prejudiciais. Seitas, e até povos
inteiros, amaldiçoam a vida e bendizem a
108 Terêncio,
108 Virgílio.
ENSAIOS — HI
morte; alguns há que abominam o sol e ado-
ram as trevas. Sô nos mostramos engenhosos
em nos atormentar. À isso aplicamos as forças
todas de nosso espírito, o qual é um perigoso
instrumento de desregramento: “infelizes os
que consideram a alegria um crime"? º” Pobre
homem, já bem grandes são as dificuldades
que te cumpre vencer, porque te dás tanto tra-
balho em inventar outras? Não é necessário
que forjes tristezas e aborrecimentos imaginá-
rics! Achas que estás tão bem assim, que pos-
sas desperdiçar a metade? Pensas realmente
que já tenhas cumprido todos os deveres que te
impôs a natureza e que seja preciso criar
outros? Não temes infringir as leis naturais,
que são universais e justas, e te vangiorias de
cbservar as tuas próprias, fantasistas, ditadas
por preconceitos e te esforçando tanto mais
por obedecer-lhes quanto mais estranhas e
controvertidas? O que diz respeito à tua pró-
pria paróquia, tudo te preocupa e apaixona;
mas esqueces o que se refere ao mundo. Guia-
te um pouco pelo que digo; assim é a vida.
Os versos desses dois poetas, que tratam
com distinção e discrição da lascívia, pare-
cem-me esclarecê-la e realçá-la. As senhoras
não cobrem os seios com gazes? Não ocultam
os padres certos objetos sagrados aos olhares
curiosos? Não dão os pintores relevo a seus
quadros com as sombras que aplicam? E não
se diz que o sol e o vento são mais fortes por
reflexão do que diretamente? Sábia resposta
deu um egípcio a alguém que lhe perguntou o
que ele transportava escondido sob o manto:
“se o escondo é para que não saibas”. Mas há
coisas que só se ocultam para que melhor se
admirem. Pois quando Ovídio escreve: “Toda
nua, apertei-a contra O seio”, sinto-me castra-
do. E Marcial, por mais que exiba as seduções
de Vênus, não a consegue apresentar na pleni-
tude de seus encantos. Quem tudo diz, empan-
turra-nos e nos repugna. Quem, ao contrário,
se empenha em ser discreto, sugere-nos mais
do que comporta a realidade. Hã algo trai-
çoeiro em tal modéstia. É o que fazem Virgílio
e Lucrécio, indicando apenas um belo caminho
para a nossa imaginação. A ação e a descrição
valorizam-se com a maneira de falar.
Agrada-me o amor dos espanhóis e italia-
nos, mais respeitoso e timido, mais requintado
e discreto. Não sei mais quem dizia, na anti-
guidade, que desejara ter um pescoço de grou,
bem comprido, para mais demoradamente
apreciar o que engolia. Um tal.desejo se justifi-
caria melhor quanto ao prazer amoroso, dema-
s.ado rápido e repentino mesmo para os que,
como eu, gostam de satisfações imediatas.
Para ampliar as sensações, cumpre prolongar
109 Pseudo Galo.
405
os preâmbulos. Entre espanhóis e italianos
qualquer sinal da mulher é uma recompensa
para o: pretendente: um olhar, um abano de
cabeça, uma palavra, um gesto. Não viveria
feliz quem pudesse jantar com o perfume de
um assado? O amor é uma paixão em que a
uma pequenina dose de seriedade se misturam
muita vaidade e fantasia; cumpre atentar para
isso. Ensinemos às nossas mulheres a se valo-
rizarem, a nos divertirem e mesmo se diverti-
rem à nossa custa; com essa impetuosidade
que nos caracteriza, queremos, nós franceses,
tudo conquistar de assalto. Com menos sofre-
guidão, conquistando-as pouco a pouco, todos,
inclusive a miserável velhice, encontrariamos o
que colher segundo as nossas forças e os nos-
sos méritos. Quem só aprecia o gozo, quem só
quer tirar a sorte grande, quem só ama a caça
pelo que caça, rão é de minha escola; quanto
maior número de degraus mais alto se eleva
quem os galga, e mais honrado é. Deveríamos
comprazer-nos eri ser guiados quando pleitea-
mos os favores da mulher, como quando pene-
tramos nesses palácios suntuosos cujo acesso é
dificultado por inúmeras galerias e compli-
cados corredores. Isso só nos traria vantagens,
pois faríamos paradas em caminho e nosso
amor duraria mais. Ão passo que, quando o
desejo e a esperança se extinguem, nada mais
pode interessar-nos. A mulher tudo tem a
temer de nós quando nos tornamos seus senho-
res; desde que se entregue à nossa fé e constân-
cia, virtudes raras e dificeis, entrega-se ao
acaso. A. partir do momento em que se faz
nossa, não mais lhe pertencemos. “Uma vez
satisfeito o capricho, não mais ligamos para as
nossas promessas e juras! 11,”
Um jovem grego, Trassonides, era tão ciu-
mento que, embora dono do coração da aman-
te, recusou possuí-la a fim de não se saciar, de
não ver apagada pelo gozo a chama com que
se deleitava. Um preço elevado requinta a qua-
lidade das coisas: vede como em nossa terra a
forma muito particular de nossas saudações se
deprecia em virtude da facilidade com que as
distribuímos. O beijo, cuja força, segundo Só-
crates, é grande e perigosa para os corações,
perde seu valor. É um costume desagradável e
ofensivo para as senhoras apresentar os lábios
a qualquer pessoa, só porque arrastá consigo
três ou quatro lacaios, embora “tenha um foci-
nho de cão do qual escorre uma baba lívida
pelas barbas. Preferiria antes beijar-lhe o
traseiro!!2 1?” Nem nós mesmos ganhamos
com isso, pois de acordo com à realidade do
mundo, não há mais do que três mulheres
belas em cada cinquenta feias que temos de
711 Catulo.
2 Marcial.
406
beijar. E para o estômago sensível de um indi
víduo de minha idade, um mau beijo não se
compensa com um bom.
Na Itália a deferência e a gentileza não se
excluem, nem mesmo nas relações com as
mulheres de vida airada, que se pagam. E
assim se explicam tais atenções: há graus
diversos no prazer e os cuidados visam fazer
com que essas mulheres se entreguem mais
completamente, pois, quando se vendem, ven-
dem apenas o corpo; sua vontade fica de fora.
E esta que se procura conquistar, e com razão,
mas isso só se consegue mediante gentileza.
A idéia de possuir um corpo sem afeição
horroriza-me. Parece-me um ato absurdo de
superexcitação, como o daquele rapaz que se
masturbava por amor à estátua de Vênus
esculpida por Praxiteles. Ou o daquele egípcio
louco conspurcando o cadáver de uma morta
que lhe cumpria embalsamar, o que deu ori-
gem a uma lei determinando que os corpos das
mulheres jovens e belas ou de boa família só
fossem entregues ao artesão três dias depois do
falecimento.
Periandro fez coisa mais espantosa ainda:
continuou a coabitar com sua esposa Melissa,
mesmo depois de morta, e a gozar-lhe o corpo.
E não obedeceu a Lua a uma idéia realmente
lunática quando manteve Endimião 'adorme-
cido durante três dias,.a fim de possui-lo e dele
arrancar um prazer que ele só podia dar em
sonho? Pois digo, da mesma forma, que ama-
mos um corpo sem alma quando o amamos
sem que nos deseje e o queira. Nem todos os
prazeres são iguais; há-os também doentios er
frágeis. Mil motivos, fora da vontade, podem
levar uma mulher a entregar-se; a coisa não é,
em si, uma prova de afeição. Como em tudo,
nisso pode haver uma segunda intenção. E por
vézes ela se contenta com deixar fazer: “tão
impassível como se preparasse o vinho e o
incenso do culto (...), dir-se-ia que está
ausente ou é de mármore!'*2?. Conheço algu-
mas que preferem emprestar sua pessoa do que
sua carruagem; e é, não raro, tudo o que são
capazes de emprestar. Cabe ainda verificar por
que lhes agrada a nossa companhia, se alguma
razão especial as inspira, ou se nos querem
como quereriam um vigoroso lacaio. E há tam-
bém que considerar o preço que devemos
pagar pelo favor, “se se dá à nós unicamente e
se assinala esse dia com uma pedra bran-
ca!13º?: ou se condimenta o nosso pão com
tempero de sua imaginação: “A nós é que
aperta nos braços, mas por outro é que suspi-
ral? * Já não se viu alguém valer-se desse ato
112 Id.
113 Tíbulo.
114 Td.
MONTAIGNE
para a execução de terrível vingança, envene-
nando uma mulher honesta a fim de que de sua
posse decorresse a morte do inimigo? Pois isso
aconteceu.
Os que conhecem a Itália não estranharão
que a esse respeito eu me atenha a seus exem-
plos. Nesse país as mulheres belas são mais
comuns, e há menos feias do que no nosso,
mas creio que não lhe ficamos atrás no que
concerne às belezas excepcionais. O mesmo
ocorre com as pessoas de espírito: abundam na
Itália e menor é aí o número de tolos; mas em
matéria de almas de elite nada lhe ficamos a
dever. Se quisesse estender o paralelo a outras
coisas, diria que quanto à valentia a situação
se inverte. Em relação à deles, essa virtude é
como que natural em nós e se encontra em
todas as classes da sociedade, mas neles é ela
por vezes tão elevada que 'sobreexcede em
abnegação e vigor o que temos de mais
perfeito.
O casamento nesse país está subordinado a
tão severos: costumes e a mulher é tão escrava,
que a menor relação com um estranho se asse-
melha aos atos mais graves; daí resulta que
elas não se detenham nunca êm caminho. A
escolha é inevitável, desde que tudo acarreta
idênticas consequências. O primeiro passo
basta para levar ao fim. “A luxúria é um ani-
fnal feroz que encadeado se irrita e se mostra
mais furioso ainda ao libertar-se! 15.” É preci-
so afrouxar-lhe um pouco as rédeas: “Vi outro-
ra um cavalo rebelde ao freio, e, tomando-o
nos dentes, lançar-se como um raio!!8.” Com
um pouco de liberdade; torna-se menos exaspe-
rado o desejo de companhia. Assim, correm os
italianos, com sua severidade, um risco igual
ao que corremos com nossa licença. E um cos-
tume feliz em nossa terra, esse de as grandes
casas receberem nossos filhos para os educar
como pajens numa verdadeira escola de nobre-
za; recusar a oferta de um fidalgo nesse senti-
do, chega a ser um ato descortês. Observei
igualmente (cada casa tem seu uso) que as
senhoras que pretenderam impor certa austeri-
dade às damas de seu séquito, não auferiram
bons resultados do esforço; é necessário, nisso,
muita moderação, e confiar na discrição de
cada uma, pois nenhuma regra disciplinar
pode amarrá-las inteiramente. E evidente que
deve inspirar maior confiança quem passa
incólume pela prova da liberdade do que quem
anda direito porque sai de uma escola em que
é prisioneira e severamente vigiada.
Nossos pais educavam as filhas no temor
da vergonha (não tinham menos desejo nem
115 Tito Lívio.
116 Ovídio.
ENSAIOS — II
menos coragem, coisas que são invariáveis
nelas); nós lhes ensinamos a ter segurança. É
um erro. Nossos métodos conviriam às sárma-
tas que só podiam dormir com um homem de-
pois de matar outro com as próprias mãos. Eu
que não mais as ambiciono e que só lhes posso
dar atenções, limito-me a aconselhá-las, quan-
do o solicitam. Prego-lhes pois a abstinência,
como aos homens; e se o século é por demais
inimigo da castidade, que, ao menos, ajam
com discrição e modéstia. Porque, como dizia
Aristipo a um dos jovens que se envergonhava
de tê-lo visto entrar numa casa de prostituição:
“o mal não está em entrar, € sim em não sair”.
Que quem não se esforça por salvar a cons-
ciência, salve ao menos a reputação; se o
fundo pouco vale, preserve-se a aparência.
Acho louvável que na distribuição de seus
favores observem certa gradação e não se
apressem. Platão quer que em qualquer gênero
de amor a facilidade e a rapidez sejam proibi-
das aos interessados. Ceder impudente e preci-
pitadamente em tudo a um tempo, é sinal de
uma gulodice de sua parte que devem assinalar
com cuidado; ao contrário, cedendo com cons-
ciência e medida, perturbam nossos desejos e
escondem os seus. Que fujam sempre, mesmo
as que desejam ser alcançadas; como os citas,
assegurarão melhor a vitória com a fuga. De
acordo com o que impõe a natureza, não lhes
cabe propriamente querer e desejar; seu papel
é aceitar, obedecer, submeter-se. Por isso é que
a natureza lhes deu a possibilidade de entrar
em relações conosco a qualquer momento, e a
nós só nos outorgou a faculdade de fazê-lo
raramente. Estão sempre prontas para isso, a
fim de o estarem quando chega a hora.
“Nasceram para ser passivas”, diz Sêneca, e
enquanto nossos apetites se manifestam de
maneira saliente, os delas permanecem ocul-
tos. Seus órgãos não permitem que seus dese-
Jos se revelem, mas sim que acatem. As ama-
zonas cumpre atribuir fatos como esse que
ocorreu com a rainha de Hircânia. Deixando
nas montanhas o resto de um exército conside-
rável, veio ela com mais trezentas guerreiras,
bem montadas e armadas, ao encontro do
conquistador. E, dirigindo-se a ele, disse-lhe
diante de todos os presentes que o eco de sua
vitória e de seu valor fizera com que ela viesse,
a fim de pôr à sua disposição, na consecução
de seus projetos, os recursos e poderes pró-
prios; disse-lhe ainda que o achava tão belo,
jovem e vigoroso, que, ela mesma bela e vigo-
rosa, desejava que dormissem juntos. Assim se
uniriam o homem e a mulher mais admiráveis
do mundo e deles nasceria algum rebento
igualmente admirável. Alexandre agradeceu-
lhe e, a fim de ter tempo para aceder aos dese-
407
Jos expressos, sustou a marcha de suas torças
durante treze dias, os quais passou a festejar
alegremente com a corajosa princesa.
Julgamos em geral muito mal as suas ações,
como elas também julgam as nossas. Reconhe-
ço-o, confessando a verdade, seja-me ou não
favorável. Uma feia inconstância leva-as a
mudarem tão amiudadamente e a nunca fixa-
rem sua afeição em coisa alguma; assim a
Deusa a quem atribuem tantos amantes. É ver-
dade que se o amor não é violento, não é amor
e que a violência e a constância não andam
juntas. Que os que estranham tal inconstância
e procuram a causa dessa doença a que elas
são sujeitas, tachando-as de desnaturadas,
atentem para si próprios e vejam quantos so-
frem da mesma enfermidade sem que, no
entanto, a coisa os horrorize ou os leve a falar
em milagre. Muito mais espantoso fora se elas
tivessem constância, pois essa paixão do amor
não é apenas física. E se não há limites para a
avareza e a ambição, tampouco os há para a
luxúria. Esta sobrevive à satisfação e não se
pode determinar que tenha um mesmo objeto
sempre e um fim previsível. Prossegue sem ces-
sar em sua marcha, estendendo seu domínio.
Será possivelmente a inconstância mais per-
doável nelas do que em nós; como nós, elas
podem invocar a tendência para a novidade e a
mudança, mas podem alegar, a mais (o que
não podemos fazer), que compram nabos em
sacos, isto é, sem terem sido suficientemente
instruídas. Joana, rainha de Nápoles, mandou
estrangular. Andreosso, seu primeiro marido,
com um cordel de ouro e prata por ela mesma
tecido, porque não o achara provido de vigor
bastante para os deveres conjugais, o que a
desiludira, dada a estatura, a beleza, a juven-
tude que ele aparentava e a haviam seduzido.
Ademais, exigindo o papel ativo maiores esfor-
ços do que o passivo, a mulher está sempre em
estado de desempenhar o seu, ao passo que
pode ocorrer-nos o contrário. Por isso mesmo,
estabelece Platão em suas leis que antes do
casamento, e a fim de decidir de sua oportuni-
dade, examinem os juízes os rapazes e as rapa-
rigas, aqueles da cabeça aos pés e estas até a
cintura somente. Pode acontecer que, após a
experiência, não nos ache a mulher dignos de
sua escolha, “que após haver empregado em
vão toda a sua habilidade, ela abandone o leito
conjugal!!7”. Não basta a vontade para for-
mar um direito; a fraqueza e a incapacidade
são causas legítimas de anulação de casamen-
to. “Cumpre éntão buscar alhures um esposo
mais apto a desfazer a cintura virginal'18,”
Por que não? Por que não arranjaria outro
17 Marcial.
118 Catulo.
408 MONTAIGNE
com uma compreensão mais eficiente do amor,
visto que o escolhido “não pode levar a cabo
tão, doce tarefa! 19?
Não vos parece impudente apresentar-se
alguém com suas imperfeições e fraquezas a
quem deseja agradar, dar boa impressão de si e
ser apreciado? Pelo pouco de que sou hoje
capaz não importunaria alguém de quem gos-
tasse e.que não quisesse ofender: “Já não tenho
forças! 2º. “Não há que temer de quem com-
pletou onze lustros!21.”' Não basta a natureza
ter tornado essa idade tão miserável, queremos
aindá que. se revele ridícula! Por isso odeio
verificar que, por causa de uns pobres restos de
vigor ainda capazes de nos entusiasmar de
quando em quando, nós nos agitamos coma se
estivéssemos à altura de atender brilhante e
plenamente aos mais legítimos desejos. Trata-
se em verdade de um fogo de palha e espanta-
me ver como nos excita e aquece quando, no
fundo, nos achamos tão totalmente apagados e
gelados. A gente só deve encontrar-se em tal
estado na flor da idade. Desconfiai, portanto,
pois vereis que, em vez de secundar vosso
generoso entusiasmo, o quai não se extingue e
sempre se imagina capaz de tudo alcançar, vos
largará no caminho.
Que o tente em vosso lugar algum jovem
ignorante, ainda na ídade das correções e da
timidez: “como um marfim da Índia tingido de
vermelho, ou como lírios que em meio às rosas
lhes refletem as cores vivas!'?2”. Quem pode,
sem morrer de vergonha, pensar no desprezo
com que o contemplarão no dia seguinte os
belos olhos testemunhas de sua covardia e
impertinência, “que lhe censurarão com seu
silêncio mesmo!23?, nunca sentiu a satisfação
de vê-los pisados e apagados pela fadiga de
uma noite ativamente vivida. Nunca atribuí à
mulher e à sua indiferença o fato de se ter
algum dia aborrecido com minhas carícias; a
princípio pensei que devesse acusar a natureza,
pois deve ter-me tratado com parcialidade e de
maneira pouco amável: “Foi comigo avaren-
ta: “E por certo tinham razão as mulheres de
desprezar tão magras aparências!2 *.” Lamen-
tável imperfeição, pois cada uma de minhas
peças é igualmente minha e nenhuma mais do
que essa me torna mais essencialmente
homem.
Devo ao público um retrato realista de mim.
118 Virgílio.
'20 Horacio.
121 Td.
122 Virgílio.
123 Ovídio.
12º Priápicas — citações colhidas em dois trechos
diversos.
Estes ensaios são edificantes porque a verdade,
a realidade £g a liberdade neles reinam. Recu-
so-me a trocar um dever real por essas regras
mesquinhas, hipócritas, fictícias e de uso res-
trito. Atenho-me as leis gerais e constantes que
a natureza nos dita e de que são filhas, mas fi-
lhas bastardas, a civilidade e as convenções
sociais. Que importam os vícios que parece-
mos ter, ao lado dos que realmente temos?
Quando houvermos acabado com estes, ataca-
remos os outros se acharmos necessário. Pois
corremos perigo em imaginar novos deveres a
fim de desculpar-nos por não termos cumprido
os verdadeiros, estabelecendo a confusão.
Assim acontece, como em certos países, serem
OS Crimes erros e os erros crimes; e em outras
nações, em que as regras da boa educação são
poucas e sem consegiiência, o bom-senso faz
que se observem mais estritamente as leis natu-
rais. A multidão inumerável dos deveres exige
tal atenção, que chegamos a negligenciá-los e
olvidá-los. Um excesso de aplicação às coisas
de nonada desvia-nos das importantes. Fácil é
o caminho desses homens que vêem as coisas
superficialmente! Todas essas convenções não
passam de pára-ventos atrás dos quais nos
confiamos e regulamos nossas relações so-
ciais; mas não nos permitem libertar-nos, antes
aurtentam nossos deveres para com o grande
Juiz que, afastando trapos e ouropéis, nos exa-
mina em nossa nudez total, pois não lhe esca-
pam nem mesmo as nossas vergonhas e os nos-
sos vícios mais secretos. Se ao menos .nossa
pretensa decência pudesse obviar tal desco-
dberta! Por isso, quem despojasse o homem de
tão escrupulosa superstição verbal não causa-
ria grande prejuízo ao mundo. Nossa vida é
em parte loucura e em parte prudência. Quem
só se refere ao que se considera decente e
respeitável, deixa metade de lado. Não o digo
para desculpar-me; se devesse desculpar-me de
alguma coisa, seria de minhas desculpas e não
dos meus erros; são explicações que dou aos
de opinião contrária à minha e que constituem
a maioria. E como desejo contentar todo
mundo, o que é na realidade impossível, direi
que “não há homem capaz de se conformar
com tão grande variedade de costumes, juízos
e desejos'25?. Acrescentarei que não devem
censurar-me por apelar para autores respei-
tados há séculos, nem devem negar-me o direi-
to a certas liberdades que se admitem mesmo
em eclesiásticos e dos mais notáveis de nossos
tempos. Eis a prova, em dois deles: “Que eu
morra se não é verdade que sejas fonie de volú-
pia!26.” “Um amigo a contenta e é sempre
bem recebido!27.”
125 Cícero.
126 “Teodoro de Bêze.
127 Saint Gelais.
ENSAIOS — HI
Apraz-me a decência e não é de caso pensa-
do que, escrevendo, emprego expressões escan-
dalosas; escolhe-as a natureza. Não aprovo
essa maneira de fazer, como nada aprovo con-
tra os usos estabelecidos; desculpo-a porém e
considero que dadas circunstâncias, tanto ge-
rais como particulares, lhe atenuam a gravida-
de. Continuemos. Qual a causa dessa usurpa-
ção de autoridade soberana sobre as mulheres
que correm o risco de conceder “seus favores
furtivos nas sombras da noite'28”72 Por que
nos acreditamos desde logo no direito de nos
imiscuir em sua vida como um marido? Na
realidade, trata-se de um acordo estabelecido
entre a mulher e o homem e que não lhes tolhe
a liberdade; e as convenções voluntárias não
admitem imposições. Embora minha tese con-
trarie a tendência habitual, em meu tempo
observei (dentro das limitações naturais) a
orientação que defendo e agi com alguma justi-
ça e conscienciosamente nas questões dessa
ordem. Só disse de minha afeição às mulheres,
na medida em que realmente a senti, e com
inteira franqueza mostrei o nascimento, o apo-
geu e a decadência da inclinação, bem como
meus entusiasmos e desinteresses, pois nem
sempre estamos bem dispostos. A tal ponto
evitei desmandar-me em promessas, que sem
dúvida cumpri muito mais do que prometi e
mesmo do que devia. Fui-lhes fiel mesmo em
suas infidelidades confessadas e aliás numero-
sas. Nunca rompi com elas enquanto lhes dedi-
quei alguma ternura, por insignificante que
fosse. E jamais me separei delas com rancor ou
desprezo, embora pudesse ter razões para
tanto, pois sempre considerei que tais intimida-
des, ainda que alcançadas à custa de combina-
ções vergonhosas, merecem alguma gratidão
de nossa parte. Aconteceu-me por vezes
encolerizar-me e impacientar-me com suas
malícias, seus subterfúgios, e tambem nas
discussões que se verificavam, porque por
temperamento sou levado a manifestar-me
com violência e a perder a calma. Quando por-
ventura tentaram influir no meu julgamento,
não hesitei em dirigir-lhes admoestações pater-
nais e mordazes, não poupando seu ponto
fraco. Se lhes dei motivo de queixa foi talvez
por as ter amado de uma maneira incomum,
possivelmente tola porque demasiado cons-
cienciosa para o nosso tempo. Cumpri minha
palavra em coisas em que talvez o dispensas-
sem; algumas se renderam, quando sua reputa-
ção ainda estava intata, em condições que sem
maiores dificuldades teriam admitido que o
vencedor olvidasse. Mais de uma vez, em prol
de sua honra, ocorreu-me renunciar ao prazer
128 Catulo.
409
no momento em que fora maior. E, sempre que
o julguei certo, armei-as até contra mim
mesmo de modo que, seguindo-me, se acharam
assim mais protegidas do que se houvessem
obedecido a suas inspirações próprias. Quanto
possivel assumi sozinho os riscos de nossos
encontros, e arranjei as coisas indicadas para
afastar quaisquer suspeitas. O que menos se
teme é o que menos se vigia, e é mais indicado
portanto tentar o que, pela sua dificuldade,
ninguém espera seja tentado. Ninguém mais do
que eu evitou a concepção'2º. Tal correção
parece ridícula em nossa época e é pouco
observada, bem o sei. Não me arrependo entre-
tanto de ter agido assim, embora só perdesse
com isso. “Hoje, o quadro votivo suspenso aos
muros do templo de Netuno, a todos revela
que sacrifiquei a esse deus minhas roupas
ainda molhadas no naufrágio'2º,” Em outras
palavras, após inúmeros contratempos liber-
tei-me dessa paixão perigosa e posso falar
abertamente. A qualquer outra pessoa que
assim se exprimisse talvez eu respondesse:
estás sonhando, amigo; o amor em teus bons
tempos não obedecia a tamanha lealdade é
boa-fé; “se queres submetê-lo a regras, tens
sem dúvida a pretensão de unir a loucura à
razão!31?. Nem por isso; se devesse recome-
çar, deixaria de conduzir-me como me condu-
zi, seguindo a mesma marcha, embora o resul-
tado não tenha sido muito recompensador. A
ineficiência e a tolice são louváveis quando se
pratica uma ação pouco recomendável. Nisso,
muito me afasto da opinião comum. Demais,
nessas questões não me entregava completa-
mente. Buscava O prazer, mas nao me esque-
cia; conservava intato, no interesse da compa-
nheira momentânea como no meu próprio, o
pouco de razão € discernimento que a natureza
me outorgou. Comovia-me, mas não me perdia
em sonhos. Minha consciência podia adaptar-
se à devassidão e ao desregramento, nunca à
ingratidão, à traição, à maldade, à crueldade.
Não pagava qualquer preço peio prazer que O
vício vende, contentava-me simplesmente com
suportar as consequências necessárias, pois,
como diz Sêneca, “todos os vícios acarretam
conseguências”. Detesto igualmente uma ocio-
sidade entorpecente, sonolenta e uma atividade
árdua e penosa; agita-me esta, embrutece-me
aquela. Tanto me desagradam os ferimentos
como as machucaduras, € tanto os golpes que
129 O sentido desta frase: “nunca homem nenhum
teve relações mais impertinentemente genitais”, é
esclarecido por uma rasura do manuscrito original,
mencionada por Thibaudet, na edição de La Pléia-
de. (N. do T.)
130 Horácio.
131 Terêncio.
410
penetram como os que não ferem. Assim con-
segui, néssas questões, um justo equilíbrio
entre os extremos. O amor é uma agitação viva
e alegre; não me perturbava nem afligia; ani-
mava-me tão-somenté e eu sabia poupar mi-
nhas forças. Cumpre fazê-lo, pois é nocivo aos
loucos. Um jovem perguntava ao filósofo
Panécio se O sábio deve amar. Respondeu-lhe
Panécio: “Deixemios o sábio de lado, não
somos sábios, nem eu nem tu, e não nos
comprometamos em coisa que tão violenta-
mente comove"à ponto de nos tornar escravos
de outrem e desprezíveis a nossos próprios
olhos.” Tinha razão e não devemos em verda-
de comprometer à alma' em questão de tão gra-
ves consequências, a menos'de estar à-altura
de desmentir a afirmação de Agesilau: “O
amor e a sabedoria não andará juntos”. É por
certo o amor uma ocupação frivola, chocante,
vergonhosa, ilegítima; mas, conduzida como o
recomendo, passa a ser útil à saúde, capaz de
desentorpecer o espírito e o corpo. E, se fosse
médico, aconselharia-o, como terapêutica, a
um homem de meu temperamento e condição,
-a fim de despertar-lhe as forças e o manter em
forma, retardando os efeitos dos anos. En-
quanto não nos aproximamos demasiado da
velhice, enquanto nosso pulso bate ainda,
“enquanto surgem apenas os primeiros cabelos
brancos e os primeiros sinais da idade,
enquanto a Parca ainda tem com que tecer,
enquanto nos resta a possibilidade de mover os
membros e um bastão não nos é ainda
indispensável'32?, temos necessidade de ser
solicitados por essa sensação que nos agita e
estimula. Vede como o amor rejuvenesceu,
revigorou e alegrou o sábio Anacreonte! E
dizia Sócrates, em idade mais avançada do que
a minha, de uma pessoa pela qual concebia
esse sentimento: “Com os ombros apoiados
um no outro, como se olhássemos juntos um
livro, senti repentinamente uma picada, como
de um inseto, e essa impressão de formiga-
mento persistiu durante cinco dias comunican-
do-se ao meu coração.” Assim um contato for-
tuito bastava para aquecer e perturbar uma
alma já amortecida pela idade e que mais se
aproximava da perfeição ! E por que não? Só-
crates era homem e não desejava ser nem pare-
cer outra coisa.
A filosofia não se opõe aos prazeres natu-
rais, conquanto não se abuse deles. Reco-
menda a moderação e não a fuga. E seus esfor-
ços visam desviar-nos dos que não são
naturais ou que, embora vindos da natureza, se
deturparam. Diz que o espírito não deve inter-
vir com o fim de aumentar nossas necessidades
132 Juvenal.
MONTAIGNE
fisicas, adverte-nos com razão da inconve-
niência de excitar nossa fome: com EXCESSOS,
aconselha-nos a não nos empanturrarmos em
lugar dé hos alimentarmos, bem como a evitar-
mos tudo q que desperte nossos apetites. No
que concerne ao amor, convida-nos a somente
satisfazermos as solicitações da carne, sem que
a alma. se perturbe, «porque a coisa não lhe diz
respeito ê lhe cumpre apenas assistir o corpo.
Creio portanto estar certo quando observo que
esses preceitos (que considero entretanto algo
excessivos) visam a um corpo em estado de
desempenhar seu papel. Quanto a um corpo
debilitado, parece-me inútil tentar aquecê-lo e
animá-lo mediante processos artificiais, ou
recorrendo à imaginação a fim de lhe devolver
o apetite e a alegria que Já não possui.
Podemos dizer que enquanto permanecemos
nesta: prisão terrestre nada nos afeta exclusiva-
mente a alma ou o corpo; que com uma tal dis-
tinção desmembramos o homem em vida; e
que é tão normal sentirmos o prazer quanto o
sofrimento. Assim, por exemplo, graças ao
espírito de penitência que os dominava, a dor
causada pelos pecados era sentida pelos santos
com uma intensidade que os levava à perfei-
ção; e em virtude da íntima união existente
entre a alma e o corpo, o sofrimento atingia
também este, embora não estivesse direta-
mente ligado à causa mesma do tormento:Mas
os santos não se contentavam com o fato de o
corpo acompanhar a alma nas suas desgraças,
infligiam-lhe ainda torturas atrozes, a fim de
que ambos os mergulhassem em um estado de
sofrimento que julgavam tanto mais salutar
quanto mais agudo.
Não haverá injustiça, no caso dos prazeres
sensuais, em fazer com que a alma se alheie ou
deles participe como que por obrigação? A
meu ver cabe-lhe, ao contrário, buscar e
fomentar esses prazeres, e orientá-los; como
também lhe compete, quando se trata de praze-
res que lhe são peculiares, comunicá-los ao
corpo e esforçar-se por que lhe sejam agradá-
veis e úteis. Pois se é razoável dizer que o
corpo não deve procurar sua satisfação em
detrimento da alma, tampouco seria justifi-
cável que esta se deleitasse com prejuízo
daquele.
Nenhuma outra paixão poderia excitar;me
agora. Outros buscam seu prazer na avareza,
na ambição, nas demandas & disputas. A mim,
só o amor me interessaria. Devolver-me-i -ia (o)
cuidado com minha pessoa, a vigilância, a
jovialidade; faria com que os tristes sestros da
velhice não me desfigurassem; e sem dúvida
me induziria a estudos úteis e louváveis que me
tornariam mais querido; libertaria meu espírito
do desespero e da falta de confiança em seus
ENSAIOS — HI
meios; afastar-me-ia de mil pensamentos abor-
recidos, detmil melancólicos desgostos que a
ociosidade e'á falta de saúde provocam; e, pelo
menos em sonho, aqueceria este sangue que a
natureza começa a abandonar, sustentaria esta
cabeça que se inclina, distenderia estes nervos
e outorgaria um pouco de vigor e alegria de
viver a este pobre homem que caminha a gran-
des passos para a ruína. Compreendo porém
muito bem quê o amor não se recupera; pór
fraqueza e experiência nosso gosto 'Sé' faz mais
exigente e requintado; e tanto mais “queremos.
selecionar quanto menos possibilidades" temos
de ser aceitos. Reconhecendo nossos próprios
defeitos, tornamo-nos mais desconfiados é ti”
midos. Nadá pode assegurar-nos que sejamos
amados, dadas as condições em que nos acha-
mos €é as da juventude entusiasta e viva, “que
exibe um membro incansável e mais rígido do
que a árvore plantada na colina!3 3? - Envergo-
nho-me, mesmo; “de sua companhia, pois nada
tenho a mostrár-lhe senão a minha miséria.
“Para que a alegre mocidade contemple com
gargalhadas a tocha a derreter-se! 34 .?
Os jovens têm a força e a razão, cumpre-nos
ceder-lhes o lugar que não mais podemos ocu-
par; esses brotos de beleza não devem ser
manuseados por mãos calejadas e cansadas; e
o emprego de meios materiais não pode mais
bastar-lhes, como bem o disse certo filósofo
antigo de quem zombavam por não ter conse-
guido conciliar as boas graças da jovem que
cortejava assiduamente: “Meus amigos, queijo
tão fresco não se prende ao anzol.” O comér-
cio amoroso exige equilíbrio e correspon-
dência. Podemos pagar os outros prazeres com
recompensas de diversos tipos, mas este só.
com a mesma moeda. Na realidade o prazer
que damos é-nos mais doce, intenso e generoso
do que o que recebemos. Tudo dever, e
comprazer-se em manter relações com seu cre-
dor, é característico de uma alma vil. E não há
beleza, graça, intimidade que um homem de
bem possa ambicionar em tais condições. Se as
mulheres só nos podem oferecer seus encantos
por piedade, prefiro ainda não os ter, a viver de
esmolas. Gostaria de solicitar seus favores nos
termos que vi empregados na Itália pelos que
angariam donativos: “Fazei-me algum bem
por vós mesmos.” Ou como Ciro exortando
seus soldados: “Siga-me quem se ame a si pró-
prio.” Aconselhar-me-ão a voltar-me para as
mulheres que estejam em condições iguais às
minhas. Lindo resultado! “Não quero arran-
car o pêlo de um leão morto! 35.”
Xenofonte acusava Mênon de procurar o
133 Horácio.
i34 Horácio.
135 Marcial.
411
amor de mulheres que haviam ultrapassado a
idade de amar. Pois eu acho mais voluptuoso
simplesmente contemplar um casal de Jovens
amorosos do | que participar de uma união
lamentável e monótona. Deixo esta solução ao
Imperador Galbã,: ao qual só apeteciam as
mulheres velhas é” 'enrijecidas; ou aquele infeliz
poeta que exclamava, referindo-se a si mesmo:
“Oxalá em meu êxílio possa ver e beijar nova-
mente teus cabelos brancos e abraçar teu
magro corpo !38 .?
No primeiro plano da feiúra coloco as bele-
zas artificiais. Emones, jovem adolescente de
Quio, imaginou que, em se adornando, con-
quistaria a beleza que a natureza lhe recusará.
Encontrando o filósofo Arcesilau, perguntou:
lhe se um sábio podia enamorar-se. “Sim, res
pondeu o interrogado, desde que não se trate
de uma beleza falsificada como a tua.” A feiú-
ra de uma velhice não dissimulada é menos
desagradável do que se escondida sob arrebi-
ques e pomadas. Em suma, diria de bom grado
que o amor só me parece natural na idade mais
próxima da infância. Mas que não se tome a
Ga ao pé da letra. E o mesmo digo da bele-
a: “quando um jovem de cabelos ao vento
Dede entre um grupo de raparigas, iludir, acer-
ca de seu próprio sexo, os olhos mais perspica-
zes!37 Homero acha que ela só dura até sur-
girem os primeiros fios de barba e Platão
sustenta que não vai tão longe. Por isso o
sofista Bion chamava o buço dos jovens de
“Aristogitones” e “Harmodianos'38”. Já na
idade madura estã a beleza deslocada, e não há
como referir-se à velhice. “O amor voa longe
dos carvalhos desfolhados!3 9.”
Margarida de Navarra, como mulher, pro-
cura avantajar-se às pessoas de seu sexo e no
entanto afirma que a partir dos trinta uma mu-
lher deixa de ser bela para ser boa. Quanto
menos esse deus reinar sobre nossa vida me-
lhor será! A beleza tem um semblante infantil
e na sua escola, ao contrário do que acontece
geralmente, estudos e exercícios conduzem à
ignorância, isto é, os discípulos é que são mes-
tres: “O amor não conhece regras! “º.” Não hã
dúvida que a beleza sobretudo seduz quando a
ela se juntam a inocência e a timidez; defeitos
e erros dão-lhe graça e sal; e conquanto seja
ardorosa e sedenta pouco importa se: mostre
imprudente, mesmo porque nunca parece mais
radiosa do que quando se exibe loucamente.
136 Ovídio.
137 Horácio.
138 Porque matavam o amor, como Aristogiton
e Harmódio tinham acabado com o poder do
Tirano.
138 Horácio.
140 São Jerônimo.
412
Dar-lhe uma orientação sensata é violentar-lhe
a divina liberdade.
Por um lado, vejo amiúde as mulheres faze-
rem do amor um problema espiritual despre-
zando a satisfação dos sentidos. Mas quantas
vezes, por outro lado, tenho visto a beleza do
corpo levá-las a desculpar a fraqueza do espíri-
to! O que nunca vi ainda foi um espírito, por
brilhante que fosse, induzi-las a acolher com
simpatia um corpo decadente. Haverá alguma
delas capaz de (como queria Sócrates) trocar o
corpo pelo espirito e comprar com os seus
encantos uma cultura filosófica e moral? Seria
no entanto o maior preço que poderiam alcan-
çar. Determina Platão em suas leis que quem
tenha realizado alguma façanha de grande uti-
lidade na guerra, adquira o direito de, durante
toda a campanha, e qualquer que seja a sua
idade e feiúra, exigir como recompensa os bei-
jos e os favores de quem quiser. O que esse
filósofo considera justo prêmio ao valor mili-
tar deveria aplicar-se a outros valores igual-
mente. Não haverá nenhum que aquele se
substitua no gozo desse amor casto? E digo
casto porque “se nos ocorre travar a batalha,
não passa de um fogo de palha em que a
MONTAIGNE
chama não tem força, nem o furor dá
fruto! *1?, Em verdade os vícios que se sufo-
cam no pensamento não são os piores.
Para acabar com este comentário prolixo
que deu azo a um fluxo de palavras pouco
comedidas e por vezes inconvenientes: “assim
cai do seio virgem a maçã, presente furtivo do
bem-amado. Esquecendo que o escondera sob
o vestido, ergue-se ao ver aproximar-se a mãe e
o fruto rola a seus pés. Eis que de. rosa se tinge
o seu rosto revelando a falta cometida! “2”;
para acabar, portanto, com este comentário,
direi que machos e fêmeas saem de um mesmo
molde e que, salvo pela aducação e os costu-
mes, em bem pouca coisa diferem. Platão dá-
lhes em sua República os mesmos direitos e
deveres, na guerra como na paz. E o filósofo
Antístenes não estabelecia distinção entre a
-
virtude dos homens e a das mulheres. E bem
mais difícil acusar um sexo do que desculpar o
outro. Atente-se para o ditado: o roto ri-se do
esfarrapado.
141 Virgílio.
142 Catulo.
CapíTULO VI
Dos coches
É fácil verificar que os grandes autores, ao
tratar das causas de tais ou quais fatos, não se
referem apenas às que acreditam serem verda-
deiras, mas também às que não imaginam jus-
tas, conquanto comportem alguma beleza e
invenção. Dir-se-ia que pensam expressar-se de
maneira útil e certa desde que se expressem
com talento. Não podendo estar seguros da
causa principal, enumeram umas tantas ou-
tras, na esperança de que se encontre por
acaso entre elas: “Não basta indicar uma
causa; é preciso apontar muitas, embora só
uma seja a boa! 4 3.º
Quereis saber de onde vem o hábito de aben-
çoar os que espirram? Produzimos três espé-
cies de ventos:.o que sai por baixo é demasiado
sujo; o que sai da boca recende a comilança; o
terceiro é o espirro, e como vem da cabeça e
não se presta a henhuma crítica nós o acolhe-
1343 Lucrécio.
mos bem. Não zombeis da sutileza, pois é,
dizem, da autoria de Aristóteles.
Parece-me ter lido em Plutarco (que é entre
os autores dê minha predileção o que melhor
une a arte à natureza e a razão à ciência) que a
causa da revolta do estômago, comum em
quem viaja por mar, está no medo; e explica
como o medo pode provocar tais efeitos. Eu
que sou muito sujeito a esse tipo de enjdo bem
sei que uma tal causa não diz respeito ao meu
caso, e o sei por experiência mais do qué pelo
raciocínio.
E sem ir buscar provas contrárias à opinião
de Plutarco nos animais, e em particular nos
porcos, que a apreensão do perigo não| per-
turba e no entanto enjoam, direi o caso de um
meu amigo que, sujeito igualmente a esse mal,
perdeu a vontade de vomitar sempre que se viu
tomado de pavor durante alguma tempestade
o que lhe ocorreu duas ou três vezes. E poderia
também citar Sêneca: “estava doente demais
ENSAIOS— II 413
para pensar no perigo”. Nunca tive, sobre as
águas ou alhures, um ternor que me pertur-
basse a ponto de perder a cabeça, e no entanto
corri muitos riscos em que o medo se justifica-
ria, se é que se justifica quando só a morte há
que se prever. O medo tanto pode nascer da
falta de inteligência como da falta de coragem;
todos os perigos que enfrentei, enfrentei-os de
olhos abertos; de resto acho que, mesmo para
ter medo, é preciso alguma coragem. E o medo
serviu-me às vezes para ordenar a fuga, e
assim safar-me de uma situação dificil, já não
digo sem temor, porém sem pavor. Senti-me
então comovido, mas não atordoado e desespe-
rado
Os grandes espíritos vão mais longe e dão-
nos exemplos não somente de retiradas serenas
e coroadas de êxito, mas ainda executadas alti-
vamente. Eis a propósito o que nos conta Alce-
bíades, a respeito de Sócrates, de quem na
circunstância em questão era companheiro de
armas: “Encontrei-os, Lachez e ele, após a der-
rota de nosso exército na retaguarda das tro-
pas. Observei-o à vontade e sem nada temer
por mim porque possuía um cavalo e ele ia a
pé. Aliás assim andara durante todo o comba-
te. Verifiquei desde logo quanto era prudente e
resoluto em comparação com Lachez, bem
como a atitude que mantinha, em nada dife-
rente de sua maneira habitual. Conservara sua
firmeza e lucidez; observava, e via tudo o que
ocorria ao redor dele, olhando ora para uns
ora para outros, amigos € inimigos. E com o
mesmo olhar a uns animava e a outros
demonstrava estar disposto a vender caro a
vida. E isso o salvou, pois não se ataca quem
revela tal disposição, ao passo que se corre
atrás de quem é empurrado pelo medo.” Tal é
o testemunho desse grande capitão e ele nos
prova o que constatamos diariamente, a saber
que nada nos expõe mais ao perigo do que o
exagerado desejo de evitá-lo. “Quanto menos
medo se tem, tanto menos perigo se corre! * 4.”
E erra o povo quando diz “fulano teme a
morte” para significar que nela pensa ou a
prevê. A previdência tanto diz respeito ao bem
possível como ao mal; ponderar o perigo é, até
certo ponto, o contrário de temê-lo.
Não me sinto bastante forte para resistir a
essa violenta sacudidela do medo, ou a qual-
quer outra paixão veemente; se algum dia a
sentisse estaria perdido e nunca mais me recu-
peraria. Se alguém fizesse com que minha
alma perdesse pé, não tornaria ela a firmar-se,
por mais euidadosa e profundamente que se
analisasse. Não conseguiria cicatrizar a ferida.
Por felicidade, até agora nenhuma enfermidade
144 “Tito Lívio.
a atingiu gravemente; a cada assalto opus até
hoje boa e decidida resistência, mas a primeira
que a abalar, deixar-me-á sem recursos para
continuar a luta. Não sou capaz de renovar um
esforço e se por algum lado o dique se rompe,
eis-me desamparado e afogado irremissivel-
mente. Diz Epicuro que o sábio não pode
nunca chegar a um estado de alma contrário à
seus princípios. Inclino-me a aplicar a máxima
em sentido inverso e penso que quem uma vez
foi louco jamais tornará a ser sábio.
Deus dá o frio segundo a roupa e a mim as
paixões de acordo com as minhas possibili-
dades de resistência. A natureza descobriu-me
de um lado e cobriu-me de outro; tirando-me a
força, deu-me à insensibilidade; e o medo,
além de embotado, é em mim dominado pela
razão.
Não suporto muito tempo os coches, as litei-
ras e os barcos, e na juventude os suportava
anda menos. Detesto qualquer outro meio de
locomoção que não o cavalo, na cidade como
no campo. À liteirã incomoda-me ainda mais
do que o coche e pelo mesmo motivo prefiro os
movimentos de um mar agitado, embora peri-
goso, aos das águas calmas. O leve balanceio
que provocam os remos perturba-me o estô-
mago €e o cérebro. Assim igualmente um assen-
to que vacile. Quando o vento ou a correnteza
nos impele com um movimento regular, ou
quando nos rebocam, a ausência de choques
faz que não sinta nenhum incômodo; o que
não suporto são os movimentos bruscos e len-
tos; não sei como explicar com exatidão.
Aconselharam-me os médicos, para remediar o
inconveniente, a apertar fortemente o baixo
ventre com uma toalha.. Não o experimentei
ainda porque tenho por hábito reagir contra os
meus defeitos e procurar submetê-los à minha
vontade.
Se minha memória fosse mais eficiente, não
consideraria uma perda de tempo enumerar a
- variedade infinita dos meios de emprego de co-
ches e carros na guerra. Variaram segundo as
nações e os tempos; foram de grande utilidade
e eficiência e é espantoso que não tenhamos
bastantes documentos a respeito. Direi apenas
que em tempos não muito remotos os húngaros
os empregaram com êxito contra os turcos.
Havia em cada veículo um soldado armado de
escudo e um mosqueteiro com vários arcabu-
zes prontos para serem usados, tudo coberto
por um toldo espesso semelhante aos que usa-
mos nos nossos barcos. Mais de três mil assim
se apresentaram no campo de batalha. E logo
depois da carga de artilharia, atiravam no ini-
migo com os arcabuzes, o que.já lhes dava al-
guma vantagem, e em seguida lançavam-se ao
assalto. Empregavam-nos também contra a
414 MONTAIGNE
cavalaria e deles se valiam em caso de sur-
presa como abrigo ou para fortificar o acam-
pamento. Conheci um fidalgo que não gozava
muita saúde e que não encontrando cavalo que
pudesse cavalgar, por ser demasiado gordo,
percorria a região fronteiriça em um veículo
análogo ao que descrevi. E dava-se bem com a
solução. Mas deixemos de lado os carros
empregados na guerra.
Os reis de nossa antiga raça viajavam de
carro de boi. Marco Antônio foi o primeiro,
em companhia de: uma jovem musicista, a
fazer-se conduzir por leões atrelados à sua car-
ruagem. Posteriormente assim fez Heliogá-
balo, proclamando-se Cibele, mãe dos deuses.
Em dada ocasião mandou atrelar a seu carro
dois tigres para semelhar-se a Baco, e de outra
feita utilizou-se de dois veados, como igual-
mente, certa vez, empregou quatro cães, tendo
mesmo, completamente nu, ordenado a quatro
raparigas também nuas que puxassem seu
pomposo coche. O Imperador Firmo preferia
avestruzes enormes, tão grandes que seu carro
mais parecia voar do que rodar.
Essas invenções extravagantes levam-me a
crer que os monarcas dão mostra de pusilani-
midade e de que não compreendem realmente
o que são, quando, mediante despesas absur-
das, procuram valorizar-se. Isso poderia des-
culpar-se em país estrangeiro; mas em sua
terra, onde tudo podem, sua dignidade já lhes
deveria bastar. Por idênticas razões, considero
que um fidalgo não deve vestir-se de um modo
especial quando em sua residência; a própria
casa, o trem de vida, a cozinha atestam sua
condição social. Acho por isso justo o conse-
lho que dá Isócrates a seu rei: “Ter um interior
com móveis esplêndidos, porquanto passam
aos herdeiros, evitando quaisquer munifi-
cências efêmeras.”
Quando jovem, gostava de adornos; não
tinha outro meio de realçar-me e a coisa não
me assentava mal. As belas vestimentas não
vão bem entretanto a todo mundo. As contas
de alguns de nossos reis revelam a exagerada
poupança que faziam em tudo o que lhes dizia
pessoalmente respeito, e eram grandes e pode-
tasas monarcas. Demóstenes profligava as leis
que determinavam o pagamento com os
dinheiros públicos das festas e jogos em seu
país; queria que a grandeza de sua pátria se
manifestasse nas frotas e exércitos preparados
para a guerra. E é com razão que acusam Teo-
frasto por defender idéia contrária em seu livro
sobre a riqueza. Aristóteles observa que tais
festividades só são apreciadas pelo populacho
e se esquecem ao terminarem, e diz não haver
homem sensato que as possa levar a sério. Tais
liberalidades seriam, a meu ver, bem mais dig-
nas da majestade real se empregadas na cons-
trução de portos, fortificações, edifícios sun-
tuosos, igrejas, hospitais, colégios e boas
estradas. Por assim ter agido deixou o Papa
Gregório XIII uma lembrança que se perpe-
tuará, e nossa Rainha Catarina daria testemu-
nho de sua magnificência se os meios de que
dispõe correspondessem a seus desejos. Muito
me entristece que a construção da “Ponte
Nova” tenha sido interrompida em nossa gran-
de capital e que o destino não me permita vê-la
concluída.
Demais, aos espectadores, ditas solenidades
parece que se realizam a expensas suas € que
lhes exibem suas próprias riquezas. Os povos
gostam que seus reis façam o que queremos
que façam nossos criados: tudo nos dêem com
abundância e em nada toquem. Por isso o
Imperador Galba, satisfeito com um músico
que o distraíra enquanto ceava, mandou bus-
car sua bolsa e deu ao artista um punhado de
escudos, dizendo: “Não é dinheiro do povo; é
meu.” Entretanto, como quer que seja, tem o
povo razão, pois em geral dedica-se ao prazer
de seus olhos o que deveria destinar a satisfa-
zer-lhe o ventre. A liberalidade não se justifica
nos reis. Os particulares têm mais direito a ela,
pois, a rigor, um rei nada possui de verdadeira-
mente seu e deve-se por inteiro aos outros. A
administração não foi criada para o bem do.
administrador e sim para o do administrado.
Não se cria um superior em vista de sua pró-
pria vantagem, mas em benefício do inferior; o
médico é feito para o doente e qualquer magis-
tratura ou arte tem um objetivo situado fora de
si, já o dizia Cicero. Portanto, os preceptores
dos príncipes, que se esforçam por lhes incul-
car desde a infância a idéia de uma generosi-
dade necessária e lhes ensinam a nada recusa-
rem e a tudo darem (educação muito em voga
hã tempo), olham mais para seus próprios inte-
resses do que para os de seus senhores. Ou
compreendem mal seus deveres. É muito facil
induzir à liberalidade os que a podem praticar
a expensas alheias. Mas, como lhes somos
reconhecidos segundo os meios de que dispõe
quem as faz e não segundo o valor do presente,
tais prodigalidades não são sequer devida-
mente apreciadas. Não é pois a liberalidade
uma grande virtude para um rei; é, aliás, a
única, como dizia o tirano Dionísio, que se
alia muito bem à tirania. A esses. príncipes, eu
ensinaria de preferência este provérbio de um
lavrador da antiguidade: “Semeie-se com a
mão e não com o saco de semente aberto! * 5,”
Cabe distribuir a semente com cuidado e não
espalhá-la ao acaso. Cumpre-lhes pagar os ser-
145 Plutarco.
ENSAIOS — HI
viços de tanta gente, que é preciso que o façam
com lealdade e prudência. E preferiria um
principe avarento a sabê-lo de uma liberali-
dade insensata e indiscreta.
A virtude predominante em um rei deve ser
antes a justiça, e de todas as partes desta a que
melhor lhe assenta é saber distribuir suas dádi-
vas. As demais justiças exercem-nas os reis
através de intermediários. Uma largueza imo-
derada é um meio ineficiente de angariar sim-
patias, porquanto aliena maior número de pes-
soas do que as que atrai. “Quanto mais se
exerce, menos se pode exercê-la: e haverá algo
mais tolo, quando se deseja fazer alguma
coisa, do que se tornar incapaz de continuar a
fazê-la! +67”? Praticada sem levar em conta o
mérito, a liberalidade envergonha quem a rece-
be. Alguns tiranos foram sacrificados ao ódio
do povo por aqueles mesmos que injustamente
haviam cumulado de favores. Tais beneficia-
dos, na ânsia de assegurar a posse de seus
bens, timbram em acompanhar a opinião pú-
blica ostentando Ódio e desprezo a seus
benfeitores.
Os súditos de um príncipe que esbanja suas
dádivas, tornam-se eles próprios excessiva-
mente exigentes; não se conduzem pela razão e
sim pelo exemplo que se lhes apresenta. Em
verdade deveríamos envergonhar-nos de nossa
impudência. Pagar-nos pelo que fazemos já é
demasiado, pois devemos ao nosso príncipe
obrigações naturais. Não lhe cabe portanto co-
brir nossas despesas, basta que nos ajude a
cobri-las. O demais é liberalidade e não pode-
mos exigi-lo, mesmo porque a palavra liberali-
dade implica a idéia de liberdade, isto é, de dá-
diva voluntária. Por outro lado, não
costumamos contar o recebido mas tão-so-
mente o que receberemos no futuro e por isso
quanto mais um príncipe se empobrece, dando,
tanto menos amigos tem. Como saciar apetites
que se ampliam na medida em que se satisfa-
zem? Quem anseia por adquirir não pensa no
adquirido. A cobiça caracteriza-se pela ingra-
tidão. É
O exemplo de Ciro pode ser útil aos reis de
nosso tempo para que distingam quando
empregam bem ou mal os seus favores.
Mostrar-lhes-ãá como, distribuindo-os da ma-
neira por que o fazia, esse soberano teve a mão
mais feliz do que eles, os quais, após esgotar
seus recursos, vêem-se forçados a contrair
empréstimos junto a súditos que não conhecem
bem e a pedir, antes aos que maltrataram do
que aos que beneficiaram, uma colaboração
que de colaboração só tem o nome. Creso cen-
surava a Ciro sua prodigalidade e calculava
146 Cícero.
415
quanto teria o tesouro se ele fosse mais parci-
monioso. Ciro teve a idéia de justificar sua
liberalidade e, enviando mensageiros a todos
os que havia tratado de maneira particular-
mente generosa, pediu, a cada um, um auxílio
em dinheiro, a fim de sair de uma situação difi-
cil. Quando chegaram as respostas, verificou-
se que, tendo julgado insuficiente devolver as
somas recebidas, seus amigos haviam ácres-
centado mais algum dinheiro de suas fortunas
pessoais e o total: ultrapassava assim, de
muito, a economia que no dizer de Creso o
soberano houvera realizado. E disse Ciro:
“Não aprecio menos do que os outros a rique-
za, mas creio saber melhor administrá-la; bem
vês quão pouco me custou angariar tão fiéis
amigos, bem melhores tesoureiros do que te-
riam sido os que porventura pagasse, pois não
lhes compraria a amizade nem a gratidão. E
bem percebes também que assim guardo me-
lhor os meus bens do que se os conservasse em
meus cofres, despertando a inveja e o ódio dos
outros príncipes.”
Os imperadores justificavam os jogos e as
festas públicas dizendo que sua autoridade (ao
menos aparentemente) dependia da vontade do
povo romano, o qual se acostumara, há muito,
a tais divertimentos e excessos. A princípio
coubera aos particulares sustentar e manter
com seu dinheiro essas festividades; mas o
caráter destas modificou-se quando os que se
tornaram senhores se encarregaram de propor-
cioná-las: “O dom feito a um estranho de um
dinheiro tomado a outrem, não deve ser consi-
derado uma liberalidade! *7.” Filipe escrevia
nestes termos a seu filho para censurar-lhe o
empenho que demostrava em conquistar a
dedicação dos macedônios mediante presentes:
“Desejas, então, que teus súditos te olhem
como seu tesoureiro e nãó como seu rei? Se
queres seu afeto, cnhama-os a ti com tuas virtu-
des, e não com teu dinheiro.”
Não: obstante, eram notáveis as coisas que
se viam nos circos. De uma feita, no reinado
de Probo, plantaram-se ali inúmeras árvores
frondosas representando uma floresta espessa
e nela se lançaram um milhão de avestruzes,
cervos, javalis, para que o povo se divertisse
em caçá-los. No dia seguinte mataram-se cem
leões, cem leopardos e trezentos ursos; no ter-
ceiro dia trezentos pares de gladiadores com-
bateram até a morte. E belo era o espetáculo
dos grandes anfiteatros revestidos de mármore,
com estátuas e decorações suntuosas: “Vede
as gemas que ormnam o teatro e seu pórtico
dourado! * 8”? De alto a baixo alinhavam-se de
147 Td.
128 Calpúrnio.
416
sessenta a oitenta degraus, de mármore igual-
mente e guarnecidos de assentos para cerca de
cem mil pessoas comodamente instaladas:
“Vós outros cujos bens as leis não taxam,
abandonai, se tendes vergonha, os assentos
destinados aos cavaleiros! *º.” Abriam-se na
arena covis de onde saiam feras, ou se inun-
dava o picadeiro com águas profundas em que
pululavam monstros marinhos e barcos de
guerra num simulacro de batalha naval. Seca-
va-se novamente o circo e recomeçavam as
justas dos gladiadores; finalmente cobria-se o
solo de vermelhão e estoraque e servia-se um
festim aos espectadores. “Vimos muitas vezes
uma parte da arena abaixar-se, e do abismo
entreaberto surgirem feras e toda uma floresta
de árvores douradas e cor de açafrão. Vimos
não somente os monstros da floresta, mas tam-
bém focas e ursos em luta e horríveis bandos
de autênticos cavalos marinhos! 5º.” Por vezes
erguia-se uma alta colina coberta de árvores
verdejantes e carregadas de frutos e da qual
jorrava um arroio, como da boca de uma
fonte; em outras ocasiões avançava pela arena
um enorme navio que se abria repentinamente
e despejava de quatrocentos a quinhentos ani-
mais, desaparecendo em seguida. E de outras
feitas brotavam altíssimos jatos de água do
solo, aromatizando e refrescando a multidão.
Para proteger os espectadores contra as intem-
péries usavam-se toldos bordados de púrpura
ou de sedas de várias cores, que se estendiam
ou retiravam à vontade. “Embora o sol ardente
dardeje seus raios sobre o circo, retiram-se os
toldos quando Hermógenes se apresenta! 81,”
E as redes que visavam resguardar o público
contra os saltos das feras eram igualmente
tecidas com fio de ouro: “As próprias malhas
brilham por serem de ouro! 82.”
Só a imaginação pode desculpar tais despe-
sas e extravagancias. Até nessas vaidades
descortinamos o fértil engenho daqueles sécu-
los tão superiores ao nosso. Nisso como em
outras coisas não progredimos. Antes giramos
sobre nós mesmos, ora vamos para frente, ora
voltamos atrás. Parece-me que nossos conheci-
mentos são, de todos os pontos de vista, restri-
tos; não vemos muito longe nem no passado
nem no futuro. Pouco abarca a nossa vista.
Que sabemos, afinal? “Houve muitos heróis
antes de Agamenon, mas dormem sepultados
na ignota noite; e ninguém os chora! 53.?
“Antes da guerra de Tróia, inúmeros poetas
143 Juvenal.
150º Calpúrnio.
151 Marcial.
152 Caipúrnio.
153 Horácio.
MONTAIGNE
haviam celebrado outros sucessos! 5 *.? Aten-
te-se também para o que Sólon diz ter ouvido
dos sacerdotes egípcios acerca da história de
seu país, e dos países estrangeiros, e dos méto-
dos de escrevê-la. “Se pudéssemos ter sob os
olhos a extensão infinita das terras e dos tem-
pos em que o espírito mergulha e que percorre
sem encontrar limites, aí descobririamos um
sem-número de formas! 55? Ainda que tudo o
que sabemos do passado fosse certo, seria
menos do que nada em relação ao ignorado.
Quão pequeno e imperfeito é o conhecimento
que mesmo os mais curiosos têm de nosso
tempo! Não somente das ocorrências particu-
lares que o destino torna por vezes edificantes,
mas também da situação política e adminis-
trativa das grandes nações. Consideramos
milagres as invenções da artilharia e da
imprensa, quando outros já se serviam delas
há mil anos na China, do outro lado do
mundo. Se o que sabemos deste igualasse o
que ignoramos, é provável que estariamos em
presença de uma infinita variedade de corpos e
formas em contínua transformação. Nada na
natureza é único; e somente o é em face de
nossos conhecimentos restritos, os quais cons-
tituem a base defeituosa que estabelecemos e
nos levam a uma idéia muito falsa das coisas.
Assim, julgando-o pela nossa própria debili-
dade e decrepitude, erroneamente deduzimos
que o mundo caminha para a decadência.
“Não possuem os homens o mesmo vigor anti-
go, nem a terra a mesma fertilidade! * 6.” Não
menos absurdamente esse poeta julgava, pela
força e capacidade inventiva dos espíritos de
seu tempo, que o mundo era recente e jovem:
“Em verdade entendo que o mundo é novo
ainda. Nasceu há pouco. Eis por que certas
artes se desenvolvem e nossa arte naval pro-
gride grandemente? 5 7,”
Nosso mundo acaba de descobrir outro não
menor, nem menos povoado e organizado do
que o nosso (e quem nos diz que seja o últi-
mo?) e, no entanto, tão jovem, que ignora o
a-bê-cê e que há cinquenta anos não conhecia
nem pesos, nem medidas, nem a arte de vestir,
nem o trigo e a vinha; nu ainda, vivia do leite
de sua ama! *8. Se raciocinamos certo e se o
poeta o fazia igualmente, devemos pensar que
o novo mundo só começará a iluminar-se
quando o nosso penetrar nas trevas. Será uma
espécie de hemiplegia: um membro paralisado
e outro vigoroso é vivo. Receio, porém, que
venhamos a apressar a decadência desse novo
154 Lucrécio.
155 Cícero.
156 Lucrécio.
157 Lucrécio.
158 A natureza.
ENSAIOS— HI
mundo com nosso contato e que ele deva pagar
caro nossas artes eidéias.
Era um mundo na infância e o submetemos
ao açoite e a uma dura escravidão, mercê de
nossa superioridade em armas. Não o conquis-
tamos pela justiça e a bondade; nem o vence-
mos pela nossa magnanimidade. Na maioria
das negociações que conosco estabeleceram,
provaram Os indigenas do Novo Mundo que
não nos eram inferiores em clarividência e
perspicácia. Nem tampouco quanto à capaci-
dade, como o comprova a grandiosidade de
Cuzco e México onde, entre outras coisas
surpreendentes, se encontrou uma reprodução
exata, de tamanho natural e em ouro, de todas
as árvores e frutos de um pomar. E igualmente
se acharam no palácio exemplares de todos os
animais existentes em suas terras e seus mares.
Notáveis eram também, e não inferiores às
nossas, as suas obras de pedra, penas e algo-
dão. Quanto à devoção, à lealdade, à bondade,
à generosidade e à franqueza, muito nos valeu
não lhes sermos comparáveis, pois tais quali-
dades os perderam e destruíram. A energia, a
coragem, a firmeza, a tenacidade e a resolução
com que suportam os males, a fome e a morte
fornecem-nos exemplos dignos de se igualarem
aos da antiguidade. É de se admirar o entu-
Siasmo indomável com que homens, mulheres
e crianças correram mil riscos e enfrentaram
mil perigos na defesa de seus deuses e de sua
liberdade, suportando toda espécie de priva-
ções e tormentos, inclusive a morte, para não
se submeterem aos conquistadores. Alguns, ao
serem capturados, preferiram morrer de fome a
dever a vida ao vil vencedor. E acredito que
quem os atacasse de frente com as mesmas.
armas e experiêncianão-os venceria facilmente.
Sua derrota explica-se em grande parte pela
malícia de que usaram os adversários, pelo
espanto em que caíram ao ver chegarem ho-
mens barbudos, de língua e religião diferentes
e vindos de uma parte do mundo cuja exis-
tência os indígenas não podiam sequer imagi-
nar. E chegavam montados em grandes mons-
tros desconhecidos de quem nunca vira um
cavalo nem outro bicho capaz de carregar um
homem; e usavam coletes de pele lisa e dura, €
armas cortantes e resplendentes, milagrosas €
temíveis para quem trocava um espelho .por
punhados de ouro. Acrescentem-se os estron-
dos e raios de nossos arcabuzes e canhões,
capazes de amedrontar o próprio César se os
visse! Eles, que não tinham senão tecidos e
algodão, e arcos, pedras e bastões, e escudos
de madeira, por armas, e boa fé e curiosidade
ingênua a opor ao invasor, e ter-se-á com-
preendido a razão das derrotas! **º.
159 O parágrafo comporta mais de uma variante
segundo as edições. Em algumas foi suprimido ou
resumido. (N. do T.)
417
É de se lamentar que não tenham sido venci-
dos por César ou Alexandre! Tão grandes
transformaçõês e mutações se houveram efe-
tuado com doçura. Progressivamente fora des-
bravado o que neles havia de inculto; suas
qualidades naturais teriam sido consolidadas e
os conquistadores, introduzindo entre os venci-
dos seus conhecimentos acerca doe cultivo das
terras e das artes, lhes dariam também as vir-
tudes gregas e romanas. Que progresso teria
alcançado sua civilização se com isso se hou-
vesse estabelecido entre esses indigenas e nós
um clima de fraternidade e de simpatia! Ao
contrário, só tiveram diante deles exemplos de
desregramentos e abusos. Aproveitamo-nos de
sua ignorância e inexperiência e lhes ensina-
mos a prática da traição, da luxúria, da avare-
za; e os impelimos aos atos de crueldade e de
inumanidade. Ter-se-á jamais perpetrado tanto
crime em benefício do comércio? Quantas
cidades arrasadas, quantos povos extermina-
dos! Milhões de iridivíduos trucidados, em tão
bela e rica parte do mundo, e tudo por causa
de um negócio de pérolas e pimenta! Miserá-
veis vitórias! Nunca a ambição incitou a tal
ponto os homens a tão horríveis e revoltantes
ações!
Seguindo as costas em busca de minas, al-
guns espanhóis desembarcaram em uma região
fértil, atraente e muito povoada. Dirigiram-se
como de hábito aos habitantes: eram gente
pacata, vinham de longe, enviados pelo rei de
Castela, o maior sobre a terra, ao qual o papa,
representante de Deus, outorgara o domínio
-das Índias. Se consentissem em tornar-se tribu-
tários de seu príncipe, seriam tratados com
cordura. Pediram depois víveres para se ali-
mentar e ouro para a preparação de alguns
medicamentos. Além disso propugnavam a
crença em um Deus único e recomendavam-
lhes que adotassem nossa religião, acrescen-
tando ao discurso algumas ameaças. Assim
responderam os iíndigenas: que seu rei, visto
que por ele pediam, devia ser indigente e neces-
sitado; quanto àquele que dera o território ao
monarca, por certo amava as dissensões, pois
cedia a um terceiro terras que não lhe perten-
ciam e o fazia correr o risco de lutar contra os
verdadeiros donos; que não recusariam viíve-
res; que possuíam pouco ouro e não o aprecia-
vam (porquanto tinham por objetivo tão-so-
mente viver felizes) e podiam os espanhóis
levar o que encontrassem, salvo o que se desti-
nasse ao culto; que lhes agradavam as pala-
vras acerca da existência de um Deus único,
mas não queriam mudar de religião porque há
muito se haviam afeiçoado à sua; que só acei-
tavam conselhos de seus amigos e conhecidos;
quanto às ameaças parecia-lhes insensato diri-
418
gi-las a um povo cujo poderio e caráter os
recém-chegados ignoravam; que os estran-
geiros se apressassem pois em partir por-
quanto eles, os autóctones, não estavam acos-
tumados a acolher com benevolência os
doestos de gente armada e forasteira contra a
qual agiriam como sempre haviam agido. E
mostravam expostas ao redor da cidade as
cabeças de indivíduos condenados e executa-
dos. Eis como balbuciavam esses povos infan-
tis... Mas os espanhóis não se interessavam
por se fixar e guerrear senão onde encon-
travam as mercadorias que ambicionavam.
Por isso não ocuparam tampouco o país dos
canibais a que já me referi. |
O rei do Peru, um dos dois monarcas mais
poderosos desse Novo Mundo — e talvez do
nosso —, foi dos últimos a serem destronados.
Feito prisioneiro, exigiram os espanhóis uma
importância absurda pelo seu resgate. Paga-
ram-na. Na prisão O rei mostrava-se franco,
liberal, resoluto, inteligente. Depois de ter-lhe
arrancado um milhão e trezentos e vinte e
cinco mil escudos de ouro, além de não menor
quantia em prata e diferentes mercadorias (os
cavalos tinham ferraduras de ouro), tiveram a
idéia de se apropriar dos demais tesouros do
reino, ainda que devessem recorrer aos meios
mais desleais e desonestos. Para tanto acusa-
ram-no, com falsas provas, de andar tramando
uma sublevação; e mediante julgamento prepa-
rado por aqueles mesmos que haviam inven-
tado a revolta, condenaram-no ao estrangula-
mento, depois de convertê-lo à força para não
queimá-lo vivo. Tudo suportou o rei com dig-
nidade e coragem, sem fraquejar nem nas suas
palavras nem na sua atitude. E a fim de acal-
mar o povo pasmado ante tão estranhos fatos,
organizaram-lhe pomposos funerais.
O outro rei, o rei do México, durante muito
tempo defendeu sua cidade cercada pelos espa-
nhóis. E nesse cerco mostraram os sitiados,
mais uma vez, até onde podem ir a resolução e
a coragem de um príncipe e de um povo. O
destino fez que o rei caísse vivo nas mãos do
inimigo após um acordo de capitulação em
que se determinava que seria tratado como
soberano. Não encontrando todo o ouro que
imaginavam, os vencedores, depois de tudo
revolver, puseram-se a torturar OS prisioneiros
a fim de obter mais precisas informações. Mas,
exasperados com a resolução das vitimas,
resolveram os algozes supliciar o próprio rei
na presença de um de seus fidalgos mais emi-
nentes. Este, enfiado em um braseiro, acabou
por deitar um olhar desesperado ao monarca
como para dizer-lhe que não podia mais resis-
tir à dor.O rei, quese achava em situação idên-
MONTAIGNE
tica, respondeu-lhe com voz firme e rude:
“Estarei porventura em uma banheira? E mais
à vontade do que tu?” Ouvindo tais palavras, O
fidalgo rendeu seu último suspiro. Quanto ao
rei, libertaram-no semi-assado. E não por
comiseração, mas porque sua tenacidade res-
saltava ainda mais a odiosa crueldade dos
algozes. A piedade, aliás, nunca encontrou
“guarida nas almas bárbaras desses homens que
para obter uma informação duvidosa acerca de
algum vaso de ouro não hesitavam em mandar
grelhar um homem e mesmo um rei. Tendo
este posteriormente tentado evadir-se, enforca-
ram-no. E seu fim foi também o de um principe
magnânimo.
Em outra ocasião, os espanhóis mandaram
queimar vivos em uma só fogueira quatro-
centos e sessenta prisioneiros de guerra, dos
quais sessenta eram fidalgos dentre os princi-
pais da região. Todos esses pormenores por
“eles próprios nos foram comunicados, pois não
somente confessam tais barbaridades como
delas se vangloriam. Como testemunho de sua
Justiça ou para prova de seu espírito religioso?
Como quer que seia, nossa santa causa os
reprova, exigente que é de meios bem diversos.
Se esses bárbaros tinham a intenção de propa-
gar a nossa fé, deviam pensar que não é de
territórios que ela precisa apossar-se e sim de
almas. Ter-se-iam satisfeito com as mortes
inevitáveis que a guerra acarreta, sem se com-
prazer em camificinas que só poupavam os
que lhes iriam servir de escravos na exploração
das minas. E tanto fizeram que vários chefes,
de todos odiados, foram punidos de morte no
próprio local das conquistas, por ordem dos
reis de Castela, justamente horrorizados com
tais abominações. Deus fez, mui sabiamente,
com que o produto desses saques soçobrasse
na travessia do oceano ou se esgotasse nas
guerras intestinas desses bandidos, os quais em
sua maioria não se beneficiaram com o fruto
da vitória.
Os resultados da conquista, apesar do prín-
cipe prudente e grande administrador que
governava a Espanha, não corresponderam às
esperanças que haviam concebido seus prede-
cessores ante as riquezas descobertas no Novo
Mundo. A causa da decepção estã em que (o)
"uso da moeda era inteiramente desconhecido
naquelas terras; conseguintemente encontrou-
se reunida, aplicada em objetos e móveis e
concentrada em templos e palácios, tãoiso-
mente, toda a riqueza que os reis haviam obti-
do esgotando suas minas. Ao passo que nosso
ouro nós o utilizamos no comércio; trabalha-
mo-lo e damos-lhe mil formas sob as quais cir-
cula e se expande. Imagine-se o que ocorrera
ENSAIOS — HI
se nossos reis tivessem acumulado e imobili-
zado todo o ouro que se ERDIONOU durante vá-
rios séculos!
Os mexicanos eram algo mais civilizados e
artistas do que os outros povos do Novo
Mundo. Acreditavam, como já o acreditamos
também, que o mundo está por acabar; e a
desolação a que levaram seu país pareceu-lhes
um sinal precursor. Pensavam que a existência
do mundo comportasse cinco fases, cada uma
delas correspondente à vida de um sol. Quatro
já, teriam terminado e estaríamos vivendo a
quinta fase. O primeirb desses sóis teria sido
destruído, juntamente com as criaturas do
mundo, em conseglência de um dilúvio. O
segundo, pela queda do céu, o qual houvera
esmagado todos os viventes. Isso teria ocor-
rido durante a idade dos gigantes, cujos ossos
mostravam aos espanhóis e segundo os quais
os homens' de então deviam medir mais de
vinte palmos. A terceira fase extinguiu-se pelo
fogo que tudo consumiu. A quarta em virtude
de um ciclone tão violento que nivelara as pró-
prias montanhas. Não morreram os homens,
mas foram transformados em macacos
(incrível é a credulidade humana). Ao desapa-
recer o quarto sol, teria o mundo permanecido
durante vinte e cinco anos nas trevas. No déci-
mo quinto ano criaram-se um homem e uma
mulher, os quais reconstituíram a raça huma-
na; dez anos depois surgiu o novo sol e esses
povos contam o tempo a partir desse sucesso.
Três dias após a criação do novo sol, os deuses
antigos morreram e em seguida, da noite para
o dia, nasceram os que atualmente existem. O
autor dessas informações ignora o que os mexi-
canos pensam acerca da maneira por que se
extinguiria O nosso sol, mas estaríamos às vés-
peras de uma conjunção de astros semelhante
à que provocou, há cerca de oitocentos anos, o
fim da quarta fase, anterior à nossa.
A pompa e a magnificência que reinavam
419
nesses países e que me induziram a ventilar o
assunto, eram de tal ordem que nem em Roma,
nem na Grécia, nem no Egito se viram iguais.
Em nenhuma destas regiões se encontraram
empreendimentos tão úteis e importantes, e de
tão difícil execução, como essa estrada perua-
na, obra dos seus reis, que vai de Quito a
Cuzco numa extensão de trezentas léguas. É
reta, plana, larga de vinte e cinco passos, cal-
çada, fechada por belas e altas muralhas ao
longo das quais, e por dentro, correm perene-
mente riachos; bordejam-na renques de árvo-
res denominadas * 'moly”1 8º, Onde havia mon-
tanhas, cortaram-na os peruanos,na própria
pedra e onde se abriam precipícios, fizeram-na
passar por aterros de pedras e terra. De quan-
do em quando erguiam-se palácios providos de
roupas, víveres e armas para Os viajantes € as
tropas em marcha. Para bem avaliar a impor-
tância de tais obras, cumpre levar em conta
que as dificuldades eram particularmente gran-
des; empregavam-se blocos de pedra de pelo
menos dez pés de largura; como não havia
meios de transporte era necessário puxá-los a
braço e, para colocá-los em seu lugar, na falta
de andaimes que não sabiam armar, nem
podiam, construíiam rampas de terra que eram
em seguida retiradas.
Para voltar a nossos coches, direi que os
desconheciam no Novo Mundo. Em lugar de
carros, havia homens que carregavam os via-
Jantes aos ombros. No dia em que o aprisiona-
ram, o rei do Peru fazia-se assim transportar,
sobre um assento de ouro, durante o combate.
Queriam-no vivo os espanhóis, mas à propor-
ção que matavam os carregadores, outros sur-
giam para substituir os mortos e o sobérano só
foi detido afinal quando um cavaleiro o derru-
bou por terra.
1680 Não se encontrou nota alguma a respeito, nem
a tradução possível da palavra. (N. do T.)
CarpíruLo VII
Dos inconvenientes das grandezas! *º2
Visto que não podemos alcançar as grande-
zas, depreciamo-las por vingança; se é que des-
cobrir defeitos em alguma coisa a deprecia,
pois não há coisa que não os tenha, por mais
161 No sentido de dignidades, bens
materiais. (N. do T.)
honrarias,
bela e desejável que seja. Em geral as grande-
zas apresentam essa vantagem incontestável de
se abaixarem quanto se queira, sendo permi-
tido a quem as goza escolher a condição que
lhe agrada, pois não se cai serão raramente
das maiores alturas e as grandezas que se
podem desprezar sem rolar por terra são mais
numerosas do que as outras. Acho que damos
420.
às grandezas mais importância do que mere-
cem, e também que valorizamos demasiado a
resolução dos que as desprezam ou a elas
renunciam espontaneamente. Não são elas,
com efeito, tão vantajosas a ponto de consti-
tuir a renúncia um ato admirável. Considero
bem mais dificil o esforço necessário para
resistir ao sofrimento que os males nos cau-
sam; € parece-me mediocremente corajoso
contentar-se alguém com uma fortuna modesta
e fugir às honrarias-e dignidades. Eis a meu ver
uma virtude que eu conseguiria alcançar sem
grande esforço; logo, muito menos inacessível
será ela a quem se encontre em situação de
realçar sua renúncia, a qual pode prender-se a
uma ambição maior, tanto mais quanto esta
emprega normalmente, para atingir seus objeti-
vos, OS meios menos usuais.
Esforço-me por ser paciente e moderar meus
desejos. Em verdade, posso ambicionar e dese-
jar como qualquer pessoa e não me mostro
mais discreto do que quem quer que seja;
entretanto, nunca me ocorreu desejar um reino,
nem um império, nem posições eminentes e de
comando; não é o que viso: amo demais a mim
mesmo. Quando sonho com ampliar minha
importância, meus objetivos não se elevam
muito alto; modestos e timoratos, dado o meu
temperamento, dizem respeito tão-somente ao
fortalecimento da decisão da prudência, da
saúde, da beleza, e possivelmente da riqueza;
mas não penso em aumentar meu crédito e
minha autoridade para poder mais; a simples
idéia do poder abafa-me a imaginação. Ao
contrário de muita gente, preferiria ser o
segundo ou o terceiro em Périgueux a ser o pri-
meiro em Paris. E, para não mentir, terceiro
em Paris a ocupar O primeiro posto. Se me
desagrada lutar contra um porteiro, como,
qualquer desconhecido, detesto igualmente ver
abrirem-se alas de admiradores à minha passa-
gem. Estou acostumado a uma condição dis-
creta, tanto por destino como por inclinação, €
mostrei, em minha conduta na vida, que antes
me esforcei por fugir às grandezas do que por
elevar-me acima do lugar que Deus me deu na
sociedade. Em tudo, manter-se dentro da
ordem estabelecida pela natureza é coisa fácil
e sensata. Minha alma é tão tímida, que não
meço o êxito pela altura a que nos ergue e sim
pela facilidade com que o obtemos. Mas se não
tenho altos objetivos, em compensação sou
franco e digo sem pejo de minha humildade.
L. Tório Balbo foi um homem de bem; belo
e sadio, entendido em prazeres, gozou a vida,
viveu tranquilo, isento de superstições e bem
preparado para o sofrimento e a morte. Aca-
bou seus dias em um campo de batalha defen-
dendo seu país. Comparemos sua existência à
MONTAIGNE
de M. Régulo. Este teve uma vida grande e vir-
tuósa e um fim admirável. Uma existência foi
anônima, sem brilho; a outra exemplar e glo-
riosa. Se devesse referir-me a ela, e soubesse
expressar-me de um modo elevado, diria o que
disse Cícero. Mas se me coubesse escolher
entre uma e outra, diria que à primeira estã a
meu alcance e a outra me ultrapassa forte-
mente. Viveria a primeira, mas quanto à
segunda só a poderia venerar.
Voltemos às grandezas deste mundo. Não
aprecio em verdade o poder, nem para exercê-
lo nem para suportá-lo. Otanez, um dos sete
príncipes da Pérsia que podiam aspirar ao
trono, adotou uma resolução que em seu lugar
eu também seguiria. Cedeu a seus compa-
nheiros o direito de competir, com a condição
de poder viver no território persa sem obriga-
ções de qualquer espécie, a não ser de obedecer
às antigas leis. Não desejava portanto mandar
nem ser mandado.
O ofício mais difícil deste mundo é sem dú-
vida o de rei. Desculpo-lhes os erros de bom
grado, pois considero extremamente pesado o
fardo que lhes cumpre carregar. É difícil con-
servar a medida no exercício de tão grande
poder, embora constitua excepcional incentivo
à virtude o fato de saber que todas as ações,
boas ou más, ficam registradas na história e
atingem tanta gente. Por outro lado, tudo o
que façam visa o povo, juiz que se ilude sem
maiores percalços e se contenta com pouco.
Não há muitas coisas que possamos julgar
com sinceridade, porque não há muitas que
não nos interessem particularmente de um
modo ou de outro. À superioridade e a inferio-
ridade, o senhor e o súdito, acham-se em opo-
sição € se invejam naturalmente; mas eu não
acredito nem em uma nem em outra; apenas
creio.na razão inflexível e impassível. Folhea-
va, não faz muito, dois livros de autores esco-
ceses, ambos sobre o mesmo assunto mas de
pontos de vista opostos. O que toma o partido
do povo faz do rei um indivíduo desprezível; o
que defende o monarca coloca-o pouco abaixo
de Deus.
Um dos inconvenientes das grandezas, que
uma circunstância fortuita me revelou recente-
mente, é o seguinte: não há nada mais agradá-
vel aos homens do que a luta para ressaltar o
valor e os méritos do corpo e do espírito. Ora
dessas coisas a soberana grandeza não parti-
cipa em absoluto. Parece-me que à força de
respeitá-los acabamos por tratar aos príncipes
desdenhosamente. Em minha infância uma
coisa me ofendia infinitamente: o fato de al-
guns rapazes não lutarem de verdade contra
mim nas competições, por não me conside-
rarem à sua altura. Se alguém percebe que o
ENSAIOS — HI 421
príncipe revela algum apego, por pequeno que
seja, à vitória, não deixa de prestar-se ao jogo,
preferindo trair a glória a ofender o rei. Em
consequência, dedicarê à luta tão-somente a
resistência necessária para que a vitória não
lhe seja desonrosa. Que papel desempenham os
príncipes nas justas.em que todos se dispõem a
perder? São como os paladinos dos tempos
heróicos, que se apresentavam ao combate
com armas encantadas. Brisson, em competi-
ção com Alexandre, deixou que o príncipe
ganhasse. Este admoestou-o; devia tê-lo açoi-
tado. É o que levava Carnéades a dizer que “os
filhos dos príncipes nada aprendem que não
seja falso, a não ser andar a cavalo”. Em todos
os demais exercícios cedem os competidores e
deixam-nos vencer, mas o cavalo, que ignora a
lisonja, derruba o filho do rei como o faria
com o filho do lixeiro.
Homero viu-se forçado a consentir em que
Vênus, tão delicada e suave, fosse ferida em
Tróia, a fim dé outorgar-lhe coragem e ousa-
dia, qualidades que não se agregam a quem
não corre perigo. Se se admite que os deuses
sejam sujeitos a cóleras, paixões, temores, ciú-
mes, sofrimentos, é para poder atribuir-lhes as
virtudes opostas. Quem não corre risco, nem
enfrenta dificuldades, não pode pretender
honrarias nem se beneficiar com o prazer
das vitórias. É triste ter um poder diante do
qual tudo se incline; uma tal vantagem repele
as demais. Essa cômoda e covarde facilidade
de fazer com que tudo se abaixe diante de si,
exclui quaisquer satisfações; escorrega-se, não
se anda; dorme-se, não se vive. Imaginai um
homem onipotente: eilo angustiado; precisa
pedir-nos a esmola de uma resistência; sua feli-
cidade é incompleta e ele sofre com isso.
As boas qualidades dos reis são como mor-
tas e inúteis, pois as virtudes só se percebem
por comparação e as deles nunca se compa-
ram. Ignoram os louvores de bom quilate por-
que os aflige uma contínua e invariável apro-
vação. Ainda que se meçam com o mais
infimo de seus súditos não poderão auferir o
prazer da vantagem obtida, pois sempre have-
rá uma resposta irretorquível: “trata-se de meu
rei”. E assim dizendo como que dá a entender,
quem o diz, que se prestou a uma farsa. Pelo
fato de serem reis, sua grandeza esmaga e
absorve as demais qualidades reais e essenciais
que porventura possuam. Por isso só podem
distinguir-se em seu próprio ofício. E um rei é
a tal ponto rei que nada mais pode ser. À reale-
za forma em torno dele uma atmosfera Jumi-
nosa que o envolve, o esconde e faz que escape
à nossa vista ofuscada pelo seu brilho. O Sena-
do romano concedera a Tibério o prêmio de
eloquência; ele recusou-o, achando que mesmo
que o merecesse não teria valor o julgamento
de uma assembléia tão pouco independente.
Como se outorga aos príncipes tudo o que os
pode honrar, chega-se a justificar-lhes os vi-
cios e a agravá-los, não somente os aprovando
como os incitando. Na corte de Alexandre
todos inclinavam a cabeça, como ele; e os adu-
ladores de Dionísio tudo derrubavam diante de
si para se mostrarem tão míopes como o tira-
no. Ter hérnia foi não raro um título de
recomendação; e vi igualmente quem simu-
lasse a surdez. Plutarco fala de cortesãos que
repudiavam suas mulheres porque seu senhor
odiava o sexo fraco. Demais, a libertinagem, a
dissolução de costumes, a deslealdade, a blas-
fêmia, a crueldade, a heresia, a superstição, a
negligência e coisas ainda piores, estiveram
muitas vezes em voga em consequência de
maus exemplos, bem mais perigosos do que o
dos cortesãos de Mitridates, os quais, em virtu-
de da pretensão de seu senhor de ser um bom
médico, faziam-se por ele cortar e cauterizar.
Os outros, é a alma, parte mais delicada e
nobre de seu ser, que entregam ao cautério.
Para acabar por onde comecei, lembrarei o
caso ocorrido com o Imperador Adriano. Dis-
cutindo com o filósofo Favorino acerca do
sentido de certa palavra, cedeu este bem
depressa, e aos amigos que lhe censuravam a
atitude respondeu: “Por Deus, pois então não
será mais sábio do que eu quem comanda trin-
ta legiões!” Augusto escreveu versos contra
Asínio Polo, o qual observou: “Calar-me-ei;
não é prudente escrever contra quem pode
proscrever.” E tinham ambos razão, pois Dio-
nísio, por não conseguir igualar Filóxeno na
poesia nen Platão na filosofia, condenou um
aos trabalhos forçados e vendeu o outro como
escravo na ilha de Egina.
422 MONTAIGNE à
CapíruLo VII
Da arte de conversar
É costume de nossos tribunais condenar al-
guns para exemplo dos outros. Condená-los
unicamente porque erraram seria inepto, como
diz Platão. O que está feito não se desfaz; mas
é para que não tornem a errar ou a-fim de que
os outros atentem para o castigo. Não se cdorri-
ge quem se enforca; corrigem-se os demais
com ele. Eu faço a mesma coisa. É certo que
os meus erros são naturais e incorrigíveis, mas
assim como os homens de bem oferecem ao
povo o exemplo do que este deve fazer, eu os
convido a não me imitarem: “Não vedes como
o filho de Albo vive mal e como Barro se tor-
nou miserável? Bom exemplo: que vos ensine a
não dissipar vosso patrimônio! 82” Publi-
cando e criticando minhas imperfeições, ensi-
narei alguém a temê-las. As qualidades que
mais aprecio em mim, mais se honram em me
criticar do que em me elogiar. Eis por que
volto amiúde a isso, e tanta vez me demoro no
assunto. Mas não é possível tudo contar de si
próprio sem que algum prejuízo advenha: acre-
ditam no mal que dizemos e duvidam do bem.
Não sei se haverá alguém como eu que mais
se eduque contrariando os modelos do que os
imitando, e deles fugindo mais do que os
seguindo. A essa espécie de disciplina referia-
se Catão, quando disse que os sensatos apren-
dem mais com os loucos do que estes com
aqueles. E Pausânias conta que um velho toca-
dor de lira tinha por hábito mandar seus disci-
pulos ouvirem um mau músico que morava em
frente, a fim de que aprendessem a odiar as
desafinações e os compassos errados. O horror
à crueldade incita-me mais à clemência do que
o faria um modelo de penerosidade. Um bom
picador não corrige melhor minha maneira de
montar a cavalo do-que um procurador ou um
veneziano. E um vício de linguagem, mais do
que um falar correto, emenda o meu modo de
exprimir. Todos os dias a tola conduta dos ou-
tros me adverte e aconselha. O que magoa
impressiona e desperta mais do que o: que
agrada. O tempo em que vivemos só nos corri-
ge às avessas, mais por desacordo do que por
acordo e mais por divergência do que por
semelhança. Aprendendo mal com os bons
162 Horário.
exemplos, valho-me dos maus, cuja lição é
acessível. Esforcei-me por me tornar tão agra-
dável quanto os outros eram irritantes, tão
firme quanto eram moles, tão brando quanto
eram duros, tão bom quanto eram maus. Mas
a tarefa é irrealizâável.
O mais proveitoso e natural exercício de
nosso espirito é, a meu ver, a conversação.
É-me a sua prática mais agradável do que
qualquer outra. Eis por que, se me coubesse
escolher, antes consentiria, penso, e.n perder a
vista do que o ouvido ou a fala. Os atenienses
e os romanos tinham esse exercício em grande
conta em suas academias. Em nosso tempo os
italianos ainda tiram bom proveito dos restos
que conservaram, como se vê da comparação
de nosso talento com o deles. A fregientação
dos livros é uma atividade calma e fraca, que
não entusiasma, enquanto a conversação ensi-
na e exercita ao mesmo tempo. Se converso
com um espírito forte, e rude discutidor, ele
aperta-me, fere-me à direita e à esquerda e suas
idéias sugerem as minhas. O ciúme, o amor-
próprio, a atenção excitam-me e elevam-me
acima de mim mesmo. O acordo é, na conver-
sação, qualidade bem aborrecida. Mas assim
como o nosso espirito se fortalece na convi-
vência com os espíritos rigorosos e sensatos,
também se empobrece e degenera pelo comér-
cio com os vulgares e doentios. Não há doença
que tão facilmente se espalhe. Sei por expe-
riência quanto custa. Gosto de discutir e con-
versar, mas é com pouca gente e para meu pro-
veito. Pois servir de espetáculo aos grandes e
fazer exibição de espírito, são coisas que não
considero recomendáveis em um homem de
bem..
A tolice é péssima qualidade, mas não a
poder suportar e moer-se por sua causa, como
me acontece, é também uma doença que nada
fica a dever à tolice. É o que quero criticar em
mim, agora.
Entro em conversa e discussão com grande
liberdade e facilidade, tanto mais quanto as
opiniões encontram em mim terreno pouco
propício a seu desenvolvimento em profundi-
dade. Nenhuma afirmação me espanta, nenhu-
ma crença me fere, por contrária: que seja às
minhas. Não hã fantasia, por frívola e extrava-
ENSAIOS — HI 423
gante, que não me pareça compatível com as
produções do espírito humano. Nós, que priva-
mos a nossa inteligência do direito de julgar,
encaramos sem antipatia as idéias alheias e
damos-lhes ouvidos embora não as acatemos.
E, em estando completamente vazio um dos
pratos da balança, que oscile o outro mesmo
com histórias de mulheres desfrutáveis.
Acho desculpável preferirem-se os números
impares; a quinta à sexta-feira; e ser o décimo
segundo ou décimo quarto à mesa a ser o déci-
mo terceiro; se, quando, em viagem, vejo de
bom grado uma lebre a correr ao longo do
caminho do que a atravessá-lo; calçar primeiro
o pé esquerdo a calçar o direito. Todas essas
bobagens em qque acreditam merecem ao
menos .que se escutem. Para mim pesam mais
do que nada, mas ainda assim pesam alguma
coisa. Em matéria de peso, as opiniões do
vulgo, embora sem fundamento, importam
mais do que o nada e quem as desdenha total-
mente, em querendo evitar a superstição, peca
por obstinação. A contradição das opiniões
não me ofende nem me exalta, apenas me for-
nece oportunidades de me exercitar. Não gos-
tamos de ser corrigidos, e qualquer observação
nesse sentido deve fazer-se em tom de conver-
sa. Não procuramos saber se é justa e sim
como a repelir; em lugar de acolhê-la, arrega-
nhamos os dentes. A mim seria desagradável
que meus amigos me criticassem com rudeza:
“es um tolo, estás a sonhar”; entretanto, gosto
que sejam sinceros e que suas palavras expri-
mam exatamente seu pensamento. Cumpre for-
tificar os ouvidos contra o som lisonjeiro das
palavras cerimoniosas. Aprecio uma convi-
vência e familiaridade fortes e viris, uma ami-
zade feita de aspereza e energia, que se desen-
volva como o amor, com mordidas e
arranhões. Não será bastante vigorosa e gene-
rosa, se não for algo brutal, se se mostrar
demasiado educada, artificial, contrafeita:
“Não há conversação sem contradição! 83.” A
mim, quando me contradizem, despertam-me a
atenção, não a cólera; aperto meu interlocutor
e tiro partido de seus argumentos. A busca da
verdade não deve ser o alvo de' ambos os
contraditores? Que responder, se a cólera
toma conta do espírito e o turva logo de iní-
cio? Seria útil que se fizessem apostas nas
discussões, apostas que seriam ganhas por
quem tivesse razão. Constituiriam testemu-
nhos preciosos das nossas vitórias ou derrotãs
e nos obrigariam a cuidar de não ouvir nosso
criado advertir-nos de quando em vez: “no ano
passado, custou-vos cem escudos o terdes sido
ignorante e teimoso vinte vezes”. Acolho e fes-
163 Cicero.
tejo a verdade, venha de quem vier; rendo-me
com alegria, entrego-lhe as armas, vencido de
antemão ao avistâ-la de longe. E se não o
fazem com demasiada agressividade, aceito
quaisquer críticas a meus escritos; corrigi-os
mais de uma vez, antes por cortesia do que por
achá-los errados; gosto de encorajar as pes-
soas a me criticarem livremente e procuro
recompensá-las, embora a expensas minhas.
Todavia, é sem dúvida difícil levar os homens
de minha época a pensarem de igual modo;
não se animam a corrigir os outros porque não
têm a coragem de suportar que os corrijam; €
sua linguagem, quando em presença uns dos
outros, carece de franqueza. Tenho tanto pra-
zer em ser julgado e apreciado, que me é indi-
ferente a maneira por que o fazem. Minhas
idéias são amiúde tão contraditórias que se
condenam sozinhas e pouco me importa que
outro as condene também, tanto mais quanto
dou à crítica uma importância relativa. Mas
aborrece-me quem assume uma atitude supe-
rior (como alguém que conheço) e se ofende se
não o seguimos.
Vendo-se Sócrates acolher sorridente as
observações que lhe faziam, pode-se dizer que
era por causa de seu valor e porque vencia
sempre. Aceitava portanto os reparos como
pretexto para conquistar novas glórias. Na
realidade, nada nos torna a sensibilidade mais
delicada do que o valor que atribuímos ao
adversário e o desprezo em que ele nos tem;
por isso, nem que seja por prudência, deve o
mais fraco aceitar de bom grado as críticas
que o corrijam e fortaleçam. No que me diz
respeito, procuro mais a convivência dos que
se mostram severos do que a dos temerosos. É
prazer insipido e prejudicial tratar com gente
que nos admira sempre e sempre nos segue.
Antístenes recomendava a seus filhos que não
fossem reconhecidos a quem os lcuvasse.
Muito mais me orgulho com a vitória obtida
sobre mim mesmo quando, no ardor da discus-
são, me curvo sob o peso das razões do meu
adversário, do que com a sua derrota se se re-
vela fraco. Em suma, recebo e acuso todos os
golpes leais, por mais fracos que sejam, mas
suporto com dificuldade aqueles cuja forma
deixa a desejar Importa-me pouco o assunto
em debate, as opiniões emitidas são-me indife-
rentes, bem como a vitória. Discutirei um dia
inteiro, se a discussão se processar com ordem.
Interessam-me menos a sutileza e o vigor do
que a ordem nas idéias, essa ordem que sub-
siste entre os pastores e caixeirós, mas não
entre nós. São por vezes indelicados e o
mesmo fazemos, mas suas impaciências não qs
afastam do assunto; a discussão prossegue e,
se falam sem aguardar sua vez, ao menos
424
entendem-se. Qualquer resposta me satisfaz se
vem a propósito, mas quando a discussão se
perturba e se torna desordenada, abandono o
assunto, prendo-me à forma, indiscretamente,
e ponho-me a discutir com uma malícia'e uma
agressividade que, ao depois, me envergo-
nham. É impossível discutir de boa fé com um
tolo. E não é apenas, então, meu julgamento
que se corrompe, é também minha consciência.
As discussões deveriam ser regulamentadas
como outros crimes verbais. Quantos vícios
suscitam e acumulam em nós, governadas pela
cólera! Começamos por hostilizar os argu-
mentos e acabamos inimigos dos homens! Só
aprendemos a discutir para contraditar, e
acontece, em meio às contradições recíprocas,
perder-se e aniquilar-se a verdade. Por isso
Platão, em sua República, proíbe tal exercício
aos espíritos ineptos e mal formados. Por que
buscar a verdade em companhia de quem não
tem capacidade para tentá-lo? Não se preju-
dica o assunto discutido, quando o deixamos
um momento de lado, a fim de acertar o méto-
do de tratá-lo; não me refiro aos métodos esco-
lásticos e artificiais e sim aos meios naturais,
peculiares às inteligências sadias. Que se veri-
fica de outro modo? Cada qual puxa para seu
lado; perde-se de vista o essencial na confusão
do acessório. Ao fim de uma hora de disputa já
não se sabe o que se procura. Um se distancia,
outro se desvia; um se apega a uma palavra,
outro a uma analogia. Outro, ainda, no auge
do entusiasmo, não entende o que se lhe obje-
ta; cada qual pensa em si somente, e não em
nós. Hã quem, sentindo-se fraco, tudo con-
funda de entrada, tudo baralhe, tudo recuse; ou
finja concordar, afetando, por ignorância e
despeito, um orgulhoso desdém ou uma estú-
pida humildade. Outro, conquanto fira, não se
importa se se descobre. Outro, pesa as pala-
vras e as toma por argumentos. Outro faz valer
a voz e os pulmões; ou conclui contra si
mesmo. E há quem nos ensurdeça com intrói-
tos e digressões inúteis. E hã também quem se
arme de injúrias e levante objeções sem funda-
mento para se libertar da companhia e da
conversação de um espírito que o perturba.
Outro enfim não raciocina de modo nenhum,
mas envolve-nos em uma dialética de cláusulas
e fórmulas.
Ora, quem não há de desconfiar da ciência,
“das letras que nada curam! 8 *)? e duvidar que
delas se tire algum resultado sério, dado o uso
que fazemos delas? A quem deu, a lógica, inte-
ligência e juízo? Que é feito de suas promes-
sas? “Não ensina nem a viver melhor nem a
bem pensar! 85º” Haverá mais confusão no
164 Sêneca.
165 Cicero.
MONTAIGNE
palavrório das regateiras do que nos discursos
dos profissionais? Preferiria que um filho meu
aprendesse a falar antes nas tabernas do que
nas escolas de elequência. Escolhei um profes-
sor de eloquência; conversai com ele. Por que
motivo não se contenta com fazer-nos sentir a
sua superioridade nessa arie, com deslumbrar
as mulheres, e os ignorantes como nós,
mediante a admirável precisão de suas razões e
a beleza de seus discursos? Por que não se
satisfaz com dominar-nos e persuadir-nos a
seu talante? Por que razão esse homem tão
avantajádo em saber e talento mistura a suas
possibilidades naturais, injúrias, insultos e
furores? Que se desfaça da toga e do latim, e
não nos encha os ouvidos com Aristóteles nu e
cru, e o tomareis por um de nós, ou menos
ainda. As combinações e requintes de lingua-
gem com que nos aborrecem semelham-se a
passes de pelotiqueiros; sua sutileza vence nos-
sos sentidos mas não nos abala a convicção;
fora de tais peloticas nada fazem que não seja
vulgar e vil. E não é porque são sábios que são
menos tolos. Amo e honro o saber, bem como
os que o possuem: empregado com critério é a
mais nobre e poderosa aquisição do homem.
Mas naqueles (e são em número infinito) que
nele assentam sua capacidade e seu valor,
naqueles cuja inteligência se encontra inteira
na memória (abrigados à sombra alheia, como
diz Sêneca), que nada podem sem seus livros,
eu os detesto mais ainda que a imbecilidade.
Em minha terra, nesta época, a sabedoria endi-
reita as bolsas mas só raramente melhora os
espiritos; se estes são obtusos, sufoca-os com
sua massa informe e indigesta; se são agudos
torna-os tão sutis que os esgota. É coisa sem
qualidade própria; utilíssimo acessório às
inteligências bem formadas, mas pernicioso às
outras,ou antes, preciosíssimo, porém de custo
elevado. Em certas mãos é um cetro e noutras
o chocalho do bobo do rei. Mas passemos
adiante.
Haverá mais bela vitória do que mostrar ao
adversário que não nos pode vencer? Quando
o assunto vence, vence a verdade; quando ga-
nham a ordem e o método, ganhamos nós.
Acho que, em Platão e Xenofonte, Sócrates
discute mais para os participantes do que pela
discussão mesma, e mais para instruir Euti-
demo e Protágoras acerca de suas Ra
tolices do que de sua arte. Qualquer assunto
serve de pretexto, porque seu objetivo está
menos em elucidar do que ser útil, isto é, escla-
recer os espíritos que sonda e exercita. A caça
é de nossa alçada, não é desculpável que a con-
duzamos mal; quanto a errar o golpe, é outra
coisa. Não está, como dizia Demócrito, enter-
rada no fundo de um abismo; antes se eleva ao
|
ENSAIOS — HI '
infinito até se tornar conhecida unicamente de
Deus. O mundo não passa de uma escola de
investigação. Não ganha quem corre mais,
mas quem corre melhor. E tanto pode dizer
tolices quem diz a verdade como quem mente,
pois aqui não se trata do assunto e sim da
forma. Quanto a mim, olho igualmente para o
conteúdo como pará o continente, tanto para o
advogado como para a causa, seguindo nisso o
conselho de Alcibiades. Todos os dias divirto-
me com ler autores, sem cuidar do que sabem,
analisando-lhes a maneira e não o tema. Ocor-
re-me também procurar entrar em relações
com dado espírito famoso, não para que me
ensine, mas para o conhecer. Todos podem
dizer verdades, mas dizê-las com ordem, sen-
satez e pertinência poucos o fazem. Por isso
não me ofendo com o erro que vem da igno-
rância e sim com a inépcia. Rompi várias
negociações, úteis para mim, só por causa da
estupidez das contestações daqueles com quem
eu negociava. Não me irrito sequer uma vez
por ano com as faltas de meus subordinados,
mas no que concerne à burrice e à teimosia de
suas desculpas, e à imbecilidade delas, diaria-
mente me aborreço com eles. Não entendem o
que lhes dizem, nem atinam com o porquê; e
de igual modo respondem: é de desesperar.
Somente outra cabeça pode impressionar a
minha e acomodo-me melhor com as insufi-
ciências dos meus do que com sua audácia,
impertinência e estupidez. Que façam menos,
mas alguma coisa que saibam fazer. Vive-se na
esperança de excitar-lhes a vontade, mas nada
há que arrancar de um pedaço de pau.
Talvez, entretanto, julgue eu as coisas dife-
rentes do que são. Eis por que censuro minha
impaciência e confesso que é uma falha, tanto
em quem tem razão como em quem não a tem,
porque é sempre rispidez tirânica não suportar
maneiras diferentes da nossa, e não há maior
tolice, nem mais absurda, do que impressio-
nar-nos € irritar-nos com as tolices alheias. Em
geral isso nos aborrece a nós mesmos, e o filó-
sofo antigo! 86 nunca houvera perdido a opor-
tunidade de chorar se se olhasse para si
mesmo. Mison, um dos sete sábios, cujo espi-
rito tinha algo de Timon e de Demócrito, inter-
ragado por que se ria sozinho, respondeu:
“Exatamente porque estou a rir sozinho.”
Quantas tolices ouço dizer e responder diaria-
mente! E quantas, em maior número ainda,
devem os outros ouvir de mim! Se mordo os
lábios para delas não rir, que farão os outros?
“Afinal cumpre-nos viver com os vivos e deixar
correr o marfim, sem nos preocuparmos ou, ao
menos, sem nos encolerizarmos. Pois não
186 Heráclito.
425
deparamos com gente disforme, ou aleijada
sem que nos irritemos? A irritação provém
antes do juiz que do crime. Tenhamos sempre
em mente estas palavras de Platão: “O que
considero errado, não o considerarei por estar
eu próprio em condições anormais? Não serei
eu o culpado? Não poderá minha observação
voltar-se contra mim??? Sábio e divino preceito
que fustiga o erro mais comum e universal dos
homens! Não somente as censuras que faze-
mos uns aos outros como também as razões e
argumentos e os temas de nossas controvérsias
podem voltar-se contra nós e ferir-nos. A esse
propósito legou-nos a antiguidade exemplos
edificantes. Falou muito bem e agudamente
quem disse que “cada qual aprecia o odor de
seu esterco”. Nossos olhos não vêem para trás.
Cem vezes por dia zombamos de nós mesmos
ao zombarmos de nosso vizinho; os defeitos
que detestamos em outrem são ainda mais visi-
veis em nós e no entanto os admiramos com
maravilhosa impudência sem perceber a con-
tradição. Ainda ontem pude ver um homem
inteligente e fidalgo zombar com graça e justi-
ça de outro que anda a aborrecer meio mundo
com suas genealogias e parentescos quase
todos falsos (são os que têm qualidades mais
duvidosas que se abalançam com maior entu-
siasmo a tais pesquisas); mas ele próprio, se
houvesse reparado em si, não se acharia menos
cacete em valorizar fora de propósito a linha-
gem da mulher. Que infeliz vaidade leva esse
marido a fornecer armas à sua própria esposa!
Se nos putlesse entender, caberia dizer-lhe:
“Coragem! se a não achas bastante louca,
excitas-lhe ainda a. loucura! 87.” Não quero
sugerir com isso que somente os puros têm o
direito de criticar, pois então não haveria criti-
cos; não nego tampouco esse direito a quem
exibe falha idêntica à censurada; mas acho
que, quando criticamos alguém, não nos deve-
mos poupar. E dever de caridade tentar arran-
“car dos outros um defeito, ainda que não o
possa arrancar de si próprio quem o faz. Não
me parece certo dizer a quem me adverte de
um defeito que também o encontro nele. E por
quê? Porque uma advertência justificável é
sempre útil. Se tivéssemos bom olfato, senti-
riamos mais desagradavelmente os nossos
maus odores exatamente porque são nossos.
Sócrates era de opinião que se alguém come-
tesse algum crime, juntamente com seu filho e
um estranho, deveria começar por se apresen-
tar ao carrasco e provocar sua própria puni-
ção; só depois faria o mesmo como filho e por
último com o estranho. Esse preceito pode
parecer algo severo, mas quem se acha culpa-
167 Terêncio.
426
do deve ser o primeiro a entregar-se ao castigo
da própria consciência.
Os sentidos são nossos próprios juízes e os
primeiros a julgar-nos; como só percebem as
coisas pelos acidentes exteriores, não é de
estranhar que, em todos os atos da sociedade,
haja sempre, em toda parte, quantidade de
cerimônias em que as aparências desempe-
nham papel importante e constituem a parte
mais eficiente dos regulamentos. Temos sem-'
pre que tratar com homens, e nestes o que é
tangível se sobrepõe ao que não o é.:Os que
quiseram “introduzir nestes últimos anos um
culto exclusivamente contemplativo e imate-
rial! 8º, não se devem admirar de haver quem
pense que não seria mantido, se já não se hou-
vesse tornado, entre nós, instrumento de divi-
são e discórdia; graças a isso é que vai duran-
do. O mesmo se verifica na conversação: a
gravidade, o traje, a condição social de quem
fala dão muitas vezes crédito a palavras vãs e
ineptas; pois é de presumir que um senhor tão
cortejado e temido tenha dentro de si alguma
qualidade invulgar, e que um homem que
ocupa cargos tão importantes e se mostra tão
insolente e altivo, seja mais talentoso do que o
outro que o saúda de longe e ninguém empre-
ga. E não somente as palavras, mas também os
gestos e as caretas dessas pessoas são notadas
e interpretadas de modo lisonjeiro. Se se dig-
nam conversar com outros, e não recebem
toda aprovação e deferência, esmagam-nos
com a autoridade de sua experiência. Ouviram,
viram, fizeram e enchem-nos de exemplos.
Gostaria de dizer-lhes que o fruto da expe-
riência de um cirurgião não consiste apenas
em historiar suas operações, nem em lembrar
que curou quatro pestíferos e três gotosos, mas
em saber tirar da prática maior perspicácia e
em demonstrar que se fez mais hábil em sua
arté. Deve ser como um concerto, em que não
se ouve o alaúde, ou a espineta, ou a flauta,
mas uma harmonia total, soma de todos os
instrumentos. Se as viagens e OS cargos Os
melhoraram, que o comprove seu espírito. Não
basta enumerar experiências; é preciso ainda
classificá-las e ponderar-lhes o valor; cumpre
examiná-las de perto, analisá-las, a fim de
extrair as conclusões e as razões que compor-
tam. Nunca houve tantos historiadores. É sem-
pre útil e agradável ouvi-los porque nos fran-
queiam o armazém de sua memória, cheio de
informações belas e dignas de elogios. Trata-se
por certo de um grande auxílio na vida, mas
não é, no momento, o que buscamos. O que
queremos saber é se esses compiladores e nar-
radores são eles próprios louváveis.
188 Os protestantes.
MONTAIGNE
Detesto toda espécie de tirania, tanto de
palavras como de fatos. Reteso-me contra as
circunstâncias vãs que iludem nosso julga-
mento pelos sentidos; e observando atenta-
mente esses homens que cumulam grandezas,
verifiquei tratar-se na maioria dos casos de
gente como outra qualquer e “o bom senso se
encontra raramente em pessoas de tão alto
coturno! 7º”. Não raro, porque empreendem
coisas mais ousadas e se expõem mais, julga-
mo-las e vemo-las menores.do que são, pois
não suportam então o fardo que tentam carre-
gar. É preciso que o carregador tenha mais
vigor do que pesa a carga, pois assim nos suge-
re que pode carregar mais e que' não está
dando tudo. E o que sucumbe ao peso revela a
fraqueza de seus ombros. Daí verem-se tantos
tolos entre os sábios, gente que teria dado bons
criados, agricultores, artífices. Para tanto não
careceriam de habilidade natural. A ciência é
pesada demais para eles e os esmaga. Seu
engenho e vigor não bastam para que possam
mostrar e distribuir, empregar e manejar tão
rico e poderoso material. Só as naturezas for-
tes são capazes de tal esforço, e elas são raras.
Os fracos; diz Sócrates, em a exercendo, cor-
rompem a dignidade da filosofia. Torna-se ela
inútil e viciada quando entregue aos incapazes,
os quais a estragam e prejudicam. “Como um
macaco que um menino vestiu de vestes de
seda para fingir de homem, mas deixou o tra-
seiro descoberto, para alegria dos convi-
vas! 71. 22
Assim, Os que nos regem e governa, os que
têm o mundo nas mãos, não devem possuir
apenas uma inteligência vulgar e poder o que
podemos; se não estiverem muito acima de
nós, ficarão muito abaixo. Prometem mais,
logo devem mais. Portanto, o silêncio serve-
lhes não só para assumirem uma atitude ceri-
moniosa e grave, mas também para se precave-
rem e auferirem proveitos da situação.
Megabizo fora visitar Apeles e permanecera
muito tempo sem dizer nada. Tendo-se deci-
dido a discorrer, em seguida, acerca das obras
do pintor, recebeu esta rude reprimenda:
“Enquanto te conservaste-calado, eras soberbo
com teus colares e tua magnificência; agora
que te puseste a falar, até os meus aprendizes
se riem de ti.” Seus adornos, sua condição so-
cial não lhe autorizavam uma ignorância igual
à do vulgo e a falar ineptamente de pintura.
Devera ter-se mantido silencioso para conser-
var a presunção de capacidade que seu exterior
sugeria. À quantos espíritos medíocres um ar
taciturno e distante tem servido de marca de
120 Juvenal.
171 Claudiano.
ENSAIOS — HI
prudência e capacidade! As dignidades e os
cargos dão-se necessariamente mais por acaso
do que pelo mérito; mas não temos razão de
censurar os reis. É ainda espantoso que acer-
tem com tão reduzidas possibilidades de infor-
mação. “A maior qualidade dos príncipes é
conhecer os que empregam! 72”, pois, não lhes
tendo dado a natureza uma vista suficiente
para alcançar tanta gente, e discernir os
melhores, e ver dentro de cada um seu valor
próprio, são forçados a escolher por intuição,
às apalpadelas, pelo sangue, pelas riquezas,
pelo saber, pela voz do povo, indícios, todos,
bem fracos. Quem encontrasse o meio de jul-
gar os homens com razão € justiça, asseguraria
uma perfeita organização dos serviços públi-
cos. Mas, ouve-se dizer “mas ele deu conta do
recado”. É uma razão, mas não basta, pois há
uma máxima que diz: “não se deve julgar o
valor das idéias pelos resultados”. Os cartagi-
neses puniam seus capitães quando julgavam
mãs as medidas tomadas, ainda que o resul-
tado final as corrigisse. O povo romano recu-
sou muitas vezes as honras do triunfo a gene-
rais que haviam alcançado grandes e úteis
vitórias, por considerar que seu procedimento
não correspondia à sua sorte. Vê-se não raro
neste mundo o acaso comprazer-se em dimi-
nuir nossa presunção, como que para mostrar
quanto pode. Não podendo tornar avisados os
incapazes, torna-os felizes, em oposição ao que
determinaria a virtude. Amiúde favorece as
empresas que tramou sozinho. Por isso vemos
diariamente os mais simples dentre nós levar a
cabo grandes cometimentos públicos ou parti-
culares. O persa Siranez respondeu a alguém
que se espantava com a má situação de seus
negócios, embora tão sensatos fossem seus pla-
nos, que só podia responsabilizar-se por estes;
quanto ao resultado, dependia do destino. Essa
gente inábil e feliz a que aludi, poderia dar a
resposta inversa. Na verdade, as coisas do
mundo fazem-se, em sua maioria, por si mes-
mas, “o destino abre-lhes o caminho! 732. O
resultado justifica muitas vezes uma conduta
inepta; nossa intervenção é quase um hábito
rotineiro e as mais das vezes provocada pelos
usos e costumes e não pela razão. Espantado
com as consequências de uma empresa capital
em nossa época” 74, procurei saber, dos que a
levaram a cabo suas razões e meios; verifiquei
que eram vulgares. Ocorre que os mais vulga-
res são os mais eficientes e seguros na prática,
conquanto não sejam os mais sedutores. Que
fazer, se os que têm menos valor são os mais
172 Marcial.
173 Virgílio.
174 Provavelmente os sucessos da noite de S.
Bartolomeu.
427
convenientes? E se os mais baixos e mais gas-
tos melhor se adaptam aos empreendimentos?
Para que o Conselho dos Reis conserve sua
autoridade é preciso que os profanos não assis-
tam às sessões. Quem quiser que se mantenha
intata a sua reputação, deve acatá-lo sem lhe
discutir as determinações. Quando me consul-
to, esboço apenas o tema de minhas reflexões e
o encaro superficialmente nos seus primeiros
aspectos; o principal da tarefa, tenho por hábi-
to confiá-lo ao céu: “Deixa aos deuses o
resto! ts»
A boa e a má sorte são, a meu ver, dois
poderes soberanos. É insensato pensar que a
sabedoria humana possa desempenhar o papel
do destino. Vã é a empresa de quem presume
abraçar causas e consequências e conduzir os
fatos pela mão. Principalmente nas coisas mili-
tares. Nunca se viu na guerra tanta circunspe-
ção e prudência como entre nós; será porque
temem perder-se em caminho e se reservam
para a catástrofe final?
Vou mais longe, e sustento que a nossa pró-
pria sabedoria e as nossas deliberações são, as
mais das vezes, guiadas pelo acaso. Minha
vontade e meu raciocínio pendem ora para um
lado ora para outro e muitos desses movimen-
tos se produzem sem minha intervenção.
Minha razão é sujeita a impulsos e agitações
diárias e fortuitas. “Nada varia tanto quanto
as disposições da alma; uma paixão perturba-
a, mas mudem os ventos e outra a arrasta-
rá! 78 Observe-se quem são os mais podero-
Sos nas cidades e quem vence nos negócios.
São em geral os menos hábeis. Tem ocorrido
que mulheres, crianças e loucos governem
grandes nações tão bem como os mais capa-
zes. Entre os príncipes que triunfaram afirma
Tucídides serem mais comuns os grosseiros do
que os sutis. Atribuímos entretanto à sua sabe-
doria os êxitos que deveram ao acaso: “Se vos
elevardes pela sorte hão de louvar-vos o talen-
to! 77º Isso demonstra que os acontecimentos
são frágeis testemunhos de nosso valor e
capacidade.
Dizia, acima, que basta considerar um
homem de elevada situação social; ainda que o
julgássemos sem valor três dias antes, insensi-
velmente passamos a imaginar que devia ter
capacidade e persuadimo-nos, ante sua condi-
ção presente e sua importância, de que seus
méritos também se ampliaram. Apreciamo-lo
não mais segundo o seu valor, mas de acordo
com as suas prerrogativas. Que a sorte mude
porém, que ele caia e volte a misturar-se à mul-
175 Horácio.
176 Virgílio.
177 Plauto.
428
tidão, logo indagaremos com espanto por que
motivo se guindara tão alto. Diremos: “será o
mesmo?? “Era pois tudo o que sabia?”
“Estávamos em verdade em boas mãos!” É o
que tenho visto seguidamente. E até no teatro a
grandeza nos impressiona e ilude. O que admi-
ro.eu próprio nos reis são os admiradores;
diante deles tudo deve inclinar-se, salvo a
inteligência, pois não foi à razão que ensinei a
curvar-se, foi aos joelhos. Tendo alguém per-
guntado a Melanto o que pensava de uma tra-
gédia de Dionísio, respondeu: Não a vi, a ênfa-
se ofusca-a. Os que julgam os discursos dos
grandes em geral deveriam dizer também: não
Os ouvi, ofuscavam-nos a gravidade e a majes-
tade de suas palavras. Antístenes aconselhou
de uma feita aos atenienses que empregassem
seus burros nos trabalhos da terra, como fa-
ziam com os cavalos. Responderam-lhe que o
animal não nascera para tais serviços, ao que
ele replicou: não faz mal, basta decretá-lo;
pois por mais ignorantes e incapazes que
sejam, não se tornam logo muito dignos do
encargo os homens a quem entregais a direção
da guerra? Daí o costume, comum a tantos
povos, de canonizar os reis que elegem; não se
contentam com honrá-los, adoram-nos. No
México já não ousam olhá-los de frente mal
terminam as cerimônias da sagração. Como se
o tivessem divinizado pela realeza, entre os
juramentos que lhes fazem prestar de mante-
rem a religião, as leis, as liberdades, de serem
valentes, justos e urbanos, obrigam-nos a pro-
meterem que o sol continuará a brilhar, que
haverá chuvas em tempo oportuno, que os rios
seguirão seu curso regular e a terra produzirá
as coisas necessárias ao povo.
É principalmente: quando a vejo acompa-
nhada de grandezas e de popularidade que des-
confio da competência, indo assim de encontro
a uma tendência assaz espalhada. É preciso
atentar para a vantagem de falar quando se
quer, de escolher o assunto, de interromper ou
desviar a discussão com autoridade, de se
defender das objeções alheias, com um simples
movimento de cabeça, um sorriso, um silêncio,
diante de uma assistência que treme de respei-
to. Um homem de condição social excepcional,
dando sua opinião acerca de uma questão de
nonada que se discutia à mesa, assim come-
çou: só um mentiroso ou ignorante poderia
negar que, etc. Eis um argumento filosófico
apresentado de punhal na mão.
Por princípio considero também que nas
discussões e conversas não devemos aceitar
sem reflexão os ditos que nos parecem felizes.
A maior parte dos homens é rica de compe-
tência alheia. Pode ocorrer que uma pessoa
cite uma bela frase, uma resposta ou sentença
MONTAIGNE
sem lhes perceber o alcance exato. Não assimi-
lamos tudo o que tomamos de empréstimo.
Não devemos ceder desde logo a um argumen-
tc, por mais belo que se nos afigure. Cumpre
refutá-lo francamente se estamos à altura de
fazê-lo, ou bater em retirada sob qualquer pre-
texto para melhor ponderá-lo, examinando-o
no sentido empregado pelo autor. Pois poderia,
de outra maneira, acontecer que nos lançás-
semos diante do ferro, aumentando a violência
do golpe. Apertado pelo adversário, e no
tumulto da luta, empreguei não raro réplicas
que foram muito mais eficientes do que espe-
rara e que, na realidade, eu dera tão-somente
para não me confessar sem resposta. Quando
discuto com um adversário vigoroso, aconte-
ce-me também antecipá-lo nas conclusões,
poupando-lhe o trabalho de se explicar e pro-
curando adiantar-me às idéias ainda imper-
feitas que pretende exprimir, pois a ordem e à
Justeza de seu raciocínio advertem-me e amea-
çam-me de longe. Com outros, procedo de
modo contrário, aguardo que se expliquem
integralmente. Quando se atêm a generalidades
e acertam, cabe verificar se não acertaram por
acaso. Insisto para que precisem sua opinião,
que digam como e por quê. As apreciações
gerais, tão comuns, nada significam. Os que as
emitem dão a impressão dessas pessoas que
saúdam um vovo inteiro em binco, sem discri-
minar. Os que têm conhecimentos reais, saú-
dam pelos nomes, individualmente. Mas a
empresa é arriscada. E tenho visto amiúde
espiritos mal preparados para a empreitada
fazerem-se de perspicazes, anotando na leitura
de uma obra o trecho mais belo mas o esco-
lhendo tão mal que, em lugar de realçar (o
talento do autor, revelam sua própria ignorân-
cia. Temos certeza de não errar quando excla-
mamos “como é belo” após a leitura de um tre-
cho de Virgílio, e os espertos assim fazem.
Mas empreender segui-lo passo a passo e, atra-
vés de juízos lúcidos e pertinentes, mostrar
como um escritor se realiza, analisar as pala-
vras e as frases, e os achados, nãc é coisa da
alçada de qualquer um. “Deve-se não somente
analisar as palavras, mas ainda as opiniões e
os fundamentos delas! 78.”
Ouço seguidamente tolos dizerem coisas
acertadas. Resta saber se entendem o que
dizem e de onde o tiraram. Muitas vezes nós é
que os ajudamos a empregar uma frase ou um
argumento que não são de sua autoria; têm-
nos em reserva e os apresentam ao acaso;.nós
é que lhes damos importância e valor. Nós é
gue lhes estendemos a mão. Para quê? Não
178 Cicero.
ENSAIOS — HI
nos ficam gratos por isso e não se tornam
menos ineptos. Não os ajudemos, portanto,
deixemo-los soltos; manejam essas frases
como gente que tem medo de se escaldar; não
ousam tocá-las, nem mudá-las de lugar, nem
aprofundá-las. Uma sacudidela bastaria para
que as deixem cair, para que as abandonem,
embora fortes e belas. São boas armas porém
mal encabadas. Quantas vezes fiz a experiên-
cia! Mas se nos pusermos a esclarecê-las e
confirmá-las, tirarão vantagem da interpreta-
ção: “era o que queria dizer, afirmarão. Era a
minha idéia, se não a exprimi assim foi porque
me faltou a palavra”. Insistimos. É preciso al-
guma malícia para corrigir esses vaidosos
imbecis. A máxima de Hegésias (que é preciso
não odiar nem censurar, mas ensinar) tem sua
razão de ser, porém no caso. parece-me injusto
e desumano socorrer e emendar quem o não
sabe aproveitar. Que se enleiem e se embara-
cem quanto possível para que afinal se
conheçam !
A tolice e a insensatez não se curam com
conselhos. Dessa cura pode-se dizer o que Ciro
respondeu a quem o aconselhava a exortar seu
exército antes da batalha: “os homens não se
tornam valentes e guerreiros só por ouvirem
uma boa arenga, como ninguém se torna
imediatamente músico só por ouvir uma bela
canção.” É preciso uma longa e prévia apren-
dizagem. Cumpre-nos ter esse cuidado com os
nossos; cabe-nos ensinâ-los e corrigi-los; mas
ir pregar ao primeiro sujeito que passa, escla-
recer qualquer ignorante que se encontre é prá-
tica que reprovo. Raramente o faço, mesmo
nas minhas conversações, e prefiro sustá-las a
ter de corrigir como um mestre-escola. Não sei
falar nem escrever para principiantes; e nas
conversações de ordem geral de que partici-
po, ou a que assisto, por falso e absurdo que
seja o que ouço, nunca procuro contrariar nin-
guém; nem por palavras nem por sinais. Nada
me irrita mais, porém, na estupidez, do que a
satisfação com que se exibe, maior do que
poderia ter, com certa razão, a inteligência. É
pena que a Prudência nos proíba a satisfação e
a confiança em nós e nos deixe sempre descon-
tentes e intimidados, enquanto a teimosia e a
audácia enchem os que as têm de alegria e
segurança. São sempre os menos capazes que
olham os outros de cima e voltam da luta
cheios de orgulho e disposição. Não raro a
fatuidade da linguagem e a jovialidade que
demonstram já lhes dão ganho de causa peran-
te uma assistência em geral fraca e incapaz de
julgar a verdadeira superioridade. A obstina-
ção e a convicção exagerada são a prova mais
evidente da estupidez. Haverá algo mais afir-
429
mativo, resoluto, desdenhoso, contemplativo,
grave e sério do que um burro?
Podemos também tratar, neste capítulo,
acerca da conversa e da discussão, dos propó-
sitos trocados na intimidade, entre amigos que
zombam e gracejam uns dos outros. É um
exercício em que se compraz minha vivacidade
natural, e se não é tão sério como aquele de
que acabo de falar, não é menos fino nem
menos proveitoso. Era o que pensava Licurgo.
No que me diz respeito, ponho nele mais liber-
dade do que sal e mais espírito de oportuni-
dade do que imaginação; e suporto muito bem
Q revide, ainda que âàspero e excessivo, sem me
irritar. Se quando me atacam não encontro
com que responder de imediato, não me apego
a respostas aborrecidas e frouxas, teimosa-
mente; deixo passar, curvo-me de bom grado e
aguardo ocasião propícia para a desforra. Não
há negociante que sempre ganhe. Entretanto,
em sua maioria, as-pessoas mudam de cor e de
voz em lhe faltando força; e em lugar de se vin-
garem denunciam assim sua fraqueza e sua
irritação. Com os gracejos tocamos por vezes
cordas secretas de nossas imperfeições que,
serenamente, não tocariamos sem nos ofender;
desse modo avisamo-nos uns aos outros de
nossos defeitos.
Há outros jogos em França que aborreço
mortalmente; violentos, grosseiros, levam fa-
talmente às vias de fato. Tenho a pele sensível
e já vi enterrarem dois príncipes de sangue
real. É feio bater-se brincando! 7º. E quando
desejo Julgar alguém pergunto- lhe até que
ponto está satisfeito consigo, em que medida o
que pensa e diz O satisfaz. Procuro evitar que
responda com desculpas esfarrapadas: fiz, por
brincadeira, “a obra foi tirada da forja antes de
terminada! 8º? não levei uma hora a fazê-la,
não a tornei a ver. A tais desculpas respondo:
pois deixemos isso de lado e dai-me uma obra
que vos represente bem e pela qual quereis ser
Julgado. ,E acrescento: Que achais melhor
nesta obra? Isso ou aquilo? A graça, a matê-
ria, a fantasia, o raciocínio, o saber? Por que
vejo que habitualmente tanto se erra na apre-
ciação do trabalho próprio como na do alheio.
Não somente pela afeição que interfere mas
também por falta de competência. A obra, por
sua própria virtude e por efeito do acaso, pode
ultrapassar o autor. Quanto a mim nada me
custa tanto a avaliar quanto o meu próprio tra-
balho; considero os “Ensaios” ora bons ora
ruins, com inconstância e indecisão. Há livros
úteis pelo assunto mas que não valorizam os
autores, e bons livros à semelhança de certas
175 Montaigne refere-se as justas. (N. do T.)
180 Ovídio.
430
tarefas que envergonham o artífice. Posso
escrever sobre as regras de bem comer e de
bem vestir, e escrever de má vontade; posso
publicar os editos de nosso tempo e as missi-
vas dos principes que desempenharam mis-
sões, ou fazer um resumo de um bom livro
(embora todo resumo de um livro seja absur-
do) que venha a perder-se, e outras tantas coi-
sas análogas. Tais obras poderão ser de grande
utilidade para os pósteros, mas a honra que
poderei auferir dependerá unicamente da sorte.
Boa parte de livros famosos é desse genero.
Anos atrás, lendo Filipe de Comines, bom
autor por certo, notei essa frase singular: “que
é preciso não prestar ao senhor tantos serviços
que se lhe torne impossível encontrar uma
recompensa adequada”. A idéia é louvável,
mas não é dele. Encontrei-a não faz muito em
Tácito: “os favores são agradáveis enquanto
os podemos pagar; além desse limite tornam-se
odiosos”. Sêneca diz também: “Quem acha
vergonhoso não pagar, não deseja ter credo-
res.” E em Cícero encontra-se igualmente:
“Não pode ser nosso amigo quem não se jul-
gue quite conosco.” O assunto tratado pode,
segundo sua natureza, revelar um homem de
saber e memória, mas para julgar o que lhe
pertence de fato, para apreciar a força e a bele-
za de seu espírito, é necessário verificar o que
é seu e o que não é; e, nisto que não é seu, o
que se lhe deve pela escolha, ordenação e lin-
guagem. Pode também ter pilhado o assunto e
piorado a forma, como acontece muitas vezes.
Nós, que não estamos familiarizados com os
livros, vemo-nos embaraçados quando depara-
mos com alguma bela imagem em um poeta
recente, um forte argumento em um pregador;
não ousamos louvá-los antes de indagar de
algum sábio se o trecho é deles ou não. E até lá
fico de pé atrás.
Acabo de percorrer de um fôlego a história
de Tácito (o que só raramente me acontece,
pois há vinte anos não dedico à leitura mais de
uma hora seguida). Filo a conselho de um
fidalgo que a França muito aprecia, tanto pelo
seu valor pessoal como pelos méritos que tem
em comum com seus vários irmãos. Não sei de
autor que junte aos fatos da história tantas
considerações acerca dos costumes e tempera-
mentos dos indivíduos. Acredito, ao contrário
do que lhe parece, que, tendo de tratar da vida
dos imperadores de seu tempo, tão diversas e
excepcionais em tudo, e relatar seus gestos e
crueldades, tinha assunto mais interessante e
instrutivo do que se devesse falar de batalhas e
revoluções; por isso, quando passa rapida-
mente por cima de tão belas mortes, acho que
não tira delas todos os ensinamentos que com-
MONTAIGNE
portam. Dir-se-ia que receia fatigar-nos e ente-
diar-nos com o seu número. Essa forma da his-
tória é, de muito, a mais útil, pois os
movimentos públicos dependem principal-
mente do acaso e os particulares de nós mes-
mos. Tácito julga os fatos ocorridos, mais do
que os relata; há nele mais preceitos do que
narrativas. Não é o seu um livro de simples lei-
tura, e sim de estudo e meditação; tão cheio de
sentenças que as encontramos a torto e a direi-
to. É uma mina de reflexões morais e políticas
úteis aos que governam o mundo. Assenta-as
sempre em razões sólidas e vigorosas, incisivas
e sutis, no estilo afetado daquela época em que
tanto se apreciava a afetação que, se não a ti-
nham as coisas, tinham-na obrigatoriamente
as palavras. Sua maneira de escrever asseme-
lha-se à de Sêneca, mas parece mais densa,
enquanto a de Sêneca é mais viva. É bem ade-
quada a uma situação perturbada como a
nossa de hoje. E dir-se-ia que é a nós que pinta
e critica. Os que duvidam de sua sinceridade
demonstram que as causas de não o aprecia-
rem são outras na realidade. Suas opiniões são
sensatas e ele pertence ao melhor dos partidos
que dividiam Roma. Lamento entretanto que
tenha julgado Pompeu mais severamente do
que os homens de bem que o conheceram, e
que o coloque ao lado de Mário e Sila, consi-
derando-o porém mais dissimulado. Indiscuti-
velmente as pretensões de Pompeu ao governo
não foram isentas de ambição nem de desejo
de vingança, e seus próprios amigos receavam
que a vitória o levasse a ultrapassar certos
limites e a praticar as crueldades e a tirania
que o historiador lhe imputa. Mas como não se
deve igualar a suspeita à evidência, não creio
muito no que diz. Poder-se-ia considerar as
narrativas de Tácito verdadeiras e sinceras, em
virtude mesmo de não se adaptarem sempre.
com precisão a seus juízos, nos quais atende a
idéias preconcebidas, qualquer que seja o
rumo tomado pelos fatos que conta. Aprova as
crenças de seu tempo e obedece assim ao que
lhe ordenavam as leis; não hã portanto como
censurá-lo por ignorar a verdadeira religião.
Isso é uma infelicidade, no seu caso; não um
defeito.
Procurei penetrar seus juízos, mas em al-
guns pontos não os entendi inteiramente.
Assim no que diz respeito à carta que Tibério,
velho e doente, enviou ao Senado:
“Escrever-vos-ei, senhores? Como vos escreve-
rei? Ou não vos escreverei? Mas na hora atual
os deuses e as deusas resolveram por certo a
minha desgraça, pois sinto-a dia a dia mais
aproximar-se.” Não compreendo por que Táci-
to vê nessas palavras a prova de que a cons-
ciência de Tibério se enchia de remorsos.
ENSAIOS — HI
Lendo esse trecho não tive essa impressão.
Parece-me também pouco corajoso que,
tendo de dizer que exerceu em Roma certa
magistratura honrosa, se desculpe a fim de que
não se imagine que o diz por vaidade. É humil-
dade demais para uma alma de tal enverga-
dura; não ousar falar com franqueza de si, re-
vela falta de coragem. Um espírito franco e
elevado, que julga sadia e seguramente, usa
seus próprios exemplos como coisa alheia e
apresenta seu testemunho como apresentaria o
de outra pessoa. É preciso desprêzar as regras
vulgares da boa educação, quando sé está a
serviço da verdade e da liberdade. Não somen-
te ouso falar de mim mas ainda falar só de
mim; e quando falo de outra coisa, ehgano-me,
fujo ao assunto. Não me estimo a ponto de não
poder distinguir-me e considerar-mê como a
um vizinho ou árvore. Tanto é erro não vei até
onde vai o próprio valor como dizer mais do
que aquilo que se vê. Devemos amar a Deus
mais do que a nós mesmos; conhecemo-lo
menos; e no entanto falamos d'Ele quando
queremos.
Se seus escritos podem levar-nos a perceber
alguma coisa de sua natureza, Tácito foi um
homem reto e corajoso, sem superstições e
dono de uma alma generosa de filósofo. Pode-
remos achá-lo temerário em suas afirmações;
como quando conta que um soldado carre-
gando um feixe de lenha teve as mãos geladas
e coladas à carga, não podendo desprendê-las
desta por se terem separado dos braços. O que
nos diz de Vespasiano, o qual graças à prote-
ção do deus Serápio curou em Alexandria uma
cega untando-lhe os olhos com saliva, é tam-
bém exagerado. Mas ele faz então o que fazem
431
todos os historiadores que registram não ape-
nas os acontecimentos importantes, mas igual-
mente os boatos e as fábulas populares. É seu
papel contar e não criticar. Esta parte cabe aos
teólogos e aos filósofos, que são diretores espi-
rituais. Contudo, como disse Quinto Cúrcio,
seu confrade ilustre: “conto mais coisas do que
as que creio; por um lado não ouso afirmar
aquilo de que duvido e por outro não quero
suprimir o que me narram”. E outro disse:
“Não vale a pena afirmar ou refutar, temos
que confiar na tradição! 81,”
Embora escrevendo em um tempo em que
principiava a diminuir a crença nos milagres,
diz que não deseja deixar de registrar nos seus
anais as coisas de que tem notícia por inter-
médio de gente de bem e de respeito. E estã
certo. A história deve escrever-se de acordo
com os fatos de que temos conhecimento e não
em atenção à nossa opinião própria. Eu que
sou rei no assunto de que trato, que não devo
contas a ninguém, nao acredito inteiramente
em mim. Atrevo-me por vezes a expressões que
considero temerárias e desconfio de certas suti-
lezas que me escapam. Vejo quem se jacte de:
coisas semelhantes. Não me cabe julgar sozi-
nho. Apresento-me de pé e deitado, de frente e
de trás, de direita e de esquerda, tal qual sou
realmente. Os espíritos iguais em força não o
são sempre em capacidade de apreciação e
gosto.
Eis O que, a respeito desse historiador, me
vem à memória de um modo geral e assaz
incerto. Nessas condições, quaisquer juízos
são por certo vagos e incompletos.
181 Tito Lívio.
CapíTULO IX
Da vaidade
Não haverá talvez maior vaidade de que
escrever sobre esta e tão inutilmente. O que
Deus tão divinamente exprimiu, deveria ser
cuidadosa e constantemente meditado pelas
pessoas inteligentes. Quem não vê que, en-
quanto houver papel e tinta seguirei sem parar
o caminho que adotei? Não posso manter um
diário de minhas ações porque não as valori-*
zou a sorte; reconstituo por isso a minha vida
com minhas idéias. Por que não? Pois não
conheci um fidalgo que só tomava conhecido o
que em sua vida se relacionava com o ventre?
Viam-se expostos em sua casa inúmeros uri-
nóis com os resíduos de sete ou oito dias; eram
o objeto de seus estudos e o assunto de sua
conversação; qualquer outro tema o aborrecia.
O que exponho aqui é um pouco mais decente:
as lucubrações mal digeridas de um espírito
envelhecido e ora prolixo, ora reservado. E não
sei quando se aquietará essa agitação das mi-
nhas idéias a propósito de todas as matérias,
porquanto Diógenes, que se ocupou unica-
mente de gramática, encheu seis mil volumes
com as suas. E se o simples balbucio dos
432
preâmbulos da linguagem deu para infligir ao
mundo a horrível carga de tanto livro, que não
acontecerá com o. meu palavrório? Quanta
palavra para tratar da palavra! Censuraram a
Galba a ociosidade em,que vivia. Respondeu
ele que “é necessário prestar contas dos atos,
não do repouso”. No que se enganava. A justi-
'ça também se ocupa dos que não trabalham e
deles desconfia.
Deveria haver leis que punissem os escrito-
res ineptos e inúteis, como existem para Os
vagabundos e malandros. Assim se arranca-
riam das mãos do povo minhas obras e muitas
outras. Não se trata de uma brincadeira. A
mania de escrever parece ser sintoma de um
século perturbado. Nunca escrevemos mais do
que depois que a era das agitações se iniciou. E
os romanos nunca o fizeram tanto como na
época de sua decadência. Além do fato de não
serem os progressos do espírito o que-torna
prudente do ponto de vista político, essa ocu-
pação ociosa, do trabalho da pena, nasce do
desinteresse que demonstramos pelos deveres
de nossos cargos. A corrupção do século
deve-se à cooperação de cada um de nós em
particular; uns contribuem com a traição, ou
tros com a iniquidade, a irreligião, a tirania, a
avareza, a crueldade, segundo as suas forças;
os mais fracos dão a estupidez, a vaidade, a
ociosidade; sou destes. Parece-me que, quando
o mal nos cerca de todos os lados, é chegada a
hora da frivolidade. Em um momento em que a
maldade se exerce impunemente, ser apenas
inútil merece louvores. Consolo-me com pen-.
sar que se a justiça se interessasse pelo assun-
to, seria eu dos últimos a sofrer. Enquanto se
ocupasse dos que mais incomodam, teria
tempo bastante para me corrigir, pois não fora
razoável que se buscassem os miúdos en-
quanto pululam os grandes. O médico Filoti-
no, vendo pelo aspecto e o hálito que o indivi-
duo que lhe apresentava o dedo machucado
tinha uma úlcera nos pulmões, disse-lhe: “meu
amigo, não estás na hora de fazer as unhas”.
Vi há alguns anos um personagem, cuja
memória me é cara, que, em meio a nossas des-
graças, em uma época em que não havia leis,
nem lustiça, nem magistrado cumprindo seu
dever (e isso não mudou em verdade), se pôs a
publicar um livro acerca de insignificantes
reformas no vestuário, na cozinha e nos pro-
cessos. Com tais divertimentos tenta-se mos-
trar a um povo maltratado que não se esque-
ceu dele por completo. Fazem o mesmo os que
nos momentos críticos proíbem danças, jogos
e certas formas de linguagem a uma multidão
entregue a todos os excessos. Não é quando se
tem uma forte febre que se vai pensar em
lavar-se. Somenie os espartanos se penteavam
MONTAIGNE
e se enfeitavam para uma empresa em que
arriscassem a vida. Quanto a mim, tenho o
péssimo costume de só me arranjar por inteiro,
e se o sapato foi mal calçado deixo também de
través a capa e a camisa. Quando me encontro
em situação dificil, obstino-me em continuar;
abandono-me por desespero, não me detenho
mais na queda e deixo tudo ao deus-dará, não
mais me considerando digno de meus próprios
cuidados. Em mim tudo tem que ser inteira-
mente certo ou inteiramente errado. Consola-
me, entretanto, verificar que esse desolador es-
tado mental se observe em uma idade não
menos lamentável; é menos doloroso ter meus
males agravados agora do que se me houves-
sem dominado em tempos idos. As palavras
que me escapam nos momentos de infelicidade
são palavras de despeito; minha coragem irri-
ta-se, não cede. Ao contrário dos outros, sou
mais devoto na felicidade do que na desgraça.
Sigo o preceito de Xenofonte, mas não pelas
mesmas razões, e antes ergo os olhos aos céus
a fim de agradecer do que para solicitar; zelo
mais pela minha saúde quando me sinto bem
do que me esforço por recuperá-la se vai mal.
A prosperidade sugere-me a disciplina e o
dever, da mesma forma que as contrariedades
e castigos corrigem outros, pois em geral as
pessoas tornam-se honradas na adversidade,
como se a sorte fosse incompatível com a
consciência. A fortuna propícia incita-me à
moderação e à modéstia. A súplica conquista-
me, a ameaça irrita-me; o favor amolece-me, o
temor entesa-me.
É da natureza humana agradar-se mais do
alheio do que do próprio; gostamos do movi-
mento e das mudanças: “e o dia só nos apraz
porque cada hora apresenta aspectos diferen-
tes!82?, Assim sou eu. Outros vão ao extremo
oposto, agradam-se de si mesmos, apreciam
acima de tudo o que possuem, não admitem
que haja formas mais belas do que as que
vêem. Se não são mais avisados do que nós,
são mais felizes ao menos. Não lhes invejo a
sabedoria e sim a felicidade.
Essa ânsia permanente de novidades muito
contribui para alimentar em mim o amor às
viagens, a que me incitam também outras
circunstâncias e, em particular, o prazer com
que me afasto da direção de minha casa. Não
deixa de ser agradável mandar, ainda que em
uma simples granja e ser obedecido, mas é úm
prazer monótono, insípido e que comporta
algumas preocupações penosas: ora a indi-
gência e a opressão que pesam sobre os subal-
ternos, ora as discussões e demandas com os
182 Petrônio.
ENSAIOS — II 433
vizinhos: “os vinhedos que o granizo devasta,
as árvores e os campos que sofrem com a
estiagem; a canícula e o frio rigoroso que des-
fazem nossos sonhos!*3?, Não dura sequer
seis meses o bom tempo capaz de contentar
inteiramente o administrador, mesmo porque
em beneficiando a vinha pode prejudicar os
prados: “Ora um sol violento tosta o grão; ora
as chuvas inesperadas e as duras geadas des-
troem a colheita; ora o turbilhão do vento as
dispersa! 8 *”?. Cada um sabe onde lhe aperta o
sapato, por novo e bem feito que seja, e o
estranho ignora quanto! nos custa manter a
harmonia aparente da família, e que talvez a
paguemos demasiado caro.
Assumi tarde a administração de minha
casa; meus predecessores dispensaram-me do
encargo durante muito tempo, e quando che-
gou a minha vez já trazia arraigados outros
hábitos mais gratos a meu temperamento.
Entretanto, pelo que vi, trata-se de uma ativi-
dade mais absorvente do que difícil; quem tem
capacidade para outra coisa, tem também para
essa. Se tivesse ambicionado enriquecer-me,
esse caminho não me seduziria por ser longo
demais; preferiria colocar-me a serviço dos
reis, negócio sem dúvida bem mais lucrativo.
Mas como pretendo apenas não dissipar meu
patrimônio, embora nada lhe acrescendo (o
que está de acordo aliás com esta vida que vou
vivendo) e sem nada fazer de particularmente
importante, não me tem sido dificil, graças a
Deus, cuidar dos meus interesses sem maiores .
percalços. Na pior das hipóteses, pcde-se sem-
pre prevenir a pobreza reduzindo-se os gastos;
por isso, desde já restrinjo os meus, antes que a
tanto ela me obrigue. Aliás, consegui pouco a
pouco contentar-me, sem sacrifício, com
menos do que possuo: “Não se deve avaliar a
fortuna pela renda, mas pelas necessida-
des!85)” As minhas não absorvem os meus
haveres a ponto de não me permitir atender
ainda a alguma desgraça ocasional. Por igno-
rante e desdenhoso que seja dos negócios
domésticos, minha presença contribui para
mantê-los em ordem. Embora de má vontade,
esforço-me por olhá-los, mesmo porque quan-
do me ausento não poupo de um lado a vela
que se queima de outro.
As viagens só me aborrecem por causa das
despesas, sempre grandes demais para as mi-
nhas posses, tanto mais quánto não estou acos-
tumado a viajar apenas com a criadagem
indispensável; quero fazê-lo de um modo hon-
roso. Por isso, devo espaçá-las e encurtá-las,
183 Horácio.
184 Tucrécio.
185 Cícero.
nelas empregando unicamente as sobras e as
reservas segundo as possibilidades do momen-
to. Não desejo que o prazer do passeio prejudi-
que o do repouso; acho ao contrário que preci-
sam completar-se sendo úteis um ao outro
reciprocamente. Ajudou-me a sorte desse
ponto de vista, porque, preocupado antes de
tudo com levar uma vida sossegada, não me
obrigou a pensar em aumentar minhas rique-
zas a fim de prover as necessidades de numero-
sos herdeirós. Tenho apenas uma filha; se não
lhe bastar o que me foi amplamente suficiente,
tanto pior para ela. Sua imprudência não terá
merecido outra coisa. Segundo o exemplo de
Fócion, o que quer que deixemos aos nossos fi-
lhos é bastante, desde que se pareçam conosco.
E não estou de acordo com Crates que deposi-
tou todo o seu dinheiro nas mãos de um ban-
queiro, determinando que se seus filhos fossem
imbecis lhes distribuísse a importância e se
fossem inteligentes entregasse a outros imbe-
cis. Como se os êstúpidos, em sendo menos
capazes de viver sem dinheiro, devessem gas-
tá-lo melhor ! Em todo caso, os danos que pos-
sam advir de minha ausência não me parecem
exigir de mim que me prive, enquanto o possa,
das oportunidades de esquecer essa melancó-
lica assistência. Hã sempre algo que não anda
direito. Aborrece-me o que ocorre aqui ou ali;
vemos tudo de muito perto e a perspicácia
prejudica-nos sempre. Evito zangar-me e finjo
não, ver as coisas erradas; mas não posso fazer
com que não depare de quando em vez algo
desagradável. E as malandragens que mais se
ocultam são as que melhor conheço há muito;
e algumas há que convém esforçar-se por
esconder, para que não tenham consequências
mais graves. Coisas de nonada, dirão; mas por
miúdas que sejam não deixam de enfastiar. E,
assim como os caracteres pequenos cansam a
vista, os aborrecimentos insignificantes são os
que mais irritam. A multidão de pequenas
contrariedades enerva mais do que um grande
mal. Quanto mais miúdos os espinhos domês-
ticos menos desconfiamos deles e mais nos
ferem inesperadamente. Não sou filósofo, por
isso sinto os males na medida: em que me atin-
gem; e pesam segundo sua forma e substância,
e por vezes mais do que fora razoável. Vejo-os
melhor do que o vulgo, embora tenha mais
paciência; e ainda que não me magoem me
fatigam. A vida é coisa delicada e facilmente
se turva. Qualquer motivo de aborrecimento,
por tolo que “seja, leva-me a um. mau humor
que se amplia e se exaspera aos poucos. “Não
resisto à primeira impressão! º 8.” E água mole
186 Sêneca.
434
em pedra dura tanto bate até que fura, pois,
como dizia Lucrécio, a àgua fura o rochedo.
Essas pequenas amolações cotidianas cor-
roem-me, ulceram-me; repetidas assim, não
são nunca insignificantes, e tornam-se sem
remédio quando provêm de pessoas da família,
com quem não há como romper relações.
Encarando meus negócios de longe e em con-
junto, acho (talvez por não os ter bem em
mente) que prosperaram mais do que fora de
esperar. Parece-me que'o rendimento é maior.
Mas quando volto à direção dos mesinos, inú-
meros pormenores me atormentam: “então
minha alma se reparte entre mil inquieta-
ções! 87”. É-me fácil abandoná-tos por com-
pleto; o difícil é é voltar a eles. É triste estarmos
em um lugar onde tudo o que vemos preocupa
e depende de nós. Creio que me sentiria bem
mais alegre em uma casa estranha, pois estaria
mais livre e à vontade. Nisso estou com Dióge-
nes que respondia a quem lhe indagava que
vinho preferia: “o que não é meu”.
Meu pai gostava de construir em Montaig-
“ne, onde nascera, e em tudo o que diz respeito
às questões domésticas atenho-me a seu exem-
plo e procuro fazer com que do mesmo modo
ajam os que me sucederem. O que puder reali-
zar em atenção à sua vontade sempre o farei e
se mandei terminar um pedaço de muro ou
retificar algo mal executado, foi pensando em
sua intenção mais do que em minha comodi-
dade. E censuro-me a indolência que me impe-
diu de levar a cabo a reforma que ele iniciara,
tanto mais quanto me arrisco a ser o último
varão da família e o último a tocar na mansão.
Mas não tenho queda para as construções, que
afirmam ser coisa agradável, nem para a caça,
a jardinagem ou as ocupações inerentes a uma
vida de campo. Nada disso me diverte muito.
Como não me interessam as opiniões que se
possam tornar fontes de dificuldades para
mim; não as quero robustas e esclarecidas e
sim fáceis e cômodas. Serão suficientemente
sas e justas, se se mostrarem úteis e derem pra-
zer. Os que me ouvem dizer de minha incapa-
cidade em assuntos domésticos consideram
que o afirmo por desdém. E pensam que se
negligencio de conhecer os instrumentos neces-
sários aos trabalhos do campo, as estações
adequadas, a ordem a ser observada, a manei-
ra de fazer o vinho ou de enxertar as árvores,
'os nomes das plantas e dos frutos, o modo de
preparar as carnes que comemos € o preço dos
tecidos com que nos vestimos, é porque me de-
dico a ciências mais importantes. Irritam-me
profundamente com suas reflexões. Se assim
187 Virgílio.
- MONTAIGNE
fosse, seria tolice minha; não haveria de que
vangloriar-me. Na realidade eu preferiria ser
bom escudeiro a ser bom lógico: “Por que não
te ocupas com coisas úteis, com fazer cestos de
palha ou de junco!887” Enchemos a cabeça
com idéias gerais, com as causas dos sucessos
universais, os quais dispensam perfeitamente o
nosso interesse, e esquecemos o que diz res-
peito ao homem e a nós mesmos.
Vivo em minha casa a maior parte do tempo
e gostaria de nela comprazer-me mais do que
alhures. “Após tantas viagens por terras e
mares, após tantos combates, possa eu enfim
aí encontrar o repouso na velhice! 8º!” Não
sei se O conseguirei. Gostaria de ter herdado de
meu pai, em lugar de outras coisas, o amor
apaixonado que devotava à administração de
seus bens. Era feliz em geri-la, adaptando-se
ao que possuia. As pessoas que se dedicam aos
grandes problemas políticos poderiam acenar-
me com a mesquinhez de minha atividade; isso
pouco me importaria se jamais viesse a seguir
meu pai em seus gostos. Acho que servir ao
público e ser útil ao maior número é o que há
de mais honroso, “nunca apreciamos melhor
os frutos do gênio e da virtude como quando
os repartimos com o próximo!ºº”: mas,
. pessoalmente, renunciei a essa ambição por
covardia e consciência; tais encargos pare-
cem-me tão pesados que tenho a convicção de
não poder desempenhá-los. Platão, quê era um
mestre em tudo o que respeita ao governo dos
Estados, absteve-se entretanto de aceitar quais-
quer funções. Contento-me em gozar a vida
sem demasiado ardor, porém; em levar uma
existência simplesmente suportável que não
seja uma carga nem para mim nem para os
outros.
Ninguém mais do que eu se entregaria mais
totalmente e de bom grado à administração de
terceiros se o pudesse. Um de meus desejos é
encontrar um genro que me auxilie a retirar-me
dos negócios. Deixar-lhe-ia a direção de meus
bens e a possibilidade de fazer o que faço e de
tirar de sua atividade todos os benefícios, con-
quanto se mostrasse reconhecido e amigo. Mas
vivemos em um mundo em que a lealdade não
existe, nem mesmo nos próprios filhos.
Quem se encarrega de minhas despesas em
viagem, age sem controle algum de minha
parte. Aliás, poderia roubar-me da mesma
forma se eu contasse. E assim, a menos que
seja um malandro, uma tal confiança obriga-o
a andar direito. “Muitos induzem ao ludíbrio
188 Virgílio.
18º Horácio.
190 Cícero.
ENSAIOS — II
com seu receio de ser ludibriado; a suspeita
justifica o pecado!º!.? A garantia que tenho
de meus subordinados consiste unicamente em
desconhecê-los. Não presumo os vícios, e con-
“fio de preferência nos mais jovens por conside-
rar que estão menos pervertidos pelos maus
exemplos. É-me menos desagradável saber ao
fim de dois meses que esbanjei quatrocentos
escudos, do que ter diariamente aos ouvidos a
relação das despesas. Nem por isso tenho sido
“mais roubado do que outros. Ignoro-o em ver-
dade, pois nunca sei, exatamente, e de caso
pensado, quanto tenho; e até certo ponto agra-
da-me essa incerteza. É preciso reservar uma
pequena margem para a deslealdade ou a
impudência dos servidores. Se possuímos com
“ que manter despreocupadamente a nossa posi- -
ção social, abandonemos aos subalternos o
excedente do que a liberalidade do destino nos
outorgou: é a parte do respigador. Em suma,
não me preocupa a honestidade de meus servi-
dores, nem me atinge o que possam fazer-me.
Vil e tola atividade, eSsa que consiste em lidar
permanentemente com dinheiro, contando-o e
pesando-o ! Por esse caminho é que se chega à
avareza.
Durante os dezoito anos em que venho
administrando os meus bens, nunca me dei ao
trabalho de examinar documentos e títulos de
propriedade que deveria conhecer a fundo.
Não por desprezo filosófico pelas coisas deste
mundo, as quais avalio com objetividade, mas
tão-somente por preguiça e negligência pueris
e incuráveis. Tudo posso sacrificar para não
ser obrigado a ler esse papelório que me torna-
ria escravo de meus negócios e até dos negó-
cios alheios, como ocorre com quem se
impressiona com o dinheiro. Nada me abor-
rece tanto como as preocupações e as fadigas;
ambiciono apenas sossego e lazeres. De bom
grado, creio, viveria a expensas de outrem,
conquanto isso não implicasse em obrigações e
servidão. Dado o meu temperamento e a
minha condição, e considerando o que devo
suportar de meus criados e familiares, não sei
se não há nisso maior abjeção e desagrado do
que em figurar entre os servidores de um fidal-
go de maiores posses e que lhes dê uma-certa
independência. “A escravidão consiste na
sujeição de uma alma covarde e fraca, desti-
tuída de livre arbítrio'º2.” Crates foi além;
colocou-se sob a salvaguarda da pobreza a fim
de se libertar dos cuidados do lar. Não o faria
eu, porque detesto a pobreza tanto quanto o
sofrimento; mas com prazer trocaria minha
vida por outra menos nobre e ativa.
191 Sêneca.
182 Cícero.
435
Em viagem, deixo de lado toda preocupa-
ção, e a queda de uma torre me comoveria
menos do que a de uma telha, se presente. De
longe, meu espírito desprende-se de tudo, mas
de perto sofro com o que ocorre, como de resto
qualquer vinhateiro. Uma rédea mal ajustada
ao meu cavalo, um estribo que me incomode a
perna, preocupam-me um dia inteiro. Sustento
o ânimo ante quaisquer ocorrências, mas não
posso fazer o mesmo com os olhos: “como
dominamos pouco os sentidos, ó deuses !”
Em casa sou responsável por tudo o que vai
mal. Poucos senhores (de condições iguais às
minhas) podem (e são felizes se o podem) des-
cansar em alguém sem que tenham de suportar
anda boa parte dos encargos. Isso influi na
maneira pela qual recebo meus hóspedes e sem
dúvida. alguns terão ficado mais tempo em
minha companhia por causa da cozinha do
que do tratamento. Assim perco muito do pra-
zer que pudera auferir das visitas dos meus
amigos. A mais tola atitude que pode assumir
um fidalgo em sua casa, está em mostrar-se
incomodado com o serviço, falando ao ouvido
de um criado ou ameaçando outro com o
olhar. É preciso que tudo corra bem e siga seu
curso normal sem que se perceba. Acho desa-
gradável entreter os hóspedes acerca do que
por eles fazemos, seja para nos desculparmos
seja para nos exibirmos. Gosto da ordem e da
limpeza e as prefiro à abundância: “Quero que
pratos e copos reflitam minha imagem!º3,”
Atento para o que é necessário e não aprecio a
ostentação. Se estamos em casa alheia e um la-
caio se pega com outro ou derruba um prato,
rimos apenas. Dormimos enquanto nosso hos-
pedeiro combina com seu mordomo o que há
de oferecer no dia seguinte. O que digo refere-
se a mim apenas, pois reconheço que deve
constituir doce tarefa, para as naturezas incli-
nadas a isso, zelar pela tranquilidade da casa,
e pela sua prosperidade e ordem. Esse estado
de coisas que me perturba, atribuo-o aos
embaraços que eu próprio crio, e não tenho a
menor intenção de contradizer Platão, o qual
julgava ser a ocupação mais feliz “tratar de
seus próprios negócios sem causar prejuízo a
ninguém”.
Em viagem penso apenas em mim e no
emprego de meu dinheiro, o que depende de
uma simples ordem. Para juntá-lo, ao contrá-
rio, cumpre recorrer a numerosas fontes e não
entendo disso. Entendo mais de gastar e de
como gastar, pois a tanto se destina o dinheiro;
mas não sei equilibrar meus gastos e os reparto
desigualmente, de um modo exagerado em um
183 Horácio.
436
sentido ou noutro. Se contribuem para uma
satisfação pessoal, despendo sem contar; mas
se não me contentam particularmente ou não
me prestigiam, restrinjo-os ao máximo. Seja
por artifício, ou por impulso natural, o fato de
viver a compararmo-nos com os outros causa-
nos mais prejuizos do que benefícios. Priva-
mo-nos do que nos é útil para fazer tomo os
demais. E menos nos importam as condições
em que vivemos, e suas consequências, do que
o que exibimos em público. Os próprios bens
do espírito, e a sabedoria, parecem-nos sem
sabor se os gozamos longe da vista e da apro-
vação das pessoas que nos são estranhas. Há
indivíduos cujo ouro corre em torrentes subter-
râneas e invisíveis, enquanto outros o: exibem
em placas ou folhas. Desse modo para uns os
soldos valem escudos e para outros o contrá-
rio. O mundo julga pelo que vê. Cuidar dema-
siado da riqueza sabe a avareza; distribuí-la
com liberalidade ordenada e voluntária exige
uma atenção penosa. Quem procura gastar
com precisão gasta demasiado estritamente e
como que constrangido. Guardar e gastar são
coisas indiferentes em si mesmas; tornam-se
boas ou más de acordo com as nossas ações.
Outra razão que me induz a viajar é o desa-
cordo em que me encontro em relação aos cos-
tumes de nosso momento presente. Facilmente
me consolaria dessa corrupção tendo em conta
o interesse geral: “Suportaria estes tempos pio-
res do que a idade do ferro, em que faltam
nomes para os crimes e que a natureza não
pode: designar por nenhum novo metal!º 4”,
mas no que me diz respeito sofro demasiado,
pois, em consegiiência dos desregramentos ine-
rentes a nossas guerras civis, toda a vida
decorre em um ambiente perturbado: “em que
Justo e injusto se confundem"º 5”. “Lavram a
terra armados, diariamente cometem atos de
banditismo e vivem de saques"? 8,” Pelo nosso
exemplo verifico que a sociedade humana se
perpetua de qualquer forma, aconteça o que
acontecer. De qualquer jeito que se coloquem
os homens, juntam-se e se ordenam, como
esses objetos heterogêneos que pomos no bolso
e que acabam por se ajeitar sozinhos, por
vezes melhor do que O faríamos. O Rei Filipe
reuniu os indivíduos mais perversos £ incorri-
gíveis que pôde encontrar e os instalou em
uma cidade que mandou construir especial-
mente para eles e que lhes tomou o nome. A
meu ver essa. sociedade heteróclita ter-se-á
constituído desde logo em estado político
baseado nos próprios vícios dos habitantes, os
194 Juvenal.
195 Virgílio.
196 Id.
MONTAIGNE .
quais nela terão implantado por certo uma
ordem e uma justiça. Vejo emnossos dias não
fatos isolados, mas costumes aceitos, tão fero-
zes, desumanos e desleais — o que na minha
opinião é o pior — que não os posso conceber
sem horror. Mas admiro-os quase tanto quanto
os detesto, ao verificar que a execução de tão
incríveis crueldades testemunha igualmente
vigor e resolução, erro e maldade. A necessi-
dade reúne e acomoda os homens e essa liga-
ção fortuita transforma-se em seguida em leis;
e algumas dessas leis, entre as quais se depa-
ram as mais selvagens imagináveis, deram
resultados mais felizes e duradouros do que as
que Piatão e Aristóteles teriam sido capazes de
fazer. Pois todas as medidas imaginadas artifi-
cialmente revelam-se ridículas e ineptas na
prática.
Essas grandes e prolixas discussões acerca
da melhor forma de governo somente são úteis
como exercícios espirituais, semelhantes nisso
a certas questões artísticas que só interessam
como temas de controvérsia, porquanto fora
desse clima não existem. Alguns desses proje-
tos de governo poderiam talvez aplicar-se a um
mundo novo, mas estamos em um mundo já
velho em que reinam certos costumes; não o
criamos, nós outros, como fizeram Pirro ou
Cadmo. Quaisquer que sejam as possibilidades
que tenhamos de corrigiilo e reorganizá-lo,
não podemos, sem o quebrar, dobrâ-lo-até per-
der o vinco antigo. Perguntaram a Sólon se as
leis que dera aos atenienses eram as melhores
possíveis. “Sem dúvida, respondeu, em relação
às que tinham antes.” Varro desculpa-se no
mesmo sentido, dizendo que, se tivesse de
escrever sobre uma nova religião, exporia O
que pensava, mas, estando a religião já consti-
tuída e aceita, precisava ater-se ao uso mais do
que à natureza.
A melhor forma de governo de um país é
aquela que vem sendo adotada tradicional-
mente e não a ideal, pois sua eficiência depen-
de somente dos costumes. Nós nos. queixamos
das condições presentes; mas creio errado que-
rer, em uma democracia, que o poder se con-
centre em poucas mãos, ou, numa monarquia,
que outro governo substitua o existente: |
“Ama o Estado como é; |
se é monarquia, ama a majestade; |
Se é de poucos ou da comunidade,
ama-o: Deus fez que nele nascesses.” |
Assim falava esse bom Sr. de Pibrac que 'aca-
bamos de perder, e era um homem de bom
senso e de sábios costumes. Essa perda e a que
ocorreu na mesma época, do Sr. de Foux,
foram rudes golpes para a Coroa. Não sei se
ENSAIOS — HI
há em França. quem seja capaz de tomar o
lugar desses gascões no conselho do rei. Eram
grandes almas, cada qual a seu modo. E por
certo raras neste século. Refratérias e hostis à
corrupção, como terão conseguido vencer?
Nada me parece mais grave para um país do
que uma mudança radical. Esta é que permite
o aparecimento-da tirania e da injustiça. Quan-
do uma peça qualquer se estraga, cabe conser-
tá-la, pois assim podemos evitar que a altera-
ção e a corrupção inerentes a todas as coisas
não nos afastem demasiado de nessos princi-
pios e instituições; mas querer refundir tão
grande massa e trocar os alicerces de tamanho
edifício é fazer como os que, para melhorar,
apagam tudo, para corrigir um defeito tudo
desmantelam, para curar matam o doente:
“Não é bem mudar que pretendem; é des-
truir'? 7.” O mundo não pode restabelecer-se
sozinho e suporta: tão dificilmente o que o
atormenta que tenta desfazer-se de qualquer
maneira do incômodo. Mil exemplos demons-
tram que só nos curamos a expensas próprias.
Desviar-se do mal presente não é curar-se, por-
quanto não melhoram as condições; e o obje-
tivo do cirurgião não consiste em extirpar a
carne enferma, e sim em salvar o doente; pro-
cura mesmo conseguir com que as partes atin-
gidas se refaçam e voltem ao seu estado nor-
mal. Quem só se esforce por se desembaraçar
do que o atormenta, não vai longe, pois o bem
não sucede forçosamente ao mal; pode ocorrer
outro mal, e mesmo o pior mal. Foi o que
aconteceu aos assassinos de César. Compro-
meteram de tal modo a ordem pública que se
arrependeram ao fim. Desde então semelhantes
desventuras ocorreram com outros; e nós fran-
ceses podemos falar com conhecimento de
causa; todas as grandes mudanças abalam o
Estado e provocam a desordem.
Quem consultasse os interessados antes de
tentar a cura ficaria logo hesitante. Pacúvio
Calávio corrigiu o vício desse procedimento de
uma maneira insigne. Haviam-se amotinado os
seus concidadãos contra os magistrados e ele,
que era homem de muita autoridade em
Cápua, conseguiu de uma feita reter o Senado
no palácio e convocando o povo na praça fron-
teira disse que chegara o dia de vingar-se livre-
mente dos tiranos que durante tanto tempo o
havia oprimido, pois os tinha à sua mercê, sós
e desarmados. Era de opinião que se sorteas-
sem, Julgassem e executassem separadamente,
designando-se ao mesmo tempo um homem de
bem para ocupar o cargo do condenado, a fim
de que o mesmo não permanecesse vago. Mal
187 Cícero.
437
se ouviu o nome do primeiro senador, pror-
rompeu a assistência em tremenda vaia. “Bem
vejo, disse Pacúvio, que é preciso destituí-lo;
tratemos de escolher o substituto.” Fez-se
silêncio; embaraçada, a multidão não sabia
quem eleger. Finalmente alguém, mais ousado,
apresenta um candidato. Uma assuada maior
ainda do que a precedente o rejeita. Censu-
ram-lhe cem imperfeições. A discórdia aumen-
ta com o segundo senador; e mais ainda com o
terceiro. E com o mesmo afã corn que destitui
os senadores, protesta a multidão contra as
respectivas substituições. Cansado, afinal, de
discussões tão inúteis, vai-se retirando o povo
aos poucos, convencido de que um mal que
dura há tanto iempo é sem dúvida mais supor-
tável do que um novo mal que ainda não se
experimentou. ;
ntretanto, por mais que nos tenhamos agi-
tado (que não temos feito !): “nossas cicatrizes,
nossos crimes, nossas guerras fratricidas co-
brem-nos de vergonha! Filhos deste século, de
que não teremos sido culpados? Que atroci-
dades não teremos cometido? Haverá alguma
coisa santa que nossa juventude tenha respei-
tado? Algo que não haja profanado!º89” Não
irei dizer com tom firme e resoluto que “a
deusa Salus seria incapaz de salvar essa fami-
lia, mesmo que o quisesse! ºº”?, Não chegamos
ao fim de tudo. Eid
A conservação dos Estados é coisa que
provavelmente ultrapassa nossa inteligência.
Um governo é, como diz Platão, uma força
difícil de se dissolver; resiste muitas vezes a
doenças mortais que o roem interiormente;
mantém-se, apesar das leis injustas, a despeito
da tirania, da prevaricação, da ignorância dos
magistrados, da licença e da sedição dos
povos. Em tudo o que nos acontece, tomamos
como ponto de comparação o que está acima
de nós e olhamos para os que se acham em me-
Jhor situação; compare-se com os de baixo e
não haverá miserável que não depare com mil
razões de se consolar. É um erro olhar de
preferência os favorecidos, o que jevava Sólon
a afirmar que, se juntássemos todas as desgra-
ças que afligem a humanidade, não haveria
ninguém que se conformasse com abandonar
os próprios infortúnios para entrar na partilha
dos males acumulados. Nosso governo está
enfermo; é incontestável; outros, porêm, bem
mais doentes não morreram; “somos uma bola
nas mãos dos deuses? º9?.
Os astros escolheram Roma como exemplo.
Passou por todas as transformações possíveis,
conheceu a ordem e-a desordem, a felicidade e
198 Horácio.
19s Cícero.
200 Piauto.
438
a desgraça. Quem tem o direito de desesperar
da própria situação quando atenta para o que
ela sofreu? Se a extensão de seus domínios
constitui uma garantia de prosperidade (o que
não acredito, pois penso como Isócrates que
recomendava a Nícocles não invejar os prínci-
pes que possuíam Estados mais vastos, e sim os
que sabiam mantê-los em boas condições),
Roma nunca esteve tão bem como quando
andou mais doente. A pior de suas formas de
governo foi a mais feliz; mal se percebem ves-
tígios de uma constituição sob os primeiros
imperadóres; reina então a mais completa con-
fusão de poderes. Não obstante, Roma supor-
tou essa situação e a monarquia sobreviveu,
apesar de englobar grande número de povos
diferentes, injustamente conquistados e admi-
nistrados de um modo deplorável: “Não quis o
destino confiar a nenhuma nação o cuidado de
se rebelar contra os donos do mundo?2º",” O
que balança em geral não cai. A contextura de
tão grande edifício não depende de um só
prego; sua antiguidade mesma faz que se sus-
tente, como esses prédios velhos cujos alicer-
ces a idade solapou e no entanto se conservam
de pé em virtude de seu próprio peso:
“Somente frágeis raízes ainda a prendem ao
solo, mas a própria massa mantém o equili-
brio202.º
Não é de boa tática verificar apenas o esta-
do dos fossos de uma praça forte para saber de
sua solidez; cumpre estudar também os meios
de ação da tropa sitiante e o lado pelo qual
deverá tentar o assalto. Poucos navios afun-
dam com o próprio peso, sem que tenham
sofrido algum acidente. Se olharmos ao redor
de nós, podemos observar que todos os gran-
des países, cristãos ou não, correm o risco de
transformações e desastres: “Todos têm suas
enfermidades e ameaça-os uma mesma tempes-
tade203> Fácil é aos astrólogos advertir-nos
de agitações e perturbações prováveis; não é
necessário consultar os astros para profetizá-
las. Se o mal é universal, podemos encontrar
nessa generalização razões de sóbra para nos
consolarmos e até a esperança de durarmos,
pois nada cai quando tudo cai. Uma doença
que a todos atinge torna-se um estado normal
de saúde para os indivíduos. Onde tudo é igual
não pode haver dissolução. Eu não desespero;
antes descubro possibilidades de salvação:
“Talvez um deus benevolente nos faça voltar
ao nosso estado antigo?º *º” Quem nos dirá
que Deus não queira que ocorra conosco o que
201 Tucano.
202 Td.
203 Ovídio.
204 Horácio.
MONTAIGNE | -
se verifica nos corpos que, após uma longa
enfermidade, conquistam uma saúde melhor
do que a que tinham antes? O que mais me
inquieta é ver que, entre os sintomas de nosso
mal, há uns que nos vêm dos céus e outros que
só devem atribuir-se à nossa própria impru-
dência. Parece-me terem os astros decretado
que já duramos demais. E aflige-me ainda ima-
ginar que o mal mãis próximo não está na alte-
ração da massa inteira e aparentemente sólida
e sim na sua possível divisão.
Transcrevendo aqui estes devaneios, receio
que minha memória me haja traído e eu esteja
a repetir o que já disse. Desagrada-me encon-
trar-me de novo no caminho percorrido. Ver-
dade é que não exponho aqui nenhuma novida-
de, mas coisas comuns, as quais, exatamente
porque são comuns, podem repetir-se mil
vezes. As repetições são sempre tediosas ainda
que venham de Homero, e desastrosas para O
que é somente superficial e ocasional. Detesto
insistir mesmo no que possa ser útil, como faz
Sêneca, e não me agrada o método dos estói-
cos que repetem a todo instante seus princípios
e suas hipóteses e empregam argumentos e
raciocínios de todos conhecidos.
Minha memória piora dia a dia, “como se
com sede ardente bebesse avidamente as águas
soníferas do Letes2º 5”. Até agora, graças a
Deus, ela não me fez cometer nenhum erro,
mas doravante deverei, ao contrário do que
fazem outros, evitar de estabelecer "um pro-
grama que me cerceie demasiado, pois não
quero depender de um instrumento tão frágil.
Acusado de haver traído Alexandre, foi Lin-
cestes levado à presença da tropa para que
diante dela se defendesse e justificasse. Tinha
preparado um discurso, mas esqueceu-o, e,
como principiasse a balbuciar, acreditaram os
soldados que a perturbação proviesse do fato
de ser culpado, e mataram-no a golpes de
lança. Tendo tido na prisão o tempo necessário
para se preparar, atribuíam à sua má cons-
ciência o silêncio embaraçado. No entanto, se,
quando apenas buscamos um êxito oratório,
podem o lugar, a assistência e a espera pertur-
bar-nos, que dizer de circunstâncias em que
nossa vida dependa de nossas palavras? No
que me diz respeito, o simples fato de ser obri-
gado a dizer determinada coisa faz que/ dela
me esqueça. Se confio em minha memória,
exerço sobre ela um tal esforço que acabo por
esmagá-la. Quanto mais me apóio nela tanto
mais perco a segurança; vi-me por vezes! bas-
tante embaraçado com isso, principalmente
quando procurava simular profunda desenvol-
205 Td.
ENSAIOS — HI 439
tura nas frases e nos gestos e dar a impressão
de que improvisava; em tais casos é menos pe-
noso dizer banalidades do que mostrar que nos
preparamos para falar e não o podemos, coisa
pouco hábil da parte de pessoas de minha
profissão, e dificil de se corrigir. A preparação
desperta esperanças que não devem falhar. E
erra quem veste casaco, se não pode com isso
desempenhar melhor o seu papel do que em
mangas de camisa: “Quem deseja provocar
admiração deve cuidar de não despertar espe-
ranças exageradas?º 8.” Dizem que acontecia
ao orador Cúrio esquecer uma parte de seus
discursos, quando os dividia em trechos de
acordo com os pontos que queria elucidar ou
defender. Sempre procurei evitar esse inconve-
niente e fujo a promessas e prescrições, não só
por desconfiar de minha memória mas também
porque tais atitudes sabem a artifício. “A
simplicidade assenta bem ao soldado?º 7.”
Impus a mim mesmo a decisão de nunca usar
da palavra em cerimônias, pois considero que
é estúpido ler um discurso; e não vai bem a um
homem de ação. Quanto a improvisar, seria
arriscar-me a não dar conta do recado porque
minha imaginação lerda e pesada não sabe
acudir às exigências dos apartes e dos inciden-
tes que porventura se verifiquem.
Deixa-me, Ó leitor, que prossiga em meus
“Ensaios” e acolhe com simpatia este terceiro
volume. Amplio meu retrato, não o corrijo. E
antes de tudo porque quem vende sua obra ao
público não tem mais direito a ela; que diga
melhor, se puder, em outro trabalho, mas não
desvalorize o que vendeu. Dos que assim agem
nada se deveria comprar antes de sua morte. E
preciso refletir para produzir; e não há como
se apressar. Meu livro é sempre o mesmo, só
que acrescento alguma coisa a mais em cada
nova edição, a fim de que o comprador não
saia lesado. Esse acréscimo não modifica a
primeira edição, apenas valoriza as seguintes,
o gue é em verdade uma sutileza algo preten-
siosa de minha parte; podem ocorrer entre-
tanto pequenas inversões cronológicas, pois
minhas histórias se introduzem na obra segun-
do a oportunidade e não de acordo com a
época.
Qutro motivo induz-me a não corrigir: O
medo de perder com a troca. Meu julgamento
nem sempre progride; acontece-lhe também
recuar. E não desconfio menos das fantasias
que me vêm ao espírito em segundo ou terceiro
lugar do que das primeiras. Amiúde corrigi-
mo-nos tão erroneamente quanto aos outros.
206 Cícero.
207 Quintiliano.
Envelheci de vários anos desde a edição ini-
cial, que data de 1580, mas duvido que me
tenha tornado mais sábio. O meu eu de agora e
o meu eu de outrora são na realidade dois.
Qual o melhor? Não sei. Seria bom envelhecer
se não parássemos de melhorar; mas só avan-
çamos à moda dos bêbados, titubeando e sem
direção definida, ou então como esses juncos
que se agitam ao sabor dos ventos. Antíoco to-'
mara vigorosamente o partido da Academia
em seus escritos, mas na velhice optou pelo
partido contrário. Qualquer partido que eu
tivesse tomado não teria seguido Antíoco?
Estabelecer a certeza depois de estabelecer a
dúvida, não será estabelecer a dúvida e não a
certeza, e demonstrar que, se nossa vida se
prolongasse assim, não seria melhor, mas
diferente? Ro ,
O aplauso do público deu-me certa ousadia;
mas receio entediá-lo. Preferiria descontentá-lo
a cansá-lo, como fez um sábio que conheço. O
louvor é sempre, agradável, venha de quem
vier, mas para que seja justo cumpre saber-lhe
a origem. As próprias imperfeições podem
sugeri-lo. E a predileção do vulgo não me pare-
ce feliz; e me engano muito se, em sua maioria,
não são as obras piores as que o gosto popular
consagra. Por isso sou grato às pessoas amá-
veis que se dignam apreciar meus débeis esfor-
ços e reconheço o serviço que me prestam, já
que em obras como a minha, em que o assunto
não interessa por si, as imperfeições da forma
ressaltam mais ainda. Não te irrites tampouco
comigo, leitor, por causa das falhas que aqui
se infiltraram em consegiiência da fantasia ou
da desatenção de outros que não eu; vários
indivíduos participaram do trabalho. Não me
preocupei com a ortografia (apenas recomen-
dei que seguissem a antiga) nem com a pontua-
ção, não sendo um especialista nesses ramos.
Quando o erro tira o sentido da frase, não me
aborreço: não mo podem atribuir. Mas se o
sentido é apenas alterado, o que ocorre não
raro, e o- erro me obriga a dizer o que não
disse, Sinto que me prejudica grandemente. Se
entretanto a frase estiver em inteira contradi-
ção com o que é permitido esperar-se de mim,
creio que um homem de bem não me imputaria
o deslize. Quem conhece minha preguiça e as
peculiaridades de meu temperamento com-
preenderá sem dificuldade que preferiria ditar
outros tantos ensaios a ocupar-me com a cor-
reção pueril dos atuais.
Dizia há pouco que, enterrado na mais pro-
funda mina desse novo metal da corrupção de
nosso século, não somente não mantenho rela-
ções de intimidade com pessoas de outras opi-
niões e outros costumes — e pessoas unidas
entre si pelo vínculo mais poderoso de
440
todos?º8 — como também corro certos riscos
no meio dessa massa de indivíduos que tudo se
permitem e se acham em situação dificil peran-
te a justiça. Quando pondero as condições
particulares em que me encontro, não vejo nin-
guém em meu partido a quem a defesa das leis
custe tantó, já pelos benefícios que não realizo,
já pelos prejuízos que sofro. E muitos que exi-
" bem valentia e zelo fazem afinal bem menos do
que eu. Em minha casa, que é facilmente aces-
sível — porquanto não quis nunca transfor-
má-la em fortaleza — todos são bem acolhi-
dos; isso tornou-a bem vista e preservou-me de
qualquer violência. Considero fato digno de
menção continuar ela virgem de: sangue e de
saque em meio a essa borrasca de agitações e
mudanças que há tanto tempo dura. Na verda-
de fora possível a um homem de meu tempera-
mento escapar a quaisquer vexames vivendo
em um clima sereno em que todos tivessem
idênticas opiniões; mas as incursões e inva-
sões, as vicissitudes de uma guerra como a que
se trava ao redor de mim exacerbaram os indi-
víduos e expóem-me a perigos e dificuldades
impossíveis de se evitarem.
Tenho-me livrado de tudo, mas lamento que
isso se deva ao acaso — e também à minha
prudência — mas não à justiça. Lamento não
estar protegido por leis e ser obrigado a buscar
outra salvaguarda. Vivo assim em boa parte
graças à benevolência alheia, o que me pesa
extraordinariamente. Gostaria de não dever
minha segurança nem à bondade nem à
complacência dos grandes, os quais toleram
minha devoção à legalidade, e à liberdade, nem
tampouco à cordura de costumes de meus
antepassados e de mim mesmo. Que aconte-
ceria se eu fosse diferente? Minha conduta,
minha franqueza, minhas relações de paren-
tesco criam obrigações, obrigam meus vizi-
nhos a uma certa atitude, e é cruel que possam
desobrigar-se simplesmente dizendo: “a liber-
dade de continuar a celebrar o culto divino na
capela de sua casa, uma vez que desolamos e
arruinamos as igrejas da região, é uma conces-
são de nossa parte; deixemos-lhe ainda o uso
de seus bens e de sua vida em troca de zelar ele
próprio pela conservação de nossas mulheres e
nossas vacas”. Há muito tempo com efeito
vem a minha família merecendo esses mesmos
louvores que em Atenas se tributavam a Licur-
go por ser o depositário do dinheiro de seus
concidadãos. Ora, acho que a vida é um dom
de Deus e não deveria ser considerada recom-
pensa ou graça especial. Quantos não preferi-
ram perdê-la a devê-la a outrem? Detesto toda
208 O da religião.
MONTAIGNE -
espécie de obrigações, em particular as que
possam resultar de um ponto de honra. E qual-
quer dom que implique em reconhecimento de
minha parte parece-me demasiado oneroso.
Quero valer-me de serviços pagos. Em troca
destes, dou dinheiro e em troca dos outros
dou-me a mim mesmo.
Os laços da gratidão são mais estreitos e
poderosos que os das obrigações civis; pesa-
me menos o compromisso assumido perante o
tabelião do que o que eu mesmo crio; e não
será razoável que minha consciência se sinta
mais obrigada para com quem tão-somente
confiou nela sem exigir garantias? Se hã
garantias nada devo; elas é que devem. Hesita-
ria menos em pular os muros de uma prisão
para evadir-me do que em faltar com a pala-
vra. Cumpro escrupulosamente, e.como que
supersticiosamente, minhas promessas; por
isso mesmo faço-as o menos possível e tão-sq-
mente vagas e condicionais. Mesmo as de
pouca importância se beneficiam da regra que
me impus; são-me um tormento e alivia-me
cumpri-las. Assim também, quando tenho em
mente um projeto, basta-me enunciâ-lo para
que me julgue desde logo obrigado a realizá-lo;
parece-me que-dizer é prometer, daí mostrar-
me tão discreto acerca do que pretendo fazer.
Candeno-me a mim mesmo mais severamente
do que um juiz, porquanto este se atém à obri-
gação comum e a que me impõe a consciência
é muito mais estrita e severa. Cumpro mole-
mente os deveres a que me constrangem. “O
ato mais justo só é justo quando voluntá-
rio2º9? e se a liberdade não o realça, carece
de graça e de honra. “Nãc faço de bom grado
as coisas que a lei determina? 1º. Ao que a
necessidade obriga, a vontade não me impele
“porque nas coisas ordenadas o mérito se atri-
bui antes a quem manda do que a quem éxecu-
ta2112. E sei de quem siga esta máxima até o
absurdo de considerar que dá quando devolve,
e empresta quando paga. Não vou a esse
ponto, mas não estou longe dele.
Desejo tanto evitar obrigações, que julgo,
por vezes um benefício as ingratidões, ofensas
ou indignidades daqueles que ocasionalmente
me prestaram serviços; pois desse modo posso
considerar-me quite. Continuo tributando-lhes
o que mandam os deveres sociais, mas acho
mais suave fazer o que determina o dever do
que o que me imporia a amizade; assim, ali-
vio-me em parte da solicitude que decorrera de
minha vontade, a qual é em mim (que fujo a
toda opressão) exageradamente opressiva: “E
209 Cicero.
210 Terêncio.
211 Valério Máximo.
ENSAIOS — HI
prudente refrear o primeiro impulso da bene-
volência?!2.” Essa atenuação do primeiro
impulso consola-me das imperfeições dos que
frequento. Deploro que valham menos, mas,
em compensação, ganho com me apegar
menos a eles. Compreendo quem ame menos o
filho por ser tinhoso ou corcunda; e não
somente por ser malvado como também infeliz
e mal conformado (com isso Deus já lhe deu
menor valor natural), sob a condição de se
moderar e não ser injusto. Para mim, o paren-
tesco não atenua os defeitos, antes os agrava.
Em suma, no que respeita à ciência da bene-
ficência e gratidão, que é ciência útil e de
muito uso, não sei de ninguém mais livre do
que eu. Só devo o inerente às obrigações co-.
muns e naturais e não há quem seja mais inde-
pendente: “Desconheço os presentes dos gran-
des2 naço
Já me dão muito os príncipes, quando nada
me tiram, e fazem-me um bem suficiente quan-
do não me prejudicam. É tudo o que lhes peço.
Como agradeço a Deus por somente dever à
Sua bondade tudo o que possuo! E suplico de
Sua misericórdia que me permita nunca dever.
a ninguém um grande favor. Bendita seja a
minha independência, e que possa manter-se
até o fim da vida! Esforço-me por não precisar
de .ninguém: “Todas as minhas esperanças
estão em mim?! *.” Isso está ao alcance de
todos, mas especialmente daqueles que Deus
pôs ao abrigo das necessidades urgentes e
naturais. É digno de piedade e bem arriscado
depender-se de outrem. Não o podemos evitar
sempre, pois não estamos seguros de nada,
nem mesmo de nossas possibilidades. Fora de
mim nada possuo, em verdade, e assim mesmo
é, uma tal propriedade, imperfeita e de emprés-
timo. Procuro cultivar minha coragem, o que
constitui a melhor das garantias, e arranjar um
meio de existência que me baste se algum dia
tudo vier a faltar. Hípias Eleus não se conten-
tou com se prover de saber para, no caso de fa-
lhar o resto, comprazer-se entre as Musas; nem
de filosofia para ensinar seu espírito a prescin-
dir virilmente dos prazeres supérfluos quando
estes lhe fossem suprimidos; aprendeu também
a cozinhar e a coser e a fazer sapatos e calças,
a fim de se bastar a si próprio. Auferimos
maior gozo dos bens alheios quando a necessi-
dade não nos obriga a desejá-los e quando dis-
pomos de meios para deles prescindirmos.
Conheço-me bem, e é-me dificil imaginar una
liberalidade de alguém para comigo, por gene-
rosa que seja, uma hospitalidade,embora fran-
212 Cicero.
213 Virgílio.
214 Terêncio.
441
ca e desinteressada, que não me pareçam tirã-
nicas e desgraçadas se por necessidade as
tenha que aceitar.
As pessoas ambiciosas e de prerrogativas
dão; as submissas recebem. Por isso Bajazet
recusou com injúrias os presentes que lhe
enviara Tamerlão, o que deu origem a um con-
flito entre ambos. E os presentes que Solimão
mandou ao imperador de Calicut provocaram
de tal modo a sua cólera que este não somente
os devolveu grosseiramente, dizendo que seus
antecessores não tinham por hábito receber dá-
divas, como também ordenou que se prendes-
sem os emissários. Diz Aristóteles que quando
Tétis queria lisonjear Júpiter e os espartanos
agradar aos atenienses, não o faziam lem-
brando os benefícios prestados e sim os recebi-
dos. Quem com toda naturalidade recorre ao
próximo, não o faria se conhecesse, como eu, a
doçura de uma inteira independência, e se
pesasse as dívidas como as deve pesar um
homem avisado. Pois ainda que se paguem
nunca se extinguem. Cruel escravidão para
quem aspira à liberdade total! Meus conheci-
dos, os que estão acima de mim na escala
social, bem como os que se acham abaixo,
sabem que nunca viram ninguém solicitar
menos do que eu e menos dever a quem quer
que seja. Não é de estranhar que assim me
revele, pois muitas particularidades de meu
temperamento para isso contribuem: certo
orgulho natural, a irritação que me causa uma
recusa, a insignificância de minhas ambições e
projetos, minha inabilidade em negócios e tam-
bém o espirito de independência e o amor ao
ócio. Tudo isso leva-me a um ódio mortal as
obrigações de qualquer espécie; nada quero
dever a outrem e nada quero que me devam.
Esforço-me de todos os modos por não recor-
rer a ninguém. E meus amigos importunam-me
assaz quando me pedem para interceder em
seu favor junto a terceiros. Isso posto, e con-
quanto não exijam de mim gestões suscetíveis
de me aborrecer (proscrevo de meu espírito
tudo o que possa preocupá-lo), sou de fácil
acesso e disposto sempre a ajudar os outros.
"Contudo antes evito receber do que dar; o que,
no dizer de Aristóteles, é bem mais fácil. A
sorte não me permitiu fazer grande bem em
redor de mim, mas o pouco que fiz não me
proporcionou muita gratidão. Se o destino me
tivesse feito nascer em condições de ocupar
altos cargos, desejaria tornar-me estimado
mais do que temido e admirado. Teria antes
me esforçado por agradar do qué por tirar pro-
veito. Ciro afirma, sabiamente, pela boca de
um grande chéfe e filósofo, que considera sua
bondade e o bem que fez mais importantes e
valiosos do que sua coragem e suas conquis-
442
tas: Cipião, igualmente, sempre que deseja
impressionar favoravelmente, coloca sua ame-
nidade e humanidade acima de sua ousadia e
de suas vitórias. E nunca deixa de dizer, o que
muito o enobrece, que deu tanto a amigos
como à inimigos a oportunidade de apreciá-lo.
Em suma, quero dizer que se alguma coisa nos
cabe dever, que decorra de razões mais justas
do que essas a que me referi, resultantes desta
miserável guerra. E que me torne devedor de
coisa menos pesada do que a vida.
Mil vezes vi-me recolhido em minha resi-
dência a imaginar que, naquela noite mesmo,
seria vítima de alguma traição e trucidado; e
pedia ao destino que isso acontecesse sem
delongas inúteis e sem que eu me sentisse
amedrontado. Quantas vezes não repeti, após
minha oração: “Serão estas terras tão cuidado-
samente cultivadas a presa de algum bárba-
ro21 59? Mas que remédio? Nestas terras nasci
e nela nasceram quase todos os meus antepas-
sados, amaram-na e deram-lhe seu nome. Nós
nos calejamos porém com o hábito, e para essa
nossa miserável natureza isso é um bem, por-
que nos adormece a sensibilidade e nos evita
certos sofrimentos. As guerras civis têm isso
de grave que nos obrigam todos a ficar de ata-
laia em casa. “Que desgraça ser forçado a pro-
teger a vida com portas e muros e nem sequer
se sentir em segurança em seu lar?18!”? A
região em que habito é sempre a primeira a so-
frer com nossas dissensões, e a última a sosse-
gar; e a paz aí nunca foi completa: “Mesmo na
paz não cessamos de temer a guerra?! 7.”
“Todas as vezes que o destino perturbou a paz,
por aqui passou; por que não me deram os
fados um lar errante nos climas caniculares:ou
no Oeste gelado? 189?
Por vezes encontro o meio de encarar mais
resolutamente as coisas contra minha indo-
lência e minha indecisão habituais. Ocorre-me
imaginar, não sem algum prazer, que me acho
sob a ameaça de perigos mortais e resigno-me;
precipito-me então na morte, nela mergulho,
sem sequer a perceber, como se me jogasse em
um abismo silencioso e escuro que me engo-
lisse repentinamente. E invade-me um pesado
sono sob o efeito do qual torno-me inerte,
insensível. Nessas mortes rápidas e violentas
as consequências que imagino mais me conso-
lam do que me afligem. Dizem que a vida não
é melhor por ser longa mas que a melhor morte
é a mais curta. E, por certo, menos me ator-
menta a morte do que a sua duração. Como
215 Virgílio.
216 Ovídio.
217 Id.
218 Lucano.
MONTAIGNE
quer que seja, encolho-me em mim mesmo ante
a tempestade que se desencadeou e aguardo
que algum golpe de vento mais forte me arraste
sem que eu o sinta. Observam alguns jardi-
neiros que as rosas e as violetas nascem com
mais perfume se plantadas ao lado da cebola e
do alho porque estes atraem e absorvem os
maus odores da terra. Muito daria eu para que
as naturezas depravadas de minha vizinhança
concentrassem nelas todo o veneno de minha
atmosfera e clima, tornando-me melhor e mais
puro. Mas não é o que sucede, e cabe-nos afir-
mar o contrário: que a bondade é tanto mais
bela e atraente quanto mais rara, e que nesse
meio que lhe é contrário ela surge com maior
intensidade, incitada pela oposição que encon-
tra e a glória que aufere. Os ladrões não me
odeiam particularmente, nem eu a eles, porque
teria que odiar exagerado número de pessoas.
As mais diferentes vestimentas encobrem cons-
ciências idênticas; a crueldade, a deslealdade,
o roubo são piores ainda quando protegidos
pelas leis; detesto menos a injustiça declarada
do que aquela que recorre à traição, e menos a
que se engendra nas desordens da guerra do
que a que se verifica na paz e reveste formas
legais. A febre atual atacou nosso corpo, sem
entretanto agravar o estado em que se encon-
trava; a brasa dormia e agora surge a chama,
eis tudo. O ruído é maior, não o mal. Aos que
me perguntam por que viajo tanto, respondo
que sei ao que fujo mas não sei o que eu vou
encontrar; e quando me dizem que no. estran-
geiro a situação é pior e os costumes não
valem mais do que os nossos, respondo antes
de mais nada que é difícil, “a tal ponto multi-
plicou-se o crime entre nós? 'º”. Em segundo
lugar sempre se tira algum proveito da mudan-
ça quando trocamos uma situação má por
outra incerta. E depois não sentimos do
mesmo modo as desgraças alheias.
Não quero esquecer-me de que, por mais
irritado que ande contra a França, não deixo
de olhar Paris com bons olhos. Esta cidade
conquistou-me o coração desde criança e
quanto mais belas cidades conheço tanto mais
ela cresce na minha afeição. Amo-a pelo que é
e como é, e mais em sua vida habitual do que
nas épocas de festas; amo-a com ternura e até
em suas imperfeições e seus vícios; e só me
sinto francês por causa dessa grande cidade,
grande pelo seu povo e pela sua localização, e
grande ainda, e principalmente, pela variedade
e diversidade dos prazeres e vantagens que nos
oferece. É a glória de França e um dos mais
nobres ornamentos do mundo. Que Deus afas-
218 Virgílio.
ENSAIOS — II
te dela as nossas dissensões! Ainda resistirá a
todas as violências, mais ai dela se optar pela
discórdia! Só receio, portanto, em relação à
Paris, o mal que ela mesma pode provocar e
temo-o por ela como por qualquer outra parte
de nosso país. Enquanto houver Paris, terei um
lugar de repouso e retiro para a velhice, e um
lugar que não me dará azo a saudades de ne-
nhum outro.
Não porque o disse Sócrates, mas porque
em verdade o penso, todos os homens são
meus compatriotas; e sou mesmo levado a exa-
gerar este sentimento. Abraço um polonês
como abraçaria um francês, fazendo passar os
laços que unem os indivíduos de uma nação
após os que vinculam uns aos outros os habi-
tantes do mundo. A doçura do clima natal não
me enreda; as relações novas parecem-me
valer as de minha vizinhança; e os bons ami-
gos que adquirimos espontaneamente são em
geral melhores do que os que devemos ao
parentesco ou ao clima. “Pôs-nos a natureza
neste mundo, livres de quaisquer compro-
missos e nós nos prendemos dentro de estreitos
limites, como os reis da Pérsia, que juravam
não beber senão água do rio Coaspes, renun-
ciando totalmente ao direito de usar qualquer
outro manancial; desse modo, como que seca-
va para eles o resto do mundo. No fim da vida,
considerava Sócrates que uma condenação ao
exílio era pior do que uma sentença de morte;
não sou de sua opinião e não creio que viesse
jamais a sentir-me assim apegado a meu país.
Essas vidas dignas de criaturas celestes apre-
sentam aspectos que admiro mais do que apre-
cio; aigumas são mesmo tão elevadas e
extraordinárias que minha admiração não as
pode alcançar. Esse sentimento de Sócrates
parece-me demasiado terno em quem conside-
rava que sua pátria era o universo. E Verdade
que não apreciava as viagens e nunca pusera o
pé fora da Ática. Que pensar igualmente de
não ter aceito que seus amigos o resgatassem e
haver recusado, para não desobedecer às leis
de uma época tão corrupta, a participar de
uma conjura que o teria libertado? Esses
aspectos de sua vida entram na categoria
daqueles que admiro mais do que aprecio.
Quanto aos que minha admiração não alcan-
ça, alguns há que não consigo sequer conceber.
Além dessas razões, viajar afigura-se-me um
exercício proveitoso, pois o espírito vive então
continuamente solicitado a observar coisas
novas e dosconhecidas; e, como digo amiúde,
não sei de melhor escola do que essa que lhe
mostra a grande diversidade de existência,
idéias e usos entre os homens, bem como a
continua variedade de formas da natureza. O
443
corpo, em viagem, não permanece ocioso nem
se fatiga; uma atividade moderada mantém-no
bem disposto. Apesar de minhas dores, sou
capaz de fazer de oito a dez horas a cavalo
sem cansar, “além das forças e da saúde de um
velho22º9?, Não receio o tempo, salvo os calo-
res tórridos, pois não uso esses guarda-sóis que
apreciam na Itália, desde os romanos, achando
que cansam mais o braço do que protegem a
cabeça. Gostaria de conhecer o processo que,
segundo Xenofonte, teriam adotado os persas
na antiguidade para conseguir ar fresco e som-
bra à vontade. Gosto da chuva e da lama como
um pato. Sou insensível às mudanças climá-
ticas e atmosféricas, e é-me indiferente que
faça ou não bom tempo. Sofro unicamente
com as mudanças internas que se produzem
em mim, e estas são menos frequentes em via-
gem. Custo a mpvimentar-me e hesito tanto
ante uma excursão ou visita às cercanias como
ante uma grande viagem; mas uma vez a cami-
nho vou até onde quiserem. Tenho por hábito
viajar à espanhola, isto é, com longas jornadas
ininterruptas. Durante a canícula, viajo à
noite, do entardecer ao amanhecer. O costume
de comer apressadamente em caminho é incô-
modo, sobretudo nos dias curtos. Meus cava-
los dão-se muito bem com meu sistema €
nunca falharam. Deixo que bebam por toda
parte, conquanto reste ainda suficiente distân-
cia a percorrer para que tenham tempo de
digerir a água. Minha preguiça em levantar
acampamento permite que meus servidores
comam à vontade; quanto a mim, nunca é
tarde demais para a refeição. O apetite vem-me
com a comida e só tenho fome quando me
sento à mesa.
Algumas pessoas me censuram porque me
comprazo em viajar apesar de casado e velho.
Não têm razão; é melhor deixar a casa quando
já organizada e suscetível de prescindir de
nossa presença. Mais imprudente é afastar-se
sem que uma vigilante e cuidadosa adminis-
tração atenda aos misteres do lar.
A ciência e a ocupação mais honrosas de
uma mãe de família são as da casa. Conheço
algumas mulheres avarentas porém más admi-
nistradoras; ora,a qualidade de dona de casa é
sem dúvida a principal, pois dela depende o
progresso ou a ruína do lar. Diga-se o que se
quiser, a economia doméstica é a virtude que,
por experiência, coloco acima de todas as ou-
tras em uma mulher casada. Viajando, dou à
minha esposa a oportunidade de exercê-la,
entregando-lhe a administração de meus bens
durante a minha ausência. Olho com melanco-
220 Virgílio.
444
lia o marido que volta para casa ao meio-dia,
aborrecido, preocupado com o andamento dos
negócios e encontra a mulher no toucador, a
cuidar do penteado e do vestido; isso é bom
para as rainhas, e talvez nem mesmo para elas.
É ridículo e injusto que nosso suor e nosso tra-
balho sirvam para alimentar a ociosidade de
nossas mulheres. Não creio que alguém tenha
menos complicações do que eu em seus negó-
cios; nenhuma dívida pesa sobre meus bens;
mas se cabe ao marido dar o fundo, deve a mu-
lher contribuir com a forma.
Dizem que a ausência pode influir nos deve-
res impostos pela afeição conjugal: não creio.
Ao contrário, tais deveres se ressentem com
relações contínuas; um excesso de assiduidade
cansa. As: mulheres com as quais não priva-
mos parecem-nos sempre desejáveis e não há
quem não saiba por experiência que o prazer
de ver-se continuamente não iguala o de se
encontrar após uma separação. Essas interrup-
ções avivam o amor que dedico aos meus e
torna mais aprazível o tempo que passo em
casa; sucedendo o lar à viagem e reciproca-
mente, com muito mais agrado vou de um a
outro prazer. A amizade tem os braços
suficientemente longos para que nos possamos
abraçar através do espaço, principalmente
quando se trata da amizade conjugal que tem a
seu favor deveres e recordações. Já diziam os
estóicos que as relações dos sábios entre si são
de tal ordem que um deles jantando em França
alimenta o outro no Egito, e se um mexe o
dedo em qualquer lugar do mundo todos os ou-
tros o percebem imediatamente. O gozo e a
posse dependem muito da imaginação, a qual
abraça. com rnais ardor e persistência o que
procura do que aquilo que tem à mão. Atente-
mos para nossos divertimentos cotidianos e
veremos que nunca nos encontramos mais
afastados de nossos amigos do que quando os
temos presentes. Distraimo-nos então, e nosso
pensamento se ausenta a todo instante. Fora
de casa, em Roma, tenho meus negócios no
espirito e interesso-me pelo que ocorre; vejo
erguerem-se e derrubarem-se muros, crescerem
árvores, e diminuir a minha renda, quase como
se estivesse presente: “Tenho constantemente
sob os olhos a casa € até o mais insignificante
pormenor na disposição dos objetos? 21.” Se só
nos agradássemos das coisas que temos à mão,
que seria dos escudos que guardamos em nos-
sos cofres e de nossos filhos quando andassem
a caçar? Queremo-los mais perto de nós?
Muito bem. Será muito longe no jardim? E a
meio dia de marcha? E a dez léguas? É perto?
221 Ovídio.
MONTAIGNE
E onze léguas, ou doze, ou treze? Acho que a
mulher deveria dizer a seu marido: a tal distân-
cia termina o perto, a tal outra começa O
longe, e fixar um ponto entre os dois extremos.
“Dizei um número para evitar quaisquer
discussões, sem o que abusarei da latitude que
me deixardes; e como se arrancasse pêlo por
pêlo a crina de um cavalo, tiraria uma légua e
mais outra até que nenhuma vos sobrasse e vos
sentísseis vencido pela força de meu racioci-
“nioZ22?º Que apele para a filosofia. Pois se
não pode ver as extremidades do ponto de jun-
ção entre o perto e o longe, o pouco e o muito,
o leve e o pesado, o curto e o comprido, julga-
rá sem dúvida o meio com insegurança: “A
natureza não nos permite conhecer os limites
das coisas?23.” Porventura não continuam as
mulheres a ser esposas e amigas dos defuntos?
Abraçamos pelo pensamento não somente os
ausentes mas também os que não mais existem,
e os que ainda não são. Ao casar não
contraíimos a obrigação de permanecer indis-
soluvelmente soldados um a outro como certos
insetos, ou os enfeitiçados de Karancia. Não
deve a mulher ter a vista presa à dianteira do
marido a ponto de não lhe enxergar a parte tra-
seira ocasionalmente. Não caberia aqui esta
magnífica descrição do temperamento femini-
no: “Se voltas tarde para casa, tua mulher ima-
gina que amas outra ou por outra és amado;
ou que bebes e te divertes; que somente-tu tens
o que é bom e deixas-lhe o ruim22 *.” Em ver-
dade, a contradição e a oposição são naturais
na mulher e muito lhe agrada desagradar-nos.
Na verdadeira amizade, e bem a conheço,
damos ao amigo mais do que tiramos. Não
somente prefiro fazer-lhe bem a receber dele
favores mas ainda prefiro que o faça a si
mesmo a fazê-lo a mim. Tanto mais alegria me
proporciona quanto mais se outorga a si pró-
prio; e se a ausência lhe apraz ou lhe é útil, tor-
na-se ela desde logo muito mais aprazível e útil
a mim do que sua presença, desde que tenha-
mos a possibilidade de nos comunicar. Disso
tirei outrora vantagem e prazer“? º: quando
nos separávamos, enchíamos melhor a vidae a
enriqueciamos; ele vivia, apreciava, via por
mim e eu por ele, tão completamente como se
estivéssemos no mesmo lugar. E quando está-
vamos de fato juntos, uma metade de nós
(visto que éramos um só) permanecia ociosa;
separados, exercitavam nossas vontades cada
uma por seu lado, em conjunto produziam
mais. Esse desejo insaciável de presença física
222 Horácio.
223 Cícero.
224 Terêncio.
225 Referência a La Boétie.
ENSAIOS — HI 445
revela certa fraqueza na capacidade de gozo
dos espíritos.
Quanto à velhice, considero que aos jovens
é que cumpre conformar-se com as opiniões e
as leis em vigor; e privar-se por causa dos
outros. Eles têm com que satisfazer a todos e a
si próprios. Nós, velhos, já muito trabalho nos
dá satisfazer-nos a nós mesmos. E tanto mais
precisamos buscar as alegrias que ainda pode-
mos descobrir, quanto menor se vai fazendo o
número de satisfações naturais ao nosso alcan-
ce. É injusto desculpar a mocidade por se
entregar aos prazeres e proibir a velhice de se
esforçar por encontrá-los. Na juventude eu era
alegre e tão-somente precisava pensar em
moderar minhas paixões; sou agora triste e
tenho de recorrer às distrações. As leis de Pla-
tão proíbem as viagens antes dos quarenta ou
cingúenta anos, a fim de que sejam mais
instrutivas e úteis. Concordo mais com o
segundo artigo que as desaconselha após os
sessenta.
“Mas na vossa idade, dirão, não voltareis
nunca de tão longa viagem!” Que importa!
Não a empreendo para voltar ou terminá-la, e
sim para movimentar-me enquanto o movi-
mento me agrada. Passeio por passear. Os que
correm atrás do dinheiro ou de uma lebre não
correm na realidade; correm os que brincam
de pegador ou disputam corridas. Posso parar
“onde queira, não tendo programa organizado
de antemão; cada jornada é um fim em si
mesma, e assim também a vida. Isso não me
impediu de visitar muitas localidades longin-
quas onde de bom grado vivera. Por que não?
Crisipo, Cleantes, Diógenes, Zenão, Antíipater
e tantos sábios da seita mais severa, abando-
naram seu país de origem sem motivo, apenas
para respirar um ar diferente alhures. O que
mais me aborrece em minhas viagens estã em
não poder eleger domicílio onde me ache bem
e ter sempre que pensar na volta a fim de
conformar-me com o que determinam os
costumes.
Se receasse morrer longe do lugar em que
nasci, e dos meus, não sairia de França; não
sairia sequer de minha paróquia, pois sinto a
morte tatear-me de contínuo, pelos rins e a gar-
ganta. Mas tanto se me dá morrer aqui ou
acolá. Se entretanto pudesse escolher, gostaria
antes de morrer a cavalo do que na cama e de
preferência fora de casa e longe dos parentes.
Sentimos mais tristeza do que consolo em nos
despedirmos dos amigos; e de.bom grado dei-
xaria de cumprir esse dever de cortesia, por-
quanto entre os serviços que a amizade exige
de nós, esse é o mais desagradável, pois com
satisfação esqueceria esse grande e eterno
adeus. Se algumas vantagens oferece a assis-
tência dos amigos em tal circunstância, inúme-
ros são os inconvenientes. Vi quem assim mor-
resse em lamentáveis condições, sufocado pela
solicitude dos presentes. Considera-se contrá-
rio ao dever e até sinal de falta de afeição e
atenção deixar alguém morrer em paz; um
atormenta a vista, outro os ouvidos ou a boca;
não há sentido ou membro due não martiri-
zem. Aperta-se o coração do moribundo com
as lamentações sinceras e se irrita com as
hipócritas. Quem sempre foi sensível e deli-
cado mais ainda se torna nesse momento;
precisaria, nessa circunstância, que ninguém
pode evitar, uma mão hábil capaz de pensá-lo
onde lhe doa, ou de deixá-lo sossegado. Temos
parteira para vir ao mundo, por que não have-
riamos de precisar de quem nos auxilie a dele
sair? Uma tal pessoa, que além disso seria
nossa amiga, valeria seu peso em ouro. Ainda
não consegui alcançar essa força de ânimo que
despreza tudo o que possa ocorrer, que tira seu
poder de si mesma e que comove. Não. Procu-
ro escapar à dificuldade tão-somente, e não
por medo mas por cálculo. Acho que esse
momento não é indicado para uma demonstra-
ção de coragem, mesmo porque um minuto de-
pois cessariam quaisquer direitos à reputação
que se colhesse. Contento-me com uma morte
serena. solitária, de acordo com a vida retirada
e burguesa que vivi. Isso tudo em oposição ao
que determinava a superstição romana, a qual
julgava infeliz quem morresse sem falar e sem
ter um parente para lhe cerrar as pálpebras.
Muito me custa consolar-me a mim mesmo
para que ainda queira consolar a outrem, nem
me falta em que pensar ou com que me preocu-
par. Esse ato da peça não comporta muitos
papéis; tem uma só personagem. Vivamos €
riamos com os nossos e morramos entre desco-
nhecidos; mediante pagamento, sempre acha-
remos alguém que nos vire a cabeça, nos fric-
cione os pés, que atenda a tudo com
indiferença, deixando-nos toda a liberdade
para nos queixarmos e agirmos segundo nos-
sos desejos.
Afasto sem cessar, de mim, essa idéia pueril
e inumana que nos leva a desejar que nossos
males suscitem compaixão e tristeza em nos-
sos amigos. Exageramos o que sentimos para
provocar lágrimas. E a firmeza que louvamos
nos óutros quando enfrentam a desgraça, nós a
censuramos desde que a infelicidade seja
nossa. Não basta que sintam nossos infortú-
nios, é preciso que se aflijam. Estendamos a
alegria e restrinjamos a tristeza. Quem, sem
razão, força os outros à compaixão, arrisca-se
a não encontrar ninguém que se condoa na
446
hora em que necessitar; quem em vivo se taz
de moribundo, procurando inspirar continua-
mente piedade, acaba por não enternecer nin-
guém. Sei de muitos que se irritam se os acham
bem dispostos; e evitam sorrir para não pare-
cer convalescentes; e que não se esforçam por
curar-se com receio de não mais inspirar pie-
dade. E não se trata de mulheres. Em geral
vejo minhas enfermidades exatamente como
são, evitando prognósticos sombrios; e minhas
exclamações não vão além das que a dor possa
provocar. Não as comento. Junto a um doente
sensato. é conveniente mostrar-se calmo, senão
exuberante; por estar enfermo não é que tem
de ser hostil à saúde; reconforta-o vê-la nos
que o assistem, pois o fato de estar definhando
não o impede de se ocupar das coisas vivas e
tomar parte na conversação de todos. É quan-
do estou bem que me comprazo em estudar as
doenças; quando me atingem sinto-lhes sufi-
cientemente os efeitos sem que minha imagina-
ção precise expandir-se. Preparainos com
grande antecedência as viagens que empreen-
demos, mas quando chega a hora de montar a
cavalo dedicamo-la à assistência e em seu
benefício.
Tiro deste estudo de meus costumes um
inesperado proveito: serve-me até certo ponto
de regra de conduta. Obriga-me por vezes a
não desmentir o que sempre fui. Esta declar a-
ção pública força-me a manter-me “obediente à
direção tomada e a não desacreditar a descri-
ção de minhas condições, por certo menos
desfiguradas e contraditórias do que seriam
através de falsos e maldosos juízos. A unifor-
midade e a simplicidade de meu caráter permi-
tiram-me interceptá-lo facilmente; mas a
forma nova, não habitual, de apresentá-lo, dá
margem à maledicência. Creio que confes-
sando minhas imperfeições forneci os meios de
me criticar a quem o quiser fazer com lealda-
de. O material é vasto e não parece necessário
recorrer a fantasias. Mas se alguém considerar
que-o fato de me haver adiantado à acusação
embota os dentes da crítica, poderá natural-
mente ser impelido a ampliar os ataques, pois
a ofensa outorga-se direitos que a justiça não
dá; e com as raízes que mostrei, de alguns vi-
cios, poderá fazer grandes árvores. Que se
valha então não sómente dos defeitos que
tenho realmente mas também dos que se
encontram em germe em mim e que, pelo seu
número e natureza, me tornam acessível aos
golpes. Que me ataque por aí. Imitaria de bom
grado, nesse caso, o filósofo Bion. Antígono,
querendo magoá-lo, referira-se à sua origem.
Ele retorquiu: “Sou filho de um carniceiro,
escravo estigmatizado, e de uma barrega que
MONTAIGNE |
meu pai desposara porque o seu nível social
não lhe permitia aspirar a outra mulher;
ambos haviam cometido delitos e tinham sido
condenados. Um orador, achando-me belo e
amável, comprou-me, ainda criança; ao mor-
rer, deixou-me seus bens; vendi-os e vim para
Atenas onde me dediquei à filosofia. Que os
historiadores não percam tempo em buscar
informações a meu respeito, direi eu mesmo
tudo o que sou.” Uma confissão franca e
espontânea embota a crítica e desarma a injú-
ria. Bem pesadas as coisas, considero que, não
raro, os louvores também desvalorizam quan-
do ultrapassam a medida; e parece-me igual-
mente que desde a infância, em matéria de car-
gos e honrarias, deram-me mais do que
merecia. Gostaria de viver em um país onde
tais questões fossem reguladas ou desprezadas.
Entre homens, julgam-se descorteses as discus-
soes de prerrogativas protocolares que com-
portem mais de três réplicas; para fugir.a tão
importunas contestações. não hesito em ceder o
lugar ou passar à frente, ainda que sem justifi-
cação,. e se alguém reivindica a precedência
nunca deixo de concordar.
Além desse proveito que tiro de meu estudo,
sempre esperei que se meu modo de ser agra-
dar e convier.a algum hor zm de bem, talvez se
decida ele a ligar-se de amizade a mim, antes
de eu morrer. Dou-lhe uma vantagem. grande,
porque a familiaridade e o conhecimento que
só teria com anos de frequentação pode alcan-
çá-los com segurança e exatidão em três dias
de leitura. O curioso é que não diria em parti-
cular o que consigno por escrito publicamente
e que, para penetrar meus pensamentos mais
íntimos, devam os amigos mais fiéis recorrer a
um livro: “que lhes abre os recantos recônditos
de minha alma?? 8”, Mas, se eu soubesse de
alguém que me conviesse, iria buscá-lo ainda
que bem longe, pois a doçura de uma compa-
nhia grata e adequada nunca se pagará caro
demais, a meu ver. Ah! um amigo! Quanto
não daria para ter um, e como é verdadeiro o
ditado antigo que afirma ser a amizade mais
necessária e agradável do que a água e o fogo!
Voltando a meu assunto, direi que não vejo
grande inconveniente em morrer sozinho e
longe de casa, pois nos isolamos para praticar
atos naturais, menos desgraciosos e horríveis
do que esse. Os que durante anos levamjuma
vida miserável também deveriam desejar não
importunar os seus com sua desgraça. Era o
que pensavam os indianos de certa província,
os quais consideravam justo matar os que se
encontravam nesse estado; e em outra região
226 Pérsio
ENSAIOS — HI
abandonavar-nos para que se arranjassem
como pudessem. À quem não se tornam eles
finalmente aborrecidos e insuportáveis?
Mesmo aos que os devem aguentar.
Quando estou doente não exijo nada de
especial. O que a natureza não me quiser dar,
não irei pedi-lo aos remédios. Antes que a
febre e a doença comecem a destruir-me, em
plena posse de mim mesmo, reconcilio-me com
Deus mercê dós últimos sacramentos cristãos.
Sinto-me assim mais livre e mais leve e tenho a
impressão de que isso me ajuda a resistir à
enfermidade. Quanto aos tabeliães e a seus
conselhos, preciso ainda menos deles que dos
médicos. Os negócios que não tenha posto em
ordem antes de adoecer, não irei acertá-los
depois. O que desejo fazer em caso de morte
está sempre feito; e o que não o esteja, ou não
o estará porque a dúvida terá impedido uma
decisão (o que é por vezes a melhor das deci-
sões) ou porque não o desejo realmente fazer.
Escrevo meu livro para poucas pessoas e
pouco tempo; se se tratasse de uma obra desti-
nada a durar, houvera empregado uma lingua-
gem mais elevada. Dadas as variações que so-
freu nossa língua até hoje, quem há de afirmar
que será a mesma dentro de cinqienta anos?
Modifica-se ela diariamente em nossas maos é
no decurso de minha existência mudou pela
metade, ao menos. Julgamo-la perfeita atual-
mente, mas cada século diz a mesma coisa;
não confio em que assim se mantenha; conti-
nuará sem dúvida a transformar-se. Cabe aos
bons escritores, aos que escrevem coisas úteis,
fixá-la até certo ponto; quanto à duração da
mudança, dependerá de nosso estado político.
Não hesito entretanto em introduzir aqui al-
guns temas que são mais da alçada de certas
pessoas de nossa época, que se especializaram
em determinadas ciências; compreendê-los-ão
por isso melhor do que a generalidade de meus
leitores.
Não quero que se diga de mim o que ouço
dizer de muitos defuntos: “pensava assim,
vivia assado, desejava isto ou aquilo; se tivesse
falado no fim da vida, houvera dito tal ou-qual
coisa; posso afirmá-lo porque o conheci me-
lhor do que ninguém”. Ora, na medida do pos-
sível, aqui revelo minhas idéias e afeições e as
revelaria mais livremente de viva voz a quem
as desejasse conhecer. Não obstante, ver-se-á
que nestas memórias tudo disse e indiquei; e o
que não pude expressar aponto-o com o dedo:
“mas esses traços, por leves que sejam, bastam
a um espírito penetrante para que adivinhe o
resto?? 7” Nada deixo por adivinhar, porém,
227 Lucrécio
447
do que desejem saber. Quero que falem de mim
com conhecimento de causa e com justiça; €
voltaria do outro mundo se pudesse para des-
mentir quem me retratasse diferente do que
sou, embora para elogiar. Verifiquei aliás que
dos próprios vivos falam erroneamente. E se
não me tivesse esforçado por fazer com que
não desfigurassem um amigo perdido, tê-lo-
iam mostrado de mil maneiras contraditórias.
Para acabar de confessar as fraquezas de
meu espírito, direi que não me detenho, em via-
gem, em nenhum lugar, sem que me pergunte
se poderia aí morrer tranquilamente. Procuro
alojar-me de maneira a sentir-me como em
casa, onde não haja ruídos e não seja triste,
enfumaçado, sufocante. Com essas frívolas
condições faço por bajular a morte, isto é, por
não ter que pensar senão nela quando chegar,
porquanto já será suficiente para ocupar-me o
espírito. Quero que participe do bem-estar de
minha vida; desempenhe nesta um papel
importante e espero que, dados meus sentimen-
tos, não desminta o meu passado. A morte as-
sume formas diferentes segundo as nossas
idéias. Entre essas que se devem a causas natu-
rais, a que decorre do enfraquecimento e da
perda das nossas faculdades parece-me fácil e
suave. Entre as mortes violentas, recearia antes
cair em um precipício do que ser esmagado
por um edifício que ruísse; e temeria mais uma
estocada do que um tiro. Preferiria beber cicu-
ta, como Sócrates, a apunhalar-me como fez
Catão; e êmbora dê no mesmo, minha imagi-
nação estabelece uma diferença enorme entre
jJogar-se em uma fogueira e.mergulhar num
canal de águas calmas. Tolamenté atentamos
mais para os meios do que para os resultados.
A morte é, em verdade, coisa de um instante,
mas daria muitos dias de vida para que esse
instante fosse o melhor possível. Como cada
um tem suas idéias acerca dos diferentes gêne-
ros de morte, e da escolha que faria, vejamos
se descobrimos algum isento de tristeza. Não
poderíamos como os comorientes??28 Antônio
e Cleópatra tomar a morte voluptuosa? Deixo
de lado essas mortes exemplares que a religião
e a filosofia nos mostram; mas mesmo entre os
homens menos ilustres houve alguns, como
Petrônio ou Tigelino em Roma, que, instados a
matar-se, tornaram a morte quase insensível
graças aos requintes empregados e introdu-
zindo-a sub-repticiamente nos seus diverti-
mentos habituais, em meio às cortesãs e aos
alegres companheiros. Assim, atentos a seus
jogos, seus ditos chistosos, suas discussões
acerca da música ou da poesia erótica. deixa-
228 “Commourants”, neologismo que significa os
que morrem juntos. (N. do T))
448 MONTAIGNE
ram-se surpreender por ela sem pensar em
testamentos nem se preocupar com atitudes.
Não poderíamos imitar tal resolução, embora
de maneira mais honesta? Se loucos e sábios
sabem como morrer bem, tratemos dé desco-
brir um gênero de morte que convenha aos que
não são nem loucos nem sábios. Estou imagi-
nando alguns que me parecem bons e desejá-
veis, visto que temos que acabar morrendo de
qualquer jeito. Os tiranos romanos achavam
que, dando ao criminoso o direito de escolher
o gênero de morte, lhe davam a vida. Por outro
lado, Teofrasto, filósofo tão delicado, modesto
Ê sábio, não se viu impelido pela razão a dizer
este verso que Cicero traduziu: “a vida depen-
de da sorte, não da sabedoria”? O destino aju-
dou-me nesse ponto, fazendo com que não
constitua para os meus nem uma necessidade
nem um estorvo. Uma tal situação, eu a houve-
ra aceito em qualquer época de minha vida,
mas agora que me cumpre arranjar as malas
para a grande viagem, é-me um motivo de par-
ticular satisfação não vir a tormnar-me para
eles, em morrendo, uma causa de prazer ou de
aborrecimento. Em virtude de uma compensa-
ção engenhosa, os que podem esperar algum
proveito da minha morte, acham-se pela
mesma razão sujeitos a perdas materiais; não
raro a morte parece-nos mais triste em conse-
quência dos prejuízos que acarreta aos outros;
cujo interesse nos preocupa por vezes mais do
que o nosso próprio.
Nos meus alojamentos ocasionais não pro-
curo luxo nem exagerado espaço, coisas que
antes me desagradam; quero-os com essa
simplicidade mais comumente encontradiça
nos lugares menos artificiais e mais próximos
da natureza. “Prefiro uma mesa limpa a uma
mesa suntuosa, e o espírito ao luxo?2º.” Aliás,
somente aos que viajam por necessidade, e são
surpreendidos em pleno inverno nos Grisões,
por exemplo, ocorrem tais inconvenientes; eu,
que viajo por prazer, não corro esses riscos: se
a estrada é incômoda à direita, tomo à esquer-
da; se não estou com vontade de montar a
cavalo, paro. Nessas condições nada vejo que
não me agrade ou não seja tão cômodo como
minha casa. Sempre achei a superfluidade
indesejável e sinto-me embaraçado ante o
requinte e a abundância. Se deixo para trás al-
guma coisa por ver, volto; qualquer caminho é
meu caminho, porque não tenho itinerário
predeterminado. Se onde vou não encontro o
que me disseram aí estar, porquanto as opi-
niões alheias não se acordam em geral com as
minhas, não me queixo, pois ao menos cons-
229 Citação tirada em parte de Nônio e em parte
de Cornélio Nepo.
tato assim a inexatidão do que me afirmaram.
Adapto-me a tudo, e meus gostos são os de
um homem igual aos outros. À diversidade de
costumes entre um país e outro só me impres-
siona pelo prazer da variedade. Cada uso tem
sua razão de ser. É-me indiferente que os pra-
tos sejam de estanho, de madeira ou de barro;
que a carne seja assada ou cozida; que haja
manteiga ou azeite e este seja de nozes ou de
olivas. À tal ponto que, ao envelhecer, deseja-
ria perder essa faculdade e tornar-me mais
requintado e exigente, a fim de frear o insa-
ciável apetite que me perturba o estômago.
Quando me encontro em França e me pergun-
tam por cortesia se desejo ser servido à france-
sa, recuso-o, sentando-me sempre às mesas
ocupadas por estrangeiros. Envergonho-me
com ver meus compatriotas hostilizarem e cri-
ticarem os costumes contrários aos seus; pare-
ce-lhes estar fora de seu elemento, mal saem de
sua aldeia. Onde quer que se achem atêm-se a
seus usos e abominam os dos outros. Se depa-
ram por acaso com algum dos seus na Hun-
gria, logo se congratulam pelo acaso; reúnem-
se, frequentam-se, e se esforçam por condenar
os costumes bárbaros que têm sob os olhos.
Como não seriam bárbaros se não são france-
ses? E os mais inteligentes é que falam! Em
sua maioria os franceses viajam tão-somente
para voltar; permanecem reservados, tacitur-
nos, inacessíveis, desejosos de escapar ao con-
tagio de um ar que lhes é desconhecido. Lem-
bra-me isso alguns dos nossos jovens cortesãos
que só se ocupam da gente da mesma laia e
nos olham com desdém, como se fôssemos de
um outro mundo. Impedi-os de falar das coisas
da corte e não saberão mais que dizer; são a
nossos olhos tão ignorantes e tolos como nós
aos deles. Com razão se observa que o homem
de boa companhia é o que se adapta a tudo.
Quando viajo não quero saber de nossos costu-
mes; não é para encontrar gascões que vou à
Sicília; não faltam em França. São antes gre-
gos ou persas que procuro fregientar e enten-
der. Vou mais longe: não creio ter observado,
em minhas peregrinações, costumes que não
valham os nossos. É verdade que não me tendo
afastado demasiado do meu campanário
pouco arrisco em afirmá-lo.
A maior parte das pessoas que encontramos
em viagem dá-nos mais aborrecimento do que
satisfação; por isso trato de não ligar-me a
elas, principalmente agora que vou envelhe-
cendo e me apego menos à etiqueta. O velho
sofre por causa dos outros e estes por causa
dele, o que é ainda mais grave. É raro e recon-
fortante ter por companheiro de jornada um
homem de bem que se agtade) de nossa 'pre-
ENSAIOS — TI 449
sença e tenha uma mentalidade e hábitos seme-
lhantes aos nossos; senti muito a falta de uma
tal companhia em todas as minhas viagens;
mas é necessário escolhê-la antes de partir. Ne-
nhum prazer tem sabor para mim, se não
posso entreter-me a respeito com alguém; e o
mais insignificante pensamento gosto de tê-lo a
quem dizer. “Não quisera saber da sabedoria
se ma oferecessem com a condição de não a
comunicar a ninguém?3º.” E eis o que diz Ci-
cero: “Suponha-se um sábio em uma solidão
absoluta em que goze, entretanto, de tudo o
que precisa e com tempo para estudar o que
for digno de ser conhecido: preferirá renunciar
a vida a uma tal solidão.” Seduz-me a opinião
de Arquitas: “o próprio céu me daria enfado,
se aí tivesse de passear sem companheiro, em
meio aos divinos corpos celestes”. Todavia,
mais vale ficar só do que em companhia de
uma pessoa aborrecida e tola. Onde quer que
fosse, Aristipo gostava de viver como um
estrangeiro. “Se o destino me permitisse viver
como desejo231”, viveria a cavalo, “pelas
regiões queimadas de sol e por aquelas onde se
formam a neve e as chuvas?32”.
Mas, dirão, “não podeis dispor de passa-
tempos mais fáceis? Que vos falta? Não tendes
um belo panorama em vossa propriedade e um
bom clima? Não é ela confortável e ampla,
mais do que necessário? Aí recebestes mais de
uma vez o reie a rainha com seu séguito. Não
ocupa vossa família uma invejável posição
social? O lugar desperta em vós alguma recor-
dação que vos ulcere e seja insuportável, “que,
enterrada no coração, vos roa e consuma??? 2”
Ondé acreditais que podereis viver sem tor-
mentos de qualquer espécie? “Os favores da
fortuna nunca são sem mistura?3 *.? Convinde,
pois, em que vós mesmo sois o vosso entrave;
ora, em toda parte vos encontrareis convosco e
em toda parte tereis as mesmas razões de quei-
xa, pois a satisfação só existe neste mundo
para os seres desprovidos de inteligércia ou os
que atingiram a perfeição. Quem não se acha
feliz em casa, onde se achará? Quantos milha-
res de pessoas não ambicionam apenas uma
situação igual à vossa? Procurai corrigir-vos,
isso está ao vosso alcance, ao passo quê aos
decretos do destino apenas podereis opor a
vossa paciência. “Somente a razão nos conduz
à serenidade verdadeira?3 8? Vejo muito bem
os fundamentos dessa observação mas fora
mais simples dizer em duas palavras: sê sábio.
230 Sêneca.
231 Virgílio.
232 Horácio.
233 Ênio.
234 Quinto Cúrcio.
235 Sêneca.
Semelhante resolução ultrapassa a sabedoria;
é mesmo a sua conseguência. Com semelhante
raciocínio imita-se o médico que berra a seu
doente agonizante que se alegre; seu conselho
não seria: muito mais tolo se lhe dissesse: passe
bem. Não sou dos que se elevam acima do
comum; e embora seja preceito salutar e fácil
de entender o “contentar-se com o que se tem”,
outros mais sábios do que eu não o aplicam
tampouco. O ditado popular é profundo, mas
abarca um terreno demasiado grande. Tudo
deve ter medida, mas tudo é suscetível de
mudança.
Bem sei que esse prazer de viajar revela
inquietação e irresolução. São os meus princi-
pais defeitos, confesso. Não conheço coisa que
eu deseje capaz de fixar-me. Mudar, variar, é O
que me contenta, se é que alguma coisa pode
contentar-me. Nas viagens o que me alegra é
parar onde queira e partir quando queira.
Gosto de viver como um simples particular; e
assim o escolhi, mas não por ser hostil à vida
pública, a qual talvez assente a meu tempera-
mento. Essa independência faz que sirva de
melhor boa vontade meu rei por fazê-lo sem
constrangimento; minha razão e meu julga-
mento induzem-me a tanto, e não me dedico a
um por não me quererem outros. Assim em
tudo. Detesto ser obrigado a alguma coisa;
qualquer comodidade de que tivesse de depen-
der, ser-me-ia odicsa: “Quero com um remo
agitar a água e com outro tocar a areia da
praia?º 8? Uma só corda não me retém. Dirão
que há nisso uma certa vaidade. Onde e em
quem não haverá? Toda essa sabedoria, todos
esses preceitos que serão senão vaidade?
“Deus sabe que os pensamentos dos sábios são
apenas vaidades?º 7.” Essas requintadas sutile-
zas são boas para os sermões; são discursos
para enviar-nos bem arreados ao outro mundo.
A vida é movimento constante e efetivo do
corpo, movimento essencialmente desregrado e
imperfeito que procuro orientar segundo mi-
nhas aspirações: “Cada um com seu desti-
no238.” “Devemos agir de maneira a não ir de
encontro à natureza universal, sem entretanto
deixar de seguir nossas próprias tendên-
cias239? Para que servem as grandes idéias da
filosofia que nenhum ser humano pode pôr em
prática? Para que estabelecer regras que exce-
dam nossa capacidade? Vejo nos proporem
amiúde modos de vida que nem os proponentes
nem -os que os escutam têm a esperança, e se-
quer a vontade, de seguir. Do mesmo papel em
236 Propércio.
237 Salmo.
238 Virgílio.
239 Cícero.
450
que acaba de escrever uma condenação por
adultério, arranca o juiz um pedaço a fim de
enviar um recado amoroso à mulher de seu
colega. E essa mulher com a qual acabais de
colher o fruto proibido, momentos depois, e
em vossa presença, vai manifestar-se mais
violentamente do que Pórcia contra o mesmo
pecado cometido por uma de suas conhecidas.
E há quem condene outros à morte, por crimes
que ele próprio não considera sequer uma
falta. Vi outrora um senhor de boa sociedade
dar ao público por um lado um punhado de
versos notáveis pela beleza e o despudor e por
outro propagar uma defesa violenta da Refor-
ma? “º, Assim são os homens; deixam que os
príncipes e as leis sigam um caminho e eles
próprios seguem outro, e não somente por
desregramento de costumes, mas também por-
que não raro pensam e julgam diferentemente.
Escutai uma oração filosófica: a imaginação, a
eloquência, o talento nela se revelam; e, no
momento, comovem-nos; mas nada hã ali que
impressione nossa consciência; não é a esta
que se dirige. Como dizia Ariston, uma estufa
ou uma lição são inúteis se não nos dão pro-
veito. Podemos atentar para a casca, mas só
depois de tirar o miolo; assim também, somen-
te depois de beber o vinho é que se olha para o
cristal do copo. Em toda a filosofia antiga
vemos o mesmo autor redigir regras de tempe-
rança e páginas sobre o amor e a devassidão.
Xenofonte nos joelhos de Clínias escrevia con-
tra a virtude que propugnava Aristipo. E isso
não ocorre por se verilficarem milagrosas
conversões e recaidas. Sólon, por exemplo, ora
se apresenta como indivíduo, ora como legisla-
dor, falando ora para si mesmo, ora para as
massas. No primeiro caso atém-se às regras
naturais e diz com liberdade o que pensa, “ao
passo que o doente gravé precisa ser tratado
pelos mais hábeis médicos? *'”. Antistenes
autoriza o sábio a amar e a fazer o que julgue
oportuno sem se submeter às leis, porquanto
seu julgamento lhes é superior e melhor do que
elas conhece a virtude. Seu discípulo Diógenes
afirma que devemos opor a razão ao desman-
do, a confiança à sorte, a natureza às leis. Os
estômagos delicados necessitam de receitas; os
estômagos sólidos só se preocupam com seu
apetite. Assim, nossos médicos comem melão
e bebem bons vinhos, enquanto recomendam a
seus clientes xaropes e caldos; e dizia a cortesã
Laís: “não sei de que livros, de que sabedoria
ou filosofia falam esses indivíduos, mas vejo-
os atropelarem-se à minha porta como os
demais” Como nossa licença nos solicita
240 Teodoro de Beze, provavelmente.
241 Juvenal.
MONTAIGNE
quase sempre mais do que o razoável, não raro
apertaram-se mais do que fora indicado as leis
e os preceitos de nossa vida. “Nunca se pensa
delinquir além do limite permitido? *2.” Seria
desejável que entre a ordem e a obediência
houvesse mais justa proporção; parece estú-
pido propor-nos um objetivo que não temos a
possibilidade de atingir. Não há homem de
bem, dedicado aos estudos das leis, que não se
encontre dez vezes na vida no caso de ser con-
denado à forca. E entre eles alguns seriam
punidos mui injustamente. “Que te importa,
Olo, como este ou aquele dispõe de sua
pessoa 2437? Por outro lado, muitos que nunca
infringiram as leis, não se poderiam considerar
virtuosos e a filosofia com razão os açoitaria.
Estamos longe de ser gente de bem segundo a
doutrina divina. Nem o poderíamos ser com as
regras que nós mesmos criamos. A sabedoria
humana não cumpriu jamais os deveres que ela
própria se propôs; se o houvesse conseguido;
estabeleceria desde logo outros mais rigorosos
ainda, pois nossa natureza é hostil a tudo o
que é realizável. O homem obriga-se a si
mesmo a continuamente errar e passa a vida a
criar deveres feitos para outros seres que não
ele. Por que determinar o que não se espera
que alguém cumpra? Teremos culpa de não
fazer o impossível? As leis que nos condenam
ao que não podemos, condenam-nos pelo que
não podemos.
Em todo caso essa liberdade discutível de se
apresentar com duas caras, uma nas palavras e
outra nos fatos, será talvez permitida a quem
fale de certos assuntos, não a quem trate de si
mesmo como o faço. À vida comum deve rela-
cionar-se com as outras vidas. A virtude de
Catão era demasiado elevada para seu século;
seu espírito de justiça, em um homem que se
propunha govemar os outros e ser chamado a
opinar nos negócios públicos, podia passar por
inútil e absurdo, senão por injusto. Meus cos-
tumes, embora não difiram mais do que um
dedo dos costumes comuns, tornam-me, entre-
tanto, na minha idade, algo selvagem, pouco
sociável. Não sei se tenho razão em andar des-
gostoso com a sociedade que frequento, mas
não me queixaria se lhe aborrecesse, por isso
que a desdenho. A virtude que as coisas deste
mundo exigem é uma virtude flexível, capaz de
se adaptar à fraqueza humana; não é pura nem
- simples; não é reta, constante, imaculada. As
crônicas de nosso tempo censuraram a um de
nossos reis ter-se deixado guiar demasiado
escrupulosamente pelo seu confessor; é isso
porque os negócios de Estado devem obedecer
|
242 Juvenal.
243 Marcial. É
À
ENSAIOS — HI
a preceitos menos prudentes; “Abandona a
corte, se queres ser justo? **.” Tentei outrora
aplicar à gestão dos negócios públicos as re-
gras e os princípios a que obedeço na vida
particular, regras e princípios rudes, pouco
requintados, mas impolutos, que nasceram co-
migo ou adquiri com minha educação e que
sigo com segurança, senão com prazer. E veri-
fiquei que essa virtude inexperiente e escolás-
tica é insuficiente e perigosa nas coisas públi-
cas. Quando nos misturamos à multidão,
cabe-nos abrir o caminho aos empurrões,
avançar e recuar € por vezes tomar por ata-
lhos; e viver, não como desejariamos, mas
como querem os outros; não segundo o que
nos propomos e sim de acordo com o que nos
impõem; segundo o tempo, os homens e as coi-
sas. Platão diz que só por milagre quem se
mete em política sai com a consciência limpa;
diz ainda que quando coloca um filósofo à
testa do governo não pensa em governo cor-
rupto como o de Atenas, e menos ainda como
o nosso, no qual a própria sabedoria perderia a
razão. Uma boa planta transplantada para um
terreno muito diferente do que lhe convém,
transforma-se de acordo com o meio; não o
modifica à sua conveniência. Sinto que se
devesse refazer minha educação em vista de
ocupações dessa natureza, teria que proceder a
inúmeras mudanças e adaptações. Se pudesse
assim transformar-me (e por que não o poderia
com o tempo?), não o desejara. A primeira
experiência desgostou-me; sinto por vezes cria-
rem-se em mim certas ambições, mas reajo a
essas tentações: “Persevera, Catulo, resiste até
o fim? * 8,” Não me solicitam muito aliás, e eu
me ofereço ainda menos. À liberdade e a ocio-
sidade, que são minhas qualidades dominan-
tes, opôem-se diametralmente ao que exigem
tais funções. Não sabemos distinguir as facul-
dades de cada indivíduo; elas se subdividem e
se delimitam de tal maneira que se faz dificil
apreciá-las, Julgar que alguém está apto a gerir
os negócios públicos pelas qualidades revela-
das em sua vida particular, é julgar erronea-
mente. Hã quem se govermne bem a sie mal aos
outros; hã quem escreva ensaios e não seja
homem de ação; outro sabe comandar. um
cerco e não uma batalha; outro fala com
desenvoltura diante de poucas pessoas e mal
em público; o fato de poder uma coisa não sig-
nifica que se possa a outra; talvez implique
mesmo em incompatibilidade. Observo que os
grandes espíritos são tão inaptos às pequenas
coisas como os espíritos inferiores às grandes.
Não parece inverossímil que Sócrates tenha
244 Tarcano.
245 Catulo.
451
sido alvo da zombaria dos atenienses por não
saber contar os suftágios de sua tribo e apre-
sentar um relatório ao conselho? .A veneração
que dedico a esse personagem faz que sua sorte
proporcione magnífico exemplo às minhas
próprias falhas. Nossa capacidade mede-se
pelos pormenores; a minha estende-se a pou-
cas coisas e é em tudo muito restrita. Quando
lhe deram o comando supremo, Saturnino
objetou: “Companheiros, perdeis um bom
capitão promovendo-o a general.”
Quem, em tempos tão ruins, se jacta de pôr
a serviço público uma virtude cândida e since-
ra, ou não a. conhece (pois, com as opiniões,
corrompem-se os costumes) ou, se a conhece,
vangloria-se tolamente e faz, o que quer que
diga, mil coisas de que sua consciência o
acusa. De bom grado acreditaria em Sêneca se
me falasse de coração aberto acerca de sua
experiência. Em nossa época o sinal mais hon-
roso de bondade está em reconhecer os pró-
prios erros e os alheios, concorrer para repri-
mir a tendência para o mal, esperar e desejar
melhor. Nessas dissensões que nos perturbam
e fizeram da França a presa dos partidos, cada
qual (mesmo os melhores) defende sua causa
com dissimulação e mentira. Quem lhe qui-
sesse escrever a história fiando-se nas aparên-
cias, seria muito temerário e não diria a verda-
de. Mesmo o partido mais certo não é senão
parte de um organismo corroído; mas o mem-
bro menos doente desse organismo não deixa
de passar por são, porque somente por compa-
ração é que podemos julgar. A inocência na
vida pública mede-se segundo os lugares e as
estações: Teria gostado que Xenofonte hou-
vesse dado a Agesilau o elogio que o fato
seguinte merecia: tendo um príncipe vizinho,
contra o qual estivera em guerra, pedido licen-
ça para atravessar seu território, Agesilau ace-
deu e deu-lhe passagem pelo Peloponeso; e não
somente não o traiu, como também o recebeu
cortesmente, considerando-se amarrado pela
promessa. Esta, com as idéias de hoje, nada
significaria; mas alhures e em outras eras a
franqueza e a magnanimidade eram honradas.
Os nossos malandros de agora pouco se
importariam com isso, mesmo porque em nada
se assemelham as virtudes dos espartanos às
dos franceses. Não é que careçamos de ho-
mens virtuosos, mas são como os concebemos.
Quem tenha sentimentos superiores aos de seu
século, precisa desnivelá-los ou não se meter
conosco, pois que ganharia com isso? “Se por-
ventura encontro um homem íntegro, comparo
esse monstro a uma criança de duas cabeças,
ou a algum peixe que o lavrador atônito depa-
rasse sob a charrua. ou ainda a uma mula
452
fecundável? 4 8.” Pode-se ter saudade de outros
tempos, mas não se pode fugir ao“presente;
pode-se desejar ter outros magistrados, mas
não desobedecer aos que estão em função. E
talvez haja maior mérito em obedecer aos
maus. Enquanto souber da existência de algum
representante das leis que a monarquia nos
deu, não o abandonarei; mas se porventura
uma cisão se verificasse sob a ação dos parti-
dos contrários que as entravam, e a escolha
entre os dois fosse difícil e duvidosa, creio que
me decidiria por fugir à tempestade, no que,
possivelmente, fora ajudado pela natureza ou
os azares da guerra. Entre César e Pompeu
teria tomado francamente partido; mas entre
os três ladrões que se lhes seguiram seria preci-
so esconder-se ou seguir a corrente, o que acho
lícito quando a razão já não nos pode guiar.
“Ou vais perder-te? 4 79” Isso já se acha algo
fora do meu assunto; perco-me, mas antes por
licença do que por inadvertência. Minhas
idéias ligam-se umas às outras, mas às vezes
de longe; não se perdem de vista, embora seja
por vezes necessário que virem a cabeça para
percebê-lo. Tenho diante de mim um diálogo
de Platão construído em duas partes absoluta-
mente diferentes; a primeira é consagrada ao
amor, ao passo que a outra somente trata de
retórica. Hã autores que não receiam passar
assim de um assunto a outro sem relação com
o precedente e fazem-no com muita graça, ao
sabor da fantasia. Os títulos de meus capítulos
nem sempre estão de acordo com a matéria;
não raro a relação se manifesta apenas através
de algumas palavras, como na “Andriana”, no
“Eunuco” ou em Sila, Cícero, Torquato.
Gosto de andar dando cabriolas, à maneira
dos poetas, que é ligeira, alada, demoniaca,
como diz Platão. Plutarco em certas obras
esquece o tema, o qual só por momentos se
encontra e sob matéria estranha. Vede como
procede em seu “Demônio de Sócrates”. Como
são belas suas escapadas, como suas variações
são elegantes, e tanto mais quanto mais se afi-
guram ter saído da pena por acaso. O leitor
distraído ê que perde de vista meu tema; eu
não. Sempre, em algum lugar, umas poucas
palavras hão de mostrar que o tenho em
mente. Passo de um assunto a outro sem regra
nem transição; meu estilo e meu espírito vaga-
bundeiam juntos. Um pouco de loucura previ-
ne um excesso de tolice, segundo afirmam nos-
sos mestres por palavras e exemplos. Muitos
poetas arrastam-se e descambam para o
prosaísmo, mas a melhor prosa antiga es-
plende com vigor e arrebatamento poético e
248 Juvenal.
247 Virgílio.
MONTAIGNE
tem algo da paixão que a anima. À essa prosa
cabe sem dúvida a preeminência na expressão
do pensamento; diz Platão que o poeta, senta-
do no tripé das Musas, deixa que derrame o
que lhe vem à idéia, como a água jorra da
fonte, sem meditar nem ponderar; e jorra de
tudo, coisas contraditórias, de todas as cores,
sem sequência. O próprio Platão amiúde entre-
ga-se à inspiração poética. A teologia antiga,
dizem os sábios, é toda poesia e, na opinião
dos filósofos, esta foi a princípio a linguagem
dos deuses. Penso que o assunto se realça por
si. Ele bem mostra, sozinho, onde começa,
onde muda, onde termina, sem que haja neces-
sidade de se introduzirem ligações, tão-so-
mente úteis aos ouvidos fracos ou indolentes;
não quero comentar a mim mesmo. Quem não
prefere não ser lido a sê-lo por quem cochile
ou tenha pressa? “Nada existe, mesmo útil,
que seja útil a quem passa correndo? *º”. Se
bastasse pegar um livro para aprendêlo,
olhá-lo para penetrá-lo profundamente,
percorrê-lo para dominá-lo, não poderia alegar
essa ignorância que proclamo. Não podendo
reter a atenção do leitor pelo interesse do que
digo, contento-me com interessá-lo em minha
mixórdia. Bem; dirão, mas lamentá-lo-á de-
pois. Sem dúvida, porém já se terá distraído.
Demais há espíritos que desdenham o que
compreendem; hão de apreciar-me tanto mais
e ante a minha obscuridade concluirão pela
profundidade de meu pensamento, o que detes-
to e evitaria se pudesse. Aristóteles vangloria-
se, algures, de se esforçar por essa obscuri-
dade; é um erro.
A princípio desdobrava os capítulos, mas
pareceu-me que desse modo interrompia a
atenção antes mesmo de despertá-la, por isso
comecei a fazer capítulos mais amplos, o que
requer do leitor certa intenção de ler realmente
e de destinar algum tempo à leitura. Não que-
rer dar menos de uma hora a semelhante ocu-
pação, é o mesmo que não querer dar nada; e
não se entregar por inteiro ao que se quer
fazer, é não fazer. Demais, é-me pessoalmente
cômodo dizer as coisas pela metade, algo
confusamente; e tenho aversão pela razão
desmancha-prazeres. Acho-a cara demais e
incômoda, quando se imiscui nos projetos
extravagantes e fantasias que concebemos. Ao
contrário, esforço-me por valorizar a vaidade e
a estupidez se porventura me agradam, ejsigo
minha inclinação natural sem a fiscalizar de
muito perto. |
Vi alhures ruínas de monumentos, estátuas,
céus e terras. é homem é sempre o mesmo.
,
!
248 Sêneca.
ENSAIOS— HI
Tudo isso é verdade; entretanto, não posso ver
as ruínas da antiga Roma, tão grande, tão
poderosa, sem que a admire e venere. O culto
dos mortos é-nos recomendado. Desde a infan-
cia venho vivendo na intimidade da História
romana, e conheci tudo o que lhe diz respeito
muito antes de iniciar-me nos meus próprios
negócios. Conheci o Capitólio antes do Lou-
vre, e soube o que é o Tibre antes de ver o
Sena. Preocupei-me com o destino de Luculo,
Metelo e Cipião antes de atentar para o dos
nossos contemporâneos. Sem dúvida aqueles
já então mortos, mas meu pai o está também e
tão longe de mim após dezoito anos quanto os
outros depois de mil e seiscentos. No entanto,
não deixo de lhe cultivar a memória; sua ami-
zade e companhia continuam presentes em
meu espírito, pois é de meu temperamento
cumprir mais dedicadamente os deveres que
tenho para com os mortos; considero que
necessitam mais de nós, visto não poderem
ajudar-se a si mesmos. Mais bela se revela
assim a gratidão, porquanto um benefício
retroativo é menos louvado. Arcesilau visi-
tando Ctesíbio doente, e encontrando-o sem
recursos, colocou sub-repticiamente o dinheiro
de que o enfermo precisava à cabeceira do
leito, juntando o recibo da devolução, sem que
o beneficiário o percebesse. Os que mereceram
minha amizade e gratidão não as perderam
porque deixaram de existir. Melhor e mais
escrupulosamente os pago sabendo-os ausentes
e ignorantes de meus gestos, e mais afetuosa-
mente falo de meus amigos quando não têm a
possibilidade de saber o que digo deles. Cem
discussões tive em defesa de Pompeu e de
Bruto e a minha simpatia por eles permanece
viva. Poderão alegar que isso é fantasia, mas
só pela fantasia nos apegamos às coisas do
presente. Considerando-me inútil neste século,
volto-me para outros tempos e sinto-me tão
envolvido neles que essa velha Roma livre,
justa, florescente (não me refiro a seu nasci-
mento nem à sua decadência) me apaixona.
Por isso é sempre com emoção que revejo a
localização de suas ruas e casas nessas ruínas
que se enterram no solo até os antípodas. Efeti-
vo da natureza ou produto da imaginação, a
vista dos lugares que sabemos terem sido habi-
tados ou frequentados por personagens cuja
memória se conservou comove-nos mais do
que o relato de seus feitos ou a leitura de suas
obras. “Tantos lugares despertam recorda-
ções! Nesta cidade tudo detém o pensamento;
por onde quer que andemos, pisamos algo
memorável? *º.” Compraz-me imaginar-lhes a
2498 Cicero.
453
fisionomia, as atitudes, as roupas; repito esses
grandes nomes e os faço soarem a meus ouvi-
dos: “Honro esses homens ilustres e só lhes
pronuncio os nomes respeitosamente? 8º.” Nos
que são grandes, ainda que em parte, admiro
até as coisas vulgares. Como gostaria de vê-los
conversarem, passearem, comerem. Seria in-
justo desprezar as relíquias que nos lembram
tantos homens de bem que vi viverem e morre-
rem e que pelo seu exemplo nos dariam exce-
lentes lições se as soubéssemos seguir.
Demais, essa mesma Roma merece ser apre-
ciada tal qual é em nossos dias, aliada há tanto
tempo à nossa coroa. É a única cidade univer-
sal e a todos pertence. O soberano que a gover-
na é por todos obedecido; é a metrópole da
cristandade; o espanhol como o francês aí se
acham como em -sua pátria; para ser principe
nesse Estado basta ser cristão. Não há lugar
neste mundo a que o céu tenha outorgado tão
abundantes favores e com igual continuidade.
Sua própria decadência é gloriosa e seu presti-
gio não se apaga. “Mais preciosa ainda em vir-
tude de suas soberbas ruínas? 51”, até no tâmu-
lo conserva a aparência e o caráter da capital
de um império: “Aqui é que se diria, em verda-
de, que a natureza se deleitou com sua
obra? 82”. Quem se censurar por se sentir aces-
sível a tal satisfação, deve pensar que é esta
menos vã do que prazenteira. E jamais poderei
criticar o que quer que seja que agrade um
homem de bom senso.
Sou grato ao destino por não se ter até
agora manifestado contra mim além do que eu
poderia suportar. Talvez tenha ele tendência a
deixar em paz quem não o importuna.
“Quanto mais coisas recusamos, tanto mais
nos concedem os deuses. Embora pobre, jun-
to-me aos que nada pedem. Quem muito quer
de muito carece? º3.? Se assim continuar dei-
xarei esta terra feliz e satisfeito e “nada mais
peço aos deuses”, como diz Horácio. Mas cui-
dado com o choque, se ocorrer! Contam-se
aos milhares os que nautragam no porto. Con-
solo-me facilmente ante a previsão do que
acontecerá aqui quando houver morrido; o
presente já me ocupa demasiado, “entrego o
resto à sorte? 8 4”. Em verdade, não tenho isso
que tanto incita o homem a pensar no futuro:
herdeiros de seu nome e honra. É possível que
seja desejável tê-los, mas a situação crítica que,
atravessamos induz-me a não os querer. Já me
250 Sêneca.
251 Sidônio Apolinário.
252 Plínio.
253 Horácio.
254 Ovídio.
454
apego demais à vida, sozinho; basta que eu
mesmo deva ao destino o que não posso evitar
de lhe dever, não é necessário que ainda lhe
deva mais, e nunca achei que fosse uma des-
graça não ter filhos, nem me parece que isso
torne a vida menos completa e feliz. A esterili-
dade também comporta algumas vantagens.
As crianças figuram entre as coisas que não se
devem desejar, principalmente quando, como
agora, hã pouca probabilidade de virem a ser
boas: “nada de bom pode nascer; a semente
não presta? º 82. É entretanto com justa tristeza
que as perdemos.
Quem me entregou a direção de minha casa
prognosticou-lhe a ruína, dado meu tempera-
mento tão pouco doméstico. Enganou-se;
conservei-a como a recebi; talvez em melhor
situação, porquanto sem dívidas, embora não
dê lucro. Se a fortuna não me causou graves
prejuízos tampouco me trouxe muitos benefi-
cios; o que em minha casa veio dela, aí se
achava antes de eu tomar posse, e há mais de
cem anos; nenhum bem de alguma impor-
tância lhe devo. Apenas pequenos favores, e
sem que os solicitasse, pois Deus sabe que sou
positivo e só aprecio o que é real e de grande
rendimento. Acho que a avareza não é muito
menos desculpável do que a ambição, e penso
que se deve evitar a dor tanto quanto a vergo-
nha; e desejar a saúde tanto quanto o saber, e
a riqueza não menos do que a nobreza.
Entre os favores outorgados pelo destino,
um mais do que os outros me alegrou: uma
bula conferindo-me a burguesia romana que
recebi com grande pompa em minha última
viagem. Variando o estilo dessas bulas de
acordo com as qualidades do destinatário, gos-
taria de ter visto antes o que aqui transcrevo
para quem tenha igual curiosidade.
“Em consegiência do relatório apresentado
ao Senado por Orazio Massimi, Marzo Cecio,
Alessandro Muti, conservadores da cidade de
Roma, acerca do direito de cidadania romana
a ser concedido ao ilustrissimo Miguel de
Montaigne, cavaleiro da Ordem de São Miguel
e camarista ordinário do Rei Muito Cristão,
decretam o Senado e o Povo Romano:
“-— Considerando que em obediência a
costume antigo sempre foram por nós adota-
dos com alegria e diligência os que, distin-
guidos pela virtude e a nobreza, serviram e
honraram nossa República ou o poderão fazer
algum dia, nós, respeitando o exemplo e a
autoridade de nossos antepassados, acredi-
tamos dever imitar e conservar esse hábito lou-
vável. Por esses motivos, o ilustríssimo Miguel
255 Tertuliano.
MONTAIGNE
de Montaigne, cavaleiro da Ordem de São Mi-
guel e camarista ordinário do Rei Muito Cris-
tão, mui zeloso do nome romano, sendo, em
razão de sua condição, do nome de sua família
e de suas qualidades pessoais, muito digno do
título de, cidadão romano, como o julgaram o
Senado e o povo romano, agrada ao Senado e
ao povo romano que o ilustrissimo Miguel de
Montaigne, ornado de todos os méritos e mui
caro a este nobre povo, seja inscrito como
cidadão romano, bem como os seus pósteros,
gozando todas as honras e vantagens reserva-
das aos nascidos cidadãos ou patrícios de
Roma ou aos que tal se tornaram pelos seus ti-
tulos. E como isso pensam o Senado e povo ro-
mano que não concedem propriamente um
direito mas pagam uma dívida; e que é menos
um benefício que outorgam do que um favor
que recebem de quem, aceitando essé direito de
cidadania, honra e ilustra a cidade.
“Os conservadores mandaram registrar este
“senatus consultum”pelos secretários do Senado .
e do povo romano, a fim de que seja conser-
vado nos arquivos do Capitólio, e mandaram
redigir este ato que vai selado com o timbre da
cidade. Ano da fundação de Roma 2331,e do
nascimento de Jesus Cristo 1581, aos treze
dias de março. Seguem-se as assinaturas.”
Não sendo cidadão de nenhuma cidade,
agrada-me sê-lo da mais nobre. Se os outros se
analisassem tão atentamente como o faço,
achar-se-iam igualmente vaidosos e friívolos.
Não posso livrar-me desses defeitos sem me
destruir. Todos válemos tão pouco uns como
outros, mas os que o não percebem parece-me
que saem ganhando, embora não esteja muito
certo disso.
Esse hábito comum de olhar para o que está
em nós atende sem dúvida a uma necessidade,
pois em nós mesmos só deparamos com misé-
ria e vaidade. Por isso, para que não soframos,
fez acertadamente a natureza que a vista se
volte para forá. Seguimos a correnteza; retro-
ceder, ir contra a maré, é por demais penoso.
Contemplai os movimentos do céu; olhai para
as atitudes do próximo; atentai para a deman-
da deste ou a doença daquele, ou o testamento
deste outro; voltai a vista para círia, para
baixo ou para os lados, para a frente ou para
trás. A ordem do deus de Delfos era parado-
xal, pois dizia que olhássemos para nós mes-
mos, que volvêssemos o espírito e a vontade
para as nossas próprias coisas, que em lugar
de nos espalharmos nos concentrássemos, por-
quanto o exterior nos atraiçoa, diminui e dis-
solve. “Acaso não vês, homem — dizia esse
deus — que o mundo se contempla à si
mesmo? Quer olhes para dentro ou para fora
ENSAIOS — HI
de ti, sempre tua vaidade estará em jogo, mas
ela será tanto menor quanto mais restrito o teu
campo de visão. Salvo tu, homem, todas as
coisas se estudam a si mesmas antes de mais
nada e estabelecem os limites de suas tarefas e
455
de seus desejos; pois não há nenhuma mais
necessitada do que tu que tentas abarcar o uni-
verso. Es um observador falho de saber, um
magistrado sem jurisdição, o bobo da comé-
dia.”
CAPÍTULO X
Do domínio da própria vontade
Em relação à maioria dos homens poucas
coisas me afetam, ou melhor, me prendem. É
normal que nos afetem, mas é preciso que não
nos dominem. Esforço-me por aumentar pelo
estudo e o raciocínio esse privilégio de insensi-
bilidade assaz pronunciado em mim. Conse-
guintemente, poucas coisas se me, impõem e
me apaixonam. Sou perspicaz, mas a raros
objetos presto atenção; comovo-me facilmente,
mas minha compreensão e aplicação são difi-
ceis e concentradas. Não costumo assumir
compromissos. Na medida do possível trato
unicamente de mim, e mesmo assim sou levado
a reprimir a afeição que dedico à minha pes-
soa, a fim de não atentar para aquilo que, em-
bora me pertença, está à mercê de outros e
mais sujeito ao acaso do que à minha vontade.
Assim, até a saúde, que tanto estimo, não a de-
sejo querer demasiado com receio de achar
insuportáveis as enfermidades. Devemos res-
guardar-nos igualmente do ódio à dor e do
amor ao bem-estar; é o que recomenda Platão.
E aos afetos que me distraem de mim mesmo e
me induzem a apegar-me aos outros, oponho-
me com todas as minhas forças. Acho que
devemos emprestar-nos aos outros e dar-nos a
nós mesmos. Se minha vontade se hipotecasse
com facilidade, resistiria pouco, porque sou
naturalmente muito impressionável, “iniraigo
dos negócios e feito para o ócio € a tranguili-
dade? * 8”, Discussões encamiçadas que des-
sem finalmente vantagem ao adversário, desen-
laces que tornassem ridícula a minha
insistência, far-me-iam sofrer cruelmente. Se
fizesse como os outros, não teria forças para
suportar as emoções que experimentam os que
aceitam tal existência, e desde o início estaria
déstruído por uma agitação intestina. Se por
vezes me convenceram de me encarregar de
negócios alheios, nunca prometi apaixonar-me.
256 Ovídio.
Prometi encarregar-me deles, não incorporá-
los a mim. Examino-os, não os choco. Tenho
bastante que fazer para atender ao que me diz
pessoalmente respeito, sem que me meta em
coisas estranhas. Os que sabem quanto devem
a Si mesmos não ignoram que o cometimento
não deixa grandes lazeres: “já tens muito com
que te ocupares em casa; não te afastes”.
Os homens alugam-se; suas faculdades não
lhes são úteis senão a quem eles se escravizam.
São os locatários que vivem neles e não eles
próprios. Essa disposição de espírito habitual
não me seduz. Cumpre zelar pela liberdade de
nossa alma e não a comprometer senão em
circunstâncias excepcionais, as quais são pou-
cas. As pessoas que se deixam empolgar são
presas das pequenas coisas como das grandes;
do que lhes respeita como do que não lhes diz
respeito. Imiscuem-se em tudo, e não vivem
onde não se podem agitar; “buscam trabalho
para ter trabalho? *$ 7”. E não porque o queiram
fazer, mas porque não o podem fazer, como
não pode parar, a pedra que rola, antes de
tocar o solo. Para certos indivíduos, ocupar-se
de coisas é dar prova de capacidade e dignida-
de; seu espírito busca o repouso no movimen-
"to, como as crianças no berço. São tão úteis
aos amigos quão importunos a si mesmos.
Ninguém distribui seu dinheiro aos outros, no
entanto distribui-lhes seu tempo e sua vida,
coisas de que somos pródigos mas que deve-
riamos poupar até a avareza. Sou por tempera-
mento inteiramente diferente. Atenho-me a
mim mesmo e em geral sem nada ambicionar
exageradamente; assim me conduzo em rela-
ção ao trabalho. Outros, em tudo o que dese-
jam e fazem, pôem toda a sua vontade e seu
entusiasmo. Tantos maus passos se dão, que
mesmo nos mais seguros é conveniente pisar
com cuidado; a própria volúpia é dolorosa
257 Sêneca.
456
quando demasiado profunda: “Marchas sobre
um fogo que arde sob traidora cinza? 8º ”
Os cidadãos de Bordéus elegeram-me. pre-
feito da cidade, achando-me eu longe da:Fran-
ça e mais longe ainda de pensar que isso
pudesse ocorrer. Recusei, mas demonstraram-
me que não devia recusar e a tanto se juntou
uma ordem do rei. O cargo é tanto mais honro-
so por não ser retribuído, não proporcionando
quaisquer benefícios. Dura dois anos mas pode
prorrogar-se mediante reeleição, o que ocorre
raramente. Aconteceu comigo o que somente
se verificara duas vezes antes, com o Sr. de
Laussac 'e com o Sr. de Biron, marechal de
França, a quem sucedi, transmitindo em segui-
da o cargo ao Sr. de Matignon, também mare-
chal de França, “um e outro hábeis adminis-
tradores e bravos guerreiros? 9”. Orgulho-me
da companhia. A sorte interveio amplamente
na ocorrência, pois meu caso foi semelhante ao
de Alexandre que, tendo a princípio recebido
com desdém os embaixadores de Corinto, vin-
dos para lhe oferecer a cidadania de“sua cida-
de, agradeceu-lhes em seguida a honra, ao
saber que Baco e Hércules figuravam entre os
que haviam obtido o título.
Logo ao chegar, apresentei-me como sou, e
conscienciosamente revelei-me sem memória,
nem vigilância, nem experiência, nem energia.
Mas também sem ódios, nem ambição, nem
violência. Assim sabiam o que podiam esperar
de mim. Como devesse minha eleição ao fato
de terem conhecido meu pai e quererem hon-
rar-lhe a memória, acrescentei lealmente que
me aborreceria muitissimo se alguma coisa
pudesse preocupar-me da mesma forma que o
preocupara o governo da cidade. Lembrava-
me de tê-lo visto, quando eu era ainda criança,
cruelmente agitado com tais questões, esque-
cendo a calma de que gozava em seu lar, onde
o haviam retido até então as fadigas da idade e
a sua saúde; e não poupando sequer a vida que
se arriscava a perder nas inúmeras viagens a
que os interesses da coletividade o obrigavam.
Ele era assim; uma grande bondade domina-
va-o, nunca houve alguém mais caridoso e
dedicado ao povo. Porém, isso que louvo nos
outros não me apraz seguir. E tenho minhas
razões para tanto.
Meu pai ouvira dizer que é necessário sacri-
ficar-se pelos outros; que o interesse particular
não deve ser levado em conta quando está em
jogo o interesse geral. Em sua maioria, as re-
gras e os preceitos deste mundo abundam
nesse sentido, tendendo a expulsar-nos de nós
mesmos em benefício da sociedade. Assim nos
258 Horácio.
259 Virgílio.
MONTAIGNE |
desviam do que nos interessa diretamente, com
receio de que nos apeguemos exageradamente
a isso, e nada se poupou nesse sentido, pois é
comum aos sábios legislar segundo a utilidade
das leis e não de acordo com a realidade das
coisas. A verdade apresenta, não raro, obstã-
culos e incompatibilidades e há que enganar
para não nos enganarmos; cumpre-nos fechar
os olhos e impor silêncio a nosso julgamento, a
fim de corrigir e superar o que essa verdade
cria: “São os ignorantes que julgam e é preciso
muitas vezes enganá-los para que não se enga-
nem Sor. - Quando nos ordenam que amemos
mais do que a nós mesmos cinquenta catego-
rias de coisas, fazem como os archeiros que,
para atingir o alvo, visam muito acima. Tam-
bém para endireitar um pau curvado é neces-
sário dobrá-lo no sentido contrário.
Creio que no culto de Palas, como em todos
os cultos, havia mistérios aparentes destinados
à divulgação e outros secretos reservados aos
iniciados. É provável que entre estes figurasse
o grau exato de afeição que cada qual deve ter
para consigo mesmo; não essa afeição de mau
quilate que nos leva a apreciar excessivamente
a glória, a riqueza, o saber, nem a afeição imo-
derada e indiscreta que nos arruína e apodrece
como a hera arruína e apodrece os muros a
que se prende; mas uma afeição sadia e equili-
brada, tão útil quão agradável. Quem conhece
esses deveres e os exerce é realmente inspirado
pelas Musas e alcança o ápice da sabedoria e
da felicidade humanas. Sabendo exatamente o
que deve a si mesmo, vê como utilizar os ou-
tros em seu proveito, o que também exige dele
o cumprimento de certos deveres em benefício
da sociedade a que pertence, pois quem nada
faz por outrem nada faz tampouco por si. “O
amigo de si mesmo é também o amigo dos
outros? 81”. Nosso dever primeiro consiste em
guiarmos a nós mesmos; para isso estamos no
mundo. Quem se esquecesse de viver honesta e
santamente e imaginasse cumprir .seu dever
exortando os outros a fazê-lo, seria um tolo; e
igualmente o seria se negligenciasse a própria
vida para que os outros pudessem vivê-la.
* Quando se aceita um cargo, deve-se-lhe dar
toda a atenção, não poupando esforço e sacri-
fícios: “Disposto a morrer por meus amigos €
minha pátria? 82”: mas isso não deve ir além
do ocasional. O espírito precisa continuar sere-
no, não inativo mas agindo sensatamente, sem
paixão. Agir com simplicidade custa-lhe ide
resto tão pouco que mesmo dormindo age, mas
!
|
280 Quintiliano. :
281 Sêneca.
282 Horácio.
ENSAIOS— HI
cumpre movimentá-lo com cuidado, pois o
corpo recebe as cargas que lhe impõem mas é
o espírito que as distribui e, distribuindo-as
mal, ultrapassa por vezes a medida recomen-
dável. Uma mesma coisa faz-se com esforços
físicos e determinações diferentes. Muita gente
se arrisca diariamente em guerras de que não
tiram beneficio algum e se expõem em batalhas
cuja perda não lhes perturba o sono. Enquanto
outros em suas casas, longe do perigo que não
ousariam enfrentar, apaixonam-se mais pelo
resultado da guerra do que o soldado que lhe
dá a vida e o sangue. Desempenhei cargos pú-
blicos sem me afastar de mim mesmo e entre-
guei-me a outrem sem me perder de vista. A
violência dos desejos estorva mais do que
favorece o esforço em vista de um dado objeti-
vo; tornamo-nos impacientes, ressentidos e
desconfiados ante os possíveis obstáculos.
Nunca dirigimos com eficiência uma coisa que
nos domina e obceca: “A paixão é um mau
guia? 83.” Quem só aplica nos negócios públi-
cos a inteligência e a habilidade, age com
melhores resultados, porque pode dissimular,
ceder, diferir à vontade, segundo as circunstân-
cias. Se malogra não fica atormentado e é
capaz de recomeçar; é sempre senhor de si. Ao
contrário, quem se embriaga de violência e
obstinação fatalmente incorre em faltas graves
e comete imprudências; a impetuosidade do
desejo torna-o temerário; e se a sorte não o
ajuda amplamente, pouco consegue. A filoso-
fia quer que eliminemos a cólera nos castigos
que impomos aos que nos ofendem: não para .
que a vingança seja menor, mas, ao contrário,
para que pese mais e marque mais profunda-
mente, porquanto o arrebatamento a perturba.
A cólera cansa o braço de quem pune; esgota-
lhe as forças e a precipitação como que o
entrava. “Quem se apressa se atrasa? 84.”
Assim a avareza tem seu maior inimigo em si
mesma; quanto mais violenta tanto mais esté-
ril, e é mais fácil acumular riquezas sob a más-
cara da liberalidade. : ;
Um fidalgo meu amigo, homem muito
honesto, quase enlouqueceu por tomar dema-
siado a peito os interesses de seu príncipe.
Este? 85 analisou-se diante de mim com estas
palavras: “percebo a gravidade dos acidentes
como qualquer pessoa, mas quando são irre-
mediáveis submeto-me às consequências;
quanto aos outros, depois das medidas neces-
sárias para enfrentá-los, aguardo tranqúila-
mente o resultado”. Vi-o em ação e em verdade
conserva inteira serenidade nas situações mais
dificeis; considero-o mais capaz na adversi-
263 Estácio.
264 Quinto Cúrcio.
2685 Henrique IV, ao que parece.
457
dade do que quando.a sorte o auxilia; suas der-
rotas são mais gloriosas do que suas vitórias.
Observe-se que mesmo nas ocupações mais
frivolas, como no jogo de xadrez ou da bola, o
desejo imoderado de ganhar perturba o espí-
rito e o corpo, ofusca a inteligência e paralisa
os movimentos. Quem encara com sensatez a
vitória e a derrota, permanece senhor de si.
Quem menos se irrita ou se apaixona é quem
melhor dirige o jogo, e com maiores probabili-
dades de êxito.
Dando à alma coisas em excesso, não a dei-
xamos apreendê-las e conservar. Na realidade,
algumas há que cumpre tão-somente apresen-
tar-lhe, outras temos que amarrá-las a ela; e
outras ainda precisamos forçá-la a incorporá-
las. Ela pode ver e sentir todas as coisas, mas
deve sustentar-se apenas com o que tem em si
e para isso há que instruí-la acerca do que lhe
convém € é capaz de assimilar. As leis da natu-
reza nos ensinam. Os sábios dizem que a natu-
reza não faz indigentes e quem o é, só.o é em
consequência da desordem de sua imaginação.
E distinguem com sutileza os desejos naturais
dos que nós mesmos criamos. Os que são reali-
záveis vêm dela; os que não podemos satisfa-
zer nascem de nossa fantasia. A pobreza de
bens é facilmente remediável; a da alma não
tem cura. “Se o homem se contentasse com o
suficiente, eu seria rico; mas como o homem
não se contenta, não há riqueza bastante para
mim? 88,” Sócrates ao ver carregarem pelas -
ruas da cidade móveis e jóias de grande rique-
za, disse: quantas coisas que eu não desejo!
Metrodoro vivia com doze onças de alimento
por dia; Epicuro precisava de menos ainda;
Metrocles dormia no inverno com os carneiros
“e no verão nos claustros dos templos. “A natu-
reza provê ao que exige? 8 7.” Cleantes vivia do
trabalho de suas mãos e vangloriava-se de
poder alimentar mais alguém ainda, se quises-
se.
A natureza exige muito pouco para nossa
conservação, tão pouco que foge aos golpes
possíveis da má sorte. Entretanto, permitamo-
nos algo mais e chamemos natureza aos costu-
mes e situação pessoal e fixemos assim os limi-
tes de nossas aspirações, levando em conta o '
que já possuímos. Parece-me desculpável agir
desse modo, pois os costuries são uma segun-
da natureza, tão poderosa quanto a primeira.
Se me vem a faltar aquilo a que estou acostu-
mado, sinto-o profundamente. Quase preferiria
que me tirassem a vida a que tornassem mais
difícil e medíocre a minha condição social.
Não sou mais capaz de mudar nem de modifi-
266 TLucílio.
267 Sêneca.
458
car meu teor de vida ainda que para: melhorar.
É tarde para isso, e se uma grande fortuna
viesse a caber-me não me alegraria, antes
lamentaria que não tivesse acontecido a coisa
no tempo em que me fora dado gozâ-la. “Para
que servem as riquezas que não possa usu-
fruir? 889” Não me seduziria tampouco qual-
quer nova aquisição moral. E quase vale mais
não se tomar homem de bem e não ter uma
possibilidade de vida melhor, quando já não se:
tem mais tempo diante de si. Eu que estou de
partida, de bom grado cederia a alguém a
experiência que adquiri acerca da prudência
que cabe observar nos negócios deste mundo.
A mim já não adianta. Que vale o saber para
quem não tem mais cabeça? O destino ofende-
nos e zomba de nós, ao oferecer-nos presentes
que não nos deu na hora certa. Não precisa de
guia quem não pode andar. Basta-me agora a
paciência. Para que uma voz magnífica se o
cantor tem os pulmões afetados? E que fará
com a eloquência um ermitão no deserto? Não
há necessidade de arte para chegar ao fim; este
vem sozinho. Meu mundo acabou; as pessoas
de minha espécie desaparecem; pertenço por
inteiro ao passado; não posso senão aprovar
esse estado de coisas e adaptar-me a ele. Darei
um exemplo. Essa inovação que suprimiu dez
dias do ano? 8º ocorreu agora no fim de minha
vida, num momento em que não posso acomo-
dar-me a essa idéia. Sou de uma época em que
contávamos o tempo de outro modo. Continuo
preso a tão longo hábito, e incapaz de aceitar
novidades mesmo se se destinam a corrigir
erros. Permaneço algo céptico. Minha imagi-
nação, por maiores que sejam meus esforços,
faz que me ache sempre com dez dias de avan-
ço ou de atraso. Não pára de murmurar-me
aos ouvidos: “essa modificação somente diz
respeito aos que não..estão chegando ao fim”.
A própria saúde, quando por momentos a
recupero, antes me aborrece do que alegra; não
sei como aproveitá-la. O tempo abandona-me
e sem ele nada possuímos. Nenhum apreço
daria a essas grandes dignidades que só se con-
ferem a quem se acha nas vésperas da morte;
não se pensa então em como exercer o cargo,
mas em quanto tempo se poderá exercê-lo; já
ao assumi-lo temos que atentar para o momen-
to de deixâ-lo. Em suma, chego agora ao fim e
não me sinto com disposição para mudar. Por
efeito de um demorado uso, meu estado atual
passou a fazer parte integrante de mim. Minha
natureza está no que a sorte fez de meu ser.
268 Horácio.
269 Em 1582 o papa Gregório XIII introduziu
uma reforma no calendário. Passou-se então subita-
mente do dia 4 ao dia 15 de outubro.
MONTAIGNE
Digo portanto que, fracos como somos
todos, podemos julgar-nos segundo o nosso es-
tado habitual; além desses limites reina a con-
fusão e não há como ampliar nossos direitos.
Quanto mais aumentamos nossas necessidades
e o que possuímos, tanto mais nos expomos
aos golpes da sorte e da adversidade. A exten-
são de nossos desejos deve ser circunscrita €
restrita de modo a só compreender as comodi-
dades mais próximas de nós, as que nos são
contíguas. E não deve prolongar-se em linha
reta, mas em curva cujas extremidades se jun-
tem em torno de nós, sem que se abra dema-
siado o círculo. Os atos que não se amoldam a
essa orientação, a esse movimento essencial, a
meu ver, como os do avarento, os dos ambicio-
sos e outros que se encarniçam atrás de uma
idéia inalcançável, são atos doentios e prejudi-
ciais. A maior parte das funções públicas tem
algo de cômico, “todos representam”, dizia
Petrônio. Cumpre desempenhar devidamente
seu papel, mas sem transformar a máscara e a
aparência em realidade nem deixar que o estra-
nho se encarne em nós. Não sabemos distin-
guir a pele da camisa. Basta enfarinhar o rosto,
não é preciso mascarar igualmente o peito. Há
quem mude e se transforme em outro ser
segundo o cargo que assume; neste mergulham
até o figado e os intestinos e mesmo na privada
agem como se estivessem no exercício de suas
funções. Gostaria de ensinar-lhes a diferençar
as saudações que se dirigem a suas pessoas das
que visam o mandato, o séquito ou a mula que
montam. “De tal modo se entregam à sua for-
tuna, que- esquecem sua própria natureza? 70”.
incham e ampliam a alma e a razão para colo-
cá-las à altura do assento que ocupam como
magistrados. Montaigne prefeito e Montaigne
simples particular sempre foram homens dis-
tintos, e nitidamente distintos. Não é por ser
advogado ou financista que se há de ignorar o
que tais profissões comportam de velhacaria:
um homem de bem não é responsável pelos vi-
cios.ou tolices de seu ofício e não deve por isso
recusar-se a exercê-lo. Está nos costumes do
país e é de utilidade coletiva. É preciso viver
no mundo e do mundo. Mas o juízo de um
imperador deve pairar acima do seu império, o
qual ele deve encarar como um acidente alheio
a si mesmo; e sua pessoa deve gozar de si pró-
pria à margem das suas funções e cumpre-lhe
entreter-se consigo mesmo tal como o faria
Pedro ou João.
Não sei dar-me por inteiro, e.quando minha
vontade me induz a optar por um partido hão
crio. obrigações que .contagiem meu Guida.
270 Quinto Cúrcio.
ENSAIOS — HI 459
mento. Nas agitações que perturbam atual-
mente o país, meus interesses não me fazem
desprezar as qualidades louváveis de meus
adversários nem ignorar os defeitos de meus
correligionários. Em geral adoram tudo o que
fazem os seus; eu não desculpo sequer a maior
parte do que perpetram os meus; uma obra não
perde seus méritos só porque foi escrita contra
mim. Salvo quanto à razão essencial do debate
(pois sou e continuarei católico), mantenho-me
equânime e indiferente: fora das exigências da
guerra; não desejo nenhum mal a meus inimi-
gos. E com isso me alegro, pois vejo
comumente assumirem atitude oposta:
“abandona-se à sua paixão quem não pode se-
guir a razão”. Os que estendem seu ódio além
da causa que o motiva, como costumam fazer
os homens, mostram que defendem outra coisa
e por razões de ordem pessoal. Assim quando
a febre persiste após a cura de uma úlcera,
tem-se a prova de que outra é a sua origem.
Não se rebelam contra a causa porque ofende
os interesses coletivos e do Estado, mas sim
porque prejudica os seus próprios. Daí a
animosidade pessoal, que ultrapassa o que
normalmente se entende por justiça. “Não
concordavam todos em censurar todas as coi-
sas, mas cada qual censurava o que o interes-
sava pessoalmente? 71. Eu desejo ganhar mas
não perco Oo juízo se assim não ocorre. Ligo-
me ao partido que sinceramente julgo o
melhor, mas não procuro mostrar-me especial-
mente inimigo dos outros e não ultrapasso o
que a razão determina. Profligo energicamente
expressões como estas: Fulano é da Liga por-
que admira o Duque de Guise; Beltrano é
huguenote porque adora o rei de Navarra;
Sicrano é de coração um rebelde, pois critica
os costumes do rei.
Tampouco admito que um magistrado possa
condenar um livro tão-somente porque nele se
menciona um herético como o melhor poeta do
século. Pois não se há de poder dizer de um
ladrão que tem a perna bem feita? E será obri-.
gatório que uma mulher da vida cheire mal?
Revogaram porventura, nos séculos em que
reinava maior sabedoria, o título de Capitolino
conferido a Marco Mânilio por ter salvo a reli-
gião e a liberdade? Esqueceram-se sua liberali-
dade, seus feitos guerreiros, as recompensas
militares, quando mais tarde, pondo em perigo
as leis de seu país, aspirou à realeza? E pelo
fato de tomarmos ódio a um advogado, perde
ele a eloquência no dia seguinte? Referi-me
alhures ao zelo absurdo que leva certas pes-
soas honradas a tais excessos; eu direi sempre:
271 Tito Lívio.
“nisto conduziu-se bem; nisso, mal”. Deseja-
riam porém que, quando se verificam aconteci-
mentos nefastos, cada qual, segundo seu parti-
do, se tornasse cego e imbecil e os visse não
como são mas como querem que sejam. Eu
pecaria antes por exagero oposto, receoso sem-
pre de que meus desejos não me influenciem.
Demais, desconfio um pouco das coisas que
ambiciono.
Tenho visto fatos extraordinários que de-
'monstram com que facilidade incompreensível
os povos se deixam convencer e guiar pelos
seus chefes quando se trata de crenças e espe-
ranças; apesar das desilusões repetidas, são
levados pela fantasia e o sonho. Não estranho
por isso que as macaquices de Apolônio e de
Maomé tenham seduzido tanta gente. A paixão
sufoca inteiramente o. bom senso e o julga-
mento; não distingue senão o que lhe apetece e
lhe parece útil à causa. Já o observara no pri-
meiro dos partidos que aqui se formou e foi tão
exaltado; mas o que surgiu depois imita-o e o
supera, O que me convence de que isso é defei-
to inerente aos erros populares. Após a pri-
meira opinião dissidente, outras aparecem;
semelhantes às vagas do mar, empurram-se
mutuamente segundo a direção do vento. Não
se pertence ao grupo, quando se é capaz de
recusar a acompanhar o movimento. Mas acho
que prejudica as causas justas defendê-las com
dissimulações e mentiras; sempre reprovei esse
procedimento recomendável apenas para os
que não têm a cabeça em bom estado. Com os
sãos. há meios não somente mais honestos,
como também mais eficientes para levantar o
ânimo e atenuar os efeitos das ocorrências
desfavoráveis.
Não viu o céu, nem verá jamais, dissensão
tão grave como a que se verificou entre César
e Pompeu; parece-me entretanto observar nes-
sas duas belas almas uma grande moderação
na apreciação recíproca. Sua rivalidade em
relação às honras e ao poder não os levou a
um ódio furioso e desumano. Não houve mal-
dade nem difamação. Nos seus atos mais vio-
lentos, deparamos com um resto de respeito e
generosidade. E creio que ambos desejariam,
se possível fosse, vencer sem destruir o outro.
Bem diferente é o caso de Mário e Sila.
Não nos devemos aferrar tão loucamente a
nossas afeições e interesses. Na minha juven-
tude combatia o amor quando o julgava exage-
rado e procurava torná-lo menos agradável, a
fim de que não acabasse por me dominar intei-
ramente.. E o mesmo faço nas demais ocasiões
em que alguma paixão me acomete. Esforço-
me por agir em sentido contrário de minha
inclinação; e evitosatisfazê-la a ponto denão a
460
poder mais controlar sem graves danos. Os
que por estupidez só vêem as coisas pela meta-
de têm a felicidade de se sentir menos molesta-
dos. É uma espécie de insensibilidade cujos
efeitos se assemelham aos da saúde, e por isso
não a desprezam de todo os filósofos. Não
basta, entretanto, para que a qualifiquemos de
sabedoria, como costumamos fazer. Em pleno
inverno, Diógenes abraçava, nu, uma estátua
de neve como exercício de resistência à dor.
“Estais com muito frio”, disse-lhe alguém.
“Nem um pouco”, respondeu o filósofo. “Pois
. então, retorquiu o outro, que dificuldade há em
fazer o que fazes, e que exemplos pensas dar?”
Para medir nossa resolução, é-nos indispen-
sável conhecer o grau de sofrimento que-pode-
mos suportar.
Os que são capazes de prever os sucessos
contrários e as injúrias da sorte em toda a sua
profundidade e 'aspereza, devem procurar evi-
tar suas causas. Assim fez o Rei Cótis. Pagara
generosamente uma vasilha riquíssima e belís-
sima mas extremamente frágil; quebrou-a por
isso propositadamente, para não ter a oportu-
nidade de se irritar contra um servidor. Eu
também sempre me esforcei por não possuir
terras contíguas às de parentes ou amigos, por-
quanto são em geral causa de discórdias.
Apreciava outrora os jogos de azar, de cartas
ou dados; renunciei hã muito porque, por bom
perdedor que me mostrasse, sentia interior-
mente uma viva contrariedade. Um homem de
honra, que um desmentido ou uma injúria atin-
gem profundamente, que não se consola com
uma má desculpa, deve evitar de se imiscuir
em questões escusas e discussões suscetíveis de
degenerar em conflito. Fujo dos tempera-
mentos tristes, das pessoas rabugentas, como
fujo dos pestíferos. E a menos que o dever me
obrigue, não me meto em discussões acerca de
assuntos que me interessam e comovem: “É
mais fácil não começar do que parar? 72”. O
mais seguro é preparar-se para o que der ou
vier.
Bem sei que alguns sábios agiram de
outra maneira e não hesitaram, em diversas
circunstâncias, em se pegarem a fundo; mas
são gente de grande resolução, muito seguros
de sua força e capazes de opor ao mal uma
paciência a toda prova: “qual um rochedo que
isolado no meio do oceano suporta a fúria do
vento e das ondas, e, desafiando as ameaças e
as forças do céu e do mar conjugados, perma-
nece inabalável? 73”.
Não imitamos esses exemplos; não o pode-
riamos. Esses sábios tiveram mesmo a força de
272 Sêneca.
273 Virgílio.
MONTAIGNE
assistir sem se perturbarem à ruina de seu país,
ao qual: haviam subordinado sua vontade e
seus interesses; mas para nossas almas vulga-
res um tal esforço é excessivo. Catão sacrifi-
cou-lhe a mais bela vida que se conhece; mas
nós, que não somos de igual estatura, temos de
fugir à tempestade e agir de acordo com nosso
instinto em lugar de nos resignarmos. Precisa-
mos esquivar os golpes que não estamos em
condições de sustar. Zenão, ao ver Cremôni-
des, a quem amava, aproximar-se, ergueu-se
imediatamente. Perguntou-lhe Cleantes porque
o fizera. E respondeu Zenão: porque os médi-
cos ordenam repouso e proíbem as emoções.
Sócrates não diz: “não cedas à atração da
beleza; enfrenta-a e resiste”. Ele diz: “Foge,
esconde-te dela; evita-a como a um veneno
violento que age de longe.”
O melhor de seus discípulos imaginando, ou
contando (o que me parece mais certo), os fei-
tos do grande Ciro, diz que esse príncipe,
receoso de sucumbir ante a beleza da divina
Pântea, sua escrava, encarregou alguém menos
independente do que ele, de vigiá-la e visitá-la.
E nos ensina o Espirito Santo: “Não nos dei-
xeis cair em tentação.” Não rezamos para que
a concupiscência não vença a nossa razão e
sim para que não tente sequer lutar, para que
não nos encontremos em situação de supor-
tar-lhe a presença, as solicitações e os convites
ao pecado; suplicamos ao Senhor que mante-
nha nossa consciência trangúila, livre de qual-
quer comércio com o mal.
Os que afirmam ter triunfado do desejo de
vingar-se ou de qualquer outra paixão difícil
de dominar, dizem por vezes a verdade, mas
referem-se às coisas como são e não como
foram. Falam do que é quando as causas de
seus erros já se acham enfraquecidas pelo
tempo; mas volte-se atrás, tomem-se as causas
em sua origem, não saberão que dizer. Não é
menor a falta por ter envelhecido, nem de um
começo injusto pode decorrer um justo fim. Os
que como eu desejam o bem de seu país, mas
sem se atormentar até O desespero, podem sen-
tir-se contrariados mas gão aniquilados ao vê-
lo ameaçado de ruína ou de desordem prolon-
gada. Pobre nave que as ondas, os ventos e o
piloto dirigem com desígnios contraditórios !
Quem pode dispensar os favores dos prínci-
pes e não os ambiciona não se aborrece com a
acolhida fria, a fisionomia carregada ou a
inconstância do soberano. Quem não se faz
escravo dos filhos ou das honrarias não deixa
de viver comodamente em os perdendo. Quem
faz o bem em vista de sua própria satisfação,
não se irrita se não lhe apreciam devidamente
o gesto. Um quarto de onça de paciência reme-
deia a tais inconvenientes.
ENSAIOS — HI 461
Dou-me bem com essa receita; permite-me
resgatar minha sensibilidade de outrora pelo
menor preço. por essa insensibilidade atual
que procuro ampliar quanto possível, pois com
isso evito muitas penas e dificuldades. Com
pequeno esforço corto de imediato qualquer
emoção que principie a me agitar; abandono-a,
e antes que me pese demasiado. Quem não
susta a partida não impede a corrida; quem
não sabe fechar a porta às paixões, não as
pode expulsar depois de entrarem; quem não
as liquida de início não as domina ao fim;
quem não prevê o abálo do prédio não lhe
evita a queda: “pois desde que nos afastemos
da razão, brotam sozinhas as paixões; a fra-
queza humana compraz-se em não lhes resistir,
e insensivelmente vemo-nos, em virtude de
nossa imprudência, arrastados para o alto-
mar, sem abrigo a nosso alcance? 7 *?. Sinto
em tempo útil as brisas precursoras da tempes-
tade virem tatear-me e murmurar ao redor de
mim, “assim o vento, fraco ainda, agita a flo-
resta; freme e seus mugidos surdos anunciam
ao nauta a aproximação da borrasca?? 8”.
Quantas vezes não aceitei uma injustiça evi-
dente, a fim de evitar coisa pior da parte dos
juízes após um século de aborrecimentos, de
gestões humilhantes e aviltantes, que muito
mais pesariam a meu temperamento do que a
Geena e o fogo ! “Deve-se tudo fazer — e mais
alguma coisa — para evitar um processo, pois
é.não somente honroso como também provei-
toso abrir mão de algum direito? 7 8.” Se fósse-
mos avisados, deveriamos regozijar-nos com a
perda de um processo, como vi fazê-lo de uma
feita a um jovem de boa estirpe, o qual a todos
se vangloriava de ter sua mãe perdido o seu,
como se se tratasse da tosse ou da febre, ou
outra coisa desagradável. Os próprios favores
que me outorgou o destino, parentes e relações
influentes, sempre busquei não os utilizar con-
tra os interesses alheios, a fim de conseguir que
se reconhecessem meus direitos por outras
razões que não as do mérito da causa. Em
suma, empregando. bem meu tempo, estou
ainda virgem de processos, muito embora mais
de uma vez tenha tido motivos para recorrer
aos tribunais; não tive tampouco até hoje
nenhuma querela. Eis-me chegando ao fim de
uma longa vida sem jamais ter ofendido grave-
mente alguém, nem nunca ter sido ofendido,
nem jamais ouvido juntar-se a meu nome
algum epíteto destoante. É sem dúvida uma
graça dos céus.
Os grandes abalos das sociedades humanas
têm origens ridículas. Quantas desgraças se
274 Cicero.
275 Virgílio.
276 Cicero.
abateram sobre o último duque de Borgonha.
por causa de uma partida de peles de carneiro !
Não foi a legenda de um selo a causa inicial do
mais tremendo transtorno verificado na estru-
tura da República romana? Pois Pompeu e
César são apenas a conseglência das lutas
entre Mário e Sila. Em nossos dias, foi-me
dado ver reunidos, à custa do tesouro, os ho-
mens mais sábios do reino para assinarem tra-
tados e acordos cujas cláusulas tinham sido
estabelecidas não raro no toucador de alguma
mulher insignificante, ao sabor de seus capri-
chos. Bem o compreenderam os poetas que
puseram a Grécia e a Ásia a fogo e sangue por
causa de uma simples maçã. Indagai dos moti-
vos que levam tal ou qual indivíduo a jogar a
honra e a vida na ponta de um punhal: não os
dirá sem corar, a tal ponto serão vãos e
frívolos.
A princípio basta um pouco de prudência
para que evitemos uma questão; uma vez
embarcados nela, sacodem-nos as cordas todas
do litígio. Surgem então as dificuldades. Muito
mais cômodo é não entrar do que sair! Há que
agir ao contrário da cana, a qual de início
deita um talo reto e longo, mas em seguida,
como se houvesse perdido a força, vai for-
mando nós que assinalam as pausas do cresci-
mento. E melhor começar devagar e prudente-
mente, conservando o fôlego e reservando o
impulso mais vigoroso para o momento em
que for mais necessário. Orientamos as coisas
em seu começo como melhor nos apraz, mas
quando sé p6oem em movimento arrastam-nos
com elas.
Não direi, entretanto, que esse procedimento
me tenha poupado quaisquer aborrecimentos e
que não precisei muitas vezes reprimir com
grande esforço minhas paixões. Nem sempre
se governam como fora desejável; não raro
mesmo atuam com violência e aspereza. Como
quer que seja, a tática é boa e dá-nos algum
alívio e alguma vantagem, salvo aos que não
desejam vantagem que não acarrete com ela a
estima alheia. É que, com efeito, quem se retira
da dança antes de nela entrar, pode viver mais
contente mas não adquire uma reputação espe-
cial. Acrescentarei ainda que nisso, como em
tudo, o caminho dos que visam unicamente às
honrarias é bem diferente do que seguem os
que atendem aos ditames da ordem e da razão.
Há quem se arroje inconsideradamente à corri-
da, mas logo diminui o passo. Plutarco afirma
que aqueles que por falsa vergonha cedem e
facilmente concordam com o que lhes pedem,
são mais tardê impelidos a faltar com a pala-
vra. Assim também ocorre com os que tomam
partido levianamente; saem da contenda não
menos irrefletidamente.. A mesma dificuldade
462
que sinto em me enredar numa disputa, leva-
me a persistir uma vez enredado. O que fazem
está errado, pois quando se começa deve-se ir
até o fim, embora se corra o risco de cair no
caminho. “Empreende com frieza, dizia Bias, e
prossegue com ardor.” A carência de prudên-
cia conduz à carência de ânimo, o que é pior
ainda.
Em sua maioria os acordos com que hoje
pomos fim a nossas dissensões são vergo-
nhosos e hipócritas; procuramos apenas salvar
as aparências e por isso traímos e negamos
nossas verdadeiras intenções. São remendos o
que fazemos. Sabemos em que circunstâncias
falamos, o sentido que deve ser dado às nossas
palavras; sabem-no também os assistentes,
como o sabem igualmente os amigos perante
os quais quisemos engrandecer-nos. De forma
que é a expensas da nossa fraqueza, de nossa
honra e de nossa coragem que negamos nosso
pensamento; e buscamos as escapatórias da
falsidade para alcançar o acordo. Desmenti-
mo-nos a nós mesmos para destruir o efeito de
um desmentido dado a outrem. Não devemos
indagar se nossos atos ou palavras podem
interpretar-se desta ou daquela maneira; é o
sentido verdadeiro que cumpre manter e defen-
der a qualquer preço. Trata-se de virtude e
consciência, o que não devemos mascarar;
cabê-nos deixar tão vis subterfúgios aos chica-
nistas dos tribunais. As desculpas e explica-
ções que damos de gestos indiscretos ou de
palavras inoportunas parecem-me mais detes-
táveis do que os próprios gestos e palavras.
Melhor seria ofender novamente o adversário
do que se ofender a si próprio em se humi-
lhando diante dele. Vós o desafiastes sob o
impulso da colera, e de sangue-frio procurais
apaziguá-lo e lisonjeá-lo ! Dessa maneira retro-
cedeis mais do que avançastes. Nada se me afi-
gura mais vergonhoso para um fidalgo do que
se desdizer em consequência de alguma impo-
sição, mesmo porque a obstinação é defeito
menor do que a pusilanimidade. É-me mais
fácil evitar as paixões do que moderá-las;
antes arrancá-las da alma do que as dominar.
Quem não pode alçar-se à nobre impassibi-
lidade dos estóicos deve apelar para a estupi-
dez vulgar, essa que me induz a fazer por
temperamento o que faziam eles por virtude. A
meia altura reinam as tempestades; mais alto e
mais baixo, filósofos e campônios encontram a
serenidade e a felicidade. “Feliz o sábio que
chega a conhecer as razões de todas as coisas;
isento de medo, calca aos pés o inexorável des-
tino e despreza os fragores do Aqueronte...
Feliz também o que conhece as divindades
campestres: Pa, o velho Silvano e a amável
família das Ninfas? 77.”
277 Virgílio.
MONTAIGNE
Todas as coisas são débeis e frágeis ao nas-
cer; eis por que cabe atentar para esse momen-
to, pois enquanto pequenas não se percebe o
perigo que correm e, quando crescidas, não se
encontra o remédio para seus males. Menos
difícil me foi sofrear minha tendência natural
para a ambição do que me houvera sido vencer
os mil percalços que teriam decorrido de
minha fraqueza. “Com razão sempre tive hor-
ror a erguer a cabeça acima dos outros? 78.”
Os atos públicos estão sujeitos a interpreta-
ções diversas e imprevisíveis; há juízes demais
para os julgar. Certas pessoas, referindo-se à
minha ação como prefeito de Bordéus
(agrada-me dizer alguma coisa a essg respeito,
não pela importância da cóisa, mas como
exemplo de minha maneira de ser), acham que
me conduzi como alguém que não se apaixona
bastante; não estão muito longe da verdade.
Procuro manter serenos meu coração e meu
espírito, “sempre naturalmente calmo, hoje o
sou ainda mais em conseguência da idade? 7º”,
e se por vezes se desregram ante uma impres-
são mais rude e aguda, a culpa não cabe à
minha vontade, Dessa apatia temperamental
não se deduza qualquer incapacidade (falta de
aplicação e carência de bom senso são coisas
diversas) e menos ainda qualquer ingratidão
para com esse povo, que, antes de me conhe-
cer, e depois igualmente, me deu a maior prova
de confiança a seu alcance, elegendo-me e
confirmando-me no cargo. Quero-lhe todo o-
bem do mundo, e se tivesse tido alguma opor-
tunidade não a houvera poupado para servi-lo.
Esforcei-me por ele como o faria por mim. E
um bom povo, guerreiro, generoso e contudo
capaz de disciplina e de bem agir quando
convenientemente dirigido.
Dizem também que minha administração
passou em branca nuvem. Que tolice! Criti-
cam minha inatividade em um momento em
que se censuram os outros por fazerem
demais! Ajo com energia e rapidez quando
meu entusiasmo me impele, mas .careço de
perseverança. Quem quiser tirar partido de
mim, levando em conta minha natureza, deve-
rá empregar-me em questões exigentes de vigor
e liberdade de ação; questões honestas que
possam ser resolvidas prontamente e mesmo
que dependam algo do acaso. Mas se a Coisa
exige tempo, sutileza, trabalho, malícia, que se
dirija a outro.
Os cargos importantes não são todos, em si
mesmos, de difícil desempenho. Eu estavá dis-
posto a trabalhar um pouco mais que de costu-
me, se absolutamente necessário, pois) sou
capaz de fazer mais do que faço ou gosto de
l
pas |
278 Horácio.
279 Cícero.
ENSAIOS — II
fazer. Nada deixei de lado, creio, daquilo que o
dever impunha. Mas esqueci os gestos e os fei-
tos que a ambição dita e qualifica como deve-
res. Ora são exatamente os que impressionam
e satisfazem os homens; o que estes apreciam
são as aparências; se não ouvem nenhum ruido
imaginam que dormimos. Por temperamento
“não gosto de barulho; poderia reprimir quais-
quer agitações sem me agitar e punir a desor-
dem sem me exaltar. Se tenho necessidade de
me mostrar encolerizado, faço de conta que o
estou, uso máscara, pois tenho antes tendência
para a cordura do que'para a violência. Não
criticarei um magistrado por dormir, se os que
administra também dormirem; é o que deter-
minam as próprias leis. Agrada-me uma vida
fácil, obscura, discreta, “igualmente afastada
da baixeza e do orgulho?2ºº”. deu-ma o desti-
no. Nasci em uma família que viveu sem brilho
nem tumulto e que desde sempre se revelou
sedenta de retidão e honestidade.
A gente de hoje está tão afeiçoada à agita-
ção e à ostentação, que a bondade, a modera-
ção, a cordura, a constância e outras serenas
qualidades não lhe apetecem. Os corpos áspe-
ros impressionam o tato; os lisos deixam-se
manusear sem que os percebamos. Sente-se a
doença; não a saúde, ou muito pouco, como
não sentimos o que nos agrada e sim o que nos
oprime. Age mais em prol de sua reputação
que do bem coletivo, quem difere o que pode-
ria fazer na reunião do conselho para fazê-lo
em público, ou ao meio-dia o que poderia ter
realizado na noite anterior, ou pessoalmente o
que esteja ao alcance de qualquer um. Assim
agiam na Grécia certos cirurgiões que executa-
vam suas operações à vista do público, a fim
de atrair maior número de clientes. Só julgam
boas as ordenações publicadas com alarde. A
ambição não é um vício de gente comum;
exige esforços acima de nossas possibilidades.
Diziam a Alexandre: “Vosso pai vos legará
um grande Estado pacificado e facil de se
governar”, mas O jovem invejava as vitórias do
paieo seu espírito justiceiro. Não quisera usu-
fruir tranquilamente o império do mundo.
Alcibtades, em Platão, observa que preferiria
morrer jovem, belo, rico, nobre, sábio e em
tudo alcançar a perfeição, a viver muito tempo
nas coridições em que se encontrava. Essa
doença é sem dúvida desculpável em um
temperamento forte e grande como o seu, mas
essas almas minguadas e doentias que se ilu-
dem acerca da possível celebridade de seu
nome, somente porque souberam julgar ou
defender a cidade, revelam tanto mais fraqueza
quanto mais pensam engrandecer-se com isso.
Por úteis que sejam, esses atos insignificantes
280 Cicero:
463
não têm consistência nem vida; o primeiro que
a eles se refere já os atenua e mal se comuni-
cam de uma esquina a outra. Há quem chegue
a proclamá-los ao próprio filho ou aos criados,
como aquele cidadão que, não tendo ninguém
para dar ouvidos as lisonjas que dispensava a
si mesmo, se vangloriava diante da camareira:
|
“Ó Perrette, que homem admirável tens por
patrão !? Na pior das hipóteses resta ainda o
recurso de falar com seus botões, como certo
cavalheiro que, tendo desembuchado grande
quantidade de comentários jurídicos extrema-
mente sutis e ineptos, foi ouvido a murmurar
para si mesmo, convictamente, entre a sala do
conselho e o mictório: “não a mim, Senhor,
não a mim, mas a vós é que cabe a glória”. Em
suma, outorgam-se a si mesmos os louvores
que não conseguem receber de outrem.
A fama não se prostitui tão facilmente; os
atos raros e exemplares que a conferem não
suportam a companhia dessa multidão de
pequenas ações cotidianas. O mármore poderá
exaltar-vos por terdes ordenado que se er-
guesse um pedaço de muro, ou se limpasse um
esgoto, mas os homens de bom senso não vos
recordarão. A glória não é forçosamente a
consequência de uma coisa útil; cumpre ainda
que essa coisa seja excepcional e dificil. Os
estóicos não admitiam sequer que um ato não
particularmente virtuoso merecesse considera-
ção; não queriam que se estimasse quem, por
continência, se abstivesse de cortejar alguma
velha remelenta. Entre os que estão a par das
admiráveis qualidades de Cipião, o Africano,
há quem lhe recuse os elogios que lhe conferia
Panécio, e isso porque julga que a generosi-
dade não era uma qualidade dele e sim inerente
ao próprio século em que viveu. Nós nos bene-
ficiamos dos prazeres do meio em que a sorte
nos colocou; não usurpemos o prazer da gran-
deza. São, os nossos, tanto mais sólidos e segu-
ros quanto menos elevados. Se não por convic-
ção, ao menos por respeito humano
rechacemos a ambição; desdenhemos esse ape-
tite vil e vergonhoso de reputação e honrarias
que nos impele a mendigá-las e a recorrer aos
meios mais baixos e onerosos para alcançá-las.
E desonroso ser honrado em tais condições:
“Que valem essas lisonjas que se adquirem no
mercado?8'9” Aprendamos a não ser mais
ávidos de glória do que a podemos merecer.
Jactar-se de um ato útil e inócuo é peculiar aos
que o encaram como raro e extraordinário,
porque o avaliam pelo preço que pagaram.
Quanto mais brilhante me parece um feito a
que assisto, tanto mais o rebaixo, desconfiado
de que se executou em vista da reputação a ser
auferida e não em consequência da grandeza
281 Cícero.
464 MONTAIGNE
de alma do autor. Exibido assim em público,
perde metade de seu valor. Os atos mais belos
são os que escapam sem ruído das mãos de
quem os executa, e que um dia algum homem
de bem recolhe e realça, dando-lhes o valor
que merecem. “Acho mais digno de elogios o
que se faz sem ostentação e longe dos olhos do
povo282”, disse o homem mais vaidoso do
- mundo.
Como prefeito, cabia-me apenas conservar e
continuar, o que é possível sem, ruído e sem
que o percebam. As inovações ressaltam natu-
ralmente, mas não são recomendáveis em épo-
cas como a nossa em que temos sobretudo que
nos defender contra as novidades. Abster-se de
fazer é por vezes tão meritório como fazer;
mas isso dá menor relevo e o pouco que valho
está nesse caso. Em suma, as oportunidades
que se me apresentaram ajustaram-se quase
todas a meu temperamento; felizmente. Pois
haverá quem deseje ficar doente só para ver
como se conduzirá o médico? E não se deveria
açoitar o profissional que aspirasse a ver-nos
com peste para experimentar suas drogas?
Não tive”a preocupação iníqua, e assaz
282 Td.
frequente, de desejar que os negócios de minha
cidade se perturbassem a fim de valorizar meu
governo; antes regozijeiime com sua normali-
dade. Quem não queira louvar-me pela ordem
e tranquilidade que reinaram na minha gestão,
não me denegue ao menos o favor da sorte.
Tanto aprecio ser feliz como ser sábio e quero
dever meu êxito antes as mercês de Deus do
que à minha atividade. Tormnei conhecido de
todos a minha incapacidade para a coisa pú-
blica; acrescento que tenho algo mais grave:
comprazo-me nessa incapacidade e, em razão
do gênero de vida que escolhi, não aspiro a
remediâ-la. Não tirei desse cargo, qualquer
satisfação pessoal, mas quase cheguei ao que
me propusera e fiz muito mais pelos outros do
que prometera, porquanto em geral prometo
muito menos do que posso dar. Estou conven-
cido de que não ofendi ninguém nem provo-
quei ódios. Quanto a ser lembrado com sauda-
de, sei que não o tentei; não estava em minha
“intenção: “Fiar-me desse monstro? Entregar-
me a falsa serenidade dessas
ondas?839?”
pérfidas
283 Virgílio.
CapíTULO XI
«+ Dos coxos
Faz dois ou três anos que foi o ano dimi-
nuído de dez dias, em França. Quantas
mudanças deviam resultar da reforma! Era, no
fundo, revolver céus e terra! No entanto, nada
aconteceu; meus vizinhos continuam a semear,
a colher e a vender; os dias propícios e os azia-
gos existem como sempre existiram. Nossos
hábitos não se ressentiam do erro, como não se
ressentem agora da correção, tão grande é a
incerteza de tudo, tão grosseira é a nossa
compreensão das coisas; e tão obscura e obtu-
sa. Dizem que o problema podia ter sido resol-
vido de maneira menos incômoda, como o fez
Augusto, cortando nos anos bissextos durante
o tempo necessário ao reajuste. Por não o
terem feito assim, estamos ainda adiantados de
alguns dias. Entretantó, o meio permanece ao
alcance de nossa vontade no futuro. De tantos
em tantos anos, esse dia será simplesmente
suprimido de modo que o erro não poderá
doravante sobreexceder vinte e quatro horas.
Não temos senão os anos como medida de
tempo e há séculos vem-na empregando o
homem. É, no entanto, uma medida que ainda
não acabamos de determinar e continuamos
em dúvida acerca das diversas formas que lhe
dão os outros povos, bem como -das razões
com que as justificam. Há quem diga que, na
proporção em que vamos envelhecendo, os
céus se abaixam e nos impedem a determina-
ção exata dos dias e até das horas! Plutarco
chega a afirmar que em seu tempo a astrono-
mia' não conseguira ainda descobrir o movi-
mento da lua. Eis-nos bem informados a res-
peito dos sucessos do passado !
Estava a meditar, hã pouco, como faço
amiúde, sobre a vagueza e a disponibilidade
desse instrumento mal regulado que é a razão
humana. Vejo comumente que os homens, em
lugar de atentar para a realidade dos fatos, se
divertem com lhes buscar as causas. Passam
por cima dos antecedentes e atêm-se a exami-
ENSAIOS — II
nar minuciosamente as conseqiências. Dei-
xam as coisas e correm as causas. Mas O
conhecimento das causas cabe apenas aos que
conduzem as coisas e não a nós que nos limita-
mos a percebê-las, que as usamos segundo as
nossas conveniências, sem a necessidade de
saber-lhes a origem e penetrar-lhes os princi-
pios. É o vinho mais agradável a quem sabe
como se fabrica e de onde vem? Ao contrário,
o corpo e a alma alteram o direito que têm ao
uso do mundo e de si, quando lhe agregam as
opiniões da ciência. Os efeitos afetam-nos, os
meios não. Determinar e distribuir são funções
de quem dirige e ensina; ao aprendiz e ao diri-
gido cabe aceitar.
Ao ouvir falar de alguma coisa, começa-se
por indagar: “como é?” Dever-se-ia dizer:
“antes de mais nada, é?” Nosso raciocínio é
capaz de reconstruir um mundo como o nosso
e descobrir-lhe os princípios e a organização;
não precisa para tanto nem de base nem de
materiais; basta-lhe deixar-se levar, “hábil que
é em dar um corpo à fumaça?8 *”?. Constrói tão
bem sobre o vazio como sobre o cheio, com
nada como com alguma coisa. Acho que de
quase tudo deveríamos dizer: “isto não é”.
Daria amiúde uma tal resposta se ousasse;
mas logo proclamam que falar dessa maneira
denota ignorância e fraqueza de espirito e
tenho, a maior parte do tempo, que representar
em companhia dos outros e conversar sobre
assuntos frivolos a que não dou fé. Sem contar
que é em verdade algo grosseiro e peculiar ao
espírito de contradição negar categoricamente
um fato que nos afirmam. Tanto mais quanto
poucas pessoas deixam de insistir em que o
viram, indicando testemunhas autorizadas;
principalmente quando o fato é pouco digno de
crédito. Disso resulta conhecermos as causas €
os efeitos de mil coisas que nunca existiram, €
discutirem os indivíduos acerca de assuntos
em que o pró e o contra são igualmente falsos:
“O falso aproxima-se tanto do verdadeiro, que
o sábio não deve enveredar por tão perigoso
desfiladeiro?8 8.”
Verdade e mentira têm igual fisionomia;
vemo-las com os mesmos olhos. Não somente.
nos mostramos covardes e nos defendemos
com tão pouco ardor contra a impostura,
como ainda nela chafurdamos; apraz-nos
emaranhar-nos em vaidade, como se ela fizesse
parte de nosso ser.
Vi nascerem vários milagres. Embóra mor-
ram em embrião, não deixamos de prever o
rumo que teriam tomado se houvessem sobre-
vivido, pois pela ponta do fio se deslinda a '
284 Pérsio.
285 Cícero.
465
meada. Os primeiros que se metem a narrar
histórias extraordinárias compreendem, pela
oposição encontrada, qual o ponto fraco e o
sustentam desde logo com alguma falsa prova.
Demais, como “os homens têm tendência para
espalhar rumores falsos?28 8”, acho certo dar a .
outros o que recebemos, sem nenhuma usura,
acrescentando-lhe mesmo alguma coisa a
mais. O erro individual forma o erro público, o
qual, por sua vez, cria o erro individual.
Assim, vai-se a coisa enraizando, de mão em
mão, a ponto de cada nova testemunha se
achar mais bem informada do que a prece-
dente, e a última mais convencida do que a pri-
meira. É uma progressão natural; quem quer
que acredite em alguma coisa, considera obra
convencer a outrem; e para tanto não hesita
em ampliá-la e melhorá-la, na medida em que
julga necessário para triunfar da falta de fé
“alheia. Eu mesmo, que tenho exagerado escrú-
pulo em mentir e não me preocupo com impor
o que digo, verifico que, no calor da discussão,
alteio a voz, amplio os gestos, acentuando e
fortalecendo minhas expressões, não sem dano
para a verdade inicial. Entretanto, se alguém
me chama à ordem e exige a verdade nua e
crua, logo a exponho sem ênfase nem comentá-
rio. Uma linguagem viva e ruidosa como a
minha, facilmente se inclina para a hipérbole.
Em geral os homens gostam acima de tudo de
propagar suas idéias e quando carecem dos
meios habituais, juntam-lhes o mando, a força,
o ferro e o fogo. É lamentável que a maior
prova da “verdade de alguma coisa esteja no
número de pessoas que nela acreditam, quando
nesse mesmo número se incluem tantos loucos
e tão poucos sábios. “Como se nada fosse mais
comum do que a ausência de bom-senso? 7.”
“Uma multidão de loucos, bela garantia para a
sabedoria288 |” É difícil contrariar as opiniões
aceitas por todos. A princípio persuadem-se os
simples de espírito; depois, a autoridade do nú-
mero e a antiguidade dos testemunhos conven-
cem os espíritos mais abertos. Eu, porém, se
não acredito no que me diz uma pessoa, não
me convenço tampouco se mo dizem cem.
Nem o julgo pela idade.
Não faz muito, um de nossos príncipes, víti-
ma de uma crise de gota que lhe abatera o
bom senso natural e a saúde vigorosa, deixou-
se persuadir da autenticidade dos milagres
terapêuticos de um padre que, com palavras e
gestos, curava todas as doenças. Fez então
uma longa viagem para vê-lo. O padre, pelo
efeito da sugestão, conseguiu extirpar-lhe a dor
286 Tito Lívio.
287 Cícero.
288 Santo Agostinho.
466
por algumas horas, de modo que o príncipe
nesse intervalo pôde servir-se de suas pernas
como não o podia fazer há muito tempo. Se o
acaso houvesse provocado cinco ou seis aven-
turas do mesmo gênero, já se teria proclamado
a realidade do milagre. Verificou-se, entre-
tanto, que quem obtinha tais resultados agia
com tamanha simplicidade e tão pouca malícia
que não se julgou, sequer, conveniente proces-
sá-lo. Idênticas conclusões se tirariam de ou-
tros casos semelhantes, se examinados cuida-
dosamente. “Admiramos as coisas que iludem
porque se encontram longe de nós?28º.” Assim
nossa vista descobre imagens longínquas que
se afiguram estranhas e se reduzem a nada ao
nos aproximarmos delas: “Nunca a. fama
corresponde à verdade?ºº.”
E espantoso verificar como certas lendas
muito espalhadas têm origens tão frívolas e
causas tão insignificantes. E mesmo o que nos
impede de nos informarmos melhor, pois, bus-
cando causas e fins grandes, graves e dignos de
tal renome, escapam-nos os verdadeiros em
sua pequenez. Nessas investigações requer-se
um pesquisador prudente, atento, sutil e isento
de preconceitos. Até hoje os sucessos estra-
nhos esconderam-se de mim, e em matéria de
monstros e de milagres bem caracterizados só
conheço a mim mesmo. Com o hábito e o
tempo, familiarizamo-nos com tudo o que é
estranho; apesar disso, quanto mais me analiso
e conheço, tanto mais minha deformidade me
espanta e menos eu me compreendo. É princi-
palmente no acaso que se acham a causa e a
explicação dos milagres.
Passando anteontem por uma aldeia a duas
léguas de casa, dei com a notícia de um mila-
gre que acabara de abortar. Há meses o caso
interessava a vizinhança, e das províncias mais
próximas acorriam magotes de pessoas de
todas as condições. Para divertir-se um jovem
da aldeia pusera-se a fingir de alma do outro
mundo, e tendo tido certo êxito na brincadeira
a ela associaria uma rapariga simplória e mais
um rapaz igualmente simples de espírito. Em
seguida, transformando a prédica doméstica
em prédica pública, esconderam-se sob o altar
da igreja, revelando-se somente à noite e proi-
bindo que acendessem luzes. Das palavras em
prol da conversão e das ameaças do Juízo
Final (coisas que, por sua autoridade e respei-
tabilidade, sempre escondem melhor a impos-
tura), passaram a aparições, mas tão ingênuas
e absurdas que mais pareciam divertimentos
de crianças. Entretanto, se a sorte os houvesse
favorecido, até onde os teria levado a farsa?
289 Sêneca.
290 Quinto Cúrcio.
MONTAIGNE
Os pobres diabos estão agora na cadeia e
sofrerão os castigos que deveriam recair sobre
a estupidez coletiva; e não sei se algum juiz se
vingará neles de sua própria tolice. Neste caso,
tendo a impostura sido descoberta, tudo se
esclarece, mas em numerosos casos análogos,
cujas causas escapam à nosso conhecimento,
acho que devemos suspender nosso juízo, a
favor ou contra. ;
Muitos abusos se engendram no mundo (tal-
vez todos) do fato de nos ensinarem a não
manifestarmos nossa ignorância e a aceitar-
mos o que não podemos refutar. De tudo fala-
mos por preceitos e convicção. Era de praxe
em Roma que as deposições das testemunhas e
as decisões dos juizes assim se iniciassem:
“Parece-me que...” Eu chego a odiar as coi-
sas verossimeis se me são apresentadas como
infalíveis, e prefiro as expressões que atenuam
a audácia da proposição, como, por exemplo:
“Talvez, até certo ponto, dizem, penso”, e ou-
tras do mesmo gênero. Se tivesse tido de edu-
car crianças, eu as houvera habituado às dúvi-
das e não às afirmações. Diriam: “Como? Não
sei, pode ser, será?” Assim mais paréceriam
aprendizes aos sessenta anos do que doutores
aos dez, como acontece hoje. Quem deseja
curar-se de sua ignorância precisa confessá-la.
Íris é filha de Taumante?º?, a admiração é a
base de tóda a filosofia; a investigação é a
fonte do progresso; a ignorância um obstáculo
intransponível. E, no entanto, existe certa igno-
rância forte e generosa que do ponto de vista
da honra e da coragem nada fica a dever à
ciência. E há tanta ciência em conceber essa
ignorância como em conceber a própria ciên-
cia. Corras, conselheiro em Tolosa, publicou
um resumo do estranho processo de dois indi-
víduos que se faziam passar um por outro.
Lembro-me (somente disso, aliás) que conside-
rara a impostura daquele a quem se julgou cul-
pado tão maravilhosa, tão acima da nossa
possibilidade (e a do juiz) de entender, que me
pareceu excessiva a condenação à morte, do
réu. Deveriamos admitir uma sentença conce-
bida nestes termos: “O tribunal não com-
preende nada neste caso.” Seria ainda mais
livre e sincero do que o que faziam os juízes do
Areópago, os quais, quando deviam pronun-
“ciar-se acerca de uma causa que não conse-
guiam esclarecer, determinavam às partes que
voltassem cem anos depois.
As feiticeiras de minha terra correm risco de
morte desde que alguém afirme que os sonhos
|
|
291 Isto é, a maravilha, o milagre, é filho dajadmi-
ração. A imagem é obscura, mesmo no seu contex-
to. Não se encontrou comentário esclarecedor. (N.
do T.)
ENSAIOS — II
delas se realizaram. Nossos. livros sagrados,
que reproduzem a palavra divina, encerram
também predições semelhantes (certas e irrecu-
sáveis); para aplicá-las aos acontecimentos
atuais, como não lhes distinguimos as causas e
não sabemos de que maneira se realizarão, é
necessário uma inteligência superior à nossa, e
talvez não caiba senão a esse onipotente teste-
munho esclarecer-nos e dizer-nos: a tal sucesso
e não a tal outro, isto se aplica. Devemos acre-
ditar em Deus, mas não em qualquer pessoa
que se maravilha com sua própria narrativa (e
naturalmente se maravilha quando o aconteci-
mento ultrapassa o alcance de nossos sentidos)
tanto dos fatos imputados a outrem como dos
que atribui a si mesmo.
Sou pesado de espírito e atenho-me ao que
tem consistência e é plausível, evitando, a
propósito, o defeito já assinalado pelos anti-
gos: “os homens são induzidos a acreditar no
que não compreendem; o espírito humano
inclina-se a crer mais facilmente *no que é
obscuro?º2”. Bem vejo que se irritam e me
proíbem a dúvida sob pena das piores injúrias;
é um novo método de persuasão. Mas graças a
Deus não será a socos que me hão de impor
uma orientação. Compreendo que aqueles cuja
opinião é tachada de falsidade se revoltem
contra a apreciação; quanto a mim, quando
não aprovo uma idéia, satisfaço-me com
achá-la ousada e dificilmente aceitável. Como
todo mundo condeno as afirmações contrárias
às minhas, mas em tom que nada tem de agres-
sivo. Quem, para provar o que sustenta, se re-
vela arrogante, mostra que a razão não é seu
forte: Enquanto se trata de uma simples dis-
cussão a respeito de palavras, como se verifica
nas escolas, os argumentos reciprocos podem
apresentar a mesma aparência de verdade,
“conquanto discutam e não afirmem?*3?”: mas
quando se trata dos efeitos que decorrem delas,
os que se conservam calmos levam vantagem.
Para chegar a matar as pessoas acusadas de
feitiçaria, é preciso possuir uma idéia bem núíti-
da dos erros que lhes são imputados; a vida
humana é uma realidade demasiado indiscu-
tível para que se dê como garantia os fatos
sobrenaturais e fantasistas que se lhe atribuem.
Não me refiro aqui aos que empregam drogas
e venenos; são homicidas da pior espécie; e, no
entanto, mesmo nesses casos, não devemos
confiar sempre em suas confissões; já se viu
quem confessasse ter matado pessoas que con-
tinuam vivas. Quanto às acusações extrava-
gantes que se verificaram contra os pretensos
feiticeiros, direi que já é muito acreditar-se em
292 Tácito.
293 Cícero.
467
quem diz coisas normais e naturais; e que não
devemos dar fé a quem conta o que não pode-
mos entender, a menos que haja recebido dos
céus a missão de contá-las. Esse privilégio que
aprouve a Deus conceder a alguns de nossos
testemunhos, cumpre não envilecê-lo comuni-
cando-o levianamente. Doem-me os ouvidos
de tanto escutar: “três pessoas viram-no tal dia
do lado do nascente; três outras do lado do
poente; a tal hora, em tal lugar, estava assim
vestido.” Por certo eu não acreditaria sequer
em mim mesmo. Acho muito mais natural que
dois homens mintam do que passar um só do
Oriente ao Ocidente em doze horas, levado
pelo vento; e mais natural também que nosso
juízo se perturbe arrastado por um turbilhão
de idêias, do que um indivíduo como nós, em
carne e osso, voar numa vassoura ou descer
pela lareira por se ter algum espírito estranho
apoderado dele. Não procuremos ilusões que
venham de fora e nos sejam desconhecidas,
quando já andamos perpetuamente agitados
pelas que nos são próprias e existem em nós.
Parece-me que é desculpável não crer em mila-
gres desde que os possamos desmascarar e
explicar de maneira plausível; e sou da opinião
de Santo Agostinho, de que mais vale incli-
nar-se para a dúvida do que para a certeza, em
tudo o que se apresenta dificilmente provável.
Há alguns anos passei pelas terras de um
principe soberano, o qual, a fim de esmagar
minha incredulidade, houve por bem mostrar-
me dez ou doze indivíduos presos em um local
especial, entre os quais se encontrava uma
velha que, pela sua fejúra e sua deformidade,
era uma verdadeira feiticeira, por sinal que fa-
mosa na profissão. Examinei as provas e as
confissões e notei não sei que espécie de estig-
ma na' velha. Interroguei-a longamente, com
atenção, pois não sou homem que se deixe
impressionar por idéias preconcebidas. Em
suma, ter-lhe-ia antes prescrito um pouco de
heléboro em vez de cicuta, “seu caso parecen-
do-me mais próximo da loucura que do
crime?º +”. Para tratar dessas doenças tem a
Justiça meios adequados. Quanto aos argu-
mentos e objeções que as pessoas de boa fé me
têm apresentado (nesse caso como em outros),
não me pareceram convincentes e sempre fora
possível encontrar outros mais verossímeis. É
verdade que não perco tempo em desfazer o nó
das provas e razões baseadas em experiências
e fatos; não há como desfazê-lo; e, como Ale-
xandre, corto-os. Mandar queimar vivo um
homem apoiado em simples conjeturas é valo-
-rizá-las exageradamente.
294 Tito Lívio.
468
Prestâncio conta que seu pai (e citam-se ou-
tros exemplos), como que entorpecido por um
pesado sono, imaginava ser jumento e servir de
animal de tiro aos soldados; e era o que imagi-
nava. Mas ainda que os feiticeiros possam ter
sonhos que sejam realidades e tais sonhos por
vezes produzirem certos efeitos, não creio que
nossa vontade deva ser responsabilizada em
juízo. Não falo como magistrado, nem como
conselheiro do rei, cargos de que não penso ser
digno, mas como homem do povo, acostu-
mado a exprimir-se e a agir com bom-senso.
Quem contar com meus sonhos para opor-se à
mais insignificante das leis de sua aldeia, ou
uma opinião aceita, ou um costume do lugar,
muito se prejudicará e não menos a mim; pois
não dou nenhuma garantia do que digo, a não
ser a de que o tinha na cabeça, embora confu-
samente, ao escrever. Isto é uma espécie de
conversação em que falo de tudo; não ofereço
conselhos: “Não tenho, como outros, vergonha
de confessar que ignoro o que não sei? º 5”. não
seria tão afoito em minhas palavras-se perten-
cesse à categoria daqueles a quem se deve dar
crédito, e foi o que respondi a um grande per-
sonagem que se queixava da aspereza e da se-
cura de minhas opiniões: “Vejo muito bem que
estais disposto a tomar determinado partido,
ofereço-vos um outro para esclarecer-nos e
facilitar-vos uma boa escolha; não para obri-
gar-vos a seguir a minha idéia; Deus, que sabe
o que vos convém, há de inspirar-vos: Não sou
sequer presunçoso a ponto de desejar que o
que penso faça pender a decisão para um ou
outro lado em coisa de tão grande importân-
cia; minha condição não me dá autoridade
para tão graves conclusões.” Reconheço os vi-
cios de meu espírito € as fraquezas de minhas
idéias e com eles desgostaria um filho que por-
ventura tivesse. Nem sempre se acomoda o
homem à verdade, tão estranha é a sua
constituição !
A propósito, diz-se na Itália que não conhe-
ceu o amor no que tem de mais doce, quem
não dormiu com uma coxa. O acaso, sem dúvi-
da, ou algum fato particular, há muito introdu-
ziu o ditado na boca do povo e o axioma apli-
ta-se tanto aos homens como às mulheres. A
rainha das amazonas respondeu a um cita que
a convidava para o amor: “São os coxos que
amam melhor?º 8.º Nessa república feminina,
a fim de evitar que os homens tomassem o
poder, quebravam-lhes, em criança, um braço
ou uma perna, e só se serviam deles para aqui-
lo em que nós utilizamos as mulheres.
Eu pensava que os movimentos desorde-
295 Cícero.
296 Teócrito.
MONTAIGNE
nados da coxa aumentavam o prazer e acen-
tuavam o gozo; mas acabo de verificar que os
filósofos antigos já elucidaram a questão. Afir-
mam que as pernas não se alimentando como
deveriam, em consequência da enfermidade,
nutrem-se melhor as partes genitais, desenvol-
vem-se mais e tornam-se mais vigorosas. Ou,
também, que com o defeito, impedindo qual-
quer exercício, gastam os aleijados:menos for-
ças e assim se mostram mais aptos aos jogos
do amor. Por idênticas razões diziam Os gre-
gos que as tecelãs eram mais ardentes do que
as outras mulheres. Tais raciocínios podem
levar-nos múito longe e eu acrescentaria que O
continuo tremor a que elas são submetidas em
sua tarefa as desperta e solicita, como ocorre
com as mulheres sacudidas em suas carrva-
gens.
Todos esses exemplos confirmam o que
disse a princípio; que a procura da causa se
antecipa por vezes em nós à constatação do
resultado e isso vai tão longe que chegamos a
julgar não o que existe, mas o que não existe.
Além dessa facilidade com que encontramos
interpretações para qualquer sonho, nossa
imaginação tende a impressionar-se facilmente
com as coisas falsas e com as aparências mais
frivolas. A simples autoridade desse ditado
muito antigo e muito conhecido levou-me a
crer outrora que sentiria maior prazer com
uma aleijada e que a deformidade dava-lhe, a
meus olhos, certa graça.
Tasso, na comparação que estabelece entre
a França e a Itália, observa que temos as per-
nas mais finas do que os italianos e o explica
pelo fato de andarmos sempre a cavalo. Da
mesma causa tira Suetônio conclusão diferente
ao afirmar que Germânico as tinha muito for-
tes graças à prática continua desse exercício.
Nada existe tão dúctil e desregrado quanto o
nosso juízo. É como o sapato de Terâmenes
que se ajustava a todos os pês. “Dá-me um
dracma de prata”, disse um filósofo cínico a
Antígono. E respondeu este: “não é um pre-
sente digno de um rei. Pois dá-me então um
talento. — A dádiva não convém a um cini-
co.” “Seja porque o calor abre os poros das
plantas e prepara o caminho para a seiva, seja
porque torna a terra mais dura e fecha as veias
à chuva fina, a um sol ardente ou a um frio
boreal, é por vezes útil pôr fogo no
campo? *?.?
“Toda medalha tem seu reverso2º8”, eis
porque Clitômaco dizia que Carnéades havia
superado Hércules ao arrancar dos homens a:
vontade temerária de julgar. Tão ousado|pen-
297 Virgílio.
298 Tasso. ;
ENSAIOS — II
samento de Carnéades viera-lhe ao espírito,
penso eu, ante a impudência e a presunção que
exibiam os que outrora se dedicavam a profis-
são de saber. Esopo estava exposto à venda
com dois outros escravos. Um comprador
indagou de um deles que sabia fazer; este para
se valorizar contou mil maravilhas. Disse o
segundo mais ainda. Quando chegou a sua vez,
Esopo respondeu: “Nada, eles já pegaram
tudo, eles tudo sabem.” Verificou-se o mesmo
469
nas escolas de filosofia. A afoiteza dos que
atribuíam ao espírito humano a capacidade de
tudo saber levou os outros a afirmarem, por
despeito ou contradição, que o espírito não era
capaz de coisa alguma. Estes exaltavam ao
extremo a ignorância como aqueles glorifi-
cavam absurdamente a ciência. De modo que
não há como negar que o homem é imoderado
em tudo e só pára quando forçado pela incapa-
cidade de ir além.
CAPÍTULO XII
Da fisionomia
Quase todas as nossas opiniões nos são
impostas por autoridade alheia. Não é isso um
mal, pois neste século tão frágil não sabe-
riamos escolher melhor por nós mesmos. Os
discursos de Sócrates, cuja forma e sentido nos
foram transmitidos por seus discípulos, só têm
a nossa aprovação em consequência do res-
peito que devotamos à opinião pública. Se um
homem desse porte nascesse agora, muito pou-
cos o louvariam. Só apreciamos as graças
picantes e artificiais; as que se escondem sob a
simplicidade e a sinceridade não as percebe
nossa visão grosseira. Para discernir as belezas
delicadas e discretas faz-se necessário uma
vista pura e penetrante. E não é a pureza, na
nossa opinião, parenta próxima da tolice e
digna de crítica? Sócrates exprimia-se de um
modo natural e simples; assim fala um campó-
nio, assim fala uma mulher. Refere-se conti-
nuamente a cocheiros, carpinteiros, sapateiros
e pedreiros; suas induções e suas analogias são
tiradas das ações mais vulgares do homem;
todos entendem o que ele diz. Sob tão pobre
roupagem não teriamos jamais compreendido
a nobreza e o esplendor. de. suas. admiráveis
concepções, pois julgamos mesquinhas as que
a erudição não realça e só percebemos a rique-
za pelo aparato. Nosso mundo é feito de osten-
tação; os homens incham-se de vento e andam
aos saltos como os balões. Sócrates não procu-
ra fazer que prevaleçam idéias quiméricas, seu
objetivo é prover-nos de fatos e preceitos de
imediata aplicação na vida: “controlar suas
ações, observar a lei do dever, obedecer à
natureza? 9º”. Sempre foi igual e fiel a si
mesmo; e não se ergueu por impulsos até à
perfeição, mas pelo seu caráter. Ou melhor,
299 Tucano.
não se elevou e sim abaixou o homem para
aproximá-lo de sua origem, da natureza, a'que
subordinou as aspirações, as desilusões e as
dificuldades da vida. Em Catão vemos clara-
mente que estamos em presença de um caráter
muito acima do comum; exaltado tanto nos
seus feitos como na sua morte. Sócrates, ao
contrário, não se afasta do chão, nem apressa
excepcionalmente o passo; e assim discorre,
como aliás se conduz nos momentos mais difi-
ceis da vida, e nos mais cotidianos.
Acontece que o homem mais digno de ser
conhecido e apresentado ao mundo como
exemplo, é aquele que melhor conhecemos.
Foi-nos descrito e pintado pelos homens mais
aptos a bem julgar que já existiram. Os teste-
munhos que temos a seu respeito são admirá-
veis pela fidelidade e a competência. É espan-
toso que hajam disciplinado tão puras idéias
sem as alterar nem ampliar, a ponto de produ-
zirem os mais belos efeitos em nossa alma, não
a apresentando rica ou ambiciosa, mas sadia,
Jovial e simples. Com essas idéias comuns,
com esses recursos vulgares, sem s€ comover
nem excitar, Sócrates não somente estabeleceu
as mais ordenadas ações e crenças como ainda
as mais elevadas e vigorosas que se conhecem.
Fez descer dos céus, onde perdia seu tempo, a
sabedoria humana e entregou-a ao homem, no
qual encontra mais razão de ser. Vede-o arguir
ante seus juízes; observai como raciocina para
firmar sua coragem na guerra, como fortalece
sua paciência contra a calúnia, a tirania. Nada
toma de empréstimo à arte ou à ciência; as
pessõas mais simples nele reconhecem seus
próprios meios e forças. Grande serviço pres-
tou Sócrates à natureza humana, mostrando-
lhe quanto pode por si mesma!
Somos todos mais ricos do que pensamos;
470
mas ensinam-nos a pedir, e a apelar para os
outros em vez de recorrer a nós mesmos. O
homem não sabe contentar-se com satisfazer
suas necessidades. Prazer, riqueza, mando,
sempre abarca mais do que pode; sua avidez é
incapaz de moderação. O mesmo sucede no
que concerne à curiosidade de saber. Em-
preende tarefas mais pesadas do que lhe permi-
tem suas forças e do que precisa: “Não temos
mais moderação no estudo das letras do que
no resto?00.? E tem razão Tácito quando
louva a mãe de Agrícola por sofrear no filho o
desejo desmedido de aprender.
Se encararmos com calma a ciência, vere-
mos que é um bem que, como os demais bens
do homem, comporta muita vaidade e fraqueza
natural; por outro lado custa caro. Sua aquisi-
ção apresenta maiores riscos do que a de um
alimento qualquer ou bebida; as outras coisas,
nós as levamos para casa quando as compra-
mos, e podemos colocá-las em algum reci-
piente em que as examinamos à vontade, utili-
zando-as como queremos. A ciência somente
em nosso espírito é que a guardamos; já a
absorvemos ao adquiri-la e quando saímos do
mercado já nos achamos melhorados ou conta-
minados. Algumas ciências servem apenas
para nos incomodar e perturbar; não nos enri-
quecem. Outras nos envenenam, quando deve-
riam curar-nos. Senti prazer em ver que algu-
res, Certos homens, por devoção, fazem veto de
ignorância; como há quem o faça de castidade,
de pobreza e de penitência. Isso equivale a cas-
trar nossos desordenados apetites, a embotar a
ânsia que nos conduz ao estudo dos livros, e a
privar o espírito da voluptuosa complacência
com que ouvimos dizer que somos sábios.
Cumpre-se melhor o voto de pobreza quando
se lhe junta o da ignorância.
Não precisamos de muita ciência para
vivermos satisfeitos, e Sócrates nos ensina que
aquilo de que necessitamos trazemo-lo em nós
mesmos; e oferece-nos o método de explorá-lo
e aproveitá-lo. Toda ciência, fora da que nos
vem da natureza, é vã e supérflua; e podemos
considerar-nos felizes se não nos pesa e emba-
raça mais do que nos serve: “Não é preciso
saber muito para ser sábio?º1.? Na realidade,
é a ciência uma febre que confunde e inquieta
o espírito. Recolhamo-nos em nós mesmos e
encontraremos argumentos naturais — os
mais eficazes — contra o temor da morte; são
os que ajudam o camponês e povôs inteiros a
enfrentá-la com mais firmeza de ânimo do que
um filósofo. Teria eu morrido menos serena-
mente se morresse antes de ter conhecido os
300 Sêneca.
301 Id.
MONTAIGNE
Tusculanes? Penso que não; a leitura dessa
obra enriqueceu-me a língua mas não me forta-
leceu muito mais o ânimo, o qual continua
como o criou a natureza e não me preparo
para o embate senão como o comum dos
homens. Os livros não me educaram; foram
um exercício para meu espírito. Talvez mesmo
a ciência, tentando dar-nos novos meios de de-
fesa contra os inconvenientes naturais, mais
acrescenta à idéia que temos da importância e
do alcance dos acidentes do que nos auxilia
com os sutis remédios que sugere. Pois são
realmente sutilezas que nos dá e mediante as
quais em vão se aviva nosso cuidado. Vede
como os melhores autores — e os mais enten-
didos — reúnem ao redor de um bom argu-
mento outros muitos secundários e, para quem
os aprecia de perto, vazios de sentido. Meras
argúcias verbais que nos iludem. Mas como
isso pode ter sua utilidade não o quero discutir
a fundo. Por empréstimo ou imitação também
as encontrarão aqui. É que se evita denominar
força, à simples gentileza, e considerar sólido o
que é apenas sutil, ou bom o que não é, senão
belo: “O que agrada ao gosto nem sempre
apraz ao estômago*º2”: nem tudo o que satis-
faz alimenta, “quando se trata da alma e não
mais do espírito? 03”,
Vendo os esforços de Sêneca no sentido de
preparar-se para a morte, e como se retesa a
fim de conservar sua segurança, e como se de-
bate contra essa obsessão, sinto que se
desacreditaria a meus olhos, se com a morte
mesma não houvesse consolidado corajosa-
mente sua reputação. Sua agitação febril, tão
amiúde renovada, denota a que ponto era ner-
voso e excitável. “Uma alma fórte exprime-sê
com mais calma e sensatez. .. o espírito tem o
matiz da alma... .”; são frases suas e cito-as
para melhor mostrar a que ponto estava então
preocupado.
A maneira pela qual Plutarco encara a
morte é altiva e menos obcecante; acho-a por
isso mais viril € menos persuasiva; sua alma
devia ter movimentos mais serenos e ordena-
dos. O primeiro desses autores é mais pene-
trante; comove-nos, excita-nos, perturba-nos.
O segundo é mais sólido; informa-nos, prepa-
ra-nos, reconforta-nos constantemente; toca-
nos principalmente a inteligência. Aquele nos
encanta, este nos convence. Conheço outros
escritos de autores mais venerados ainda, os
quais na pintura das lutas sustentadas contra
as solicitações da carne, representam-nas tão
violentas e invencíveis que nós, homens co-
muns, somos induzidos a antes adennar a
302 Cícero.
303 Sêneca.
ENSAIOS — HI 471
estranheza e o vigor insólito. da tentação do
que a resistência a ela oposta.
Fortalecem-nos mais os esforços da ciência?
Olhemos em torno de nós: a pobre gente que
vemos, inclinada sob o trabalho, ignorante de
Aristóteles e Catão, de exemplos e preceitos,
obediente à natureza, dá-nos diariamente pro-
vas de firmeza de ânimo e de paciência mais
puras e maiores do que as que estudamós na
filosofia com tanta aplicação. Quantos há que
não se preocupam com a pobreza, que desejam
a morte, e a acolhem sem alarde nem aflição!
O homem que trabalha neste momento em meu
jardim, enterrou o pai pela manhã; ou o filho.
Os nomes que dão às doenças, atenuando-lhes
a aspereza, suavizam-nas; a tísica chama-se
então tosse; a disenteria, desarranjo; a pleuri-
sia, resfriado. E assim como lhes temperam os
nomes, suportam-nas com naturalidade. E pre-
ciso que sejam muito graves para que lhes
interrompam o labor diário. Deitam-se somen-
te para morrer. “Essa virtude simples e pura é
transformada em uma ciência confusa e
fútil3 O 4,» j
Escrevia isto em um momento em que desa-
bavam sobre mim, com todo o seu peso, as
turbulências que continuamos a sofrer. Tinha
por um lado inimigos à porta e por outro
ladrões mais perigosos ainda, combatendo não
pelas armas mas pelo crime. E vinha-me
ressentindo de toda espécie de prejuízos decor-
rentes das hostilidades. “à direita e à esquerda
ameaça-me um inimigo temível; preciso defen-
der-me de ambos os lados? º 8.”
Manstruosa guerra! As outras são dirigidas
para fora; esta volta-se contra nós mesmos;
destrói-se a si própria e morre de seu próprio
veneno. É de natureza tão maligna e desas-
trosa que se arruína com a ruína que provoca;
na sua cólera, esquarteja-se a si mesma.
Vemo-la que se extingue, mais por escassez de
alimento do que pela força inimiga. Renega
qualquer disciplina; tem por objetivo dar cabo
à sedição, mas de sedição se enche. Propõe-se
a punição da desobediência e dá o exemplo da
revolta; empregada na defesa das leis, desa-
tende às prescrições legais. Para onde vamos?
O único remédio a que podemos recorrer é
infeccioso: “O nosso mal se envenena com a
terapêutica — piora e se amplia com o
medicamento?º 8; “O justo e o injusto, confun-
didos pelos nossos culposos furores, afastaram
de nós a proteção dos deuses?º 7?
304 Id.
305 Ovídio.
30 6 Virgílio.
307 Catulo.
Nessas doenças dos povos, podem-se, no
início, distinguir os enfermos dos sãos. Mas
quando a doença se prolonga, como em nosso
caso, todo o corpo se ressente, da cabeça aos
pés, nenhuma parte permanece isenta de
corrupção, pois não há ar que mais gulosa-
mente se respire e penetre um organismo do
que o ar da licença. Nossos exércitos não têm
consistência e só se conservam graças ao
cimento de coesão que neles introduz o estran-
geiro; com franceses não se consegue mais
constituir um só corpo de exército bem organi-
zado. Que vergonha! A disciplina só existe
entre os estrangeiros de nossas fileiras. Quanto
a nós, conduzimo-nos ao sabor de nossas
idéias pessoais e não em obediência às ordens
dos chefes; cada qual faz como bem entende, o
comando tem mais problemas internos do que
externos; cumpre-lhe vigiar seus soldados;
cortejá-los, atender às suas exigências. Só ele
obedece; o resto é livre e não conhece freios.
Apraz-me constatar quanta covardia e pusi-
lanimidade se escordem na ambição; quanta
abjeção e mesquinharia se fazem necessárias
para atingir seu alvo; mas lamento ver boas e
belas almas, capazes de praticar a justiça,
dissolverem-se nesse meio tão confuso. O
sofrimento prolongado transforma-se em hábi-
to e este engendra a resignação e acarreta a
imitação. Já tinhamos almas mal formadas em
número suficiente; não é justo que as genero-
sas se contagiem,. pois a perdurar esse estado
de coisas dificilmente encontraremos a quem
confiar a saúde de nosso país, no caso em que
o destino haja por bem lha devolver. “Não
impeçais este jovem herói de reconstruir um
século em ruíinas3º8 ”
Onde foi parar o velho preceito de que o sol-
dado deve temer mais a seu chefe do que ao
inimigo? E que pensar do maravilhoso exem-
plo do pomar que se encontrava no meio do
acampamento romano e que se verificou conti-
nuar intato ao se retirarem as tropas? Muito
me alegraria que nossa juventude, em vez de
empregar seu tempo em peregrinações inúteis e
aprendizagens pouco honrosas, o dividisse
entre fazer a guerra no mar sob o comando de
algum bom chefe e estudar a disciplina dos
exércitos turcos diferente da nossa « bem supe-
rior. Assim, as expedições tornam nossos sol-
dados mais licenciosos e os turcos mais disci-
plinados, pois lá os roubos e os furtos
praticados contra o povo, normalmente puni-
dos com açoite, são em tempo de guerra passi-
veis de pena mais severa. O furto de um ovo
acarreta cinquenta bastonadas; é preço fixado
de antemão. Qualquer outra falta, por insigni-
308 Virgílio.
472 MONTAIGNE
ficante que seja, pode acarretar a empalação
ou a decapitação imediata. Maravilhei-me ao
ler na história de Salim, o mais cruél dos
conquistadores, que, quando subjugou o-Egito,
os belos jardins de Damasco, situados em
plena região deflagrada e onde o exército
acampara, permaneceram intatos, respeitados
pelos soldados aos quais não se dera o sinal do
saque.
Haverá algo em um mau governo que mere-
ça ser tratado pela. droga mortal da guerra
civil? Favônio dizia que não, nem mesmo a
derrubada de um tirano que houvesse usur-
pado o poder. Platão não admite tampouco
que se violente a tranquilidade de um país para
curá-lo e não aceita um remédio que o revolu-
cione, que tudo entregue ao acaso, faça correr
o sangue e provoque a ruína dos cidadãos.
Aconselha aos homens de bem, nesses casos,
que deixem as coisas:correrem e peçam a inter-
venção de Deus. Parece mesmo censurar seu
grande amigo Dion por ter agido de outro
modo. Sempre estive de acordo com tais
idéias, mesmo antes de saber que Platão hou-
vesse existido. Não podemos evidentemente,
nós cristãos, considerá-lo um dos nossos,
muito embora tivesse merecido, pela limpidez
de sua consciência, o divino favor de ser ilumi-
nado pelas luzes do Evangelho naqueles tem-
pos de trevas; não penso por isso que seja justo
apelar para um pagão a fim de que nos ensine
quanto é ímpio não esperar de Deus um auxi-
lio que só a Ele cabe dar. Fico por vezes a
duvidar de que entre tanta gente metida em
nossas desordens, haja quem, de boa fé e por
insuficiência mental, possa acreditar que seja
possível corrigir abusos mediante tantos ou-
tros abusos! E imagine que-a salvação possa
decorrer dos mesmos meios que sabemos
desastrosos; que derrubando a pátria e entre-
gando os pedaços a seus inimigos, dando a
irmãos armados uns contra os outros a oportu-
nidade de empregarem sua coragem em lutas
parricidas?ºº, apelando para os demônios e as
fúrias, dão seu apoio à Divina Providência, a
qual encarna a justiça e a doçura, virtudes por
excelência. Como se a ambição, a avareza, a
crueldade, a vingança não tivessem em si mes-
mas suficiente vigor e impetuosidade, masca-
ram-nas com os rótulos gloriosos das grandes
virtudes que são a piedade e a justiça. Não é
possível sonhar com mais lamentável situação
do que essa em que a malícia se faz legal e
veste, com a conivência do magistrado, o
manto da virtude: “Nada mais falaz do que
309 Parricidas, e não fratícidas, porque lutam
todos contra a pátria, isto é, contra os pais. (N. do
T.).
uma religião que justifica crimes com o inte-
resse dos deuses?1º.” A maior injustiça, diz
Platão, consiste em considerar justo o que o
não é.
Nos tempos a que aludo, não sofreu o povo
apenas no presente por causa das depredações
cometidas, “pois muita era a desordem e muita
a confusão em nossas terras? 11”, como tam-
bém em relação ao futuro. Sofreram os vivos e
com eles os que ainda não tinham nascido.
Arrancaram-lhes, e a mim igualmente portan-
to, a própria esperança, e as razões de viver
por longos anos. “O que esses bandos de cri-
minosos não podem carregar, destroem; che-
gam a incendiar inocentes choupanas?!2.”
“Nenhuma segurança nas cidades; tudo devas-
tado nos campos* !3.”
Além dessas provações, outras padeci. Sofri
os inconvenientes que a moderação acarreta
em tais ocasiões; fui despojado por todos os
partidos. Era gibelino para os guelfos e.guelfo
para os gibelinos, como diz não sei que poeta.
A situação de minha propriedade, minhas rela-
ções com os vizinhos mostravam-me sob certo
aspecto; minha vida e meus atos, sob outro.
Não me assacavam acusações precisas; não
lhes abria o flanco por não transgredir as leis
(se forjassem algum inquérito somente elogios
me dariam), mas suspeitavam de mim surda-
mente, passando de boca em boca observações
que as aparências sugeriam, o que sempre dá
resultado em circunstâncias confusas e entre
espíritos cheios de inveja e de estupidez. No
fundo, contribuo para a propagação das
presunções injuriosas contra mim, com minha
mania de não me justificar, considerando que
exporia minha reputação a interpretações
desairosas ao defendê-la, “pois a discussão
enfraquece a evidência?! 4”. Por isso, como se
vissem tão claramente em mim como eu pró-
prio vejo, em-vez de procurar destruir a acusa-
ção dou-lhe maior força ainda, adiantando-me
a seu encontro com sarcasmos e- ironias ou
calando-me totalmente por julgá-la indigna de
resposta. Quem encara esse meu modo de agir
como testemunho de uma exagerada confiança
na justiça de minha causa, não me quer menos
mal do que aqueles que nele vêem uma prova
de sua fraqueza. Os grandes principalmente
assim pensam, porque a seus olhos a ausência
de espírito de submissão é a mais imperdoável
das faltas, e não gostam de fazer justiça a
310 Tito Lívio.
312 Ovídio.
313 Claudiano. ;
Bia Cicero
|
311 Virgílio. |
t
ENSAIOS — II
quem não a solicita com humildade. Contra
esse obstáculo não raro me choquei.
Um ambicioso se enforcaria de desespero
ante o que me ocorreu então; um avarento o
mesmo teria feito. Eu atenho-me a nada adqui-
rir: “Que conserve simplesmente o que me per-
tence, e até menos se necessário. Pouco impor-
ta. Aspiro a não me ocupar senão de mim
mesmo durante o tempo que os deuses quise-
rem dar-me ainda?! 8. Não obstante, as per-
das que experimento em conseglência da mal-
dade alheia, são-me tão dolorosas quanto as
dos avarentos, porque a ofensa é mais amarga
ainda do que o prejuízo. Mil desgraças de toda
espécie atormentaram-me naquela época,
umas após outras, e eu as houvera suportado
melhor se tivessem desabado todas juntas.
Já pensava a qual de meus amigos poderia
confiar a incumbência de me amparar na velhi-
ce desvalida. Passando-os em revista, vi-me em
fraldas de camisa ! Quem cai de tão alto preci-
sa cair nos braços de um afeto sólido, a toda
prova, O que é raro e não tem preço, se é que
existe. Verifiquei afinal que o mais seguro era
confiar-me a mim mesmo; e que, se me traísse
a sorte, teria que restringir-me mais ainda à
minha pessoa. Os homens em geral recorrem
aos outros, evitando olhar para os próprios
recursos que são os únicos certos e poderosos;
todos correm alhures para assegurar O futuro,
porque nunca ninguém se voltou para si
próprio.
Chego a acreditar que tais provações me
foram úteis; em primeiro lugar porque, quando
a razão não basta, cumpre corrigir os maus
alunos a chicote, assim como, pelo fogo e a
disposição das cunhas, endireitamos uma peça
de madeira que entortou. Embora eu me pro-
ponha há muito desprezar as coisas estranhas
a mim, volta e meia surpreendo-me olhando
para os lados: um sinal, uma palavra amável
de um grande personagem que me sorri, consti-
tuem uma tentação. E, no entanto, Deus sabe o
que valem, nestes tempos! Ainda escuto sem
franzir as sobrancelhas as propostas que me
fazem de cargos lucrativos, e os recuso com tal
nobreza que sempre imaginam que não desejo
senão ser convencido. Um espírito tão indócil
merece correção; é preciso reajustar a grandes
golpes de malho esse barco que se desconjunta.
Em segundo lugar, tais acidentes valeram
como exercício para enfrentar outros piores, se
eu, que esperava ser dos últimos atingidos pela
tempestade, viesse a ser dos primeiros, em vir-
tude de minha fortuna e das condições em que
vivia. Ensinaram-me a ater-me desde cedo a
315 Horácio.
473
um gênero de vida adequado ao novo estado
de coisas. A verdadeira liberdade consiste em
um completo domínio de si mesmo, como afir-
ma Sêneca. Em épocas normais e tranquilas,
preparamo-nos para os acidentes comuns,
porém na mixórdia atual, que já vai pelos trin-
ta anos, todo francês se vê a cada instante
sujeito a contemplar o desmoronamento total
de sua fortuna, e tem portanto de tomar as
medidas mais eficientes e enérgicas a fim de
que sua coragem se mantenha à altura dos
acontecimentos. Demos graças ao destino por
nos ter feito nascer em um século em que a
moleza, a ociosidade e a graça não têm curso;
assim será famoso pelas suas misérias, por-
quanto em outras condições ficara ignora-
do... Sempre lamentei, ao ler a história das
perturbações políticas, não as ter presenciado,
mas minha curiosidade satisfaz-se agora com
o espetáculo de nossa agonia pública, com
seus sintomas e formas. Como não posso
retardá-la, contento-me com presenciá-la e
anstruir-me. Buscamos com avidez no teatro as
trágicas peripécias do destino humano e embo-
ra nos cause piedade o que ouvimos, apraz-nos
o espetáculo; assim, em razão de sua raridade
e apesar da tristeza que sentimos, tiramos al-
guma satisfação em testemunhar os lamentá-
veis sucessos de uma época. Só nos comove-
mos com o que nos fere. Por isso os bons
historiadores fogem, como das águas dormen-
tes ou dos mares mortos, aos períodos calmos
e se interéssam especialmente pelas guerras e
sedições, a fim de interessar-nos.
Duvido que possa honestamente confessar o
vergonhoso preço pago pela serenidade de
minha existência, vivida em grande parte em
meio à ruína de meu país. Mostro exagerada
indiferença ante os acidentes que não me
dizem pessoalmente respeito. E sempre consi-
derei lucro o que não me tiraram, tanto interna
como externamente. E sempre achei um conso-
lo em esquivar, um após outro, os males que
me ameaçavam de maneira direta e foram aba-
ter-se alhures. Demais, em matêria de interesse
público, quanto mais extenso o campo tanto
mais tênue se torna o meu interesse, sendo em
parte certo que “nós não sentimos, dos males
coletivos, senão o que de perto nos toca?! 8”.
Por outro lado o estado de saúde de que parti-
mos só era sadio por comparação com o que
se lhe seguiu, e não caímos de muito alto.
Menos suportáveis se me afiguram a corrup-
ção e o banditismo instalados nos altos cargos,
pois menos nos ofende ser roubados em um
bosque do que onde deveríamos estar em segu-
316 Tito Lívio.
474
rança. Em verdade, a classe dirigente era então
composta de tarados e cada qual mais do que
o outro. Todos com úlceras e feridas e muitas
incuráveis.
O desmoronamento animou-me portanto
mais do que me aterrou, graças à minha cons-
ciência que não somente estava tranquila
como também me envaidecia. E como Deus
nunca distribui males e bens integrais, minha
saúde, ao contrário do que me acontece
normalmente, nada deixava então a desejar;.e,
se sem ela nada valho, com ela:sou capaz de
tudo. Ela deu-me os meios de resistir aos aza-
res e de aparar com a mão o golpe que me foi
assestado e que sem isso me houvera pene-
trado profundamente; verifiquei também que
minha capacidade de resistência permitia
aguúentar-me no estribo apesar dos mais rudes
corcovos. Não digo isso para provocar a sorte;
estou em suas mãos e submeto-me a suas
exigências. Sou-lhe um servidor fiel e lhe rendo
homenagem. Que se contente com isso, por
Deus, e não imagine que seja insensível a seus
golpes. Assim como os que atristeza acabru-
nha, sorriem por vezes a certos prazeres, em
minha calma habitual sou de quando em quan-
do sujeito a depressões melancólicas, que me
dominam enquanto não me armo para recha-
çá-las.
Outra calamidade juntou-se a essas misé-
rias: a peste grassou na região com uma vio-
lência nunca vista. Pois assim como os corpos
sãos se acham mais sujeitos às enfermidades
graves, porque só por elas são dominados, os
ares de minhas terras, tão salubres que nunca
haviam sido perturbados, ao serem contami-
nados sofreram excepcionalmente: “Velhos e
Jovens baixavam de cambulhada ao túmulo e
nenhuma cabeça escapava a Prosérpina?! ?:”
Minha própria casa tornou-se horrível à vista.
O que nela havia ficou entregue a quem pas-
sasse; eu, tão hospitaleiro, encontrei a maior
dificuldade em descobrir um refúgio para
minha família, a qual passou a ser um objeto
de horror para os próprios amigos e parentes;
onde quer que se apresentasse, imperava o
pavor; precisava mudar-se cada vez que
alguém sentia a menor dor, na ponta de um,
dedo que fosse, pois nesses casos logo se pensa
na peste e não se espera confirmação. E o pior
é que, segundo dizem os médicos, é necessário.
aguardar quarenta dias para saber se estamos
atingidos, e durante esse tempo a imaginação
nos atormenta e nos põe febricitantes. Tudo
isso não me teria preocupado tanto, se não
devesse atender às misérias alheias e servir de
317 Horácio,
MONTAIGNE
guia durante seis meses a essa caravana, pois,
pessoalmente, tenho meus preservativos: a
paciência e a firmeza de ânimo. Não tinha
muito medo, o que é o mais triste em tais
casos; aliás, sozinho e com receio, poderia
fugir mais rapidamente. Entretanto, a morte.
pela peste não me parece das mais temíveis; é
em geral rápida, perdem-se logo os sentidos,
não se sofre e a ameaça que pesa sobre todos
igualmente é um consolo. Nos arredores, a
centésima parte da população morreu. “Teriíeis
visto os campos desertos, e desertos os
bosques?" 8.? Minhas terras constituem a parte
mais importante de minhas rendas; sua produ-
ção depende essencialmente da mão-de-obra;
uma centena de camponeses nelas traba-
lhavam e durante muito tempo não se pôde
atender à cultura.
Nesse transe quantos exemplos de resolução
não vimos nessa gente simples do povo! Em
geral os homens renunciavam a cuidar da pró-
pria vida. As uvas, principal riqueza do país,
não tinham ainda sido colhidas. Pois bem,
indiferentes à morte, que esperavam de um
momento a outro, prepáravam-se para recebê-
la sem temor, como se a aceitassem à maneira
de uma condenação universal que a todos atin-
giria. A morte é sempre inevitável, mas bem
poucos a aguardam com firmeza de ânimo;
uma diferença de horas que nos separe do
momento fatal, a companhia em que iremos
enfrentá-la, diversificam nossa atitude. Esses,
embora crianças, jovens e velhos, não se
espantavam nem choravam. Vi quem receasse
ser poupado e ficar sozinho numa horrível soli-
dão; e vi quem apenas se preocupasse com a
sepultura, apavorado ante a possibilidade de
morrer em um lugar ermo, exposto às feras que
não tinham tardado em aparecer.
Como as idéias humanas assumem formas
diferentes! Os neoritas, que Alexandre subju-
gou, expõem -os corpos dos mortos no fundo
das florestas para serem comidos; é a única
sepultura honrosa, a -seu ver. Entre nossa
gente, houve quem abrisse a própria cova; ou-
tros nela se deitavam em vida; um de meus
operários aí morreu, cobrindo-se de terra com
as mãos e os pés. Esse esforço por construir
um abrigo onde dormir sossegado, lembra o
gesto dos soldados romanos após a batalha de
Canes, cavando, para enfiar a cabeça, buracos
que enchiam com as próprias mãos a fim de
morrerem sufocados. Em resumo, toda a
região subitamente se elevou, por seus atos, a
uma grandeza de alma em tudo comparável a
de quaisquer decisões heróicas deliberada-
mente tomadas.
318 Virpílio.
ENSAIOS — II
Os ensinamentos com que nos encoraja a
ciência são, em geral, mais aparentes do que
eficientes; oram mais do que frutificam.
Abandonamos a natureza e queremos dar-lhe
lições, a ela que tão seguramente nos conduzia.
Entretanto, os vestígios de sua orientação, o
pouco que resta de seu exemplo nos rústicos,
são coisas que a ciência se vê forçada a solici-
tar-lhe a fim de fornecer a seus discípulos
exemplos de constância, de pureza e de
tranquilidade. Estranhamos ver seus adeptos
imitarem essa tola simplicidade quando que-
rem pôr em prática os mais elementares princi-
pios da virtude; e constatar que nossa sabedo-
ria precisa aprender com os próprios animais
as lições indispensáveis aos atos mais graves e
importantes da existência: como viver e mor-
rer, poupar nossas forças, amar e educar os
filhos, praticar a justiça. Singular testemunho
da fraqueza humana! À razão que orientamos
como desejamos, e anda sempre a inventar al-
guma novidade, não deixa que subsista em nós
nenhum vestígio da natureza. Com esta fize-
ram os homens o que os perfumistas fizeram
com o azeite; sofisticaram-na tanto com argu-
mentos e raciocínios alheios a ela, que ela
apresenta hoje um caráter essencialmente
variável, peculiar a cada um, tendo perdido o
que lhe era inerente e a todos se aplicava.
Hoje, quem quiser redescobri-la terá de apelar
para o exemplo dos animais,:nos quais ela per-
maneceu inacessível à corrupção e à versatili-
dade das opiniões.
É verdade que os próprios animais nem
sempre seguem o caminho traçado pela nature-
za, mas afastam-se tão pouco dela que não se
perdem nunca. Atente-se para os cavalos que
conduzimos pela mão: continuam a dar saltos
e galopes, mas sempre dentro do que lhes per-
mitem as rédeas; e seguem quem os conduz.
Da mesma forma o pássaro domesticado;
quando alça o vôo nunca procura ir além da
distância que o comprimento do barbante
amarrado a seus pés lhe concede. “Meditai
sobre o exílio, as guerras, as enfermidades e os
naufrágios a fim de que nenhuma desgraça vos
surpreenda?!º.” De que vale essa curiosidade?
Por que nos preocuparmos com tantas misé-
rias e por que nos prepararmos com tanto
esforço para enfrentar as que talvez nem se-
quer nos atinjam? “A apreensão da dor é tão
penosa quanto o próprio mal32º.” Não é só o
golpe que nos alcança, mas ainda o ruído e o
sopro do dardo assestado contra nós. Agir
assim, seria agir em estado febril, pois somente
sob a ação do delírio iria alguém açoitar-se
319 Propércio.
320 Pseudo Galo.
415
desde já, porque pode um dia ser açoitado, ou
vestir-se de lã pelo São João porque fará frio
no Natal. Experimentai todos os males que vos
podem atingir e em particular os piores e
submetei-vos a eles — eis o que nos aconse-
lham. Fora entretanto mais fácil e natural afas-
tá-los até do próprio pensamento. Dir-se-ia em
verdade que não virão bastante cedo e que não
durarão suficientemente! Querem ainda que
nosso espírito os amplie e alongue e os incor-
póre desde logo, como se já não pesassem
demasiado em nossos sentidos. Que vos aca-
brunhem quando vos encontrarem, diz um dos
mestres da filosofia mais severa; enquanto não
chegam, diverti-vos, ocupai vosso pensamento
no que vos agrade. Por que ir ao encontro do
infortúnio e acolhê-lo, estragando o presente
por temor ao futuro, tornando-vos infeliz desde
agora só porque o deveis ser um dia? Talvez
seja quando nos instrui acerca da extensão de
nossos males, “esclarecendo os mortais, me-
diante uma triste clarividência?2'”, que a ciên-
cia nos presta serviço. Seria com efeito lamen-
tável que uma parte de nossa desgraça
escápasse a nosso conhecimento e à nossa
sensibilidade.
E certo que na maioria dos homens a prepa-
ração para a morte causa maiores tormentos
do que o instante fatídico. Um judicioso autor
assim se exprimiu outrora: “O sofrimento que
sentimos em consequência de uma desgraça
afeta-nos bem menos do que a própria idéia da
desgraça?22.” A sensação de uma morte imi-
nente provoca por vezes subitamente em nós a
resolução de não mais tentar evitar uma coisa
que parece inevitável, No passado viram-se
gladiadores que, após terem lutado com covar-
dia, aceitavam corajosamente a morte, ofere-
cendo o pescoço ao punhal do adversário. A
perspectiva de uma morte ainda por vir exige
uma firmeza de ânimo mais prolongada e por-
tanto mais difícil de manter. Se não sabeis
morrer, não vos atormenteis; a natureza
ensinar-vos-á no momento preciso de um
modo suficiente. Ela executará a tarefa, não
vos preocupeis: “Em vão, mortais, procurais
conhecer a hora incerta de vossos funerais e O
caminho que tomará a morte323,” “É menos
doloroso suportar uma grande desgraça a que
não podemos escapar, e que ocorre repentina-
mente, do que viver durante muito tempo à sua
espera*2 *.” Perturbamos a vida com a preocu-
pação de morrer e a morte com a preocupação
de viver; uma nos aborrece, outra nos apavora.
Não é contra a morte que nos preparamos; a
321 Virgílio.
322 Quintiliano.
323 Propércio.
324 Pseudo Galo.
476
coisa é por demais rápida: um quarto de hora
de sofrimento, sem consequências nocivas, não
está a exigir preceitos particulares. Em verda-
de, nós nos preparamos contra cs prepafativos
da morte. Manda a filosofia que a tenhamos
sempre diante dos olhos, prevendo-a e pensan-
do-a antecipadamente; dá-nos também as re-
gras que devemos seguir e as precauções que
devemos tomar para que essa previdência e
essa ponderação não nos magoem. Não agem
de outro modo os médicos; enchem-nos de
doenças para pôr em prática sua arte e minis-
trar suas drogas. Se não soubemos viver, não
adianta aprendermos a morrer, € se o soube-
mos com calma e serenidade, também sabere-
mos morrer do mesmo modo. Podem procla-
mar os filósofos que toda a sua vida não
passou de uma meditação sobre a morte3? 8”.
sou de opinião que esta é apenas o fim, mas
não o objetivo da vida. O que a vida precisa ter
em vista, o que ela deve propor-se é ela
mesma; cumpre que se esforce por se estudar,
se orientar, se suportar. Entre as várias tarefas
que lhe incumbem e se indicam no capítulo
principal do saber viver, O artigo referente ao
saber morrer seria dos menos importantes se
nosso temor não lhe desse ênfase.
A julgar pela sua utilidade e pela verdade de
seu conteúdo, as lições da simplicidade nada
ficam a dever às da ciência. Os homens não se
assemelham nem pela maneira de sentir nem
pela sua força moral; portanto há que os con-
duzir por caminhos diversos, segundo sua
capacidade: “Cedo ante a tempestade que me
arrasta e abordo onde ela me joga?? 8.”
Nunca vi nenhum labrego a meditar sobre
sua última hora. A natureza ensina-lhe a só
pensar na morte quando a morte chega e,
então, conduz-se melhor do que Aristóteles,
porquanto este duplamente se angustia, e por
causa da morte em si, e por causa da longa
meditação que lhe dedicou. Sou da opinião de
César, o qual achava que a mais feliz é aquela
em que não pensamos. “Afligir-se de antemão
é afligir-se demasiado?? 7.” A idéia da morte
só se nos torna aflitiva em conseguência de
nossa curiosidade; sempre nos prejudicamos
na ânsia de nos anteciparmos à natureza e de
orientá-la. Que os médicos se preocupem com
a doença quando estão com saúde, ainda se
compreende; mas o comum dos mortais não
precisa de remédios nem de consolações
enquanto não o atinge a enfermidade; nesta só
pensa quando sofre. É o que dizíamos do
homem do povo, que não tem temor, que se
325 Cicero.
326 Horácio.
327 Sêneca.
MONTAIGNE |
resigna aos males do presente e encara com
indiferença os do futuro, porque é bronco e
despreocupado. Seu espírito grosseiro e obtuso
é dificilmente penetrável. Mas se assim é, meu
Deus, por que não estudarmos na escola da
estupidez ! Eis a conclusão final a que nos leva
a ciência e para a qual encaminha seus
adeptos.
Não carecemos de bons professores que nós
ensinem a simplicidade natural. Sócrates, por
exemplo. Pois, se bem me lembro, é nesse sen-
tido que fala aos juízes que vão deliberar a seu
respeito: “Receio, senhores, em vos pedindo
para não me condenardes à morte, expor o
flanco às acusações que me fazem, de saber
mais do que os outros, porque teria conheci-
mento de coisas que estão acima e abaixo de
nós. Sei que não freqlentei nem conheci a
morte, nem vi ninguém que tivesse constatado
suas vantagens e inconvenientes de modo a
poder informar-me. Os que a temem, temem-
na na pressuposição de conhecê-la; eu ignoro o
que ela é, bem como o que ocorre no outro
mundo. Talvez não nos traga nem bem nem
mal; talvez seja desejável. É de crer entretanto
que consista eim uma transmigração de um
lugar para outro e seria então vantajoso viver
com tão grandes personagens já mortos, €
livrar-se da necessidade de tratar com juízes
iníquos e corruptos. Se é porém um aniquila-
mento total de nosso ser, não deixa de haver
vantagem tampouco em entrar numa longa €
tranquila noite, pois não há nada mais doce na
vida do que um bom repouso e um sono suave,
profundo e sem sonhos. As coisas sabidamente
condenáveis, como ofender o próximo, desobe-
decer a seu superior, Deus ou homem, evito-as
com cuidado; quanto às que não sei se são
boas ou mãs, não as posso temer. Se eu morrer
e vós continuardes a viver, só os deuses pode-
rão dizer quem sairá lucrando. No que me res-
peita, resolvei como quiserdes. Se tivesse que
vos dar um conselho, como só aconselho coi-
sas justas e úteis, eu vos diria que o melhor que
tendes a fazer é libertar-me, a menos que vejais
em minha causa mais do que minha própria
pessoa. E se julgardes, tendo em vista minha
atuação passada, pública ou privada, minhas
intenções, o proveito que tiram diariamente de
minhas conversações tanto cidadãos moços €
velhos, as vantagens que a todos ofereço, só
podereis recompensar meus méritos e ordenar
que, dada a minha pobreza, seja eu tido e man-
tido a expensas do tesouro, como tendes deter-
minado, com menos: razão que o fossem
outros. Não vejais obstinação e desdém no
fato de não estar aqui, segundo o costume, a
suplicar-vos e a apelar para vossa comisera-
ENSAIOS — HI
ção. Tenho parentes e amigos, pois, como diz
Homero, não fui engendrado de árvore ou
rochedo, e também três filhos, capazes de se
apresentarem em lágrimas para vos comover;
mas seria uma afronta à nossa cidade rebai-
xar-me a tais covardias, dadas a minha idade e
a minha reputação. Que se diria dos outros
atenienses? Sempre exortei os que me ouviam
a não resgatarem sua vida mediante ações
desonestas. Nas guerras de que participei,
tanto em Anfipole como em Potidéia e Délio,
ou alhures, provei que estou longe de buscar
minha segurança à custa de atitudes vergonho-
sas. Demais, estaria tentando afastar-vos de
vosso dever se assim vos incitasse à clemência,
pois só vos devem persuadir as razões puras €
sólidas da justiça. Jurastes aos deuses assim
vos conduzirdes. Se vos suplicasse, seria como
se duvidasse que acreditais na existência deles
e ao mesmo tempo demonstraria que também
eu neles não creio como devo; pois estaria
temeroso de sua conduta em lugar de lhes con-
fiar pura e simplesmente meus interesses.
Tenho plena confiança neles e estou certo de
que nesta circunstância farão o que cumpre se
faça por vós e por mim; os homens de bem,
vivos ou mortos, nada receiam dos deuses.”
Eis uma defesa simples e de uma elevação
inimaginável! Verdadeira, franca, justa, exem-
plar. E em que circunstâncias! Por certo mere-
ce que se proclame superior à que fez por
escrito o grande orador Lísias em prol de tão
nobre réu, embora juridicamente fosse perfeita.
Ter-se-iam admitido súplicas na boca de Só-
crates? Podia fraquejar sua magnífica virtude
no momento em que mais se fazia imprescin-
dível? Devia sua rica e forte natureza apelar
para artifícios em sua defesa? Cabia-lhe renun-
ciar à verdade e à simplicidade, os mais belos
ornamentos de sua palavra, para se enfeitar
com as figuras de retórica de um discurso
decorado? Agiu sabiamente e como devia, não
alterando uma vida impoluta, não deformando
a imagem perfeita da humanidade que nele se
encarnava, para prolongar de um ano sua
decrepitude e trair a lembrança imortal de seu
fim glorioso. Devia sua vida, não a si mesmo,
mas ao mundo, como exemplo. E fora des-
graça pública terminâ-la no ócio e na obscuri-
dade. Uma atitude covarde teria sido tanto
mais acentuadá pela posteridade quanto diria
respeito a quem sempre aguardara a morte
com serenidade. Nada mais justo do que o que
lhe reservou a sorte em favor de sua memória.
Os atenienses conceberam tal aversão aos seus
juízes que deles fugiam como se fossem exco-
mungados. Consideravam profanado tudo o
que deles provinha ou que eles tocassem; nin-
417
guém ia aos banhos com eles, ninguém os sau-
dava; ao fim, não mais suportando semelhante
hostilidade pública, enforcaram-se.
Talvez se julgue que entre tantos exemplos
que pudera escolher em apoio de minha tese,
tenha errado em apontar o de Sócrates, dema-
siado acima do comum. Fi-io propositada-
mente, porque acho que sua defesa, em sua
simplicidade, se situa muito abaixo. Revela
uma ousadia ingênua e uma confiança pueril,
que beiram a inocência da natureza, pois é de
crer-se que temos medo do sofrimento da
morte e não da morte em si, a qual é parte inte-
grante de nosso ser, tal qual a vida. Por que
haveria a natureza de inspirar-nos horror à
morte, se de tão grande utilidade é esta na
sucessão e nas vicissitudes de suas obras? No
concerto universal, a morte antes favorece o
nascimento e o crescimento das criaturas do
que sua perda e ruína: “Assim se renovam as
coisas?28,” “O fim de uma vida dá nascimento
a mil outras?2º.” A-natureza deu aos animais
o cuidado de sua própria conservação; temem
o que lhes é nocivo, temem ferir-se e que os
batamos e mutilemos, acidentes que podem
conceber ou que a experiência lhes ensinou;
mas não receiam que os mantemos porque não
têm a faculdade de imaginar o que seja a
morte; alguns há mesmo, dizem, que a aceitam
“serenamente (os cavalos em géral relincham ao
senti-la aproximar-se, e Os cisnes cantam) e a
buscam como uma necessidade, como se
deduz da maneira de agir de certos elefantes.
Independentemente disso, não são admirá-
veis os argumentos de Sócrates pela sua
simplicidade e sua energia? Incontesta-
velmente é bem mais dificil viver e falar como
ele do que falar como Aristóteles e viver como
César; é o cúmulo da perfeição, a que não atin-
ge a arte. Nossas faculdades não foram educa-
das desse modo; não sabemos por isso de que
são capazes; recorremos às alheias e deixamos
nativas as nossas, exatamente o que se pode-
ria dizer de mim que aqui junto um ramilhete
de flores estranhas, fornecendo apenas o cor-
dão para amarrá-las.
Fiz em verdade à opinião pública a conces-
são de me enfeitar com esses ornatos de
empréstimo; mas não quero que me cubram e
escondam; seria o contrário do que me propo-
nho, que é mostrar o que é naturalmente meu;
e se houvera seguido minha idéia primeira,
fora o único a falar. Sou levado a isso pela
moda e também pelos lazeres de que disponho.
Talvez seja um erro, mas sempre servirá aos
outros.
328 [ucrêcio.
328 Ovídio.
478
Há os que citam Platão e Homero que
nunca leram; eu também o faço e muito do que
reproduzo não o colhi nos seus autores. Sem
dificuldade nem trabalho, usando os livros que
me cercam, poderia eu recorrer a esses compi-
ladores — que não folheio nunca — e encon-
trar com que marchetar este capítulo sobre a
fisionomia. A simples introdução de alguma
obra alemã bastar-me-ia para encher o meu
texto. Assim é que enganamos os tolos e
conquistamos essa glória de que somos gulo-
sos. Esse amálgama de lugares-comuns, que
tanta gente estuda, só se aplica aos temas vul-
gares; pode servir de pretexto à exibição, não
nos pode guiar. E é isso mais um ridículo
resultado da ciência; critica-o Sócrates prazen-
teiramente em Eutidemo. Vi quem escrevesse
livros sobre assuntos de que nem sequer ouvira
falar; encarregava seus amigos sábios de
pesquisarem o material necessário e contenta-
va-se com ter tido a idéia e juntado com habili-
dade os elementos que lhe traziam. Tinta e
papel lhe pertenciam, em todo caso. Na reali-
dade, compram assim um livro, não o com-
põem, e revelam não que o sabem fazer e sim
que não o sabem (o que podia ainda suscitar
dúvidas !). Um presidente de tribunal jactava-
se perante mim de ter amontoado em suas sen-
tenças duzentos e tantos considerandos tirados
de julgamentos alheios; tornando-o público
diminuía a glória que pudera auferir de uma
tal obra-prima; considero semelhante vaidade
pusilânime e absurda, principalmente em per-
Sonagem dessa condição. Procedo de modo
contrário e, entre os muitos empréstimos fei-
tos, agrada-me poder mascarar alguns que
arranjo de acordo com o emprego que lhe dou.
Mesmo correndo o risco de ouvir dizerem que
não lhes apreendi o sentido exato, empresto-
lhes uma forma particular e pessoal de modo
que o plágio seja menos visível. Outros confes-
sam seus furtos e os ostentam, por isso
perdoam-se-lhes de bom grado; eu; na minha
ingenuidade, penso que em inventãr há muito
mais mérito do que em simplesmente reprodu-
zir.
Se houvesse desejado fazer ciência, teria
escrito mais cedo, em um momento em que me
achava mais preso a meus estudos e não care-
cia tanto de memória. Para seguir a profissão
de escritor, melhor fora ter-me fiado em mi-
nhas forças de então. Talvez me tivesse benefi-
ciado do. favor que a sorte quis outorgar-me
agora e que saboreio e temo perder ao mesmo
tempo. Dois de meus conhecidos, de grande
talento literário, perderam a meu ver metade
de seu valor, deixando para escrever aos ses-
senta o que podiam ter iniciado aos quarenta.
MONTAIGNE |
A maturidade tem seus defeitos tal qual a
mocidade, talvez piores; quanto à velhice, é
tão imprópria a esse gênero de trabalho como
a qualquer outra coisa, e quem quer que impri-
ma sua decrepitude na esperança de exprimir
algo não pesado, desgracioso, soporífico, co-
mete uma loucura; o espírito amesquinha-se e
embota-se ao envelhecer. Exibo minha igno-
rância com pompa e opulência, e meu saber
parece magro e lamentável; este é acessório e
acidental, aquela é que constitui o essencial em
mim. Não trato de nada expressamente e se
falo de saber e ciência é só para que verifiquem
que tudo ignoro. Escolhi, para pintar minha
vida, a época em que a tenho inteira sob a
vista; o que não vejo pertence antes à morte, e
quando esta chegar, se me for dado, como a
outros, dizer minhas impressões, de bom grado
as transmitirei ao público ao desencarnar.
Sócrates foi um modelo perfeito de todas as
qualidades. Lamento que tivesse um físico tão
mal conformado e que a feiúra de seu rosto
fosse tão pouco adequada à beleza de sua
alma; a esse respeito a natureza foi injusta
com quem tanto apreciava a beleza. Nada me
parece mais desejável do que a correlação
entre as formas do corpo e as qualidades do
espírito. “Importa grandemente à alma o corpo
em que se aloja, pois muitas qualidades físicas
afiam o espírito; outras o embotam?*º)” A
citação tem porém em vista uma deformidade
excepcional dos membros, mas não é somente
a isso que chamamos feiúra, e sim igualmente
à má impressão que sentimos diante de uma
fisionomia que nos repugna por certos porme-
nores, uma tez ruim, uma mancha, uma
expressão dura, às vezes algo que não percebe-
mos bem e que no entanto assenta em mem-
bros perfeitos. A feiúra que, em La Boétie, ves-
tia uma bela alma era desse genero. Essa feiúra
superficial, a mais imperiosa não raro, pouco
influi no espírito e pouco influi na opinião das
gentes a nosso respeito. A outra feiúra, que
fora mais certo denominar deformidade, é
mais efetiva e repercute amiúde em nós mes-
mos mais do que nos outros. Todo sapato bem
ajustado faz sobressair à forma do pé, o que
não ocorre se tão-somente o couro é bem poli-
do e brilhante. Quando se referia à sua feiúra,
dizia Sócrates que fora exatamente como sua
alma, se a esta não houvesse corrigido. Mas
penso que não o dizia a sério, pois nunca alma
alguma tão perfeita se criou a si própria.
Nunca insistirei demais em reputar a beleza
uma qualidade poderosa e vantajosa. Sócrates
denominava-a “uma breve tirania”; Platão
330 Cícero. |
ENSAIOS — HI 479
considerava-a “um privilégio da natureza”.
Nada supera seu prestígio. Ocupa O primeiro
lugar nas relações dos homens entre si; seduz e
procupa nosso espírito com sua grande autori-
dade e a maravilhosa impressão que produz.
Friné houvera perdido sua causa, apesar do
excelente advogado a quem a entregara, se,
entreabrindo a túnica, não tivesse ofuscado os
juízes com sua beleza. Ciro, Alexandre e
César, esses senhorés do mundo, não a despre-
zaram entre seus meios de ação; o que não fez
o primeiro Cipião. Uma só palavra designava
em grego o belo e 9 bom e o Santo Espírito diz
não raro bom por belo. Eu não estou logge de
classificar os bens outorgados ao homem de
acordo com uma velha canção que Platão afir-
ma ter sido muito popular: saúde, beleza,
riqueza. Diz Aristóteles que aos belos cabe
mandar e que quando a beleza se aproxima do
divino merece a nossa veneração. A alguém
que lhe perguntava por que se procurava mais
comumente a companhia das pessoas belas,
respondeu: “Só um cego pode .indagá-lo.” Os
maiores filósofos pagaram sua aprendizagem e
adquiriram sua sabedoria com sua beleza.
Entre os meus servidores e mesmo entre meus
animais não aprecio muito menos a beleza do
que a bondade.
Parece-me que as formas e as linhas do
rosto, pelas quais se inferem algumas caracte-
rísticas internas, bem como algo de nosso des-
tino, não têm relação direta com a beleza e a
feiúra, assim como um ar sereno e perfumado
não garante a salubridade, nem uma atmosfera
pesada e mal cheirosa é indício certo de infec-
ção em tempo de epidemia. Os que acusam as
mulheres de desmentirem sua beleza com seus
costumes, nem sempre acertam, pois em um
rosto que deixe a desejar pode alojar-se a pro-
bidade, ao passo que muitas vezes deparamos
em lindos olhos ameaças reveladoras de um
caráter mau e perigoso. Há fisionomias que
nos parecem favoráveis, e, entre inimigos
desconhecidos que nos cercam de todos os
lados, escolhemos de imediato um de prefe-
rência a outro, rendendo-nos a ele com mais
confiança e sem que a beleza pese em nossa
resolução.
O rosto é uma garantia frágil; merece entre-
tanto consideração. E se devesse castigar
alguém, mostrar-me-ia mais severo com os
perversos que desmentem a expressão que exi-
bem, castigaria a maldade que. se apresenta
mascarada de bondade. Parece-me que há
fisionomias acolhedoras e outras repelentes, e
há uma certa arte em distinguir os rostos bon-
dosos dos tolos, e os severos dos grosseiros, Os
maliciosos dos ressentidos, os desdenhosos dos
!
melancólicos, bem como todos os que são
donos de qualidades que pouco diferem umãs
das outras. Há belezas que não somente são
altivas mas também rebarbativas; e outras há
que além de doces são insossas. Quanto a
prognosticar o futuro pela sua observação, é
coisa sobre a qual prefiro não falar.
Eu, por mim, como já o disse alhures, adotei
o. preceito antigo de que sempre acertaremos
seguindo a natureza, e entendo que submeter-
se a ela é regra soberana. Não corrigi minhas
tendências naturais pela força da razão; sou
como sou, e não combato coisa alguma. As
duas partes essenciais de mim mesmo, o corpo
e o espírito, mostram-se naturalmente dispos-
tas a viver de acordo. Graças a Deus nasci e
fui educado em uma época em que as idéias
sãs e moderadas eram de rigor. Direi, de pas-
sagem, que vejo estimarem mais do que vale
certa imagem de bondade escolástica, escrava
dos preconceitos €& limitada pela esperança e o
temor. Amo-a, não como as leis e as religiões a
fazem, mas como a completam e confirmam; a
que pode sustentar-se sem ajuda; a que nasce
de suas próprias raízes, mercê do senso
comum, e se encontra em todo homem que não
foi formado em oposição à natureza. Fo: essa
razão que corrigiu a alma de Sócrates, que o
tornou obediente aos homens e aos deuses de
sua cidade, e corajoso diante da morte; não
porque sua alma é imortal mas porque ele pró-
prio é mortal. Absurdo ensinamento, e muito
mais absurdo do que engenhoso e sutil, é o que
persuade aos povos de que basta a crença reli-
giosa e que não há necessidade de bons costu-
mes para contentar a justiça divina. Na reali-
dade, evidencia-se a enorme diferença entre a
devoção e a consciência.
Tenho um rosto que agrada. “Que disse?
Tenho? Tive é que deveria ter dito331,” “Ai de
mim, já não vedes de minha pessoa senão o
esqueleto de um corpo acabrunhado?32.”
Aconteceu-me, não raro, que simplesmente
pelo efeito produzido pela minha atitude e meu
aspecto, certas pessoas que não me conheciam
confiassem plenamente em mim, o quê me
proporcionou no estrangeiro favores singulares
e nada corriqueiros. Talvez tais experiências
mereçam que as relate. Deliberou um sujeito
assenhorear-se de mim e de minha casa; a firn
de realizar seu. intuito, apresentou-se à minha
porta pedindo insistentemente para entrar.
Conhecia-o de nome e pensava poder confiar
nele porque era das vizinhanças e tinha algum
parentesco comigo. Mandei-o entrar como
faço com todos. Pois entrou apavorado, com o
331 Terêncio. R
332 Autor desconhecido.
480
cavalo resfolegando, e contou-me esta fábula:
“A uma légua dali acabara de encontrar um
inimigo, que eu também conhecia, como
conhecia a dissensão que existia entre eles.
Esse inimigo lançara-se em sua perseguição e
ele, desnorteado pela supresa e pela'superiori-
dade em hamens, precipitara-se em minha casa
para se refugiar, muito preocupado aliás com
os seus que imaginava: mortos ou prisionei-
ros.” Tentei muito ingenuamente consolá-lo. e
reconfortá-lo; eis senão quando quatro ou
cinco de seus soldados se apresentam no
mesmo estado de espírito; outros chegaram em
seguida, e mais outros. Todos bem armados,
em número de-vinte e cinco e fingindo fugir ao
inimigo. O mistério começava a inspirar-me
suspeitas; não ignorava em que século vive-
mos, quanto minha casa era cobiçada e sabia
de outras pessoas a quem haviam ocorrido
desgraças em circunstâncias análogas. Vendo,
porém, que outra coisa não podia fazer senão
adequar-me ao caso, pois não havia como dei-
xar de acolher os recém-chegados, mandei que
entrassem, escolhendo o partido mais simples,
como faço sempre. É preciso acresceritar que
sou em geral pouco desconfiado por natureza;
inclino-me a aceitar as desculpas que me dão e
a interpretar os fatos no seu sentido mais favo-
rável; encaro os homens como são geralmente
e não acredito nos temperamentos perversos
como não creio nos prodígios e milagres, a
menos de haver testemunhos irrefutáveis. De-
mais, confio facilmente na sorte e a ela me
entrego, do que tive até hoje antes razões para
me louvar do que para me arrepender, tendo-a
constatado mais avisada e amiga de meus inte-
resses do que eu próprio. Há na minha vida
algumas ações que, pela sua dificuldade,
podem. imaginar terem sido conduzidas pela
minha perspicácia, mas mesmo essas a sorte
contribuiu com dois terços para que tivessem
êxito. Creio que nos malogramos não con-
fiando suficientemente no céu e pretendendo
que se deva mais a nosso esforço do que se
deve na realidade. Mas quantas vezes não
acertamos! A sorte prevê amiúde nossos desig-
nios e quanto mais os ampliamos tanto mais
tende a burlar-nos. Em todo caso aqueles sol-
dados permaneceram a cavalo no pátio,
enquanto seu chefe se encontrava comigo na
sala, sem haver permitido que levassem seu ca-
valo para as cocheiras e declarando que parti-
ria logo que tivesse notícias de sua gente. Já es-
tava senhor do lugar e só lhe restava executar
seu projeto. Mais tarde repetiu amiúde (porque
não se pejava de contar a coisa) que minha
fisionomia e minha franqueza haviam supe-
rado o plano traidor que meditara. Montou
novamente a cavalo, e seus homens que tinham
os olhos fixos nele, aguardando o sinal combi-
MONTAIGNE |
nado, muito se espantaram ao vê-lo sair renun-
ciando a aproveitar-se das vantagens que obti-
vera com seu estratagema.
De outra feita, fiando-me de não sei que tré-
gua de nossos exércitos, aventurei-me por uma
região perigosa. Não me tinha adiantado
muito quando três ou quatro magotes de cava-
leiros se lançaram de diversos lados em minha
perseguição. Um deles me alcançou no terceiro
dia de marcha e vi-me assaltado por quinze ou
vinte fidalgos mascarados, acompanhados de
seus arcabuzeiros. Fui obrigado a render-me e
levado ao fundo de um bosque próximo onde
me tiraram tudo, dinheiro, bagagens e cavalos.
Permanecemos durante muito tempo a discutir
a importância fixada para meu resgate, tão ele-
vada aliás que bem se via que não me conhe-
ciam. E debateram longamente entre eles se me
deixavam a vida ou não. Em verdade, certas
circunstâncias sugeriam que estava correndo
grave risco, “então Enéias teve que mostrar
coragem e resolução?3??”. Eu mantinha-me
firme, alegando. a trégua, decidido a não ceder
senão o que me haviam confiscado — e não
era pouco. Após duas ou três horas de discus-
são, deram-me um cavalo com uma escolta de
quinze ou vinte arcabuzeiros, dispersaram
meus homens entre os demais e levaram-nos
prisioneiros. Já estávamos à distância de dois
ou três tiros de arcabuz, e “implorando Castor
e Pólux?3 “”, quando se verificou uma inespe-
rada mudança em sua atitude. Veio a mim o
chefe do bando e, com palavras comedidas,
mandou que me devolvessem meus arreios
bem como o meu cofre. O melhor presente que
me deram foi contudo a liberdade, pois o resto
me preocupava pouco. Não percebo bem até
hoje as razões da mudança, desse arrependi-
mento estranho em empresa meditada, execu-
tada deliberadamente e justificada pelos costu-
mes da época, porquanto desde o início lhes
confessara a que partido pertencia e para onde
me dirigia. O indivíduo que a todos.comanda-
va, desmascarou-se e revelou-me seu nome e
disse-me várias vezes que eu devia minha liber-
dade à minha fisionomia e à firmeza de minhas
palavras, o que tornava tal tratamento indigno
de mim. E pedia-me que em circunstâncias
análogas com ele agisse do mesmo modo. É
possível que a bondade divina houvesse queri-
do empregar meios tão aleatórios na minha
conservação; serviram-me aliás no dia se-
guinte contra armadilhas piores do que aque-
las a que acabava de escapar e de que me ha-
viam advertido. A pessoa que tive de enfrentar
nesta última aventura ainda vive e pode confir-
333 Virpílio.
334 Catulo.
ENSAIOS — HI 481
má-la; o ator da primeira foi morto há pouco
tempo.
Se meu semblante não respondesse por mim,
e se eu não revelasse nos olhos e na voz a ino-
cência de minhas intenções, não ficara sem
disputas nem ofensas tanto tempo, dada minha
indiscreta maneira de dizer as coisas, a torto e
a direito, e de tudo julgar temerariamente. Essa
maneira pode parecer indelicada e contrária
aos usos, mas não encontrei ninguém que a
tenha considerado injuriosa ou mal intencio-
nada, nem vi quem quer que fosse que minha
liberdade magoasse. Isso em relação a minhas
próprias palavras, pois quanto aos diz-que-
diz-que, outro é o tom e diferente o sentido.
Não odeio ninguém e não me apraz ofender,
ainda que com razão. Quando a oportunidade
me foi dada de condenar alguém, sempre prefe-
ri faltar ao dever: “Gostaria que não cometes-
sem crimes, mas não tenho coragem de punir
os que os cometeram?? 8.” Censuravam a Aris-
335 Tito Lívio.
tóteles ter” sido demasiado benevolente com
um perverso: “Fui de fato benevolente”, res-
pondeu, “mas com o homem e não com o
crime.” Os julgamentos são em geral tanto
mais severos quanto mais lamentáveis os cri-
mes; a impressão que tenho diante de minhas
faltas é diversa: o horror do primeiro crime
leva-me a temer um segundo, o ódio que sinto
contra a crueldade cometida induz-me a evitar
a repetição e inclino-me para a doçura. Apli-
ca-se a mim, personagem de pouca importân-
cia, o que se dizia de Carilo, rei de Esparta,
isto é, que não podia ser bom com os bons,
pois que não sabia ser mau com os maus. Mas
também fora possível interpretar tal atitude
como faz Plutarco: “Era tão bom que até com
os maus o era.”
Assim como me desagrada intervir licita-
mente contra aqueles a quem isso possa abor-
recer, muito mais me desgosta, em verdade,
agir ilicitamente contra os que se comprazem
no ilícito.
CAapíTULO XIII
Da experiência
O desejo de conhecimento 'é o mais natural.
Experimentamos todos os meios suscetíveis de
satisfazê-lo, e quando a razão não basta apela-
mos para a experiência. “Através de várias
provas, a experiência cria a arte e o exemplo
alheio mostra-nos o caminho?* 8.” Este segun-
do processo é menos seguro do que o primeiro
e menos digno; mas a verdade é tão valiosa
que nada devemos desdenhar, capaz de nos
levar a ela. A razão assume tantas formas que”
não sabemos qual escolher. A experiência
igualmente; e as consequências que procura-
mos tirar da comparação dos acontecimentos
não oferecem segurança, porquanto não são
jamais idênticas. O que encontramos nas coi-
sas mais semelhantes é a diversidade, a varie-
dade. Como exemplo de semelhança perfeita
citamos, com os gregos e os latinos, a existente
entre os ovos; entretanto, houve indivíduos, em
Delfos particularmente, que sabiam não so-
mente distinguir de que galinheiro provinha o
ovo, mas ainda de que galinha. A diferença
introduz-se por si só em nossas obras e nenhu-
ma arte pode chegar à similitude. Nem Perro-
336 Manílio.
zet33 7 nem ninguém é capaz de polir e bran-
quear o reverso de suãs cartas a ponto de um
jogador experimentado não as reconhecer
simplesmente: ao vê-las manuseadas. A 'seme-
lhança não unifica na mesma proporção em
que a dessemelhança diversifica. A natureza
parece ter-se esforçado por não criar duas coi-
sas idênticas.
Por isso não acredito que, como pensava
alguém, em se multiplicando as leis reprimi-
riamos a autoridade dos juízes, porque pouco
teriam que decidir. Não pensava que a inter-
pretação deixa grande margem para uma intei-
ra liberdade de julgamento. Engana-se quem
imagina acabar com nossas discussões citando
um texto preciso da Bíblia; nosso espírito des-
cobre tantas razões para criticar a interpre-
tação alheia quanto para defender a nossa, e
tanto comentar como inventar prestam-se às
mais acerbas discussões. E bem vemos que a
opinião desse indivíduo está errada, pois temos
em França maior número de leis do que os de-
mais países reunidos e mais do que seria neces-
sário para governar todos os mundos de Epi-
curo: “Sofremos tanto das leis como outrora
337 Célebre fabricante de cartas.
482
dos crimes?38.” Entretanto, nossos juízes opi-
nam e julgam com uma liberdade e autoridade
poderosas e escandalosas. Que ganharam nos-
sos legisladores com selecionar cem mil espé-
cies e fatos específicos e provê-los de cem mil
leis? Esse número não está em proporção com
a diversidade infinita dos atos humanos, nem a
multiplicidade de nossas invenções alcançará
Jamais a variedade dos exemplos. Acrescentem
cem vezes mais leis e não deixará de suceder
que nas ocorrências vindouras alguma se
encontre, em meio as escolhidas e registradas,
que requeira ponderação e juízo diferentes.
Pouca relação existe entre nossos atos, sempre
em perpétua transformação, e as leis que são
fixas e estáticas. O mais desejável a esse res-
peito é que estas sejam as mais simples possi-
veis e concebidas em termos gerais; e fora
ainda melhor não as ter do que as possuir tão
numerosas. ; ;
A natureza cria sempre leis melhores do que
as nossas. Atestam-no a idade de ouro de que
falam os poetas e o estado natural em que
vemos viverem os povos que não conhecem
leis artificiais. Alguns há que tomam por juiz o
primeiro viajante que passa pelas suas monta-
nhas; outros elegem, em determinado momen-
to, uma pessoa qualquer para dirimir suas dú-
vidas. Que perigo haveria em que os mais
sábios resolvessem as nossas, segundo as
circunstâncias, sem se aferrar a precedentes
nem a consequências? Cada pé requer um
sapato, cada caso sua solução. O Rei Fernan-
do, ao enviar colonos para as Índias, muito
sabiamente determinou que não se mandassem
Jurisconsultos, a fim de evitar que se introdu-
zissem demandas no Novo Mundo, pois julga-
va com razão que a ciência da justiça gera
altercações e dissensões. Na sua opinião, como
na de Platão, jurisconsultos e médicos são
maus elementos em um país.
Por que nossa linguagem comum, tão cômo-
da e fácil, se torna obscura e ininteligível quan-
do empregada em contratos e testamentos?
Por que os que se exprimem tão claramente
quando falam ou escrevem, não acham jeito de
não se confundir ou se contradizer em atos
desse gênero? É porque os príncipes dessa arte
se aplicam com especial cuidado em escolher
vocábulos solenes, frases artisticamente cons-
truídas, e tanto pesam cada sílaba, sutilizam
cada termo, que nos embaraçam e embrulham
na multiplicidade das fórmulas e das minúcias;
e não mais distinguimos regras ou prescrições
e não entendemos absolutamente mais nada:
“Tudo o que se divide até se reduzir a pó, faz-
se confuso*3º.” Quem não viu uma criança
338 Tácito.
339 Sêneca.
MONTAIGNE
tentar dar forma a uma bola de mercúrio?
Quanto mais se obstina, tanto mais se frag-
menta o metal rebelde e se dispersa em gotas
incontáveis. O mesmo sucede na jurispru-
dência. Multiplicando-se as sutilezas, ensina-se
aos homens a aumentarem as dúvidas, a esten-
derem e diversificarem as dificuldades; am-
pliam-se e dispersam-se. Semeando questões e
retalhando-as, fazemos com que frutifiquem a
incerteza e a dissensão; assim se torna a terra
mais fértil na medida em que mais profunda-
mente se remove. “As dificuldades nascem das
doutrinas? *º.” Duvidamos com Ulpiano, duvi-
damos ainda mais com Bártolo e Baldo. Fora
preciso apagar Os vestígios dessas inumeráveis
opiniões, em vez de nos enfeitarmos com elas e
transmiti-las ampliadas à posteridade. Sabe-
mos por experiência que a pluralidade de inter-
pretações dissipa e desagrega a verdade. Aris-
tóteles escreveu para ser entendido; se não o
logrou, menos lograrã alguém menos hábil do
que ele e menos conhecedor das idéias de quem
as expôs. Fragmentamos a matéria; de um
assunto fazemos mil e caímos, multiplicando-
os e dividindo-os, nessa infinidade de átomos
que imaginara Epicuro. Nunca duas pessoas
Julgaram uma mesma coisa da mesma maneira
e é impossível observarem-se duas opiniões
idênticas, não só de indivíduos diferentes mas
ainda de um mesmo homem em dois momen-
tos diversos. Duvido em geral acerca de pontos
não comentados; tropeço facilmente onde não
há dificuldades, como certos cavalos que são
menos seguros nos caminhos batidos e pla-
nos 41,
Quem hã de negar que as aplicações aumen-
tam as dúvidas e a ignorância, quando vê que
a interpretação não dirimiu nenhuma dificul-
dade de nenhum texto humano ou divino? O
centésimo comentador transmite-o ao seguinte,
mais espinhoso e escabroso do que o recebera
de seu antecessor. Quando nos aconteceu con-
vir em que determinado livro já fora suficiente-
mente analisado? Isso se observa melhor ainda
na chicana, pois então outorgamos autoridade
legal a inúmeros doutores, decisões e interpre-
tações. Poremos fim algum dia a essa mania de
interpretar? Teremos feito algum progresso no
caminho da tranquilidade? Precisamos de
menos juízes e advogados do que quando essa
massa de leis ainda se achava na primeira
infância? Ao contrário, obscurecemos-lhes e
teia Quintiliano.
341 A frase é confusa € parece contraditória. Ou-
tros lhe deram sentido contrário. Ativemonos à
interpretação de Michaut. O pensamento de Mon-
taigne carece por vezes de ligação lógica e há que
apelar para certas associações de idéias para enten-
dê-lo. (N. do TD.
ENSAIOS — HI
abafamos-lhes a compreensão, que já não per-
cebemos senão através de tapumes e barreiras.
Os homens desconhecem a enfermidade de seu
espírito, o qual não faz senão fuçar, conjeturar,
chafurdar na sua agitação até se afogar nela,
como o bicho-da-seda ou como um camun-
dongo no pez. Pensa, de longe, ver certa apa-
rência de luz e de verdade imaginárias, mas ao
acercar-se surgem os obstáculos, as novas pes-
quisas, e ei-lo perdido e estonteado. E o caso
dos cães de Esopo que, vendo um corpo a flu-
tuar no oceano e não o podendo alcançar,
resolveram beber a água para secar o mar, €
morreram. E Crates dizia dos escritos de Herá-
clito, que necessitavam de um leitor bom nada-
dor para que não se afogasse na profundidade
e no peso da doutrina.
Só por fraqueza nos contentamos com o que
outros e nós mesmos deparamos nessa caça ao
saber; os mais aptos não se satisfazem e have-
rã sempre caminho a percorrer para quem vier
depois, e até para nós se agirmos de outro
modo. Nossas investigações só chegarão ao
fim no outro mundo. Contentar-se é sinal de
falta de folego 'ou de lassidão. Nenhum espírito
generoso se detém por si mesmo, antes vai
sempre para diante e além de suas forças. Se
não se afana, não se apressa, não acua, não se
choca, não gira sobre si mesmo, é porque não
estã vivo, vegeta. Suas buscas não têm forma
nem fim; alimenta-se de admiração, de pesqui-
sas, de dúvidas, o que demonstrava Apolo
falando sempre com duplo sentido, obscura e
obliquamente, não nos dando satisfação e sim
despertando nossa imaginação, e excitando-a.
Trata-se de um movimento irregular, perpétuo,
sem molde e sem objetivo, cujas invenções se
estimulam, se sucedem e se criam mutua-
mente:
“Assim se vê no arroio contem-
plando
a água que após a água vai corren-
do,
em uma ordem eternamente igual.
A água persegue a água que foge,
a qual outra persegue igualmente.
Uma por outra é empurrada.
e uma precede sempre a outra.
A água segue a água e é variável.
Mas o rio é sempre o mesmo,
imutável? “2,”
Interpretar as interpretações dá mais traba-
lho do que interpretar a própria coisa, mas
escrevemos mais livros sobre livros do que
sobre os assuntos mesmos; comentamo-nos
uns aos outros. Há excesso de comentadores
342 Ta Boétie — Paráfrase do Orlando Furioso.
483
mas escassez de autores. A principal ciência
do século consiste em entender os sábios; não
estã nisso o fim último de nossos estudos?
Nossas opiniões sustentam-se mutuamente;
uma serve de degrau à outra e assim acontece
que quem sobe mais alto e maior reputação
adquire não tem em verdade grande mérito,
pois não fez senão superar de um átimo o que
vem logo abaixo.
Quantas vezes, e quiçá tolamente, não
ampliei meu livro fazendo com que falasse de
si mesmo? Tolice, mesmo porque devia ter-me
lembrado do que digo dos outros: “todas essas
olhadelas na própria obra atestam que o cora-
ção sente por ela muita ternura; e mesmo
quando a maltratam e fingem desprezá-la, na
realidade não fazem senão disfarçar o amor
materno”. E o que diz Aristóteles, acrescen-
tando que a estima e o desdêm de si mesmo se
traduzem com o mesmo ar arrogante. Tenho
contudo uma desculpa: cabe-me o direito à
maior liberdade, porquanto é precisamente de
mim mesmo e de meus escritos que trato neste
livro; mas não sei se aceitarão a desculpa.
Lutero, na Alemanha, provocou mais dúvi-
das e dissensões acerca de suas idéias do que
teve a respeito das Santas Escrituras. Tudo é
questão de palavras e se resolve com palavras.
Uma pedra é um corpo, mas, se perguntarmos
o que é um corpo, responderão: substância. E
que é substância? etc. Interrogado dessa
maneira, qualquer um logo se sente acuado.
Muda-se uma palavra por outra, as mais das
vezes desconhecida. Sei o que é um homem,
mas sei menos o que seja um animal, um mor-
tal, um ser dotado de razão; para libertar-me
de uma dúvida impingem-me três; é a cabeça
da hidra. Sócrates indagou de Mênon em que
consistia a virtude. “Há”, respondeu Mênon,
“virtude de homem, virtude de mulher, de
magistrado, de particular, de criança, de
velho.” “Ótimo”, observou Sócrates,
“andávamos à procura de uma virtude e dão-
nos um enxame.” Fazemos uma pergunta €
respondem-nos com um punhado de interroga-
ções. Assim, pois, como nenhum fato nem
forma se assemelha inteiramente a outro, tam-
pouco difere por completo. Se nossos rostos
não se parecessem, não poderíamos distinguir
o homem do bicho; e se fossem idênticos, um
indivíduo não se distinguiria de outro. Tudo
comporta alguma semelhança, mas a identi-
dade com um dado exemplo nunca é absoluta;
conseguintemente, a relação inferida da expe-
riência é sempre imperfeita. Entretanto, as
comparações ligam-se entre si por alguma
parte; é o que ocorre com as leis que, mediante
interpretações sutis, forçadas e indiretas, adap-
tamos aos casos que se vão apresentando.
484
Sendo as leis éticas — as que regulam o
dever. particular de cada um consigo mesmo
— tão difíceis de se estabelecerem, não há
como estranhar que as que governam a muitos
o sejam mais ainda. Considerai as formas da
justiça que nos rege: são um autêntico testemu-
nho da imbecilidade humana, tal o número de
contradições e erros que computam. E o fato
de depararmos com tanto rigor e tanta indul-
gência ao mesmo tempo na justiça, prova que
há membros enfermos no próprio corpo e
essência da jurisprudência. Néste momento
mesmo em que escrevo, alguns camponeses
vêm avisar-me de que encontraram à entrada
da floresta um homem moído de pancadas e
que lhes pedia água e ajuda para erguer-se.
Não ousaram aproximar-se, dizem-me, e fugi-
ram com medo de serem presos por policiais
(como fazem estes com quem é visto ao lado
de um cadáver) e terem de explicar o acidente,
o que seria um desastre para eles, sem o
dinheiro nem os meios com que provar sua
inocência. Que podia censurar-lhes? É certo
que, atendendo a seu dever de humanidade, se
teriam comprometido.
Quantos inocentes sabemos terem sido puni-
dos, sem culpa sequer dos juízes? E quantos o
foram que não conhecemos? Eis um fato ocor-
rido há tempos. Uns indivíduos são condena-
dos por homicídio, e já se ia executar asentença
quando os juízes são inforrnados por oficiais
de justiça de um tribunal de instância inferior
de que seus presos acabam de confessar
categoricamente a autoria do crime, o que
esclarece por completo a questão. Deliberam
então os juízes sobre se se deve sustar a execu-
ção da sentença já proferida; ponderam o ine-
ditismo do caso, e as conseguências que
podem advir para os julgamentos futuros; e
concordam em que a sentença era válida por-
quanto juridicamente certa. E os pobres diabos
foram enforcados em holocausto ao forma-
lismo da justiça.
Filipe da Macedônia, ou outro qualquer,
não sei bem, resolveu uma questão semelhante
da seguinte maneira: condenara um indivíduo
a pagar a outro forte indenização e tempos de-
pois verificou-se que julgara iniquamente. De
um lado havia o interesse da causa que era
Justa, de outro a razão das formas judiciais
que tinham sido honestamente observadas. Fi-
lipe mandou que confirmassem a sentença e de
seu bolso ressarciu os prejuízos sofridos pélo
condenado. Mas o caso era reparável, en-
quanto na questão precedente os réus perde-
ram a vida. Quantas condenações mais crimi-
nosas do que o crime não tive a oportunidade
de ver!.
Isso tudo leva-me a recordar antigos princi-
MONTAIGNE
pios como este: quem deseja o triunto do direi-
to nas questões gerais, é forçado a. sacrificá-lo
nas coisas de menor importância; a injustiça
no pormenor é necessária à justiça no todo. A
Justiça é como a medicina: tudo o que é útil é,
por isso mesmo, honesto e justo. O que corres-
ponde às idéias dos estóicos: “a própria natu-
reza em boa parte de suas obras age contra a
Justiça”. E admitem os cirenaicos que nada é
Justo em si; os costumes e as leis é que deter-
minam o que é justo e o que o não é. E os
teodorianos pensam que o furto, o sacrilégio e
os atos imorais de qualquer espécie se justifi-
cam aos olhos do sábio, desde que possam ser
úteis. Contra isso não há nada a fazer e, como
Alcibiades, limito-me a dizer que nunca, se
puder, me entregarei a alguém com direito de
vida e morte sobre mim e cuja decisão se inspi-
rará muito mais no talento e na habilidade de
meu advogado do que na minha inocência. Eu
só me arriscaria diante de um tribunal com
capacidade para conhecer de minhas boas e
más ações e do qual tanto teria a temer como a
esperar. Uma simples absolvição não pode
satisfazer quem tenha feito algo mais do que
não cometer um crime. Nossa justiça só nos
mostra uma de suas mãos, e ainda por cima a
esquerda; quem quer que seja com ela sai sem-
pre perdendo.
Na China, as instituições e as artes, que
divergem consideravelmente das nossas e que
conhecemos mal, superam amiúde, por sua
excelência, o que ocorre em França. Por esses
exemplos verificamos a que ponto o mundo é
maior e mais variado do que os antigos — e
nós mesmos — imaginamos. Ali são enviados
oficiais a todos os recantos do Império, a fim
de controlar o estado das províncias; e assim
como punem os que prevaricam e roubam,
recompensam generosamente os que se condu-
zem melhor do que os demais e fazem mais do
que devem. Desse modo não comparecem os
indivíduos perante a justiça para salvar-se e
sim para ganhar alguma coisa, não esperam
unicamente equidade e sim honrarias.
Graças a Deus, nenhum juiz me falou até
agora como juiz, nem em causa minha nem em
de terceiros, nem no cível nem no criminal.
Nunca entrei uma prisão sequer para a visi-
tar; minha imaginação torna a coisa desagra-
dável mesmo de fora. Sou tão ávido de liber-
dade que, se me proibissem o acesso a algum
recanto das Índias, passaria a viver por assim
dizer incomodamente; e enquanto houver um
lugar em que a terra e o mar sejam livres, não
residirei onde precise esconder-me. Como
sofreria nas condições em que vejo certas pes-
soas, obrigadas a residir em uma dada região
do reino, proibidas de utilizar as estradas, de
ENSAIOS — Hi 485
entrar nas cidades e na corte, porque infrin-
giram as leis! Se aquelas sob as quais vivo
ameaçassem sequer a ponta de meu dedo, iria
imediatamente acolher-me à sombra de outras,
fosse onde fosse. Toda a minha pequena
prudência, emprego-a, durante as guerras civis
que nos afligem, em evitar que entravem minha
liberdade de locomoção.
A autoridade das leis não está no fato de
serem justas e sim no de serem leis. Nisso resi-
de o mistério de seu poder; não têm outra base,
e essa lhes basta. Foram não raro feitas por
tolos; mais vezes ainda 'por indivíduos que, no
seu ódio à igualdade, incorriam em falta de
equidade; mas sempre por homens e portanto
por autores irresolutos e frívolos. Nada há tão
grave, ampla e comumente defeituoso quanto
as leis; quem as obedece porque são justas, la-
bora em erro, pois é a única coisa que em ver-
dade não são. As leis francesas, pela sua con-
fusão e sua deformidade, prestam-se à
desordem e à corrupção que se verificam em
sua aplicação. Seu conteúdo é tão obscuro e
assenta em princípios tão variáveis, que os que
lhes desobedecem, as interpretam, observam
ou aplicam mal são desculpáveis. Qualquer
que seja o fruto que tiremos da experiência, o
que nos vier do estrangeiro não servirá para as
nossas instituições enquanto utilizarmos tão
mal as leis que nos demos, com as quais esta-
mos familiarizados e que por certo são sufi-
cientes para instruir-nos acerca de tudo de que
precisamos. Estudo-me a mim mesmo mais do
que qualquer outra coisa e esse estudo consti-
tui toda a minha física e a minha metafísica:
“De que modo Deus governa o mundo? Que
caminho percorre a lua? Como, reunindo sua
dupla foice, se encontra ela cheia todos os
meses? De onde vêm os ventos que comandam
os mares e qual a influência do que vem do
sul? Quais as águas que formam as nuvens?
Ocorrerá um dia a destruição do miindo? 437”
“Procurai, vós que o desejo de aprofundar os
mistérios da natureza atormenta? **.” Nesse
grande todo abandono-me despreocupado e
ignorante à grande lei geral que rege o mundo;
conhecê-la-ei suficientemente quando lhe sentir
os efeitos. Meu saber não pode afastá-la de seu
caminho; não se modificará por mim, seria
loucura esperá-lo; e maior loucura ainda abor-
recer-me, pois necessariamente é ela igual-para
todos e a todos se aplica. A bondade, o poder
de quem governa o mundo eximem-nos de
qualquer ingerência em suas leis. As pesquisas
e às contemplações dos filósofos servem ape-
nas de' alimento para nossa curiosidade. Têm
343 Propércio.
3** Lucano.
razão quando nos apontam a natureza; mas de
que vale tão sublime.conhecimento? Eles falsi-
ficam-lhe as regras e no-la apresentam com um
rosto pintado e tão sofisticado que mal a reco-
nhecemos nessa variedade de retratos de um
mesmo modelo. Deu-nos a natureza pés para
andar e prudência para nos conduzirmos na
vida. Essa prudência não é, como a imagina-
ram, um complexo de finura, força c ostenta-
ção; é, como disse alguém, fácil, trangúila,
salutar e eficiente para quem a empregar com
inocência e oportunidade, isto é, naturalmente.
Entregar-se simplesmente à natureza é a me-
lhor maneira de confiar nela. Como a igno-
rância e a ausência de curiosidade constituem
um doce e mole travesseiro para descansar
uma cabeça equilibrada!
Gostaria mais de entender bem o que se
verifica em mim do que compreender perfeita-
mente Cícero. Na minha experiência própria já
tenho com que me tornar sábio, desde que
atente para seus ensinamentos. Quem se lem-
bra do papel feio que:fez quando tomado de có-
lera e a que excessos essa febre o impeliu, já
sabe a que ponto uma tal paixão é lamentável
e não precisa que lho diga Aristóteles. Quem
se recorda dos males de que foi vítima, ou de
que se viu ameaçado, e das circunstâncias sem
gravidade que o puderam perturbar, já se acha
preparado para as agitações futuras e conhece
sua condição. A vida de César não nos oferece
mais exemplos do que a nossa, porque tanto a
de um imperador como a de um homem vulgar
são vidas humanas e sujeitas a todos os aci-
dentes humanos. Escutemos nossa experiência,
e veremos que nos diz tudo aquilo de que
temos necessidade especial. Não é um tolo
quem não desconfia afinal de seu juízo, se
reconhece ter sido por ele enganado mil vezes?
Quando me convenço, diante dos argumentos
que me apresentam, de que minha opinião é
“ errônea, não é tanto a ignorância que se evi-
dencia a meus olhos — seria pouco — é
minha fragilidade que constato, é a traição de
minha inteligência, e chego à conclusão de que
tudo está a exigir reforma. Em todos os meus
outros erros, ajo da mesma maneira e tiro
dessa regra grande proveito na vida. Não olho,
no caso, o fato, como uma pedra em que
ocasionalmente tropeço; o que ele me revela é
que possivelmente tudo precisa ser revisto e
reajustado. Saber que dissemos ou fizemos
uma tolice, pouca importância tem; o impor-
tante é saber que somos tolos. Os maus passos
que minha memória me fez dar, mesmo quan-
do mais confiava nela, não foram inúteis. Hoje
pode ela jurar-me que está segura de si, não
acredito mais, e qualquer objeção que opo-
nham a seu testemunho, põe-me de sobreaviso.
486
Não ousaria contar com ela para algo sério,
nem.endossá-la quando se trata de coisas exe-
cutadas por outrem, e se não fosse porque o
que faço às vezes por falta de memória: fazem-
no os outros por mã fé, daria por certo o que
sai de boca alheia mais do que o que sai da
minha. Se cada um observasse de perto as cau-
sas e os efeitos das paixões que o dominam,
como eu estudo as minhas, vê-las-ia aproxima-
rem-se e lhes atenuaria a violência. Nem sem-
pre nos pegam de improviso pela garganta;
ameaçando-nos é que começam, e em seguida
nos invadem a pouco e pouco: “Assim o pri-
meiro sopro do vento clareia o mar, incha-o,
arma suas ondas e aos poucos leva até as nu-
vens as águas dos abismos? * 5.” O julgamento
ocupa em mim o primeiro lugar; ao menos
esforça-se por isso. Deixa inteira liberdade a
meus apetites; nem o ódio, nem a amizade,
nem a afeição que dedico a mim mesmo o alte-
ram ou corrompem; e se ele não pode modifi-
car meus outros elementos a seu modo, não
permite, ao menos, que o deformem.
O conselho de nos conhecermos a nós mes-
mos deve ser de importância capital, por-
quanto o deus da ciência e da luz fê-lo gravar
no frontispício de seu templo, como se
compreendesse tudo o que nos podia recomen-
dar. Platão diz que a prudência não é outra
coisa senão a aplicação dessa máxima, e Só-
crates, em Xenofonte, desenvolve-a longa e
minuciosamente. As dificuldades e obscuri-
dades de cada ciência, só as percebem os que a
conhecem, porque é preciso um certo grau de
inteligência para saber o que se ignora; é
empurrando à porta que verificamos se está
fechada. Foi o que deu origem a este áforismo
da escola de Platão: “os que: sabem, não pre-
cisam investigar porque sabem, porquanto
para fazê-lo é necessário saber que se investi-
ga”. Assim, conhecer-se a si mesmo significa
que embora todos se mostrem muito afirma-
tivos e satisfeitos e se imaginem bastante
entendidos, na realidade nada sabem, como o
demonstra Sócrates a Eutidemo. Eu que penso
desse modo, vejo nessas palavras uma profun-
didade tão variada e infinita que o que aprendo
não comporta outro resultado senão o de me
fazer sentir quanto me resta ainda por apren-
der. À minha debilidade, tão amiúde reconhe-
cida, devo a inclinação que tenho para a
modéstia, para a obediência às crenças que me
prescrevem, para a serenidade e a modera-
ção nas minhas idéias, bem como o ódio que
experimento contra a arrogância importuna e
belicosa, inimiga figadal de toda disciplina e
348 Virgílio.
MONTAIGNE
de toda verdade, dos que só crêem e só con-
fiam em si mesmos. Escutai-os e vereis que,
qualquer tolice que digam, sempre se expres-
sam em um estilo de profeta e legisladorr.
“Nada & mais vergonhoso do que
afirmar e decidir, antes de compreender e de
saber? * 89” Aristarco dizia que só se haviam
encontrado outrora sete sábios no mundo intei-
ro, € que em sua época fora difícil descobrir
sete ignorantes; não teriamos mais razão do
que ele para dizê-lo de nosso século? À afirma-
ção e a obstinação são sinais evidentes de estu-
pidez. Há quem beije a terra cem vezes em um
dia e no entanto continue a provocar, mais
afirmativo e obstinado do que nunca. Dir-se-ia
que lhe infundiram uma alma nova e lhe retem-
peraram as forças, e lhe acontece o que ocorria
com aquele filho da Terra que se fortalecia
com as quedas, “renova as esgotadas forças de
seus membros ao tocar a terra? “7”. Pensa o
indócil cabeçudo que adquire novo engenho
para iniciar uma nova luta. É por experiência
que acuso a ignorância humana de ser o que
produz de mais seguro a escola do mundo. Os
que não quiserem admitir minha opinião (em
verdade sem consegiência) ou hesitam ante o
que vêem, hão de concordar diante do pensa-
mento de Sócrates, o mestre dos mestres, de
quem Antistenes dizia a seus discípulos:
“Vamos ouvir Sócrates; aí serei um discípulo
como vós.” Esse mesmo filósofo, dissertando
acerca do dogma estóico, de que “a virtude
basta para assegurar a felicidade da vida, nada
mais se necessitando”, acrescentava: “a não
ser da firmeza de ânimo de Sócrates”.
A atenção que de há muito aplico em anali-
sar-me, habilita-me a julgar com algum discer-
nimento os outros. E de poucas coisas falo
com mais êxito e competência. Ocorreu-me
não raro distinguir com mais justeza do que
eles próprios as boas ou más disposições em
que se encontravam meus amigos; alguns
houve que espantei com a exatidão de minhas
observações e que pus de sobreaviso contra si
mesmos. Habituado desde a infância a estudar
minha vida olhando-me na dos outros, adquiri
uma aptidão real a escrutá-las; e quando me
esforço, poucas coisas me escapam das que se
verificam ao redor de mim e possam auxiliar-
me nessa tarefa: fisionomias, raciocínios, ten-
dências. Tudo estudo: o que convém evitar e o
que cumpre imitar. Por isso percebo em meus
amigos, pelo que fazem, o estado de alma em
que se acham, embora não vise com isso clas-
sificar em gêneros e espécies essa infinita
346 Cicero.
347 Tucano.
ENSAIOS — III
variedade de ações tão diversas pela sua natu-
reza e forma, e em seguida juntá-los em classes
e divisões conhecidas, “pois fora impossível
enumerar todos os nomes e espécies, tão nume-
rosos são? *8º, Os sábios falam e expressam
suas idéias mais especifica e minuciosamente;
mas eu, que só sei e vejo o que o uso me ensi-
na, apresento as minhas sem obedecer a regras,
ao acaso e parceladamente, como coisas que
não cabe dizer em conjunto e de uma vez, pois
nada se impõe pela harmonia nas almas vulga-
res como as nossas. A sabedoria é um edifício
sólido e que constitui um todo; cada peça
ocupa seu lugar certo e traz-lhe a marca;
“somente a sabedoria se encerra toda em si
mesma? *º?, Deixo aos artistas — e não sei se
o conseguem em se tratando de coisa tão for-
tuita — o cuidado de distribuir por categorias
a variedade imensa dos aspectos, fixando e
ordenando a nossa inconstância. Não somente
acho dificil ligar nossos atos uns aos outros,
mas ainda encontrar a qualidade essencial de
cada um, suscetível de definillo de um modo
específico, já que são tão variegados e numero-
sos.
Afirmava-se que Perseu, rei da Macedônia,
era um homem raro, porque seu espírito não se
preocupava com nada, não se fixava em coisa
alguma e porque ele levava assim todos os gê-
neros de vida com hábitos tão livres e cam-
biantes que nem ele próprio nem os outros po-
diam saber que tipo de homem era. Penso que
o mesmo, pouco mais ou menos, se'pode afir-
mar de todo mundo. E em particular de
alguém que conheço, a quem se aplicaria me-
lhor ainda, creio: não tem sossego, vai de um
extremo a outro sem motivo plausível; sua
vida sem brilho não mostra nem reveses,
nem —contrariedades sérias; não tem nenhu-
ma qualidade nitidamente caracterizada; e dele
se dirá provavelmente um dia que procurou
tornar-se conhecido como um ser impene-
trável. É preciso ter ouvidos duros para escu-
tar um julgamento franco; e como poucos o
suportam sem revolta, os que se arriscam a
prestar-nos esse serviço dão-nos uma prova de
amizade pouco comum, pois só o amor justi-
fica que nos firam e ofendam para beneficiar-
nos. Acho difícil julgar alguém cujos defeitos
superam as qualidades; e Platão impõe ao juiz
três condições: ser capaz, ser generoso e ser
ousado.
Perguntaram-me de uma feita o que eu pen-
sava que fora capaz de fazer se me houvessem
empregado na idade de servir, “quando um
sangue mais vivo corria em minhas veias e que
348 Virgílio.
348 Cicero.
487
a velhice invejosa não tinha ainda embranque-
cido as minhas têmporas? 8º”. Nada, respondi.
E congratulo-me por não saber nada que me
houvera tornado escravo de alguém. Mas fora
capaz de dizer verdades a meu senhor e criti-
car-lhe os costumes, se ele quisesse. Não o fi-
zera em teoria, valendo-me da filosofia, o que
não sei fazer e que não creio tenha modificado
realmente quem o sabe, mas observando-o em
detalhe, nos momentos oportunos, julgando
seus feitos e gestos um por um, simplesmente,
naturalmente, mostrando-lhe o que pensam
dele e não o que lhe asseguram os cortesãos.
Nenhum de nós valeria mais do que os reis, se,
como eles, vivesse continuamente corrompido
por essa canalha. E como não hão de sucumbir
a essa corrupção, se o próprio Alexandre,
grande rei e grande filósofo, não pôde preser-
var-se? Eu teria tido bastante fidelidade, julga-
mento e liberdade para isso. Um tal ofício não
seria remunerado, sem o que perderia sua
eficiência e seu mérito, pois é cargo que não
poderia ser preenchido por qualquer pessoa,
não tendo a verdade o privilégio de se manifes-
tar a qualquer momento e propósito. Por nobre
que seja, seu uso tem seus limites. Acontece
não raro que, dada a natureza das coisas, dizer
a verdade ao ouvido do príncipe pode ser
contraproducente e mesmo injusto. Uma cri-
tica merecida pode aplicar-se erroneamente,
porque o interesse do conteúdo deve por vezes
dar prioridade às exigências imediatas da
conveniência. Para tal cargo eu indicaria um
homem satisfeito com a sorte, “que quisera ser
o que é e nada mais? 81º”, de situação social e
financeira regular. Assim, por um lado não
teria receio de, molestando o príncipe, prejudi-
car a própria carreira e, por outro, poderia
comunicar-se com toda classe de gente. Propo-
ria também que somente uma pessoa ocupasse
o cargo, pois atribuir tal liberdade e familiari-
dade a muitos acarretaria uma perniciosa
irreverência. Finalmente exigiria de um tal per-
sonagem uma estrita discrição.
Não há como acreditar em um rei que se
vanglorie de suportar os ataques: de seus ini-
migos quando, para se corrigir proveitosa-
mente, não aceita a liberdade de linguagem de
amigo, tanto mais quanto não se lhe pede
senão que ouça; tudo o mais é de sua própria
alçada. Não há homens que mais do que o
príncipe necessitem de sinceras e livres adver-
tências. Levam uma vida pública e são objeto
de todas as curiosidades e juízos. E, como
sempre lhes escondem tudo, acabam incor-
rendo nas iras de todos, quando, com um
350 Virgílio.
351 Marcial.
488
pequeno esforço, o teriam evitado, sem dano
para suas satisfações próprias, tão-somente
ouvindo esclarecimentos oportunos. Em geral
os favoritos atentam para seus interesses pes-
soais mais do que para os do seu senhor; e lo-
gram êxito com isso, porquanto, infelizmente,
os verdadeiros serviços que um autêntico
amigo pode prestar a um soberano são rudes e
arriscados. Por isso exigem, além de muita
afeição e franqueza, muita coragem.
Em suma, todo este ensopado de frases aqui
jogadas algo confusamente constitui uma espé-
cie de registro das experiências de minha vida.
No que concerne à saúde do espirito, fornecem
elas muitos exemplos instrutivos, conquanto
façam o contrário do que disse e eu mesmo fiz.
Quanto à saúde do corpo ninguém há de falar
com maior experiência do que eu, e ofereço-a
em toda a sua pureza, não alterada por artifi-
cios ou preconceitos. E quando se trata de
medicina ela está à vontade; a razão cede-lhe
seu lugar. Dizia Tibério que bastava ter vivido
vinte anos para saber o que nos convém e o
que nos é nocivo; e poder, portanto, dispensar
o médico. Deve ter aprendido isso com Sócra-
tes, o qual, recomendava a seus discípulos,
como estudo principal, o da própria saúde,
acrescentando que um homem de bom senso,
simplesmente com observar seus atos, sua
maneira de comer e beber, devia distinguir,
melhor do que o médico, o útil e o prejudicial.
Proclamando a medicina que assenta seus
mandamentos na experiência, observa Platão
que o médico precisava então ter sido vítima
de todas as doenças que pretende curar, € nas
circunstâncias em que lhe cumpre pronunciar-
se. Assim, para curar a sífilis devia primeira-
mente contrai-la. Nesses médicos eu confiaria.
Os outros agem como quem, em segurança,
pinta sobre a mesa mares, portos e recifes e
passeia por eles um navio de brinquedo; na
presença da realidade não saberia como
'conduzir-se. Descrevem os médicos nossos
males como um pregoeiro de aldeia descreve o
cavalo ou o cão perdidos, dizendo a cor do
pêlo, o tamanho e a raça, mas incapazes de
reconhecê-lo se lho apresentam. Por Deus, se a
medicina me prestar um dia algum serviço efi-
caz, não deixarei de proclamar: “enfim, eis
uma ciência de resultados palpáveis? 52”
As artes: que nos prometem a saúde do
corpo e da alma muito prometem, mas não há
nenhuma que cumpra menos suas promessas.
Entre nós, os que exercem essas profissões são
os que menos mostram sua eficiência; pode-se
dizer deles que vendem drogas medicinais, mas
352 Horácio.
MONTAIGNE |
não que sejam médicos. Vivi bastante para que
me julgue no direito de expor as práticas que
me levaram tão longe. Quem o quiser tentar
que atente para minhas informações. Eis algu-
mas dessas práticas que relato ao sabor da
memória. Embora minha maneira de ser tenha
variado de acordo com as circunstâncias, cer-
tas práticas foram seguidas mais do que
outras; relato aqui as que empreguei mais
habitualmente até agora.
Doente ou com saúde meu modo de vida é
idêntico. Uso o mesmo leito, as horas de refei-
ção não mudam, como e bebo as mesmas coi-
sas; nada acrescento nem retiro, apenas faço o
que exigem minha disposição e méu apetite.
Consiste minha saúde em manter sem pertur-
bações o meu estado habitual. A doença acar-
reta por certo uma ruptura de equilíbrio em
certo sentido, mas se ouvisse os médicos, eles o
provocariam em outro sentido e assim com a
ajuda de sua arte e de meu azar estaria
completamente transtonado. Creio firme-
mente nisto: não podem prejudicar-me as coi-
sas'a que estou há tanto tempo acostumado;
nossos hábitos moldam nossa vida a seu bel-
prazer, como a bebida de Circe que modifica a
nossa natureza a seu talante. Quantos povos, a
dois passos daqui, não consideram ridículo o
nosso medo do sereno? E como zombam disso
os nossos campônios! Um alemão ficará doen-
te se dormir em colchão; ao italiano repugnam
as penas; e o francês não passa sem cortinas e
lareira. O estômago de um espanhol não resis-
te à nossa alimentação, nem o nosso em beber
como os suíços. Em Augsburgo um alemão
criticou-me a lareira com os mesmos argumen-
tos que usamos contra seus fogareiros. Em ver-
dade o calor pesado e o cheiro de combustível
que empregam sufocam quem não está habi-
tuado.; pessoalmente não sinto esse efeito. Mas
esse calor é igual e constante, global; não pro-
duz chamas nem fumaça; não se recebe o
vento que se introduz pela chaminé, como em
nossas lareiras. O sistema de aquecimento
suporta portanto a comparação com o nosso.
Dizem que outrora em Roma o fogão se situa-
va fora de casa e o calor era introduzido por
tubos que serpenteavam no interior dos cómo-
dos eo espalhavam por toda parte. É o que nos
descreve Sêneca em algum trecho que não
recordo. Todo calor proveniente do fogo me
enfraquece e entorpece. Eveno dizia que o fogo
é o melhor condimento da existência; eu prefi-
ro qualquer outro meio de fugir ao frio.
Não .apreciamos os vinhos do fundo do
tonel; gostam deles em Portugal e servem-no
as mesas dos príncipes. Na realidade, todo
povo tem costumes e usos que não somente
ENSAIOS — HI
sao desconhecidos dos outros como ainda lhes
parecem estranhos e bárbaros. Que pensar
deste povo que só aceita testemunhos escritos,
que só acredita nos homens quando falam por
meio de livros, e na verdade se é idosa? Nossas
tolices, a seu ver, adquirem dignidade quando
impressas; e dizer “lh” é para ele muito mais
importante do que “ouvi”. Por mim, dou igual
valor ao que sai da boca como ao que vem da
mão, sei que se escreve tão indiscretamente
como se fala, acho meu século igual aos outros
e acredito tanto em um amigo quanto em um
macróbio e no que vejo como no que escrevem,
E assim como os antigos autores acham que 'a
virtude não é maior por ser mais velha, não
penso que a verdade seja mais real por ser
mais antiga. Amiúde declaro que é pura tolice
recorrer a exemplos alheios e escolásticos;
nossa época fornece-nos um tão grande núme-
ro deles quanto as épocas de Homero e Platão.
Não provirá o nosso erro de emprestarmos
mais veracidade às citações do que ao que
dizemos? Como se, apoiando-nos em Plantin,
provássemos mais do que em nos atendo ao
que vemos em nossa aldeia! Ou provirá do
fato de não termos suficiente inteligência para
analisar e realçar o valor e tirar conclusões do
que ocorre ao redor de nós? Não há como
admitirmos que careçamos de autoridade para
dar crédito a nosso testemunho, pois entendo
que as coisas mais vulgares e comuns poderão,
se soubermos esclarecê-las, colocar-nos em
presença dos maiores milagres da natureza e
fornecer-nos os mais maravilhosos exemplos,
em particular se nos referirmos às ações
humanas.
Prossigamos em nosso assunto. Aristóteles
dizia que Andron atravessara os desertos da
Líbia sem beber; pois eu conheço um cava-
lheiro que já desempenhou com dignidade vá-
rios cargos e que assegura ter ido de Madri a
Lisboa, em pleno verão, sem beber um gole. É
um homem forte para sua idade e que nada re-
veia de estranho em sua vida cotidiana, a não
ser ficar dois ou três meses por ano sem beber.
Tem sede, mas deixa-a passar, garantindo que
o desejo se dissipa facilmente e que, se bebe, é
antes por capricho do que por necessidade ou
prazer.
Não faz muito, encontrei um dos homens
mais sábios de França e não menos rico. Tra-
balhava em um canto da sala, guamecido de
tapeçarias, e ao redor dele fazia a criadagem
grande ruído. Contou-me, e Sêneca diz o
mesmo de si próprio, que aquele alvoroço era
útil, e como que lhe ajudava a concentrar as
idéias. Estudando em Parma, trabalhara tanto
tempo em um local de onde se ouviam conti-
489
nuamente o barulho das carruagens e o tumul-
to da praça, que se habituara não somente a
não se incomodar com isso mas ainda a não o
poder dispensar. Sócrates respondia a Alcibia-
des, que se espantava com vê-lo suportar a gri-
taria contínua da mulher: “é como o ruído
comum do engenho, não atrapalha a produ-
ção”. Eu sou, o contrário, distraio-me facil-
mente; quando não estou bem disposto, é-me
insuportável o menor zumbido de mosquito.
Sêneca em sua juventude aplicara-se em se-
* guir resolutamente o exemplo de Séxtio, o qual
não comia nada que tivesse vida; a experiência
durou um ano e lhe foi profícua, como nos
informa. Só renunciou à dieta para que não o
suspeitassem de ser partidário de certas reli-
giões novas que a propugnavam. Seguindo
também a recomendação de Átalo, não dormia
em colchão mole, o que fez até morrer. O que
os costumes da época induziam a julgar uma
prova de austeridade, é hoje considerado
requinte.
Os citas e os indianos não divergem mais de
mim, em sua maneira de viver, que os meus
criados. Retirei por vezes da mendicância jo-
vens que, após algum tempo, abandonavam o
serviço que lhes dera para retornar a seu modo
de vida antigo. Um encontrei, que juntava
mariscos nas ruas para comer e que não conse-
gui desviar de sua indigência nem com recom-
pensas nem com ameaças. Os miseráveis,
assim como os ricos, têm seus prazeres e
magnificências, sua hierarquia e dignitários.
Tais efeitos decorrem dos hábitos, os quais nos
amoldam a seu gosto, de modo que, como
aconselham os sábios, convém atermo-nos aos
melhores, não somente porque assim mais
acessíveis se tornam, como também porque
assim nos preparamos para as mudanças
possíveis, e é a melhor aprendizagem que
podemos fazer. Minha melhor qualidade con-
siste em ser flexivel e pouco obstinado. Tenho
inclinações mais pessoais, que me são mais
agradáveis, mas com um pequeno esforço afas-
to-as ou as contrario. Os jovens devem mudar
às vezes de regras de vida para despertar seu
vigor e impedir que se amoleçam. Não há nada
mais tolo do que sempre se conduzir em
obediência a uma mesma disciplina: “Se quer
transportar-se atê o primeiro marco do cami-
nho consulte seu tratado de astrologia; se irri-
tou o olho, esfregando-o, providencie para que
o colírio se fabrique segundo seu horósco-
po? 83,” Que cometa alguns abusos, pois de
outra maneira o menor excesso lhe será fatal!
O que há de pior para um homem de certa con-
353 Juvenal.
490
dição social é ser obrigado a um gênero parti-
cular de vida, em virtude de sua exagerada
delicadeza. É o que acontece quando não se
possui a capacidade de se adaptar a quaisquer
exigências. Há então que não fazer, por impo-
tência, o que fazem os outros; e as pessoas de
semelhante temperamento devem ficar em casa
com seu regime. Uma tal atitude é sempre
inconveniente, mas na profissão militár consti-
tui um vício insanável, porque o homem de
guerra, como dizia Filopêmen, deve estar acos-
tumado a todas as mudanças e irregularidades
da vida. |
Embora tenha sido educado no amor à liber-
dade e à indiferença, ao envelhecer habituei-me
a certas maneiras de agir (a idade não me per-
mite mais corrigir-me) e o hábito, sem que o
percebesse, já imprimiu em mim sua marca e
muitas coisas já considero difícil não as fazer
ou as fazer diferentemente. Não posso mais
dormir ao ar livre, comer entre as refeições,
deitar-me após o almoço, ou o jantar, sem pelo
menos três horas de intervalo; ter relações com
minha mulher senão antes de dormir, suportar
o suor no meu corpo, beber água ou vinho
puros, permanecer durante muito tempo com a
cabeça descoberta, cortar o cabelo depois da
refeição. Não prescindo de luvas como não
ficor sem camisa e é-me uma necessidade
lavar-me pela manhã e ao levantar-me da
mesa; julgo imprescindíveis um dossel e corti-
nas. Comeria, se preciso, sem toalha, mas não
posso ficar sem guardanapo como os alemães.
Sujo-os mais do que eles, aliás, e os italianos,
porque uso pouco garfos e colheres. Lamento
- que não se tenha adotado o hábito de trocá-los
com cada prato como fazem os reis. O grande
soldado Mário tornou-se, na velhice, muito
requintado no seu modo de beber e só bebia
em um copo especial de seu uso particular. Eu
prefiro igualmente certa forma de copo e não
bebo de bom grado em copo ordinário, bem
como não gosto de ser servido por qualquer
um. Os copos de metal não me apetecem, apre-
cio-os de matéria clara e transparente; meus
olhos precisam participar do prazer do pala-
dar. Outras delicadezas dessa ordem impôs-me
o habito, e a natureza prescreveu-me certos
cuidados. Assim é que não posso comer mais
de duas vezes por dia sem sobrecarregar o
estômago, nem tampouco dispensar totalmente
uma das refeições sem sentir os efeitos dos
gases, a boca seca e os protestos do apetite.
Fico incomodado quando me exponho longa-
mente ao sereno; de alguns anos para cá quan-
do, em circunstâncias de ordem militar, assim
permaneço a noite inteira, já ao fim de cinco a
seis horas meu estômago se ressente, começam
MONTAIGNE
as dores de cabeça ê não chego à madrugadã
sem vomitar. E, quando os outros vão almo-
çar, deito-me recuperando em seguida a boa
disposição habitual. Sempre ouvira dizer que o
sereno só cai ao anoitecer, mas um fidalgo que
frequentei assiduamente e intimamente nestes
últimos anos, convencido de que o sereno do
crepúsculo é o mais pernicioso, evita-o nesse
momento e não se incomoda com o da noite; e
quase me levou a compartilhar não apenas de
seu ponto de vista mas também de suas sensa-
ções. Assim, as próprias dúvidas e as pesqui-
sas a que nos entregamos a fim de saber o que
é certo e o que não o é, atuam sobre nossa.
imaginação e nos modificam! Os que cedem
sem maior reflexão a suas inclinações, mar-
cham para sua ruína; e conheço vários fidalgos
que, pela estupidez de seus médicos; se viram
forçados a uma existência reclusa embora
sejam ainda jovens e fortes; é ainda preferível
resfriar-se e pegar um defluxo a perder por
falta de hábito os prazeres da vida normal.
Triste ciência a que nos priva de nossas melho-
res horas! Apeguemo-nos com todas as nossas
forças ao que possuímos; em geral nós nos
enrijecemos obstinando-nos, e corrigimos
nosso temperamento, como fez César que
dominou a epilepsia à força de desprezáâ-la e de
resistir-lhe. Devemos adotar as melhores re-
gras, mas não nos submetermos a elas, salvo
aquelas cuja observação é obrigatória e útil.
Reis e filósofos precisam diariamente esva-
ziar os intestinos; e também as mais belas
damas. Aqueles cuja vida decorre sob as vistas
do público precisam manter um certo decoro;
a minha é obscura e gozo a vantagem de algu-
mas liberdades naturais; demais sou soldado e
gascão, um e outro algo indiscretos; posso pois
dizer o que penso desse ato. É conveniente
realizá-lo à noite, em horas certas; consegue-se
pelo hábito e eu o consegui. Mas não deve nin-
guém escravizar-se a ele, ao envelhecer, a
ponto de exigir local e assento especial, ou de
se sentir inibido fora da hora normal. Entre-
tanto, é muito justo que se procure ter limpeza
e cuidado nesse mister; como em outros,
mesmo em se tratando de coisas pouco limpas:
o homem é por natureza um animal limpo e
delicado. Entre todas as funções naturais, é
essa a que menos me agrada ver interrompida.
Sei de muitos militares que sofrem de desar-
ranjo intestinal; o meu intestino e eu nunca fal-
tamos ao encontro marcado, ao pular da
.cama, salvo em caso de doença ou de ocupa-
ção urgente.
Como dizia, não vejo melhor meio dos
enfermos assegurarem sua cura do que o de
continuarem a levar a vida a que estão acostu-
ENSAIOS — HI
mados; qualquer mudança é prejudicial. Pode-
reis por acaso admitir que as castanhas façam
mal a um perigordino ou a um luquense? E
que o.leite e o queijo- sejam nocivos a um
moóntanhês? Proibindo-lhes esses alimentos,
não somente mudareis o seu modo de vida'mas
ainda lhes imporeis uma regra perigosa, por-
que avessa a seus hábitos, pois nem mesmo um
homem muda impunemente de dieta. Ordenai
a um bretão de setenta anos que beba somente
água; prendei um marujo numa estufa; proibi a
um criado basco de passear; vós OS privareis
de movimento, de ar e de luz: “Valerá a vida
que se renuncie a viver para prolongá-la? Sim,
pois não creio que se contem no número de
vivos aqueles a quem tornamos insuportáveis O
ar que respiram e a luz que os ilumina? 8 4,” Se
nenhum benefício nos oferecem os médicos,
este, ao menos, se lhes há de atribuir: o de pre-
parar os enfermos para a morte, solapando
neles'o uso do que lhes dá a vida.
São ou enfermo, satisfaço os meus apetites;
respeito os meus desejos e as minhas inclina-
ções; não gosto de curar o mal com o mal e
detesto os remédios, mais importunos do que
as doenças. Ter cólicas e ser forçado a não
comer ostras são dois males em vez de um; a
doença magoa-nos por um lado, a dieta por
outro. E, se temos que enfrentar certos aborre-
cimentos, enfrentemo-los ao menos depois de
atender ao prazer. Os homens vêem a reali-
| dade ao contrário: imaginam que só o que é
desagradável pode ser útil; desconfiam do que
é fácil. Meu apetite em muitas coisas acomo-
dou-se felizmente à saúde de meu estômago;
na mocidade os molhos picantes eram de meu
agrado; com a idade meu estômago cansou, e
o gosto também. O vinho é nocivo aos doentes,
pois é a primeira coisa que recuso em tais
casos. Tudo o que tomo é prejudicial se me
repugna, e nada me faz mal quando tenho von-
tade. Nenhum ato inteiramente agradável ja-
mais provocou algum: prejuízo a meu organis-
mo; daí ter feito, não raro, de meu prazer a
minha receita.
Adolescente, “quando envolto em esplên-
dida túnica, Cupido dançava ao redor de
mim? 5 8? prestei-me tão licenciosa e descuida-
damente como qualquer outro ao prazer que
me abraçava, “e conquistei alguma glória
nessa militança? 58º, mais pela persistência, .
entretanto, e duração do que pelo vigor. Pare-
ceria milagre e infelicidade confessar a que
ponto era jovem quando, pela primeira vez, me
vi escravizado às suas leis. Foi um efeito do
354 Pseudó Galo.
355 Horácio,
3 5'6 Id.
491
acaso, pois não estava nem de longe na idade
da razão e posso comparar o meu caso ao de
Quartilla que não se lembrava de sua virgin-
dade: “muito cedo tive pêlo nas axilas e minha
barba precoce pasmou minha mãe3 87,”
Os médicos adaptam, amiúde e com vanta-
gem, suas regras à violência dos desejos dos
enfermos, porque não há anseio, por estranho e
pernicioso que seja, que a natureza não aco-
mode em proveito nosso. Demais, que imensa
satisfação a de atender à nossa fantasia! E
isso, a meu ver, é o que mais importa. Os mais
graves males e os mais comuns são os que nos
vêm de imaginação; e o ditado espanhol,
“defiendame Dios de mi”, paréce-me simpá-
tico. Se, quando estou doente, tenho algum
desejo, dificilmente a medicina me afastará
dele; e o mesmo digo quando estou com saúde.
Mas é doloroso que, em conseglência da
idade, me ache adstrito a apenas esperar.
Não é a arte da medicina tão absoluta que
não encontremos em nós alguma razão para
fazer o que queremos; muda segundo o clima e
as fases da lua, segundo Fernel ou segundo
Escaligero. Se vosso médico vos proíbe beber
vinho ou comer tal prato, indicar-vos-ei outro
de opinião contrária; a variedade das opiniões
e argumentos em matéria de medicinaçassume
todas as formas. Vi um coitado que, para
sarar, se deixava atormentar pela sede a ponto
de perder os sentidos e de quem zombava mais
tarde outro médico, o qual condenava as pres-
crições de seu colega. Não faz muito morreu
de cálculos um desses profissionais; para lutar
contra seu mal, recorria a uma abstinência
total. Dizem seus confrades que um tal jejum
lhe fora prejudicial, porquanto o secara e lhe.
cozera a areia nos rins.
Verifiquei que quando estou doente ou
machucado, falar me cansa e me prejudica
tanto quanto uma loucura qualquer. Falo com
dificuldade e sinto-me exausto porque o timbre
de minha voz é alto e exige um esforço, tendo
ocorrido que, ao falar ao ouvido de algum
grande personagem de qualquer assunto im-
portante, me pedise o ouvinte para baixar a
voz.
Eis uma anedota divertida: alguém numa es-
cola grega falava alto como eu. Disse-lhe o
professor que baixasse a voz: “que me dê o
tom”, respondeu: o rapaz advertido, ao que
retorquiu o mestre sugerindo-lhe que o bus-
casse nos ouvidos daquele a quem se dirigisse.
Estava certo, sob a condição de que com isso
quisesse dizer: “fala segundo o que tens a tra-
tar com quem te ouve”, pois se quisesse insi-
357 Marcial.
492
nuar: “basta que te ouça, regula assim a tua
voz”, não creio que tivesse razão. O tom da
voz encerra uma parte da expressão, cumpre
graduá-lo portanto. Há um tom para ensinar,
outro para adular, outro para advertir. Não
somente é preciso que a voz alcance o ouvinte,
mas ainda que o fira e, por vezes, o traspasse.
Seria inadmissível que um criado por mim
repreendido em tom rispido me viesse obser-
var: “falai-me, senhor, mais baixo, que eu vos
ouço perfeitamente”. “Há um tipo de voz apro-
priado aos ouvidos, não pela sua magnitude e
sim pela sua qualidade? 5º.” Metade da pala-
vra pertence a quem fala e metade a quém
escuta, e este deve preparar-se para recebê-la
como se preparam para receber a bola os joga-
dores de pelota, de acordo com a força e a
direção do lance.
Ensinou-me ainda a experiência que nós nos
perdemos por falta de paciência. Os males têm
sua vida, com limites determinados, suas doen-
ças e seu estado de saúde. A constituição das
doenças é organizada da mesma maneira que a
dos animais. Têm sua evolução, sua duração
fixada já na origem; quem as tenta abreviar,
impondo-lhes a sua vontade, prolonga-as e as
multiplica, excita-as em lugar de apaziguá-las.
Sou da opinião de Crantor: não há como con-
trariar os males com obstinação, nem deixar
que nos dominem por falta de energia de nossa
parte; cabe ceder naturalmente, de acordo com
sua condição e a nossa. Deve-se dar passagem
as doenças, e creio que não se detêm em mim
porque não as molesto; livrei-me de algumas
que passavam por tenazes; desgastaram-se
sozinhas, sem que a arte interviesse e mesmo
em me opondo às regras da medicina. Deixe-
mos que a natureza aja por si; ela entende me-
lhor do que nós de seus negócios. “Mas fulano
morreu”, dirão. É verdade, e vós também mor-
rereis; se não dessa doença, de outra. Quantos
igualmente não escaparam com três médicos à
cabeceira! O exemplo é um espelho em que
tudo se reflete vagamente e sob todos os seus
aspectos. Se o remédio que vos oferecem é
agradável, aceitai-o. Nada perdereis com isso.
Eu não atentarei sequer para o nome e a cor, se
for apetitoso, porquanto o prazer constitui
uma das principais formas do proveito. Deixei
que envelhecessem e morressem por si os
defluxos, as crises de gota, os desarranjos, as
palpitações, as enxaquecas e outros acidentes,
os quais me abandonaram quando já me ia
resignando à sua companhia; melhor se conju-
ram com cortesia do que com bravatas. É pre-
ciso suportar com paciência as leis inerentes à
358 Quintiliano.
MONTAIGNE
nossa condição; somos feitos para envelhecer,
enfraquecer, adoecer a despeito dos remédios.
É a primeira lição que os mexicanos dão a seus
filhos quando, ao saírem do ventre materno, os
acolhem dizendo: “Filho, vieste ao mundo
para sofrer; sofre, pois, suporta e cala” É
injusto queixar-se do que pode ocorrer a todos:
“Queixa-te, mas só se aplicarem unicamente a
ti uma lei injusta? 89.”
Não é uma loucura um velho pedir a Deus
que lhe mantenha intata a saúde e inteiro o
vigor? Seria devolver-lhe a juventude, o que
não lhe permite sua condição de velho.,
“Insensato! por que, em tuas preces pueris;
pedir coisas irrealizáveis? 8º 1 EA
A gota, os cálculos, a indigestão são ineren-
tes à idade, como o calor, as chuvas, os ventos
comuns às longas viagens. Platão não crê que
Esculápio devesse, com suas prescrições, fazer
durar um corpo gasto € caduco, inútil ao país e
à profissão, inapto à fecundação robusta e
sadia. Não acha que semelhante papel possa
convir à justiça divina e à divina prudência, as
quais tudo devem conduzir a um fim útil. “O
mais que se pode fazer por ti, homem, é remen-
dar-te, enfeitar-te um pouco e prorrogar de
algumas horas tuas misérias, como faz quem,
para sustentar um edifício, coloca algumas
estacas no ponto que ameaça desabar; mas um
dia todo o conjunto se rompe e as estacas são
enterradas sob os escombros? 81?
É necessário aprender a sofrer o que não hã
como evitar. Nossa vida, como a harmonia
dos mundos, é composta de elementos contrá-
rios e tons variados: doces e estridentes, agu-
dos e surdos, frágeis e graves; que partido
deles tiraria o músico que gostasse de uns €
renegasse os outros? Cumpre-lhe empregá-los
todos e misturados. Assim devemos fazer com
os bens e os males que são parte integrante de
nossa vida; nosso ser só é possível com essa
mistura. Tentar reagir contra essa necessidade,
é renovar o ato de loucura de Otesifonte que
empreendera lutar a pontapés com seu jumen-
to.
Mesmo quando sinto que a saúde se altera,
consulto raramente os médicos porque são
indivíduos que, quando nos têm nas mãos, nos
enchem a cabeça com seus prognósticos. Ven-
do-me outrora abatido pela doença, esmaga-
ram-me ultrajosamente com sua ciência e suas
atitudes, ameaçando-me com dores violentas e
até com a morte próxima. Isso não me desmo-
ralizou mas irritou-me e magoou-me; e embora
não se conturbasse o meu espírito, sentia-me
359 Sêneca.
360 Ovídio.
361 Pseudo Galo.
ENSAIOS — HI
algo incomodado; e a discussão provoca
agitação.
Sou todo cuidados com minha imaginação;
se pudesse evitar-lhe-ia todo irabalho e pena. E
preciso auxiliá-la, lisonjeá-la, enganá-la
mesmo se possível. E tarefa de que meu espi-
rito entende e se soubesse persuadir como
argumenta prestar-me-ia grande serviço. Que-
reis um exemplo? Eis o que me diz: “Esses cál-
culos são um bem para mim, já que todo edifi-
cio da minha idade tem suas goteiras. E a lei, e
fora injusto que em relação à minha pessoa
algum milagre ocorresse. Com isso pago o tri-
buto devido à velhice e não me parece possível
pagar menos. Devo consolar-me pensando que
o acidente é dos mais vulgares nos homens de
meu tempo. Por toda parte vê-se gente com
essa doença, a qual sói atingir de preferência
os grandes personagens, sendo portanto essen-
cialmente nobre e digna. Entre os enfermos
dessa doença poucos a suportam tão bem
como eu, e mesmo assim à custa de drogas, ao
passo que a sorte me tem permitido continuar
a viver mediante umas tantas infusões de uso
doméstico que algumas senhoras me fizeram
beber e que tomei por considerar que não me
podiam prejudicar. Os outros doentes preci-
sam fazer promessas a Esculápio e pagar visi-
tas de seus médicos a fim de expelir um pouco
de areia, o que tenho conseguido naturalmente.
A decência de minha conduta não se ressente
da enfermidade, pois posso passar dez horas
sem urinar, como qualquer pessoa sã. O mal
assustava-me antes de eu o conhecer; os gritos
e lamentos dos que o exageram por falta de
resignação faziam que o temesse muito. E mais
ainda, é um mal que nos castiga onde mais
pecamos.” E acrescenta o espírito: “Se tens
consciência encara o castigo como doce e
paternal em comparação com outros”: — “o
'mal que não se mereceu é o único de que se
tem o direito de queixar? 82.” “Pensa como te
chegou tarde a descarga, no momento em que
tua vida já se tornou vã e estéril; ela substitui
os prazeres e as licenciosidades adolescentes.
Tiras certa vaidade do receio e da piedade que
a doença inspira, é um defeito de que imaginas
ter-te curado mas que teus amigos ainda perce-
bem em ti. E é agradável ouvir dizer: que ener-
gia, que paciência! Vêem-te suar, empalidecer,
tremer, vomitar sangue, verter lágrimas, expe-
lir urinas espessas e escuras ou deixar de uri-
nar porque um cálculo cruelmente se incrustou
na uretra. Não obstante conversas com os pre-
sentes como de costume, gracejas, desmen-
tindo as dores com tuas palavras, e superando
362 (Ovídio.
493
o sofrimento. Não te recordas dessa gente de
outrora que buscava a dor para exercitar a vir-
tude, e despertá-la? Pois a natureza dá essa
oportunidade que voluntariamente não houve-
ras procurado. E se me disseres que se trata de
uma doença perigosa e mortal, eu te respon-
derei que todas o são, pois trapaceia a medi-
cina quando te afirma que algumas não levam
diretamente à morte. Que importa o caminho
seguido, se é reto ou ziguezagueante! Não
morres porque estás doente e sim porque estás
vivo; a morte não precisa da doença para
matar. Em alguns casos esta afastou a morte e
viveram mais tempo os doentes porque lhes
pareceu que estavam sempre por morrer. As
doenças assemelham-se aos ferimentos: são
por vezes salutares. A cólica, não raro, dura
tanto quanto o homem; há quem a suporte
desde a infância até a decrepitude. E ainda que
fosse um indício de morte, não te presta servi-
ço forçando-te a meditar sobre o momento
fatal? Finalmente — e é o pior — nada pode
curar-te. Considera com que arte e quão suave-
mente a enfermidade te arrasta ao desprezo
pela vida e te afasta do mundo, não com vio-
lência e tirania (como outros males comuns
aos velhos e que os entravam em meio a mil
tormentos), mas através de advertências e
ensinamentos, repetidos com intervalos de
bom repouso, a fim de que possas meditar
comodamente, e aprender. Para dar-te o meio
de bem julgar e de tomar o partido dos homens
de caráter, apresenta-te a situação tal qual é, e
em um mesmo dia te oferece uma vida ora ale-
gre, ora insuportável. Se não abraças a morte,
não deixas, ao menos uma vez por mês, de
tocar-lhe a mão, o que te dá a esperança de ser
um dia arrastado sem aviso prévio. Tantas
vezes serás conduzido ao porto que, confiante,
" atravessarás inopinadamente o mar, sem o
perceberes. Não há como queixar-se das-.doen-
ças que partilham lealmente o tempo com a
saúde.”
Sou grato à sorte por me assaltar tão
frequentemente com as mesmas armas; mol-
da-me assim e me educa, e fortalece-me. E hoje
sei com bastante exatidão em que estado me
encontro. Falho de memória, apelo para o
papel; qualquer sintoma novo é logo anotado,
de modo que, tendo já conhecido quase todos
os casos que podem ocorrer, diante de uma dú-
vida consulto essas notas e nunca deixo de
deparar na experiência do passado com algum
prognóstico favorável. O hábito leva-me a
esperar um melhor futuro, pois é de crer que a
natureza não modificará-o.que há tanto tempo
vem fazendo, nem produzirá acidentes mais
graves. Demais os efeitos dessa ênfermidade
494 MONTAIGNE
não perturbam meu temperamento vivo e
impaciente. Temo as crises pouco intensas por-
que se prolongam; mas, quando são violentas,
atormentam-me um dia ou dois apenas. Meus
rins ficaram quarenta anos sossegados; há
quatorze tudo mudou. Temos nossos períodos
de doença como nossos períodos de saúde, e
talvez a minha enfermidade esteja chegando ao
fim. A idade atenuou o calor de meu estôma-
go; menos bem feita a digestão, os alimentos
alcançam os rins menós elaborados. Pode tam-
bém acontecer que em “dado momento se debi-
lite igualmente o calór de meus rins e que, não
produzindo mais secreções arenosas, tenha a
natureza de inventar outro modo de evacua-
ção. Os anos acabaram com meus defluxos;
por qué não acabariam também com esses
cálculos?
Nada me parece mais delicioso do que o que
sinto quando, depois de expelir um cálculo,
recupero de imediato a saúde, inteira e perfei-
ta. Haverã na dor experimentada algo compa-
rável ao prazer da repentina melhora? Muito
mais bela é a saúde depois da enfermidade, e
segue-a tão de perto que posso distingui-las
ambas, na sua luta encarmniçada. Dizem os
estóicos que os vícios são úteis porque valori-
zam a virtude; com maior razão pode-se dizer
que a natureza nos deu o sofrimento a fim de
realçar a excelência do prazer e da tranqgúili-
dade. Quando lhe tiraram os ferros; sentiu Só-
crates a sensação agradável de se libertar do
entorpecimento que o peso causara às pernas e
constatou então a estreita ligação existente
entre o sofrimento e a volúpia, tão intima-
mente associados que se sucedem e se engen-
dram reciprocamente. E o filósofo acrescentou
que Esopo devia ter-se aproveitado do tema
para uma fábula.
O que há de pior nas outras enfermidades
estã em que não são tão graves em seus efeitos
quanto em seu desenlace; leva-se por vezes um
*ano para recuperar a saúde e, nesse ínterim,
vive-se em constante sobressalto e penoso esta-
do de fraqueza. Há tantas etapas a percorrer,
que mal se pensa em chegar. Antes que nos
retirem os curativos, que nos desembarassem
ão bonê, nos permitam tomar ar, beber vinho,
comer melão e ver nossa mulher, corre tanto
tempo que é em verdade um milagre não ter-
mos alguma recaída. Meu mal comporta essa
vantagem de desaparecer de repente, enquanto
os outros nos deixam sempre vestígios e
perturbações suscetíveis de facilitar o- apareci-
mento de nova moléstia. Menos graves são as
doenças que se contentam com possuir-nos
sem nos entregar a outras, e graciosas são
aquelas que-ácarretam alguma conseqiiência
útil. Desde que fiquei com esses cálculos, pare-
ce-me que me tornei, mais do que antes, refra-
tário a diversos males, como as febres, por
exemplo. Deduzo disso, que os vômitos violen-
tos e frequentes me purgam e que as repugnân-
cias que sinto, e os jejuns, dissolvem meus
humores malignos e a natureza despeja nessas
areias o que tem de supérfluo e nocivo. Não
me venham alegar que o remédio é-caro, pois
que diríamos então de tantos xaropes hedion-
dos, cautérios e incisões, suores e dietas e ou-
tros tratamentos que amiúde provocam a
morte pela sua violência e sua inoportunidade?
Julgo minhas crises como remédios em atua-
ção e fora delas considero-me completamente
bom.
Citarei outra vantagem particular de minha
doença. Age sem me impedir de agir; uma vez
terminada a crise, ainda que extremamente
aguda, posso andar dez horas a cavalo. Todo o
regime consiste em suportar a dor; quanto ao
resto, Jogai, ceai, fazei isto ou aquilo se puder-
des. Vossos desmandos vos serão úteis até. Já
não se dirá o mesmo da gota, da varíola, da
hérnia. As outras enfermidades impõem-nos
obrigações de toda sorte, entravam nossa ativi-
dade, desequilibtam nosso organismo; e seus
efeitos perseguem-nos o resto da vida. A
minha belisca-me apenas a pele, não toca na
inteligência, nem na vontade, nem na língua,
nos pés ou nas mãos; excita-nos mais do que
nos entorpece. A febre atinge a alma; a epilep-
sia esmaga-a; uma enxaqueca redu-la à impo-
tência; em suma, é ela influenciada por todas
as moléstias que atuam sobre nosso ser e em
particular sobre as partes mais nobres. No
meu caso a alma não é perturbada e se porven-
tura sofre cabe-lhe a culpa. Traiu-se a si pró-
pria, fraquejou. Somente um louco pode acre-
ditar que esses corpos duros e maciços que se
formam nos rins se dissolvem com beberagens;
quando se pôem em movimento não resta
senão deixá-los passar, mesmo porque abrirão
caminho à força se preciso.
Ainda encontro em minha moléstia uma
comodidade espécial: é um mal que não nos dá
muitos motivos de dúvida, ao passo que os res-
tantes nos enchem de incerteza acerca de suas
causas, condições e progressos, o que é infini-
tamente penoso. Eu não sei que fazer de médi-
cos; o que sinto já revela em que consiste e
onde se localiza.
Com esses argumentos, uns fortes, outros
frágeis, e agindo como Cicero agia no combate
à velhice, essa outra enfermidade, procuro
adormecer e distrair a imaginação, tento pen-
sar as chagas. Se porventura vierem a agra-
var-se, verei outras escapatórias. Em verdade,
ENSAIOS — II
de uns tempos para cá; os mais ligeiros movi-
mentos fazem que urine sangue puro; por que
razão? Isso não me impede entretanto de ir é
vir como antes, de acompanhar meus éães à
caça com um ardor juvenil; esse gravé acidente
não me causa senão um entorpecimento passa-
geiro e alguma irritação na parte do corpo em
que se situa o cálculo. Essa recrudescência da
doença deve provir de um cálculo grande que
me comprime os rins e se forma a expensas
desse órgão, o qual assim se esvai aos poucos
— e com ele minha vida — não sem que eu
sinta um pequeno alívio, como quem expila
uma coisa incômoda e supérflua. Quando vejo
que vou piorando, não procuro verificar o
pulso nem analisar a urina, a fim de não
submeter-me a providências aborrecidas; basta
o que sofro, não é necessário ampliar meus
sofrimentos. Quem teme sofrer, sofre mais do
que receia. Digamos ainda que a dúvida e a
ignorância dos que procuram explicar as
molas internas dos fatos e os prognósticos não
raro errôneos que emitem, devem convencer-
nos de que os recursos infinitos da natureza
nos são totalmente desconhecidos; a maior
incerteza, a maior diversidade, a maior obscu-
ridade reinam no que podemos esperar ou re-
cear dela. Salvo a velhice, que é sinal inegável
da aproximação da morte, não deparo nos de-
mais acidentes com nenhuma indicação em
que nos seja permitido assentar uma idéia
qualquer acerca do futuro. Julgo-me pelo que
sinto realmente e não pelo raciocínio; de que
serviria agir de outro modo, se ao mal somente
posso opor a paciência e a resignação? Que-
reis saber o que ganho seguindo essa linha de
conduta? Vede os que fazem o contrário, e
buscam opiniões e conselhos, quanto padecem
pela imaginação atribulada sem que entretanto
sua apreensões se justifiquem. Mais de uma
vez diverti-me, nos momentos de sossego, em
me entreter com os médicos acerca do acidente
que eu dizia aguardar. Estava assim à vontade
para ouvir seus horríveis prognósticos; tanto
mais agradecia a Deus e tanto mais me con-
vencia da inanidade de uma tal arte.
Nada se deve recomendar mais à juventude
do que a atividade e a vigilância; a vida é
movimento. Sou tardo em tudo, custo a levan-
tar-me, a deitar-me, a comer; para mim, sete
horas é cedo, e onde tenho liberdade não almo-
ço antes das onze e só janto depois das seis.
Outrora atribuía minhas febres e enfermidades
a um excesso de sono e sempre lamentei tornar
a dormir pela manhã. Platão é de parecer que
o excesso de sono é mais prejudicial do que o
excesso de bebida. Gosto de dormir em. cama
dura, só, como os reis, e bem coberto. Nunca
495
aquecem meu leito, porém agora que estou
velho, quando necessário, cubro o estômago e
os pés com panos quentes. Acusavam Cipião,
o Grande, de dorminhoco, mas penso que os
invejosos não acharam o que lhe censurar e
encontraram isso. Se alguma coisa se me afi-
gura dever ser requintada, estará ela no leito,
mas nisso, como no resto, sei acomodar-me às
circunstâncias. Dormir foi e continua sendo a
grande ocupação de minha vida. Na idade a
que cheguei, durmo ainda de oito a nove horas
de enfiada. Quando é preciso, liberto-me dessa
propensão para a preguiça e dou-me visivel-
mente bem; a mudançã é-me penosa, mas
durante dois ou três dias tão-somente. Não sei
de muita gente que seja mais frugal e simples
do que eu quando o exigem as circunstâncias,
nem que se exercitem mais e achem menos
duras as atividades militares. Meu corpo
é capaz de suportar durante muito
tempo uma vida agitada, mas não se adapta a
uma agitação veemente e repentina. Evito
porém agora os exercícios violentos suscetíveis
de me fazer transpirar; meus membros cansam
antes de se aquecerem os músculos. Fico sem
dificuldade em pé durante um dia inteiro, e
passear nunca me entedia; mas não gosto de
andar nas cidades senão a cavalo e isso desde
a infância, pois quando ando a pé, emporca-
lho-me até a espinha e as pessoas de pequena
estatura, como eu, correm o risco de ser
permanentemente empurradas e atropeladas.
Tanto estendido como sentado, agrada-me ter
sempre as pernas à altura do assento ou mais
alto.
Não existe atividade mais agradável do que
a militar; nobre em sua prática (pois a maior,
mais bela e generosa virtude é a coragem), essa
atividade é igualmente nobre em seus fins, por-
quanto nada é mais justo e útil do que roteger
a tranquilidade e a grandeza do país. É grata a.
companhia de tantos fidalgos jovens e ágeis;
admirável a contemplação habitual de espetá-
culos- trágicos; atraente a conversação livre e
sem artifícios, bem como o genêro de vida
varonil e sem cerimônias, a belicosa harmonia
das músicas que estimulam e entretêm a alma
e os ouvidos, a honra que esse exercício nos
outorga, e atê as dificuldades e os maus
momentos que comporta. Platão no entanto a
desprezava a ponto de sugerir que as mulheres
e crianças tomassem parte nas guerras. Tudo
isso incita a feitos e proezas particulares e
voluntários, segundo a importância e o brilho
que se colocam ao nosso alcance. E mesmo se
nos ocorre morrer pela causa que abraçamos,
496
“é belo morrer de armas nas mãos? 83”.
Temer os perigos a que tantos se .expõem,
não fazer o que faz todo um povo, é ter um
coração por demais covarde e mau, pois a
companhia dá coragem às próprias crianças.
Outros podem superar-nos em graça, força,
fortuna; isso decorre de causas alheias à nossa
vontade, mas a firmeza de ânimo só de nós
mesmos depende. A morte é mais abjeta, mes-
quinha e triste na cama do que na luta; as fe-
bres e os catarros tão dolorosos e mortais
como um tiro de arcabuz. Quem sabe suportar
corajosamente os acidentes da vida comum
não precisa engrandecer-se para ser soldado:
“Viver, caro Lucílio, é lutar? 8º?
Não me lembro de ter tido sarna, mas
coçar-se é um dos prazeres mais suaves que
possamos usufruir e está sempre à nossa dispo-
sição; implica porém em pronta penitência. O
que mais me ocorre coçar são as orelhas, onde
por vezes sinto comichões.
Nasci com sentidos quase perfeitos. Meu
estômago é sólido e a cabeça também, e
ambos, bem como meu hálito, sempre se man-
tiveram bons mesmo nas febres. Passei da
idade em que, entre certos povos, não sem mo-
tivo se fixava o limite da vida, não se permi-
tindo que ninguém o ultrapassasse. Mesmo
agora tenho momentos, curtos embora e irre-
gulares, em que me encontro na posse tão total
de mim mesmo que me sinto quase como na
mocidade. Não me refiro ao vigor e à agilida-
de, pois não há razão para que se projetem
além do normal, “minhas forças já não me per-
mitem enfrentar as intempéries do céu à porta
da mulher amada? 8 5”. Meu rosto e meus olhos
revelam imediatamente meu estado de saúde;
por aí começam todas as mudanças e meus
amigos não raro se compadecem de mim antes
que perceba a causa. Eles vêem nesse espelho
que não engana, pois, mesmo na mocidade,
mais de uma vez ocorreu que se alterassem
sem motivo a minha tez e a minha fisionomia,
o que os médicos atribuiam a um estado de
espírito provocado por alguma paixão malig-
na. E se iludiam. Se meu corpo acompanhasse
a alma, estaria muito bem. Esta tinha eu então,
não somente isenta de preocupações, mas
ainda satisfeita e festiva, o que é em mim nor-
mal, já porque assim quer a natureza, já por-
que me esforço por não a perturbar: “Jamais
as dores da alma influíram em meu corpo? * 8)”
Creio, ao contrário, que muitas vezes ela aju- .
dou o corpo nas suas fraquezas. Este está
383 Virgílio.
384 Sêneca.
365 Horácio.
366 Ovídio.
MONTAIGNE |
amiúde cansado, ao passo que ela, se não se
mostra brejeira, mantém-se ao menos serena.
Tive uma febre intermitente durante quatro ou
cinco meses; alterou-me completamente a
fisionomia. Entretanto, meu espírito conser-.
vou-se calmo e mesmo alegre. Quando não
sinto dores, minha fraqueza e languidez não
me entristecem. Sei de inúmeras misérias fisi-
-cas cujo nome basta para me causar horror e
as receio mais do que as mil paixões que per-
turbam o espirito de tanta gente. Tomei a deci-
são de não mais correr e contentar-me com me
arrastar; e não me queixo de uma decadência
que está na ordem natural das coisas: “Quem
se espanta com encontrar papeira nos
Alpes? 877” Não lamento tampouco não dever
durar tanto e sem decrepitude quanto um
carvalho.
Não posso queixar-me de minha imagina-
ção; poucas preocupações na vida me pertur-
bariam sequer o sono, e salvo quando o deseja-
va, sempre me senti contrariado ao despertar.
Sonho raramente; quando sonho é com coisas
fantásticas e quiméricas, produzidas em geral
por pensamentos prazenteiros, antes ridículos
do que tristes. Acho que nossos sonhos são a
expressão fiel de nosso estado de espírito, mas
é preciso certo talento para apreender tais rela-
ções: “Não é surpreendente, com efeito, que os
homens encontrem no sonho o que os preo-
cupa na vida que meditam, vêem e fazem
acordados? 88,” Platão vai mais longe e diz
que é prudente tirar dos sonhos indicações
acerca do futuro; nada vejo em apoio dessa
tese, senão os maravilhosos exemplos que nos
dão Sócrates, Xenofonte, Aristóteles, cuja
“autoridade é indiscutível. Os historiadores afir-
mam que os atlantes não sonhavam nem co-
miam carne; associo essas coisas porque na
segunda está possivelmente a causa da primei-
ra. Não recomendava Pitágoras uma alimenta-
ção especial a quem quisesse ter sonhos de
acordo com seus desejos? Os que tenho são
bons e não me excitam. Tampouco sonho em
voz alta. Conheci muitas pessoas que se ener-
vavam demasiadamente. Téon, o filósofo, an-
dava em sonho, e o criado'de Péricles passeava
dormindo pelos telhados.
A mesa não tenho preferências. Pego o pri-
meiro prato ao alcance da mão, e dificilmente
passo de um a outro. A multidão de pratos e
serviços desagrada-me. Contento-me com re-
duzido número de petiscos e não compartilho
a opinião de Favorino, o qual recomenda que
nos festins retirem os pratos antes que o convi-
va acabe de comer e os substituam per outros.
387 Juvenal.
368 Cícero.
ENSAIOS — II 497
Acrescenta que pobre é o banquete em que os
convidados não se saciem de coxas de diversas
aves e considera que somente a toutinegra deve
ser comida inteira. Como em casa muita carne
salgada e por isso me apraz o pão sem sal, de
modo que meu padeiro não me fornece outro,
contrariamente aos costumes da região. Quan-
do criança tiveram principalmente de me corri-
gir da recusa em comer o que em geral apetece
aos meninos: doces, geléias, biscoitos. Meu
preceptor combateu essa minha tendência
como se se tratasse de uma espécie de requinte
absurdo; e na realidade isso revelava um gosto
dificilmente satisfeito. Quem ensina uma crian-
ça a não apreciar exageradamente o pão tri-
gueiro, o toucinho ou o alho, combate também
uma tendência para a gulodice. Há quem se
mostre reticente diante de uma perdiz, lamen-
tando a falta de carne de vaca e presunto; isso
é mais do que um requinte, é a prova de um
gosto que já não encontra satisfação a não ser
nas coisas vulgares, “é o luxo querendo fugir
ao tédio da riqueza? 8º”. Deixar de comer o
que outros acham bom, cuidar meticulosa-
mente da refeição, “não saber contentar-se
com um pouco de legumes no jantar? 7º”. eis a
essência desse vício. Há por certo uma dife-
rença no caso citado, pois é melhor evidente-
mente ter predileção pelas coisas fáceis; mas é
sempre prejudicial ter manias, quaisquer que
sejam. Delicado era sem dúvida um parente
meu que, em consequência do serviço prestado
durante longos anos na marinha, perdera o há-
bito de dormir na cama e de desvestir-se para
deitar.
Se tivesse filhos homens desejar-lhes-ia a
minha sorte. O excelente pai que Deus me deu
e por quem nada pude fazer senão lhe dedicar
toda a minha gratidão pela sua bondade,
enviou-me, recém-nascido, para uma pobre al-
deia onde fiquei durante a primeira infância,
acostumando-me 'à existência mais humilde:
“É um grande passo para a liberdade saber
disciplinar o estômago3”1.” Não vos encarre-
gueis nunca — e menos ainda vossas mulheres
— da educação de vossos filhos. Deixai que se
eduquem ao acaso segundo as leis da natureza;
e se habituem à frugalidade e à austeridade;
que se surpreendam antes com a atenuação de
Suas privações do que com seu agravamento.
Outra era a intenção de meu pai: pensava em
me aproximar do povo, dos homens que preci-
sam de nosso auxílio; queria que eu fosse leva-
do a olhar para o lado dos que nos estendem
os braços mais do que para os que nos viram
369 Sêneca.
370 Horácio.
371 Sêneca.
as costas. Por essa mesma razão quis que pes-
soas humildes me conduzissem à pia batismal,
pois assim eu lhes ficaria devendo obrigações e
a elas me afeiçoaria.
Sua intenção deu certo. Ocupo-me com pra-
zer dos pequenos, tanto por considerar que há
nisso algum mérito como por sentimento natu-
ral de compaixão, virtude que tem sobre mim
grande influência. O partido que combato
nesta guerra civil, muito mais sinceramente o
criticara se fosse florescente e próspero. Ao
contrário, mostrar-me-ia mais generoso se o
visse infeliz e esmagado. Admiro o caráter de
Quelônis, essa filha e mulher de reis de Espar-
ta. Quando, nas desordens verificadas na cida-
de, Cleômbroto, seu marido, venceu Leônidas,
seu pai, ela acompanhou o vencido ao exílio,
abraçando a causa do mais fraco. Quando a
sorte mudou ela também mudou de partido e
corajosamente tomou o do marido, dedican-
do-se sempre desse modo a quem mais preci-
sava dela. Eu seria antes levado a imitar o
exemplo de Flamínio, que se devotava aos que
necessitavam de seu auxílio do que o de Pirro
que se humilhava diante dos grandes e se mos-
trava orgulhoso com os pequenos.
Aborrece-me demorar à mesa e isso me faz
mal, pois vou comendo enquanto não me
levanto, talvez por força do hábito, porque em
criança era o único meio de me obrigarem a
comer. Eis por que em minha casa, embora
ninguém se demore demasiado, sento-me um
pouco depois dos outros, como fazia Augusto,
mas não o imito no sair antes da mesa. Ao
contrário, aprecio um ligeiro descanso, ouvin-
do a conversa, conquanto nela não tome parte.
Falar de estômago cheio cansa-me,: como gri-
tar e discutir antes da refeição constituem um
bom exercício para mim.
Os gregos e os romanos andavam certos,
dedicando as refeições, ato essencial de vida,
várias horas e a maior parte da noite. Não
havia ocupação que mais os divertisse. Co-
miam e bebiam mais tranquilamente do que
nós que tudo fazemos às pressas, e entre-
meavam esse prazer com conversações úteis e
agradáveis.
Os que cuidam de mim à mesa podem sem
esforço deixar de me servir o que julguem
prejudicial à minha saúde, porque não peço
senão o que vejo. Por outro lado perdem seu
tempo aconselhando-me a não comer o que es-
teja à minha frente. Por isso, quando devo
jejuar, como em mesa separada, pois de outro
modo esqueço minha resolução. Quando peço
que se mude o tempero de algum prato logo
sabem os meus que estou sem apetite. Quando
possível, quero que as carnes sejam pouco
cozidas e descansadas, inclusive, em certos
498
casos, já com um odor alterado. Só não supor-
to que sejam duras; quanto ao restô, sou indi-
ferente à maneira por que são preparadas. Dai
ocorrer-me, ao contrário dos outros, achar não
raro o peixe fresco e consistente demais. E não
é porque tenha maus dentes; sempre foram
muito bons e só agora a idade começa a amea-
çá-los. Desde criança habituei-me a esfregá-los
com um guardanapo pela manhã e no começo
e no fim das refeições.
Deus dã essa mercê dos dentes se estraga-
rem com a idade aqueles que ele afasta aos
poucos da vida; é a única vantagem da velhice,
pois então a morte já não mata senão metade
do homem. Um de meus dentes acaba de cair,
sem dor, sem esforço; chegou ao fim de sua
vida. Essa parte de meu ser — e outras mais
— estão mortas. Outras — e das mais ativas
na mocidade — começam a morrer. Assim me
dissolvo e vou-mé subtraindo a mim mesmo.
Não seria tolo sentir a dor dessa lenta deca-
dência como se viesse repentinamente? Espero
que tal não me aconteça. Em verdade, conso-
la-me bastante pensar que minha morte será
justa e natural, e espero que o destino não me
enganará! Os homens são levados a imaginar
que outrora sua vida era mais longa e sua esta- .
tura maior; enganam-se porém, porque Sólon,
que pertence à antiguidade, fixa em setenta
anos o extremo limite da existência. Eu que
tanto admirei a “excelente mediocridade” dos
tempos idos, e que vislumbrei na justa medida
e na boa média a perfeição, poderei aspirar a
uma velhice prolongada e excepcional? Tudo
que contraria a ordem natural das coisas pode
ser nocivo e tudo que obedece a suas leis deve
ser útil: “E bom tudo o que se faz naturalmen-
te3 72? Por isso Platão considera morte vio-
lenta toda aquela decorrente de ferimentos ou
enfermidades, e natural a morte a que nos con-
duz a velhice da maneira mais suave e por
assim dizer deleitosa. “Morrem os moços de
morte violenta e os velhos de amadurecimen-
to? 73,” Em tudo e por toda parte a morte mis-
tura-se à vida; o declínio lembra a hora fatal e
acentua-se na medida em que o fim se aproxi-
ma. Possuo retratos com as idades de vinte e
vnco e trinta e cinco anos. Ocorre-me compa-
rá-los aos de hoje; por certo não mostram a
mesma pessoa, minha fisionomia atual difere
muito mais das precedentes do que da que terei
ao morrer. É abusar demasiado da natureza
atormentá-la de antemão com cuidados que a
obriguem a abandonar-nos; cansa-se de ver-
nos entregar a direção de nós mesmos, de nos-
sos olhos, nossos dentes, nossas pernas € o
372 Cicero.
373 Td.
MONTAIGNE :
resto a estranhos, confiando-nos inteiramente
à arte.
Não sou grande amador de saladas e frutas,
salvo melões. Meu pai não apreciava nenhum
molho; eu gosto de todos. Comer demais inco-
moda-me, mas não pude ainda verificar com
exatidão se algum prato me é prejudicial,
como não constatei tampouco se a lua cheia
ou minguante, o outono ou a primavera,
influem em mim. Os rabanetes, por exemplo,
durante muito tempo não me foram nocivos,
mais tarde fizeram-me mal e agora não mais
me perturbam. A muitos respeitos sinto que
meu estômago se está modificando; do vinho
branco passei ao clarete e eis-me voltando ao
branco.
Adoro o peixe e os dias de magro são para
mim dias de regalo, como os de festa me pare-
cem de jejum. Creio (há quem o diga) que se
digere mais facilmente do que a carne. E assim
como evito comer came nos dias em que o
peixe é obrigatório, evito misturar carnê com
peixe nos demais dias, pois acho que há entre
ambos uma diferença excessiva.
Na minha mocidade aconteceu-me suprimir
um refeição para ter melhor apetite no dia
seguinte e assim aumentar o meu prazer com a
abundância, agindo desse modo ao contrário
de Epicuro, que jejuava para se acostumar a
prescindir dessa volúpia. Mas eu também, por
vezes, deixava de comer para me conservar
bem disposto em vista de algum trabalho do
corpo ou do espírito, os quais: se tornam incri-
veimente preguiçosos quando me alimento
bem. Demais, detesto esse casamento da alegre
deusa? 7 * com o deusinho da gula, indigesto,
arrotador e recendendo a licores. Igualmente
abstive-me de comer, não raro, por andar com
estômago cansado ou quando não tinha com-
panhia agradável, pois digo, como esse mesmo
Epicuro, que, mais do que aquilo que se come,
se deve olhar com quem se come. E admiro
Quilon por não ter prometido ir a um banquete
organizado por Periandro antes de saber quais
eram os convivas. Não há para mim tempero
ou molho que valham uma boa companhia.
Acho que é mais saudável comer devagar,
pouco e amiudadamente; gosto entretanto de
satisfazer meu apetite e nenhum prazer experi-
mentaria em seguir os preceitos médicos de
três ou quatro refeições mesquinhas. Sei lá se o
apetite da manhã durará até a noite? Aprovei-
temos a oportunidade, principalmente nós os
velhos, e deixemos aos fazedores de almana-
ques as esperanças e os prognósticos. O fruto
essencial da saúde está nos prazeres que nos
1
374 Vênus.
ENSAIOS — HI 499
oferece; fiquemos pois com o primeiro que
surja e que nos seja conhecido. Evito ater-me
demasiado longamente à mesma dieta; para
“que nos seja benéfica não a devemos seguir
indefinidamente, sem o que nos calejamos, o
organismo perde algo de sua atividade, habi-
tua-se à rotina, nossas forças definham e não
mais poderemos mudar sem inconvenientes.
Tanto no inverno como no verão uso
simplesmente meias de seda. Por causa dos
resfriados, consenti em cobrir a cabeça e, em
razão das dores, a manter o ventre bem agasa-
lhado. Em poucos dias essas indisposições se
acostumaram, desdenhando minhas precau-
ções. Tinha passado do boné ao: gorro e deste
a um chapéu forrado; hoje as peles de meu
gibão servem apenas de enfeite e tudo isso não
adianta se não acrescento um colete de lebre e
um barrete. Nesse pé onde iremos parar? Nada
mais farei e desistiria do que já fiz se me atre-
vesse. Assim ocorre com quem se enterra em
dietas e regimes especiais a que obedecem
supersticiosamente. Sempre mais e mais ainda:
é um nunca acabar.
Em relação às ocupações e aos prazeres,
melhor seria não almoçar como os antigos, e
fazer uma refeição copiosa na hora do repou-
so, ao fim do dia. É o que fazia outrora. Do
ponto de vista da saúde, ensinou-me a expe-
riência que, ao contrário, devemos conservar o
almoço, pois a digestão é melhor quando esta-
mos acordados. Não sinto muita sede nem
mesmo quando enfermo; neste caso tenho a
boca seca, mas não é de sede, e em geral só
bebo comendo, e só sinto vontade de líquido
quase ao fim da refeição. Bebo copiosamente
para alguém que nada tem de particular; no
verão, no decurso de uma refeição apetitosa,
ultrapasso a medida de Augusto, o qual só
bebia três vezes, a fim de não parar em quatro,
número que Demócrito considerava azarado.
Eu vou até cinco, se preciso, o que corres-
ponde a pouco mais de meio litro, pois uso
copos pequenos que esvazio de uma vez, coisa
que os outros não fazem por não julgar de boa
educação. Corto o vinho com água, metade ou
um terço, e, seguindo um conselho dado a meu
pai, a mistura é feita na copa três ou quatro
horas antes de ser servida. Dizem que esse cos-
tume de misturar a água ao vinho remonta a
Cranau, rei de Atenas; quanto às vantagens
são discutíveis. Acho mais conveniente e sau-
dável para as crianças, só lhes servir vinho
após os dezesseis ou dezoito anos; antes, deve-
riam beber unicamente água. O modo de vida
preferível é o mais comum; toda singularidade
deve ser evitada e parece-me tão errado um
alemão que mistura água ao vinho como um
francês que o bebe puro. O uso é lei nessas
coisas.
Sou avesso ao ar carregado e detesto a
fumaça; a primeira reforma que me apressei
em executar foi a das lareiras e privadas que
deixam muito a desejar nas antigas constru-
ções; e entre as incomodidades da guerra figu-
ram essas espessas nuvens de poeira dentro
das quais, nos dias de calor, somos obrigados
a permanecer. Respiro com desenvoltura e as
mais das vezes, quando pego algum resfriado,
meus pulmões não são atingidos nem tenho
tosse.
O rigor do verão é-me mais insuportável que
o do inverno, pois além do calor contra o qual
nos defendemos menos bem do que contra o
frio, e além dos raios de sol sobre a cabeça,
meus olhos sofrem com a luz; atualmente já
não posso sequer comer diante de um fogo da
lareira.
Quando há mais do que hoje, a fim de amor-
tecer a brancura do papel, cobria o livro com
um pedaço de vidro. Até agora não uso óculos
e vejo muito bem; é certo entretanto que, ao
fim do dia, já sinto, ao ler, alguma perturbação
e cansaço; mas o trabalho, principalmente à
noite, sempre me cansou a vista. É um passo
atrás. Outro logo darei, e mais outro, e outro, €
assim estarei cego antes de sentir a fraqueza da
vista, tal o cuidado com que as Parcas desfiam
a trama de nossa vida. Quando começar a pen-
sar que me vai endurecendo o ouvido, estarei
meio surdo e atribuirei a culpa de não ouvir a
quem me fale. Muito há que fustigar a alma
para que sinta como se esvai aos poucos.
Tenho o andar vivo e firme e não sei o que
sou mais capaz de sustar em um dado ponto,
se o corpo ou o espírito. Muito meu amigo terá
de ser o predicador, para que eu o escute
durante o tempo todo de seu sermão. Nas ceri-
mônias em que cumpre manter certa compos-
tura e as próprias senhoras evitam olhar ao
sabor de sua fantasia, nunca pude conseguir
que alguma coisa em mim não destoasse;
ainda que sentado não fico calmo. A criada de
Crisipo dizia que o filósofo bebia com pessoas
que eram sujeitas à ação do vinho e que
somente ele nada sentia; e que suas pernas se
embriagavam porque as mexia sem cessar, em
qualquer posição que estivessem. De mim tam-.
bém diziam na infância, que tinha mercúrio
nos pés, a tal ponto sou impelido a mexer-me e
agitar-me onde quer que me encontre.
Como com voracidade, o que não é decente
e prejudica a saúde e até o prazer. Na pressa
chego a morder a língua e por vezes os dedos.
Diógenes, vendo uma criança que comia desse
modo, deu um tabefe no preceptor. Havia em
500 MONTAIGNE |
Roma quem ensinasse a mastigar como há
quem nos habitue a andar com graça. Por isso
não me sobra muito tempo para falar, o que
constitui um dos maiores prazeres da mesa,
sempre que se trate de assuntos agradáveis e
curtos.
Nossos deleites invejam-se mutuamente e
lutam entre si, chocam-se e se contrariam
reciprocamente. Alcibíades, que entendia de
comer, bania a própria música das refeições, a
fim de que: não perturbasse a doçura das
conversações, acrescentando (segundo Platão)
que “convidar músicos e cantores para seus
festins era costume de gente vulgar, que não
sabe entreter-se de maneira útil e agradável”.
Varro julga que para um bom banquete é pre-
ciso gente gentil, nem muda nem por demais
falante, comida delicada, serviço conveniente e
bom tempo. Não era outrora festa de pouca
“arte e volúpia um festim, e nunca a desde-
nharam os grandes filósofos e os grandes capi-
tães. Conservo a lembrança de três refeições
desse genero que me foram muitíssimo agradá-
veis; doravante essas festas não estão mais ao
meu alcance, dado o meu estado de saúde. Eu
que nunca alço vôo, detesto essa sabedoria
antinatural que procura fazer com que despre-
zemos o corpo; é tão absurdo repelir os praze-
res que a natureza nos oferece como se apegar
demasiado a eles. Xerxes, que podia ter todas
as volúpias, foi bem néscio em prómeter uma
recompensa a quem descobrisse um novo pra-
zer; não o é menos porém quem se priva dos
prazeres da natureza. Não devemos correr-lhes
atrás, nem tampouco fugir-lhes; precisamos
aceitâ-los. Prezo-os mais agora do que no ano
passado e deixo-me seduzir de bom grado.
Não há como exagerar sua inanidade, já que
esta se faz sentir suficientemente graças a
nosso espírito mesquinho, o qual nos induz a
aborrecê-los, e a si mesmo, pois trata tudo o
que acolhe ora de um jeito, .ora de outro,
segundo sua versatilidade: “Em um vasilhame
impuro tudo se corrompe? 7 5.” Aplicando-me
a analisar de perto as vantagens especificas da
vida, não encontro nelas senão vento. Como se
- espantar? Haverá em nós outra coisa? Entre-
tanto, mais sábio do que nós, o vento com-
praz-se em se agitar e mover, contentando-se
com seu próprio ofício, sem desejar a estabili-
dade e a solidez que não são qualidades suas.
Dizem alguns que os prazeres e dissabores
da imaginação são os maiores, como o assina-
lava a balança de Critolau. Não é de estra-
nhar: nosso espírito forma-os ao sabor de sua
fantasia; sei de exemplos insignes e desejáveis.
375 Horácio.
Mas eu, homem de gosto pouco requintado,
não posso ventilar tão singelo tema sem deixar
de inclinar-me fortemente para os prazeres pre-
sentes da lei humana e geral, intelectualmente
sensíveis e sensivelmente intelectuais. Querem
os filósofos cirenaicos que, assim como as
dores, os prazeres físicos sejam os mais pode-
rosos, e mais justos. Há pessoas de uma estupi-
dez feroz, diz Aristóteles, que deles se afastam;
e eu conheço algumas que o fazem por ambi-
ção. Por que não renunciam também a respi-
rar? Por que não recusam a luz, que é gratuita
e não lhes custa invenção ou esforço? Por que
não trocam Vênus, Ceres e Baco por Marte,
Palas e Mercúrio? Andarão à descoberta da
quadratura do círculo, de cima de suas mulhe-
res? Não gosto que nos recomendem elevar-
mos o espírito às nuvens quando estamos à
mesa; não quero que o espírito chafurde no
prazer, mas que participe dele; que não durma
a mesa, mas sente-se. Aristipo cuidava do
corpo, como se não tivéssemos alma; Zenão só
considerava a alma, como se nãc tivéssemos
corpo. Ambos erravam. A filosofia de Pitágo-
ras era, dizem, toda contemplativa; a de Sócra-
tes tinha unicamente por objeto os costumes e
os atos; e Platão situa-se entre os dois. A medi-
da exata foi-nos dada por Sócrates; Platão
inclina-se mais para ele do que para Pitágoras. :
Quando danço, danço; quando durmo, durmo;
e mesmo quando passeio por um belo bosque,
se porventura meus pensamentos se dirigem
para coisas estranhas, forço-os a voltarem-se
para o bosque, a solidão.
A boa mãe natureza fez que os atos que
somos instigados a praticar, para satisfazer às
nossas necessidades, nos dessem igualmente
prazer. Incita-nos não somente pela razão mas
ainda pelo desejo, e é um erro ir de encontro a
suas regras. Quando vejo César e Alexandre
em seus momentos mais árduos gozar tão ple-
namente os prazeres humanos e físicos, não
considero que sua alma se haja amolecido;
acho que a fortaleciam subordinando suas
ocupações e seus laboriosos pensamentos às
práticas da vida cotidiana. E sábios terão sido
se a estas encararam como normais em sua
existência, e àquelas como excepcionais.
Somos insensatos. Dizemos: “Passou a vida
na ociosidade”, ou “nada fiz hoje”. Não vives-
tes então? Pois essa é a ocupação mais funda-
mental e ilustre. “Se ao menos”, direis
“houvesse dirigido grandes empresas, teria
mostrado minha capacidade.” Não soubestes
então dirigir a vossa vida? Tereis nesse caso
cumprido a mais bela das tarefas. Para se
manifestar e frutificar, a natureza não precisa
da fortuna; sua ação se exerce em todas as
condições sociais: às ocultas como a desco-
ENSAIOS — HI 501
berto. Se soubestes controlar vossos costumes,
fizestes muito mais do que quem escreveu
livros; sabendo como e quando vos repousar-
des, agistes mais sabiamente do que se houvés-
seis conquistado cidades e impérios.
A mais admirável obra-prima do homem
consiste em viver com acerto. Em outras pala-
vras, a fazer cada coisa em seu devido tempo.
Tudo mais — reinar, juntar, edificar — não
passa de acessório, de minúcia. Admira-me ver
um general, às vésperas do assalto, libertar-se
de quaisquer preocupações e conversar com
seus amigos; ver Bruto, com céus e terra cons-
pirando contra ele e a liberdade romana, sone-
gar algumas horas da noite aos cuidados que
tem para com seus homens a fim de, tranqúila-
mente, ler e anotar Políbio. Só as almas sem
envergadura, esmagadas pelos negócios, não
sabem libertar-se, esquecê-los e voltar a eles
quando necessário: “Bravos companheiros que
tantas vezes partilhastes comigo os mais duros
momentos, afoguemos hoje nossas preocupa-
ções em vinho; amanhã voltaremos a percorrer
os vastos mares? 7 8.”
Por mofa ou a sério, o vinho teológico e
sorbônico? 7? tornou-se proverbial; e assim
também os festins da universidade. Pois acho
razoável que comam confortável é agradavel-
mente os que empregaram a manhã nas ativi-
dades da escola. A consciência de ter gasto
honestamente o resto de seu tempo constitui
um justo e saboroso condimento aos que pas-
sam à mesa. Assim viviam os sábios. E essa
inimitável e continua propensão para a virtu-
de, que nos impressiona nos dois Catões, esse
humor severo a ponto de se tornar importuno,
sem dificuldade se submeteram às leis que
regem a natureza humana, às de Vênus e Baco
como às outras, e eles de bom grado as obser-
varam, obedecendo aos preceitos de sua seita,
a qual determinava que para ser perfeito devia
o sábio ser perito no desempenho dos prazeres
naturais: “Que tenha o paladar delicado tanto
quanto o juízo? 78.” A distração e o amor à
vida honram, a meu ver, uma alma forte e
generosa. Epaminondas não pensava que dan-
çar e cantar, e participar das festas da cidade
fossem atos indignos de suas vitórias. Entre
muitos traços admiráveis da vida do primeiro
Cipião, tão notável que diziam descender dos
deuses, nenhum lhe dá maior encanto do que o
de passear à beira-mar em companhia de
Lélio, brincando, colhendo conchas, apos-
tando corridas; e, quando fazia mau tempo,
escrevendo comédias em que esboçava os cos-
376 Td.
377 Da Sorbona — universitário.
378 Cícero.
tumes das classes mais baixas. E quando
arquitetava seus planos de guerra contra Ant-
bal, não deixava de visitar as escolas da Sicília
assistindo às aulas dos filósofos, a ponto de
despertar a inveja de seus adversários em
Roma. Haverá coisa mais extraordinária em
Sócrates do que aprender a dançar e a tocar
depois de velho? Pois esse mesmo homem foi
visto passar um dia inteiro de pé, em êxtase,
diante do exército grego, mergulhado em pro-
funda meditação, o que não o impediu de ser o
primeiro a precipitar-se ao socorro de Alcibia-
des, rodeado de inimigos, cobrindo-o com seu
corpo e libertando-o pelas armas. Em outra
batalha salvou Xenofonte que caíra do cavalo.
E foi também o único em Atenas, indignada
como ele ante tão odioso espetáculo, a tentar
arrancar Terâmenes das mãos dos trinta tira-
nos que o haviam condenado à morte, só
renunciando, com os dois companheiros que
afinal arranjara, a instâncias da própria víti-
ma. Solicitado por uma beldade de quem se
enamorara e que por ele igualmente se apaixo-
nara, atém-se à mais estrita abstinência. Amiú-
de, na guerra, marcha descalço, mesmo sobre
o gelo, usa uma só roupa no inverno como no
verão e supera a todos pela paciência com que
suporta as fadigas. Quando assiste a um ban-
quete, come como de costume. Durante vinte e
sete anos, sem que seu rosto revele a menor
emoção, enfrenta a fome, a pobreza, a indisci-
plina dos filhos, as violências da mulher, e
finalmente a calúnia, a tirania, a prisão, os fer-
ros € o veneno. E no entanto se, por um dever
de cortesia, precisava erguer um copo, era no
exército quem melhor bebia; não se recusava a
brincar com as crianças e o fazia de bom
humor, porque, como diz a filosofia, tudo
assenta ao sábio. Tais fatos abundam na vida
de Sócrates; e nunca podemos deixar de apre-
sentar esse personagem como modelo de toda
perfeição. Poucos exemplos há de uma vida
- tão plena e tão pura, e é um erro em nossa edu-
cação oferecer-nos outros exemplos frágeis e
defeituosos, recomendáveis apenas de um só
ponto de vista e mais suscetíveis de nos fazer
retroceder do que avançar. Engana-se O povo:
em verdade é mais fácil, para atingir um obje-
tivo sem se perder, contorná-lo com habilidade
do que enfrentá-lo sem rodeios; mas é também
menos honroso e digno de admiração.
A grandeza de alma consiste menos em se
elevar e avançar do que em se ordenar e se
circunscrever. Grande é tudo o que é sufi-
ciente; e há mais elevação em amar as coisas
comuns do que as eminentes. Nada é tão legi-
timo e belo como desempenhar o papel de
homem em todos os seus aspectos. Não há
502
ciência mais árdua do que a de saber viver
naturalmente; e a mais terrível das moléstias é
o desprezo pela vida.
Quem quiser isolar a alma, faça-o se o
puder, quando o corpo se achar enfermo, a fim
de evitar o contágio. Fora disso, ao contrário,
que ela o assista sempre e não lhe recuse tomar
parte nos prazeres naturais; contribuindo além
disso Com sua moderação para evitar o abuso
que acarreta o desprazer. A intemperança é a
peste da volúpia; a temperança é o condi-
mento. Eudóxio, que considerava a volúpia um
bem soberano, e seus companheiros que tanto
a valorizavam, saborearam-na em toda a sua
doçura, graças à temperança que, neles, sem-
pre foi exemplar.
Ordeno à minha alma que olhe com os mes-
mos olhos a dor e o prazer: “A dilatação da
alma no prazer não é menos anormal do que
sua contração na dor? 7º.? Ordeno-lhe que os
encare com igual firmeza; jovialmente aquela,
severamente este, e que procure acalmar a pri-
meira com o mesmo cuidado com que deve
procurar não exacerbar o outro. Uma aprecia-
ção sadia dos bens acarreta um julgamento
sadio dos males. Assim como a dor tem algo
inevitável em seu início, o prazer tem algo evi-
tável. Platão coloca-os em pé de igualdade e
quer que seja tarefa da firmeza de ânimo com-
bater os excessos de ambos. São duas fontes;
feliz quem sabe dessedentar-se numa e noutra
segundo suas necessidades. Tome-se a dor
como um remédio, quando imprescindível, e o
menos possível; tome-se o prazer quando se
tem sede, mas sem se embriagar. A dor, o pra-
zer, o amor, O Ódio são os primeiros senti-
mentos da criança; na sua subordinação à
razão, mais tarde, encontra-se a virtude.
Tenho um vocabulário meu: digo que
“passo o tempo” quando o tempo é mau e
incômodo; mas quando é bom não quero
“passar”, quero saboreá-lo e parar. Cumpre
correr quando é mau € andar devagar em caso
contrário. Estas expressões comuns
“passatempo” e “passar o tempo” espelham
bem a maneira de viver dessa gente prudente
que imagina não haver melhor emprego para a
vida. Deixam-na passar, esquivam-se, igno-
ram-na como se fosse coisa nociva e desprezi-.
vel. Eu porém penso de outro modo, acho-a
agradável e valiosa mesmo em seus últimos
momentos. A natureza no-la deu em condições
tão favoráveis que somente por nossa culpa
pode tornar-se pesada e inútil: “A vida do
insensato é desagradável, inquieta; pois só tem
por objetivo o futuro? 8º.” Preparo-me, contu-
379 Cícero
380 Sêneca.
MONTAIGNE
do, para perdê-la sem queixas, porque isso está
na ordem das coisas e não porque ela me seja
penosa e importuna; aliás, quem se compraz
na vida não teme deixá-la. Há que gozar a
existência e eu a gozo duplamente, porquanto
o gozo se mede pela atenção que lhe dedica-
mos. Sobretudo neste momento em que perce-
bo que a minha toca de tão perto o fim, quero
sublinhar quanto a aprecio, sustar a rapidez de
sua fuga com minha presteza em detê-la, e
compensar, quanto possível, a transitoriedade
pela intensidade. Na medida em que diminui o
tempo de que ainda disponho, aplico-me em
fazer que a posse seja mais profunda e
completa.
Sentem outros a doçura da satisfação e da
prosperidade; sinto-a também, mas não de pas-
sagem e sem me apegar a ela. Cabe estudá-la,
saboreá-la, ruminá-la para melhor devolver
aquele que no-la outorga a graça que lhe deve-
mos. Gozamos os prazeres como gozamos o
sono, sem sentir. Pois, para melhor apreciar
esse prazer do sono, lembrei-me outrora de
mandar que me acordassem. Analiso meus
prazeres; não me mantenho à superfície; apro-
fundo-me e obrigo minha razão a prestar-lhes
atenção quando principiam a entediar-me. Se
me encontro em um momento de calma, ou
experimento alguma sensação agradável, não
deixo que os sentidos os esbanjem, faço inter-
vir o espírito para que os sinta igualmente,
para que deles tenha consciência. Quero que se
mire nesse estado e participe da euforia do
corpo. Quero que pondere quanto deve a Deus
por se achar com a consciência repousada e
livre de paixões e por ter um corpo em condi-
ções normais, gozando ordenada e competen-
temente as funções doces e agradáveis que
Deus houve por bem atribuir-lhe para compen-
sar as dores que sua justiça também lhe dá.
Examina minha alma o valor de se achar insta-
lada de tal maneira que, de onde quer que diri-
ja a vista, depara com um céu sereno que ne-
nhum desejo; temor ou dúvida perturba; e
sempre pode sua imaginação representar-se,
sem sofrimento, qualquer dificuldade passada,
presente ou futura. Vejo que isso é do maior
alcance, quando o comparo com casos diferen-
tes e quando encaro, sob mil aspectos, o desti-
no das pessoas cujos erros as expõem ao furor
da tempestade e também as que, mais próxi-
mas de mim, consideram sem entusiasmo e
negligentemente a sua sorte. São gente que
realmente “passa o tempo”; não vê senão além
do presente e do que possui; vive de esperan-
ças, de sombras, de miragens; “como esses
fantasmas que se vêem rodar em volta dos tú-
mulos após a morte, ou esses sonhos que ilu-
ENSAIOS — TI 503
dem os nossos sentidos entorpecidos38'*, e
fogem de quem os persegue. O fim é o resul-
tado que essas pessoas têm em mira consistem
em apenas prosseguir, assim como Alexandre
só trabalhava por trabalhar, “achando nada
ter feito quando sobrava alguma coisa por
fazerê 82",
Amo pois a vida e a cultivo tal qual Deus
outorgou. Não gostaria que carecesse de
necessidade de beber e comer, nem me agrada-
ria que essa necessidade fosse maior do que é:
“Busca o sábio com ansiedade as riquezas
naturais? 8º,” Tampouco lamento que não nos:
alimentemos com aquela droga graças à qual
Epaminondas se privava de apetite e que lhe
bastava para viver; nem que os filhos não nas-
çam das unhas ou dos calcanhares, ainda que
com tais soluções não fosse menor a volúpia
da fecundação; nem que nosso corpo não seja
sem desejos e insensível as carícias; queixar-
me seria mostrar-me ingrato e injusto. Aceito
de bom grado e com reconhecimento o que a
natureza fez por mim. Declaro-me satisfeito e
congratulo-me com ela. Ofendemos essa gran-
de e poderosa doadora, recusando-lhe os dons,
anulando-os ou os deformando. De sua parte
tudo é bom, o que faz é bem feito: “Tudo o que
se ajusta à natureza é digno de apreço? * *.”
Entre as opiniões da filosofia prefiro as mais
sólidas, isto é, as mais humanas, as mais nos-
sas. Raciocinando como vivo, com humildade,
sem elevação de idéias, acho infantil de sua
parte pregar-nos solenemente as vantagens de
unir o divino ao humano, a razão à loucura, a
severidade à indulgência, a honestidade à
desonestidade. São coisas monstruosas.
Acho-a ridícula quando afirma que a volúpia é
brutal e indigna do sábio; que o único prazer
que se deve usufruir de uma bela e jovem espo-
sa é o de cumprir um ato natural, como o de
calçar as botas para uma longa cavalgada.
Talvez abandonassem os filósofos tais idéias
se os seus direitos de desvirginar suas mulheres
se reduzissem aos termos de seus ensinamen-
tos!
Sócrates, mestre desses sábios e nosso, não
diz o mesmo. Aceita, como deve, o prazer fisi-
co; mas prefere o do espírito, que julga mais
rico, forte, variado e digno. Este último porém
não deve isolar-se — Sócrates não é um
sonhador — mas tão-somente controlar o
outro; deve atentar para a moderação e não se
apresentar como adversário. A natureza é um
guia amável, mas no qual a prudência e a justi-
381 Virgílio.
382 Tucano.
383 Sêneca.
384 Cícero.
ça superam a doçura: “É preciso penetrar a
natureza das coisas e ver exatamente o que ela
exige38 5.” Ando continuamente à sua procura,
mas a pista perde-se por vezes em meio às
intervenções da arte, eis por que o soberano
bem, acadêmico e peripatético, “de viver
segundo a natureza” é dificil de se delimitar e
aplicar. O mesmo acontece com o que propug-
nam os estóicos: “consentir no que ela pede”
Não será um erro considerar certos atos desai-
rosos só porque são necessários? Por isso
acredito que a aliança do prazer com a neces-
sidade, que os deuses procuram sempre impor,
é uma união de grande conveniência. Por que
desmembrar e divorciar tais elementos de uma
associação tão fraternal? Apertemos ao con-
trário o laço que os prende e façamos com que
se prestem mutuamente serviço. Que o espírito
desperte e vivifique o corpo tão pesado em si e
que este modere a leveza daquele e o torne
estável: “Quem quer que exalte a alma como
soberano bem e condene a came como coisa
má, abraça e adora a alma com os sentidos; a
seus sentidos também se atribuirá o sentimento
que o induz a fugir da carne, e que nasce do
fato de raciocinarmos sob o império da vaida-
de humana e não em obediência à verdade
divina? 8 8.”
No presente que Deus nos oferece não há
nada indigno de nosso cuidado; de tudo tere-
mos de prestar contas em todas as suas minú-
cias. O criador, ao dar ao homem a missão de
se conduzir por si, fê-lo de um modo expresso,
severo e franco. Como as palavras alheias têm
mais peso do que as que dizemos, insistamos
nesse ponto com a opinião de Sêneca: “Não é
tolice fazer com negligência e de mau humor o
que se tem obrigação de fazer? Empurrar o
corpo para um lado e a alma para o outro, é
dividir-se em prol de dois movimentos contrá-
rios.”
Se quiserdes algum dia examinar os pensa-
mentos e argumentos que tem na cabeça quem
rechaça a idéia de uma boa refeição e lamenta
o tempo perdido em comer, vereis que entre
todos os pratos de vossa mesa nenhum haverá
tão insípido quanto o estado em que desse
modo entretém a alma (as mais das vezes me-
lhor fora que dormissemos, dadas as causas
que nos mantêm acordados) e achareis que
suas razões não valem vosso ensopado. E o
próprio êxtase em que caía Arquimedes, que
importância tinha na realidade? Não viso aqui
(não as confundindo com a turba de fedelhos
que somos, nem lhes atribuindo os desejos e os
pensamentos em que se compraz nossa vaida-
385 Td.
386 Santo Agostinho.
504
de) a essas almas veneráveis que o ardor reli-
gioso e a devoção induzem a uma constante e
conscienciosa meditação acerca das coisas
divinas, e que, inteiramente amarradas pelo
esforço que lhes inspira a esperança viva e pro-
funda de conquistar a felicidade eterna — fim
último para o qual tendem as aspirações cris-
tas, único prazer continuo e incorruptível —
desdenham dar atenção a essas necessidades
que são também satisfações, mas passageiras e
ambíguas, e renunciam tão facilmente a preo-
cupar-se com o corpo, recusando-lhe o uso
- daquilo" que, nesta vida, é apanágio dos senti-
dos. Trata-se nesse caso de um ideal. Geral-
mente tenho visto marcharem de comum acor-
do as idéias elevadíssimas e os costumes mais
condenáveis.
Esse: grande homem que foi Esopo, ao ver
seu amo urinar andando, exclamou: “Teremos
também que esvaziar o ventre correndo?”
Com efeito, por melhor que empreguemos o
tempo, sempre nos sobrará algum para a ocio-
sidade e ós erros; nosso espírito encontrará, se
quiser, horas bastantes para executar suas
tarefas sem se dissociar do corpo no curto es-
paço de tempo que este exige. As pessoas obce-
cadas por essa idéia de separar o corpo do
espírito, de se tornarem diferentes e de deixar
de ser homens não passam de loucos; não se
transformam em anjos .e sim em feras; em
lugar de se elevarem, abaixam-se. Esses humo-
res transcendentes apavoram-me, como os si-
tios excessivamente altos e inacessíveis, e nada
me parece tão difícil de admitir na vida de Só-
crates quanto seus êxtases e aquele gênio fami-
liar a que atribuía sua inspiração. Quanto a
Platão, as qualidades em virtude das quais o
apelidaram divino são exatamente, a meu ver,
o que tem de mais humano. E entre as ciências,
as que pretendem tratar das coisas mais eleva-
das são as que mais perto da terra se acham e
as de menor importância. Não acho tampouco
nada-na vida de Alexandre, mais chão, e sinal
MONTAIGNE
Pao
evidente de que é um mortal, quanto sua“qui-
mérica pretensão à imortalidade. Isso, de resto,
acarretou-lhe uma espirituosa observação de
Filotas. Quando Alexandre lhe escreveu que o
oráculo de Júpiter Amon o colocara entre os
deuses, Filotas redarguiu: “Folgo em sabê-lo,
por causa: da consideração que terás; mas
como são dignos de piedade os homens obriga-
dos a viver com uma pessoa que os sobreex-
cede a tal ponto, que despreza a condição
humana, e a quem devem obediência! “É por-
que te submetes aos deuses, que comandas os
homens? 8 7.”
A graciosa inscrição com que os atenienses
homenagearam Pompeu concorda com minha
maneira de pensar: “És tanto mais divino
quanto reconheces que és apenas um
homem? 88.”
Saber lealmente gozar do próprio ser, eis a
perfeição absoluta e divina. Nós só desejamos
condições diferentes das nossas porque não
sabemos tirar partido daquelas em qué nos
achamos. Saímos de nós mesmos porque igno-
“ramos o que nos compete fazer. Embora use-
“mos pernas de pau, temos de mexer as do
corpo para andar, e é com o traseiro que nos
sentamos no mais alto trono do mundo. As
mais belas vidas são, penso, as que se adaptam
ao modelo geral da existência humana, as mais
bem ordenadas e de que se excluem o milagre e
a extravagância. Quanto à velhice, cumpre tra-
tá-la com alguma ternura; eis por que termino
recomendando a minha a esse deus protetor da
saúde e da sabedoria, da sabedoria jovial e
sociável: “Peço-te, filho de Latôna, que me
deixes gozar o fruto de meus trabalhos, dan-
do-me uma saúde constante e perfeita, livran-
do-me da senectude, surda aos doces cantos
das Musas? 8º.”
387 Horácio.
388 Plutarco.
389 Horácio.